EscritArtes
Agosto 08, 2022, 22:28:23 *
Olá, Visitante. Por favor Entre ou Registe-se se ainda não for membro.

Entrar com nome de utilizador, password e duração da sessão
Notícias: Regulamento do site
http://www.escritartes.com/forum/index.php/topic,9145.0.html
 
  Início   Fórum   Ajuda Entrar Registe-se   *
Páginas: [1]   Ir para o fundo
  Imprimir  
Autor Tópico: António Simplesmente -4  (Lida 410 vezes)
0 Membros e 8 Visitantes estão a ver este tópico.
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1209
Convidados: 0


outono


« em: Julho 19, 2022, 18:19:29 »

Quando António viu pela primeira vez a escuridão da noite, uma tempestade diluviana quase destruiu a laboriosa aldeia de Oliveira do Dão. O seu nascimento, tão desejado, foi para aquela família humilde  como a luz redentora de uma casa sem herdeiro varão. Alegria e perplexidade invadiram como um turbilhão devastador a mente dos pais e irmãs de António. O seu pé defeituoso, foi visto, à luz da religiosidade popular, como uma maldição e um castigo divino. O pai, Zé d`Avó, arrasado com a fúria do dilúvio, ficou de rastos com aquela machadada do destino e não conseguia pregar olho. As irmãs, rezaram novenas até altas horas, para acalmar os maus espíritos. Apenas Maria, a mãe cansada pela canseira da parição, manteve a serenidade e procurou animar as hostes pensando “amanhã penso nisso" .E depois de alimentar o filho, dormiu a sono solto.
 
Entretanto,na mansão do morgado de terras do Dão, João Gonçalves Zarco, todas as criadas de fora e de dentro, foram reunidas na capela, para rogar pelo bom regresso do patriarca que fora a cavalo visitar uma herdade distante. Já a noite ia alta e do fidalgote nem sinal. Dona Efigénia Zarco, acolhida à cama por imperativos de gravidez, mandou um criado chamar o feitor Zé d`Avó com urgência, para pedir conselho sobre a demora do marido.O braço direito do morgado, apesar da angústia familiar que estava a enfrentar, não se fez rogado e deslocou-se de imediato à casa do patrão onde se inteirou da situação. Procurou acalmar dona Efigénia e prontificou-se de imediato a agir. Constituiu um grupo de serviçais para começar as buscas, apesar de não se enxergar um palmo à frente do nariz.
 
João Gonçalves Zarco aproximava-se com seu cavalo Alão, o mais seguro, fiel e inteligente da sua manada, quando foi atingido pela borrasca que se fez sentir em todo o vale do Dão. Apressou o Alão como que a tentar antecipar-se à fúria dos elementos e à cheia eminente do rio, mas um golpe de água repentino atirou-os ao chão. João e Alão, sentiram-se arrasta dos por uma corrente de água e lama, que descia apressada da encosta. O seu corpo,chagado e dorido, rebolou desamparado até ser travado por uma sebe de canas, que ladeava as margens do rio. A força da torrente, indiferente aos seus apelos de ajuda, submergi-o e quase o abafava, mas o morgado não era homem de desistir e recorrendo a todas as forças presentes, passadas e futuras que possuía, agarrou-se ao canavial que o protegia e com uma fúria mais ciclópica que a do vendaval, conseguiu pôr-se de pé. De vez em quando, a escuridão era alumiada por grandes clarões de luz, seguidos de estrondos que silenciavam a voz das águas revoltas. Um homem da sua estirpe, com antepassados que tinham enfrentado a dureza das ondas oceânicas e vencido todos os Adamastores, não podia deixar-se vencer por um regato de água ocasional. Era um homem na flor da idade, alto como um choupo e duro como o aço das suas alfaias. A esposa, D. Efigénia, ainda não lhe dera o primeiro descendente e portanto o futuro da sua família não estava garantida. Três vezes se levantou e três vezes a irreverência da ribeira improvisada o deitou ao chão. Ao fim do que lhe pareceu uma eternidade o caudal desenfreado diminuiu de volume. Foi quando sentiu as pernas fraquejar, a cabeça rodopiar, o corpo amolecer e ao mesmo tempo ser invadido por uma sensação de não estar.

Zé d´Avó chegou com os seus homens às margens do rio já os pássaros sobreviventes anunciavam o nascer do dia com tristes trinados matinais. O espetáculo dantesco que observaram fê-los pensar no pior. O rio engordara para além do leitoe apanhara coisas e animais desprevenidos que navegavam como náufragos sem sentido. O moinho das Quebradas, local onde se passava a vau de uma para outra margem estava em parte submerso. Uma coluna de fumo espesso saía da chaminéda casa do moleiro. Zé bateu na grossa porta aferrolhada. O moleiro abriu a porta:
-Entrem já estava à vossa espera, disse aliviado.
Num canto da sala de pedra solta e negra de fuligem, ardia uma generosa fogueira junto da qual estava um vulto embrulhado num grosso cobertor. Aproximaram-se e os seus corações exultaram de alegria. Era o senhor de Oliveira do Dão.
-Quando o temporal amainou saí para ver os estragos, que foram muitos, pelo menos um rodete e duas mós foram levados, disse um homem atarracado e com uns olhos  pequeninos e piscos. Foi então que vi preso no açude o Alão, o cavalo preferido do senhor Joãozinho. Não o fazia por aqui, mas fiquei preocupado e peguei no petromax e caminhei pela margem. Em boa hora o fiz, porque uns metros adiante, na curva, vi o morgado preso no canavial. Estava enregelado...vim buscar um cobertor e uma bebida quente e consegui despertá-lo e trazê-lo para dentro do moinho. É um homem forte como um boi, senão...
 
O disco solar despontava no horizonte quando João Zarco entrou na sua casa, de pé, mas muito combalido. D. Efigénia passou a noite numa dupla aflição, entre a ausência do marido e as dores de parto que não paravam de aumentar. Era uma mulher de aspeto frágil mas muito corajosa. Suportou estoicamente aquela longa noite, mas ao raiar do dia as dores não abrandavam e mandou um criado chamar o doutor João Oliveira, que apesar de carregado de anos a dar saúde às gentes da terra, não demorou a estar ao seu lado. O primeiro som que o proprietário João ouviu ao entrar na sala de fora, foi um choro de criança. Refeito da surpresa, sentiu-se invadido pela mesma sensação que horas antes o atingiu no canavial, ao mesmo tempo que indo buscar ainda forças, onde já não as havia, se arrastou para o quarto conjugal, enquanto balbuciava: obrigado Senhor, tenho um herdeiro. Nos braços de D. Efigénia, feliz no grande sorriso, estava uma fidalguinha.
Terá  Gonçalves Zarco ficado satisfeito?


« Última modificação: Hoje às 21:39:31 por Nação Valente » Registado
Maria Gabriela de Sá
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1081
Convidados: 0



« Responder #1 em: Julho 20, 2022, 12:59:00 »

Onde é que eu já li este texto?

Abraço
Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1209
Convidados: 0


outono


« Responder #2 em: Julho 26, 2022, 19:43:56 »

 
Tempo de corvos
 
Dias depois de completar doze anos, António ia partir para Viseu. Enquanto esperava pelo comboio na companhia da sua mãe, lembrou-se do primeiro dia em que frequentara a escola primária e do ar curioso e assustado dos meninos que com ele ocupavam a mesma trincheira da pobreza. Nascer pobre numa aldeia de um país periférico e atrasado significava, no final conturbado do século XIX, ter como destino a vida dura e austera de gerações de camponeses cujos horizontes se perdiam nas faldas das serras adamastóricas que aprisionavam vidas e sonhos. A fuga consentida para os jovens, com pacto secular com a miséria passava pela missão de servir nos caminhos do Senhor. Esse passo maior que as suas débeis pernas ia António dá-lo naquela manhã submersa a caminho do Seminário menor. Quando a máquina que se arrastava envolta numa nuvem de fumo, assomou da última curva e se aproximou da estação, pouca terra, pouca terra, António menino que queria ser forte, sentiu as pernas fraquejar e não conseguiu segurar uma lágrima que teimosamente lhe acarinhou o magro rosto. Um apito estridente, logo abafado por um longo silvo que escorregou pelas profundezas do vale do Dão, pôs aquela engrenagem de ferro e fogo em marcha cada vez mais acelerada. António encostado ao ombro da mãe, viu no cais os braços das irmãs a afastar-se como se resolvessem viajar para outras paragens. Mas para além da ilusão óptica, quem se afastava para um mundo povoado de sotainas pretas era ele.

Por detrás daqueles muros rigorosamente vigiados, onde se produziam os discípulos de Pedro, os dias passavam sempre iguais: aulas, rezas, missas, tudo muito condimentado com muita disciplina castigos divinos e terrenos para quem não respeitasse as regras. Deitado na sua cama, nas longas noites de Inverno, António saltava todas as barreiras e voava para Oliveira do Dão e para a liberdade de correria, tanto quanto lhe permitia o seu pé defeituoso, pelos campos abertos, agitando os milheirais, espantando a passarada do fim do dia, mergulhando nu nos pegos da ribeira (com os poucos moços que com ele se identificavam),nos dias quentes de estio ou olhando a menina dos olhos verdes que à tardinha o espreitava da janela e com quem se via a passear de braço dado depois da missa domingueira.

Tinha saudade do principal companheiro de estroina, que nascera um ano depois por insistência do patrão do seu pai, que não desistira de fabricar um varão, depois do nascimento da filha um ano antes. Quem pagou as favas foi dona Efigénia que ainda não acabara de desmamar a filha recém-nascida e já tinha um embrião a crescer dentro de si. António e Afonso tornaram-se amigos pois frequentava a casa do fidalgo e foi crescendo como se fosse filho adotivo. Frequentaram juntos a escola onde António mostrou inteligência acima da média e como e onde ganhou estatuto para prosseguir estudos. Mas quem nascia para ser peça da engrenagem produtiva, só tinha um caminho: o seminário. Quando regressava do devaneio, sobre a menina dos olhos verdes, António entristecia profundamente. Como seria possível se ia ser padre? Que raio de vida a do pobre!
Registado
Maria Gabriela de Sá
Contribuinte Activo
*****
Offline Offline

Sexo: Feminino
Mensagens: 1081
Convidados: 0



« Responder #3 em: Julho 27, 2022, 01:07:42 »

Prosseguindo....
Registado
Nação Valente
Contribuinte Activo
*****
Online Online

Mensagens: 1209
Convidados: 0


outono


« Responder #4 em: Hoje às 21:37:26 »

Tentações

António bem recomendado pela mãe e pela madrinha D. Efigénia, que lhe destinou a carreira eclesiástica, cumpria religiosamente as tarefas de seminarista. Habitou-se a sobreviver naquele meio hostil à sua natureza rural. Estabeleceu com os companheiros Américo e Marcelo uma cumplicidade que permitia amenizar o ambiente soturno e escuro do seminário. Depois da missa de domingo davam uma volta pela cidade. As suas sotainas pretas distinguiam-se no meio do colorido que animava as ruas do centro. Donzelas provocadoras, olhavam-nos com malícia como tentações saídas do inferno. Pares de namorados circulavam em amena cavaqueira como se pertencessem a outro mundo. Regressavam ao Seminário esquecidos do cinzentismo que ajudavam a compor, mas com grandes interrogações próprias da adolescência. Desafiando o pecado não conseguiam tirar da mente a imagem daqueles corpos femininos que observavam nos seus passeios e na solidão das retretes não conseguiam fugir à sua natureza humana pecaminosa aliviando os seus impulsos sexuais. Anos antes quando esses desejos começaram a perturbá-los viram-se inocentemente a praticá-los em conjunto, chegando a fazer campeonatos de produtividade.
Um dia, ao abrir a sua Bíblia, António encontrou uma estranha mensagem. Com a ajuda dosamigos procurou descobrir o seu autor. Pela caligrafia associou-a a Salomão um jovem estranho e portador de um olhar triste. "Se quiseres podemos ajudar-nos. Desabotoa dois botões da batina como sinal". Américo e Marcelo pensaram, pensaram e disseram a António:
-Não podemos entrar nos quartos dos outros, mas como as portas ficam abertas vamos espreitar o Salomão. Deslizaram como sombras ao longo do corredor e colados às paredes cinzentas foram-se aproximando do quarto suspeito. O silêncio do recolher pesava como chumbo. Os seus pés procuravam levitar para não despertarem nenhum demónio. Junto da porta olharam para o interior do quarto e os seus olhos não conseguiram enxergar no escuro denso, mas sons estranhos escapavam para o corredor. Um chiar de molas cansadas misturados com gemidos abafados desafiavam o silêncio obrigatório. Ao longe começaram a ouvir-se passos arrastados pelo peso dos anos. A figura colossal do Director começou a vislumbrar-se na penumbra. Os três mosqueteiros da sobrevivência afastaram-se a tempo de um castigo exemplar.
Quando voltou para o ùltimo ano no Seminário menor António já não encontrou Salomão, tinha sido expulso. O grupo de António não sentiu a sua falta e este comentou para os outros:
-Ao menos livrou-se desta cruz. E nós conseguiremos?
Registado
Páginas: [1]   Ir para o topo
  Imprimir  
 
Ir para:  

Recentemente
[Hoje às 21:37:26]

[Julho 31, 2022, 23:00:47 ]

[Julho 28, 2022, 15:57:20 ]

[Julho 24, 2022, 16:15:40 ]

[Julho 19, 2022, 21:11:43 ]

[Julho 10, 2022, 08:03:11 ]

[Julho 09, 2022, 17:54:44 ]

[Julho 01, 2022, 17:40:38 ]

[Junho 21, 2022, 17:09:42 ]

[Junho 21, 2022, 16:39:41 ]
Membros
Total de Membros: 792
Ultimo: Leonardrox
Estatísticas
Total de Mensagens: 129646
Total de Tópicos: 26551
Online hoje: 346
Máximo Online: 630
(Março 31, 2019, 09:49:42 )
Utilizadores Online
Users: 1
Convidados: 343
Total: 344
Últimas 30 mensagens:
Outubro 14, 2021, 00:43:39
Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Olá! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Olá para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Olá para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
Março 05, 2021, 20:17:07
Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
Fevereiro 18, 2021, 20:52:07
Boa noite a todos.
Fevereiro 17, 2021, 19:09:25
Boa quarta para todos.
Fevereiro 16, 2021, 19:10:20
Boa noite a todos os presentes.
Fevereiro 15, 2021, 14:54:45
Boa semana para todos.
Fevereiro 14, 2021, 15:29:30
Bom domingo para todos.
Powered by MySQL 5 Powered by PHP 5 CSS Valid
Powered by SMF 1.1.20 | SMF © 2006-2007, Simple Machines
TinyPortal v0.9.8 © Bloc
Página criada em 0.144 segundos com 28 procedimentos.