EscritArtes

Textos => Contos => Tópico iniciado por: Nação Valente em Novembro 16, 2012, 22:36:40



Título: Um dia especial
Enviado por: Nação Valente em Novembro 16, 2012, 22:36:40
O escritor António Lobo Antunes despediu-se, enquanto romancista, dos leitores, num artigo publicado na revista Visão e intitulado" Adeus". Pelo muito que me ensinou no pouco que sei, dedico-lhe este este modesto conto.



Manhã
Aquele sábado de fim de verão amanheceu escuro e chuvoso. Parecia que o céu, com o seu cortejo de nuvens prenhes como odres, se ia abater sobre a terra seca e faminta de água. Às oito da manhã. depois de engolir as sopas de café de cevada que todas os dias me davam energia para enfrentar mais um dia sem memória, deixei a casa dos meus avós onde vivia por opção, com cama, comida e roupa lavada e abalei para a casa dos meus atarefados pais sem tempo e disposição para me mimosearem
. Quando ia a meio do sinuoso percurso, cantarolando a canção, então em voga “só às paredes confesso” a nuvem negra desfez-se numa torrente de água vertical. Nunca tinha visto ou imaginado uma coisa assim. Até pensei que aquela fosse um principio do apocalipse, de que a jovem Célia, branca e pura como as imagens de madeira e tinta dos altares, falava com a sua boca decorada com um excitante tufo de pelos ruços, nas sessões de catequese, entre a missa dominical e o namorico com João Sapateiro.
O certo é que o esgarrão da minha angústia foi tão depressa quanto veio. As nuvens barrigudas como  barriga de burra prenha sumiram como o joio pelos buracos de uma peneira. Escampou,  e um sol brilhante como o pitromax da venda do senhor joão iluminou as alvas paredes de cal das casas da aldeia.
Enquanto me deslocava, com a dignidade de Zapata diplomático (percebi-o muito mais tarde) para a casa do  meu primo Ricardo, dois anos mais novo, com quem dividia as brincadeiras de infância, tive a estranha sensação que esse iria ser um dia diferente e digno de figurar nos registos da memória permanente.
 Os riachos de água e lama que se formaram nos sinuosos caminhos, serviram de motivo para a construção de um dique com o Ricardo, que transportava nas suas mãos sapudas de eventual cavador as pedras com que iria construir a sua vida sem futuro, enquanto eu juntava lama  para cimentar a barreira da nossa inocência campónia. E  enquanto  víamos o pequeno riacho deslizar das nossas mãos como cobra de água, ouviu-se de repente o ronco de um altifalante de muitos decibéis, que silenciou a melodia produzida pela água no seu contacto, ora brusco ora acariciante, com as pedras e a terra por onde deslizava, em direcção à ribeira.” De quem eu gosto, nem às paredes confesso…”: Tinha chegado à aldeia o cinema ambulante.
Uma alegria rara e pouco frequente fez-me estremecer como se tivesse sido vergastado por uma vara de zambujeiro verde. Deitei fora os bocados de lama que segurava nas mãos, esqueci-me do quotidiano salazarento, das reguadas diárias na escola do Estado Novo e do meu utilitário primo. Sabia que nessa noite iria assistir, no salão de bailes do senhor Armando, a uma sessão de imagens animadas com os meus avós que eram indefectíveis cinéfilos rurais.  A mesma alegria não contagiou o meu primo Ricardo. A sua família não era gente desses pequenos luxos no seu mourejar diário por uma côdea de pão.

Tarde
A tarde passava lenta e aborrecida. As horas arrastavam-se indefinidamente no relógio da torre sineira. Na minha ansiedade a noite tornara-se preguiçosa e demorava em cobrir de escuridão a sala de cinema improvisada, onde iriam rolar as imagens de mundos distantes e inimagináveis. Só o altifalante mantinha viva a minha esperança e distraía o meu espírito com as modas inofensivas da singeleza felicidade decretada pelo regime. De quando em vez anunciava a aventura que seria projectada na parede caiada do salão de bailes. “Venham ver as fabulosas aventuras do Robim dos Bosques”
. Quando chegou a camioneta da tarde que todos os dias trazia alguma ausência e levava alguma saudade, desembarcou, sem ser esperada a tia Susana e seus dois moços pequenos. que viviam longe e raramente visitavam a família na aldeia.  
Na casa dos avós houve muita satisfação. Matou-se um galo capão e a avó, cozinheira sem escola mas com tarimba, fez um suculento arroz de cabidela. O avô, abalizado bebedor nas vendas da aldeia, fez questão de regar o jantar com um forte vinho caseiro, guardado para ocasiões tão especiais como o nascimento de um bezerro de vaca leiteira. Depois de regalado o estômago o avô disse:
-Está na hora de irmos ao cinema. Já fui pôr as cadeiras no melhor lugar do salão do senhor Armando. Os dois  primos , não disfarçaram a seu contentamento e  como barbos saltitantes no cesto da pescaria. Ao anoitecer lá fomos estrada em o cortejo familiar rumo ao mundo das ilusões perdidas.

Noite
. O pequeno gerador que dava energia ao projector fazia-se ouvir entre os sussurros dos ansiosos assistentes. Lobo Antunes, o projecionista de ilusões, remendava uma fita que se partira durante a rebobinagem. Os moços pequenos , que os pais tinham soltado, como pardal que dera a monte, acomodavam-se no chão sujo e frio, à frente da primeira fila de cadeiras. Robim dos Bosques, o herói desse dia preparava-se para entrar em acção, com o seu bando de ladrões que só roubava aos ricos mas que não deixava por isso de ser ladrão. Ao dirigir-se ao local onde havia colocado as cadeiras, o avô constatou  que uma delas se deslocara, estranhamente, para junto de uma parede da sala. No seu lugar, outra cadeira, rigorosamente igual, suportava o rabo mirrado, como azeitonas de sal, do José Carola, agricultor, dono de cavalo de cobrição e ferrador da aldeia. O avô, que fervia em pouca água, avançou para o Carola, como besta picada pela mosca.
- Ó sua grande cavalgadura saia já desse lugar? Esse lugar é meu. Estava aí a minha cadeira
-Não estava aqui cadeira nenhuma, disse o Carola mais atarantado que burra assustada com a ferramenta do cavalo de cobrição. Este lugar estava livre quando eu cheguei.- Acha-me com cara de parvo, é? A minha cadeira já aí estava, e embora tenha pernas, ainda não sabe andar retorquiu o avô. Levante-se e retire o cu dessa cadeira nojenta ou racho-o já ao meio. O Robim no seu camarim de celulóide já se preparava para cavalgar pela densa floresta, enquanto o João Pequeno iria mais uma vez atirar dez soldados e o sherif com as suas cavalgaduras por um barranco abaixo. Menina Mariana estava na janela do castelo em estilo  carochinha sabidona desejosa de dizer a sua deixa “Quem me quer tirar daqui, nem que seja para uma união de facto”.
O Carola continuou colado ao seu assento, desafiador e confiante na sua razão, mas pouco tempo esteve de pé, pois o avô assentou-lhe a mão sapuda no focinho, dando-lhe uma  chapada, que o fez estatelar-se da sua cadeira, derrubando como pedras de dominó, alguns espantados e incautos espectadores, no lugar errado à hora errada. O Robim ansioso por se aventurar, (é esse afinal o seu papel,) no castelo com Mariana à janela, apesar de ser sempre barrado pelo malvado xerife, revia um daqueles truques que se aprendem no cinema e que consiste em atingi-lo bem entre pernas.
O Carola, ainda só pai de filharada ranhosa, alto espadaúdo e seco de carnes levanta-se tão rápido quanto permite a lei da gravidade, agarra o avô, bem mais portátil, pelo colarinho da camisa, que se desfaz em pedaços, como cantarinha de barro a estatelar-se no chão. O João Pequeno, que afinal até é grande e que com o seu bando está ansioso para entrar no solar de um titular, amarrando-o aos pés da cama e sacando-lhe as economias escondidas no colchão de penas. Ao fim e ao cabo uma boa acção, pois o povo está esfomeado de comida e de justiça.
O avô escapa das mãos calejadas do ferrador, agarra uma cadeira e enfia-lha no lombo. Outros espectadores são envolvidos no reboliço e rebolam, nas suas cadeiras desengonçadas. Os meus primos, olham espantados e a sua mãe, mais angustiada que peru na véspera de natal, está desolada  e tenta parar a briga. A prima, perdeu o casaco na confusão e chora baba e ranho, como é próprio da sua idade. Os soldados do xerife continuam serenos à espera que o projeccionista os autorize a atirar Robim para o fosso do castelo, fazendo-o depois de rebolar mais de dez metros, mas sabe-se que se levantará mais fresco que uma alface na brisa matinal. Mariana que assiste à cena de camarote, deixará fugir uma lágrima furtiva lubrificando a película.
De repente, os espectadores, conseguem separar os lutadores ocasionais. De repente, a pancadaria pára e as pessoas procuram acomodar-se nos seus lugares. As lâmpadas fecham as suas íris incandescentes e o projeccionista Lobo Antunes põe a fita em movimento e dá vida às vidas presas. José Carola ,volta a acomodar-se no seu lugar, mais amachucado que talega de azeite na prensa. O avô recusa-se a mudar e, espumando de raiva, assiste à sessão de pé, fundido na parede da sala, evaporado numa nuvem de indiferença. A avó, a tia e os primos, esperam receosos pelo fim da aventura. As imagens de sombra e luz ganham, finalmente, vida na parede branca do fundo da sala. Começam as cavalgadas, as espadeiradas, as emboscadas, os suspiros de Mariana, o castigo dos apoiantes do rei João…THE END.
A ilusão chegou ao fim. Ordeiramente os espectadores abandonam a sala, carregando as suas cadeiras de sofrimento e vazio, sem ilusões perdidas ou renascidas. Entre o burburinho da saída e o barulho do dínamo, Lobo Antunes, rebobina o filme e murmura para o fuinha  de cigarro apagado ao canto da boca desdentada e que o ajudava a desmontar a máquina que fabricava imagens na solidão do escuro:-Estes serrenhos são mais selvagens que as personagens das minhas fitas. Respira fundo e mede as palavras: Aproveitaram o facto de eu tirar  uma cadeira para colocar o altifalante, para perturbarem o meu espectáculo. Não volto a esta terra de miseráveis brigões. O magricela, enrolava os últimos fios e estendia no chão duro de ladrilhos a manta onde havia de passar a noite com o cigarro apagado a saltitar no som dos seus roncos sibilantes.  Robim no sossego do celulóide pode finalmente descansar. Amanhã é outro dia. Na cama, ao lado de Mariana e como um irmão bem comportado dorme a sono solto. FIM


Título: Re: Um dia especial
Enviado por: Goreti Dias em Dezembro 03, 2012, 16:40:32
Excelente prosa! Entenda-se lá porque não encontrei este conto antes!


Título: Re: Um dia especial
Enviado por: Nação Valente em Janeiro 26, 2013, 19:09:13
Muito obrigado Goreti por ter encontrado este conto e ter tido a gentileza de o comentar. E mesmo com algumas gralhas, aborrecidas de corrigir(questões burocráticas) aproveito a boleia para o destacar, em homenagem a quem é dedicado.


Título: Re: Um dia especial
Enviado por: Goreti Dias em Janeiro 27, 2013, 09:44:23
Se pretender que se faça a correção, é só dizer! Sempre aproveito para o ler mais uma vez!


Título: Re: Um dia especial
Enviado por: josé antonio em Janeiro 27, 2013, 11:02:48
Olá Goreti,

Oportunismo disfarçado! Rssss... :woot:

Abraço
JA


Título: Re: Um dia especial
Enviado por: Nação Valente em Janeiro 26, 2018, 20:46:07
A minha renovada homenagem a Lobo Antunes e para quem ainda não leu, se quiser, o poder fazer. Um mãos largas.


Título: Re: Um dia especial
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 29, 2018, 23:45:05
Mas ele não se despediu, desde então já publicou talvez deis livros....