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Autor Tópico: Memorial do convento  (Lida 837 vezes)
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Tim_booth
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« em: Setembro 06, 2008, 01:55:49 »

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    Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes do que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

    - José Saramago, Memorial do convento


Como classificar o (provavelmente) mais famoso trabalho de José Saramago? O que dizer acerca de um livro que todos, pelo menos, ouvimos falar? O que referir mais quando todas as personagens foram analisadas, todos os cenários foram caracterizados, todas as metáforas elogiadas, todos os parágrafos comentados? Não posso fazer mais do que oferecer a minha limitada visão acerca da obra, verdadeira obra, que seguro neste momento nas mãos.

O Memorial do convento trata de muito mais do que simplesmente da construção do convento de Mafra, ao contrário do que as sinopses mais simplistas referem, redigidas claramente por quem nunca leu o livro, ou lendo nunca se deu ao trabalho de o apreciar. Nele encontramos, pelo menos, três pontas diferentes, das quais a construção do convento não é de todo a mais significativa, apesar de dar o título à obra. A relação de Baltazar e Blimunda, a construção da Passarola são temas tão ou mais centrais do que o convento de Mafra. No entanto, se um é o amor entre homem e mulher do povo, outro nasce da ideia de um simples padre, o convento que nasce do capricho de um Rei é mais imponente para título. Talvez já aqui Saramago nos esteja a dar uma pista para a permanente crítica social que se encontra ao longo do livro.

Quem nunca se deparou com um romance de Saramago, certamente terá algumas, muitas, dificuldades no princípio da leitura. Frases que ocupam páginas inteiras, parágrafos que são capítulos, vozes misturadas e apenas dois sinais de pontuação usados - a vírgula e o ponto final - são difíceis para o mais atento dos leitores. Nos diálogos, escritos na mesma frases, a troca de vozes é feita pela capitalização da primeira letra da nova voz. Pode parecer difícil, e é, mas este não seria o mesmo livro se fosse escrito de outra forma. É a tal voz que se senta na nossa mente, como anteriormente escrevi acerca de Todos os nomes, aperfeiçoada e levada ao extremo, contando-nos um entrelaçado de histórias, com um cenário histórico.

O Memorial do convento centra-se no reinado de D. João V e no seu desejo de ter um filho herdeiro do trono. Como promessa, edifica em Mafra um convento franciscano. Há, no reino, um padre, Bartolomeu de Gusmão, que tem o sonho de voar. Há um soldado maneta, que perdeu a mão esquerda na guerra e uma jovem mulher com um estranho poder de visão e cuja mãe é enviada em auto-de-fé para Ãfrica. Estes são os principais personagens de um romance que apenas de uma maneira reduzida podemos considerar como histórico.

Baltazar conhece Blimunda durante o auto-de-fé da sua mãe. Era já conhecido do padre Bartolomeu de Gusmão que os convida, a ambos, para o ajudarem a trabalhar na sua invenção secreta, a Passarola, onde se veio a revelar imprescindível o estranho poder de Blimunda. O sonho do padre é concretizado e os três voam, mas vêem-se perseguidos pela Inquisição e forçados a esconder a invenção perto de Mafra, de onde Baltazar é originário. Nesta altura os trabalhos de construção do convento estão a começar e trabalho não falta na localidade, Baltazar e Blimunda ficam a viver com a irmã de Baltazar, o seu cunhado e sobrinho na velha casa dos pais do soldado enquanto o padre Bartolomeu foge dos seus irmãos na fé que o perseguem por heresia.

Gostava de ser capaz de enumerar todos os pormenores deliciosos de que o Memorial do convento está recheado. Mas são tantos, e por vezes tão caricatos, que apenas uma leitura atenta da obra pode fazer justiça à sua qualidade. Temos preciosidades como “Quem vai à guerra empadas levaâ€, a propósito de uma manifestação de freiras no Terreiro do Paço, a fantástica descrição da fertilidade do Rei, que apesar de parecer incapaz de fecundar a rainha foi capaz de espalhar a real semente por inúmeras freiras que visitava com regularidade fazendo um número sem fim de bastardos reais. Temos a deliciosa descrição das relações sexuais que Rei e Rainha mantinham duas vezes por semana, com protocolo próprio, quase cómico se não se aproximasse tanto da verdade daqueles dias. Enfim, um sem número de verdadeiros pedaços de génio de que apenas um grande contador de histórias é capaz.

A voz narrativa ao longo deste livro é, no mínimo, peculiar. É omnisciente e omnipresente, é quase uma voz conscienciosa capaz de traçar juízos de valor acerca das acções de cada personagem, capaz de saltar no tempo para referir que passados muitos anos o gosto português pela cor verde vai-se acentuar numa república, é capaz de divertir com uma constante ironia dos costumes reais e das tradições do paço. É, verdadeiramente, a voz de Saramago.

Encontramos uma tremenda crítica ao poder. O poder absoluto que vai contra a vontade da população, que mata gente debaixo de pedras, aos milhares, para cumprir um capricho real, um poder que amarra homens e os tira das suas casas para serem practicamente escravos de uma obra que, se apenas da vontade do Rei dependesse, seria tão grande como a Basílica de S. Pedro em Roma. E mesmo neste Portugal do séc. XVII (ou será do séc. XX?) encontramos em duas pessoas, homem e mulher invulgares, um amor que não precisa da palavra amor para assim se definir. Baltazar e Blimunda são um poema em forma de história, talvez um dos mais belos poemas de amor que alguém alguma vez escreveu.

A realidade da história de Portugal, misturada com a irrealidade destes dois seres torna o Memorial do convento num livro único dentro do seu género. A nossa atenção é desviada dos acontecimentos para a relação que, apesar de parecer ter um papel secundário na história, tem o papel principal da nossa leitura.

Para além disso, há preciosidades linguísticas que mostram o porquê deste ser o único Nobel da literatura português: Saramago domina a língua de Camões como poucos, sem preciosismos desnecessários. A sua escrita não é formal, não está carregada de pretencionismo, está sim carregada de recursos estilísticos que parecem tão naturais, por se aproximarem tanto da oralidade, que nos fazem pensar duas vezes se realmente existem ou não.

Escrito originalmente aqui.
« Última modificação: Setembro 06, 2008, 12:25:16 por Tim_booth » Registado

Laura
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« Responder #1 em: Setembro 06, 2008, 11:12:24 »

Vais-me arruinar, com as tuas críticas positivas... vais, vais! Mais um livro que vou ter de ler.
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« Responder #2 em: Setembro 06, 2008, 11:26:33 »

É obrigação de todo o português ler este livro que já foi, aliás, de leitura obrigatória no ensino secundário. Coloca o dedo na ferida de muita gente em todos os tempos. Dever-se-ia dizer que é uma obra intemporal, é-o, de facto.
Um óptimo incentivo à leitura!
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« Responder #3 em: Setembro 06, 2008, 12:20:03 »

Penso que ainda é de leitura obrigatória, pelo menos no último ano foi. Apesar de discordar de leituras obrigatórias, quem lê forçado, lê, à partida, contrariado. Quando, na altura era obrigado a ler este livro não o fiz, concentrei-me em disciplinas que me eram mais precisas (matemática e física) e só o li durante as férias, só assim fui capaz de o apreciar devidamente. Mais ainda na re-leitura que fiz este ano, só assim consegui absorver pelo menos em parte a magnificência que este livro encerra.

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« Responder #4 em: Setembro 06, 2008, 20:13:17 »

Olá, Tim_booth,
concordo com você, quando diz que esta obra do Saramago é muito mais do que vemos aparentemente, em relação à construção do convento.Esta foi uma boa desculpa da arte, para ir além, como, aliás, é do feitio do autor. Ele trilhou em sua obra, caminhos subvertidos e muito próprios, e muito me agradam as transgressões... Entendo que Belinda seria a representação da dimensão  inexplicável e inexplicada da vida; o elemento mágico, que bem acolhe a visão de mundo do autor, em que a vida tem muito mais a dizer, do que o que podemos compreender... Nesta obra transitamos entre a história, que seria a meu ver a parte mais desinteressante, a ficção, a magia.
Muito bom também é ter trazido à luz, um pouco de ciência e a forma absurda como foi tratada pela Inquisição...a Passarola, seria o precursor do balão (aeróstato), que também entrou na dimensão de algo fantástico, para despistar os curiosos e sabotadores.
O frei Bartolomeu de Gusmão (brasileiro) foi um grande inventor que a Inquisição perseguiu ao ponto de se fazer exilar e morrer na Espanha.
Na obra, o casal real é mostrado de forma crítica e quase caricata (ver o episódio do cobertor...), e o trabalhador anônimo quase como herói. Saramago mistura com maestria a história e o fantástico, o humor a crítica...
Acho que já falei muito, mas teria muito mais...estilo, discurso....
Um abraço,
Guacira.
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Guacira Maciel
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« Responder #5 em: Setembro 06, 2008, 20:40:46 »

Guacira, fale à vontade, os livros querem-se discutidos, não apenas lidos! Realmente o Memorial do Convento retrata a família real comicamente enquanto que se dá ao trabalho de nomear os heróis anónimos: no episódio do transporte da pedra há uma passagem em que o autor escolhe um nome por letra para nomear todos os heróis que construíam o convento, uma passagem verdadeiramente notável.

Cheers
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