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Notícias: 5.ª Colectânea - 5.º Aniversário Escritartes
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Autor Tópico: A ALBINA E O PRíNCIPE 6  (Lida 71 vezes)
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Vitor da rocha
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« em: Setembro 03, 2010, 17:33:57 »

A mãe puxa-a para uma borda da multidão ainda meio vazia, e contorna as clareiras até chegar mesmo à fronteira do oleado circular que aguarda pelos pés da realeza. O acordeão das vozes do povo estica e encolhe ao sabor da expectativa e do prenúncio da entrada em cena do artista, do príncipe de Leopoldina. E um esticão sonoro, repentino e instantâneo saúda a aparição súbita na porta entreaberta da carruagem do personagem maravilhoso, vestido de roupas que destoam da arraia-miúda, e com a azul e nobre capa nos ombros. Levanta os braços e inclina o tronco até à cintura, num gesto humilde que na realeza só fica bem, e as palmas dos servos prestam-lhe a sua submissão. Leopoldina desfaz-se num riso maravilhado, vede-o, o meu príncipe, o mais belo de todos, Leopoldina está quieta, rapariga, que não me deixas ver nada descansada.
E o príncipe olha para a Leopoldina e em sua honra percorre o tapete de ponta a ponta, em saltos ininterruptos, mãos, pés, mãos, pés, mãos, pés, as costas vergadas em arco, e termina com um salto prò céu, de braços estendidos para a lua, e a cabeça altaneira a olhar sobre as cabeças das gentes e ainda as palmas não se esfumaram e já ele está sobre uma bicicleta manca de uma roda, e sobre ela gira, esbraceja, troca os pés pelas mãos nos pedais, e rodopia como uma piasca lançada pela mão de criança; e a Leopoldina agora em estátua se transformou, estátua de olhos arregalados e boca aberta e as mãos nas faces para esconder o espanto e o amor. Mas já o príncipe, espicaçado e ardido com os aplausos recebidos, trepa com as pernas enganchadas pelo poste acima e no meio dum estrondo de temor das gargantas dos assistentes encavalita-se sobre o testo do poste, ora num pé, ora no outro, os dois braços esticados a bombordo e a estibordo, e a crista levantada de quem sabe fazer algo que os outros não sabem, e logo atiça o temor do povo ao pousar o pé direito na corda e ameaçar torná-la em ponte sobre o empedrado sob as solas dos seus pés. Goza então o sabor do medo nos olhos pregados em si por um longo minuto, e avança então, desmedidamente sem receio, pela corda fora, suspenso da respiração de cada um que observa, os braços a navegar e a cruzar as ondas, de um lado e outro, como remos. Leopoldina não pode mais suportar tanta alegria e orgulho, o peito cheio de vento, medo e espanto, os olhos alargados ao limite, como gema de ovo espalhada na clara, o ar gelado na sua goela entupindo a entrada de nova remessa, e as mãos paralisadas sobre a cabeça. A mãe, ao lado, deslargou a compostura de senhora amarga, de mulher que já viu tudo e nada de novo espera, e deixou-se caçar na mesma como a filha e todo o povo pela magia de gestos que nunca a seus olhos aconteceram, pelo sentir de uma realidade para lá da crueza rotineira dos dias, uma realidade que cada alma sente haver e guarda sob o pedregulho da inconsciência. E o príncipe caminha sobre a corda como os anjos caminham pela estrada celeste, solto do peso, aliviando finalmente o pasmo da população quando pisa o porto seguro do outro poste. Os mais crescidos não se fazem rogados e atiram-lhe ramos de palmas sonoras e entusiásticas, mas os ganapos, mais dados a submergirem no tanque da magia que os adultos, permanecem ainda mais uns instantes presos na corda que balouça, com o cenário das estrelas a encher-lhes os olhos e a imagem do artista ainda a refulgir no vácuo.
Vem agora a condessa que Leopoldina vira no cartaz, nobremente vestida com meias vermelhas, saia folhada de renda da largura das tiras de enfaixar um recém-nascido, saia que acena aos homens, para cima e para baixo, abrindo-lhes o apetite para ceia que não terão, mostrando-lhes a suavidade e perfeição de umas pernas que a labuta na terra matou nas suas patroas, afinando como agulhas à medida que o tornozelo se aproxima e engrossando como bons presuntos de porco junto das nádegas e do tufo de ervas que a cueca branca e estreita esconde. Cueca mais estreita que um lenço dum homem, vejam só!, sem combinações nem calções, nem armaduras intransponíveis e inimigas de afrodite. Enlaçam-se os dois e dançam sobre o tapete, num misto de passos, tangos e acrobacias. Depois, ela trepa-lhe pelos joelhos e encarrapita-se sobre os seus ombros, e os dois trocam os olhos aos assistentes com três, quatro bolas que volteiam no ar, num círculo sem fim nem princípio como o ciclo da água, nuvem, terra, mar, nuvem, terra, mar... Salta então para o chão e enquanto o príncipe continua o malabarismo com arcos e mocas a condessa pega numa pequena cesta enfeitada com as cores reais e passeia-se pelas beiças dos homens e as pestanas invejosas das mulheres, de braço estendido e sorriso treinado a exigir o contributo pela miragem oferecida. As coroas e os tostões miúdos caem a custo das árvores desde sempre depenadas e tilintam livres e unidos no fundo da cesta, felizes por assim juntos se sentirem mais fortes como um exército do que num pequeno bando de meia-dúzia de malfeitores próprio do bolso de pelintras. Leopoldina vê a mãe a remexer no porta-moedas e quer dar todas as moedas, caricas e botões que nele houver, que pouco é para o seu príncipe, quieta, rapariga, pensas que não custa a ganhar?, ora vejam lá, que doidice maior te havia de pegar, as pantominices são muito bonitas mas não enchem a barriga, a não ser a deles, por isso, pega lá cinco coroas e deita-as no cesto, Leopoldina, e toma tino!
Quando a condessa chega junto dela, Leopoldina abraça-se a ela como a parenta muito antiga, senhora condessa, quando é a partida?, é muito longe o vosso palácio?, grande?, bonito?, e o príncipe, quando me vem buscar? A senhora olha para Leopoldina, desnorteada e sem perceber a lengalenga, e ao dar com os seus olhos de amêndoa bicuda de albina, o seu corpo grosso de castanheiro velho, atrapalha-se pela falta de uso de dicionário para falar com alguém de outro mundo. A mãe puxa-a por um braço e executa uma vénia de desculpas pelo despropósito da rapariga, a senhora desculpe a minha filha, não vê que o juízo que Deus lhe deu foi à míngua, coitadinha, tão pouco escorreita, não ligue a esta tramelguice de príncipes e palácios, veja lá o que se lhe meteu na cabeça, que os senhores vêm de um palácio e são gente da fidalguia, que não é minha intenção dizer mal das suas famílias, cada um nasce onde nasce e sem ser perguntado, mas é por dizer que a minha filha vive no mundo da lua, a sonhar com gente fidalga que a há-de vir buscar para os palácios, como se os reis e príncipes ainda existissem e se os houvesse alguma vez quereriam conhecer uma enjeitada do destino como esta minha filha, a senhora desculpe.
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Maio 21, 2012, 18:20:57
Boa tarde a todos
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Boa tarde...
Maio 21, 2012, 16:10:43
Boa tarde
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Boas leituras e melhores escritas
Maio 17, 2012, 22:03:22
Boa noite feliz para todos
Maio 17, 2012, 13:20:45
Boa tarde a todas
Maio 17, 2012, 10:59:03
Bom dia...
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Maio 15, 2012, 20:33:02
Boa tarde a todos
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boa noite
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