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Autor Tópico: Balada da praia dos cães  (Lida 967 vezes)
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Tim_booth
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« em: Agosto 31, 2008, 02:31:52 »

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E ela com aquela maneira enfastiada de estar à parede a ver passar o mundo, ela não sabe mas faz lembrar ao chefe da brigada uma donzela rebelde dos filmes americanos à espera do amante-estivador.

     -José Cardoso Pires, Balada da praia dos cães



Balada da praia dos cães é provavelmente a mais conhecida obra de José Cardoso Pires, juntamente, talvez, com O delfim (que terá a sua própria análise em breve). Nela, Cardoso Pires brinca com as convenções dos livros policiais, conta uma investigação de desfecho conhecido em que o mais importante não é quem matou quem, mas o que o levou a fazê-lo.

É desta maneira que nos é apresentado o assassinato do Major Dantas Castro, evadido de Elvas, onde estava prisioneiro por associação a organizações anti-Salazaristas no período de ouro da Ditadura, corria o ano de 1960. As suspeitas recaem sobre os seus companheiros de fuga, o arquitecto Fontenova preso em Elvas pelas mesmas razões que o Major e o Cabo Barroca, ao serviço em Elvas na altura da evasão. Suspeita é também Mena, uma rapariga com quem o Major tem uma relação perversamente dominadora.

O cadáver do Major é descoberto por cães famintos na Praia do Mastro, iniciando o livro com um suposto relatório médico-policial da descoberta do corpo. Encarregue das Investigações está o Chefe Elias Santana, da Polícia Judiciária, a quem o caso foi entregue após uma primeira aprovação por parte da PIDE, já que “As polícias devem-se colaboração no âmbito das suas competências.”

Ao longo do livro somos conduzidos em dois tempos e espaços. Por um lado acompanhamos o Chefe Elias Santana, o “covas” como é conhecido na PJ, pelas suas inquirições a testemunhas e envolvidos, nas suas discussões com o inspector Otero, seu superior mas antigo companheiro de escola, na sua vida triste e solitária quando chega a casa, com vista para o Tejo e um lagarto de estimação, para rever os pormenores mais estranhos do caso. Somos também levados para a Casa da Vereda através das confissões de Mena ao Chefe Elias, a casa onde os foragidos se escondiam e aguardavam novos contactos do Movimento para se porem a salvo.

Este livro tem, obviamente, um extenso conteúdo político mas vai muito para além disso. Não se queda por analisar os procedimentos das polícias no período pré-revolução mas vai ao ponto de criar laços de empatia com personagens que, à partida, consideraríamos odiáveis pela sua ligação ao regime. Exemplo claro disso é o Chefe “Covas”, que é muito mais do que um simples funcionário cego do estado. É, descrito maravilhosamente por Cardoso Pires, um homem triste, solitário, que dedicou a sua vida ao trabalho não para defender política mas para apanhar verdadeiros criminosos, assassinos, daí a sua alcunha: pela sua predilecção por casos de homicídio. Elias Santana é um homem claramente triste, tem no lagarto Lizardo a sua única companhia e descobre-se ao longo da história uma crescente obsessão por Mena, a rapariga que estava envolvida com o Major. Elias refere-se a ela muitas vezes como a “rapariga da fotografia”, uma fotografia encontrada na Casa da Vereda em que Mena se retratava quase nua, e acaba por desenvolver uma relação paralela com a fotografia do processo, imaginando-a como uma mulher à parte, fantasiando com ela durante as noites em que mancha os pijamas.

Outro personagem extremamente interessante é o do próprio Major, visto pelos olhos de Mena, que é o típico Marialva retratado com tanta mestria por Cardoso Pires em outras obras (O delfim), confiante de que as mulheres estão na terra para seu único prazer, escondendo a sua faceta machista atrás da máscara revolucionária. Os constantes maus tratos a Mena e aos companheiros da casa, que ele considera inferiores intelectuais, são descritos pelo autor, através do olhar feminino de Mena, de uma maneira brutal, contribuíndo em muito para a compreensão do leitor para as razões do assassínio do Major.

Mas Mena é, sem dúvida, a personagem mais intrigante deste romance. Mena é o espelho da juventude que cresceu na Ditatura e que se rebela com o seu destino, frequentadora dos círculos estudantis revolucionários e amante do Major. É um enigma o porquê da sua permanência mesmo após os constantes maus tratos, físicos e psicológicos, com que o falecido a massacrava. O leitor pode questionar-se se o preço da liberdade será assim tão alto e individual?

Para mim, a grande beleza da obra está no estudo destas características humanas, tantas vezes esquecidas ao falar da revolução, que o autor tão bem retrata em cada um dos seus personagens. Obviamente que a mensagem política é grande demais para ser ignorada: os movimentos das polícias para lançar aos jornais este crime como um acto dos movimentos revolucionários, marcando-os como selvagens aos olhos da opinião pública, as constantes trocas entre a PIDE e a PJ e a sua falta de entendimento, a maneira como operavam os delatores, tudo isso pode ser encontrada neste brilhante livro.

A Balada da praia dos cães é, evidentemente, um livro político. Mas agora que a tensão passou, agora que já lá vão 34 anos sobre a revolução, podemos também deliciarmo-nos com as brilhantes caracterizações dos personagens de José Cardoso Pires.

Escrito originalmente aqui
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Dionísio Dinis
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« Responder #1 em: Agosto 31, 2008, 16:06:11 »

Na mouche, meu caro Tim, é que para além do conteúdo eminentemente político do livro em questão, José Cardoso Pires, aí como em outras obras, delicia-nos com uma análise/caracterização minuciosa das personagens intervenientes na trama.
A sua descrição da obra, faz-nos querer ler e/ou reler a obra em apreço.Belíssima estreia neste novo espaço do EscritArtes!
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« Responder #2 em: Agosto 31, 2008, 16:14:20 »

Obrigado caro Dionísio Dinis. Essa é, para mim, uma das mais deliciosas características de Cardoso Pires. Ele que está na minha trindade santa dos escritores contemporâneos portugueses: José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes.

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« Responder #3 em: Agosto 31, 2008, 20:54:41 »

Nunca li o livro, mas sabes uma coisa? Fiquei com vontade de ler. As editoras deviam apanhar-te. Ias-lhes fazer render bom dinheiro!
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« Responder #4 em: Agosto 31, 2008, 21:12:07 »

Tinham que me apanhar com livros que eu gostasse, senão a crítica nunca saía lá muito bem... Mas não me importava nada de ser convidado para isso! Se estiver para aí alguma editora à espreita...
Eh Eh Eh...

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« Responder #5 em: Agosto 31, 2008, 21:15:16 »

Sim, se fosse o livro da Agustina Bessa Luis, estavam feitos contigo...
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« Responder #6 em: Agosto 31, 2008, 21:18:41 »

Sim, se fosse o livro da Agustina Bessa Luis, estavam feitos contigo...
Pois, lá isso...  :yup:
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« Responder #7 em: Agosto 31, 2008, 21:31:13 »

Quando li este livro não o apreciei muito. Agora fiquei com vontade de ler de novo...
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« Responder #8 em: Agosto 31, 2008, 21:35:05 »

Nem sempre os bons livros nos entram à primeira e, às vezes, há óptimos livros que nunca conseguimos gostar: comigo foi o Siddhartha (Crítica para breve, também...)

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« Responder #9 em: Agosto 31, 2008, 21:47:29 »

A tua sinopse/crítica conduzia-me a uma imediata releitura da obra,se tivesse tempo!Parabéns.
Para além do seu talento existe um factor de forma que foi importantíssimo na sua
escrita. Mestre Cardoso Pires «desadjectivou» até à exaustão todos os seus textos.
Reescrevia os seus romances várias(3 ou 4) vezes antes de os dar à estampa .Buscava a
escrita substantiva, como sublinhou o seu amigo Lobo Antunes.
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« Responder #10 em: Agosto 31, 2008, 21:50:42 »

tim_booth, o siddharta comigo entrou à primeira...
Dito, é verdade, a "escrita substantiva" requer uma entrega total...
Goreti, diz lá que ele não fazia ganhar dinheiro às editoras...
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« Responder #11 em: Agosto 31, 2008, 21:54:18 »

Obrigado Dito. Realmente essa é parte da beleza da escrita de Cardoso Pires, tudo o que nos é dito sobre os personagens nunca nos é dito, fica sempre subentendido...

O Siddhartha tem um longo historial de opiniões contrárias, conheço gente que diz que é o livro de uma vida e quem diga que não passa de um hype. Comigo não entrou, de todo, à primeira. A primeira vez que o tentei ler deixei-o a meio. Recentemente li-o em apenas duas golfadas, mas ainda assim não foi capaz de me mudar em muito a opinião que já tinha acerca do livro. Será, provavelmente, o próximo alvo da minha crítica, talvez ainda esta noite, se conseguir escrever o que quero antes...

Cheers
« Última modificação: Agosto 31, 2008, 22:04:24 por Tim_booth » Registado
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« Responder #12 em: Agosto 31, 2008, 22:02:03 »

Agora já podes responder...
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« Responder #13 em: Agosto 31, 2008, 22:04:58 »

Ah, enquanto escreveste isso eu editei a resposta anterior para responder, eh eh eh :fixe:
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« Responder #14 em: Agosto 31, 2008, 22:08:30 »

Vais ser contratado! rs...rs...
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