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Textos => Contos => Tópico iniciado por: Goreti Dias em Fevereiro 02, 2016, 06:57:36



Título: Obsessões
Enviado por: Goreti Dias em Fevereiro 02, 2016, 06:57:36
Era uma vez uma pacata aldeia no cimo da serra e um homem de barbas e cabelo branco que a percorria todos os dias logo que o sol espreitava por trás dos carvalhos de cascas rugosas como as suas mãos. Ninguém lhe conhecia família e a ninguém dava conta do seu passado. Corriam rumores de que teria sido um salteador em outros tempos e outras forças. Ao certo, nem garantias tinham quanto ao seu verdadeiro nome. Todos o chamavam tio Zé e ele por esse nome acudia. No seu quintal de considerável tamanho, cresciam couves, batatas e tomates que partilhava com as suas aves de capoeira. No redil, meia dúzia de ovelhas bastavam à produção de algum leite para queijo. A sua alimentação era frugal. Quando a carrinha do merceeiro se arriscava a subir a serra, o tio Zé comprava uma ou outra coisa mas, uma vez por mês, sem falta, descia a pé até à cidade mais próxima e regressava num táxi. Não se percebia bem o que faria fora dali e muito menos porque ia a pé e regressava de carro.
Maria Amélia era uma vizinha dos seus 50 anos, curiosa por demais. Aliás, coscuvilheira, para se ser mais exato. Sempre que o tio Zé saía para descer à cidade, massacrava o marido com hipóteses mais ou menos absurdas:
- O homem deve ter por lá alguma amante, vai à desobriga…
- Deixa-te de ser idiota! Tu ouves o que estás a dizer? Olha bem a idade dele!
- Sabes lá a idade da criatura! Se eu usasse calças, já o tinha seguido para ver o que vai fazer…
E todos os meses a mesma cena! A curiosidade moia a vizinha e atormentava o marido. De tão persuasiva, acabou por convencê-lo.
- Está bem! Não me apoquentes mais! No próximo mês vou atrás dele.
Se bem o pensou, melhor o fez, como usualmente se diz. Chegado o dia, João, o marido de Maria Amélia, deixou partir na sua frente o tio Zé e seguiu-lhe as passadas. Terminada a travessia da aldeia, entraram numa zona de mato e pinhal. João já se arrependera de ter cedido à cusquice da mulher.
- Mas que venho eu fazer?! Uma caminhada destas apenas para saber o que anda a fazer um homem? Eu devia estar maluco. A minha mulher mete-me em cada uma!
Nestes pensamentos se distraiu, o caminho na mata pouco livre de arbustos e ramos já o cansava.
- Mas porque terá vindo por aqui o tio Zé? Tinha melhor estrada pelo outro lado… Será mais perto por aqui? Hum… isto não me agrada… Mas onde se meteu ele que já não o vejo? Essa agora!
João parou atrapalhado no meio do caminho, sem saber se deveria continuar ou regressar à aldeia. Olhou em seu redor, perscrutou o horizonte, na medida do possível, pois as árvores cortavam-lhe a visão, reparou nas rochas cobertas de musgo, num coelho bravo que se afastou do carreiro a caminho da toca, e resolveu sentar-se na parede velha que ladeava parte da estreita passagem. Quanto ao tio Zé, nem sombra dele!
- Bem, vou descansar um pouco e voltar a casa. Que se dane a curiosidade da minha mulher.
Ainda se tinha sentado apenas há alguns minutos quando se deparou com o Tio Zé a caminhar na sua direção. Hum… a voltar atrás?!
- Então, rapaz? Desististe de me seguir? Eu bem te topei desde a saída da aldeia e tencionava deixar-te por aqui. Facilmente te despistei, não?
O idoso homem, num riso contendo algo de triste, prosseguiu:
- Sei que desperto a imaginação do pessoal da terra, mas não sou obrigado a dar satisfações da minha vida. Faço o que eu faço, como quero e ninguém tem a ver com o assunto. Mas nem por isso esperava uma coisa assim vinda de ti.
- Desculpe, tio Zé. Volte à sua vida que eu volto à minha. Fiz mal. Mais uma vez, as minhas desculpas…
- Nada disso. Já que saíste de casa para ires atrás de mim, agora vais acompanhar-me. Pelo caminho, explico-te ao que vou. Há 30 anos atrás, tinha eu 30 também (eu sei que me consideram mais velho!), quando a minha mulher me abandonou com a minha filha recém-nascida. Passado este tempo, eu nem sei se é alta ou baixa ou de que cor são os seus cabelos ou os seus olhos. A mãe privou-me do convívio com alguém que, mesmo sem conhecer, amo ainda e sempre. Jamais desistirei de a procurar. Sei que me vais ter em conta de louco, mas já pouco me incomodam as opiniões que os outros têm de mim. Todos os meses, desde que abandonei a cidade por me ser doloroso estar sempre a responder às perguntas das pessoas também lá curiosas como as daqui, vinha à porta da minha antiga casa. Ficava na rua, meio disfarçado (agora as barbas brancas tornaram-me irreconhecível) e esperava até que saísse alguém de lá. Então, ficava certo de que a minha mulher não voltara. E a minha filha também não. As saudades foram-se tornando cada vez mais doentias. Um dia, procurei um detetive para que me ajudasse a descobrir o paradeiro delas. A obsessão foi-se fazendo cada vez maior, não há dia em que não tenha vontade de ir verificar se regressaram. Chego a aproximar-me da porta e cheirar a madeira, numa tentativa vã de lhe sentir o aroma a lavanda da minha mulher. Claro que o detetive me levou muito dinheiro. Não me trouxe respostas, mas não me levou a esperança. Impus a mim mesmo que só iria à cidade uma vez por mês e tenho cumprido. Mas passo os restantes dias a sonhar com a figura da filha que desconheço.
- Lamento. Nunca tal poderia supor. Se eu pudesse ajudar…
- Não. Não podes. Certamente estão em outro País, não sei… Mas sei que vou continuar a descer estas terras até à cidade enquanto tiver forças para tal, ainda que me apelidem de doido ou tentem levar-me para o manicómio. Quero conhecer a minha filha! Quero conhecer a minha filha! Se morrer sem a ver, o meu espírito não descansará e permanecerei pela Terra atormentando quem não me ajudar a prosseguir na minha busca. Quero conhecer a minha filha! Ainda que seja depois de morto e sepultado! E ai de quem me tentar impedir!
João deu ao diabo a ideia da mulher! Não gostou do que ouviu e muito menos do olhar ensanguentado do velho. Por sua conta, iria descobrir forma de ajudar. Não queria o espírito do velho depois de morto por ali a vaguear. Benzeu-se…


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Fevereiro 03, 2016, 21:33:00
E é para continuar? Gostei. Bjs



Título: Re: Obsessões
Enviado por: Goreti Dias em Fevereiro 04, 2016, 12:54:44
Quem quiser continuar, pode. Eu tinha terminado o conto rsrsr


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Nação Valente em Fevereiro 04, 2016, 21:46:17
E então, não ajuda o Zé a sair do seu tormento?


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Afonso Vaz em Fevereiro 14, 2016, 17:08:36
Tranquilo e meritório. Um certo estilo com engenho e arte.


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Goreti Dias em Fevereiro 15, 2016, 20:37:52
Obrigada, minha gente! Abraço


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Oswaldo Eurico Rodrigues em Novembro 13, 2016, 20:47:45
Não fosse a mulher curiosa ter 50 anos e eu diria ser a filha do velho.

Gostei demais do conto. Para mim está acabado. O restante fica na nossa imaginação. Afinal de contas, o velho era mesmo misterioso...


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Goreti Dias em Novembro 14, 2016, 19:30:26
Aí reside o encanto! Obrigada. Abraço


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Oswaldo Eurico Rodrigues em Novembro 14, 2016, 20:17:16
Passando para uma releitura...


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Goreti Dias em Abril 23, 2017, 21:11:51
E eu passando para agradecer!


Título: Re: Obsessões
Enviado por: margarida em Maio 10, 2017, 07:36:56
E eu para ler de novo. Tinha ido há tempos mas, por falta de oportunidade, não tinha deixado comentário. :fixe:


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Goreti Dias em Dezembro 10, 2019, 19:08:41
Obrigada por não se esquecerem de mim. Abraço


Título: Re: Obsessões
Enviado por: carlossoares em Dezembro 18, 2019, 00:57:37
Este conto é estranho e muito bem urdido. Prende a atenção, sem esforço, semeia enigmas e conduz a múltiplas hipóteses de resposta. Ao optar por uma ou por outra, o leitor, sem querer, revela muito daquilo que são as suas obsessões. Gostei da ideia de a mulher do João ser a filha do velho. Outra seria a de o velho estar a mentir. Outra, menos inocente ou mais "diabólica", seria a de a mulher estar feita com o velho e querer convencer o marido a ir dar uma volta, enquanto o velho entrava em casa. E é assim que os espíritos e os fantasmas povoam mesmo o mundo em que vivemos.


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Goreti Dias em Dezembro 18, 2019, 16:44:14
E eu já me tinha esquecido deste conto rsrsrs Obrigada


Título: Re: Obsessões
Enviado por: Nação Valente em Dezembro 19, 2019, 20:17:38
Ao reler este fantástico conto, fico com a mesma sensação: merecia ter continuidade, pela expectativa, pela qualidade.