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Vóny Ferreira
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« em: Setembro 09, 2008, 15:19:28 » |
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Ouço o telefone tocar estridentemente. Do outro lado da linha surge-me a tua voz enfática, como se fosses uma sinfonia inacabada a ser tocada por um violino. - Acordei-te…? – perguntas-me num tom de voz estupefacto. - Bom… sim… sim… - balbucio meio estremunhada lançando um olhar repentino para o relógio. Os ponteiros deixam-me atarantada, pois marcam 11 e 30 da manhã. Em jeito de desculpa arrematas. - Tentei primeiro ligar-te para o telemóvel mas está desligado e… oh… desculpa se te acordei! A tua voz surge-me aos ouvidos demasiado preocupada e intuitivamente pressinto que algo se passa contigo. Sossego-te. - Ta… não tem qualquer importância. Como sabes ando de volta do romance numa espécie bailado de borboleta ziguezagueante. Deitei-me ao amanhecer... como fazem os sapos nos riachos. A droga do romance está a dar-me uma trabalheira tal que só me apetece fazer uma bola com esta papelada que vou imprimindo para reler o que escrevo. Tenho momentos em que me apetecia pontapear essa tal bola de papel, de uma forma certeira para o caixote do lixo. – Ouço-te rir do outro lado da linha e correspondo ao teu riso anémico. Prossigo, armada em bobo da corte. - Tenho uma teoria secreta em jeito de esperança de maníaca. Se “encestar” à primeira no cesto de papeis é porque vale a pena passar tantas horas ao computador como se tocasse piano com mãos de chumbo. Se não encestar… azar! – Solto uma gargalhada e prossigo. - É porque esta porcaria é mesmo para repensar. Portugal está cheia de escritoras frustrados, portanto ser mais uma nada altera as percentagens Nacionais. – Riu-me. Tagarelo ainda ensonada e de repente apercebo-me que continuas estranhamente calada, como se fosses o deserto de Namibe onde só os cactos e os caranguejos gigantescos se atreviam a violar o silêncio imenso daquele deserto inóspito. - Deixa lá… conversamos depois…! - Nunca! O que se passa? –pergunto dando um salto da cama como se tivesse sido impulsionada por uma mola. Ouço-te soluçar do outro lado da linha e eu fico completamente agitada. - Credo mas lágrimas agora, porquê? O que se passa? Depois de alguns segundos de silencio, insisto. - Estás de folga, é isso? - É… - Então deixa-me só tomar um duche, beber um café forte e já apareço aí em tua casa para conversarmos. Pressinto que o assunto é sério. - Podes vir…? – Perguntas numa voz intermitente. - Claro que vou, droga! Afinal para que servem os amigos? Diz-me só uma coisa, estás doente? É de saúde que se trata? - Não, amiga. Se isto for doença é uma doença crónica, mas do coração. - Rematas tu numa espécie de súplica, cerrada entre os dentes.
Encontro-te vestida com um fato de treino azul onde os teus cabelos louros, compridos, têm o realce do ouro sobre o azul. Enquanto te dou um beijo e te abraço fico a roer de inveja pela tua beleza. Como és bonita! A tua beleza e jovialidade torna-se desconcertante. Qualquer trapo te fica bem. É como se o teu corpo tivesse sido esculpido geometricamente pelas mãos de um artista mulherengo com uma aptidão nata, porque soube delinear na perfeição os contornos luminosos da tua boca, do teu corpo escultural. Sentamos-nos no sofá depois de algumas palavras triviais e de repente ouço-te dizer… - Rompi tudo com o João. Apaixonei-me por outra pessoa. Tu és a primeira amiga a quem confidencio esta porcaria. Fazes uma ligeira pausa e prossegues. - Nem quero imaginar a reacção dos meus pais quando souberem o que se passa… - Ui… mas… não aceitaste o pedido de casamento dele há 3 meses? O que se passa? O gajo traiu-te? Raios parta aos homens! - Não… nada disso. – Interrompes tu decidida. Não foi o João, pelo contrário ele é a vítima. Eu é que me apaixonei por outra pessoa e por mais que tenha lutado durante este 8 meses para fugir a esta paixão não consigo. É como se fosse sufocar quando estou muito tempo sem a ver essa. Juro que tentei. Aliás… foi quase num acto de desespero que sugeri ao João o nosso casamento. Eu… Meu Deus… nem sei como te contar isto... Hesitas, respiras fundo e olhas-me nos olhos com a transparência de uma noite de luar. Depois, prossegues numa voz agora mais controlada. - A verdade… é que tu sempre foste para mim uma espécie de irmã mais velha. Sei que contigo posso contar SEMPRE. - Bom… conta lá então… quem é o príncipe encantado? Eu conheço-o? - Conheces… perfeitamente. Insuspeitamente temos mantido uma relação quase que permanente, embora como referi me tenha tentado afastar dela durante algumas semanas. Só que não consegui. Ia enlouquecendo. Entrei numa espécie de depressão e por isso é que emagreci estupidamente. - Dela…? Não estou a perceber…! Sim, dela. Apaixonei-me por uma mulher! Trata-se da Magali, aquela Brasileira que conheci no curso intensivo de inglês. Cheguei a levá-la comigo quando nos encontrámos há uns tempos para beber um café. Recordas-te?
Um enorme silêncio abate-se sobre nós. De repente fico sem palavras. Olho-te num misto de pena e solidariedade, porque de repente tenho a percepção exacta do que te espera a partir desse momento. Depois da primeira surpresa pego-te nas mãos e digo-te com a minha eterna vontade de brincar nos momentos que pomposamente apelido de “cruciais”. - Bom… pelo menos tiveste bom gosto, porque ela é também lindíssima! - Choco-te com esta confissão, amiga? Os teus olhos enchem-se de lágrimas. É nesse preciso momento que eu deixo que a surpresa que me tinha paralisado dê lugar à imensa ternura que sempre tive por ti. Abraço-te efusivamente, como sempre o fiz quando te vejo aflitivamente triste. - Nunca… nunca o amor me chocaria e nunca me chocarás porque eu gosto de ti como és. Se quiseres pintar-te de preto então é de preto que eu gosto de ti. Se ficares com uma só perna, mutilada, Meu Deus… o que quero que saibas é que para mim é pouco importante com quem dormes. Gosto de ti pela pessoa que és… o resto é irrelevante, percebes? Apenas te avalio pelo espírito maravilhoso que tens, pela grandiosidade que és como amiga, o resto é-me completamente indiferente. Só quero que sejas feliz, por isso... enxuga as lágrimas. Veste o teu mais bonito vestido e vai viver a vida! Tens 32 anos, és uma miúda. Se amas a Magali e ela te ama, força… vivam os vossos momentos como se fossem os derradeiros instantes das vossas vidas e cumpram a vossa paixão! O amor não tem sexo. Pelos vistos… não tem, porque ao que me parece nunca tinhas sentido atracção por uma mulher, portanto… tranquiliza o teu espírito e tenta viver esse amor com felicidade. É o que me ocorre dizer-te. - Tenho medo da reacção dos meus pais. Decidi ir viver com ela, assumir esse amor. - Os teus pais, pelo que conheço deles, depois da surpresa, e até do desgosto de te verem desfazer o noivado com o João vão desejar prioritariamente a tua felicidade. Tenho absoluta certeza disso.
Abraças-te a mim. De repente começas a chorar copiosamente. Tontamente acompanho-te nessas lágrimas por pressentir que te esperam alguns momentos difíceis. Talvez algumas rejeições. Algumas incompreensões. Mas a minha alma, serena momentaneamente quando me ponho a pensar conclusivamente: OS QUE GOSTAREM DE TI VERDADEIRAMENTE… FICARÃO SEMPRE AO TEU LADO! OS QUE FOREM TEUS AMIGOS, ACEITAR-TE-ÃO COMO ÉS. Só assim se cumpre a amizade!
Autoria: Vóny Ferreira
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