M. Nogueira Borges
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« em: Setembro 03, 2010, 13:55:42 » |
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GERAÇÃO ESQUECIDA
O mato é verde como a esperança, denso e forte como a paixão, cheira a catinga e a feitiçaria, a queimadas vermelhads na escuridão. O mato é um céu aberto, uma prisão com canos escondidos, o limite de quem não se sente liberto, um poema de gritos e gemidos. O mato é música e sensualidade, negra desnudada num banho de sol, cabelo enrolado como um caracol, a gritar e a correr em liberdade. O mato é o medo que se escapa pelos trilhos, a desconfiança aos camuflados que chegam, a fera com cio vagueando desvairada, suor da arte maconde ainda não prostituída, O mato é o silêncio duma espera a angústia sofredora de quem desespera, tiroteio rasgando em carne viva. O mato é a castanha de cajú, agua do coco e papaias do desejo, caçadas de reis sem roque e sem reino, armas em brasa na guerra sem leis.
E em África jovens se gastaram, em tempo dobrado esperaram, que não fosse preciso matar e morrer para que os homens se entendessem. Choravam pelos filhos que nasciam pelos amigos que morriam, e eles matando e sobrevivendo e eles ferindo-se e morrendo. Tinham na Alemanha próteses à espera, na pele o sol e a chuva, na alma uma fartura de mato, nas mãos o cheiro do capim, nos dedos os calos do gatilho, ns olhos a lonjura da savana, na saudade a viagem do regresso, no coração a surpresa da cilada, nos ouvidos os assobios das balas, em Alcoitão cadeiras de rodas, em Artilharia Um o desalento triste, nos cemitérios valas já prontas, nos pés arrastavam o cansaço, no pensamento silenciavam PORQUÊ? no corpo o desejo de amar da idade, conforme o sorriso dos lábios e a vontade de abraçar a mulher tão longe, tão distante.
Geração esquecida pelo antigo mando, silenciada pelo novo mando, por todos os mandos imprestáveis, por todos os mandos sem orgulho, sem raiva e sem mãos limpas.
Continuaremos a ser a geração Sem diamantes nos dedos e sem presas na arrecadação.
M. Nogueira Borges
Escrito em junho 1978
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