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Autor Tópico: Ant√≥nio Simplesmente  (Lida 223 vezes)
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Nação Valente
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outono


« em: Julho 15, 2022, 19:02:41 »

Literatura de Cordel

António Simplesmente

Fascículo I-Noite de terror e alegria
 
Anoite em que ia nascer Ant√≥nio Simplesmente, ficar√° na mem√≥ria do povo de Oliveira do D√£ocomo o princ√≠pio do apocalipse. Ao cair da tarde, daquele dia de Abril de 1889 pesadas nuvens de chumbo come√ßaram a levantar-se para os lados de Montemuro. Com grande rapidez e empurradas por um vento uivante e g√©lido pararam amea√ßadoras sobre a pequena e laboriosa aldeia beir√£ de Oliveira do D√£o. Ao cair da noite, a tempestade anunciada come√ßou o seu espet√°culo de luz e som. Feixes faiscantes cruzaram o horizonte, ribombaram assustadores trov√Ķes, do c√©u caiu uma chuva que rapidamente transformou ruas em rios caudalosos. Parecia que os elementos mais tr√°gicos da natureza se tinham reunido para se vangloriarem pelo menino t√£o esperado por aquela fam√≠lia humilde.
 
O pai do esperado nasciturno, Zé da Avó, feitor das terras dos fidalgotes da aldeia, apercebeu-se da borrasca e mandou os criados de manjedoura recolher o gado, guardar em lugar seguro as alfaias agrícolas e dispensou-os a tempo de serem atingidos pelo temporal que pesava nas suas cabeças.
-Metam o gado nas arramadas e recolham-se em sitio seguro, pois isto est√° a ficar feio.

Zé assim que acabou de tomar as providências, saiu apressado da umbria dos soitos ainda a noite não se levantara. Ao chegar ao povoado começou a cair uma chuva que martelava o tosco empedrado das ruas sem piedade. O feitor era um homem simples que fora enjeitado pela mãe, depois de esta ter sido escorraçada como cão sarnento pelo pai, por ter parido sem se lhe conhecer qualquer conversado. Foi criado pela avó, que o ensinou a ser um homem às direitas. Da mãe, sumida no mundo, nunca mais houve notícias e nem sequer se podia pronunciar o seu nome.
Quando chegou √†s portas da aldeia o c√©u caiu-lhe em cima. Um rio vertical de √°gua, fogo e sons estereof√≥nicos quase o arrastavam para as profundezas do inferno. Lutador habituado a fintar as agruras da vida, estugou o passo mas sentia as pernas prisioneiras de for√ßas tel√ļricas que queriam absorver o seu corpo alto e esguio. Encharcado da cabe√ßa aos p√©s, arrastou-se com dificuldade envolvido por raios que quase o trespassavam. Quando puxou a taramela da porta de pinho do casebre onde pernoitava, j√° as quatro filhas, cujas silhuetas fantasmag√≥ricas se projetavam na parede caiada e obscurecidas pelo fumo, estavam prostradas em frente da lareira e invocavam numa lam√ļria sem fim, os pr√©stimos de Santa B√°rbara.

O filho que ia nascer, esperava tranquilo na barriga da mãe, Maria Simplesmente. Indiferente, ou talvez não, ao desconcerto da natureza, continuava tranquilo e sem pressa de entrar no mundo que o reclamava. As águas que o envolveram espraiavam-se pelos lençóis de linho duro, onde a sua mãe se contorcia com dores a cada convulsão, ansiosa pelo desenlace. D. Sebastianina que assistira a tantos parimentos como cabelos tinha na cabeça, preparava um alguidar com água quente, enquanto animava a parturiente:-está quase Maria, só mais um esforcinho.
Maria Simplesmente era feita de outra massa. Tinha na sua ascendência gente de estatuto. Falava-se de um capitão e até de um médico de província. A família entrou em caminho descendente, mas a fina linhagem expressa nos genes continuou presente. Deram-lhe uma educação esmerada e chegou a ser regente escolar. O casamento com Zé da Avó foi uma paixão assolapada, tipo camiliano. Na modéstia e na pobreza, o casal era feliz e para a felicidade ser completa, apenas lhe faltava um filho.
 
Z√© d¬īAv√≥, mal entrou no aconchego do casebre ,escarrapachou-se na panela trempe, que aquecida a mato, cozia o caldo de couves do jantar, procurando secar as roupas empapadas que escorriam √°gua para o lajedo do ch√£o, e lhe enregelavam o corpo.Ainda n√£o se tinha recomposto do susto, nem encontrado lucidez para perguntar pela mulher em vias de parir, quando D. Sebastianina saiu do quarto com um rec√©m-nascido nos bra√ßos. Da toalha escura onde vinha embrulhado escorregavam uns alvos pezinhos. Z√© aproximou-se emocionado...que diabo, afinal era o var√£o da fam√≠lia que acabara de chegar. Uma alegria breve invadiu Z√© d`Av√≥ porque, de repente, rodopiou nos tac√Ķes cardados das botas e escondeu a cara entre as m√£os. As filhas, com licen√ßa de Santa B√°rbara, aproximaram-se do pai. Duas grossas l√°grimas como rios incontrol√°veis corriam-lhe pelas rugas e serpenteavam entre os pelos da barba mal semeada. Cerrou os punhos e disse: -Maldi√ß√£o! o mo√ßo tem um p√© de cabra. Sebastianina serena e confiante procurou acalmar Z√©, -n√£o se amofine com esse pormenor. Tem aqui um rapag√£o que vai dar muito que falar e at√© muito que calar, digo-lhe eu sem medo de errar, pois s√≥ os predestinados √© que falam na barriga da m√£e. E este, ouviu-o eu, com estes dois que da terra s√£o. Quem viver ver√°. Ser√° Ant√≥nio um infeliz aleijado ou um g√©nio salvador?
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #1 em: Julho 15, 2022, 19:29:44 »

Vai ser um salvador, certamente.

Abraço
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Nação Valente
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outono


« Responder #2 em: Julho 19, 2022, 21:11:43 »

Veremos.

Fascículo 2

Quando Ant√≥nio viu pela primeira vez a escurid√£o da noite, uma tempestade diluviana quase destruiu a laboriosa aldeia de Oliveira do D√£o. O seu nascimento, t√£o desejado, foi para aquela fam√≠lia humilde  como a luz redentora de uma casa sem herdeiro var√£o. Alegria e perplexidade invadiram como um turbilh√£o devastador a mente dos pais e irm√£s de Ant√≥nio. O seu p√© defeituoso, foi visto, √† luz da religiosidade popular, como uma maldi√ß√£o e um castigo divino. O pai, Z√© d`Av√≥, arrasado com a f√ļria do dil√ļvio, ficou de rastos com aquela machadada do destino e n√£o conseguia pregar olho. As irm√£s, rezaram novenas at√© altas horas, para acalmar os maus esp√≠ritos. Apenas Maria, a m√£e cansada pela canseira da pari√ß√£o, manteve a serenidade e procurou animar as hostes pensando ‚Äúamanh√£ penso nisso" .E depois de alimentar o filho, dormiu a sono solto.
 
Entretanto, na mans√£o do morgado de terras do D√£o, Jo√£o Gon√ßalves Zarco, todas as criadas de fora e de dentro, foram reunidas na capela, para rogar pelo bom regresso do patriarca que fora a cavalo visitar uma herdade distante. J√° a noite ia alta e do fidalgote nem sinal. Dona Efig√©nia Zarco, acolhida √† cama por imperativos de gravidez, mandou um criado chamar o feitor Z√© d`Av√≥ com urg√™ncia, para pedir conselho sobre a demora do marido.O bra√ßo direito do morgado, apesar da ang√ļstia familiar que estava a enfrentar, n√£o se fez rogado e deslocou-se de imediato √† casa do patr√£o onde se inteirou da situa√ß√£o. Procurou acalmar dona Efig√©nia e prontificou-se de imediato a agir. Constituiu um grupo de servi√ßais para come√ßar as buscas, apesar de n√£o se enxergar um palmo √† frente do nariz.
 
Jo√£o Gon√ßalves Zarco aproximava-se com seu cavalo Al√£o, o mais seguro, fiel e inteligente da sua manada, quando foi atingido pela borrasca que se fez sentir em todo o vale do D√£o. Apressou o Al√£o como que a tentar antecipar-se √† f√ļria dos elementos e √† cheia eminente do rio, mas um golpe de √°gua repentino atirou-os ao ch√£o. Jo√£o e Al√£o, sentiram-se arrasta dos por uma corrente de √°gua e lama, que descia apressada da encosta. O seu corpo, chagado e dorido, rebolou desamparado at√© ser travado por uma sebe de canas, que ladeava as margens do rio. A for√ßa da torrente, indiferente aos seus apelos de ajuda, submergi-o e quase o abafava, mas o morgado n√£o era homem de desistir e recorrendo a todas as for√ßas presentes, passadas e futuras que possu√≠a, agarrou-se ao canavial que o protegia e com uma f√ļria mais cicl√≥pica que a do vendaval, conseguiu p√īr-se de p√©. De vez em quando, a escurid√£o era alumiada por grandes clar√Ķes de luz, seguidos de estrondos que silenciavam a voz das √°guas revoltas. Um homem da sua estirpe, com antepassados que tinham enfrentado a dureza das ondas oce√Ęnicas e vencido todos os Adamastores, n√£o podia deixar-se vencer por um regato de √°gua ocasional. Era um homem na flor da idade, alto como um choupo e duro como o a√ßo das suas alfaias. A esposa, D. Efig√©nia, ainda n√£o lhe dera o primeiro descendente e portanto o futuro da sua fam√≠lia n√£o estava garantida. Tr√™s vezes se levantou e tr√™s vezes a irrever√™ncia da ribeira improvisada o deitou ao ch√£o. Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade o caudal desenfreado diminuiu de volume. Foi quando sentiu as pernas fraquejar, a cabe√ßa rodopiar, o corpo amolecer e ao mesmo tempo ser invadido por uma sensa√ß√£o de n√£o estar.

Z√© d¬īAv√≥ chegou com os seus homens √†s margens do rio j√° os p√°ssaros sobreviventes anunciavam o nascer do dia com tristes trinados matinais. O espet√°culo dantesco que observaram f√™-los pensar no pior. O rio engordara para al√©m do leitoe apanhara coisas e animais desprevenidos que navegavam como n√°ufragos sem sentido. O moinho das Quebradas, local onde se passava a vau de uma para outra margem estava em parte submerso. Uma coluna de fumo espesso sa√≠a da chamin√©da casa do moleiro. Z√© bateu na grossa porta aferrolhada. O moleiro abriu a porta:
-Entrem já estava à vossa espera, disse aliviado.
Num canto da sala de pedra solta e negra de fuligem, ardia uma generosa fogueira junto da qual estava um vulto embrulhado num grosso cobertor. Aproximaram-se e os seus cora√ß√Ķes exultaram de alegria. Era o senhor de Oliveira do D√£o.
-Quando o temporal amainou sa√≠ para ver os estragos, que foram muitos, pelo menos um rodete e duas m√≥s foram levados, disse um homem atarracado e com uns olhos  pequeninos e piscos. Foi ent√£o que vi preso no a√ßude o Al√£o, o cavalo preferido do senhor Jo√£ozinho. N√£o o fazia por aqui, mas fiquei preocupado e peguei no petromax e caminhei pela margem. Em boa hora o fiz, porque uns metros adiante, na curva, vi o morgado preso no canavial. Estava enregelado...vim buscar um cobertor e uma bebida quente e consegui despert√°-lo e traz√™-lo para dentro do moinho. √Č um homem forte como um boi, sen√£o...
 
O disco solar despontava no horizonte quando Jo√£o Zarco entrou na sua casa, de p√©, mas muito combalido. D. Efig√©nia passou a noite numa dupla afli√ß√£o, entre a aus√™ncia do marido e as dores de parto que n√£o paravam de aumentar. Era uma mulher de aspeto fr√°gil mas muito corajosa. Suportou estoicamente aquela longa noite, mas ao raiar do dia as dores n√£o abrandavam e mandou um criado chamar o doutor Jo√£o Oliveira, que apesar de carregado de anos a dar sa√ļde √†s gentes da terra, n√£o demorou a estar ao seu lado. O primeiro som que o propriet√°rio Jo√£o ouviu ao entrar na sala de fora, foi um choro de crian√ßa. Refeito da surpresa, sentiu-se invadido pela mesma sensa√ß√£o que horas antes o atingiu no canavial, ao mesmo tempo que indo buscar ainda for√ßas, onde j√° n√£o as havia, se arrastou para o quarto conjugal, enquanto balbuciava: obrigado Senhor, tenho um herdeiro. Nos bra√ßos de D. Efig√©nia, feliz no grande sorriso, estava uma fidalguinha.
Ter√°  Gon√ßalves Zarco ficado satisfeito?
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Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Ol√°! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Ol√° para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Ol√° para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
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Bom fim de semana para todos
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Boa quinta para todos.
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Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
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Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
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Boa noite a todos.
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Boa quarta para todos.
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Boa noite a todos os presentes.
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Boa semana para todos.
Fevereiro 14, 2021, 15:29:30
Bom domingo para todos.
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