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Textos => Arquivo Cronicas => Tópico iniciado por: JLMike em Março 17, 2008, 01:35:32



Título: Vida Inacabada (Os Diarios) 2
Enviado por: JLMike em Março 17, 2008, 01:35:32
3 Agosto 2007

Venho forçar-me a escrever, não vá estes apontamentos caírem em desuso como tantos outros já caíram, num desuso parecido a um poço sem fim e onde todos os meus pensamentos se limitam a cair e a cair e a cair, ininterruptamente.
O meu coração voltou aos 80. Já os meus sentidos voltaram ao habitual (menos o sétimo que agora mal se exprime).
O mais estranho de tudo foi o meu coração normalizar logo a seguir a saber que não entraria no curso que queria e que provavelmente lixei a minha vida toda pois já não vou fazer o que gosto. O coração voltou ao normal e um grande peso pareceu sair-me de cima, como que a desilusão que teço para comigo próprio fosse mais leve que a talvez possibilidade de sucesso e bem-estar que por momentos vi em minha frente.
Agora espero, com pouquíssima vontade, admito, o resultado das outras candidaturas, a ver que tipo de Sr. me vou tornar, forçosamente. Mais uma vez consigo empurrar as minhas decisões para o simples acaso. Por isso sinto-me leve, sem preocupações, preso simplesmente ao destino.

“Ter o sentimento de estar preso e ao mesmo tempo o outro, o de que, se uma pessoa estivesse solta, seria pior.”

Como te compreendo.

Grande Kafka.

A ver se hoje vou ver o Disturbia. Embora saiba perfeitamente que o meu futuro no cinema está mais que condenado, ainda gosto de ver filmes…
Enfim… antes desconhecido e com talento do que famoso e com uma cabeça cheia de ar.

“Tonight, Tonight”
“Zero”
“Today”

Smashing Pumpkins…

14:59

***

Apenas acrescento algo que ontem me passou ao lado e esqueci.
Costumo beber pouco no que diz respeito ao álcool, e normalmente quando o faço é sentado. Quando me levanto dá sempre aquela sensação estranha, aquela tontura…
Ontem aconteceu o inverso… bebi de pé e nada senti. Mais tarde (10 minutos talvez), quando cheguei a casa e me sentei, senti a tal tontura…
Foi estranho.

17:36

Quatro minutos depois venho aqui só para acrescentar uma frase engraçada que li.

“…-o que está escrito irá, de acordo com a sua própria finalidade e com o poder superior do que foi fixado, tomar o lugar daquilo que se sentia apenas vagamente, de tal como que o sentimento verdadeiro desaparecerá enquanto o não valor do que foi anotado será reconhecido tarde demais."

17:42 (afinal foram seis minutos…)

***

Quero nada mais que prosseguir o pensamento que me veio à cabeça na altura em que aqui escrevi aquela frase.

“…-o que está escrito irá, de acordo com a sua própria finalidade e com o poder superior do que foi fixado, tomar o lugar daquilo que se sentia apenas vagamente, de tal como que o sentimento verdadeiro desaparecerá enquanto o não valor do que foi anotado será reconhecido tarde demais."

Acho que ler bastante Kafka me faz sentir mais parecido com ele. Gostava de saber quando morreu, tenho que pesquisar isso. Será possível eu ser ele reencarnado? Seria engraçado, suponho eu.

Ter este sitio para assentar as minhas coisas e aliviar a minha cabeça dos meus pensamentos que pesam em mim de uma forma pouco natural tem-me sido bastante útil. Consigo pensar melhor e as ideias surgem-me mais naturalmente. Talvez seja agora que acabe o meu livro e o leve a uma editora. Seria bom ter o meu nome impresso nalgum lado, perdurando por toda a eternidade…

“Lunacy Fringe” – The Used.
“Mrs. O” – The Dresden Dolls.

17:31(vou ao hospital daqui a pouco, ver da minha avó.)

Já voltou para casa, de robe cor-de-rosa, batidas ligeiramente mais fortes…

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E ele perguntou-me algo, mas eu não entendi bem o quê.
Respondi-lhe o que respondo sempre:
“Não, eu simplesmente não gosto das pessoas.”
Depois virei-lhe as costas e fui-me embora.

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Durante os próximos dias vou tentar não sair de casa muitas vezes. Tenho a certeza de que, a cada dez passos, serei interpelado e interrompido por inúmeras e várias pessoas para perguntarem todas elas o mesmo:
“Como está a tua avó? É verdade que foi para o hospital?” (isto pessoas que assistiram de primeira fila, esticando os seus pescoços bem alto por cima das pessoas, apenas para ver a minha avó entrar na ambulância.)
Ao qual eu irei responder, de forma automática e monocórdica.
“Está bem.” E sigo em frente.
Se por acaso continuarem a falar então terão o prazer de desfrutar dos meus mal dispostos “Pois, sim, pois.”
E se ficar muito cansado da conversa não terei papas na língua e direi logo “Estou com pressa, tenho que me ir embora, adeus.”

As pessoas são mesmo intrometidas…

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E ele perguntou-me algo, mas eu não entendi bem o quê.
Respondi-lhe o que respondo sempre:
“Não, eu simplesmente não gosto das pessoas.”
Depois virei-lhe as costas e fui-me embora.

“Necessary Evil” – The Dresden Dolls
“Savior” – 30 Seconds to Mars

22:24

Só quis voltar para anotar que as minhas batidas cardíacas voltaram a descer e são agora de 60 por minuto…


Título: Re: Vida Inacabada (Os Diarios) 2
Enviado por: Goreti Dias em Março 17, 2008, 09:14:47
Um diário interessante. Foca assuntos muito sérios. Essa questão de os jovens não poderem ter a profissão desejada é muito pertinente. Seríamos todos bem mais felizes se fizéssemos o que nossa vocação determina...
Depois, considero extremamente pertinente a discução sobre a intromissão das pessoas curiosas na vida dos outros, essa da ambulância está perfeita, já vi muito disso...
Um abraço