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Autor Tópico: Sílvio Santana - I  (Lida 498 vezes)
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marcopintoc
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« em: Janeiro 10, 2010, 02:02:08 »

Apocalíptico, abro a porta. Se pudesses ver meus olhos, são como o olhar de um general enraivecido com o botão que aciona a arma nuclear sobre seu dedo. Escutas os meus passos percorrerem o átrio do sítio onde moras estupidamente só.
De seguida vem o silêncio. Escutas a escuridão, procuras o interruptor enganado na crença que a luz deterá meus intentos perante a tua figura, meu desejo ser retalhador das partes mais dolorosas do teu corpo. No absoluto recato nada escutas senão o baixíssimo silvar da lâmina longa que manipulo lentamente, que dilacera o ar num zuno que antecipa o tormento que te aguarda.
Levo o dedo aos lábios secos da sede da tua agonia. Digo, sussurro:
-Chiu!
 O tremor, sentes? O martelar do teu coração convoca os medos mais antigos. Não arderás na luz que vem breve e quente, serás minha vítima, meu repasto de sangue e gritos loucos da dor que não irá partir. Serás nada, fragmento, cinza entre cinzas, uma referência infinitesimal na minha capacidade de ser misericordioso.
Sinto-o também, o frenesim. É sinuoso, matreiro como o olhar da pantera negra a rasgar toda a treva, é feito de mal e anfetaminas. Atrás desta porta alargo as narinas e deixo entrar  a fragrância do teu suor, o pavor no  teu hálito prestes a terminar, o fedor quente da urina que inunda as tuas partes baixas. Sim, gosto disso.

Por detrás desta porta que sei que não está trancada, escuto a queda uma peça de mobiliário, o atarantado dos teus passos a tentarem ser, inutilmente, silêncio. Paras, ofegas, talvez já te recordes dos primeiros dias da tua inocência. É justo, a tua viagem rápida perante as recordações de uma vida que em breve partirá. É justo, respeito as tuas confissões aos deuses e as desculpas aos antepassados pela insignificância que pautou a tua passagem por este mundo. Não tens saída possível deste sítio que nunca devias ter procurado, esqueceste-te que o recato por vezes é o mais perigoso dos inimigos, e sabe-lo agora. Eu sei-o também. Aumento o movimento circunvagante da cunha de ferro aguçado. Espero, apenas uns momentos, antes da chacina, antes de, sem motivo e sem razão, alguém que em nunca reparaste irrompa pelo teu lar e reclame a teu derradeiro sopro.

Selecionei-te na rua, o teu passo sempre com pressa de ir para casa, as receitas de comprimidos que aviavas com excessiva ânsia na farmácia. As compras parcas no supermercado da esquina escreviam a prova evidente da tua solidão. Vi-te várias vezes a caminhar para a paragem de um autocarro com rota para os lados mais envelhecidos dos subúrbios. Esperei, um dia de cada vez, junto a todas as paragens da tua carreira, nem sequer me viste quando saíste no teu passito apressado e rodaste sem precaver a presença de estranhos a chave solitária de uma casa pequena e velha. Suponho que tenhas herdado a casa de uns parentes, que seja uma herança da família defunta que em breve re-encontrarás.

Preparo-me para a investida, sinto-te, no meio da sala pronto para a confrontação. A bílis que transborda no amargar do teu palato, sabes que a única forma de sobrevivência possível é seres mais duro, matar e não perecer. Irás dar-me a honra de uma boa luta de morte?

E se fossem iguais todas as loucuras dos homens neste momento, muito provavelmente, iniciaria a gargalhada ou o grito demente, chamaria o teu nome para o rol dos mortos mas tal facto desconheço. Não mereces tal contentamento ou comoção. Para mim és apenas o homem de passo lento que escolhi estraçalhar com absoluta crueldade. Aleatório, apocalíptico, este método de causar a execução do meu querer tão doente, o teu adeus será dito agora.

Distingo a tua mobília barata e cheia de pó dos anos sós antes de encarar a tua patética resistência. Os punhos cerrados de um perdedor atingem o ar quando, um perfeito movimento de flanco, o gume cava o socalco que se abre até meio da tua rótula. O teu esgar de dor é aumentado pela retirada rápida do ferro da chaga aberta. Gritas para ninguém que ainda esteja vivo te escutar. Apenas os abutres e as criaturas que se alimentam das coisas finadas terão, porventura, percebido o teu apelo.
A palidez anuncia o teu percalço. Tombas, desabas como um castelo das cartas de amor que nunca deves ter escrito. Este corpo em colapso a meus pés exige que estanque a hemorragia para que possa prolongar o festim que o demónio que vive junto à fronte esquerda exige. Demandas insistentes e dolorosas que só o calor do ferro em brasa e a perícia no corte das cartilagens poderão atenuar.
Enquanto manejo com habilidade o garrote e vasculho os bolsos em busca de uma mordaça o rastejador e abominável ser que vive aqui em cima, aqui do lado esquerdo, diz que, afinal, tem pressa. Obediente decapito e parto.

Em passos silenciosos regresso ao recato do lar, tomo a medicação e digo ao Satanás que habita a minha caixa craniana que esta noite já está tudo bem. Que o Sílvio Santana foi obediente e que merece dormir quentinho, que está tudo bem, que o mal foi feito.




 
« Última modificação: Janeiro 10, 2010, 02:06:44 por marcopintoc » Registado

Marco Pinto Correia

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goretidias
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« Responder #1 em: Janeiro 10, 2010, 19:14:43 »

Com um diabo desses a morar na caixa craniana de alguém, haja quem consiga dormir.
Intenso e de qualidade!
Beijo
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Goretidias

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Djabal
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« Responder #2 em: Fevereiro 04, 2010, 05:09:47 »

Quando sinto saudades de uma prosa gostosa, visito tua página, escolho aleatoriamente, como Silvio Santana, e a aniquilo assim, lendo. Uma vez, apenas para ouvir a melodia produzida pela singular escolha das suas palavras, o som que percorre a minha caixa craniana, bate em minhas entranhas por caminhos estranhos e agradáveis, encontra ressonâncias esquecidas e prazeres produzidos por esta espécie de nicotina literária. A outra vez, acalmado, para compreender a história, ficar tenso, curioso ou narcotizado por ela. Saudades de Portugal satisfeitas, da sonoridade da língua e do conforto do recanto amigo; deixo meu testemunho, caríssimo. Abraços.
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anamarques
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« Responder #3 em: Fevereiro 04, 2010, 11:54:27 »

Mais um texto de qualidade rara, Marco. Adorei! Um beijo.
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marcopintoc
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« Responder #4 em: Fevereiro 18, 2010, 23:59:20 »

Grato pela leitura e comentário.
No silêncio da noite escutem junto à porta. Talvez ouçam Sílvio Santana ...Chiu !!
Abraço
Marco
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Boa noite a todos
Fevereiro 06, 2012, 20:30:35
Boa noite
Fevereiro 05, 2012, 14:42:23
Boa tarde, Goreti.
Fevereiro 05, 2012, 12:28:43
Excelente domingo para todos!
Fevereiro 01, 2012, 22:11:36
Buenas noches
Fevereiro 01, 2012, 10:07:28
E, a respeito da justiça, o Figas diz que: Realmente, são todos iguais quando são chamados para comparecer perante a para a justiça. A diferença está na vinda! 94%  dos inquiridos acha que a justiça está má! Oh! Que admiração!
FigasAbraço, ao ar livre.
Janeiro 25, 2012, 14:44:56
Boa tarde solarenga para todos!
Janeiro 23, 2012, 18:28:03
Boa noite a todos
Janeiro 22, 2012, 18:24:14
Boa noite para todos
Janeiro 22, 2012, 09:34:10
Hoje ,
 domingo,
Nada faço,
Noutros não me dão canseira,
Vou comendo pastéis de nata,
A pátria me agradece!
FigasRegards
Janeiro 21, 2012, 13:07:54
Hoje, um dia bom
mas o frio calor frena,
que não evita inspiração
para o calor dum poema!
.........ssssss.......
Figas, a fazer prova de vida
Janeiro 18, 2012, 11:17:43
Excelente dia para todos!
Janeiro 15, 2012, 20:38:06
Boa noite a todos
Janeiro 12, 2012, 19:28:27
Boa  noite paraa todos
Janeiro 12, 2012, 12:05:16
Bom dia, quase boa tarde!
Janeiro 10, 2012, 06:29:55
Excelente dia!
Janeiro 09, 2012, 18:24:00
Boa noite a todos
Janeiro 09, 2012, 11:23:42
Excelente semana para todos!
Janeiro 06, 2012, 23:19:00
Para Administração: por lapso coloquei um textò/crónica na secção humor. Agredecia que fosse transferido para  o item crónicas. Obrigado. Boa noite.
Janeiro 05, 2012, 19:55:18
Boa noite a todos
Janeiro 04, 2012, 20:39:49
Obrigado J.A. Bom 2012.
FigasAbraço
Janeiro 04, 2012, 18:03:57
Boa tarde a todos
Janeiro 04, 2012, 16:22:50
Figas, correção efetuada. Abraço.
Janeiro 03, 2012, 21:26:05
Ao cuidado da Administração. No "Ó Gaspar, assim, vai-te lixar" o 25º verso é : "Para pagar o empréstimo da mirra" Obrigado do Figas
Janeiro 03, 2012, 10:37:45
Excelente terça-feira para todos!
Janeiro 02, 2012, 21:58:54
Na questão da produtividade, a igreja também veio à liça, e para aumentar a santidade aumentou meia hora à missa!
Janeiro 02, 2012, 10:29:03
Eu era para desejar Bom 2012, mas, afinal, resolvi esperar até 31 dezembro para ver. Depois conversamos.
Cuidado. Apertem o cinto, porque o voo 2012, na sua rota vai apanhar muitos poços de ar! FigasAbraço,
Janeiro 01, 2012, 16:36:40
Boa tarde para todos
Janeiro 01, 2012, 12:52:49
UM 2012 PLENO DE SAÚDE, PAZ, FELICIDADE, ALEGRIA E SUCESSO, COM EXCELENTE ESCRITA À MISTURA, PARA TODOS MEMBROS E FAMILIARES DO "ESCRITARTES"!
Janeiro 01, 2012, 02:49:48
Feliz Ano Novo!
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