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Autor Tópico: Canção 5 de Luís de Camóes  (Lida 128 vezes)
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gdec2001
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« em: Outubro 02, 2009, 22:35:30 »

                 Canção 5


  
JUNTO DE UM SÊCO, fero e estéril monte,
Inútil e despido, calvo, informe,
Da Natureza em tudo aborrecido;
Onde nem ave voa ou fera dorme,
Nem rio claro corre ou ferve fonte,
Nem verde ramo faz doce ruído;
Cujo nome, do vulgo introduzido,
É Feliz, por antífrase infelice;
O qual a Natureza
Situou junto à parte
Onde um braço do mar alto reparte
Abássia da arábica aspereza,
Onde fundada já foi Berenice,
Ficando à parte donde
O Sol, que nela ferve, se lhe esconde;

Nêle aparece o cabo com que a costa
Africana, que vem do Austro correndo,
Limite faz. Arômata chamado;
Arômata, outro tempo, que, volvendo
Os céus, a ruda língua mal composta
Dos próprios outro nome lhe tem dado;
Aqui, no mar, que quer apressurado
Entrar pela garganta dêste braço,
Me trouxe um tempo e teve
Minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
Parte do Mundo, quis que a vida breve
Também de si deixasse um breve espaço,
Por que ficasse a vida
Pelo Mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
Tristes, forçados, maus e solitários,
Trabalhosos, de dor e de ira cheios;
Não tendo tão-somente por contrários
A vida, o sol ardente e as águas frias,
Os ares grossos, férvidos e feios,
Mas os meus pensamentos, que são meios
Pera enganar a própria Natureza,
Também vi contra mi[m],
Trazendo-me à memória
Algüa já passado e breve glória
Que eu já no Mundo vi, quando vivi,
Por me dobrar dos males a aspereza,
Por me mostrar que havia
No Mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu. com êstes pensamentos
Gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
Me subiam nas asas, que caía
(E vêde se seria leve o salto!),
De sonhados e vãos contentamentos,
Em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
Num súbito chorar e nuns suspiros
Que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
Chagada tôda, estava em carne viva,
De dores rodeada e de pesares,
Desamparada e descoberta aos tiros
Da soberba Fortuna,
Soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
Nem esperança algúa onde a cabeça
Um pouco reclinasse, por descanso.
Tudo dor lhe era e causa que padeça,
Mas que pereça não, por que passasse
O que quis o Destino nunca manso.
Oh! que êste irado mar, gritando, amanso!
Estes ventos, da voz importunados,
Parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
As Estrêlas e o Fado sempre fero,
Com meu perpétuo dano se recreiam,
Mostrando-se potentes e indignados
Contra um corpo terreno,
Bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
Saber inda por certo que algúa hora
Lembrava a uns claros olhos que já vi;
E se esta triste voz, rompendo fora,
As orelhas angélicas tocasse
Daquela em cuja vista já vivi;
A qual, tornada um pouco sôbre si ,
Revolvendo na mente pressurosa
Os tempos já passados
De meus doces errores,
De meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
Tornada (inda que tarde) piedosa,
Um pouco lhe pesasse
E consigo por dura se julgasse;
Isto. só que soubesse, me seria
Descanso pera a vida que me fica;
Com isto afagaria o sofrimento.
Ah, Senhora! Senhora! E que tão rica
Estais, que, cá tão longe, de alegria
Me sustentais com doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
Foge todo o trabalho e tôda a pena.
Só com vossas lembranças,
Me acho seguro e forte
Contra o rosto feroz da fera Morte,
E logo se me ajuntam as esperanças
Com que a fronte, tornada mais serena,
Torna os tormentos graves
Em saüdades brandas e suaves.

Aqui com elas fico perguntando  
Aos ventos amorosos, que respiram
Da parte donde estais, por vós, Senhora;
Às aves que ali voam, se vos viram,
Que fazíeis, que estáveis praticando,
Onde, como, com quem, que dia e que hora?
 Ali a vida cansada se melhora,
Toma espíritos novos, com que vença
A Fortuna e Trabalho,
Só por tornar a ver-vos,
Só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo que a tudo dará talho;
Mas o Desejo ardente, que detença
Nunca sofreu, sem tento
Me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi[m] vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, como não mouro,
Podes-lhe responder que porque mouro.

Luis Vaz de Camões
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Geraldes de Carvalho
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« Responder #1 em: Outubro 03, 2009, 08:30:44 »

Obrigada pela partilha.
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Goretidias

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« Responder #2 em: Outubro 12, 2009, 23:51:15 »

Caro Geraldes,

Camões, é o eterno génio que se expõe, naturalmente, a quem o lê.

Grato por tudo.



Abraço
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gdec2001
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« Responder #3 em: Janeiro 21, 2010, 00:52:29 »

Se expõe e se nos impõe, caro Neno
abraço
Geraldes de Carvalho
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