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Textos => Poesias => Tópico iniciado por: gdec2001 em Agosto 18, 2019, 15:39:52



Título: Canta canta canta
Enviado por: gdec2001 em Agosto 18, 2019, 15:39:52


CANTA


Canta, canta, canta
poeta-eu-só
mas não sozinho
que para o ser
seria necessário haver
quem neste redemoinho
 pudesse nos servir
de companhia .

Canta
Canta com alegria
pois só tu és a luz
que vai na frente
e atrás
à noite
noite e  dia
e nos conduz.

Canta poeta canta
canta este mundo calado
que  não está aqui
nem ali
nem noutro lado.

E que te não conhece
nem se conhece
porque precisa
ó precisa
 ser acordado.

Neste mundo, poeta
há muitas maravilhas
tu sabes.

As das altas montanhas
com enormes ravinas
e encostas empinadas
onde pasteja o gado.

E vales profundos
cheios de grossos rios
com pétalas esmeraldas
e furta-cores nadantes
que os nossos olhos
contemplam
expectantes .

E a mítica montanha
 onde se encontra escondida
a chave que nos abrirá
o segredo da vida .

Lá onde ocidente não há
porque todos se mostram
e estão
virados para a luz.
 
Aí está .

Mas há também
as enormes planícies
em que viceja o verde
e o gado também pasta.
E o gado
quando é gado fero
 pasta e mata.

E as planícies-florestas
em que se não voarmos
sendo mesmo de dia
só encontraremos sombra.
A sombra em que se ensombra
a nossa valentia.

E as planícies geladas
com pequenas clareiras
de sangue.
De sangue
 da cor
do teu vestido
ó minha amada.

Canta poeta canta
canta também o mar

O mar é o mais grande
o mar é o maior
o mar nos submerge
no seu
interior.

O mar é o final
lá longe
no longe
do pensamento .

E as ondas do mar
nos deixam suspenso
um grande momento.

No mar navegamos
e bebemos sol
mudamos de cor
e o preto é branco
e o branco é preto
tal como no amor.

Embriagados de sol
morremos no mar
com todo o furor
declamando loucos
que somos só dele
nosso rei-senhor.

E então se no mar
buscarmos o fundo
o fundo do fundo
que é já outro mundo

Um mundo em que a vida
não nasce do ar
mas da luz
que luz
e flameja
e espirra
do interior .

Deixemos o fundo
que infunde terror
voltemos ao cimo
em que o temor
do terror
quando há
é menor.

É um terror nosso
mui familiar
que podemos até
recordar à noite
se houver
luar.

Os mortos que morrem
no mar
estendidos na areia
permitem até
na morte pensar.

E já que falámos
na lua
em luar
os mortos  na areia
repousam ali
a meditar.

Depois há as praias
que se enchem de gente
a rir a brincar
ou mesmo mui quedo
a ficar.

E o sol que é traquina
como um menininho
que não pode estar
parado 
vê na nossa pele
um belo brinquedo
e cria uma célula
e outra e outra
cada vez mais louca
para experimentar.


E tudo isto
na minha cabeça
cantado.

Cantando
calado.




Geraldes De Carvalho


Título: Re: Canta canta canta
Enviado por: Goreti Dias em Dezembro 01, 2019, 18:59:57
Cantado, falado, lido... foi bom reencontrá-lo por aqui. Abraço