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Autor Tópico: Imo  (Lida 1057 vezes)
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Tim_booth
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Imo
« em: Janeiro 05, 2009, 00:30:10 »

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    Dentro de um corpo

    Pôr as mãos dentro de um corpo
    seria invadir um calor sagrado

    Porque um corpo
    é como um astro implícito,
    frágil, cuja órbita intersecta a pureza,
    descaindo de sombra em sombra
    até à memória tangível
    em que aparece

    Um corpo desenhado a giz,
    arrancado ao ar, agora táctil, vivo,
    furtando-se ao precipício frio
    que ameaça os flancos do espaço,
    dançando nas muralhas da noite

    Corpo que não se deve possuir,
    mas escutar, escutar

    Deve haver música no interior de um corpo
    - Vasco Gato, Imo



Queria, nesta análise, romper com a tradição de intitular as críticas com o nome dos livros de onde originam. Apetecia-me chamar a esta pequena resenha algo como “Tão íntimo como o esqueletoâ€, “A profundidade corporal de um Gato†ou “Pureza carnalâ€. Não o farei agora, não desta vez, porque Vasco Gato conseguiu captar numa palavra apenas tudo aquilo que eu diria com muitas mais - sou um ser palavroso, é um defeito meu.

Imo, do Grande Dicionário da Língua Portuguesa (2002), “adj. [q]ue está no lugar mais fundo ou profundo. || S. m. O âmago; o íntimo†é a palavra perfeita para este livro. Consequentemente para esta recensão também. Vasco Gato explora o profundo do ser humano, não da tradicional visão romântica (bem, na verdade um pouco também) mas de um ponto de vista quase anatómico. É a dissecação do corpo como maneira de chegar não só ao interior do homem, “dura um homem que diz baixinho / assim quase para fora // A ferida por baixo da cicatriz / - quem cura?†(pág. 29), como das coisas, “E há sempre vozes no interior das paredes, / subindo das fundações, / inchando toda a casa†(pág.  20), como até do próprio poema, “Levas a agulha à pele virgem e escreves / - inicias o segredo†(pág. 33).

Algo que surpreende pela positiva na poesia de Vasco Gato é o bom domínio da riqueza lexical da língua portuguesa. Atente-se logo no título, imo, representativo do tipo de lexemas que podem ser encontrados. Os dois maiores defeitos normalmente apontados aos autores jovens, Gato nasceu em 1978, são evitados. Diz-se da nova poesia que ou é pobre em diversidade lexical, ou é barroca, arcaica, em tudo o que de pejorativo estes termos podem conter. Em Imo encontramos um suave equilíbrio entre o brio de um jogo semântico que usufrui de um vasto património lexical e a simplicidade de um discurso claro, tanto quanto um discurso poético pode ser.

O que incomoda neste Imo é que Vasco Gato não se coibiu de ir também ao imo do comum dos assuntos líricos, não que o amor tenha algo de comum. Não será fácil, obviamente, falar de íntimo sem se falar do mais íntimo dos sentimentos, ninguém poderá dizer o contrário. O que acontece é que Gato parecia ir nesse caminho até certo ponto no livro, até que decide tomar o atalho mais usado do que a estrada. Talvez não seja correcto criticar Vasco Gato por escolher esse atalho, como autor ele tem todo o direito de escolher os atalhos que quiser, mas enquanto leitor crítico reservo também o direito de lhe recusar o prémio de bravura. E recuso. Os poemas de amor, embora em número relativamente reduzido, dão um travo de adolescência a este livro que de outra maneira poderia ser algo mais. Gato não se conseguiu livrar do estigma que é tantas vezes colado imediatamente aos novos autores, o de uma poesia adolescente, inconsequente, até aborrecida. Toda a gente sabe que no mundo das pessoas crescidas não há amor, isso é coisa de teenager.

Vasco Gato é, sem qualquer dúvida, um autor a ter em conta. E as boas notícias são para os leitores, porque apesar de toda a sua qualidade, há ainda espaço para crescer. Sabe-se lá se este gato não chega a leão*.

*Mil desculpas pela chalaça previsível e foleira - resisti durante todo o texto, não aguentei mais.

Originalmente aqui.
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Bruno Sousa Villar
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« Responder #1 em: Janeiro 05, 2009, 00:59:33 »

Isto sim é crítica literária, que não padece do mal endémico da sobranceria autista dos grémios intelectuais do "paísinho".
Em poucas linhas, resumiste o sumo do livro, ou se quisermos, o seu imo.
Parabéns, Tim, por tão lúcida análise.

Linkei o teu blogue livros (s)em critério no meu humílimo nómada onírico.
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« Responder #2 em: Janeiro 05, 2009, 08:30:20 »

"Toda a gente sabe que no mundo das pessoas crescidas não há amor, isso é coisa de teenager."
Não será por isso que os poemas de amor do autor "cheiram" a adolescência. Será porque é jovem e precisa de aprender mais alguma coisa da vida e das escritas, sobretudo das escritas. E, claro, não concordo com essa afirmação.
Mais uma excelente crítica!
Bj
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Tim_booth
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« Responder #3 em: Janeiro 06, 2009, 01:46:28 »

Dite, Vasco Gato é realmente um autor a descobrir. Imo é muito bom.

Bruno, obrigado pelo link, já adicionei o teu aos meus feeds (ao blog ainda não, aquilo está um pouco caótico, vou fazer uma limpeza assim que tiver tempo).

Goreti, acho que interpretaste mal as minhas palavras. Quando escrevi que "[t]oda a gente sabe que no mundo das pessoas crescidas não há amor, isso é coisa de teenager" estava a ilustrar o estigma, não a fazer uma afirmação. O estigma é precisamente esse, de que quando um autor jovem tem um poema mais frágil (não o serão todos os poemas de amor? - do ponto de vista literário, claro está) que tem o profundo dos sentimentos como fundo, o pensamento é exactamente de que é jovem, a escrita não demonstra maturidade para falar do tema dos temas. O que as pessoas geralmente se esquecem é de que todos os poemas de amor são ridículos, frágeis, humanos. O erro de Gato foi expor dessa forma a sua poesia - nos poemas de amor todos os defeitos são mais claros para os críticos. Não quis dizer que os poemas de amor deram o travo adolescente, apenas o evidenciaram. Adolescente ou não, admito, o adjectivo é provocatório, o livro é muito bom e Vasco Gato um excelente poeta.

Cheers
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« Responder #4 em: Janeiro 07, 2009, 18:36:53 »

Então, dane-se o estigma! Nem o amor é coisa de adolescente nem os poemas de amor são ridículos. Acontece é que há pouco Amor no mundo, isso sim! E havendo pouco, não há "treino" suficiente para se escrever sobre ele como mereceria. Ame-se mais e escrever-se-á melhor.
Abraço
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damasco
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« Responder #5 em: Janeiro 09, 2009, 01:10:22 »

Só para me meter, digo: a paixão é coisa de teenager e amor coisa de crescido. O que não quer dizer que um crescido não se apaixone, mas mais dificilmente um teenager amará. Por outro lado, se calhar também não há assim tantos crescidos quantos os contados pelos censos. Enfim, isto não interessa para nada. Interessa é a análise do Tim, com a qualidade habitual. Não esquecerei Vasco Gato como referência, embora confesse que a palavra Imo me faz comichão.
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« Responder #6 em: Janeiro 10, 2009, 19:55:39 »

Tens absoluta razão!
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« Responder #7 em: Janeiro 12, 2009, 04:56:15 »

Obrigado pelo elogio da crítica LFP, se já passaste os olhos diz de tua justiça.

Damasco, se faz comichão coça. Mas não deixes passar o Gato, o rapaz é bom.

Goreti, apoiado a comichão do imo ou a quantidade de teens de quarenta anos por aí?

Cheers
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« Responder #8 em: Janeiro 12, 2009, 12:45:21 »

O que importa é a tua crítica! O resto é paisagem!
Bj
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