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Fugas => Escrita Contínua => Tópico iniciado por: Administração em Abril 30, 2015, 18:52:22



Título: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Abril 30, 2015, 18:52:22
CONCURSO

 "Uma vida por 600 neurónios"



É verdade. Todos temos recordações, muitas ou poucas do nosso passado e mesmo presente. Umas mais agradáveis que outras, mas todas elas ficaram e/ou ficam gravadas. E ainda bem. Outras, inventámo-las por aí...

Desta feita, o nosso desafio é propor-vos a partilha dessas vossas/nossas recordações ou até dos vossos sonhos, (tema livre).


E AS REGRAS SÃO ESTAS:

 
- Cada texto não deverá exceder os 600 caracteres, incluindo espaços;

- Os textos inéditos concorrentes deverão ser enviados para: administracaoescritartes@gmail.com (Assunto: “uma vida por 600 neurónios”) nunca postados diretamente pelos autores, em qualquer tópico que seja do site. Se tal vier a acontecer antes dos resultados finais, o texto será retirado de concurso.

- Cada participante poderá concorrer com a quantidade de textos que pretender, mas sempre e somente textos distintos, isto é, nunca continuação de anteriores. A cada um, será atribuído um número de série com que será publicitado no site e se apresentará a votação. Os concorrentes devem assinar o texto com o seu nome de utilizador no site, embora isso depois seja retirado do texto que se apresenta a votação.

- O último dia para recepção dos textos concorrentes será o dia 30 de julho de 2015;

- A partir de tal data, a Votação será aberta em tópico controlado pela Administração. O apuramento dos resultados é automaticamente apresentado pelo site e o respectivo anúncio será feito no decorrer do VIII Grand Rendez Vous , no dia 10 de Outubro de 2015 em local a anunciar atempadamente;

- Existirá um primeiro prémio pecuniário de 50 euros e o livro "Sinais de fogo" de Jorge de Sena, oferecidos pelo Escritartes;
- Existirá um segundo prémio, constituído pelas três últimas (V,VI e VII) colectâneas do site.
 
- Cláusula única:

O Vencedor(a) fica automaticamente obrigado a colaborar com as suas respostas numa entrevista a ser-lhe dirigida pelos Organizadores. Deverá também disponibilizar o seu NIB/IBAN para transferência bancária.


 .


Título: Re: Uma vida por 600 neurónios
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 30, 2015, 20:24:08
Estou nessa!


Título: Re: Uma vida por 600 neurónios
Enviado por: Goreti Dias em Abril 30, 2015, 20:45:05
Bora lá! rsrrsrs


Título: Re: Uma vida por 600 neurónios
Enviado por: Dionísio Dinis em Maio 01, 2015, 09:47:50
Vamos lá meter as mãos pelos ditos!


Título: Re: Uma vida por 600 neurónios
Enviado por: josé antonio em Maio 01, 2015, 10:35:00
Bom dia,

Que se repita o êxito do " Imagens da Nossa Memória " que ficou mesmo memorável.

Abraço

JA


Título: Re: Uma vida por 600 neurónios
Enviado por: Alcanaro em Maio 01, 2015, 13:28:21
1,2,3,............... 100,...................................600!
Estão todos!
Toca a escrever.
Abraço.


Título: Re: Uma vida por 600 neurónios
Enviado por: Goreti Dias em Maio 01, 2015, 18:58:39
Alcanaro, já viu em que dia é anunciado o resultado?


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 05, 2015, 19:58:31
Texto n.º 1


Na junção das árvores azuis em flor, nasceu um fruto fora de tempo. E a seiva, redesenhada nos céus, convence o fruto a amadurar como se do querer pudesse crescer um mundo nos arredores de algum Calipso.
O mundo não nasceu, é verdade,  mas o fruto se tornou doce e o almendrado das suas entranhas debruou todos os raios de sol que enfeitam agora os teus cabelos, minha mãe. No teu seio branco, esconde-se o sangue mais doce e as veias mais partilhadas, diretas ao teu coração de vida. Partilha as árvores e as flores, partilha toda a nebulosa, até. Mas não partilharás o fruto. Jamais…


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 05, 2015, 20:28:56
Texto n. 2
Cai uma chuva gelada. Ana, descalça, enregelada e esfomeada, quase cega com aquela água descabida em junho. Atrás dela, o algoz de pernas imensas…
Corre a par das águas turvas de um rio que não tem braços.
 Corre… e a água do céu sempre fustigando…
O estômago vazio não ajuda na fuga. O corpo de Ana sucumbe ao imenso desgaste, o magro ser estatela-se, inanimado, num ninho de ervas altas que se lhe embaraçaram nas canelas.
Mas o rio, afinal, tinha um braço poderoso para o homem. Agarrou-se-lhe aos tornozelos saindo das botas baixas. Os olhos esgazeados seriam a última coisa que alguém veria. Se…


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 05, 2015, 20:32:14

Texto n.º 3

Não sei de onde me vem o tino, de pensar que a cabeça me serve, para ser mais do que se pode ser, sem desejo de ser mais além, ou  do que cousa em proveito próprio, ou cousa de fazer os outros serem reverentes à putativa luz que nos entra pelos entrefolhos.
Não saberei nunca, mesmo se vivesse para isso no tempo útil dos homens vagos, se vale mais fazer o pleno de artifícios em fogo fátuo ou ser pedra dura em água plana.
Talvez no sortilégio dos dias a vida se conte por dedos entrelaçados em contos comuns.
Como se fora uma espécie de mundo cantado por dentro da cabeça com dedos cheios de cor.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 06, 2015, 17:35:39
Texto n.º 4

A vida na aldeia corria calma, os miúdos jogavam à macaca e ao pião de pés nus no chão. E eram felizes assim. Sem frio, sem calor e sem dor. Como os dias lentos, a vida lenta…
João cresceu assim, livre como um tigre. Já homem feito, abriu o peito ao amor da mesma forma que abria o ventre da terra com o seu arado. Produziram os campos e produziu a sua amada. Da terra colheu cereais, da mulher recebeu nos seus braços dois rebentos robustos e risonhos. Ainda com poucos dias, os gémeos (um rapaz e uma rapariga) sorriam de bem estar.
Mas a vida na aldeia mudou. A venda dos cereais deixou de ser rentável, as batatas apodreciam no celeiro, o vinho azedava nas vasilhas. Um após outro, partiram em debandada os habitantes mais jovens.
João, qual tigre, abandonou os campos a caminho de França. Só. Com dor!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Alice Santos em Maio 07, 2015, 19:28:54
Ideias não faltam...

Está quase...


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Natália Vale em Maio 07, 2015, 19:45:23
Acho que vou nessa.Bjs


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Goreti Dias em Maio 08, 2015, 11:47:46
Acho bem!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Dionísio Dinis em Maio 08, 2015, 12:07:54
Eu também!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 08, 2015, 21:51:34
Texto n.º 5

Descalça, pisando a neve do caminho, seguia para a escola uma frágil menina. Levava em sua mão uma sacola de serapilheira que a custo suportava o peso dos livros. Era uma criança pobre como tantas outras que viviam naquela aldeia, mas tal como seus irmãos eram crianças de grande educação e respeito porque os pais assim os ensinaram, mas também lhes exigiam que assim fossem. E essa menina cresceu fez-se adulta, deu a volta à dificuldade, já não anda descalça, já não pisa a neve do chão com seus pés nus, vive feliz em sua moradia com marido e filhas que ela adora. E do passado não resta saudade!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 09, 2015, 11:08:46
         Texto nº6

           Quatro filhos! Fora coragem tê-los em tempos tão difíceis. Ou talvez fosse só o acaso. Os dois mais velhos, cinco ou seis anos, iam pendurados na janela do comboio. Em frente, no outro banco, um rapazinho de oito anos e a mãe observavam aquela família de seis pessoas, o pai do outro lado da coxia, enquanto a progenitora tentava sossegar o sono do casal de gémeos de cerca de dois anos.
          Então, a outra criança, perguntou-lhe numa vozinha doce:
         - Quer que pegue num menino ao colo? Eu estou habituado com o meu irmão mais novo.
          A mãe disse que não e agradeceu.

Texto nº7
          Estirada ainda na cama, nesse dia, dera em pensar na morte. Deus tinha feito as coisas bem, ninguém sabia o momento exacto, assim é que devia ser. Desde o nascimento e até lá, havia a vida e não valia a pena debruçar-se sobre o assunto quando o sol, lá fora, crepitava no azul do céu com beleza e boa vontade. A Joaninha acabara de nascer. Não, hoje não pensaria nos contrastes da existência, e quem sabe se o amor não lhe faria uma serenata ali sob a sua janela ao luar?
        Então, saltando da cama, pareceu-lhe sensato saudar a manhã e deixar o dia D a morrer envolto no seu próprio mistério.


Texto nº 8
           Os buracos das obras no passeio eram enormes e os peões circulavam sobre umas tábuas periclitantes dispostas ali com displicência.
           As duas jovens preparavam-se para seguirem sobre a tábua estreita até à parte sã, dois metros à frente, posicionando-se a primeira no início. Em sentido contrário, um homem dos seus 40 anos preparava-se para fazer o mesmo.
          Depois de alguma hesitação, ambos iniciaram o percurso, encontrando-se a seguir no meio da tábua onde um abraço os salvou da queda.
          - Desculpe!
           - Nada, menina! Nunca um abraço me soube tão bem!

Texto nº9

           A mulher sentou-se a meu lado no banco do centro comercial onde acabara de comprar um livro. E, com o à vontade de quem tem palavras entaladas na garganta, abriu-o. Pretendia saber como tratar-se. Aos 72 anos, já se sentia a fraquejar.
       Depois, disse-me, aos 35 anos ficara viúva e com duas crianças para criar, no meio de uma família de onze irmãos.
     Também me confidenciou ter, aos 40 anos, vivido um grande amor com um irlandês. Mas tudo ficara enterrado no passado como coisa inacabada.
          Quando foi embora, desejei para mim uma velhice como a dela. Mas sem solidão.






Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Oswaldo Eurico Rodrigues em Maio 10, 2015, 05:05:31
Quero participar!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Dionísio Dinis em Maio 10, 2015, 13:45:34
Ainda vai ser livro.De valor!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 10, 2015, 14:47:26
Texto n.º 10

Chegara ao cimo da encosta e parou de repente. Experimentou uma sensação de perda. Os dois eucaliptos gigantes que se habituara a ver desde sempre na berma da estrada tinham desaparecido, e com eles fora a música das folhas que o vento tocava com suavidade nos dias amenos de toda a sua infância. Chegara ao futuro embalado por ela e, agora que não a ouvia, doía-lhe o silêncio e a ausência, que se prolongavam nas casas mortas com memórias dentro. E a ele só lhe restava guardar as recordações como se fosse uma caixinha de música para se abrir em dias assim, quando lhe mordesse a saudade.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Goreti Dias em Maio 11, 2015, 20:27:56
A bom ritmo!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Dionísio Dinis em Maio 13, 2015, 13:17:49
Quantos mais e melhores e criativos.E todos!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Alice Santos em Maio 13, 2015, 16:10:16
Ainda não enviei mas já tenho dois textos prontos...

Isto vai meus amigos... isto vai...


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 19, 2015, 16:10:00

Texto n.º 11

Maio estendia-se pelas montanhas verdes e a pequena cabreira seguia na cauda do seu rebanho. Rosnão, o seu fiel cão de guarda, acompanhava os animais, ora no seu flanco, ora na sua dianteira. Tudo parecia correr calmo como o vento ausente.
- Socorro, socorro!
 O cão farejou o ar à procura do inimigo, por momentos pareceu desinteressar-se mas, de repente, num pulo, galgou o espaço que o separava da sua dona. Os dentes cravaram-se nas omoplatas do homem que segurava o pescoço da moça. As mãos mudaram de pescoço, mas o pescoço do cão era mais difícil de agarrar. Correu metros com o cão às costas…


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Maio 30, 2015, 20:00:47
Texto n.º 12

“Bom dia senhor condutor”. A mota parou junto ao meu carro. O agente da GNR, impecável, fez a continência. “é proibido parar neste local”.Olhei.  Não havia dúvida. Era o Luís. Perdi-lhe o rasto. Não o via desde a infância, na escola primária. Pobre, mais pobre que a pobreza. Roto, remendado, sujo. O professor mandou-o  cortar o cabelo, desgrenhado, . “Diz ao barbeiro que eu pago”. Saiu e voltou de cabeça baixa. Trazia um bilhete: “senhor professor, não consegui acabar o corte. Tantos piolhos! fiquei enjoado. Não precisa pagar. As minhas desculpas”. “As minhas desculpas. Bom dia senhor guarda.”


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Dionísio Dinis em Maio 30, 2015, 20:04:57
A cada dia o desafio vai sendo respondido com arte e engenho. Façam-se atores de mais um acontecimento de valor.Participem!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Alice Santos em Junho 04, 2015, 17:02:27
Vamos lá dar trabalho aos neurónios...

 :woot:


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Junho 04, 2015, 18:24:41
TEXTO 13
 
Encostada olhava o rio correr veloz. Lá em baixo tudo era perfeito.
Como num filme, via a sua vida deslizar em câmara lenta. Episódio após episódio lembrava a infância feliz à beira-rio, o namoro ora escaldante, ora gélido e o casamento. O terror começara nesse dia. A paixão de outrora tornara-se um martírio. Quando as mãos que a acariciavam a empurraram, morreu tudo o que a acorrentava àquele monstro. Decidida a juntar-se ao seu mais puro e inocente amor dirigiu-se ao centro da ponte. As águas gritavam seu nome. Era tão suave aquele apelo, tão doce, tão terno... Maria mergulhou no abismo.
 
 
TEXTO 14
 
O avião cortava a toda a velocidade as ebúrneas nuvens tal como outrora os seus pés descalços a neve branca. O imenso azul assemelhava-se ao mar que apenas conhecia da televisão. Só depois daquele pássaro enorme quase roçar a montanha, se apercebeu que aterrara numa nova vida. Por bagagem apenas a mala carregada de sonhos. Para trás ficara uma longa e dura caminhada. Um sorriso enorme e dois braços abertos corriam para si. Voou para o abraço. Estava a breves passos do paraíso. O seu lar. Nele iria ancorar, lançar à terra as sementes do futuro que sonhara feliz e repleto de risos de crianças.
 
 
TEXTO 15
 
Era fim de tarde… decidiu passear na praia saltitando pela água esquecendo a idade. A sua frescura inundava-lhe a alma, não refrescava o corpo somente. Que bem que estavam a saber as férias longe da melancolia, que nem o reboliço da cidade atenuava. Parou ao sentir uns olhos fixos em si. Virou-se… estremeceu, as pernas fraquejaram. Um homem correu a ampará-la, abraçando-a.
Reconheceu de imediato a doçura daquele olhar cor de mel. Quantos anos haviam passado? Sentiu-se rejuvenescer no reencontro tardio. Em silêncio deram as mãos e os lábios se uniram selando o amor eterno tantas vezes adiado.
 
 
TEXTO 16
 
Sentada sob a frondosa palmeira observava. Um casal preparava a refeição. As meninas tentavam esticar uma toalha sobre uma manta de cores garridas. Cada uma puxava para seu lado e tudo continuava enrolado. O mais pequeno fazia o que melhor sabia. Brincava. Os sorrisos cúmplices espelhavam felicidade. Numa breve troca de olhares, gesticulando, a mulher convidou-a. Declinou o convite devolvendo o sorriso. Não se dando por vencida, enviou como emissário o rapazinho de olhos doces com uma apetitosa manga. Puxando-a pelo páreo ria a plenos pulmões. Impossível resistir a tão franca hospitalidade.
 
 
TEXTO 17
 
António madrugava para ajudar a mãe a carregar a canastra. A família era numerosa e de parcos recursos. Todos ajudavam. Assim que terminava corria descalço, alegre em direção à escola. Muitos eram os dias em que se perdia nas brincadeiras e faltava. Os calções, já gastos pelos irmãos, mas que lhe serviam na perfeição, numa dessas manhãs desapareceram enquanto mergulhava no Douro. A mãe dizia:
- Onde vou arranjar dinheiro para outros, meu malandro?
Um dia, após muitas travessuras no rio, encontrou uma nota de 20 escudos. Subiu a ladeira correndo e gritando:
- Mãe! Mãe! Estamos ricos! Ricos, mãe!
 
 
TEXTO 18
 
Na aldeia era costume os meninos participarem na procissão. Nesse ano era a sua vez de levar a cruz. Contrariado lá vestiu a sua melhor farpela e, pela mão da mãe, mais parecendo um animal a dirigir-se ao matadouro, foi para o seu lugar. Farto de ir a passo de caracol, José virou a cruz e, como se fosse uma guitarra, começou a tocar e a cantar “Caramelos, quem os compra finos e belos de sabor sem igual”.
A mãe, envergonhada, acenou-lhe. Foi até ao fim triste e em silêncio.
Ainda hoje, se questionado sobre a peripécia, diz que tentou portar-se bem e que graças a ele nasceu a música nas igrejas.
 


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Alice Santos em Junho 05, 2015, 15:36:35
Então?!...
Ainda não se dispôs a usar 600 dos seus muitos neurónios?!...
Vamos lá! Há tempo para dar repouso aos restantes...
Toca a escrever!...

 :D


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 05, 2015, 19:17:38
Pois, o Pires de Lima manda os interessados na TAP dar corda aos sapatos, nós mandamos desfazer os nós dos dedos e martelar as teclas do computador com franca harmonia literária.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Dionísio Dinis em Junho 06, 2015, 21:22:08
Em poucas palavras muitas escritas.Participem!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Junho 14, 2015, 18:26:39
Texto n.o 19

Aconchego-me nos teus braços e alimento-me do teu corpo, da tua pele, da tua essência. E vivo num único instante os instantes que não podemos viver antes, espaçados no universo pelo acaso que agora nos juntou no mesmo abraço. Miro-me então nos olhares que nunca trocámos, ouço-me nas palavras que nos morreram na boca tristes pelo tempo que demoraram entre nós. Sinto-me no teu respirar, confundo-me com o teu desejo, amo-te em cada gesto e deixo-me levar por este inebriamento que nos torna cândidos na avalanche do primeiro beijo. 
Então prosseguimos viagem e vamos juntos à procura da felicidade.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Junho 15, 2015, 08:08:47
Texto n.º 20

Tinhas olhos de tília em tempo de juventude, neles lia: Amor e Eternidade!
Quem não acredita em palavras incendiadas? Na pele, afagos das tuas mãos, pétalas de rosas que nunca finiram. Na boca sabor de amoras colhidas no tempo da fruta proibida.
De dia procuro no vento a tua voz. De noite apelo ao céu que sejas estrela cadente no meu roseiral.
Cheira a tília. Uma rosa sacudida pela brisa, olha-me. Não és tu vindo da lonjura para me ver. Nas pétalas leio, Amor e Eternidade. Creio no mistério do tempo e no poder da mente. Abeirei-me e dei-lhe o abraço da minha saudade.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Junho 15, 2015, 18:00:15
Texto n.o 21

A ceifeira chegou à seara. A silhueta do serviçal recortava-se na luz de um cigarro. A moça sentou-se ao seu lado na fímbria de uma meda. A noite ensonada ia deitar-se. O serviçal foi encostando o seu corpo desengonçado à macieza das suas formas generosas. Ensonada e indolente não reagiu. Sentiu o seu corpo invadido. O seu gemido acordou o dia.
A moça subia a calçada. O homem com quem ia casar descia-a. Ficaram frente a frente. A sua pele sentiu o impacto. Caiu. Acordou. “O noivo? Morto. Mas tu estás de volta. Valeu a pena esperar”. Reconheceu a voz do primeiro namorado de infância.



Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Junho 20, 2015, 10:26:27
Texto n.º 22

Porque demoras, meu amor?
Já passaram tantos dias, que as horas se gastaram e se perderam no tempo …
Recordo os nossos longos passeios à beira-mar, o teu sorriso infantil quando com ar maroto entrelaçavas as tuas mãos nas minhas, e as nossas férias em Paris…
Porque demoras meu amor? Já não temos vinte anos!
Os meus cabelos já não têm o mesmo brilho de outrora, o meu corpo mudou; não sou já aquela gazela selvagem, como me costumavas chamar.
A minha pele perdeu muito da sua firmeza, só o meu coração permanece intacto, a transbordar de amor por ti.
Amo-te para além das palavras, para além do infinito!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Junho 20, 2015, 10:30:32
Texto n.º 23

A enfermaria estava quase esgotada. Apenas uma cama não tinha ocupante. A baixa ao serviço tinha sido generosa. Uma gripe e muita ronha. Às 21 horas, o auxiliar anunciou: “atenção recrutas, vai entrar o senhor doutor.”
Uma figura alva recortou-se na penumbra. Dirigiu-se à cama 10. Ouviu as queixas do paciente e mandou-o deitar numa maca. O da cama 14 foi convidado a correr ao longo da enfermaria. O doente 16, com um febrão, ficou a fazer flexões. No fim da visita, o médico, despediu-se. “seus  sornas queriam visita médica na caminha?” A seguir ocupou a cama que estava livre. Lotação esgotada.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Goreti Dias em Junho 21, 2015, 10:57:01
Já só falta um mês!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Nação Valente em Junho 25, 2015, 12:58:50
Já nem um mês falta. Vamos lá, pôr esses neurónios ao fresco.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Dionísio Dinis em Junho 28, 2015, 15:06:13
Mãos à obra!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Junho 30, 2015, 17:43:41
Texto n.º 24

Naquela noite a criança insistia em dormir com a mãe, pois o pai estava fora em serviço. Mariana com muita paciência explicou que ele já estava a ficar grandinho e que os meninos não dormem com as mães.

- Mas, se eu fosse uma menina, podia dormir contigo?

- Sim, era diferente…

- Mas o papá não é menina!

- Pois não, mas é o teu pai e estou casada com ele. Quando fores grande vais entender.

- Mamã, posso fazer uma pergunta?

- Sim filho.

- Então porque é que não se pode dormir com a mãe, se para nascer, nasce-se com as mães, não se nasce com os pais?

Mariana engoliu em seco e pensou: Uma boa pergunta…


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Julho 07, 2015, 09:53:26
Texto n.º 25
Decorria o ano de 1987, ainda não era obrigatório o uso de cadeirinha para as crianças. O menino de 5 anos gostava muito de ir em pé no banco de trás entre os 2 lugares do pai e da mãe, observando tudo com muita atenção.
A viagem seguia calma por entre as ruas da cidade, até que foi necessário uma travagem brusca, que não estava programada. Num relance a mãe preocupada olhou o filho que balançou e bateu com as pernitas na esquina do seu assento.
- Filho magoaste-te?
- Sim mamã
- Aonde?
- Aqui, no troço, disse ele apontando o joelho!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Julho 07, 2015, 10:05:47
Texto n.º 26

Provavelmente não sei
Provavelmente não sei se seria mais fácil descobrir por onde se encontra a noite ao fim do dia ou, melhor ainda, se há certeza absoluta que a noite acaba sempre com sol a acontecer.
Sem os meus botões, que eu nunca me aperto ou me componho, pensava eu também sem pensamento algum, ou mesmo a tentar pensar, julgava alcançar uma razão para desalienar de vez todos os fantasmas que dormiam sobre as minhas insónias. Coisas diurnas, é claro!
Pensar intramuros de um simulado espaço  higieno-clausural, dá que pensar quando a sanidade se encontra alterada por dentro de todos aqueles que nos rodeiam.
Passaram jornadas sem eu saber contá-las. Já não sei do sono ou do sonho.
Talvez acorde no hospício.
Todos os dias!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Julho 07, 2015, 10:10:12
Lista completa até hoje:

Texto n.º 1

Na junção das árvores azuis em flor, nasceu um fruto fora de tempo. E a seiva, redesenhada nos céus, convence o fruto a amadurar como se do querer pudesse crescer um mundo nos arredores de algum Calipso.
O mundo não nasceu, é verdade,  mas o fruto se tornou doce e o almendrado das suas entranhas debruou todos os raios de sol que enfeitam agora os teus cabelos, minha mãe. No teu seio branco, esconde-se o sangue mais doce e as veias mais partilhadas, diretas ao teu coração de vida. Partilha as árvores e as flores, partilha toda a nebulosa, até. Mas não partilharás o fruto. Jamais…

Texto n.º2

Cai uma chuva gelada. Ana, descalça, enregelada e esfomeada, quase cega com aquela água descabida em junho. Atrás dela, o algoz de pernas imensas…
Corre a par das águas turvas de um rio que não tem braços.
 Corre… e a água do céu sempre fustigando…
O estômago vazio não ajuda na fuga. O corpo de Ana sucumbe ao imenso desgaste, o magro ser estatela-se, inanimado, num ninho de ervas altas que se lhe embaraçaram nas canelas.
Mas o rio, afinal, tinha um braço poderoso para o homem. Agarrou-se-lhe aos tornozelos saindo das botas baixas. Os olhos esgazeados seriam a última coisa que alguém veria. Se…

Texto n.º 3

Não sei de onde me vem o tino, de pensar que a cabeça me serve, para ser mais do que se pode ser, sem desejo de ser mais além, ou  do que cousa em proveito próprio, ou cousa de fazer os outros serem reverentes à putativa luz que nos entra pelos entrefolhos.
Não saberei nunca, mesmo se vivesse para isso no tempo útil dos homens vagos, se vale mais fazer o pleno de artifícios em fogo fátuo ou ser pedra dura em água plana.
Talvez no sortilégio dos dias a vida se conte por dedos entrelaçados em contos comuns.
Como se fora uma espécie de mundo cantado por dentro da cabeça com dedos cheios de cor.

Texto n.º 4

A vida na aldeia corria calma, os miúdos jogavam à macaca e ao pião de pés nus no chão. E eram felizes assim. Sem frio, sem calor e sem dor. Como os dias lentos, a vida lenta…
João cresceu assim, livre como um tigre. Já homem feito, abriu o peito ao amor da mesma forma que abria o ventre da terra com o seu arado. Produziram os campos e produziu a sua amada. Da terra colheu cereais, da mulher recebeu nos seus braços dois rebentos robustos e risonhos. Ainda com poucos dias, os gémeos (um rapaz e uma rapariga) sorriam de bem estar.
Mas a vida na aldeia mudou. A venda dos cereais deixou de ser rentável, as batatas apodreciam no celeiro, o vinho azedava nas vasilhas. Um após outro, partiram em debandada os habitantes mais jovens.
João, qual tigre, abandonou os campos a caminho de França. Só. Com dor!

Texto n.º 5

Descalça, pisando a neve do caminho, seguia para a escola uma frágil menina. Levava em sua mão uma sacola de serapilheira que a custo suportava o peso dos livros. Era uma criança pobre como tantas outras que viviam naquela aldeia, mas tal como seus irmãos eram crianças de grande educação e respeito porque os pais assim os ensinaram, mas também lhes exigiam que assim fossem. E essa menina cresceu fez-se adulta, deu a volta à dificuldade, já não anda descalça, já não pisa a neve do chão com seus pés nus, vive feliz em sua moradia com marido e filhas que ela adora. E do passado não resta saudade!

         Texto nº6

           Quatro filhos! Fora coragem tê-los em tempos tão difíceis. Ou talvez fosse só o acaso. Os dois mais velhos, cinco ou seis anos, iam pendurados na janela do comboio. Em frente, no outro banco, um rapazinho de oito anos e a mãe observavam aquela família de seis pessoas, o pai do outro lado da coxia, enquanto a progenitora tentava sossegar o sono do casal de gémeos de cerca de dois anos.
          Então, a outra criança, perguntou-lhe numa vozinha doce:
         - Quer que pegue num menino ao colo? Eu estou habituado com o meu irmão mais novo.
          A mãe disse que não e agradeceu.

Texto nº7

          Estirada ainda na cama, nesse dia, dera em pensar na morte. Deus tinha feito as coisas bem, ninguém sabia o momento exacto, assim é que devia ser. Desde o nascimento e até lá, havia a vida e não valia a pena debruçar-se sobre o assunto quando o sol, lá fora, crepitava no azul do céu com beleza e boa vontade. A Joaninha acabara de nascer. Não, hoje não pensaria nos contrastes da existência, e quem sabe se o amor não lhe faria uma serenata ali sob a sua janela ao luar?
        Então, saltando da cama, pareceu-lhe sensato saudar a manhã e deixar o dia D a morrer envolto no seu próprio mistério.

Texto nº 8

           Os buracos das obras no passeio eram enormes e os peões circulavam sobre umas tábuas periclitantes dispostas ali com displicência.
           As duas jovens preparavam-se para seguirem sobre a tábua estreita até à parte sã, dois metros à frente, posicionando-se a primeira no início. Em sentido contrário, um homem dos seus 40 anos preparava-se para fazer o mesmo.
          Depois de alguma hesitação, ambos iniciaram o percurso, encontrando-se a seguir no meio da tábua onde um abraço os salvou da queda.
          - Desculpe!
           - Nada, menina! Nunca um abraço me soube tão bem!

Texto nº9

           A mulher sentou-se a meu lado no banco do centro comercial onde acabara de comprar um livro. E, com o à vontade de quem tem palavras entaladas na garganta, abriu-o. Pretendia saber como tratar-se. Aos 72 anos, já se sentia a fraquejar.
       Depois, disse-me, aos 35 anos ficara viúva e com duas crianças para criar, no meio de uma família de onze irmãos.
     Também me confidenciou ter, aos 40 anos, vivido um grande amor com um irlandês. Mas tudo ficara enterrado no passado como coisa inacabada.
          Quando foi embora, desejei para mim uma velhice como a dela. Mas sem solidão.

Texto n.º 10

Chegara ao cimo da encosta e parou de repente. Experimentou uma sensação de perda. Os dois eucaliptos gigantes que se habituara a ver desde sempre na berma da estrada tinham desaparecido, e com eles fora a música das folhas que o vento tocava com suavidade nos dias amenos de toda a sua infância. Chegara ao futuro embalado por ela e, agora que não a ouvia, doí-lhe o silêncio e a ausência, que se prolongavam nas casas mortas com memórias dentro. E a ele só lhe restava guardar as recordações como se fosse uma caixinha de música para se abrir em dias assim, quando lhe mordesse a saudade.

Texto n.º 11

Maio estendia-se pelas montanhas verdes e a pequena cabreira seguia na cauda do seu rebanho. Rosnão, o seu fiel cão de guarda, acompanhava os animais, ora no seu flanco, ora na sua dianteira. Tudo parecia correr calmo como o vento ausente.
- Socorro, socorro!
 O cão farejou o ar à procura do inimigo, por momentos pareceu desinteressar-se mas, de repente, num pulo, galgou o espaço que o separava da sua dona. Os dentes cravaram-se nas omoplatas do homem que segurava o pescoço da moça. As mãos mudaram de pescoço, mas o pescoço do cão era mais difícil de agarrar. Correu metros com o cão às costas…

Texto n.º 12

“Bom dia senhor condutor”. A mota parou junto ao meu carro. O agente da GNR, impecável, fez a continência. “é proibido parar neste local”.Olhei.  Não havia dúvida. Era o Luís. Perdi-lhe o rasto. Não o via desde a infância, na escola primária. Pobre, mais pobre que a pobreza. Roto, remendado, sujo. O professor mandou-o  cortar o cabelo, desgrenhado, . “Diz ao barbeiro que eu pago”. Saiu e voltou de cabeça baixa. Trazia um bilhete: “senhor professor, não consegui acabar o corte. Tantos piolhos! fiquei enjoado. Não precisa pagar. As minhas desculpas”. “As minhas desculpas. Bom dia senhor guarda.”

Texto n.º 13

Encostada olhava o rio correr veloz. Lá em baixo tudo era perfeito.
Como num filme, via a sua vida deslizar em câmara lenta. Episódio após episódio lembrava a infância feliz à beira-rio, o namoro ora escaldante, ora gélido e o casamento. O terror começara nesse dia. A paixão de outrora tornara-se um martírio. Quando as mãos que a acariciavam a empurraram, morreu tudo o que a acorrentava àquele monstro. Decidida a juntar-se ao seu mais puro e inocente amor dirigiu-se ao centro da ponte. As águas gritavam seu nome. Era tão suave aquele apelo, tão doce, tão terno... Maria mergulhou no abismo.

Texto n.º 14

O avião cortava a toda a velocidade as ebúrneas nuvens tal como outrora os seus pés descalços a neve branca. O imenso azul assemelhava-se ao mar que apenas conhecia da televisão. Só depois daquele pássaro enorme quase roçar a montanha, se apercebeu que aterrara numa nova vida. Por bagagem apenas a mala carregada de sonhos. Para trás ficara uma longa e dura caminhada. Um sorriso enorme e dois braços abertos corriam para si. Voou para o abraço. Estava a breves passos do paraíso. O seu lar. Nele iria ancorar, lançar à terra as sementes do futuro que sonhara feliz e repleto de risos de crianças.

Texto n.º 15

 Era fim de tarde… decidiu passear na praia saltitando pela água esquecendo a idade. A sua frescura inundava-lhe a alma, não refrescava o corpo somente. Que bem que estavam a saber as férias longe da melancolia, que nem o reboliço da cidade atenuava. Parou ao sentir uns olhos fixos em si. Virou-se… estremeceu, as pernas fraquejaram. Um homem correu a ampará-la, abraçando-a.
Reconheceu de imediato a doçura daquele olhar cor de mel. Quantos anos haviam passado? Sentiu-se rejuvenescer no reencontro tardio. Em silêncio deram as mãos e os lábios se uniram selando o amor eterno tantas vezes adiado.

Texto n.º 16

Sentada sob a frondosa palmeira observava. Um casal preparava a refeição. As meninas tentavam esticar uma toalha sobre uma manta de cores garridas. Cada uma puxava para seu lado e tudo continuava enrolado. O mais pequeno fazia o que melhor sabia. Brincava. Os sorrisos cúmplices espelhavam felicidade. Numa breve troca de olhares, gesticulando, a mulher convidou-a. Declinou o convite devolvendo o sorriso. Não se dando por vencida, enviou como emissário o rapazinho de olhos doces com uma apetitosa manga. Puxando-a pelo páreo ria a plenos pulmões. Impossível resistir a tão franca hospitalidade.

Texto n.º 17

 António madrugava para ajudar a mãe a carregar a canastra. A família era numerosa e de parcos recursos. Todos ajudavam. Assim que terminava corria descalço, alegre em direção à escola. Muitos eram os dias em que se perdia nas brincadeiras e faltava. Os calções, já gastos pelos irmãos, mas que lhe serviam na perfeição, numa dessas manhãs desapareceram enquanto mergulhava no Douro. A mãe dizia:
- Onde vou arranjar dinheiro para outros, meu malandro?
Um dia, após muitas travessuras no rio, encontrou uma nota de 20 escudos. Subiu a ladeira correndo e gritando:
- Mãe! Mãe! Estamos ricos! Ricos, mãe!

Texto n.º 18

Na aldeia era costume os meninos participarem na procissão. Nesse ano era a sua vez de levar a cruz. Contrariado lá vestiu a sua melhor farpela e, pela mão da mãe, mais parecendo um animal a dirigir-se ao matadouro, foi para o seu lugar. Farto de ir a passo de caracol, José virou a cruz e, como se fosse uma guitarra, começou a tocar e a cantar “Caramelos, quem os compra finos e belos de sabor sem igual”.
A mãe, envergonhada, acenou-lhe. Foi até ao fim triste e em silêncio.
Ainda hoje, se questionado sobre a peripécia, diz que tentou portar-se bem e que graças a ele nasceu a música nas igrejas.
 
Texto n.º 19

Aconchego-me nos teus braços e alimento-me do teu corpo, da tua pele, da tua essência. E vivo num único instante os instantes que não podemos viver antes, espaçados no universo pelo acaso que agora nos juntou no mesmo abraço. Miro-me então nos olhares que nunca trocámos, ouço-me nas palavras que nos morreram na boca tristes pelo tempo que demoraram entre nós. Sinto-me no teu respirar, confundo-me com o teu desejo, amo-te em cada gesto e deixo-me levar por este inebriamento que nos torna cândidos na avalanche do primeiro beijo. 
Então prosseguimos viagem e vamos juntos à procura da felicidade.

Texto n.º 20

Tinhas olhos de tília em tempo de juventude, neles lia: Amor e Eternidade!
Quem não acredita em palavras incendiadas? Na pele, afagos das tuas mãos, pétalas de rosas que nunca finiram. Na boca sabor de amoras colhidas no tempo da fruta proibida.
De dia procuro no vento a tua voz. De noite apelo ao céu que que sejas estrela cadente no meu roseiral.
Cheira a tília. Uma rosa sacudida pela brisa, olha-me. Não és tu vindo da lonjura para me ver. Nas pétalas leio, Amor e Eternidade. Creio no mistério do tempo e no poder da mente. Abeirei-me e dei-lhe o abraço da minha saudade.

Texto n.º 21

A ceifeira chegou à seara. A silhueta do serviçal recortava-se na luz de um cigarro. A moça sentou-se ao seu lado na fímbria de uma meda. A noite ensonada ia deitar-se. O serviçal foi encostando o seu corpo desengonçado à macieza das suas formas generosas. Ensonada e indolente não reagiu. Sentiu o seu corpo invadido. O seu gemido acordou o dia.
A moça subia a calçada. O homem com quem ia casar descia-a. Ficaram frente a frente. A sua pele sentiu o impacto. Caiu. Acordou. “O noivo? Morto. Mas tu estás de volta. Valeu a pena esperar”. Reconheceu a voz do primeiro namorado de infância.

Texto n.º 22

Porque demoras, meu amor?
Já passaram tantos dias, que as horas se gastaram e se perderam no tempo …
Recordo os nossos longos passeios à beira-mar, o teu sorriso infantil quando com ar maroto entrelaçavas as tuas mãos nas minhas, e as nossas férias em Paris…
Porque demoras meu amor? Já não temos vinte anos!
Os meus cabelos já não têm o mesmo brilho de outrora, o meu corpo mudou; não sou já aquela gazela selvagem, como me costumavas chamar.
A minha pele perdeu muito da sua firmeza, só o meu coração permanece intacto, a transbordar de amor por ti.
Amo-te para além das palavras, para além do infinito!

Texto n.º 23

A enfermaria estava quase esgotada. Apenas uma cama não tinha ocupante. A baixa ao serviço tinha sido generosa. Uma gripe e muita ronha. Às 21 horas, o auxiliar anunciou: “atenção recrutas, vai entrar o senhor doutor.”
Uma figura alva recortou-se na penumbra. Dirigiu-se à cama 10. Ouviu as queixas do paciente e mandou-o deitar numa maca. O da cama 14 foi convidado a correr ao longo da enfermaria. O doente 16, com um febrão, ficou a fazer flexões. No fim da visita, o médico, despediu-se. “seus  sornas queriam visita médica na caminha?” A seguir ocupou a cama que estava livre. Lotação esgotada.

Texto n.º 24

Naquela noite a criança insistia em dormir com a mãe, pois o pai estava fora em serviço. Mariana com muita paciência explicou que ele já estava a ficar grandinho e que os meninos não dormem com as mães.

- Mas, se eu fosse uma menina, podia dormir contigo?

- Sim, era diferente…

- Mas o papá não é menina!

- Pois não, mas é o teu pai e estou casada com ele. Quando fores grande vais entender.

- Mamã, posso fazer uma pergunta?

- Sim filho.

- Então porque é que não se pode dormir com a mãe, se para nascer, nasce-se com as mães, não se nasce com os pais?

Mariana engoliu em seco e pensou: Uma boa pergunta…

Texto n.º 25

Decorria o ano de 1987, ainda não era obrigatório o uso de cadeirinha para as crianças. O menino de 5 anos gostava muito de ir em pé no banco de trás entre os 2 lugares do pai e da mãe, observando tudo com muita atenção.
A viagem seguia calma por entre as ruas da cidade, até que foi necessário uma travagem brusca, que não estava programada. Num relance a mãe preocupada olhou o filho que balançou e bateu com as pernitas na esquina do seu assento.
- Filho magoaste-te?
- Sim mamã
- Aonde?
- Aqui, no troço, disse ele apontando o joelho!

Texto n.º 26

Provavelmente não sei
Provavelmente não sei se seria mais fácil descobrir por onde se encontra a noite ao fim do dia ou, melhor ainda, se há certeza absoluta que a noite acaba sempre com sol a acontecer.
Sem os meus botões, que eu nunca me aperto ou me componho, pensava eu também sem pensamento algum, ou mesmo a tentar pensar, julgava alcançar uma razão para desalienar de vez todos os fantasmas que dormiam sobre as minhas insónias. Coisas diurnas, é claro!
Pensar intramuros de um simulado espaço  higieno-clausural, dá que pensar quando a sanidade se encontra alterada por dentro de todos aqueles que nos rodeiam.
Passaram jornadas sem eu saber contá-las. Já não sei do sono ou do sonho.
Talvez acorde no hospício.
Todos os dias!





Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Goreti Dias em Julho 14, 2015, 11:05:45
Quase a terminar!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Julho 15, 2015, 16:18:03
  Texto n.27

Não é verdade que deixei de te amar. O amor é e será sempre amor, apesar da distância que nos separa. Não é verdade que não tenho saudades tuas, do teu toque na minha pele morena e macia, ou de sentir a tua língua sorvendo os meus seios eretos, resultado da excitação a que me levas quando me possuis e me entrego sem qualquer preconceito ou dúvida.
Quando me chamas sei que a flor do teu desejo está acima da tua capacidade de raciocinar. Sei que não é verdade quando me dizes que já não me amas, mas que apenas desejas a minha carne, o meu sexo, a mim…
Um dia partiste. Nada mais soube de ti. Fiquei como a lua, perdida atrás das nuvens escuras, girando sem nunca parar, sem saber onde e como te reencontrar.
Choro. Valerá a pena?


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Julho 15, 2015, 16:22:40
Texto n.º 28

De algodão me fizeram. De chita me baptizaram. De azul me pintaram. De lírios me enfeitaram. A costureira. Juliana fez-me vestido. Na Rosa me corporizei, ganhei vida, aqueci na sua pele. Com as suas formas roliças atraía-mos olhares concupiscentes.
A primavera coloria os campos. Fomos ao pomar colher fruta temporã. Ortigão, o namorado, acompanhou-nos. Agarrou-nos. Resistimos. As suas mãos rudes deitaram-nos na cama de malmequeres. Amachucaram-me, rasgaram-me. O grito de Rosa abafou o canto dos pássaros. Do s amores-perfeitos saíram lágrimas, no orvalho matinal. Somos um farrapo.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Goreti Dias em Julho 15, 2015, 17:44:00
Texto n.º 29
A raiva do mundo abate-se sobre ele. Ferido no corpo e na alma, arrasta-se até à berma, sempre no medo de nova investida. A chuva lava-lhe as feridas e o frio estanca-lhe a hemorragia.
De novo a faca desce sobre o seu dorso, sem perspetivas de socorro. A noite já caiu e nem um bicho bulia no negro denso da floresta bordejando a estrada. Só como sempre esteve, só como nasceu, sem mãe nem pai. Sente os pulmões vazios, o coração a caminho do fim, a visão desfocada… Ninguém notará a ausência…
 - Eis-me frente a frente com a realidade!


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Alice Santos em Julho 22, 2015, 11:38:14
O prazo está a terminar!...
Não deixem para amanhã o que podem escrever agora.
Vá lá!.. Ponham os neurónios no papel, perdão... no computador...
 :fixe:

 :woot:


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Agosto 03, 2015, 13:04:11
Texto n.º 30

Um dia, ainda menina, brincava com outra criança no largo, em frente à minha casa. A brincadeira decorria muito bem até que, por qualquer motivo a minha amiga zangou-se e, sem hesitação, agrediu-me com um : “Vai à merda”.
Indignada, fui para casa. A minha mãe, que, da janela, observara o sucedido, querendo testar a minha reação, mal me viu entrar, perguntou:
- Já vieste? Não queres brincar mais?
- Não, a Lena é malcriada, ela disse uma praga.
- Disse?!... Que praga?
E, meio sem jeito, com medo de repetir a praga, respondi:
- Aquela que é quase como cocó de galinha!...
 
Texto n.º 31
Sete era o seu número de sorte!
Disseram-lhe que havia nascido às 7h da tarde do dia 7 de julho de 1907. Cresceu num berço de ouro onde todos os seus desejos eram atendidos, até que um dia, sem saber como se encontrou caído na sarjeta… aí, quase em delírio rebobinou toda a sua vida onde o número 7 continuava a ser destaque! Sete mulheres, (entre esposas e companheiras), 7 filhos, 7 empregos sempre numa sucessão decadente, e entre outros setes, 7 fôlegos como os gatos… O que ele não sabia era que o aguardava 7 palmos de terra precisamente no dia em que completava 77 anos…

Texto n.º 32

A jovem desfilava na passadeira da fama com passos estudados, olhar altivo, ancas bamboleantes, sentindo-se dona do mundo. A todo o custo tentava equilibrar-se nos “tamancos” com cerca de 15 cm de altura ao mesmo tempo que evitava tropeçar no vestido de tule que varria o chão. Durante 1 mês inteiro treinou cada passo, cada olhar, cada gesto, cada pose.
Queria ser o centro das atenções… e conseguiu! Quando descia o último degrau, os sapatos modernos, último grito atraiçoaram-na, provocando uma queda quase fatal. Num segundo caiu por terra o sonho de uma vida…Manuela Matos

Texto n.º 33

Tão loucas as noites vividas pelo desejo crescente de estares ali... Em cada minuto o tempo passava ondulando em poemas escritos pela pena do amor, realçando os beijos plenos, em lábios rubros acetinados.
Tão curtas as noites que começavam assim… mas… tão plenas e preenchidas de afagos coloridos, que doiravam os corpos ansiosos…
Em cada amanhecer um renascer presente gravando sonhos em pétalas de luz, imergindo em poemas e promessas cristalizadas no silêncio de um olhar...
Tão loucas as noites, tão plenas de amor, tão plenas de ti…



Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Agosto 03, 2015, 13:05:10
Tópico encerrado por ter terminado o prazo.


Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios" parte 1
Enviado por: Administração em Agosto 03, 2015, 13:05:42
Texto n.º 1

Na junção das árvores azuis em flor, nasceu um fruto fora de tempo. E a seiva, redesenhada nos céus, convence o fruto a amadurar como se do querer pudesse crescer um mundo nos arredores de algum Calipso.
O mundo não nasceu, é verdade,  mas o fruto se tornou doce e o almendrado das suas entranhas debruou todos os raios de sol que enfeitam agora os teus cabelos, minha mãe. No teu seio branco, esconde-se o sangue mais doce e as veias mais partilhadas, diretas ao teu coração de vida. Partilha as árvores e as flores, partilha toda a nebulosa, até. Mas não partilharás o fruto. Jamais…

Texto n. 2

Cai uma chuva gelada. Ana, descalça, enregelada e esfomeada, quase cega com aquela água descabida em junho. Atrás dela, o algoz de pernas imensas…
Corre a par das águas turvas de um rio que não tem braços.
 Corre… e a água do céu sempre fustigando…
O estômago vazio não ajuda na fuga. O corpo de Ana sucumbe ao imenso desgaste, o magro ser estatela-se, inanimado, num ninho de ervas altas que se lhe embaraçaram nas canelas.
Mas o rio, afinal, tinha um braço poderoso para o homem. Agarrou-se-lhe aos tornozelos saindo das botas baixas. Os olhos esgazeados seriam a última coisa que alguém veria. Se…

Texto n.º 3

Não sei de onde me vem o tino, de pensar que a cabeça me serve, para ser mais do que se pode ser, sem desejo de ser mais além, ou  do que cousa em proveito próprio, ou cousa de fazer os outros serem reverentes à putativa luz que nos entra pelos entrefolhos.
Não saberei nunca, mesmo se vivesse para isso no tempo útil dos homens vagos, se vale mais fazer o pleno de artifícios em fogo fátuo ou ser pedra dura em água plana.
Talvez no sortilégio dos dias a vida se conte por dedos entrelaçados em contos comuns.
Como se fora uma espécie de mundo cantado por dentro da cabeça com dedos cheios de cor.

Texto n.º 4

A vida na aldeia corria calma, os miúdos jogavam à macaca e ao pião de pés nus no chão. E eram felizes assim. Sem frio, sem calor e sem dor. Como os dias lentos, a vida lenta…
João cresceu assim, livre como um tigre. Já homem feito, abriu o peito ao amor da mesma forma que abria o ventre da terra com o seu arado. Produziram os campos e produziu a sua amada. Da terra colheu cereais, da mulher recebeu nos seus braços dois rebentos robustos e risonhos. Ainda com poucos dias, os gémeos (um rapaz e uma rapariga) sorriam de bem estar.
Mas a vida na aldeia mudou. A venda dos cereais deixou de ser rentável, as batatas apodreciam no celeiro, o vinho azedava nas vasilhas. Um após outro, partiram em debandada os habitantes mais jovens.
João, qual tigre, abandonou os campos a caminho de França. Só. Com dor!

Texto n.º 5
Descalça, pisando a neve do caminho, seguia para a escola uma frágil menina. Levava em sua mão uma sacola de serapilheira que a custo suportava o peso dos livros. Era uma criança pobre como tantas outras que viviam naquela aldeia, mas tal como seus irmãos eram crianças de grande educação e respeito porque os pais assim os ensinaram, mas também lhes exigiam que assim fossem. E essa menina cresceu fez-se adulta, deu a volta à dificuldade, já não anda descalça, já não pisa a neve do chão com seus pés nus, vive feliz em sua moradia com marido e filhas que ela adora. E do passado não resta saudade!

         Texto nº6

           Quatro filhos! Fora coragem tê-los em tempos tão difíceis. Ou talvez fosse só o acaso. Os dois mais velhos, cinco ou seis anos, iam pendurados na janela do comboio. Em frente, no outro banco, um rapazinho de oito anos e a mãe observavam aquela família de seis pessoas, o pai do outro lado da coxia, enquanto a progenitora tentava sossegar o sono do casal de gémeos de cerca de dois anos.
          Então, a outra criança, perguntou-lhe numa vozinha doce:
         - Quer que pegue num menino ao colo? Eu estou habituado com o meu irmão mais novo.
          A mãe disse que não e agradeceu.

Texto nº7

          Estirada ainda na cama, nesse dia, dera em pensar na morte. Deus tinha feito as coisas bem, ninguém sabia o momento exacto, assim é que devia ser. Desde o nascimento e até lá, havia a vida e não valia a pena debruçar-se sobre o assunto quando o sol, lá fora, crepitava no azul do céu com beleza e boa vontade. A Joaninha acabara de nascer. Não, hoje não pensaria nos contrastes da existência, e quem sabe se o amor não lhe faria uma serenata ali sob a sua janela ao luar?
        Então, saltando da cama, pareceu-lhe sensato saudar a manhã e deixar o dia D a morrer envolto no seu próprio mistério.

Texto nº 8

           Os buracos das obras no passeio eram enormes e os peões circulavam sobre umas tábuas periclitantes dispostas ali com displicência.
           As duas jovens preparavam-se para seguirem sobre a tábua estreita até à parte sã, dois metros à frente, posicionando-se a primeira no início. Em sentido contrário, um homem dos seus 40 anos preparava-se para fazer o mesmo.
          Depois de alguma hesitação, ambos iniciaram o percurso, encontrando-se a seguir no meio da tábua onde um abraço os salvou da queda.
          - Desculpe!
           - Nada, menina! Nunca um abraço me soube tão bem!

Texto nº9

           A mulher sentou-se a meu lado no banco do centro comercial onde acabara de comprar um livro. E, com o à vontade de quem tem palavras entaladas na garganta, abriu-o. Pretendia saber como tratar-se. Aos 72 anos, já se sentia a fraquejar.
       Depois, disse-me, aos 35 anos ficara viúva e com duas crianças para criar, no meio de uma família de onze irmãos.
     Também me confidenciou ter, aos 40 anos, vivido um grande amor com um irlandês. Mas tudo ficara enterrado no passado como coisa inacabada.
          Quando foi embora, desejei para mim uma velhice como a dela. Mas sem solidão.

Texto n.º 10

Chegara ao cimo da encosta e parou de repente. Experimentou uma sensação de perda. Os dois eucaliptos gigantes que se habituara a ver desde sempre na berma da estrada tinham desaparecido, e com eles fora a música das folhas que o vento tocava com suavidade nos dias amenos de toda a sua infância. Chegara ao futuro embalado por ela e, agora que não a ouvia, doí-lhe o silêncio e a ausência, que se prolongavam nas casas mortas com memórias dentro. E a ele só lhe restava guardar as recordações como se fosse uma caixinha de música para se abrir em dias assim, quando lhe mordesse a saudade.

Texto n.º 11

Maio estendia-se pelas montanhas verdes e a pequena cabreira seguia na cauda do seu rebanho. Rosnão, o seu fiel cão de guarda, acompanhava os animais, ora no seu flanco, ora na sua dianteira. Tudo parecia correr calmo como o vento ausente.
- Socorro, socorro!
 O cão farejou o ar à procura do inimigo, por momentos pareceu desinteressar-se mas, de repente, num pulo, galgou o espaço que o separava da sua dona. Os dentes cravaram-se nas omoplatas do homem que segurava o pescoço da moça. As mãos mudaram de pescoço, mas o pescoço do cão era mais difícil de agarrar. Correu metros com o cão às costas…

Texto n.º 12

“Bom dia senhor condutor”. A mota parou junto ao meu carro. O agente da GNR, impecável, fez a continência. “é proibido parar neste local”.Olhei.  Não havia dúvida. Era o Luís. Perdi-lhe o rasto. Não o via desde a infância, na escola primária. Pobre, mais pobre que a pobreza. Roto, remendado, sujo. O professor mandou-o  cortar o cabelo, desgrenhado, . “Diz ao barbeiro que eu pago”. Saiu e voltou de cabeça baixa. Trazia um bilhete: “senhor professor, não consegui acabar o corte. Tantos piolhos! fiquei enjoado. Não precisa pagar. As minhas desculpas”. “As minhas desculpas. Bom dia senhor guarda.”

Texto n.º 13

Encostada olhava o rio correr veloz. Lá em baixo tudo era perfeito.
Como num filme, via a sua vida deslizar em câmara lenta. Episódio após episódio lembrava a infância feliz à beira-rio, o namoro ora escaldante, ora gélido e o casamento. O terror começara nesse dia. A paixão de outrora tornara-se um martírio. Quando as mãos que a acariciavam a empurraram, morreu tudo o que a acorrentava àquele monstro. Decidida a juntar-se ao seu mais puro e inocente amor dirigiu-se ao centro da ponte. As águas gritavam seu nome. Era tão suave aquele apelo, tão doce, tão terno... Maria mergulhou no abismo.
Texto n.º 14
O avião cortava a toda a velocidade as ebúrneas nuvens tal como outrora os seus pés descalços a neve branca. O imenso azul assemelhava-se ao mar que apenas conhecia da televisão. Só depois daquele pássaro enorme quase roçar a montanha, se apercebeu que aterrara numa nova vida. Por bagagem apenas a mala carregada de sonhos. Para trás ficara uma longa e dura caminhada. Um sorriso enorme e dois braços abertos corriam para si. Voou para o abraço. Estava a breves passos do paraíso. O seu lar. Nele iria ancorar, lançar à terra as sementes do futuro que sonhara feliz e repleto de risos de crianças.

Texto n.º15

 Era fim de tarde… decidiu passear na praia saltitando pela água esquecendo a idade. A sua frescura inundava-lhe a alma, não refrescava o corpo somente. Que bem que estavam a saber as férias longe da melancolia, que nem o reboliço da cidade atenuava. Parou ao sentir uns olhos fixos em si. Virou-se… estremeceu, as pernas fraquejaram. Um homem correu a ampará-la, abraçando-a.
Reconheceu de imediato a doçura daquele olhar cor de mel. Quantos anos haviam passado? Sentiu-se rejuvenescer no reencontro tardio. Em silêncio deram as mãos e os lábios se uniram selando o amor eterno tantas vezes adiado.

Texto n.º 16

Sentada sob a frondosa palmeira observava. Um casal preparava a refeição. As meninas tentavam esticar uma toalha sobre uma manta de cores garridas. Cada uma puxava para seu lado e tudo continuava enrolado. O mais pequeno fazia o que melhor sabia. Brincava. Os sorrisos cúmplices espelhavam felicidade. Numa breve troca de olhares, gesticulando, a mulher convidou-a. Declinou o convite devolvendo o sorriso. Não se dando por vencida, enviou como emissário o rapazinho de olhos doces com uma apetitosa manga. Puxando-a pelo páreo ria a plenos pulmões. Impossível resistir a tão franca hospitalidade.



Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Agosto 03, 2015, 13:28:16
Texto n.º 17

 António madrugava para ajudar a mãe a carregar a canastra. A família era numerosa e de parcos recursos. Todos ajudavam. Assim que terminava corria descalço, alegre em direção à escola. Muitos eram os dias em que se perdia nas brincadeiras e faltava. Os calções, já gastos pelos irmãos, mas que lhe serviam na perfeição, numa dessas manhãs desapareceram enquanto mergulhava no Douro. A mãe dizia:
- Onde vou arranjar dinheiro para outros, meu malandro?
Um dia, após muitas travessuras no rio, encontrou uma nota de 20 escudos. Subiu a ladeira correndo e gritando:
- Mãe! Mãe! Estamos ricos! Ricos, mãe!

Texto n.º 18

Na aldeia era costume os meninos participarem na procissão. Nesse ano era a sua vez de levar a cruz. Contrariado lá vestiu a sua melhor farpela e, pela mão da mãe, mais parecendo um animal a dirigir-se ao matadouro, foi para o seu lugar. Farto de ir a passo de caracol, José virou a cruz e, como se fosse uma guitarra, começou a tocar e a cantar “Caramelos, quem os compra finos e belos de sabor sem igual”.
A mãe, envergonhada, acenou-lhe. Foi até ao fim triste e em silêncio.
Ainda hoje, se questionado sobre a peripécia, diz que tentou portar-se bem e que graças a ele nasceu a música nas igrejas.
 
Texto n.º 19

Aconchego-me nos teus braços e alimento-me do teu corpo, da tua pele, da tua essência. E vivo num único instante os instantes que não podemos viver antes, espaçados no universo pelo acaso que agora nos juntou no mesmo abraço. Miro-me então nos olhares que nunca trocámos, ouço-me nas palavras que nos morreram na boca tristes pelo tempo que demoraram entre nós. Sinto-me no teu respirar, confundo-me com o teu desejo, amo-te em cada gesto e deixo-me levar por este inebriamento que nos torna cândidos na avalanche do primeiro beijo. 
Então prosseguimos viagem e vamos juntos à procura da felicidade.

Texto n.º 20

Tinhas olhos de tília em tempo de juventude, neles lia: Amor e Eternidade!
Quem não acredita em palavras incendiadas? Na pele, afagos das tuas mãos, pétalas de rosas que nunca feneceram. Na boca sabor de amoras colhidas no tempo da fruta proibida.
De dia procuro no vento a tua voz. De noite apelo ao céu que que sejas estrela cadente no meu roseiral.
Cheira a tília. Uma rosa sacudida pela brisa, olha-me. Não és tu vindo da lonjura para me ver. Nas pétalas leio, Amor e Eternidade. Creio no mistério do tempo e no poder da mente. Abeirei-me e dei-lhe o abraço da minha saudade.

Texto n.º 21

A ceifeira chegou à seara. A silhueta do serviçal recortava-se na luz de um cigarro. A moça sentou-se ao seu lado na fímbria de uma meda. A noite ensonada ia deitar-se. O serviçal foi encostando o seu corpo desengonçado à macieza das suas formas generosas. Ensonada e indolente não reagiu. Sentiu o seu corpo invadido. O seu gemido acordou o dia.
A moça subia a calçada. O homem com quem ia casar descia-a. Ficaram frente a frente. A sua pele sentiu o impacto. Caiu. Acordou. “O noivo? Morto. Mas tu estás de volta. Valeu a pena esperar”. Reconheceu a voz do primeiro namorado de infância.

Texto n.º 22

Porque demoras, meu amor?
Já passaram tantos dias, que as horas se gastaram e se perderam no tempo …
Recordo os nossos longos passeios à beira-mar, o teu sorriso infantil quando com ar maroto entrelaçavas as tuas mãos nas minhas, e as nossas férias em Paris…
Porque demoras meu amor? Já não temos vinte anos!
Os meus cabelos já não têm o mesmo brilho de outrora, o meu corpo mudou; não sou já aquela gazela selvagem, como me costumavas chamar.
A minha pele perdeu muito da sua firmeza, só o meu coração permanece intacto, a transbordar de amor por ti.
Amo-te para além das palavras, para além do infinito!

Texto n.º 23

A enfermaria estava quase esgotada. Apenas uma cama não tinha ocupante. A baixa ao serviço tinha sido generosa. Uma gripe e muita ronha. Às 21 horas, o auxiliar anunciou: “atenção recrutas, vai entrar o senhor doutor.”
Uma figura alva recortou-se na penumbra. Dirigiu-se à cama 10. Ouviu as queixas do paciente e mandou-o deitar numa maca. O da cama 14 foi convidado a correr ao longo da enfermaria. O doente 16, com um febrão, ficou a fazer flexões. No fim da visita, o médico, despediu-se. “seus  sornas queriam visita médica na caminha?” A seguir ocupou a cama que estava livre. Lotação esgotada.

Texto n.º 24

Naquela noite a criança insistia em dormir com a mãe, pois o pai estava fora em serviço. Mariana com muita paciência explicou que ele já estava a ficar grandinho e que os meninos não dormem com as mães.

- Mas, se eu fosse uma menina, podia dormir contigo?

- Sim, era diferente…

- Mas o papá não é menina!

- Pois não, mas é o teu pai e estou casada com ele. Quando fores grande vais entender.

- Mamã, posso fazer uma pergunta?

- Sim filho.

- Então porque é que não se pode dormir com a mãe, se para nascer, nasce-se com as mães, não se nasce com os pais?

Mariana engoliu em seco e pensou: Uma boa pergunta…

Texto n.º 25

Decorria o ano de 1987, ainda não era obrigatório o uso de cadeirinha para as crianças. O menino de 5 anos gostava muito de ir em pé no banco de trás entre os 2 lugares do pai e da mãe, observando tudo com muita atenção.
A viagem seguia calma por entre as ruas da cidade, até que foi necessário uma travagem brusca, que não estava programada. Num relance a mãe preocupada olhou o filho que balançou e bateu com as pernitas na esquina do seu assento.
- Filho magoaste-te?
- Sim mamã
- Aonde?
- Aqui, no troço, disse ele apontando o joelho!

Texto n.º 26

Provavelmente não sei
Provavelmente não sei se seria mais fácil descobrir por onde se encontra a noite ao fim do dia ou, melhor ainda, se há certeza absoluta que a noite acaba sempre com sol a acontecer.
Sem os meus botões, que eu nunca me aperto ou me componho, pensava eu também sem pensamento algum, ou mesmo a tentar pensar, julgava alcançar uma razão para desalienar de vez todos os fantasmas que dormiam sobre as minhas insónias. Coisas diurnas, é claro!
Pensar intramuros de um simulado espaço  higieno-clausural, dá que pensar quando a sanidade se encontra alterada por dentro de todos aqueles que nos rodeiam.
Passaram jornadas sem eu saber contá-las. Já não sei do sono ou do sonho.
Talvez acorde no hospício.   
Todos os dias!


Texto n.27

Não é verdade que deixei de te amar. O amor é e será sempre amor, apesar da distância que nos separa. Não é verdade que não tenho saudades tuas, do teu toque na minha pele morena e macia, ou de sentir a tua língua sorvendo os meus seios eretos, resultado da excitação a que me levas quando me possuis e me entrego sem qualquer preconceito ou dúvida.
Quando me chamas sei que a flor do teu desejo está acima da tua capacidade de raciocinar. Sei que não é verdade quando me dizes que já não me amas, mas que apenas desejas a minha carne, o meu sexo, a mim…
Um dia partiste. Nada mais soube de ti. Fiquei como a lua, perdida atrás das nuvens escuras, girando sem nunca parar, sem saber onde e como te reencontrar.
Choro. Valerá a pena?

Texto n.º 28

De algodão me fizeram. De chita me baptizaram. De azul me pintaram. De lírios me enfeitaram. A costureira. Juliana fez-me vestido. Na Rosa me corporizei, ganhei vida, aqueci na sua pele. Com as suas formas roliças atraía-mos olhares concupiscentes.
A primavera coloria os campos. Fomos ao pomar colher fruta temporã. Ortigão, o namorado, acompanhou-nos. Agarrou-nos. Resistimos. As suas mãos rudes deitaram-nos na cama de malmequeres. Amachucaram-me, rasgaram-me. O grito de Rosa abafou o canto dos pássaros. Do s amores-perfeitos saíram lágrimas, no orvalho matinal. Somos um farrapo.

Texto n.º 29

A raiva do mundo abate-se sobre ele. Ferido no corpo e na alma, arrasta-se até à berma, sempre no medo de nova investida. A chuva lava-lhe as feridas e o frio estanca-lhe a hemorragia.
De novo a faca desce sobre o seu dorso, sem perspetivas de socorro. A noite já caiu e nem um bicho bulia no negro denso da floresta bordejando a estrada. Só como sempre esteve, só como nasceu, sem mãe nem pai. Sente os pulmões vazios, o coração a caminho do fim, a visão desfocada… Ninguém notará a ausência…
 - Eis-me frente a frente com a realidade!

Texto n.º 30

Um dia, ainda menina, brincava com outra criança no largo, em frente à minha casa. A brincadeira decorria muito bem até que, por qualquer motivo a minha amiga zangou-se e, sem hesitação, agrediu-me com um : “Vai à merda”.
Indignada, fui para casa. A minha mãe, que, da janela, observara o sucedido, querendo testar a minha reação, mal me viu entrar, perguntou:
- Já vieste? Não queres brincar mais?
- Não, a Lena é malcriada, ela disse uma praga.
- Disse?!... Que praga?
E, meio sem jeito, com medo de repetir a praga, respondi:
- Aquela que é quase como cocó de galinha!...

Texto n.º 31

Sete era o seu número de sorte!
Disseram-lhe que havia nascido às 7h da tarde do dia 7 de julho de 1907. Cresceu num berço de ouro onde todos os seus desejos eram atendidos, até que um dia, sem saber como se encontrou caído na sarjeta… aí, quase em delírio rebobinou toda a sua vida onde o número 7 continuava a ser destaque! Sete mulheres, (entre esposas e companheiras), 7 filhos, 7 empregos sempre numa sucessão decadente, e entre outros setes, 7 fôlegos como os gatos… O que ele não sabia era que o aguardava 7 palmos de terra precisamente no dia em que completava 77 anos…

Texto n.º 32

A jovem desfilava na passadeira da fama com passos estudados, olhar altivo, ancas bamboleantes, sentindo-se dona do mundo. A todo o custo tentava equilibrar-se nos “tamancos” com cerca de 15 cm de altura ao mesmo tempo que evitava tropeçar no vestido de tule que varria o chão. Durante 1 mês inteiro treinou cada passo, cada olhar, cada gesto, cada pose.
Queria ser o centro das atenções… e conseguiu! Quando descia o último degrau, os sapatos modernos, último grito atraiçoaram-na, provocando uma queda quase fatal. Num segundo caiu por terra o sonho de uma vida…

Texto n.º 33

Tão loucas as noites vividas pelo desejo crescente de estares ali... Em cada minuto o tempo passava ondulando em poemas escritos pela pena do amor, realçando os beijos plenos, em lábios rubros acetinados.
Tão curtas as noites que começavam assim… mas… tão plenas e preenchidas de afagos coloridos, que doiravam os corpos ansiosos…
Em cada amanhecer um renascer presente gravando sonhos em pétalas de luz, imergindo em poemas e promessas cristalizadas no silêncio de um olhar...
Tão loucas as noites, tão plenas de amor, tão plenas de ti…



Título: Re: Concurso "Uma vida por 600 neurónios"
Enviado por: Administração em Agosto 03, 2015, 13:28:47
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