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Textos => Poesias => Tópico iniciado por: Figas de Saint Pierre de em Outubro 16, 2019, 17:21:45



Título: Da vida admirador
Enviado por: Figas de Saint Pierre de em Outubro 16, 2019, 17:21:45
DA VIDA ADMIRADOR
Nasci, deram-me de mamar,
De comer e de beber.
Deram-me letras, para aprender,
Lápis e canetas, para desenhar,
Escrever e pintar
E até, imaginem, ensinaram-me a ler,
Deram-me uma religião e
Mandaram-me à comunhão,
Queriam que eu fosse um bom rapaz!

Enquanto eu era pequeno,
Perguntaram-me o que é que eu queria ser
Quando eu fosse grande,
Como se tal fosse possível acontecer,
Como se tal de mim dependesse,
Pois que tal de mim não dependia.
O que apenas aconteceu foi o acontecer no dia a dia
Que eu antes, no ontem, não previa,
Por exemplo, não apanhar o autocarro,
Chegar atrasado,
Não receber o ordenado,
Não ficar com o cabelo bem cortado,
Apanhar com uma greve,
Zangar-me com a namorada,
Sofrer um acidente,
Ficar doente,
Mas, felizmente, ter sempre uma nossa senhora,
A quem pedir, para salvar a gente!
Há quem peça ao governo,
Porém, o efeito é o mesmo;
Às vezes sim, às vezes não,
É conforme o santo, o partido, a fé ou devoção!

Todavia, eu já sabia que o sol nascia em cada dia
E eu a querer ser o que de mim não dependia,
Vivendo o dia a dia, a outros somados,
Fazendo anos passados,
E eu de mim muito já feito,
Já um pouco mais desfeito,
Ficando de mim mais admirado,
Sem alguém para me perguntar:
-“O que queres ser quando fores grande?”

Agora, dou a resposta em cada dia,
Quando acordo,
Abro os olhos,
Mexo a língua,
Mexo os dedos os pés,
Deteto algumas dores,
Dou descontos às brecas,
E então digo, para comigo,
-“Olha, estou vivo!

Depois, sigo o dia,
Dele fico admirado e da vida um admirador,
E, sinceramente,
Não quero ser maior.
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Figas de Saint Pierre de Lá-Buraque
16/10/2019

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