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Autor Tópico: MARGARIDA  (Lida 572 vezes)
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Tom
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Quanto menos penso mais existo


« em: Novembro 17, 2009, 15:36:08 »

Margarida

A minha rua era animada pelos pregões das varinas, das lavadeiras, vendedores ambulantes etc, que lhe conferiam um colorido sonoro inesquecível. Entre todos, destaco o produzido pela gaita de beiços do amolador de tesouras e afiador de facas com a sua carripana oficina, cuja mó fazia rodar com um pedal, projectando mil faúlhas incandescentes no granito da calçada.
 O grito estridente da corneta de latão, ajudava á festa, anunciando a chegada do azeiteiro, que também vendia petróleo e álcool desnaturado.
 A mula que puxava a carroça era o alvo das minhas atenções. De cada lado do focinho pendiam dois enfeites coloridos, ladeados de inúmeras sinetas que tilintavam a cada movimento. O Sr José depois de me aviar os quinze tostões de petróleo vindos duma das torneiras bem amarelas e brilhantes que ladeavam a carroça, galhofava com os clientes que se amontoavam, dizendo;†Aqui não se aceitam reclamações, o primeiro a ser aviado é aqui o Toninho do 107, porque não tem “apontes†no livro..... e é um apreciador da minha categorizada Margaridaâ€..... A Margarida , claro, era o nome que o Sr José dava á mula, para se vingar da indiferença, com que a criada do meu vizinho da casa mais abaixo, essa sim de nome Margarida, o brindava em resposta aos seus piropos e avanços. E como prémio, lá ía eu no banco do condutor descendo a rua, algumas dezenas de metros, segurando as rédeas, na ilusão de conduzir a carroça pelo irregular piso de paralelipípedos de granito, num trajecto muitas vezes assinalado a amarelo pelos excrementos da “Margaridaâ€. Depois, subia a correr de excitação os quatro pisos da nossa casa e gritava ofegante para a minha mãe: “Mãezinha …Mãezinha a Margarida hoje encheu a rua de “croquetes de cavaloâ€. Era uma gargalhada geral e motivo de conversa entre as costureiras, que sentadas naquelas cadeiras baixinhas, envoltas nos tecidos dos clientes com a agulha e o “didalâ€, bailando entre os dedos ao som da canção da Beatriz Costa, quebravam assim a monotonia de mais um dia de trabalho.

Excerto da minha autobiografia "Portista,portuense"
Tom
« Última modificação: Fevereiro 13, 2010, 23:46:18 por Tom » Registado
Alice Santos
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« Responder #1 em: Novembro 17, 2009, 17:37:13 »

Estou a ver que o menino Toninho era fresco... ainda bem. É assim que deve ser uma criança. É pena hoje as nossas crianças não conseguirem arranjar espaço para tanta diabrura.
Obrigada por nos brindar com mais este belo texto. Fico a aguardar por mais.
Abraço,
Alice Santos
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goretidias
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« Responder #2 em: Novembro 17, 2009, 18:12:20 »

Sabes, a tua autobiografia ainda vai tornar-se livro!
Eu que em criança apenas ouvia esse som tão característico do amolador de tesouras, ouvi-o este ano de novo numa rua do Porto. De repente, veio a saudade dessa casa que deixei há meses. Quem sabe ele se faça ouvir por aqui também. Que esta rua merece mais do que a outra!!! rs...rs...
Beijo
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Goretidias

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josé antonio
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« Responder #3 em: Novembro 17, 2009, 18:55:59 »

Olá Tom,

Esta juventude não teve o prazer do saboroso da infância...
A Alzira que teve o filho no banco traseiro do carro do vizinho a caminho do hospital sem ajuda, o Meno que desencaminhava os colegas da primária para faltarem à escola e jogarem futebol com os pais à sua procura para lhes darem o prémio duma boa porrada, os dois irmãos que faziam recados aos vizinhos a troco dumas moeditas para comprarem "morcelas" chouriças de sangue na linguagem burguesa, os campeonatos de carica no passeio junto à passagem do carro eléctrico sujeitos a desastres dignos dos acidentes na fórmula um, um fartote, amigo, não esquecendo o jogo do pica que quando apanhava pedra na vez da terra mole saltava à cabeça do parceiro e o obrigava a desistir com a mão a suster o sangue até chegar a casa.
Enfim...
Abraço
JA
PS - Por coincidência pura, sempre fui tratado de Toninho até ter alguma barba na cara, muito pouca, evidentemente.
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Tom
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« Responder #4 em: Novembro 17, 2009, 22:37:44 »

Alice
É verdade o que diz. Naquela época, em que a vida não era fácil e os brinquedos poucos, eramos bem mais felizes, apesar de alguma violência que reinava nas escolas de então.
Obrigado pela leitura e apreciação.
Abraço
Tom

Goreti
Os sons e os cheiros das recordações da nossa infância, com os quais deparamos a cada passo, fazem-nos reviver por instantes os verdes anos.
A tua nova rua, realmente merece um amolador  com a sua gaita de beiços....provávelmente chinesa.....rs
Bj
Tom

J. António
É verdade tudo isso. As caricas que chamavamos sameiras devido ás garrafas de água do Sameiro, os piões com a pica, os berlindes e os jogos de bola nas ruas com as fugas aos "cucos" que não perdoavam.... enfim. Um quadro colorido da nossa infância, nem que a coloração fosse com o sangue duma cabeça rachada por alguma pedrada, de qualquer contenda de putos
Obrigado por ler
Abraço
Tom
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Alice Santos
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« Responder #5 em: Novembro 17, 2009, 22:45:59 »

Quem me explica o que é a "fuga aos cucos"?
 Subi às árvores, joguei pião, caricas, berlindes mas... cucos??? Havia muitos a cantar na terra dos meus pais.
alice
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Tom
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« Responder #6 em: Novembro 17, 2009, 23:40:32 »

Alice
Cucos, monos, bóias, bófias, cabeças de giz, eram os nomes que davamos aos polícias. Cabeças de giz estava mais indicado para os sinaleiros, devido ao chapéu branco, do tipo colonial.
Abraço
Tom
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« Responder #7 em: Novembro 17, 2009, 23:45:05 »

Tom,
obrigada pelo esclarecimento. Depois de fazer a pergunta fiquei a pensar e achei que devia ser isso mas... a pergunta já estava feita e resolvi esperar a confirmação.
Fico a aguardar novos de senvolvimentos.
Alice
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Mel de Carvalho
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« Responder #8 em: Novembro 18, 2009, 15:56:46 »

Tom,
que guardemos a memória das coisas como coisas de memória valorada.
Vivazes, sempre. Porque delas, caríssimo Tom, como tão bem retrata, se faz a nossa história pessoal. Partilhada aqui.

Bem-haja
Fraterno abraço
Mel
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goretidias
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« Responder #9 em: Novembro 18, 2009, 17:19:47 »

Pouco me rala que a gaita seja chinesa, desde que o tocador amole bem as facas e as tesouras...
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Tom
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« Responder #10 em: Novembro 20, 2009, 15:17:35 »

Goreti

Eu digo chinesa porque depois de ter tocado a primeira vez deixou de se ouvir....rs
Quanto ao amolador de tesouras..... esquece. Não vai aparecer! A concorrência dos nossos governantes ao "amolarem-nos" a cabeça
é feroz. Por falar nisso, sugiro que mandes as tesouras velhas para a "sucata". Eles pagam bem.....

Bj
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« Responder #11 em: Novembro 20, 2009, 15:31:08 »

Deixou de se ouvir porque eu saí dessa rua! Mas vou seguir o conselho e comprar novas.
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« Responder #12 em: Novembro 20, 2009, 16:53:33 »


Mais um quadro vivo de tempos, não muito recuados, que já lá vão. Para quem viveu nesses tempos, tão rapidamente ultrapassados, mas nunca esquecidos, há uma densidade de memória tal que nos faz sentir "desterrados", como se tivéssemos perdido grande parte de nós, das coisas e das pessoas, que fazem parte da nossa história. É ao ler um texto assim que reavivo uma memória aparentemente adormecida que dá matéria para pensar nos processos de transformação das pessoas e dos mundos...
Abraço
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Carlos Ricardo Soares
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« Responder #13 em: Novembro 23, 2009, 00:24:06 »

Mel

É como diz. Um guardar da mémória não só das coisas como também daquilo que fomos e que não mais voltaremos a ser.
Obrigado por ler
Abraço
Tom

Carlos
A ideia é reavivar a memória. Um encontro com  o passado.
Obrigado pela leitura
Abraço
Tom
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« Responder #14 em: Dezembro 10, 2009, 13:15:15 »

Tom,

que texto agradável de se ler. Também vivi a experiência de um amolador de facas. Um, inclusive, transitava pelas elegantes ruas de Icaraí, bairro nobre de Niterói, num contraste entre o luxo daquelas vitrines e o rústico de sua "bicicleta-oficina". Ele tocava músicas com os metais na pedra de amolar. Era fantástico.

Gostei muito do que li e gostaria de continuar a ler o texto integral. É possível adquiri-lo aqui no Brasil? Ou está disponível em meio eletrônico?

Um grande abraço e parabéns.
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Oswaldo Eurico Rodrigues


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