M. Nogueira Borges
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« em: Julho 25, 2010, 21:21:48 » |
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OUTRA CARTA DE LONGE
Não te acredites naqueles que se mostram insensÃveis perante a morte. É impossÃvel que não mintam. Uns, afirmam-se assim para disfarcarem, sob o manto do marialvismo tradicional, o receio que aquela provoca; outros, para ocultarem o temor, arvoram a postura agnóstica( ou ateia) com o fundamento duma ideologia materialista. Quase sempre, quando aquela se anuncia, o arrependimento desfaz os equÃvocos, e os que partem sem tempo para ele têm a certeza de ninguém morrer sem perdão. A morte é o cumprimento da existência, que nem o prenúncio a define na irresponsabilidade de quem a desbarata ou na justeza de quem a cumpre. Dizes-me que a morte é triste. É meu caro. Triste, porque definitiva no abandono da realidade , desta realidade que tanto nos alegra como nos angustia, mas com a qual crescemos e à qual nos apegamos como se fossemos eternos na nossa divindade, mesmo envelhecenco na pele, no olhar, no coração, nos ossos, no sangue – em nós. O que me impresiona na morte é que ela cumpre o que se foi, como se o corpo, irremediavelmente adormecido, acolhesse no seu interior um pretérito recordado em segundos e depois estendido numa memória feita de ecos e de gestos a perpetuarem um vazio magoado. Aliás, parece-me que a morte é isso: memória refugiada na mente (consciência) dos que ficam. Os bons e os maus momentos, os abraços e a repulsa, a comunhão e a discórdia, o amor e o azedume – o filme da vida. O fim fÃsico é o recomeço de outra vida, mesmo que, muitas vezes, seja um alÃvio para quem vai e para quem resta; há sempre uma solidão que nenhuma palavra define e que é como um punho no peito da nossa lembrança, e recomeço nos que sobrevivem para cumprirem ou rectificarem o exemplo e/ou renovarem caminhos ignorados. Quem acredita que para além DISTO , novas flores desabrocham num canteiro sem limites, o fim da carne é, então, a conquista da espiritualidade eterna sem anquiloses terrenas. Mas como é sofrida a busca dessa compreensão! Essa (in)capacidade racional de nos imaginarmos lá , senhores de um cognoscÃvel que nos justifique em outro eu, sereno e feliz, mas, afinal, sempre amputado de algo do que já fomos.... Concordo contigo: é impossÃvel a recuperação da lógica humana na transcendência de uma diferente (in)temporalidade, pois não se compara o desconhecido, e só a fé nos minimiza a ausência desse entendimento. Será a fé, como dizes, a convicção de um existir que se ignora ou uma defesa convicta que nos auxilia na perda? Não sabes responder. Eu também não. Então o mistério da morte é esse conflito de incertezas que pode ocupar um instante ou uma eternidade. É isso: uma eternidade.
M. Nogueira Borges
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