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Autor Tópico: Crónica dos bons velhacos  (Lida 270 vezes)
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Nação Valente
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« em: Janeiro 12, 2012, 22:51:00 »

 Em memória dos velhos contrabandistas da raia(o meu pai incluído) nas décadas de quarenta e cinquenta do século XX. Em memória dos regionalismos do falar algarvio e/ou da linguagem oral. (quase em desuso)

Truz, truz,truz…

Três pancadas secas ecoaram na madrugada, sobressaltando o sono dos pássaros que esvoaçaram  sem sentido.

Truz, truz, truz…

Três pancadas promissoras entraram suavemente no sonho de Elvira. Não havia dúvida, o seu homem tinha chegado.

Truz, truz, truz…

Três pancadas estremeceram a velha porta de madeira da casa de Felisberto, escurecida pelo tempo.

Elvira riscou a pederneira e acendeu o candeeiro a petróleo.Levantou-se cambaleando de sono mal desperto e movimentou o seu pequeno corpo até à porta de entrada.

Truz, truz, truz…

Três pancadas desesperadas sobressaltaram -na. O seu homem parecia desesperado. Assomou-se ao postigo para confirmar. O home tá cheio de âiças(1). Puxou a taramela e abriu a porta. Felisberto entrou de supetão.

Brrrrrrr

Elvira recuou cheia de cagufo(2). Mas home disse, tu tás em pelão?!(3) Só tens o chapé(4), o que te aconteceu? Foste róbado?

Brrrrrrrrr

Fui róbado por um guarda da nação e estou …meio almariado(5)... Faz-me um café quente… vou-me meter nos lençós(6).

Homessa, panhado (7) por um guarda. O mundo anda às avessas!

-Pois anda e panhei  um cagaço que só eu sei, mas já cá tou.

Elvira acendeu o fogão a petróleo , pôs a esculateira a aquecer água e  misturou-lhe duas colheres de café de cevada.

Felisberto partira com o seu sócio Venício para Espanha havia duas semanas. Faziam-no várias vezes por ano nos tempos mortos da lavoura, para juntar alguns tostões ao débil rendimento da sua actividade. Quando acabavam as sementeiras, quando terminavam as ceifas e as debulhas, no fim das mondas. Transportavam uma pequena carga de café em grão, cedida por Sebastião um comerciante de contrabando e passavam a fronteira para a entregaram a outro comerciante de contrabando. Durante uma semana dormiam de dia e viajavam de noite. Depois de entregar a mercadoria recebiam o pagamento. Com a sua parte compravam umas bugigangas  para rentabilizar o ganho e regressavam, fazendo o mesmo trajecto.

-Aqui tens home o café, para te tirar o entenguido(Cool, disse Elvira.

Uiiiiii

-Raça melher, o  puc´ro (9) tá mesmo quente…até escalda.

-Mas então como é que foste panhado?

Nós chegamos ao rio, respondeu Felisberto entre goladas de café, já  a noite ia dentro e como sempre tiramos a roupa para o atravessarmos. Pusemo-la dentro do saco oleado, assim como uns veludos e uns perfumes que trazíamos para mercar. Entramos na água sem ver vivalma. Apenas se ouvia uma ou outra arrã (10)e o barulho das nossas braçadas….

Chlap, chlap, chlap-

-Ó Felisberto nã ouves um barulho estranho?

Chlap, chlap, chlap

-Tu tázé maluco… Venício? É barulho dos remos duma lancha.

-Serão carabineiros?

-Qual carabineiros qual carapuça. Esses têm todos as mãos untadas. São tão contrabandistas quanto a gente.

-Parem em nome da lei.

 -Venício,conheço esta voz é… do cabo Palma da Guarda fiscal.

-Mas qu´é canda o gajo a fazer em águas espanholas a esta hora?

-Nã sei, mas tá clandestino como a gente.

-Pode estar Felisberto,mas tá armado, conho .

- Temos a burra nas couves. (11)O que fazemos?

- Vamos largar a porra do oleado, que é o que magano (12) quer, e vamos salvar a pele.

…E foi assim que saímos do rio e fizemos o caminho até casa, finalizou Felisberto. E agora não me besoires mais…(13)

Elvira mais triste que a noite já não conseguiu dormir. Sentou-se junto à Singer onde costurava para fora. Quando o dia amanheceu, Felisberto saiu do quarto e Elvira sem levantar a cabeça do remendo que estava a pregar numas calças puídas disse marafada(14):

- Ó home isto é que foi um negoiço,(15) nem a roupa do corpo salvaste?

- Deixa lá melher, já estou vestido outra vez e agora vou entregar ao Sebastião o dinheiro da viajem, que trazia bem seguro na copa do chapé.

Elvira levantou a cabeça e ficou estarrecida

- Mas tu tás vestido com a roupa de soldado reservista? Hoje por acaso há inspecção?

- Não. Pior, hoje há guerra respondeu Felisberto, enquanto saía porta fora, sem ouvir a mulher comentar, “ai mé Deus ainda arranja mais desgraça com um filho pra comer coida(16)".

Na venda de Sebastião os copos de mata-bicho iam deslizando pelas goelas sequiosas dos agricultores/contrabandistas. Felisberto entregou ao comerciante um pequeno frasco ;â€tá aqui o material.†Sebastião agarrou-o e leu o rótulo escrito em letra de caneta de tinta permanente: óleo de rícino.

Pouco depois entrou o cabo Palma, como acontecia todas as manhãs, garboso na sua farda cinzenta.â€Deita-me aí um o conhac do melhor que ontem fiz bom negocioâ€.O comerciante pegou um copo já preparado e encheu-o “aqui tem, cabo Palmaâ€.

O Palma bebeu de um trago como sempre fazia estalando a língua, perante olhares meio submersos na penumbra matinal.

- Este escorregou mesmo bem, disse o Palma …mas que esquisito …parece que me está a dar a volta às tripas, disse, enquanto segurava com as
mãos o abdómen.…

Aiaiai…

E soltava esgares de dor “que zurrapa me deste sacana, vais pagar-masâ€

Levantou-se então um pelotão de soldados reservistas formando-se  em duas filas. Enquanto faziam continência ao cabo Palma, diziam em coro “às suas ordens nosso caboâ€.

O Palma arrastou os pés trôpegos e saiu da venda por entre as alas militares, deixando atrás de si um cheiro nauseabundo a enxofre.

-Vocês são mesmo uns bons velhacos- disse Sebastião. Exageraram na dose, o homem está todo borrado!

Tictactictactictac...

Quando Felisberto empurrou a porta de madeira negra da sua casa, Elvira continuava a pedalar na sua máquina de costura.

- Então home em que sarilho te foste meter?

- Fui participar numa boa acção; demos uns dias de folga ao Palma. O garganeiro(17) mereceu-os depois do serviço que prestou ao Estado Novo...
MG



1-ânsias

2-medo

3-nu

4-chapéu

5-tonto

6-lençóis

7-apanhado

8-com frio

9-púcaro

10-rã

11-não estou a gostar

12-velhaco

13-não me incomodes

14-zangada

15-negócio

16-côdea

17-quer sempre mais

 Escrito de acordo com a antiga ortografia.
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« Responder #1 em: Janeiro 13, 2012, 11:00:07 »

Uma lição de História. Costumes que poucos já recordam.
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« Responder #2 em: Janeiro 13, 2012, 13:27:26 »

Lembrei-me de como ouvia algumas pessoas do meu bairro que hoje não é mais possível de se ver. Muito menos suas vozes. Essas não serão mais ouvidas.
Gosto das suas crônicas porque me fazem reviver um tempo (que não é o mesmo tempo da sua narrativa) onde o um canto do bairro parecia tão grande e enigmático quanto o mundo todo.

Obrigado por compartilhar.

Abraço aqui do Sul do Atlântico.
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Oswaldo Eurico Rodrigues


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« Responder #3 em: Janeiro 13, 2012, 23:42:46 »

Goreti e Oswaldo

Era o mundo na vivência de uma aldeia. Depois abriram-se horizontes, rasgaram-se estradas reais e virtuais e os costumes globalizaram-se. É função da historia recordar e compartilhar essas vivências.

Abraço do costume com história
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« Responder #4 em: Janeiro 14, 2012, 10:53:20 »

Também eu vivo num bairro que foi drasticamente modificado desde que aqui cheguei. Não temos mais o bosque, nem o gramado, nem as flores. Também não temos as cobras e sapos e rãs e mosquitos. Uma estrada federal corta de ponta a ponta o Porto do Rosa e o integra ao sul e ao norte do Estado. Não há como frear o progresso, que, como todos nós, tem seu lado positivo e seu lado negativo.

Abraço
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« Responder #5 em: Abril 07, 2012, 16:48:17 »

Deveras interessante e elucidativo.
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« Responder #6 em: Abril 08, 2012, 14:31:54 »

É um texto que vale a pena sempre reler.
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bom dia
Maio 23, 2012, 20:51:56
Boa noite a todos
Maio 21, 2012, 18:20:57
Boa tarde a todos
Maio 21, 2012, 17:03:59
Boa tarde...
Maio 21, 2012, 16:10:43
Boa tarde
Maio 21, 2012, 11:55:14
Ótima semana para todos !
Maio 20, 2012, 19:14:48
Ótimo resto de domingo e semana plena de felicidade e sucesso para todos!
Maio 17, 2012, 22:03:50
Boas leituras e melhores escritas
Maio 17, 2012, 22:03:22
Boa noite feliz para todos
Maio 17, 2012, 13:20:45
Boa tarde a todas
Maio 17, 2012, 10:59:03
Bom dia...
Maio 16, 2012, 17:45:04
Boa tarde a todos...
Maio 15, 2012, 20:33:02
Boa tarde a todos
Maio 15, 2012, 16:49:23
Boa tarde a todos
Maio 15, 2012, 01:15:17
boa noite
Maio 14, 2012, 19:57:18
Boa tarde.
Maio 12, 2012, 12:08:50
Boa tarde a todos
Maio 12, 2012, 00:41:12
Boa noite a todos.
Maio 11, 2012, 12:13:54
Bom dia...
Maio 11, 2012, 12:13:50
Bom dia...
Maio 10, 2012, 11:33:42
Bom dia! Aproveitem o sol... enquanto não é cortado pela troyka!
Maio 08, 2012, 20:23:44
Boa tarde a todos
Maio 08, 2012, 07:27:12
Bom dia!
Maio 07, 2012, 18:51:37
Boa tarde a todos
Maio 07, 2012, 15:37:25
Bom dia...
Maio 07, 2012, 07:24:15
bom dia!
Maio 06, 2012, 18:54:26
Boa tarde...
Maio 06, 2012, 15:17:57
Bom dia a todos...
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