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Textos => Crónicas => Tópico iniciado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 31, 2019, 13:34:45



Título: A Rede
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 31, 2019, 13:34:45
          Não sei se têm acompanhado o programa da Conceição Lino, sobre a engrenagem do facebook e dos enredos falaciosos que ele pode ocasionar.

          A novidade é apenas tratar-se do facebook. Na verdade, há mais de trinta anos, conheci uma fulana que foi capaz de "matar" pai e mãe, uma mulher linda e com vida de rainha na Venezuela para se fingir de órfã.

          A Joaquina, que era uma rosa grande, pouco delicada e com cabelos permanentemente azeitados, de repente ficou noiva. E o noivado se apressou ela a comunicar às colegas do lar onde morava:
         - Caso no prazo de um mês.
         O rapaz, um jovem tenente da marinha bonito, tinha-lhe escrito uma carta em que mandava uma foto igualmente bonita, envergando uma farda da marinha debruada a dourados. Assim como o gracioso boné que lhe cobria a cabeça. Um príncipe, era o que o noivo da Joaquina parecia, e seria até capaz de nos fazer inveja a nós, que éramos bem mais bonitinhas do que ela.

          A Joaquina leu-nos a missiva, embevecida, enamorada e tonta, enquanto reproduzia as palavras de amor, melado e industrial, e outras coisas que os apaixonados costumam escrever. sobretudo quando o amor é falso.

          Depois, descrevia-nos o vestido que iria cobrir aquela massa grande e gorda,permanentemente ornada por cabelos azeitados na cabeça. Quinze metros de véu, tudo a ser feito num salão de alta costura, cujo segredo queria manter.

          Até que, antes de decorrido um mês, de novo a Joaquina recebeu uma carta. Não de amor desta vez, mas uma carta trágica a comunicar a morte do noivo.

          E ela chorava baba e ranho, ungia com eles a cabeça e os cabelos escorregadios, levando-nos a uma espécie de comoção mitigada por tudo aquilo nos cheirar profundamente a esturro.

          Passado algum tempo e após as necessárias investigações, descobrimos que a Joaquina era uma megalómana, e que era ela quem escrevia as cartas a si própria fazendo aquele teatro todo.

          Até que foi com as trouxas e ali ficou conhecida como a "Anedota Joaquina", cujos disparates nos levavam às lágrimas quando nos queríamos rir de uma palerma, tão feia que precisava daqueles artifícios para se sentir gente...

          Já na era da Internet, conheci outra fulana, na realidade um batoque sem graça, que, para mil e um rapazes, por quem dizia estar apaixonada, fingia que era rica e que morava numa casa apalaçada guardada por quatro cães, entre outras coisas. Esta era da região de Leiria....Mais uma tonta que é bem capaz de andar aí pela Internet a fazer o mesmo que Conceição Lino retratou no programa


Título: Re: A Rede
Enviado por: Nação Valente em Março 02, 2019, 19:50:34
A situação descrita mostra que os esses comportamentos humanos sempre existiram. A "rede" apenas os amplia e lhes dá maior visibilidade. O Facebook é o refúgio dos anónimos que procuram protagonismo sem deixarem de ser anónimos, mas que também tem aspectos positivos, no encontro de pessoas, muitas vezes conhecidas, mas perdidas nas vielas da vida.

E tem o mérito de carrear material e inspiração para este e outros textos, que nos deliciam.

beijinho


Título: Re: A Rede
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Março 02, 2019, 20:23:01
Beijinhos, Nação  Valente.