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Autor Tópico: No tempo em que ainda se escrevia à máquina...  (Lida 197 vezes)
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Nanda
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« em: Setembro 02, 2010, 20:46:03 »

A explicanda chegava todos os dias, impreterivelmente, à mesma hora. Metódica, introvertida, detentora de um mundo que não desaba nunca, por força do ar impenetrável e certinho, lavado e engomado e de uma imensa vontade de aprender, aquelas coisas da filosofia…
A professora recebia-a com um enorme e jovial sorriso, próprio de quem iniciara o mundo do ensino e ainda se deslumbrava pelo simples facto de leccionar e poder transmitir um pouco de conhecimento.
    A aluna admirava a explicadora pela sua beleza e pela forma como parecia saber viver com ela, bem como pelo trato fino. A matéria era revista, uma e outra vez, até ter sido completamente absorvida pela explicanda, que, neste caso, rima com Vanda.
    A jovem estava particularmente atenta e contestava as definições que era obrigada a decorar, já que não estando de acordo com aquilo que lhe era imposto como verdadeiro, não lhe seria possível reconstituí-lo por palavras suas. Restava-lhe o “marranço” puro e simples. Decorar aquela matéria, estava na ordem de trabalhos.
    A professora sentiu-lhe alguma agitação e resolveu perguntar-lhe se lhe queria dizer alguma coisa.
    - É que… eu ganhei uma máquina de escrever!
    - Por instantes pensei que fosse outra coisa qualquer, mas sim, é importante, depois vamos falar sobre isso.
    Só para situar a história no tempo, estávamos no ano de 1978. Uma máquina de escrever fazia as delícias de Vanda que a recebera de prenda de anos, da sua madrinha de baptizo. Hoje este instrumento de trabalho passou a peça de museu e arrumado a um canto deu lugar aos computadores que ganham vida, mais do que certos humanos, especialmente, se conectados à internet.
    Posta a matéria em dia, que estas coisas da filosofia não são fáceis, a explicadora, tal como prometera, puxou o assunto: “máquina de escrever”:
    - Quero pedir-te um favor!
    - Diga, professora!                                                                                                           
    - Talvez tu… quem sabe? Só por uma questão de praticares, me pudesses passar à máquina os testes do 12ºB.
    - Claro que sim! Respondeu Vanda.
    Vanda despediu-se levando consigo o rascunho do teste de filosofia do 12ºB, já o  estabelecimento de ensino não vem agora ao caso, isso são meros pormenores e o narrador, considera-os, para já, irrelevantes e dispensáveis.
    Com os exames à porta, a jovem estudava sem interregno, mas ainda assim lá arranjou tempo para dactilografar o teste do 12ºB e entregá-lo à Drª Raquel, nos timings por ela solicitados. 
     Como em tudo na vida, há histórias paralelas. Outros aproveitariam, agora, para dizer que: “nada é por acaso”, mas porque lugares comuns não são o forte do narrador e aqui também não servem para encher chouriços, passa-se a explicar a coincidência das coincidências:
    Paula, aluna do 12ºB, prima do namorado de Vanda, sem poder antever o desfecho desta história, dias antes, em conversa com a sua professora de filosofia e na esperança de lhe ser mais próxima e de a cativar, havendo já concluído, em conversas próprias de raparigas daquela idade, que a sua professora era a explicadora da prima Vanda, resolveu meter conversa com Raquel:
    - A “Stora” sabia que eu sou prima da Vanda que anda na sua explicação?
    - Vê lá tu, “como o mundo é pequeno!”, retorquiu Raquel, algo curiosa. Por acaso vocês até têm a mesma postura, embora, fisicamente, não sejam parecidas.
    Paula apressou-se a colocar os parentescos no seu devido lugar:
   -  Pois a Vanda é caladinha como eu, mas não somos primas de sangue, ela namora com o meu primo Pedro.
    Raquel esboçou um sorriso de condescendência. O que Paula desconhecia é que ela, Stora, licenciada, professora de filosofia, não era muito entendida naquela coisa dos parentescos e afins, enfim, todos temos um “calcanhar de Aquiles”. Ups, afinal, o narrador sempre faz uso de lugares comuns. Também, “ninguém é perfeito”! (e vão… quatro!).
    De primas direitas, Raquel ainda entendia, mas de cunhados /as e outras coisas como comadres e compadres, sentia-se bloqueada com uma espécie de dislexia intelectual, no concernente a questões de plaquetas sanguíneas.
   Dali em diante, Raquel sempre que encontrava Paula, cumprimentava-a e não deixava de lhe perguntar se a prima estava boa, mesmo que tivesse estado com ela também.     
Ter um assunto em comum dá sempre jeito para tema de conversa e às vezes até aos professores de filosofia lhes falta o assunto.
   Vanda era, agora, detentora, de uma bomba prestes a explodir nas suas mãos. Estava num “beco sem saída” (mania do narrador). Paula era boa aluna, mas era a prima do seu namorado Pedro (o narrador também sabe que o nome não vem ao caso) e o facto de poder ser ela a dar-lhe a cópia do teste que a prima ia fazer, contava pontos a seu favor. Por outro lado, a Drª Raquel confiara nela e sentia-se importante por isso e não queria decepcioná-la. Há momentos, em todas as vidas, em que estamos suspensos por um dilema. Este era o momento.   
   Pedro, se para mais nada serve no enredo desta história, pelo menos, é o personagem que serviu de portador do teste andarilho.
    Vanda chegou à explicação com o produto do seu orgulho dentro de uma mica (perdoem-me se por acaso, por um erro cronológico as micas ainda não existiam). Tratou de entregar a Raquel o teste do 12ºB. 
    Raquel agradeceu e tratou de se dirigir à livraria mais perto para mandar tirar as fotocópias necessárias. A funcionária reconheceu o teste e, não se contendo, teceu um comentário do tipo:
    - Curioso, ia jurar que este mesmo teste foi copiado, aqui, por mim, há sensivelmente uma hora atrás…
    Raquel limitou-se a perguntar se fora homem ou mulher quem o viera copiar. A balconista respondeu que tinha sido uma jovem, muito branquinha, com um certo ar angelical.
    A professora sorriu e pediu 28 cópias, tantas quantos os alunos do 12ºB, noves fora Paula.
    Raquel entrou na sala de aula com os testes e começou a distribuí-los e Paula muito aflita pediu licença e pôs-se de pé, com o sangue a querer saltar-lhe das bochechas para fora e com o palato engasgado, meio afónica da força dos nervos, lá conseguiu vociferar:
    - Stora, falto eu!
    Raquel retorquiu:
    - Ia jurar que tu já o tinhas contigo! Mas toma lá o original!
    Paula sentiu a saliva queimar-lhe as entranhas, mas lá se recompões e conseguiu simular-se desentendida, articulando um simples:
   - Obrigada, Stora!                                                                                                               
    Paula baixou a cabeça sobre o teste e Raquel não tirou os olhos de cima dela, como se quisesse estudar a sua reacção face à ansiedade de saber se o teste era o mesmo que Vanda lhe havia facultado, mas a jovem mostrou-se impenetrável, denunciando, apenas, um ar, dir-se-ia quase inocente.
    Saiu vitoriosa do teste, ela sabia-se uma boa aluna, do tipo marrona e intelectual, mas nunca havia saboreado uma tal sensação de certeza absoluta. Vá-se lá saber porquê… Afinal, até o narrador é capaz de adivinhar.
   As aulas em casa da Drª Raquel iam de vento em popa, dir-se-ia, até, mesmo imperturbáveis, Vanda preparava-se para o exame de filosofia e sabia que depois deixava de conviver com a professora, mas restava-lhe o conforto de esta ser sua vizinha, assim, pelo menos, dava para a ir vendo e cumprimentando.
   Vanda evitava olhar a explicadora de frente, constrangimento que não passava despercebida a Raquel.   
O dia do exame de Vanda chegou e embora não lhe tenha corrido mal em nada se comparava ao teste que Paula fizera no 12ºB. O resultado de Paula foi brilhante e a professora Raquel entregou-lho, com a seguinte observação:
    - Há alunos brilhantes, primas brilhantes e Pedros cooperantes…
    Paula corou e mal dando conta já estava no quadro para responder a questões similares às do teste e outras cuja matéria não saíra mas estava indicada para estudo.
     Raquel deu-se por satisfeita e classificou a prestação oral de Paula com um excelente. A aluna limpou o suor em volta do rosto ao mesmo tempo que as cores lhe desapareciam como que por magia negra.
    João que era o cábula número um da turma não se contendo aproveitou para dar o ar da sua pretensa gracinha:
    - Oh Stora, Então a intelectualzinha também copiou?
    Raquel respondeu-lhe mordiscando o lábio superior:
    - Tens máquina de escrever?
    - Não, Stora!
    - Tens algum primo chamado Pedro?
    - Também não, Stora!
    - Então, no teu caso, não vale a pena vires ao quadro. Diz à tua mãe que quando lavar a camisola que trazias vestida no dia do teste, para tirar primeiro das mangas as cábulas que tu lá escondeste, não vá a tinta manchar a camisola. Olha que eu reparei que era de marca!                                                                                                                             
    Para Raquel, enquanto professora de filosofia, a vida é um ensaio permanente. Cada personagem real tem o seu papel no seu aprofundamento do conhecimento humano e se por vezes as pessoas se mostram previsíveis, outras tantas são um universo cerrado e inacessível. Como o narrador é prolixo em imaginação e faz recorrentemente uso de frases feitas, cá vai mais uma que encaixa na perfeição:
    “Cada pessoa é um mundo” e com um empurrãozinho lá conseguiu completar o pensamento com palavras de sua autoria, fracas, mas que lhe fazem sentido, a ele, é claro:
    Uns são previsíveis…outros um quebra cabeças…
    Voltando aos personagens:
    Vanda fez o que qualquer outra pessoa que tivesse um namorado chamado Pedro com uma prima de nome Paula faria;
    Paula aproveitou a chance que a vida lhe deu. Afinal, a vida insistiu com ela.
    Pedro tinha acabado de tirar a carta e aproveitando a rodagem do carro novo disponibilizou-se para transportar o rascunho do teste. Nem ele sabia bem de que era portador…
    Raquel passou a acreditar em coincidências, mas foi só por causa da convicção da balconista da papelaria das fotocópias;
    A balconista nunca mais lhe coube a língua na boca;
    João era o amigo com que qualquer colega gostaria de partilhar a carteira;
    O estabelecimento de ensino era um entre muitos onde este caso insólito podia ter acontecido;
    Esqueceram-se da madrinha, que foi, afinal, a causadora de todo este processo de boas intenções;
    Para “fechar com chave de ouro” (já cá faltava o narrador sempre a fazer das suas…) até se “dão alvíssaras” a quem discernir quem é o protagonista…     
    “Nada mais, nada menos” do que a máquina de escrever.     
   Engana-se quem julga que a história acabou. 30 anos mais tarde, no lançamento de um livro de um dilecto escritor Setubalense, Raquel encontra Vanda e pergunta-lhe:
    - Já agora, diz-me uma coisa… Ainda tens a máquina de escrever?
           



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« Responder #1 em: Setembro 02, 2010, 23:08:31 »

Olá Nanda!

Um pedaço de tempo! Eu, quando tinha uns quinze, dezesseis anos, por aí... lembro-me da máquina de escrever. Nossa! Como a utilizei! Hoje, os jovens acham que é um objeto antiquíssimo! Boa prosa!

Abraços!
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Guita Pimpolho Mc
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Boa vibe Paz e Amor e Sempre na descontra


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« Responder #2 em: Setembro 07, 2010, 00:40:36 »

de tradicionais e manuais passamos a modernos e tecnológicos,viva ao progresso!
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Luís Pimpolho
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« Responder #3 em: Novembro 26, 2010, 17:33:28 »

Gostei da crónica. Hoje recorre-se a outros subterfúgios...
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Goretidias

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Buenas noches
Fevereiro 01, 2012, 10:07:28
E, a respeito da justiça, o Figas diz que: Realmente, são todos iguais quando são chamados para comparecer perante a para a justiça. A diferença está na vinda! 94%  dos inquiridos acha que a justiça está má! Oh! Que admiração!
FigasAbraço, ao ar livre.
Janeiro 25, 2012, 14:44:56
Boa tarde solarenga para todos!
Janeiro 23, 2012, 18:28:03
Boa noite a todos
Janeiro 22, 2012, 18:24:14
Boa noite para todos
Janeiro 22, 2012, 09:34:10
Hoje ,
 domingo,
Nada faço,
Noutros não me dão canseira,
Vou comendo pastéis de nata,
A pátria me agradece!
FigasRegards
Janeiro 21, 2012, 13:07:54
Hoje, um dia bom
mas o frio calor frena,
que não evita inspiração
para o calor dum poema!
.........ssssss.......
Figas, a fazer prova de vida
Janeiro 18, 2012, 11:17:43
Excelente dia para todos!
Janeiro 15, 2012, 20:38:06
Boa noite a todos
Janeiro 12, 2012, 19:28:27
Boa  noite paraa todos
Janeiro 12, 2012, 12:05:16
Bom dia, quase boa tarde!
Janeiro 10, 2012, 06:29:55
Excelente dia!
Janeiro 09, 2012, 18:24:00
Boa noite a todos
Janeiro 09, 2012, 11:23:42
Excelente semana para todos!
Janeiro 06, 2012, 23:19:00
Para Administração: por lapso coloquei um textò/crónica na secção humor. Agredecia que fosse transferido para  o item crónicas. Obrigado. Boa noite.
Janeiro 05, 2012, 19:55:18
Boa noite a todos
Janeiro 04, 2012, 20:39:49
Obrigado J.A. Bom 2012.
FigasAbraço
Janeiro 04, 2012, 18:03:57
Boa tarde a todos
Janeiro 04, 2012, 16:22:50
Figas, correção efetuada. Abraço.
Janeiro 03, 2012, 21:26:05
Ao cuidado da Administração. No "Ó Gaspar, assim, vai-te lixar" o 25º verso é : "Para pagar o empréstimo da mirra" Obrigado do Figas
Janeiro 03, 2012, 10:37:45
Excelente terça-feira para todos!
Janeiro 02, 2012, 21:58:54
Na questão da produtividade, a igreja também veio à liça, e para aumentar a santidade aumentou meia hora à missa!
Janeiro 02, 2012, 10:29:03
Eu era para desejar Bom 2012, mas, afinal, resolvi esperar até 31 dezembro para ver. Depois conversamos.
Cuidado. Apertem o cinto, porque o voo 2012, na sua rota vai apanhar muitos poços de ar! FigasAbraço,
Janeiro 01, 2012, 16:36:40
Boa tarde para todos
Janeiro 01, 2012, 12:52:49
UM 2012 PLENO DE SAÚDE, PAZ, FELICIDADE, ALEGRIA E SUCESSO, COM EXCELENTE ESCRITA À MISTURA, PARA TODOS MEMBROS E FAMILIARES DO "ESCRITARTES"!
Janeiro 01, 2012, 02:49:48
Feliz Ano Novo!
Dezembro 31, 2011, 21:36:10
Um novo ano repleto de felicidade!
Dezembro 31, 2011, 18:54:49
Apenas e tão só, desejar a esta casa, a estes amigos, a todos, enfim, um EXCELENTE 2012. Levo-vos comigo, nesta data de passagem, com a gratidão de quem, sempre que vem, se sente em casa. Um fraterno e ENORME abraço.

Dezembro 31, 2011, 18:53:10
BOM ANO 2012 para todos, com muita Paz, Saúde e Alegria... e VIVA A CULTURA LITERÁRIA NO ESCRITARTES.
Dezembro 31, 2011, 17:54:01
Bom ano 2012 para todos
Logos
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