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Autor Tópico: o remorso de baltazar serapião  (Lida 499 vezes)
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Tim_booth
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Queria escrever à velocidade com que penso.


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« em: Setembro 14, 2008, 21:05:35 »

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ficou-lhe o pé para dentro, ao invés do da minha mãe que lhe tinha ficado para fora, ficou-lhe para dentro e até um pouco para trás, e doía-lhe muito, e o meu pai viu-a e disse, eis o teu corno meu filho, se não o tivesses feito o povo esqueceria, assim vais ter os cornos à mostra a vida toda.

    - valter hugo mãe, o remorso de baltazar serapião



não querendo eu ser diferente de todos os outros críticos, ou igual já que a comparação é por mim introduzida, também eu, ao comentar a obra de valter hugo mãe, imito o autor na sua revolta contra as letras maiúsculas. segundo o próprio, serve para acelerar a leitura e a verdade é que, não sei se à conta das minúsculas se da prosa escorreita, a leitura de o remorso de baltazar serapião foi para mim uma prova de velocidade, um livro do qual não consegui desviar os olhos.

valter hugo mãe quis dar-lhe uma escrita datada, para melhor introduzir o leitor nos jeitos rurais do portugal da idade média e conseguiu-o. os diálogos parecem extraídos de textos com quase tantos anos como os da fundação do país e a escrita, apesar de se estranhar ao princípio, corre bem dentro de nós logo a seguir até a uma altura em que, quando damos por ela, estamos a pensar na mesma linguagem com que o remorso de baltazar serapião foi escrito.

o livro conta na primeira pessoa a vida de baltazar, empregado de d. afonso e filho de pai com mesmo nome que o seu senhor. o seu irmão, aldegundes, torna-se pintor após a morte da mãe e a sua irmã, brunilde, desde cedo que trabalha na casa senhorial com part-times em serviço privado ao seu senhor. baltazar apaixona-se por ermesinda, com quem casa por vontade parental. seu amigo de sempre, teodolindo não consegue mulher que não seja para se aliviar, sempre a teresa diaba, usada como alguidar de fluídos masculinos por toda a aldeia. os serapião têm, no entanto, uma peculiaridade, uma vaca não de uso mas de estimação, a sarga, que parece viver muito para além da sua idade devida só de carinho pela família. carinho recíproco que lhes valeu o seu próprio nome de família ser substituído pelo da vaca, ficando todos os daquela laia conhecidos como "os sarga", para o bem e para o mal. corre mesmo a lenda entre as pessoas da aldeia que os filhos de afonso não são filhos da própria mãe mas da ligação ilícita entre homem e vaca. à parte isso, os sarga, ou serapião, levam uma vida simples como os outros daquele tempo. isto até ao casamento de baltazar e ermesinda. pois que o senhor feudal daquelas terras, d. afonso, mandou que ermesinda, menina mais bela de toda a povoação, o passasse a visitar todos os dias, bem cedo pela manhã, ainda antes de d. catarina sua mulher acordar. o que, está claro, não caiu no goto de baltazar que logo começou a desconfiar da infidelidade da mulher com o patrão mesmo com todas as negações que a bela ermesinda proferia. aqui começa a desgraça de baltazar e dos sarga, perdão, dos serapião.

este livro é um murro no estômago, e perdoem-me a expressão tão batida em jornais e revistas por esse mundo fora, de todos aqueles cantores do infortúnio que pregam que a palavra escrita está tão morta quanto os seus maiores mestres. antes pelo contrário, viva que está, tal como alguns dos que melhor a dominam, esquecendo mesmo saramago e lobo antunes, temos em jovens autores como valter hugo mãe a prova de que a escrita rejuvenesce a cada ano que passa. nesta obra, valter hugo mãe brinca com as letras e enterra-nos num passado português que por vezes fazemos intenção de esquecer e que, ao pensarmos nisso, não é tão passado assim. falo, é claro, do tema central e despercebido da obra, que mais que esmiúfrado foi por críticas de todos os jornais do país, falo da violência doméstica presente ao longo de todo o texto como um murro bem dado, e perdoem-me a repetição da fraca expressão, nos costumes que parecem enraizados no mundo português, já desde aqueles tempos longínquos em que um homem podia ser dono de outros iguais a ele só por morarem em terras que lhe foram oferecidas por real bondade.

De salientar ainda a brilhante escolha dos nomes dos personagens. talvez se afastem um pouco da realidade, mesmo daquele tempo, à excepção de nomes mais comuns como afonso ou baltazar, mas é inegável o sorriso que ler o nome dagoberto ou aldegundes causa no primeiro impacto ao leitor.

o livro parece calejado de sexo por toda a parte. de que outra maneira poderia ser se esse parece ser, mais do que o dinheiro, a raiz de todos os males humanos e, ao mesmo tempo, de todos os prazeres? fala-se tanto de sexo que dois capítulos lidos e já nem nos apercebemos disso. valter hugo mãe tem o condão de pôr o leitor à vontade no que toca a falar de assuntos que para muitos são ainda mantidos entre portas. fala-se em cobrições, em desejo, em violação consentida com tamanho à vontade, como coisa tão natural para os homens daquela época, que nos fica a dúvida se a evolução do português trouxe de bom alguma coisa ao fruto proibido. parece afirmado que evoluímos para esconder o prazer do sexo que se pensa aliado da violência, quando não devia ser assim. talvez seja essa a mensagem que o autor quis transmitir, mais que denunciar a violência contínua desde os tempos feudais. talvez valter hugo mãe aproveite para dizer que escondemos o sexo porque o associamos a um acto de violência ancestral contra o género feminino.

a verdade é que naquele tempo, tanto o sexo como a violência doméstica, não eram motivo de vergonha. antes pelo contrário, vergonha era a do homem que não tivesse mão na sua esposa. tanto era o medo que o protagonista tinha de ser cornudo que marcava a esposa para que todos soubessem que pelo menos manso não era. valter hugo mãe retrata de modo magistral, na pessoa de baltazar, a angústia de um homem simples e rude que, de tanto amar a mulher, como ele próprio diz, a parte de pancada. a dor de baltazar, compreensível se fosse atenuada por atitudes diferentes é deliciosamente explorada por este talentoso escritor.

muito mais fica ainda por dizer deste livro e desta prosa, tão diferente de tudo o que temos visto nos últimos tempos. Por isso valter hugo mãe é um autor a não perder de vista, ainda para mais que acaba de lançar um novo livro "o apocalipse dos trabalhadores". se vos pareceu estranha a linguagem ao longo desta análise, não estareis errados - o efeito da prosa diferente de o remorso de baltazar serapião parece ter uma longa duração, os meus leitores que me perdoem, e o autor se lhe chegar aos olhos esta crítica, por tão má tentativa de imitação de estilo, mas juro que é involuntário. ainda lhe vou tomar o gosto é a escrever em minúsculas, pode não melhorar a leitura, mas a escrita é muito mais fácil para um preguiçoso como eu.

escrito originalmente aqui.
« Última modificação: Novembro 08, 2008, 01:16:28 por Tim_booth » Registado

damasco
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« Responder #1 em: Setembro 14, 2008, 21:19:18 »

... E ainda outra análise muito boa. Eu também aprecio bastante este autor.
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Tim_booth
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« Responder #2 em: Setembro 14, 2008, 21:22:04 »

O mercado está pejado de bons autores novos. O próximo que quero experimentar é o José Mário Silva. A Dite já me disse coisas boas dele e no blog deixa bons indícios...
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Laura
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« Responder #3 em: Setembro 14, 2008, 23:11:02 »

Como eu te compreendo, Tim... Quando um livro me apaixona, durante uns tempos também fico a escrever como o autor... lembro-me que após a leitura do Silmarillion, até escrevi poemas em élfico... hoje em dia já não compreendo o que escrevi.
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Tim_booth
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« Responder #4 em: Setembro 14, 2008, 23:47:50 »

Tens de o voltar a ler então... Mas por acaso isto acontece-me muito, mesmo involuntariamente. Se leio Saramago, esqueço que existe pontuação para além do ponto final e da vírgula, quando é Lobo Antunes sinto sempre uma revolta silenciosa nas palavras e uma certa desconexão aparente entre palavras; quando é Cardoso Pires são palavras como Marialva e coisas assim que não paro de usar... devo ser extremamente influenciável... Agora comecei a ler outro de Saramago, preparem-se para parágrafos intermináveis...

Cheers
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RosaMaria
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« Responder #5 em: Setembro 15, 2008, 21:39:16 »

Leio depois.... (acrescente o que quiser então)
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jinhos
Rosamaria
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« Responder #6 em: Setembro 15, 2008, 21:43:33 »

Em primeiro lugar, obrigado Rosa por me desbloquear aqui o espaço.

Queria-vos só dizer que, tal como tinha feito com José Luís Peixoto, convidei Valter Hugo Mãe para passar por lá e ler a análise: desta vez o autor acedeu ao meu pedido e aparentemente gostou, já que deixou no seu blog um link e um post de agradecimento.

Aqui fica o endereço do autor:

http://casadeosso.blogspot.com/
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Laura
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« Responder #7 em: Setembro 15, 2008, 21:46:49 »

Afinal, não vieste de mãos a abanar, Tim... Parabéns! É bom, ver o teu talento reconhecido por outros!
abraço,
Laura

PS: Estás a ficar famoso!
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Tim_booth
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« Responder #8 em: Setembro 15, 2008, 21:48:34 »

Famosíssimo, ui ui Smiley

Obrigado Laura,

Cheers
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Mel de Carvalho
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« Responder #9 em: Setembro 15, 2008, 21:49:12 »

Tim, li este seu trabalho no seu blog. Belíssimo que está o blog e excelente o seu trabalho.

Abraço da Mel
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Mel de Carvalho
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Tim_booth
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« Responder #10 em: Setembro 15, 2008, 21:50:42 »

Muito obrigado Mel, agora o Blog vai andar um bocado parado, a obra que estou a ler é looonga... mas vai valer a pena.

Cheers
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