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Autor Tópico: A Viagem do Elefante  (Lida 309 vezes)
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Tim_booth
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« em: Novembro 12, 2008, 02:32:04 »

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No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que mais vale ser romancista, ficcionista, mentiroso. Ou cornaca, apesar das descabeladas fantasias a que, por origem ou profissão, parecem ser atreitos.

- José Saramago, A Viagem do Elefante




De viagem, e não mais do que isso, trata o novo livro do Nobel da Literatura português. A data de lançamento do livro não será alheia ao facto de se comemorarem dez anos sobre o mês em que foi anunciado o nome de Saramago para o prémio, que se lembrou no passado mês de Outubro com numerosas reedições e promoções sobre as antigas edições do autor, nem à estreia nas salas portuguesas da adaptação ao cinema por Fernando Meirelles do Ensaio Sobre a Cegueira que acontece depois de amanhã. Não será, certamente, o livro alheio a isto mas a história é. E, como comecei logo por dizer, a história não é mais do que uma viagem. Uma longa, não tão longa assim, viagem.

E aqui, logo após uma pequena introdução ao livro ou ao autor ou ao motivo que me moveu a ler determinada obra, tenho por costume dedicar umas quantas linhas à curta sinopse do enredo. O que neste caso me está a causar celeuma é que as linhas serão ainda mais curtas do que o habitual, e daí este introdutório anormal, porque história tão simples é difícil de encontrar. Talvez por isso o próprio autor se recuse a qualificar A Viagem do Elefante como um romance, preferindo a designação mais modesta, ou não, de conto.

Algures pelo século XVI, e aqui começam as dúvidas, é isto um livro de características históricas ou não, digo-vos eu que não, não é, os factos verdadeiros, ou assim descritos pelos documentos que aos dias de hoje, não encheriam nem uma página, nas palavras do próprio Saramago, dizia eu que algures no século XVI, D. João III de Portugal decide presentear o seu primo Arquiduque Maximiliano da Ãustria com um elefante indiano que estava há dois anos em Lisboa, vindo de Goa. Feitas as necessárias diligências burocráticas, elefante e restante comitiva, não esquecendo, é claro, o seu tratador, o cornaca Subhro, partem para Figueira de Castelo Rodrigo onde será entregue à comitiva austríaca que aí o iria receber. Em terrenos espanhóis, até Vallaidolid, uma escolta luso-austríaca acompanha o paquiderme à presença real para este ser entregue ao novo dono que estava, até aquela data, em Espanha. Os portugueses voltam à pátria com a sensação de dever cumprido, e Subhro, que agora se chamará Fritz a mando do Arquiduque, tal como Salomão se passará a chamar Solimão, mais os Arquiduques e restante séquito atravessam a Europa em direcção à Viena de destino. Isto é o enredo e, como se vê, não é mais do que uma viagem de um elefante, como tão bem está descrito no título do livro.

Incrível é como um livro tão curto, em comparação com outros do mesmo autor, pode ter tanto para ser dito acerca dele. Há quem diga que este é o melhor Saramago dos últimos dez anos, por exemplo aqui, mas pessoalmente sinto-me incapaz de corroborar ou descartar tal afirmação pelo simples facto de que não li todos os livros que o autor escreveu na última década, ou para ser mais preciso, não li nenhum, o que é uma afirmação perigosa da minha parte dado a declarada admiração que nutro pelo senhor de oitenta e cinco anos de idade, mas, enfim, não sendo uma parte maioritária da obra, cinco livros dão-me a força suficiente para arriscar tal admiração. Agora, mesmo não podendo dizer que este é o melhor dos últimos anos, posso dizer que este é um Saramago ao nível do seu melhor (Ensaio Sobre a Cegueira, O Ano da Morte de Ricardo Reis), onde o autor apresenta uma visão singular, bem mais leve e despreocupada, até despretenciosa se quiserem, sobre a vida numa metáfora simples, a viagem de um elefante, do que fez nos últimos tempos. Talvez este seja o livro indicado para calar os críticos que o acusam de escrever sempre a mesma coisa, este é um livro bem diferente do dos cegos, mantendo, no entanto, o discurso tão característico que me apaixonou.

A metáfora é simples e clara: a vida é um elefante em viagem desde Goa, onde nasceu, até Viena, onde há-de morrer. Na vida temos um cornaca que olha por nós e nos ensina coisas, temos um ou mais senhores com poder sobre nós, e temos a oportunidade de fazer milagres, dependendo da nossa vontade. A viagem é carregada de pessoas que a atravessam. Esta é, para mim, a interpretação não literal mais literal que se pode fazer com o livro amarelo. Não me aventuro em mais do que isto porque nem o adiantado da hora a que escrevo, nem a minha falta de capacidade para penetrar nos muitos recônditos que uma viagem elefantina pode ter, me deixam fazer mais do que isto.

Tal como a vida, uns passam e nem se nota que passaram, como as várias populações pelo caminho, outros serviram um propósito, como a tropa austríaca, outros partem e deixam saudades, como o capitão luso. É algo enervante neste livro, com a excepção do próprio elefante e de Subhro, o leitor não consegue criar laços com mais ninguém. Começa o rei por estar debaixo do olho que lê, não tarda o secretário a tomar o seu lugar e a tornar-se alvo da curiosidade do leitor, e quando nos apercebemos, já o capitão português está a desaparecer da trama sem mais voltar, o que é uma pena, diga-se em abono do sentimento, porque este homem era um verdadeiro justo e bom personagem que esvaziou a viagem quando dela saiu.

A nível estritamente literário, vou-me limitar aquilo onde me sinto mais à vontade, como se estritamente literário fosse alguma espécie de campo delimitado por linhas concretas, este livro é o que se esperaria de um dos maiores mestres da língua lusa. Nunca vi Saramago como um romancista puro, para mim a sua voz foi sempre mais própria de um senhor que conta histórias à lareira, ao anoitecer, para quem o quiser ouvir, e isso é uma característica que o próprio autor assume quando dispensa o fictício narrador de uma história para se assumir ele próprio como uma espécie de autor-narrador. Saramago distancia-se da norma de que alguém conta através de alguém uma história, ou seja, dispensa o narrador intermediário nas questões da narrativa, para ele mesmo contar directamente ao leitor a história de Salomão. Verdade que esta característica já se vinha notando desde sempre nos seus livros, mas está especialmente clara neste último.

Há um sem número de episódios que marcam a viagem, a do livro, agora, como já disse, refiro-me apenas ao livro e não a elações que dele tirei. O homem perdido no nevoeiro será talvez a mais importante, o homem que se salva graças ao grito de Salomão que mais ninguém foi capaz de ouvir só para depois desaparecer com um "Plof" (extracto desse episódio aqui). Há o milagre que não o foi em Pádua, há o milagre que foi-o sem o ser ao chegar a Veneza. E há personagens marcantes para além do pobre cornaca e do seu elefante, refiro-me em especial e com carinho declarado pelo cavaleiro português que lia romances de cavalaria e que se queria tornar num cavaleiro de romance. Azar o dele, porque isto, afinal, é um conto.

Alongo-me já, alongar-me-ia muito mais se me sentisse capaz de o fazer, não em resistência, mas em arte para tal. Este livro será alvo de muita atenção em futuro próximo por muita gente, não tenho dúvidas, tal como não tenho dúvidas que quase todos poderão dizer muito mais e muito mais acertadamente do que aquilo que eu disse.

A Viagem do Elefante dificilmente chegará ao patamar de importância para os seus leitores que o Ensaio Sobre a Cegueira chegou, não por ser um livro menor mas por ser um livro assumidamente menos marcante (a violência física e psicológica no ensaio marca bem mais facilmente que um divertido conto sobre uma viagem internacional de um paquiderme) e mais conformado, se assim se pode dizer, com a vida e as suas inevitabilidades. No entanto, A Viagem do Elefante está para a literatura portuguesa como um Stradivarius está para os violinos. É um livro practicamente perfeito. E inesquecível.

Escrito originalmente aqui.
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« Responder #1 em: Novembro 12, 2008, 11:15:50 »

Uma boa alegoria, esta que Saramago usa. Como sempre, maneja este recurso de forma sábia. Mas não concordo que "A Viagem do Elefante está para a literatura portuguesa como um Stradivarius está para os violinos." Tão pouco para a dele. Será, antes, um conto sobre a vida, no fim da vida... a sua própria vida... talvez. Mesmo assim, muito bom.
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Tim_booth
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« Responder #2 em: Novembro 12, 2008, 21:37:59 »

Hum, tudo bem Goreti, sou dado a hipérboles, talvez este não seja o Stradivarius da literatura portuguesa de sempre, mas do que ele escreveu não estará muito longe disso.

Cheers
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Laura
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« Responder #3 em: Novembro 13, 2008, 00:56:18 »

Toca a ler este, então. Um retrato da vida, então, dos que passam e nem se nota que passaram… deve ser a maior parte.  Cheesy E os que marcam e se vão embora cedo demais. De Goa até Viena… vamos lá ver então esse caminho.
Tim, a cornaca é tipo o grilo do Pinóquio?

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« Responder #4 em: Novembro 14, 2008, 12:40:45 »

Laura, não é A Cornaca, é O Cornaca, é como chamam ao Subhro, o tratador do elefante Smiley
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Laura
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« Responder #5 em: Novembro 15, 2008, 00:58:23 »

Citar
Na vida temos um cornaca que olha por nós e nos ensina coisas

Tens razão, Tim. Desculpa o engano, perfeitamente legítimo... também sempre achei que o grilo do pinóquio era uma grila... Cheesy
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« Responder #6 em: Novembro 15, 2008, 18:31:49 »

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