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Textos => Contos => Tópico iniciado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 29, 2020, 21:17:15



Título: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 29, 2020, 21:17:15
  Nota prévia:
                   
                   Este romance participou num concurso literário  e não sensibilizou ninguém. Sequer, talvez, para ser folheado. Está agora a ser publicado para quem gostar de me ler,  sem revisão nem outra atenção que não os olhos viciados da autora.    


           - Desta vez correu-te mal… – disse Fausto para o amigo recém-chegado que acabara de o procurar, sem esperar grandes justificações. Era o que fazia sempre. Ou, pelo menos, numa grande parte dos casos. Nunca insistia em arrancar confidências à força de palavras carregadas de insinuações maldosas, fruto de um conhecimento antecipado sobre a vida dos outros. Soubesse embora estarem eles em maus lençóis por causa de mau feitio ou vícios que só a morte poderia curar.
          - É verdade…
          O rapaz, na casa dos vinte e poucos anos, chegara esbaforido, tal como quem sai de casa à pressa e sem tempo para meter numa mala meia dúzia de peças indispensáveis para umas férias de verão, por mais quente que ele estivesse. Era o caso, não seria preciso grande roupa. Ainda assim, não levara nenhuma. Os termómetros tinham atingido o descalabro de uma temperatura que, mesmo àquela hora, marcavam uns sufocantes trinta e sete graus, liquefazendo quantos não conseguiam enganar o calor através do recurso ao ar-condicionado.
          - Antes de ires para o quarto, onde ficarás o tempo suficiente para resolveres os teus problemas, usas as minhas coisas – disse Fausto com uma autoridade em que não cabiam recusas, enquanto ambos se encaminhavam para os aposentos do anfitrião -. Todas as peças te devem servir. Tens roupa interior, calças, calções e calçado para a vida toda, se for caso disso – acrescentou o homem mais velho sorrindo.
          - Obrigado, és um bom amigo. Sem ti, não saberia o que fazer. Quando dei conta da necessidade de me refugiar em algum lado para pôr as ideias em ordem, o nome Fausto foi o primeiro a ocorrer-me. Obrigado mais uma vez.
          - Não tens de quê. E agora trata de ti. Estás como se tivesses atravessado um deserto de cem graus Celsius em que até o sol se tivesse divertido a tisnar-te e a deixar-te como carne sobre brasas passada do ponto. Estás irreconhecível. Sempre te tive debaixo de olho, de contrário não chegava lá…, a quem tu és…  
          - Obrigado mais uma vez.
          - De nada. Vai lá então.


(continua)



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Nação Valente em Janeiro 30, 2020, 16:37:07
Um história que promete, e que representa um regresso desejado, desta escritora amiga e agora valonguense.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 30, 2020, 23:33:41
II

          Quando ficou sozinho, o rapaz olhou-se ao espelho da enorme casa de banho da luxuosa suite. O cabelo ruivo, farto e uniforme, sujo como estava, parecia mesmo uma giesta queimada por uma lareira num dia de Inverno. Fausto tinha razão, se a namorada o visse agora, assim enfarruscado, morreria de susto ao primeiro relance. Nunca lhe daria um beijo. Estava num triste estado após a sua mais recente travessia de um deserto talvez ainda por inventar. Até os olhos, de azuis como o céu, estavam agora negros da cor do Inferno, fundos e cavos como alçapões cheios de nada. De tão alquebrado, sentia-se como se tivesse encolhido uns bons centímetros, e imaginava-se um pequeno duende numa floresta invisível a olho nu a tentar equilibrar-se nos próprios ossos.
         Pensar na rapariga, na namorada, deixava-o mais ou menos furibundo. Nos últimos tempos, a sua existência, vista de qualquer ângulo, tornara-se demasiado confusa. Uma nuvem de fumo que o impedia de ver as coisas com clareza e perspectivar um futuro ao qual pudesse segurar as pontas.
          Mas, o melhor era não pensar na jovem tão cedo. Ou, pelo menos, antes de retomar o seu bom aspecto habitual, que levava as mulheres a apaixonar-se por si num estalar de dedos como se ele fosse um verdadeiro galã de Hollywood.
          Enquanto a água corria para a banheira, um pequeno regato caseiro refrescando o ambiente à volta, ao olhar-se de novo no espelho, tudo o que estava a viver naquele momento o fazia imaginar-se como um bêbado a cambalear num hospital antes da maca salvadora. Além de tudo, em estado de coma e com toneladas de lixo às costas, e a quem médicos e enfermeiras se recusam a tratar antes de um bom banho. Talvez estivesse, na realidade, num estado de coma provocado por si mesmo para fugir a reflexões dolorosas e que agora lhe vinham à memória sem tréguas.
          Enquanto, emerso na enorme banheira, pele a sentir-se revigorada pela água abundante de espuma, olhava em redor, pensava no amigo como um homem de sorte. Fazia jus ao nome. Vivia efectivamente num ambiente de fausto e como um príncipe moderno chegado à ribalta pelas mãos da fantasia. Quando abrira gavetas e armários para tirar a roupa de que precisava, verificara que não faltava ali nada que o benfeitor não pudesse usar em qualquer circunstância, por mais extraordinária que ela fosse. Havia de tudo. Desde luxuosos Black Ties e toda a gama de peças de belas peças de cerimónia. Até às mais informais bermudas para a pesca de carpas num rio, de baixo do sol a ouvir o murmúrio das águas e o canto inebriante dos passarinhos. Tudo era efectivamente requintado e de bom gosto. Calças de ganga de marca, polos t-shirts, sapatos e acessórios como num conto de fadas em que, no fim, tivesse uma donzela vestida de seda à espera como o grande prémio de toda uma vida.
           Desde sempre conhecera o amigo assim: um homem elegante, capaz de atrair os olhares de meio mundo por entre uma multidão. Nos últimos tempos, a sua riqueza aumentara consideravelmente, tal como se Fausto tivesse nascido com o toque de Midas e a pobreza lhe fosse uma infelicidade vedada por um nascimento bem fadado. Agora era dono daquele hotel na montanha, um antigo chalé que um dia um prospecto publicitário lhe dera a conhecer, a ele, pobre viajante forçado, como um excelente local de refúgio. Os preços, altos e rechonchudos, variavam, ainda assim, à medida da almofada económica dos clientes mais abastados daquele oásis. Embora ele, rapaz de aldeia e filho de gente modesta, não pertencesse a essa elite dos príncipes do dinheiro. Mas, a necessidade de ir para algum lado, esconder-se,  era muita. Uma verdadeira situação limite, em que se sentira lançado depois de uma má jogada da sua parte com cartas que ele próprio viciara. Por isso se vira na necessidade de procurar o amigo, apesar de, insistia consigo mesmo,  o seu bolso não ser nenhuma mina de diamantes. Muito menos uma caverna de Ali-bá-bá com as paredes a escorrerem ouro. Contudo, um dia, apesar de não saber bem como, esperava pagar a estadia naquele paraíso montanhoso e aquelas férias forçadas. Ainda que para isso tivesse de vender a alma ao Diabo.
          Reconfortado depois de sair do banho, daquele ritual de felicidade e bem-estar, optou por umas calças caqui e uma t-shirt verde justa. Queria confundir-se com as árvores da floresta, pinheiro bravo, eucalipto, sobreiro, carvalho e azinheiras, onde, uns séculos atrás, alguém se lembrara de construir aquele robusto castelo destinado a durar milénios. Para isso, fora aproveitada uma imensa clareira de areias, onde, aqui e ali, perdurava uma árvore de bom porte respeitada pelo construtor que lhe antevira futura e eterna utilidade. Os carvalhos, sobretudo, tinham atingido um tamanho gigantesco. Recortavam agora enormes sombras, que protegiam recantos onde bancos aprazíveis serviam para desfrutar em plenitude da tranquilidade verdejante da montanha e e da sua paz.

(continua)



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Goreti Dias em Janeiro 31, 2020, 10:04:20
Escrita exemplar! Parabéns! Espero a continuação.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Fevereiro 03, 2020, 22:43:11
          III

..........Quando saiu do quarto, seriam umas seis horas. Dirigiu-se de seguida à entrada a passos contemplativos, observando os pormenores da decoração à sua volta. Já ali havia estado, sujo e tisnado, mal chegara, e, aí, ainda degradado, tinha sido recebido por uma mulher bastante jovem, bonita, a quem, num tráfico de influências descarado, teve de desarmar a má vontade inicial desencadeada pelo seu mau aspecto.
          A pergunta “Por favor, o Dr. Fausto está, selou-a ele com o seu nome, como se fosse chave de uma casa forte que guardasse dentro um segredo. Mas, agora, depois dos banhos de água e de roupa de marca, sentindo-se outro, revigorado e atraente. Aproveitou por isso o seu bom aspecto para, sorrindo, se insinuar num galanteio:
          - Estou melhor agora?- ao que ela, sem revelar, apesar de tudo, uma simpatia como a que ele esperava de uma pessoa jovem do sexo feminino, respondeu com alguma ironia:
          - Bastante. Está parecido com o meu patrão…
          - Pode dizer-me onde é que ele está neste momento?
          - Venha comigo, se faz favor.
          A recepcionista caminhava à frente como modelo de passerelle, enquanto o jovem olhava as elegantes pernas da rapariga, a insinuarem-se sob a mini-saia, que, com a camisa branca, o colete e o laço negro, fazia parte da farda do hotel. Era atraente a empregada do hotel que seria agora o seu refúgio por algum tempo.
          Encontraram Fausto sentado num bar que se valia do couro castanho para imprimir um ar masculino a todo o espaço, e onde nenhuma mulher, até aí, adquirira o estatuto de dona. Nem do sítio, nem do coração do amigo, que continuava como sempre o conhecera: sem ninguém e rodeados de mulheres ao mesmo tempo. Havia quatro maples de couro, alguns espécimes embalsamados, umas cabeças de veado. Todo o ambiente fazia lembrar animais mortos sob à mira de uma espingarda, ao som dos seus estampidos e ao fogo azul dos caçadores. A caça, por ali, seria frequente em qualquer época do ano. Talvez como vício ou simples subjugação da liberdade de outras criaturas. Tanto por parte dos hóspedes, como do dono do hotel. Seria, talvez, até, uma das razões pelas quais o chalé era tão procurado. Sobretudo no outono, quando as neves não tivessem ainda caído o suficiente para deixar as árvores prateadas e os animais inquietos, prestes a aventurar-se mais longe acossados pela fome desencadeada pelo escassear de recursos da estação que se avizinhava.
           Nas prateleiras atrás do balcão, as bebidas refulgiam das garrafas, e Fausto, não tendo por perto o barman, de momento no terraço ali à frente das imensas portadas envidraçadas do bar a servir um cliente, ele próprio encheu o copo com a cerveja que o amigo manifestara vontade de beber. Acompanhou-o, depois, no seu whisky de doze anos, bebendo com gozo o almiscarado da bebida.
          Concentrados nas suas estratégias de ataque ao tabuleiro, numa sala ao lado, dois homens jogavam xadrez numa mesa redonda, forrada pelo pano verde que, nos casinos de todo o mundo, apadrinha os jogos fortuna e azar deixando no ar um clima de esperança e  excitação.
          De copo na mão, os dois amigos transpuseram as portas corridas das vidraças e sentaram-se frente um do outro no terraço, sorvendo os raios da tarde que se infiltravam curiosos por entre as agulhas belicosas dos pinheiros num moderado frenesim de vento leste.
         - Então, já te sentes melhor? - perguntou Fausto em tom intimista, procurando não chamar a atenção do homem que, ali no mesmo terraço, bebia igualmente um whisky, cadenciado com as baforadas de um cachimbo que deixavam no ar um cheiro característico a tabaco havanês.
          - Bastante. Sinto-me um pedaço de ti metido na tua roupa. Um privilegiado – acrescentou sorrindo –. Estava capaz de fumar um cigarro para celebrar o meu estatuto de gentleman.
          - Não seja por isso. Tens preferência por marca?
          - Não. Qualquer uma serve. Pode ser a que fumas, já que de momento sou uma espécie de teu espelho.
          E Fausto, chamando o barman, entretanto liberto da anterior incumbência e já disponível, pediu que lhes trouxesse um ou dois maços de tabaco e uma caixa de charutos cuja referência indicou.
          - Vou fumar também. Desta vez um havaiano.
          Depois da primeira baforada de um e outro, o mais recente hóspede agradeceu de novo a hospitalidade em voz mais ou menos sussurrada, concentrando-se a um tempo no fumo do cigarro e na bebida. Não queria dar a conhecer àquele estranho, ali ao lado a perfumar o ar com o cheiro doce do seu cachimbo, a sua vida privada e todos os seus nós.
          - Obrigado, Fausto. Ainda que um dia te pague, como conto, nunca conseguirei ver-me livre desta grande dívida para contigo num momento de tanto aperto.
          - Ai pagas, com toda a certeza – disse Fausto rindo com ar dissimulado. Se não for neste mundo é no outro! A propósito, já te registaste na recepção com a Orlanda?
           - Ainda não.
           - Bom, é melhor que o faças. Embora seja eu o dono, tem de haver um certo controlo. Até para salvar as aparências. Como deves calcular, não estou imune ao fisco, , apesar de não ser um pagador imaculado de impostos ao estado – disse no mesmo tom reservado com que iniciara a conversa e como quem vê no interlocutor um cofre capaz de guardar grandes segredos.
          - Não tens de justificar. E vou daqui a pouco ter com ela. Por sinal não é lá muito simpática, a tua recepcionista…
          - Mas é discreta. Não anda por aí a propalar a vida dos hóspedes do hotel, que às vezes a tomam por confidente. Ainda assim, não dês o teu nome verdadeiro… Se os sarilhos andam atrás de ti, é melhor que demorem a encontrar-te…
          - Tens razão. E como achas que deva chamar-me? – perguntou sem ideias para o seu baptismo temporário na montanha.
          - Se eu fosse Robinson Cruzoe, chamava-te Segunda-Feira, por causa do dia em que chegaste. Mas talvez isso desse aso a confusões e mal-entendidos. Sobretudo no início da semana. Deveria parecer que se estava a invocar o tempo e a fazer rituais de magia sobre ele sabe-se lá com que intuitos. Que tal Domingos?
          - Domingos… Sim, Domingos parece-me bem. Os domingos são os dias de não fazer nada. Talvez já não seja bem assim, desde que que os centros comerciais nasceram. Mas pelo menos ainda vão tendo essa fama.
          - Então, a seguir, quando acabarmos de beber, vais ter com a Orlanda. Diz-lhe que te furtaram os documentos quando vinhas para aqui. Depois já posso apresentar-te aos restantes hóspedes do chalé. Só do chalé, porque para todos os outros, os dos pavilhões entretanto acrescentados a este corpo principal, não me chegaria a eternidade – brincou, agora sem medo de ser ouvido pelo vizinho do terraço.
         - E este aqui ao lado é quem? – perguntou em voz surda, com um trejeito de cabeça, apontado para o homem que,  com eles,  partilhava pachorrento  o fim da tarde. Era elegante, de gestos finos, aparentemente moldados muito mais do que a dinheiro, por um berço de ouro que lhe permitiria enganar qualquer um sem levantar a mais leve desconfiança.
         - Mateus Rosa, um banqueiro falido a contas com a justiça – disse Fausto já longe do terraço, com Domingos a dirigir-se à recepção, onde Orlanda parecia estar a aguardá-lo como mais um indesejável D. Juan, acerca de quem deveria ficar sempre de pé atrás.
         - Hoje em dia os banqueiros têm bastante má fama. Quase tanto como os homicidas. Apesar de pagarem bem menos do que os assassinos à cadeia. Têm deixado milhares de pessoas na miséria por dá cá aquela palha. E cada dia são mais e mais sofisticados. Multiplicam-se como pragas no verão fugindo ao calor. Entretanto, vêm para o teu hotel repousar como nababos…
         - Desde que me paguem!... E não julgues ninguém. As coisas nem sempre são o que parecem…
         Domingos voltou para o mesmo sítio, depois de resolver a burocracia junto de Orlanda, constando agora como mais um hóspede com prerrogativas especiais junto do patrão. Pediu entretanto uma nova cerveja gelada, desta vez servida pelo barman, um homem dos seus quarenta anos, vestido com a mesma farda da recepcionista na versão masculina que uniformizava a criadagem. Fausto regressou também, repetindo a bebida que Paulo lhe serviu entretanto num copo largo ornado a pedras de gelo, fundidas paulatinamente com o whisky no intervalo de cada gole, à medida que o tempo passava. O banqueiro já se havia retirado para a saleta onde os dois clientes, num mundo à parte, se dedicavam ao jogo de xadrez como a partida das suas vidas. Sem um parceiro para os imitar, Mateus Rosa pegou em dois baralhos de cartas da gaveta de uma mesa e entreteve-se a jogar paciências ao lado, esperando pela hora do jantar. Ou talvez aguardasse a companhia feminina que, desde que chegara, uns dias depois do velho banqueiro, lhe fazia uma companhia melada por sorrisos carregados de segundos sentidos. As mulheres demoram sempre uma eternidade a sair do quarto quando têm de se apresentar perante um homem a quem querem agradar por algum motivo.

(continua)


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Nação Valente em Fevereiro 08, 2020, 18:35:06
O rapaz do isqueiro assassino é um mistério. Mistério, suspense, amor e o que mais vier, são ingredientes para um bom cozinhado literário. Estou curioso.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Fevereiro 08, 2020, 22:18:34
Capítulo IV (1ª parte)



          -Já me tornei oficialmente Domingos Saraiva, como me sugeriste. Vou ficar na suite número quarto.
          -É muito boa.
          -A Orlanda é que que continua pouco receptiva à simpatia dos clientes… Uma cara fechada com um punho. Nem por eu ser teu amigo.
          -Lá terá as suas razões. De onde ela veio as coisas com os homens não eram fáceis…
          -Não me digas que se tornou lésbica por um acumular de desilusões?
          -Longe disso…- murmurou Fausto como quem está prestes a contar um segredo a um amigo, certo de que segredo e amigo tombariam no mesmo dia e em cova única, finda a vigência terrena de cada um.
          Depois, prosseguiu com alguma descrição:
          -Um dia, quase como tu, Orlanda chegou aqui bastante maltratada, desesperada quase a vomitar as vísceras…Não veio como hóspede, mas sim pedir emprego. Era prostituta e teve um problema bicudo com um cliente numa noite de excessos. Passou alguns anos na cadeia, uma ave bonita presa sem glória por causa dos maus instintos de um cavalheiro perdido de bêbado. Aliás como o Paulo, o barman, igualmente um homem da noite, na vertente do prestador de serviços, atrás de um balcão ou por entre as mesas da fauna nocturna. Este também se viu envolvido num crime ocorrido numa discoteca. Nessa altura, um jovem foi para o outro mundo fulminado por uma bala cega, dirigida a outro e cujo lugar o pobre rapaz, por azar, tomou…
          -Que horror!... – espantou-se Domingos, calando-se a seguir durante uns segundos, impressionado com a história –. Mas e a Orlanda, a que missa foi? – perguntou, em crescendo de curiosidade e alguma apreensão, à medida das revelações do amigo sobre o passado dos seus funcionários. Demasiado macabro. Era demais para o primeiro impacto.
          -Mais ou menos a mesma coisa… – acrescentou Fausto –.  Certa ocasião, um cliente quis roubar-lhe o apuro da jorna, que ela, daí a nada, teria de dar ao chulo. Mas, antes de o conseguir, o sujeito travou conhecimento com a navalha pouco amistosa de Orlanda. E assim foi despachado de uma vez para o outro lado num só golpe, cego e certeiro. Depois, quando ela aqui chegou, como era e ainda é muito bonita, aproveitei-a para a recepção, onde agora tu lhe cobras sorrisos que ela não se sente muito disposta a esboçar…
          -Bem poderia ser mais afável… Antes também o devia ser. De contrário não teria clientes. Seria bem mais fácil para ela limpar a folha de serviço que a cadeia não costuma branquear. Bem pelo contrário! Na cadeia a troca de experiências é sempre muito enriquecedora para quem queira tornar-se num profissional do crime e hóspede regular da prisão.
          -E onde é que uma prostituta de rua tem de ser simpática? Tem é de ser eficiente!
          -Também. Mas uma coisa não tira a outra…
          -Isso é mais no caso das acompanhantes de luxo, que às vezes também aparecem por aqui… Essas é que têm de usar a máscara da simpatia e do chame para sangrar a carteira do cliente.
          No terraço, a conversa decorria entre os dois homens, que, apesar de não se verem havia alguns anos, era como se se tivessem despedido de véspera, no fim de um copo entre amigos, para a vida e para a morte, celebradas uma e outra no mesmo aperto de mão.
Fausto era um homem a quem era difícil atribuir a idade. Aparentava ser bastante mais velho do que Domingos, entre um pai que tivera um filho ainda jovem e um irmão com mais dez ou quinze anos em cima. Teria o seu metro e oitenta de altura, e uma estrutura bem proporcionada entre ossos e músculo. E, sobre um pescoço esguio, um rosto fino apresentava-se tão perfeito como se se tratasse do melhor retrato de um pintor famoso que tivesse caprichado nos mais ínfimos pormenores. O cabelo era de um louro cor de cobre, ondulado, levemente caído sobre uma testa alta, no fundo da qual dois olhos verdes atribuíam um ar sedutor ao seu dono. Sobretudo quando combinados com o sorriso, nascido nuns lábios serenos que pareciam fazer parte da boca de um anjo. Poderia dizer-se que Fausto era um homem muito belo.
          Quase no fim da bebida, e depois de um silêncio em que Domingos digeria as confidências do amigo ao mesmo ritmo com que bebia a cerveja, o recém-chegado prosseguiu:
          -Então, dedicas-te à reciclagem humana e às novas oportunidades… - disse Domingos com alguma hesitação, tentando interiorizar o assunto e sorrindo,por causa da matéria-prima usada para aquilo que deveria ser uma nova pessoa. Ou várias novas pessoas, depois de todas se despirem do passado tenebroso como quem despe uma camisa suja e, após um banho regenerador, veste a seguir lantejoulas. Como ele próprio fizera há pouco.
          -Podes dizê-lo, sim. Novas oportunidades. Segundas, terceiras, quartas oportunidades e por aí adiante. Nunca desisto de ninguém, nem morto. Interesso-me sobretudo por casos destes, sobre quem ninguém apostaria uma unha para a limpeza de uma latrina. Em cada ser humano, se não se conseguir aproveitar tudo, há sempre alguma coisa de útil. Raramente uma maçã está toda apodrecida. No mínimo, há-de ter caroços para semente. Acho que é até por causa disto que a vida cada vez me corre melhor. Puro bafejo da sorte.
          -Pois, já vi que continuas a prosperar… – observou Domingos espraiando o olhar nos pinheiros, onde os raios de sol se tornavam cada vez mais oblíquos embora ainda longe do fim do dia -. Parabéns por este magnífico hotel de montanha.
          -Obrigado. Devias seguir o meu exemplo. Agregar pessoas perdidas a favor de uma boa causa.
          -E recebes alguma coisa da Segurança Social por este teu serviço humanitário?
          -Não. Não recebo. Nem quero. Se assim fosse, não era solidariedade com os “malditos”, iguais à Orlanda e aos outros, mas sim aproveitamento. Pelo menos numa boa parte. Tenho cá mais como ela. E até muitos dos que recebem por empregar ex-reclusos e marginais… Na realidade, a maioria desses empregadores acaba por vir para aqui gastar o dinheiro, ganho com essa falsa caridade depois de fazerem umas quantas trapaças para chegar ao pote… Mas, agora reparo, desde que chegaste não comeste nada. Tens fome ou queres esperar pelo jantar?
          -Não, não tenho grande fome. Posso esperar. Como pouco…
          -Consegues aguentar até às nove horas ou preferes enganar o estômago até lá com um triângulo de queijo e um brioche?
          -Não quero comer nada. Esperarei até essa hora.
          -Então, enquanto esperamos, vou mostrar-te o hotel no seu conjunto e todos os seus mistérios. Quer do chalé, quer dos novos pavilhões. Esta parte aqui é para os milionários, os que nadam em riqueza melhor do que tu nadarás numa piscina de água quente. A parte restante é para músicos a quem o dinheiro não telinte tão harmoniosamente como no bolso de banqueiros iguais a Mateus Rosa.

(excerto do IV capítulo) continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Goreti Dias em Fevereiro 10, 2020, 19:31:10
Isto promete!!!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Fevereiro 10, 2020, 22:37:21
IV

          Preparavam-se para se levantar, a fim de encetarem a visita, quando Domingos pegou no isqueiro de ouro com que acendera há pouco o cigarro, fazendo menção de fumar de novo.
          -Não fumes agora. É proibido fazê-lo lá fora, em quase todos os lados. Já viste se uma ponta de cigarro distraída se abraçasse a uma giesta seca e os dois inflamassem tudo como só o fogo é capaz? Embora haja aí um lugar onde às vezes certos hóspedes vão fazer rituais à roda de uma fogueira, como meninos que de inocentes nada tem!... Só que eu não vejo e não consigo impedi-los… Talvez nem queira, por razões económicas óbvias…Vamos lá passar daqui a bocado.
          -Desculpa, não pensei nisso. Tens toda a razão. Seria um perigo. Mas é que estou mesmo a ressacar… Não tenho fome, contudo, preciso de meter qualquer coisa nos lábios e na boca…
          -Pois, mas não é nada disso… - disse Fausto com algum mistério e uma boa ponta de compreensão … - Chegaste há cerca de três horas, com o tempo de viagem, e ainda não alimentaste esse animal…
          Domingos baixou os olhos.
         -Desculpa – disse de novo, certo de que, como o seu hospedeiro dissera que nunca o tinha perdido de vista, lhe conhecia assim todos os vícios de humano frágil entre os fortes, que ele não se orgulhava de ser -. Talvez tenha de ir embora mais cedo por causa do animal a que te referes…Depois volto cá devolver-te a roupa e os ténis…
          -Não penses nisso, nem te preocupes… Vou resolver-te o problema por agora. Anda comigo.
          E, entrando no bar, atravessaram depois a ampla recepção, onde Orlanda continuava atrás do balcão, a conferir se as chaves dos quartos estavam penduradas nos sítios devidos e a verificar o livro de entradas. À frente tinha o computador e um telemóvel, o que, aliado à ansiedade por causa da ressaca em progressão, provocou no rapaz um certo pânico.
          -Só agora me dou conta de que não trouxe o meu. Devo tê-lo perdido durante a viagem. Se precisar de telefonar ou mandar uma mensagem não posso fazê-lo….
          Fausto, no cimo do lanço superior da escadaria que levava aos dois andares superiores, no último dos quais, com uma visão de muitos graus sobre a montanha, era o seu quarto, estacou e puxou para cima Domingos na frase que proferiu num ênfase mais ou menos cómico:
          -Para que queres tu um telemóvel quando aqui nem sequer há rede? Os hóspedes vêm para se verem livres do mundo, não para se me meterem na boca dele!
          Domingos respirou fundo, tentando engolir o seu imperdoável esquecimento. Sorriu de seguida, salvo pela pureza da montanha, impermeável em boa parte às tecnologias de globalização que nos tornava um alvo fácil da devassa alheia em qualquer parte do mundo.
          Após o absurdo do telemóvel, juntamente com o anfitrião, o rapaz subiu até ao quarto onde estivera há pouco e de onde saíra metido na roupa do amigo.
          Fausto, de uma das paredes da sua suite, de baixo de um quadro de uma criança a chorar pintado por Giovanni Bragolin, depois de abrir um cofre embutido na referida parede, retirou dele um pequeno saquinho de plástico com algo branco e macio no seu interior. Ao lado, ainda no cofre, havia um recipiente de plástico com tampa, de onde Fausto tirou também uma pequena colher de café, um pedacinho de papel vegetal e uma palhinha. A seguir mandou sentar Domingos em frente ao tocador espelhado dos seus perfumes, e, deitando com a colher uma pequena pitada do produto sobre o papel, disse-lhe com cinismo dissimulado:
          -O quadro é de mau gosto, mas para mim é uma espécie de fetiche…Anda, senta-te e snifa um bocado. Ou, se preferires, tens aqui uma seringa e tudo o que precisas se optares pela veia. Mas é só por hoje!... Isto é apenas para situações de crise. Não quero ter de chamar ao hotel o INEM para nenhum hóspede a trepar pelas paredes como um gato assanhado no meio de uma ressaca de cocaína ou de qualquer outra coisa!
          E deixou o rapaz sozinho por alguns minutos, em frente ao toucador, enquanto ele, através da ampla janela do quarto, olhava a montanha com um olhar misterioso e dominador simultaneamente.

contínua

Capítulo V
Capítulo V (O Rapaz do Isqueiro Assassino

          Daí a um pedaço, quando Domingos acabou a reposição dos seus níveis de adrenalina no sangue, saíram para a entrada do chalé com algum vagar.
          Fausto, fazendo questão de ser ele a levar a cabo uma visita guiada ao complexo, dirigiu-se à entrada, onde, contra o que seria de esperar, não havia qualquer portão. Nem sequer uma guarita como a de um quartel, onde um porteiro nocturno pudesse receber um o soldado retardatário no meio de uma tempestade de areia ou meteoritos. Os muros, em todo o perímetro, eram todavia, altíssimos, sendo de presumir que nenhum cliente conseguisse fugir através deles sem pagar a estadia. Ainda que fosse um verdadeiro alpinista de montes tão íngremes os Alpes Suíços ou mesmo o Evereste.
         Ao chegarem perto da entrada do complexo hoteleiro, o mesmo cão dissuasor de Domingos, quando o impediu de entrar com a sua mota de escape livre, apressou-se a lamber amistosamente as mãos ao dono, enquanto lhe saltava ao peito dançando nas patas traseiras uma espécie de chula vareira.
          -Então Diabinho, estás com muito calor ou nem por isso, meu velho? – perguntou Fausto, deixando-se lamber em seguida e apresentando ao rapaz, imóvel e algo distanciado daquelas manifestações de afecto, um negro mastim brasileiro digno de respeito.
          -Já o conheço. Veio ter comigo à entrada, quando cheguei. Sem qualquer latido, dançou sozinho à frente da moto como agora dançou contigo nessa demonstração de amor. Era como se me quisesse impedir de cavalgar em cima dela, bem diferente de um qualquer dos quatro cavaleiros do Apocalipse a entrar majestosamente aonde devia sobre o seu cavalo.
          E, olhando para fora, encostada ao muro e à sua espera para o regresso, ainda não sabia quando, Domingos viu a sua lambreta estacionada, bonita obediente e calada. Com ela galgara uma estrada de alguns íngremes quilómetros, até desmontar ali. Tinha-lhe um amor semelhante ao que havia entre o cão e o dono seus hospedeiros. Um amor, por assim dizer, forte, como forte era o brilho reluzente do metal que a alindava, e como se a sua moto fosse uma mulher bonita e bem maquilhada para uma festa elegante a fim de brilhar no meio de uma multidão de convivas igualmente reluzentes e aperaltados.
          -Vais dizer-me que a via está em mau estado, cheia de mato e silvas de um lado e outro, que a engolem como ervas carnívoras a pedirem a morte por guilhotina. Ou, então, a cabeça de um fósforo riscado e incandescente, atirada ao acaso para provocar danos aleatórios. Mas agora quase já não é usada. Nem para passeios pedestres. Praticamente todos os hóspedes chegam de helicóptero, deixando os carros bem longe por causa da poluição. Aqui fazemos como os milionários excêntricos a quem saiu o Euromilhões e que até à padaria vão de avião comprar um papo-seco.
          Domingos riu-se e, a medo, tentou fazer uma festa a Diabo, sem este se tornar muito efusivo, e, muito menos reagir ao acanhado mimo, enquanto Domingos admiradamente dizia:
          -À excepção do vira de um lado para o outro, bailado à entrada e à minha frente, o Diabo comportou-se como um Anjo com letra maiúscula e sem pinta de raiva. Mal me viu descer da mota, deitou-se sobre o peito como um cordeirinho cansado em hora de sesta. E quando, pausadamente, passei por ele com um falso á vontade, parecia dormir qual justo vergado ao peso de cansativas mas boas acções. Sobretudo daquele dia. Nem sequer pestanejou.
-Tens razão. À entrada é, de facto, um sineiro a dar as boas-vindas aos hóspedes. À saída é que é pior. Faz jus ao nome. Só sai daqui quem eu deixar. O Diabinho tem uma espécie de sexto sentido e um excelente olho clínico para diagnosticar os pensamentos das pessoas. Sobretudo os maus. Por isso não há aqui portão, nem ferrolho. Ele é a minha chave mestra, sem eu ter de carregar com ela cada vez que alguém, por qualquer razão, queira indevidamente fechar-se no quarto a fazer seja o que for de indigno ou impróprio. Se alguém pusesse o pé em ramo verde, encarregar-se-ia de impedir que, levasse simplesmente como recordação um cinzeiro com o logotipo do hotel ou um roupão de banho. É um óptimo cão de guarda. Na verdade é mais do que os meus olhos e ouvidos quando não ando por aqui ou estou ocupado A minha alma, em suma…
           -E mete muito respeito… Se não fossem as condições em que me encontrava, sujo como um vagabundo e esgazeado, nem teria entrado só para não ter de passar por ele e pelo seu natural ar de fera. Mas, desnorteado, um barco sem bússola e com a estrela polar encoberta, precisava como nunca de uma tábua de salvação a que me pudesse agarrar, e de alguém que me chegasse um copo de água no meio de uma tormenta cuja dimensão ainda não compreendi muito bem nem qual foi. Sentia-me tão sequioso, peganhento e cheio de crostas como se tivesse sido vomitado pela boca de um vulcão.
Felizmente, encontrei-te! De contrário, a esta hora ainda estaria com o mesmo ar de homem em apuros, plantado em frente da Orlanda com um problema às costas que não conseguiria resolver sozinho. Obrigado mil e uma vezes – agradeceu de novo Domingos.
           -Não me agradeças mais que me confranges. Então se sou capaz de ajudar estranhos com passados de faca e alguidar como a rapariga, não iria ajudar um amigo? Vá, anda daí.
A propósito, a “receita” já está a fazer efeito?
           -Sim. Sinto-me reconfortado. Animado para o passeio até à hora do jantar. Capaz de escalar os Alpes
           -Ainda bem. Vamos lá. Vais gostar do meu habitat milenar, povoado, a toda a hora, com gente de todas as partes do mundo – disse Fausto com um sorriso franco e simultaneamente enigmático.
           Fausto deu de seguida uma palmadinha cúmplice no dorso do animal. Este foi deitar-se, pachorrento, no seu local privilegiado, debaixo de um pinheiro bravo, enrolado num novelo e com a melhor aparência ursinho fofo para adormecer crianças de sono difícil.
           Os dois amigos afastaram-se um pouco, enquanto levantavam os olhos para o exterior do chalé, localizado perto da entrada, do lado direito. De construção antiga, dir-se-ia, metaforicamente, milenar, o que se impunha ao primeiro olhar eram os mil e um telhados negros de lousa, sobre outras tantas janelas do que pareciam águas-furtadas em cascata. Sucediam-se umas às outras até ao último andar, indo depois o tecto do edifício morrer numa pirâmide de templo chinês. Bastante inclinadas, as coberturas tinham semelhante configuração para, no Inverno, permitirem que a neve não ficasse aí acumulada longos meses levando-os ao colapso antes de derreter. Dos primeiro e segundo andares fazia parte a zona das suites, e, no rés-do-chão, situavam-se as áreas de apoio, a sala de jantar, comprida e ampla como a nave central de uma igreja, bar, sala de jogos, e ainda uma superfície de lazer onde os hóspedes poderiam assistir a sessões de cinema. A cozinha e copa, privativas do chalé, ficavam atrás da recepção. De resto, havia varandas em todos os andares, grandes terraços no rés-do-chão, praticamente a toda a volta do edifício, cobertos ainda com os mesmos telhados de pagode que conferiam a toda a estrutura um toque de privacidade. Fora o primeiro espaço a funcionar como hotel, e, à medida que os negócios eram soprados pelo vento da abundância, Fausto expandia-se graças à copa frondosa da sua árvore do dinheiro. Até se ter tornado num homem abastado e cheio de expedientes lucrativos.
          -Bonito, o teu chalé.
          -Único no mundo, na verdade. Mas eu sou suspeito – sorriu.

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Dionísio Dinis em Março 16, 2020, 20:42:57
Vai de vento em popa e a levar os leitores em atenção redobrada.
Continuemos!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Março 17, 2020, 17:30:28
VI

           Acompanhado por Domingos, Fausto dirigiu-se depois para o lado esquerdo do bosque. Caminhavam sobre o empedrado, comum a todas as ruas, bordejadas por árvores diversas, e, mesmo àquela hora, o calor era tanto que se viam as suas ondas a emergir das pedras, incendiadas pelo sol a pique do meio-dia, que já se fora há tempos, mas cuja quentura ainda permanecia agarrada ao chão. Era como se o vento leste, esperado para a noite, tivesse feito ali o seu hangar favorito. Nem um pássaro se ouvia, e o murmúrio das folhas não deixava dúvidas de que estariam a congeminar uma forma expedita de resistir, presas nos ramos, às fortes rajadas nocturnas.
          À medida que iam progredindo para a esquerda, começou a ouvir-se, cada vez mais nítida, uma música aos saltos, que perturbava a pacatez da montanha. Era uma chinfrineira dessas que fazem pensar nos bailes populares de verão, nas festas de Agosto. Uma mulher cantava uma canção, tão fácil de ouvir e de cantar como se a canção fosse, ela mesma, uma mulher da vida impregnada de segundos sentidos.
           Conforme iam avançando e a música se tornava ensurdecedora, a perspectiva de um conjunto arquitectónico de seis pavilhões escuros começava a tonar-se maior aos olhos de Domingos. Dispostos três a três em meia-lua, de cada lado do arruamento, que se abria agora numa rotunda, aproximava os hóspedes num convívio circular, visto todas as entradas se poderem ver umas às outras em simetria. Sete ou oito pessoas, homens e mulheres, sentadas em cadeiras castanhas de plástico, abancando mãos e braço em mesas do mesmo material, bebiam cerveja e comiam estridentes amendoins. E, como se depreendia pelo som que que se alongava pela montanha, o ambiente era alegre e de festa.
           Domingos não gostou particularmente da maneira como o amigo concebera aquela parte do complexo turístico. Já fora, com certeza, branco, mas agora todos os edifícios pareciam ter sido assaltados por fuligem já madura, que a insanidade de labaredas teria deixado para trás após a barbaridade de  incêndio os chamuscar.
           A primeira coisa que todo o conjunto lhe fez lembrar foi o Campo de Prisioneiros de Auschwitz, tal como as inúmeras fotos e filmes lho tinham dado a conhecer quando deambulara em jornais e leitura de ocasião por essa parte negra da História do Século XX. Só faltariam, talvez, as chaminés dos crematórios no tecto de cada bloco, a conferir-lhe a autenticidade de campo de extermínio nazi. Todavia, como a comparação era quase maquiavélica, limitou-se a falar na necessidade de uma nova pintura que restituísse algum brilho àquele sector mais ou menos abandonado, sem sombra de dúvida destinado a bolsas bem mais modestas do que as que se aventuravam no chalé. Por outro lado, enquanto alinhava palavras politicamente correctas para dizer alguma coisa, questionou-se intimamente sobre a espécie de protegidos de Fausto:
           “Estarão a trabalhar nesta parte assassinos em série escapados da cadeia escondidos em países de brandos costumes? Violadores? Canibais? Fixe para eles, que têm a sorte de não ter nascido na América, na vigência da cadeira eléctrica ou da injecção letal. Fixe por terem encontrado um coração de plasticina, sensível às consequências de modelos de comportamento tão graves como umas facadas no bucho de um frequentador de bordéis e uma prostituta de rua”.
No meio de um colar de cantigas em enfiada cujo som obrigava a um esforço de voz suplementar, para Fausto o conseguir ouvir, quando as associações de ideias lhe deram tréguas, Domingos, escolhendo preciosos eufemismos a fim de caiar a situação, tanto como as paredes dos pavilhões precisavam de ser caiadas, deu por fim a sua opinião:
           -Gosto menos desta parte. Precisa, como é bom de ver, de levar cor. Talvez branco, para contrastar com o verde das árvores e o castanho dos troncos.
           -É claro que sim. Isto está feio e escuro. Parece o Inferno. Mas, lá iremos… Para o ano, sem falta, se a vida continuar a ser bondosa comigo…
           -De qualquer modo, as pessoas parecem felizes. Daqui a nada estarão todas  freneticamente a dançar…
           -Estas vieram há pouco tempo. Ainda estão a festejar a chegada… À saída as manifestações de alegria são bem menores…
           -Pois. Lá diz o lugar-comum:- Para onde vais? Vou para a festa. De onde vens? Venho da festa…, assim num tom de melancolia e saudade...
          Mas, ainda não vi nenhuma criança… Não são admitidas por aqui? – perguntou Domingos, interessado em perceber aquilo que lhe parecia uma exclusão liminar das pobres criancinhas –. Há hotéis que não as querem…
           -Este é um deles. Por duas razões: por um lado, nunca se sabe se, num dia qualquer, não há um maluco a raptar alguma, a violá-la e a matá-la dando má fama ao hotel. Não seria o primeiro caso. Por outro, há um ditado que diz: Diabo à noite com canalha deitado, de manhã acorda molhado –. E, ao dizer isto, soltou uma gargalhada, seguido por Domingos que nunca tinha ouvido semelhante provérbio sobre o Diabo e sobre canalha, por quem, pelos vistos, Fausto não morria de amores.
          -E cães? – perguntou depois.
          -Também não. O Diabinho não lidaria bem com eles. É uma questão de domínio e liderança. O seu cheiro está por todo o lado como uma impressão digital, aliada aos seus pêlos e cuspe. Este território pertence-lhe inteiramente. É o seu santuário.
          -A propósito, podias mandar construir uma capela. Passavas a realizar casamentos...
          -Mas, lá está. Com uma capela, teria de admitir crianças. Além de que sou ateu e agnóstico – respondeu Fausto, como se quisesse acabar por aí o assunto, que, de algum modo, parecia irritá-lo, atenta a expressão carregada em que  encarcerou o sorriso anterior à sugestão.
           A Domingos, de posse de um diploma do décimo segundo ano, conseguido quase à beira da desistência, os conceitos de “ateu” e “agnóstico” soaram como realidades inatingíveis à sua compreensão basilar de rapaz sem grandes perguntas sobre religião e filosofia. Todavia, teve a intuição clara de que, para Fausto, Deus era um absoluto embuste, e instituições criadas à sua sombra, como o baptismo e o casamento, realizados eventualmente numa capela semelhante àquela cuja construção lhe acabara de sugerir, seriam o prolongamento da pantomina e uma absoluta perda de tempo. Para ele, um solteiro de bem com esse estatuto e um bon vivant metaforicamente secular, era-lhe indiferente que um homem e uma mulher, vestidos a rigor, se casassem numa igreja consagrados por um padre, ou numa taberna com uns andrajos sujos e ao som de dois copos de vinho, num brinde feito pelo taberneiro numa atitude de deboche.
           -Sim. Só nos casamentos reais é que as crianças ficam em casa entregues às amas. Os reis e príncipes, pelo visto, partilham as tuas ideias sobre os miúdos – acrescentou o rapaz depois da exaustiva reflexão a que fora levado pela informação jornalística sobre o assunto.  
           -Vamos entrar e ver como são por dentro estes acrescentos ao projecto inicial – sugeriu Fausto, quebrando os pensamentos do rapaz sobre a filosofia de vida do amigo.
          No hall de entrada, amplo, a primeira coisa que se impôs a Domingos foi o chão, um imenso tabuleiro aos quadrados pretos e brancos, grandes a ponto de quase caber em cada um deles qualquer uma das trinta e duas peças de um tabuleiro de xadrez em tamanho vivo. Incluindo o cavalo e a torre sineira de um castelo medieval. O que o fez pensar na inspiração lúdica que teria guiado o arquitecto e o dono na concepção do aglomerado. Jogo puro, como a vida não deixava de ser, com cada ser humano sempre pronto a dar o xeque-mate ao adversário. E, por entre maples pretos de tamanho grande, jarrões brancos, com flores secas dispostas no seu interior, à frente de um balcão para atender clientes, vazio de momento, completavam a decoração, tornando o espaço relativamente acolhedor na sua imponência.
           Um homem chegou entretanto, após descarregar do carro de serviço, sob o coberto da entrada, as malas de um hóspede que o acompanhava. Este acabara de chegar de helicóptero, segundo percebera pelo som de uma hélice que abanara o ar quente da tarde e as folhas das árvores à sua passagem. O empregado, no seu fato misto de camareiro e piloto, diferenciado apenas pelo boné ornado a ouro exclusivo do exterior, tinha ido buscar o novo cliente.
          Indo em direcção ao elevador, mal viu Fausto, que raramente se deslocava àquela zona, o funcionário fez o mesmo ar de quem acaba de apanhar um susto, enquanto era sacudido por um pequeno estremeção de surpresa. Depois, com alguma atrapalhação e como se tivesse medo de ser repreendido por algum deslize cometido entretanto, cumprimentou o patrão num misto de receio e servilismo:
          -Boa tarde, Dr. Fausto, como vai?
          -Bem, obrigado. E o trabalho por aqui?
          -Vai andando. Eu bem me esforço. Se não há mais clientes é porque a concorrência redobrou de astúcia.
          Fausto esboçou um sorriso e, já em jeito de despedida, retorquiu:
         -Nada mal. Mas, podes fazer melhor, se quiseres. Tens jeito para o mercado…
          Entretanto os dois amigos afastaram-se, já o elevador envidraçado, mais ao fundo, subia com a bagagem do recém-chegado cliente e empregado dentro, este estimulado pelas palavras encorajadoras do patrão.
          -Este homem, além de camareiro e piloto, é angariador de gente para passar aqui férias. É um perfeccionista. Muito ambicioso, nunca está satisfeito com os resultados. Ganha à comissão. Julga sempre que nunca estou satisfeito com o seu trabalho, quando é ele que quer mais e mais. Às vezes tenho a certeza de que me inveja, que queria vestir as minhas camisas e apoderar-se do que é meu. Mas, enquanto cumprir como até aqui é pacífico…
           E foi então que Domingos pensou na grande probabilidade de Fausto ter tantos amigos como inimigos, apesar da sua acção de bom samaritano apostado em reintegrar ex-condenados, com um enorme passado às costas refinado como açúcar pela alquimia da prisão.
           -Então, e este, qual é a especialidade dele? – perguntou curioso e com um sorriso de provocação.
           -O Elias? – Tráfico de Cocaína. Um pequeno barão da droga. Mas perdeu tudo ao jogo. Sabes como é, dinheiro fácil, que, se a água o traz, a água o leva na primeira enxurrada. Foi o que lhe aconteceu…
          -Deve ter sido ele a abastecer-te para as emergências do hotel...
          -Claro! – respondeu Fausto, sem vontade de dar mais explicações sobre o seu pessoal, estranho para o senso comum de uma pessoa que nunca tivesse posto um pé em falso.
          Mas, vamos lá ao passeio. Daqui a pouco ficas com fome e uma pessoa esfomeada transforma-se num alucinado, com todos os sentidos a convergir em tropel para a comida como um enxame de moscas. Um homem com fome é um canibal em potência.
          -Ainda não cheguei a esse limite – acrescentou Domingos -podes confiar em mim – brincou.
           Enquanto conversavam no tom irónico que o passado dos seus colaboradores não deixava de sugerir, tomavam um arruamento após outro, tendo a natureza como pano de fundo, mais ou menos  a segredar-lhes sons estranhos e  misteriosos. Mais uma unidade do Auschwitz, como a imaginação de Domingos lhe sugeriu logo que começou a visita conduzida pelo dono, o mais sabedor dos guias turísticos do mundo.
          Depois, mais adiante, entrariam no caminho de terra que conduzia ao desfiladeiro, debruçado sobre a magia natural de um rio correndo sob um abrupto desfiladeiro. Mas só o alcançariam a seguir a uma subida íngreme, que lhes deixaria a roupa impregnada com o odor da transpiração desencadeada pelo esforço e pelo calor infernal da tarde. Este não dava tréguas, mesmo ali no meio da montanha, com o vento a bulir em fogo. E então atingiriam o ex libris do hotel, o responsável número um pela procura de experiências, quase se poderia dizer, radicais. Se havia local no mundo propício a desencadear adrenalina era aquele, fundido medo e aventura num só. Era como lançar-se, num voo único, para a liberdade e para a eternidade simultaneamente.
           Num pequeno recanto do percurso, sombreado por um carvalho, sentada ao lado de uma pequena fonte, uma mulher ainda jovem estava a ler, concentrada e imóvel como a pedra do banco em que se sentava. Alheada de tudo, parecia estar a viver momentaneamente num outro mundo, ali sobre as páginas do livro, e a fazer parte da história como a sua protagonista. Ao vê-los aproximar-se, fechou-o maquinalmente, e então os dois amigos puderam verificar que se tratava de “A Divina Comédia” de Dante.
          A seguir, foi Fausto a admitir a hipótese de a sua hóspede, por causa da cara de felicidade apresentada, estar, com toda a certeza, na parte que tratava do Paraíso e do seu universo de anjos diafanamente esguios.
Enquanto isso, mais do que postas em relevo as fragilidades culturais de Domingos, foi Fausto a estabelecer de novo o paralelismo poético entre o medievo Dante, com a sua “Divina Comédia, e o renascentista Camões com os seus Lusíadas, um e outro devotados às causas épicas da Humanidade e à sua visão do Universo, em que o Outro Mundo não deixava de estar contemplado.
          Quando acabou, Domingos, entre um sorriso idiota e um olhar desinteressado por literatura, sem hesitações como as anteriores ao imaginar os pavilhões como uma réplica de Auschwitz, sem se envergonhar do seu Calcanhar de Aquiles sobre bibliotecas e livros, disse:
          -Para quem chegou aqui roto e quase nu, toda essa Literatura é capaz de ficar empanturrado mesmo antes do jantar.
          E riu-se com ar de gozo.
          -Ai se Fernando Pessoa te ouvisse!
          -Porquê?
          -Então e o seu poema “Liberdade” mundialmente conhecido por amantes de livros e de bibliotecas?
          -Pois. Se alguma vez o ouvi não me lembro.
          -Também não serei eu agora a declamá-lo…Mas, tens razão – anuiu, sorrindo igualmente - Vamos lá deixar a senhora no décimo céu das suas aspirações, desejando que não sofra qualquer vertigem do voo em nenhuma circunstância. Se não ficar cega entretanto, oxalá não tire os pés da terra, de onde pode sempre contemplar a lua e as estrelas. O céu é uma coisa difícil de alcançar. Sobretudo por amantes de prazeres idênticos aos que o meu hotel proporciona…

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Dionísio Dinis em Março 24, 2020, 20:38:16
De um fôlego. Como quem espera o final sem desejar que esta história termine. Bem Bom!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Março 24, 2020, 21:38:46
VIII

          Como a hora avançasse, havendo, apesar de tudo, ainda bastante sol, verdes, saindo, de onde em onde, debaixo das pedras, lagartixas no seu camuflado atravessavam com rapidez o empedrado, sobre o qual  os dois homens seguiam com relativa  ligeireza.
          -Deve haver bastantes animaizinhos destes por aqui – fez notar o rapaz, numa constatação evidente da biodiversidade que a montanha albergava no seu meio único.
          -Sim. E não só. Cobras e lagartos também. Estão no seu ambiente natural. Nós é que estamos deslocados. À beira do chalé aparecem bem menos. Querendo sossego, fogem a sete pés dos humanos como o Diabo foge da cruz. E dos gatos, uns pequenos seres bem atrevidos para o seu tamanho, que gostam de se divertir com elas fazendo-as rabiar com malabarismo. Embora raramente levem a melhor. Animais ladinos, as lagartixas. Em contendas, podem ficar sem o rabo, mas raramente perdem a cabeça, como muitos humanos.
          Ao aproximarem-se de uma clareira, onde um relâmpago tinha lambido a labaredas meia dúzia de pinheiros, Domingos reparou em dois homens e uma mulher, que, ao verem os amigos aproximar-se, começaram a afastar-se. Tornava-se nítido que ali, frequentemente, eram acendidas fogueiras sem nada a ver com magustos gigantes de outono. Seriam com certeza  vestígios dos rituais de que Fausto já o pusera ao corrente. E, ao chegarem-se mais, viram ainda que, naquele sítio, agora mais ou arenoso e lavado pelas águas da última chuvada, estava desenhado um pentagrama invertido como uma banal construção de areia numa praia propícia à arte efémera.
          -Falaste-me nisto há pouco…
          -Alguns hóspedes vêm para aqui fazer ritos satânicos. Sacrificam até animais. A maioria das vezes lagartixas como as que viste agora, e cobras. Mas também gatos. Não é raro chegar-se aqui e vê-los mortos, depois de lhes terem bebido o sangue até à última gota. No fim, terminado o culto e a invocação do mal, os abutres vêm aqui buscar as carcaças. Dá para todos, presumindo eu que, a haver algum resultado depois, até as águias, os milhafres e todos os predadores se tornem demoníacos.
          -Mas, há gatos aqui? E que raio de hóspedes tu tens! – exclamou Domingos, meio a sério meio a brincar.
          -Há. Quando o hotel foi criado, trouxe dois ou três, um deles uma fêmea. Depois foram nascendo uns quantos a cada cio, um verdadeiro saco de gatos. Não tanto como os coelhos na Austrália, mas, ainda assim, numerosos. São alimentados com as sobras da cozinha. E, à hora em que estivemos no chalé, ainda andavam por aí a lagartar em qualquer lado. Talvez no seu posto favorito, empoleirados nas árvores e a fazer de trapezistas.
          -O Diabo não os persegue?
          -Nem um pouco. É mais uma das suas facetas de anjo. Um mastim querubim – riu-se -. Lambem-se uns aos outros como se fossem todos tão doces gelados de verão. Mas, vamos lá subir ao penhasco.
Domingos ainda não tinha visto qualquer bichano refastelado e a pentear os bigodes ao calor da tarde. Ele, que não os apreciava grandemente, ficou surpreso com a recente descoberta afeição de Fausto por gatos. A ponto de, numa efabulação de dramaturgo surrealista, ter antevisto o amigo como uma velha, suja, feia e andrajosa, a viver numa pocilga cheia de trastes até ao tecto e a dar, sobre uma folha aberta de um jornal para não sujar nada, as espinhas a vinte e um gatos cheios de remela, doentes e sem nunca terem feito uma visita ao veterinário.

IX
 
          Enquanto galgavam as rochas, nuas cada vez mais à medida da aproximação ao topo, de semblante carregado, apreensivos alguns, uns quantos homens e mulheres faziam o percurso inverso. Como se fossem pequenos arbustos presos pelas raízes, espetavam os pés nas reentrâncias das pedras para não caírem.
          -Não há uma forma mais fácil de chegar lá ao alto? – pergunta Domingos, começando  a experimentar o mau gosto da fome, após algumas horas sem trincar uma folha de alface.
           -Há. Mas estes gostam de alpinismo e de emoções fortes. Vamos por este caminho – sugeriu Fausto, aproximando-se de um carreiro que, serpenteando as escarpas, os fazia contornar os obstáculos, enquanto, para prosseguirem com êxito, tinham de arredar com a mão giestas invasoras.–. Não sei se eles conhecem este acesso…
          -Mas, então, o que há lá em cima que atraia tanto os hóspedes?
          -Para começar, o próprio penhasco. Trata-se de um lugar inóspito e inacessível, onde, em circunstâncias normais, praticamente só chegam aves de rapina. Sobretudo as diurnas, por precisarem de ver bem do alto as suas presas. Águias, milhafres, grifos falcões e por aí. Também há lá a cavernas dos morcegos, e corvos às dezenas. Às vezes o barulho de todos eles mete um bocado de medo aos mais afoitos. Sobretudo de noite – acrescentou Fausto olhando para o ângulo do sol, a cair paulatinamente para oeste em busca do mar.
          -Acabaste de me falar do Inferno – brincou de novo Domingos –. O Inferno não deve ser tão assustador como o quadro que pintaste.
          -Fausto riu-se com o exagero do amigo. Tratando-se ou não do Inferno, era a sua casa.
          E, como para ilustrar a descrição do lugar mais místico a que se podia aceder, um oportuno bando de corvos fez-se ouvir por cima deles numa escarpa de bicos pontiagudos, logo seguido do eco de outras aves de que Domingos nunca ouvira falar.
          O vento leste, que ao longo do caminho soprara esporadicamente, à medida do subir do fim da tarde no horizonte, à beira do crepúsculo, recrudescia, desgrenhando como pentes agrestes os cabelos dos dois escaladores da montanha. Na acepção bíblica, o vento leste era um vento de destruição. Além das areias do deserto, sempre trouxera à vida dos homens a morte, anunciada por mensageiros tão indesejáveis como pragas de gafanhotos, moscas, mosquitos rãs e coisas semelhantes, que às vezes caíam do céu em catadupa numa partida de mau gosto forjada pelos deuses melífluos do espaço.
          Até ele, Fausto, começava a achar demasiado tenebroso o relato dos prodígios do seu penhasco. Talvez estivesse a assustar excessivamente Domingos, impedindo-o de desfrutar da paisagem vista lá de cima. Por isso julgou por bem ficar por ali, sem se alongar mais em explicações e adjectivos. Mas Domingos, percebendo-lhe a hesitação, insistiu:
          -Anda lá, continua. Não tenho medo, nem de pássaros nem sequer do Diabo. Olha para a minha barba! – propôs, passando a mão pelo rosto num sorriso desafiador.
          -Fazes bem… Quem inventou o Diabo foi o mesmo que inventou Deus. E um outro são uma farsa. Não existem fora da nossa imaginação. O que existe são as acções e as suas consequências. O resto é pura invenção dos homens para justificarem, tanto os sucessos como os fracassos.
          -Claro! - acrescentou Domingos enquanto chegavam ao cume. Em baixo, a centenas de metros, ali ao lado no desfiladeiro, uma queda de água chocalhava o rio, deixando-o cor de prata e borbulhante de espuma, ao mesmo tempo que o seu eco chegava ao cimo, algo assustador mesmo no verão
          –Isto aqui no inverno é tenebroso. A chuva cai desabrida nos rochedos como cascos de cavalo a arrancar à pedra sons de arrepiar. E todos os ventos fazem disto o seu ponto de encontro. Em dias de tempestade, uivam como uma alcateia enfurecida sobre uma presa indefesa. É como se a montanha se vá despenhar inteira nas águas a qualquer momento, ansiosa por se libertar da fúria da natureza. Mas, ao mesmo tempo, esta paisagem não deixa de ser, , diabólica e deslumbrante. Não concordas? Olha só lá para o fundo! – sugeriu Fausto fazendo notar os contrastes.
          -Tens razão. É de cortar a respiração – concordou Domingos extasiado.
          -Sim. É mesmo de ficar sem fôlego…E como cada lugar assim fascinante tem o seu lado mau, este não foge à regra…
          -Que queres dizer com isso? – perguntou o rapaz, começando a ficar apreensivo. Sobretudo pelas caras amargas de duas ou três pessoas com quem se tinham cruzado à subida, e que, agora com tantas culpas atribuídas por Fausto ao lado maquiavélico do penhasco, o levara a pensar em tragédias ocorridas naquele lugar com pessoas atraídas pelo abismo.
          -Quero dizer que às vezes isto aqui é palco de suicídios… E eu, como deves calcular, não o posso impedir…
          -Claro – disse Domingos horrorizado, e para quem a vontade de descer de um sítio que agora lhe começava a aparecer maldito se tornara bastante forte.
Fausto, adivinhando-lhe os pensamentos, retorquiu num tom menos sombrio:
          -Vamos embora. Está quase na hora do jantar. Hoje, no chalé, a ementa é salmão com legumes salteados e perdiz com puré de couve-flor. É privativa. Só para gente com dinheiro, para apreciadores da cozinha gourmet. Como o banqueiro Mateus, o ex-Deputado Alcino e Macário, o dono de um casino. Normalmente, todos eles costumam jantar à mesma hora que eu.

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Março 27, 2020, 16:32:21
Então, e se continuasses?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Março 27, 2020, 16:50:53
Nem é tarde, nem é cedo...


                                                                                  X

          No caminho de regresso, quase à chegada, Domingos não resistiu a questionar o amigo:
          -Não sei o que poderia dar pior fama ao hotel: se os suicídios no desfiladeiro, se uma criança raptada e morta a seguir para encobrir o crime.
          -Nem se questiona! Claro que era a criança! E eu admito-as. Mas têm de ter mais de doze anos. Agora vamos jantar, deves estar esfomeado. Pode ser que a Orlanda tenha entretanto ficado mais simpática com o amigo do patrão – brincou mordaz.
          Domingos quis perguntar a Fausto se a rapariga gostava dele para lá do uniforme de recepcionista e de baixo de outra roupa, no calor da cama e no auge de ais e suspiros de prazer. Mas não se atreveu a tanto. Não quis ser vulgar. Teve medo de parecer ordinário e de perder, com uma tal  indiscrição, uma estadia de príncipe num hotel de luxo. E, agora, viesse lá o salmão, a perdiz e a sobremesa, a fome era muita. Sentia-se um alforge sem fundo e devorador.
          -Queira Deus que a comida chegue – pensou, enquanto os dois, com ligeireza, se dirigiam para a mesa.




                                                                                  XI

          Enquanto, numa pequena mesa expressamente colocada para o efeito na esplanada do bar, jantavam,  um em frente do outro, Fausto olhava para o rapaz e lembrava-se da infância do moço. Quando o conhecera, era um miúdo egocêntrico, que pais e avós achavam engraçado, nos seus ditos de menino mimado e fértil em atitudes egoístas. Educado com excessiva brandura, sobretudo pela mãe, filha única, tornara-se o terror dos sítios onde passara logo aos primeiros anos. Desde o infantário até à primária, como se de um pequeno demónio se tratasse, os outros miúdos temiam-lhe os beliscões, empurrões e mimos do género até à alma. A professora, sempre que Domingos se excedia, chamava a mãe à escola, informava-a  da gravidade das diabruras do filho. Ela ouvia-as, se calhasse corava de vergonha, ia a seguir contar a uma amiga pondo a mão à frente da boca, e tudo ficava por isso mesmo. Nunca conseguira fazer nada do garoto. Cedia sempre aos seus caprichos. Raramente tomava em devida conta as obrigações escolares do rapaz obrigando-o a levá-las a cabo. Deixava normalmente o trabalho odioso por conta do pai. Tendo o miúdo sido, em mais uma ocasião, repreendido por não ter feito os deveres de casa, das vezes seguinte, para o filho não ser castigado na escola, fazia ela própria os trabalhos, sem discernir o mal que lhe provocava. Por isso Domingos se tinha tornado um pequeno déspota, algo mentiroso e até mau. Ávido por dinheiro e pelos prazeres proporcionados por ele, era capaz de pisar os irmãos no capacho da entrada se fosse preciso, só para levar a dele avante.
          Mas, agora, anos passados, estava ali à sua frente, com uns calções e o resto da roupa seus, barbeado e apresentável, bonito como nunca. Embora com um vício que, não sendo de desvalorizar, talvez não viesse a ser a sua ruína. Parecia mais ajuizado, apesar de um modo adverso do seu próprio modo de encarar o mundo e a forma de lhe endireitar os entorses. Orlanda, Paulo, Elias e os outros que ele ajudava, e que Domingos nem sequer conhecia, tinham levado o rapaz a um juízo de censura mal disfarçado pelos actos do passado criminoso de todos. E isso, apesar de tudo, era sinal de que o jovem estaria no caminho certo e que a ele mais lhe agradava. Como se Domingos fosse seu filho e ele lhe quisesse dar, na mesma bandeja, o melhor de dois mundos.
          Por sua vez, o rapaz achava que Fausto, com tantas acções solidárias, não deixaria de ter um certo interesse em manter os ex-reclusos por perto. Talvez uma espécie de escravos a quem pagasse uma bagatela pelo trabalho no hotel. Ele não seria, com certeza, nenhum santo. Um santo não tem droga no cofre e não foge ao Fisco, como o amigo admitia fazer. Mas se um santo tradicional era complacente com toda a gente, incluindo com banqueiros ladrões, deputados corruptos e tentava arrancar de cada um deles o seu melhor, Fausto devia ter tanto de santo como de demónio. E como uma mão lava a outra, ali estava ele a usufruir desse equilíbrio, a meio passo entre o caminho do Céu e o do Inferno.
          Por agora, tinha fome e a comida estava à sua frente, a cheirar bem e apetitosa.
          -Que tal o salmão? – perguntou Fausto.
          -Muito bom. Já não comia há mais de vinte e quatro horas – acrescentou, levando aos lábios um copo de vinho branco fresco, que Paulo lhe servira da garrafa, colocada entretanto no balde de gelo para se manter a uma temperatura adequada.
          -Se quiseres podes repetir. Mas não to aconselho. A perdiz estará, com certeza, uma delícia. O cozinheiro, o Ernesto é especialista em caça. E por aqui há muita.
          -Também é dos tais?... – não resistiu o rapaz a perguntar.
          -Pedófilo, mais concretamente…
          -Então é mesmo melhor que não haja aqui miúdos…
          Chegou a perdiz, a sobremesa veio a seguir, o café por último, na ordem de um jantar cheio de requinte, um verdadeiro manjar dos deuses. Um homem saciado é um homem feliz e assim por diante.

Contínua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 02, 2020, 16:39:30
Café... sobremesa... hum... Cheira-me a jesuítas por dentro da imaginação!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 02, 2020, 17:22:47
                                                                              XII

          Finalmente, o calor amainara um pouco. A escuridão havia envolvido a montanha há muito num manto de silêncio, que uma ave nocturna, desviada da rota do desfiladeiro, quebrava num pio a solo e sem eco. O vento leste desprendia-se das árvores, cada vez mais intenso. Num rugido ainda moderado, assegurava, contudo, para o dia seguinte, o braseiro que, por todo o lado com poucas excepções, continuaria a devastação por montes e vales, levando tudo a eito com absoluta falta de critério para a sua voracidade incineradora.
          Quando se levantaram da mesa da esplanada, ainda os outros hóspedes jantavam na sala.
          Fausto perguntou em seguida:
          -Sabes jogar xadrez?
          -Nem xadrez, nem cartas. Não sei jogar nada. Só jogos de computador e telemóvel, e este não o trouxe sequer.
           -Também não te aconselho a ver televisão. A televisão deixou há muito de valer alguma coisa. São só novelas atrás de novelas, reality shows de gente de cabeça com fraca densidade e inteligência retrograda como certos planetas, caçadores de fama sob lençóis encardidos. Queres ver um filme?
          -Sim é boa ideia. Gosto de cinema,
          -Então vamos lá.
           E dirigiram-se ao pequeno auditório, onde Fausto colocou um DVD que, daí a nada, na televisão de muitas polegadas, surgiria o filme da noite e em que Domingos, antes da ficha técnica, actores, música e as menções habituais, começou por ler:


                                                                              
                                                   O RAPAZ DO ISQUEIRO ASSASSINO
                                                    
                                                        
                                                      Filme baseado em factos reais

                                                                          1
           O comboio amarelo entrou na estação a um ritmo lento, depois do derradeiro apito com que se fez melancolicamente anunciar.
A seguir, as portas automáticas abrir-se-iam e, finda a viagem, os passageiros apresar-se-iam a sair rapidamente, sob o ruído dos mil e um passos de gente interessada em chegar a casa. A composição não trazia muitas pessoas. Era o final de um fim-de-semana de festa na Barrinha, a segunda-feira luzia no horizonte próximo como mais um dia de trabalho, embora Agosto fosse um mês de férias por excelência. Havendo ainda demasiadas ligações até à meia-noite para os festivaleiros apanharem os últimos foguetes da romaria, a maioria deles aguardava por comboios mais tarde para regressarem, já durante a noite, antes de se prepararem para enfrentar o dia seguinte.
           Entre os passageiros havia duas ciganas, que, como a maioria dos outros viajantes, saíram do comboio apressadamente, não fosse este arrancar com elas dentro até á paragem seguinte, tendo elas depois de inverter o caminho como se tivessem adormecido durante a viagem. A mais velha, de rabo-de-cavalo negro, vestia com displicência um vestido às ramagens pretas e brancas, como quem não quer ver-se notada. A outra, mais nova e bonita, trazia calças de ganga justas e uma t-shirt verde, com a foto de uma mulher coquete de chapéu de palha à frente. Tinha igualmente cabelos negros, soltos. Rondaria os quinze, dezasseis anos talvez. Caminhavam em silêncio, ambas com um saco de plástico, cada uma, na mão, em que espreitavam pequenas quinquilharias compradas na festa.
           O rapaz, um dos outros viajantes do comboio, na casa dos vinte e alguns anos, entrado como elas no apeadeiro da Barrinha, viu-as sair e acompanhou-as com o olhar, referenciando-as de imediato como moradoras do local aonde ele se dirigiria daí a nada. Contudo, deixou-as prosseguir à frente, sem uma palavra, como se eles lhe fossem completamente desconhecidas. Talvez se encontrassem daí a nada, o destino dos três era o mesmo, o acampamento dos ciganos ali perto, onde ele seria mero visitante de circunstância e as duas moradoras habituais.
           Mal saiu da gare, o jovem olhou os postes com as cegonhas no topo, ao redor da linha, nos berços redondos de madeira instalados pela companhia de electricidade para a nidificação das aves. A seguir, colocou na cabeça o capacete, com que andara todo o dia no braço como uma cesta, dirigindo-se a uma mota estacionada ali perto, o seu transporte favorito para deslocações ali pela terra e arredores. O veículo permanecia, à sua espera há mais de quatro horas, estacionado algures nos seus dois pés extensíveis de bengala ortopédica sempre pronta para ele como a mais fiel das criaturas.
           Montou-o com agilidade, ajustou o capacete, ligou a ignição e, quando a mota lançou no ar o último ronco de aquecimento, abalou pela estrada ao som do escape livre do veículo, especialmente preparado para fazer aquele barulho provocador de ouvidos sadios e dos outros.
           Ladeada de um lado por imensa vegetação de pinheiros e eucaliptos, a via seguia, a maior parte do percurso, ao lado da linha férrea, perto da qual, não muito longe da estação, num pasto, com um ou dois molhos de forragem e alguns cobertos colocados em locais estratégicos, quatro vacas pachorrentas faziam ainda a sesta, mal refeitas do calor que se fizera sentir durante toda a tarde.
           Desde que iniciara o percurso, ainda não era passado um quilómetro  quando, da curva anterior e de cima da motorizada, o rapaz vislumbrou o acampamento. Era à face da estrada, e, depois de deixar as duas ciganas para trás caminhando a pé, moderou a velocidade e o ruído da viatura. Não que precisasse das duas mulheres para fazer o que ia fazer ao acampamento e tivesse de esperar por elas, mas para ir pensando melhor numa boa desculpa para conseguir algo, que, à partida, lhe parecia difícil.
          Da mota, já via a traseira da carrinha cinzenta, velha e desbotada, empinada no pequeno declive do monte, e que os ciganos usavam habitualmente nas suas deslocações para as feiras. A carcaça, com a frente dentro do pinhal, olhava os barracos de tijolo que entretanto tinham sido construídos por ali ao acaso. De alguma maneira, a construção dava aos moradores a sensação de já não serem os nómadas de antigamente, de quem toda a gente tinha medo e que, mal sentia o gemedouro das carroças ao longe, trancava a porta como se a peste estivesse prestes a chegar, embrulhada nos panos daí a nada pendurados na feira, juntamente com artefactos pousados no chão, de que os cestos de vime eram um bom exemplo. A outra viatura, a de caixa aberta, a que arrumara de vez com a velha carroça e dava agora descanso ao cavalo, estava mais à frente. Desta vez virada para a estrada e pronta a acondicionar em viagem uma família de catorze pessoas, conduzida por qualquer um dos homens sem carta que ali viviam há um bom par de anos.
          Tudo depois de o dono da mata, um cidadão crente em Deus e bondoso, os ter autorizado a abancar por ali até melhores dias. Entretanto, o homem foi vendo os comodatários a aumentar de número e a transmitirem, sucessivamente, o abrigo às gerações posteriores como se se tratasse de uma herança pessoa, sem ele poder fazer nada para os retirar dali. Dizia-se que ele estava realmente farto da ocupação. Até por querer fazer no local uma plantação de eucaliptos para depois vender a madeira à celulose mais próxima e ganhar bom dinheiro com isso. Contudo, para tirar dali os inquilinos, seria preciso inventar uma lei que conseguisse incutir nas autoridades uma atitude diferente da habitual “vista grossa” para com eles em muitas e diversas situações. A carta de condução era só mais uma, a luz eléctrica, furtada dos postes quantas vezes, era outra. Seria talvez também o caso de uma fornecedora de serviços de televisão, que estaria, com toda a certeza, nas tintas para as outras duas e lhes instalaria lá o serviço de fibra óptica se lho pedissem desde que tivesse maneira de se cobrar por isso. Não que fosse o caso daquele acampamento, mas porque, em muitos outros, tudo parecia ser assim, absolutamente entregue à lei da força e aos seus artigos mortos, suficientemente fracos para gerarem qualquer medo. Havia por todo o país demasiadas barracas, e não constava que eles se privassem de ver televisão em muitas delas por causa das suas frustres condições de salubridade.
           E ali estava o rapaz, já apeado, a olhar a roupa variada, estendida nas cordas penduradas entre dois pinheiros, a secar ao lado de sacos plásticos com a cor comida pelo sol por estarem ali perdidos há tempos infinitos a servir de vira-vento.
           O cavalo, mais ao fundo, desbastava alguma erva, nascida ao longo de um ano chuvoso, e que tinha agora a aparência de feno providencial para alimentar o animal na época de Estio que decorria. O cão, um rafeiro malhado, preto e branco, o Ringo, logo que o visitante se apeou, deu um ar da sua voz, ladrando-lhe enquanto não o reconheceu. A brincar com ele, atirando-lhe uma pequena bola de pingue-pongue amarela, no meio de alguns trates abandonados por ali, estava Litos, o rapaz surdo-mudo de doze anos, o irmãozito de quatro e os primos mais novos, Mila, da idade do primo deficiente, Ramon, um pouco mais novo, Alba, Gonçalo. Joaquim, o mais velho, estava um pouco mais afastado a fumar um cigarro no monte. Tinha os mesmos anos de Sameiro a prima, e tinham desde o nascimento o casamento combinado um com o outro como era tradição.
           Espalhados por ali, encontravam-se quatro bidões de plástico azul, um deles perto da carrinha virada para a mata, descorados e cheios de água destinada aos usos domésticos, que os homens da casa iam encher na carrinha de caixa aberta ao fontanário da aldeia a cerca de três quilómetros dali.
          Mal viu os miúdos, o rapaz pediu-lhes para irem chamar Inácio, que, antes de sair do barraco onde se encontrava, espreitou por um postigo da barraca, em virtude de não ter conseguido perceber o que Litos tentou dizer-lhes, a ele, ao irmão e à cunhada grávida, juntos de momento no final de uma refeição de fim de tarde.
          -Ah, é você, Telmo – proferiu Inácio de dentro, pelo postigo.
          -Boa tarde, Senhor Maia. Precisamos de tratar daquele assunto…
          -Já vou – disse um homem moreno, dos seus quarenta e poucos anos, de bigode, vestido de preto, que, ao preparar-se para se encontrar com o visitante, colocou um chapéu na cabeça, como se com isso quisesse auto atribuir-se algum prestígio social, ainda que o encontro com o visitante fosse decorrer nas bordas de uma mata onde nascera aleatoriamente um acampamento.
          Já fora, o homem demorou alguns instantes a olhar para o rapaz. Parecia querer certificar-se de que o outro sabia mesmo o que ia ali fazer ou se calculara mal a tarefa.
          Fê-lo, como sempre, com ar desconfiado e pronto a negar qualquer coisa de irrazoável que o jovem pusesse eventualmente pedir-lhe. Do mundo de negócios marginais, roupa contrafeita, vendida nas feiras na carrinha, ali de olhos virados para a mata, se a maioria dos paisanos o olhava com desconfiança, ele e os seus faziam-lhes o mesmo sem se incomodarem com isso. O “não” que pudessem receber, por um motivo qualquer, seria o mesmo que devolviam em dobro, ou triplo, se o assunto não lhe cheirasse bem e tivessem de se impor com o orgulho da raça.
          Telmo, sem capacete, era um rapaz, alto, ruivo, bem-parecido, apesar de um pouco magro. Cheio de sardas na cara, tinha olhos verdes e lábios grossos, que mordia de vez em quando. Sobretudo quando contrafeito. Tanto quanto parecia, por estar algo nervoso na presença daquele cigano de chapéu e com estilo, fora do seu barroco, coberto por agulhas de pinheiros que funcionavam como únicos e amistosos vizinhos.
O rapaz vestia calças e uma camisa de ganga de botões de metal, e já não era a primeira que ele e Maia se topavam nas encruzilhadas de um negócio que não se sabia ainda qual era.
          As duas passageiras chegaram entretanto. A mais velha era a mulher do Maia, a outra a única filha, a Sameiro, entre quatro rapazes, solteira ainda mas prometida ao primo. E, depois de trocar algumas palavras com elas, Inácio abriu a carrinha da roupa e mandou Telmo entrar, como se o veículo fosse o seu escritório e aí tivessem os dois de tratar de negócios importantes.
          A seguir, quem, do lado de fora, os visse atrás dos vidros, diria que o rapaz estaria provavelmente numa posição de inferioridade. A sua cara era quase de súplica, contrita por um fio de lágrimas nascente e prestes a turbarem-lhe os olhos, movidas por uma séria contrariedade. E, pela maneira como Inácio Maia abanava a cabeça e mexia os lábios, fosse o que fosse que o rapaz lhe estava a dizer ou a pedir, era quase certo que, dentro de pouco tempo, este sairia frustrado e com a pouca esperança com que entrara feita em cacos.
           Quando, ao fim de cinco ou dez minutos, a porta da carrinha se abriu e saiu cada um por seu lado, ainda se ouviu o cigano dizer:
          -Nem pensar. Isso não. Não me peça semelhante coisa. Um dia pode ser, agora não. Mais depressa lhe fiava a carrinha com os pólos e os lençóis dentro.
           Daí a nada, visivelmente irritado, Telmo montava na mota, saindo dali a toda a velocidade à frente de um carro vermelho surgido entretanto na curva, e que, ao som de uma estridente buzinadela, teve de travar a fundo para não colidir com as duas rodas saídas abruptamente do acampamento.
           -Seu cabrão! –verbalizou o condutor quando ultrapassou a mota
 

 Continua.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: carlossoares em Abril 02, 2020, 18:38:00
A Gabriela, e não me refiro apenas a estes textos, tem um poder de efabulação extraordinário, associado a uma grande cultura e sentido de humor, que todos ganhamos em ler, porque nos propõe excelentes evasões, mais importantes ainda, neste tempo de reclusão programada. E que nos faz sentir a passagem do tempo, como não sendo uma perda, mas um prazer. Obrigado.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 02, 2020, 19:05:38
Obrigada pelo estímulo, Carlos Soares. Uma vez que me abriu a porta, cá vai mais um bocad0.




                                                                                      XIII

          -O que terá o rapaz ido fazer ao acampamento? – perguntou Fausto a Domingos, com uma grande desconfiança e como se, mais do que ver um filme num puro conceito lúdico, se preparasse para promover um debate no final.
          -Talvez tratar da saída dos ocupantes do terreno. Às tantas é o neto do dono. Eles até querem lá plantar eucaliptos. No Outono é boa altura para isso. Já não falta grande tempo.
          -Não acredito muito…Tenho outra ideia…
          -Qual?
          -Acho que foi comprar droga…E, pela cara dele, deve ter saído de mãos a abanar…
           -Pode ser. Aposto, contudo, na outra hipótese. Os eucaliptos crescem muito depressa. A madeira dá muito dinheiro. Mas é melhor esperar, antes de nos decidirmos por uma especulação prematura. – disse Domingos.

                                                                                2

          O sítio aonde o rapaz se dirigiu, a seguir, era a aldeia típica de uma região onde a indústria e a agricultura viviam paredes meias, num equilíbrio algo instável ao longo dos últimos tempos. As unidades industriais das redondezas, se outrora contribuíam quase para o pleno emprego da cidade capital de distrito e seus concelhos limítrofes, tinham perdido essa capacidade, depois da concorrência estrangeira mais recente e imbatível. Algumas, em dois ou três anos, tinham ido à falência, e se alguma coisa restava delas, eram teimosos esqueletos de mãos apontadas para o céu à espera de rejuvenescimento e uma nova oportunidade. Entretanto, quais casas assombradas, davam guarida ao lixo e ao estrume, quantas vezes aproveitado por sementes tão obstinadas como as de uma figueira, para uma ou outra irem nascer, bravias e displicentes, num local tão arrevesado como a torre de uma igreja. As unidades fabris ainda resistentes não tinham arcaboiço para garantir um futuro aos mais novos. Pelo menos a todos. A dos químicos continuava dentro dos parâmetros de poluição aconselhados para a sua laboração, as metalomecânicas a mesma coisa, as fábrica de motos e a de peças de automóveis também. O mesmo acontecia com as empresas de serviços como a de transportes, com sede perto da estação ferroviária, e cujas paredes, demasiado velhas após a falência, pareciam não ter estofo para se reerguer algum dia numa dinâmica que tivesse o comboio como impulsionador. Uma das mais importantes era a de lacticínios. Empregava bastante gente. Sobretudo os mais velhos e com contratos antigos, sem termo. Mesmo assim porque não podia converter esse vínculo em situações de curto prazo para os despedir ao fim de meio ano. Contudo, não era suficiente para escoar a mão-de-obra jovem, que se via obrigada a ir para o estrangeiro a um ritmo avassalador. A agricultura e a pecuária nunca haviam tido grande expressão na região. Salvo algumas pequenas vacarias, que nem sequer alimentavam completamente a unidade de lacticínios. Além de haver também por ali algumas outras vacas avulso, ao sol em dias de domingo e a pensarem em coisa nenhuma. As leiras e o seu cultivo eram actividades de mera subsistência. Até porque, cada família, proveniente de heranças antigas e minúsculas, possuía uma nesga de terra numa horta, de onde tirava umas couves para meter numa panela, da qual, no fim, saía uma sopa quente. Mas era pouco.
          Daí que os dois filhos mais velhos de Ana Rosa, uma viúva com perto de oitenta anos, há quase vinte em França, logo no início de Agosto viessem passar na aldeia as merecidas férias anuais. Era a única altura em que podiam passar junto da mãe e da irmã mais nova. Dos três, só Catarina, enfermeira formada na universidade, ficara, juntamente com o marido, depois de um e outro amarrarem por cá a sua esperança a um emprego que estava longe de ser bem remunerado. Ainda assim, era ela quem ia cuidando da mãe e dava a esta a alegria de ter netos próximos, dois rapazinhos, os únicos a quem Ana Rosa via crescer, enquanto lhes dava e recebia algum colo.
           Por agora, havia um motivo acrescido para as férias serem as melhores de sempre: a neta mais velha de Ana Rosa, a filha de Leandro, Sílvia, uma rapariga com pouco mais de vinte anos e que fora para França com cinco, iria casar na igreja da freguesia, depois de um namoro longo e feliz. O noivo era francês, e as expectativas de que o acontecimento corresse bem e fosse bonito eram muitas. O país sempre fora acolhedor. Derretia-se, sempre emocionado e com uma lágrima de felicidade, perante um caso de amor, a quem abria os braços como um Cristo-Rei protector.
          A igreja erguia-se e impunha-se, branca e harmoniosa, no largo airoso da terra. À sua sombra tinham surgido diversos e estabelecimentos, com uma importância ditada pelos usos de cada época. Primeiro talvez tivesse aparecido a mercearia, depois a taberna, que, numa metamorfose de costumes, se havia transformado no café da praça de hoje, ponto de encontro de sempre, embora perdurasse nos hábitos da casa um leve traço da sua função de outrora, de que, copos de Moscatel, Vinho do Porto e outros sumos de uva idênticos, eram ainda vestígios, servidos quase como contravenção logo às primeiras horas da manhã.
          Foi para a praça que, antes do jantar, Telmo se dirigiu. Estacionou ao lado de três carros, um deles de matrícula francesa. Desmontou da mota e pendurou o capacete numa das hastes do guiador. Com ar de frustração e, ao mesmo tempo, falsas esperança de se ter enganado nas vezes anteriores em que já fizera o mesmo frenético gesto, passou as mãos pelo peito como se estivesse a fazer uma revista a um suspeito de furto. E, pela ansiedade com que o fez, parecia estar à procura de coisas tão importantes como uma carteira escondida num bolso ou um telemóvel eventualmente submergido num rasgão traiçoeiro das calças.
           Após alguns momentos sem qualquer resultado, entrou por fim no café e sentou-se numa mesa a um canto. A seguir, quando a dona o foi atender, depois de responder à saudação familiar que a mulher lhe dirigiu, pediu uma cerveja fresca.
Preparava-se para a beber, no mesmo café onde, junto com um emigrante da terra, dois clientes faziam o mesmo, acompanhando a bebida de tremoços e amendoins. Tratava-se da revisitação anual do homem ao berço natal, de que agora usufruía curtindo o sol murcho de fim de tarde na companhia de amigos de longa data.
           Foi nesta particular circunstância que, pela primeira vez, Telmo ouviu Leandro, o filho de Ana Rosa, falar com entusiasmo do casamento da filha no sábado seguinte. Seguir-se-ia a boda, uma festa de arromba, numa quinta fidalga devorada pelo musgo dos últimos cinquenta anos, mas resgatada recentemente ao pó da ruína para a realização de eventos tão importantes como casamentos, baptizados ou outros encontros sociais com elevado número de participantes. Era o caso.
            -São cento e vinte convidados. O meu futuro genro é francês. De Marselha. A família dele e os convidados chegarão sexta-feira. Cerca de cinquenta pessoas a dividir por hotéis e pensões das redondezas.
           -E o noivo já conhece o país? – perguntou Alberto, um colega de infância, olhando de esguelha para Telmo, ali ao lado mais ou menos invisível, numa espécie de marginalidade auto imposta, que, talvez por isso, se notava  ainda mais.
           -Já cá esteve o ano passado. Duas vezes. A Sílvia trouxe-o a conhecer a avó e a minha irmã Catarina. Gostou bastante disto, desta nossa tranquilidade e da forma como sabemos acolher. Como todos os estrangeiros, adora a nossa comida. Sobretudo a do norte e do centro, visto que a outra não a conhece muito bem.
          -Prepara a carteira – disse um outro homem, João, criador de galinhas e frangos de aviário, ali na mesa partilhada pelos três homens, a quem não ocorreu outra coisa senão um lugar-comum.
          -Só se casa uma vez… - acrescentou Leandro.
           -Isso era dantes – retorquiu João, com manifesto pouco tacto perante um pai babado com a filha mais velha e com o seu casamento –. Agora não leva um ano e estão separados, a puxar cada um para o seu lado o primeiro filho como se este fosse um trapo. Alguns até desejam quase uma sentença de Salomão para levarem metade da criança, sem se preocuparem com a parte que falte…
          -Tem razão. Mas espero bem que isso não aconteça com os dois. O Pierre é bom rapaz. Já se conhecem há cinco anos e não há razões para as coisas correrem mal. Como bom pai, dou-lhe um tiro no meio da testa se ele se atrever a não ser um bom marido – brincou, sorrindo, enquanto revolvia, no meio dos dedos, um dos amendoins do prato e o descascava ao som daquele barulho da casca do pequeno fruto seco.
          -Que assim seja e que sejam felizes – disse Celeste, a dona do café, atrás do balcão, que não pudera evitar de ouvir a conversa, e para quem um casamento era sempre um bom motivo para alterar a rotina de uma terra onde a vida decorria parada.
          -Serão, se Deus quiser. Obrigado.
          -É o que se deseja – acrescentaram todos quase ao mesmo tempo.
          E João, respirando com alguma dificuldade o ar pesado que os muitos incêndios deixavam em todo o lado, acrescentou como ave de mau agouro:
          -Só não tiveste muita sorte com a data escolhida. Anda para aí tudo a arder. A televisão só tem mostrado catástrofes por todo o lado - acrescentou, olhado para o televisor, que, ali mesmo, falava sem cessar sobre a calamidade nacional do ano, mostrando labaredas a toda a hora como se o Inferno se tivesse instalado para todo o sempre na Terra.



Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 04, 2020, 09:50:11
Vamos lá continuar!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 04, 2020, 15:47:38
                                                                                         XIV
 
          -O actor que faz de Telmo é parecido contigo, Domingos. Já reparaste? – fez notar Fausto, salientado algumas semelhanças entre um e outro. Uma das quais o cabelo e os olhos.
          -Agora que dizes isso, tens razão. Também sou ruivo. Mas muito mais bonito! – brincou Telmo, enquanto, no filme, o rapaz tomava a decisão de deixar o café, depois de ter bebido a cerveja com a mesma cara de poucos amigos com que havia entrado.
          -Mas isso é porque estás vestido com roupa de marca e ele traz umas calças e um blusão fatela – continuou Fausto no mesmo tom ligeiro do amigo.
          -O Leandro é que é bem diferente de ti. Se há homens a favor de igrejas e de casamente aquele é um deles – provocou Domingos com um riso irónico – Mas, vamos lá calar-nos e ver o resto. Nada de conclusões precipitadas. Muita coisa irá ainda acontecer. Estou à espera de ter uma boa surpresa com aquele bacano.
          -Podes contar com ela. Não estou aqui para te desiludir – retorquiu Fausto enigmaticamente, enquanto se mexia na cadeira arrancando um longo gemido às dobradiças, algo secas e com alguma falta de óleo lubrificante.


                                                                                               3

          Telmo pegou a seguir no telemóvel que pousara entretanto na mesa e levantou-se. Catadas no bolso das calças como se fossem esmolas, e com umas moedas na mão, foi ao balcão pagar a bebida num gesto decidido. E, com o mesmo olhar gelado com que entrara, tropeçando numa das cadeiras do estabelecimento, saiu sem se despedir, enquanto proferiria, entre dentes, uma praga à cadela que se lhe cheirara as pernas sem se desviar do seu trajecto de criatura que andava sobre dois pés.
          Já na rua, colocou o capacete na cabeça, subiu de novo para a mota e chispou para o beco como um fugitivo. Era lá que morava com a família, ali a uns bons metros da igreja onde o Centro Paroquial, construído há trinta anos, se enchia de escuteiros aos fins-de-semana de todo o ano para aprenderem as regras de civilidade teorizadas pelo fundador da organização Baden Powell. A excepção era Agosto, que o deixava vazio até à próxima época de actividades, a descansar das ideias e da alegria da juventude irrequieta e barulhenta,
         -O rapaz que saiu, apesar de bonitinho, tem cara de poucos amigos. Era um garoto mal-encarado quando fui embora e não melhorou nada. Será que bebeu leite de figueira-brava? – perguntou Leandro mal Telmo saiu.
          -Foi criado com muita brandura pela mãe. Em criança, era o diabo e ela, em vez de lhe cortar o cabresto logo na altura, deu-lhe corda – disse Alberto, um dos homens que ali estava, colega do progenitor do rapaz na fábrica das motorizadas –. Era o pai, por um lado, a tentar meter ordem naquela cabeça endiabrada e a mulher a trocar-lhe as voltas por outro. Que é o que tem feito até hoje!...
          -A Susete é boa pessoa. Só que tem lá aquele feitio de deixa andar e depois dá nisto – acrescentou João, o outro homem da mesa, enquanto Leandro se lembrava da mãe do rapazola, sua colega dos bancos de escola há muitos anos atrás.
          -Um bocado sostra, se quereis que vos diga – atalhou ele, ao lembrar-se dela. Tinha pouca atitude. E gente sem atitude tende a ter filhos desequilibrados. É o que eu penso. Deus me perdoe.
          -Eu não queria dizer tanto. Afinal somos quase vizinhos, e as coisas correm como a água. Então se for choca, ainda desliza mais depressa. Pode chegar-lhe aos ouvidos e não quero problemas com eles – acrescentou o interlocutor olhando em redor com medo de ouvidos e línguas indiscretas.
          -Não se aflijam. Não vou contar as conversas dos clientes aqui no café como uma mulher do soalheiro! - atalhou a dona, entre o aviso e o melindre, visto, além dos três amigos, ser agora a única pessoa ali. Tinha de cuidar das chávenas e das outras coisas com que os servia a todos, entre as oito horas da manhã e as nove da noite, dez ao domingo.
          -Desculpa Celeste – atalhou, João, o dono do aviário, todos mais ou menos da mesma idade, que haviam frequentado juntos os bancos da escola. Não quis dizer nada disso. Muito menos ofender-te. É só uma maneira de falar.
          -Deixa lá. Adiante.
          -A juventude – continuava o homem, depois de algum silêncio e colocados os pontos nos ís – hoje em dia tem umas ideias esquisitas. É leviana, se pensa nas coisas fá-lo de esguelha, ao de leve, não deixa que elas lhe pesem nem um bocadinho. Quero dizer que não levam nada a sério. Deve ser por causa de tanto computador, telemóvel, jogos disto e daquilo. Se não se põem na ordem em casa, às tantas dão em bardinos. Sempre em rixas e as esmocarem-se uns aos outros com um ódio que só pode vir lá desses macacos dos jogos e da brandura com que são tratados pelos pais e nas escolas. No meu tempo, era o professor na sala, Deus no céu e a mãe em casa, auxiliada pelo pai. Este era sempre a gramática mais à mão para ensinar os filhos a serem responsáveis, respeitadores e bem-educados. Ainda que a boa-educação tivesse de ser escorada por uma surra na hora certa. O mundo está em colapso, os valores a esboroarem-se por falta de equilíbrio entre o cimento e a areia que atiramos à parede dos jovens. Com bastante frequência, se vêem miúdos a espancar outros por dá cá aquela palha, enquanto, quais vedetas da TV, captam vídeos e os colocam a seguir na Internet, cheios de orgulho e como se se tratasse da bandeira nacional a desfraldar em Marte. Não quer dizer que a Susete tenha a culpa de tudo. Mas tem bastante.
          Leandro, depois daquele pequeno mal-entendido com Celeste, já enterrado como uma coisa estéril, ainda se aventurou a perguntar de novo sobre o rapaz mais velho da colega da escola primária que, uns metros mais à frente, aguardava o regresso das aulas em Setembro e o gasto alarmante dos pais com os livros dos filhos em cada ano.
Tanto quanto se dizia, nenhum dos outros três filhos da mulher era assim. E a rapariga era uma jóia. Mas aquele saíra ovelha negra.
          -Onde é que ele trabalha? – perguntou o emigrante ao dono do aviário, enquanto descascava um novo amendoim do prato minúsculo que acompanhava as bebidas dos três amigos .
          -Agora em lado nenhum. Depois de ter sido despedido das motas, onde entrou pela mão do pai mal acabou o décimo segundo ano, ainda foi para a fábrica de lacticínios. Foi a mãe quem o lá meteu. Trabalhava na expedição de produtos, mas foi sol de pouca dura. Eram mais as vezes que faltava do que as que ia para o serviço. Nem por ela lá trabalhar. Nalgumas ocasiões, quando os pais saiam de casa, ainda ele não tinha regressado. Sobretudo depois de rapariga, a namorada, o deixar. E, sabes como é. Hoje em dia não há empregos seguros. Ao fim de meio ano põem-nos na rua, o carrossel nunca pára. Sai um para entrar outro. Mas com ele nem isso aconteceu. Foi despedido pura e simplesmente. Agora é a mãe que lhe dá o dinheiro para os vícios. E não se sabe o que mais fará ele – insinuou o homem
          -É pena. Ele até tem bom ar. Quero dizer. É bonitinho – acrescentou de novo Leandro –. À primeira vista, se não o conhecesse e se a Joanne, a minha outra filha, mo apresentasse como namorado não levantaria problemas…
          -Estás enganado... Tem ar de songamonga… – mordeu João, reticente -. A mim parece-me que deve ferrar pela calada… Enquanto namorava com a Marisa, ainda se daria mais ou menos com os amigos dela e andaria nos eixos. Agora, anda sempre sozinho, como um cão com sarna. A rapariga cansou-se de tanta malandragem. Trocou-o por um rapaz de Viseu que conheceu na Universidade do Porto, onde ele estuda Veterinária e ela Serviço Social, tanto quanto julgo saber.
           -O rapaz, o Telmo, já esteve um tempo fora daqui. Mais de um ano. Não se sabe é a fazer o quê… – acrescentou Alberto, metendo mais uma acendalha no diálogo que, como se se tivesse tratado de um ovo choco, não chegou a eclodir

                                                                                 XV

          -É a chamada “conversa de soalheiro” – disse Fausto, falando com os seus botões, mas de modo a ser ouvido pelo amigo. Para si, as inconsistências de Telmo não passavam de meras figuras de estilo, sobre as quais não valeria a pena gastar um dedal de saliva. Ele que abria as portas do hotel a gente com pedregulhos às costas, quando o pobre Telmo carregava umas meras peninhas de pinto imberbe.
          -Tens razão, Fausto- replicou Domingos. Para já ainda não vi assim tanta malandragem da parte do protagonista. Talvez o contributo da Marisa venha agitar um pouco o saco de box em que Telmo está transformado. Se calhar, foi mesmo o namoro mal sucedido dos dois a varrê-lo, junto com os seus vícios, para o tapete da entrada onde ficavam os pobrezinhos de outrora à espera da sua tigelinha de sopa. Às vezes, as mulheres dão cabo de nós, levam-nos a casa do diabo mais velho…- acrescentou


Continua. E agora depois de vos dar mais um capitulo do que escrevo, vou ler um pouco do que outros escreveram para mim - Ana Karenina.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 05, 2020, 10:21:50
Continua a ler, mas não deixes de escrever! Diz o roto ao nu...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 11, 2020, 15:46:28
 
                                                                                         4


         Seriam perto de oito horas, quando Leandro e os outros dois homens, depois da última rodada em que se augurou um bom destino a Sílvia e a Pierre, se preparavam para ir embora:
          -Vou andando. Hoje o jantar é em casa da minha mãe. Ela fez questão de dar de comer lá em casa aos filhos e aos netos todos, os que estão cá. Os outros só virão na quarta, com a família e os amigos de Pierre. A minha irmã, a minha mulher e a Joanne estão lá a ajudá-la. Com oitenta anos, já não tem idade para certas coisas. Mas pronto. A Catarina bem insistiu em cozinhar em casa dela, assim como a minha mulher quis que fosse na nossa. Mas não houve meio de convencer a senhora Ana Rosa. Ela diz que a casa é pequenina, mas que sempre lá coubemos. Diz que não foi por ser do tamanho de um ovo que não nasceram e foram lá criados  bons pintos.
          -E nós, todos gostamos de recordar o passado em casa da mãe. Sobretudo se tiver sido bom. Além de que nunca se sabe quando será a última reunião com a família completa – acrescentou João na mesma toada agoirenta de há pouco.
          -Cala-te, homem! Longe vá o agouro! – Atalhou Leandro, esconjurando a ideia.
          -É melhor calar-me mesmo…
          E, coçando a cabeça pensativo, depois de limpar o suor da cara às costas da mão, acrescentou:
          -Tenho de passar pelo aviário a ver se está tudo em ordem. Se nenhum animal gatuno assaltou a capoeira. Aquilo dá imenso trabalho, nem ao domingo consigo desligar das galinhas e dos frangos. Há sempre qualquer coisa a fazer, verificar se os automáticos estão a funcionar correctamente, se os animais têm comida e água.
          Quando os três saíram, havendo nas redondezas uma fábrica de motas a justificar os hábitos dos rapazes, à porta estavam meia dúzia delas com alguns deles em cima como se fossem jovens potros e cavaleiros. Poucas coisas lhes dariam maior sensação de poder e adrenalina do que levá-las ao limite, quantas vezes em corridas clandestinas e perigosas. Nenhum deles sabia se ainda iria ao café da Dona Celeste jogar uma partida de bilhar, na sala das traseiras, ou se iria já embora, encontrar-se, cada um deles, com a sua namorada, ou fazer qualquer outra coisa que lhe desse prazer. Nos bancos da praça, debaixo das duas acácias existentes no adro, alguns homens e uma ou duas mulheres gozavam o fim da tarde, dois cães estavam deitados como tapetes aos pés dos donos.
          O calor continuava com a mesma toada abrasadora dos últimos dias. O país ardia por todo o lado, com o fogo a deixar no ar um mar de fumo capaz de escorraçar para o outro mundo qualquer criatura que se atrevesse a respirar. Os bombeiros combatiam as labaredas sem tréguas tréguas e como homens condenados a trabalhos forçados, sem o maldito vento leste, mancomunado com todos os outros e mudando continuamente de direcção, amainar. Perante o braseiro, de norte a sul, ficava-se cada vez mais sem saber onde começava um fogo e acabava outro. Quando as chamas do primeiro já havia varrido quanto haviam apanhado pelo caminho, juntavam-se dois ou mais a festejar a vitória do mal, num inferno ainda maior. Enquanto isso, sucediam-se discussões, debates políticos, atribuíam-se culpas. E a floresta gemia devorada pelo fogo, ao mesmo tempo que cada nesga de mato se transformava num barril de pólvora, pronto a estourar no meio das cinzas. Fogos considerados extintos reacendiam-se a cada passo. Eram cada vez menos os oásis no meio de um imenso deserto negro, e ninguém sabia quando esses pequenos oásis deixariam de o ser também. Talvez no minuto seguinte. A todo o instante, morriam árvores e morriam pessoas nas garras das labaredas, ateadas por incendiários sem uma fagulha de alma a cuja compaixão se pudesse apelar.
          A seguir, os três convivas meteram-se cada um nos três carros estacionados à porta, um deles, o de Leandro, de matrícula Francesa e de gama média alta, que ele viera mostrar à terra como corolário do seu esforço em terras de Edith Piaf.

                                                                               XVI

          -Caro Domingos, aqui tens o oposto de há bocado, quando passámos pela mulher que lia “A Divina Comédia”…
          -Porquê, grande Fausto?
          -Porque se ela estava a ler a parte referente ao Paraíso, agora nós estamos a ver um filme que retrata o Inferno. Talvez com as necessárias adaptações, em virtude do tempo decorrido desde a Idade Média, quando foi escrita a obra, até hoje, ter introduzido grandes alterações no dia-a-dia.
          -Como assim? – perguntou o rapaz com um sorriso de curiosidade, enquanto, no écran, um piano acompanhava a saída dos amigos num excerto veemente da banda sonora do filme .
          -Ora, porque só no Purgatório, no sétimo círculo, é que havia chamas. Aí eram purificados, através das labaredas, os que morriam depois de se terem dedicado às maiores orgias de sexo e luxúria, os maiores causadores dos males terrenos juntamente com o dinheiro. Ou, então, Dante cometeu uma grande falha na estratificação do Inferno em camadas. Devia ter incluído no sétimo círculo os incendiários. Mas pronto, por essa altura, como não havia isqueiros, nem gasolina e os fósforos seriam escassos, não existiriam talvez pirómanos com expressão suficiente para fazer parte da obra.
           -És muito engraçado.
          -Não, não sou assim tão divertido…Por outro lado, numa clara regressão ao Paleolítico, daria muito trabalho atear fogo por fricção. Seria coisa caricata na evolução social e científica do mundo – preleccionou Fausto sorrindo apesar de tudo  
          -Ainda quero ler essa obra-prima da Literatura – retorquiu Domingos igualmente a sorrir, na cadeira ao lado do amigo do coração, em que, mercê do seu gesto de acolhimento e de boa vontade, o hospedeiro se havia transformado por aquela altura,
          -Eu empresto-ta. Não sei é se terás tempo e paciência para tirar, de tantas dobras literárias e metáforas, o seu significado preciso. A Idade Média era muito temente a Deus. E, quando alguém pensava no mal que inundava a Terra, das mais diversas formas e feitios, imaginava logo os seus praticantes a dar com o costado num Inferno, representado sempre por fogo e ranger de dentes. Foi nessa época que se lembraram de fazer das igrejas as delegações do céu. Apesar de me parecer que ali não se passa nada que torne o homem feliz – finalizou Fausto, sem, desta vez, obter qualquer comentário do interlocutor.
          -Talvez só a cerimónia do casamento…-disse ele a seguir a uma pausa.
          -Nem em todas – acrescentou Fausto com ironia. Portas adentro, há por aí cada casamento que é um filme de terror constante.
          O rapaz concordou sem nenhuma objecção.

Continua



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Alice Santos em Abril 11, 2020, 18:54:14
Muito bom! Fico a aguardar por mais.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 12, 2020, 21:15:23
Obrigada, querida Alice.Então cá vai mais um tiquinho,


                                                                                              5


          Quando Telmo entrou em casa, depois de tirar o telemóvel do bolso, já na sala comum, uma casa modesta com poucos móveis, de entre o tradicional aparador, mesa, seis cadeiras, um sofá pequeno e o trivial televisor, um pouco mais moderno e já mais folha de papel, num gesto de desprezo, atirou com o blusão de ganga para o sofá pequeno, ao lado do outro onde estava o pai que de soslaio o olhou com um certo ar de desdém. A televisão, em frente, mostrava, às oito horas da noite, as notícias do dia. Os incêndios continuavam a ser um prato mais forte do que aquele que Susete, a mãe de Telmo, daí a nada, poria na mesa ao filho mais velho recém-chegado a casa. Os outros dois, Sérgio e Luciano, andariam talvez às voltas com os namoricos, se já tivessem regressado da Barrinha, e a filha, Paula, também ainda não regressara com o namorado da mesma festa que trouxera o comboio Porto/Aveiro das dezoito e cinquenta às moscas, enquanto os foliões queimavam os últimos cartuchos na romaria.
Abel, o pai daquela família de quatro filhos desarranchados num domingo ao fim da tarde, estava a ver o telejornal, indignado com a calamidade desencadeada pelos últimos incêndios. Mas, quando o filho mais velho, Telmo, chegou, desviou os olhos do televisor para se inteirar dos eventos de que o rapaz, para o bem e para o mal, teria participado naquele Domingo:
          -Então, onde andaste hoje? – perguntou, entre o interesse e a indiferença, depois do gesto do moço, cuja jaqueta estava ao seu lado no sofá, quieta e morta, sem vida lá dentro.
          -Na festa da Barrinha. Mas vim embora cedo.
          -Viste por lá os teus irmãos?
          -Vi. Uns para cada lado. Mas hoje foi o meu dia de azar…- acrescentou com a cara de poucos amigos que Leandro lhe notara há pouco, no café da Celeste e no meio do seu descasque de amendoins e golos de cerveja.
          -Então porquê?
          -Ou a perdi, ou roubaram-me a carteira…
          -Onde?
          -Possivelmente lá. Só dei conta quando estava na estação a validar a viagem de comboio. Por acaso tinha guardado o andante no bolso das calças, juntamente com uns trocos. De contrário teria de vir à boleia. Ou então tinha de viajar clandestino…
          -Capaz disso eras tu…A clandestinidade tem vindo a ser o teu mais recente lema de vida…
          E calou-se de repente, sem o mais leve troco do filho, para daí a nada continuar sobre o mesmo assunto.
          -A carteira não devia ter muito dinheiro… - insinuou com a ironia usada habitualmente quando o assunto com o filho era dinheiro -. E os documentos?
          -Também lá estavam. Todos. Dinheiro, é que só lá tinha quarenta euros.
          -Só?! És muito rico…
          Silêncio.
          -E quem é que tos deu?
          -Dez foi a mãe, os outros, um amigo emprestou-mos.
          -Para quê?
          -Coisas minhas.
          -Ricas coisas hão-de ser essas…
          -São o que são!
          Depois de alguns instantes em que parecia perguntar-se intimamente em que teria errado na educação do seu rapaz mais velho, o homem prosseguiu.
          -Então agora andas sem carta e sem dinheiro? – observou, convicto de que Telmo andaria, sem sombra de dúvida, a dedicar-se a acções pouco ortodoxas no lado mais  obscuro  da vida. A começar em casa, onde já não era a primeira vez que certas coisas, sobretudo algumas notas guardadas numa gaveta entre meias e cuecas, moedas de euro e alguns objectos de valor levavam sumiço como que por magia negra.
          Mas, de momento, o feitiço parecia ter-se virado contra o feiticeiro.
          -Só da estação até aqui, no regresso. Não fui de mota para a Barrinha por causa dos incêndios e foi o mal que eu fiz. Talvez não tivesse sido roubado…
          -Então agora vais ter de gastar uns trocos a renovar os papéis. Não seria melhor arrumares a mota e andar a pé?
          -Já nenhum rapaz daqui anda a pé. E aqui ninguém me apanha. As patrulhas da GNR têm mais que fazer do que virem para este fim do mundo à cata de gambuzinos.
           -Era bom que sim, que te apanhassem. Que fosses parar à cadeia, a ver se ganhavas juízo…
          E Telmo, virando as costas ao pai e à sua conversa destrutiva, mil e uma vezes desenrolada e sempre com os mesmos argumentos, dirigiu-se à cozinha, onde a mãe colocava três pratos sobre a tolha na mesa para o jantar dos três, transferido da sala para aí à última hora.
          -Olá, mãe – disse.
          -Então filho, já chegaste? – perguntou a mulher num tom maternal, deixando antever a preferência das mães pelo filho menos ajuizado, uma obrigação inerente a um cordão umbilical que não fora saudavelmente cortado.
          -Estive na Barrinha. Mas roubaram-me a carteira. Preciso que me empreste dinheiro – pediu de chofre.
          -Roubaram-te a carteira? Como?
          -Roubaram-me ou perdi-a. Não interessa, o resultado é o mesmo. Estou sem dinheiro. Preciso de quarenta euros para devolver a um amigo. Era o que tinha.
          -Não tenho, Telmo. Hoje é domingo. Só amanhã, quando for trabalhar, poderei levantar algum. Vai pedir ao pai.
          -Achas que ele mo dava? Nem morto! Vai lá tu. Talvez tenhas mais sorte.
          A mãe saiu da cozinha contrariada. E, quando regressou, daí a uns instantes, depois de alguns pedidos regateados ao marido até ao limite, não tinha na mão um cêntimo para dar a um rapaz que não parava num emprego e que até em casa era suspeito de ter hábitos de subtracção …Mais do que suspeito. Só não havia provas…
          -Precisas de ir trabalhar…
           -Estou farto dessa conversa – retorquiu Telmo de mau humor e sem paciência.
           A mãe calou-se e o rapaz saiu da cozinha, enquanto dizia de péssimo humor.
           -Antes de jantar, vou apanhar um bocado de ar. Depois como. Não te chateies, sei tratar de mim – rematou com maus modos.
          Seriam perto de nove horas, quando o sol, com o fumo dos incêndios colado ao céu como um capacete numa tangente vermelha a rasar o horizonte, se despedia da tarde triste e maltratado.

                                                                                     6
          Fumando cigarros uns atrás dos outros, o rapaz deambulou por ali um bocado, um cão sem dono incapaz de prever onde desencantar um osso que lhe enganasse a fome de muitos dias. Às vezes sentava-se, olhava sem ver e perdia-se no vazio do nada em que mergulhara. Por causa do seu estado catatónico, era como um zombie impedido de responder a um “boa-noite” de quem se cruzasse com ele. Era, simplesmente, o ex-namorado da Marisa. Não o Telmo, o filho de Abel e Susete, trabalhadores da fábrica das motas e da empresa de lacticínios, mas sim o ex da rapariga estudante de Serviço Social, que o trocara, ao fim de alguns anos, por um rapazelho de Viseu, um enfasado capaz de afrontar com o Jipe a sua mota de baixa cilindrada como se um fosse o milionário e o outro o vagabundo nascido de uma família pobre da classe obreiras da terra
          -Tenho de ser honesta contigo. Conheci um rapaz de quem gosto – dissera-lhe ela num sábado, ao início da tarde. Preparava-se para a levar à Praia da Costa Nova, na moto, atrás de si, abraçada ao seu tronco e a dar-lhe beijos nas costas, enquanto ele esperava que ela lhe levantasse a t-shirt à frente para lhe acariciar o peito com as suas mãos de veludo.
          -Tens andado a enganar-me este tempo todo, Marisa?
          -Não, Telmo. Mas descobri que gosto mesmo dele. Desculpa.
          -Não passas de uma cabra!
          -E tu de um chulo! Tens andado a viver às minhas custas. Quando íamos para algum lado era sempre eu a pagar. Estou farta, mereço melhor. Já não és o mesmo, depois de começares a ir ao acampamento dos ciganos.
          -Isso quer dizer o quê?
          -O que tu sabes melhor do que ninguém!...
          E, agora que se lembrava dela, que morresse, ela e o rapaz por quem fora trocado, num acidente de Jipe ou queimados num incêndio, no meio de uma mata como as que andavam a arder por todo o lado. O assunto que fora tratar com os ciganos era apenas mais uma experiência de um dia difícil, quando tentara matar um problema com uma espingarda enferrujada como era o estupor da heroína. Apesar de andar sempre na penúria e a viver de esquemas, o maldito desemprego e os malditos patrões já não o incomodavam. Já se tinha habituado a todas as chatices. À excepção de Marisa. Ela é que o tinha transformado num problema, numa bala que apontava continuamente para a mata como a forma mais eficaz de a tirar da cabeça o mais depressa possível.
          Agora, confrontado com a lembrança dela, a apatia de há pouco cedera lugar à raiva.

                                                                              
                                                                                           7
       Quem deu de imediato conta das intenções de Telmo  foi Zico, o gato de Marisa, que lhe saiu ao caminho quando ambos se cruzavam na rua onde ela morava. O bichano, transformado em bode expiatório, teve de se desviar, na última fracção de segundo, da biqueira dos ténis enfurecidos do rapaz. Mas o diabo tinha preparado mais uma surpresa para lhe encarniçar os miolos. Antes uns metros de ter chegado à casa da jovem, um bloco de duas silhuetas abraçadas insinuou-se-lhe à frente como uma afronta, enquanto reconhecia nele Marisa e o tal Nelson que lha roubara.
          A jovem, mal se deu conta do observador que outrora fora o seu namorado, soltou-se de imediato dos braços de Nelson. E a sua cara bonita, morena, de olhos negros grandes, boca larga e lábios grossos, ficou exposta ao olhar e às recordações do ex-namorado e à sua transformação em maus pensamentos, a que talvez se seguisse uma acção do mesmo género. Uma dor de cotovelo gritante, incendiada com a contrariedade de há pouco no acampamento dos ciganos, iria certamente ter más consequências. Sobretudo depois de o pai de Telmo se ter recusado a dar-lhe os quarenta euros para ele se livrar do calote que servira como desculpa para dar ao pai por causa do furto da maldita carteira.
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Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 13, 2020, 09:08:36
Tiquinho em tiquinho, teremos um romance excelente.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Abril 13, 2020, 13:34:09
Pondo a leitura em dia...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 15, 2020, 22:45:08
                                                                                   XVI



          -Conheço uma rapariga parecida com a Marisa, mas não me lembro de onde – reflectiu Domingos para Fausto, com aquele ar de quem procura, às escuras, o interruptor para se ver livre de uma escuridão que, apesar de familiar, não deixava de incomodar.
           -Conheces lá agora! O que tu querias era ser protagonista de um filme assim. Com raparigas bonitas, como a Marisa e a Sameiro – E, de repente, Fausto, olhando o cenário do filme, soltou uma gargalhada, que abafou o som da tela.
           -Sabes quem parecemos aqui os dois sozinhos?- perguntou a seguir.
          -Quem?  
          -Os velhos dos Marretas, Statler e Waldorf, no seu camarote – acrescentou, intercalando com dificuldade palavras e gargalhadas.
           Domingos imitou-o, rindo de igual modo. O banqueiro Mateus Rosa, e a mulher que com ele jantara, julgando que no pequeno auditório estaria a decorrer uma comédia menos aterradora do que seria provavelmente a de Dante, juntaram-se-lhes entretanto. E não demorou muito até Orlanda e Paulo, num período mais morto do expediente, se acercarem timidamente da entrada da saleta, de onde lançavam a medo os olhos para o plasma, numa clara posição de quem está ali para servir e não para se divertir.
Fausto, aproveitando presença do empregado, pediu uma cola e pipocas, que o barman se apressou a ir buscar, movendo-se de forma a perturbar o mínimo possível os espectadores.
                                                                                     8

           Telmo, depois de deixar Nelson e Marisa à porta da rua, entregues a despedidas aconchegantes, embora perturbadas pela sua presença, abalou de novo para casa, com um enrugado na testa em que pareciam desenhados, com grande precisão, drásticos planos.
           A avaliar pelo modo pouco amistoso como tratou o gato e rogou uma praga à ex-namorada e novo companheiro, os planos, fossem eles quais fossem, não auguravam nada de bom. Independentemente dos visados. Por agora, perfilavam-se três no horizonte: Marisa, Nelson e o cigano Inácio Maia. E se, embora não se vislumbrasse de imediato como, depois do episódio mais recente, parecia estar na calha a urdidura de uma vingança. Também  poderia suceder algo semelhante a um jogo de bilhar bem sucedido e, numa única tacada, era bem possível que  a carambolada os atingisse a todos.
          Em casa, foi directo à cozinha. A mesa continuava posta com um único prato. Sozinho, mãe no quarto do casal e pai a ver na televisão algumas provas de natação dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, serviu-se de uma colher de arroz, duas ou três batatas e um naco de carne assada.
          Tomado de repente por um fastio inexplicável, foi depois ao tubo das sacas plásticas amarrotadas num novelo pendurado na despensa. Pegou numa, alisou-a, e o naco de carne que o seu estômago se recusava a receber pô-lo dentro da saquinha, que a seguir escondeu entreaberta sob a mesa como uma criança que, não gostando de sardinhas, tenta arranjar subterfúgios para a deitar a seguir para o lixo.
          Mal acabou de colocar os pratos e talheres na banca da louça, dirigiu-se à sala onde vestiu o blusão de ganga que aí havia colocado de novo e resmungou um “vou sair” a Abel. Foi depois ao quarto dizer o mesmo à mãe.
          -Aonde é que vais?
          -Não demoro.
          -Não vás para longe. Estás sem carta.
          -Vou apanhar um bocado de ar. Aqui está imenso calor. Já volto.
          -Tem cuidado com os incêndios. Há estradas cortadas em todo o lado.
          -Até logo.
          Antes de sair, passou de novo pela cozinha, agachou-se com cuidado, pegando dissimuladamente no saco como um malfeitor a executar a primeira parte do seu plano. Quando já o tinha disfarçado na mão, desceu silenciosamente à loja de arrumos. Aí estavam todas as coisas de que um doméstico e cumulativo carpinteiro, serralheiro e agricultor, precisava para tudo, mais para a horta nos seus vários cultivos de onde as batatas, arrancadas da terra à enxada por mãos calejadas, já haviam saído há um mês.
          Do que ele necessitava agora era de um frasco ressequido de 605 Forte, o eficaz remédio do escaravelho, já com alguns anos, calcinado e de tampa renitente a violações. Seria talvez da época em que as drogarias o vendiam ainda sem os cuidados profilácticos dos últimos tempos. Depois de tantas mortes por envenenamento, suicídios, mas também muitos homicídios, agora o vendedor era obrigado por lei a registar em livro próprio o nome dos compradores. A toxicidade do produto era inquestionável.
          Encontrou-o numa prateleira, mostrando ainda o aviso de perigo e o rótulo desbotados por causa da baba que, geralmente, escorre do frasco ao despejar o líquido viscoso, calcinado agora pelo tempo. Com um trapo providencial, encontrado ali algures, abriu-o ansioso e com um pouco de esforço, coroado de êxito ao fim da segunda ou terceira tentativa. Depois de aberto, pegou no saco plástico que trouxera da cozinha e, com cuidado para não se sujar de gordura nem envenenar as mãos, verteu, com olhos triunfais e esgazeados apesar da dificuldade inicial, uma massa pastosa e verde sobre a carne. Amarrou a seguir as asas do saco e saiu com os olhos vidrados pelo rancor.
          “Se estiver estragado deve ser para pior” – disse de si para si, indiferente ao dolo eventual acerca dos resultados de um acto vingativo de que já ninguém devia ter dúvidas.



                                                                                   XVII

          Domingos, para não ser ouvido pelo banqueiro e pela amiga, os mais recentes espectadores de “O Rapaz do Isqueiro Assassino”, debruçando-se sobre o ouvido de Fausto sussurrou-lhe:
          -Pobre Zico. Aqui está um caso em que vai pagar o justo pelo pecador. Sim deve ser o gato a pagar as favas.
          -Tens razão. O rapaz deve ser um drogado a precisar de meter qualquer coisa para veia.
          Os dois mais recentes espectadores, vendo o filme da comédia desejada a evoluir para um triller recheado a veneno, decidiram abandonar a sala, onde ficaram de novo sozinhos os dois amigos, a fazerem, a cada instante, pertinentes comentários sobre o filme  como verdadeiros críticos de cinema.
          Quando Domingos deu conta disso, não resistiu mais uma vez à provocação:
          -Então, o Telmo está a candidatar-se a que círculo do Inferno?
          -Talvez ao sétimo, primeiro vale. Sendo este um rio de sangue, onde as almas se afogam à medida do que derramaram, depois de atentarem contra as pessoas e seus bens, o Zico pode ser considerado um bem de Marisa. Por outro lado, como se trata de um simples gato, a morte do bicho, por si só, pode não ser considerada suficiente para deixar o teu sósia com um pé nesse patamar do Inferno – preleccionou Fausto divertido e com ar de professor.
          E Domingos, antes de prestar de novo atenção ao écran, ainda arriscou uma segunda provocação:
          -De qualquer modo, bem podes pensar desde já num lugar para ele aqui no hotel. Talvez de jardineiro, ou agricultor. Com certeza, deves ter algures uma horta que não me mostraste para os teus frescos… - brincou.
           -Tenho, sim. A couve-flor do puré veio de lá… - Já agora, ficas a saber que o horticultor do hotel tem uma história semelhante… informou sem, desta vez, Domingos se decidir por fazer qualquer comentário ou pergunta.  
          Tendo algo de dramático, incêndios, namoros caídos para o lado mais torto da vida, “O Rapaz do Isqueiro Assassino” não deixava de ser um filme com um certo sentido de humor, apreciado sobretudo por pessoas com um grau de sadismo muito acentuado.

continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 16, 2020, 12:42:29
Muito bem trabalhado, escrita muito cuidada. Muito bem!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 18, 2020, 00:23:19
                                                                                     12

          Litos, vestido com uns calções, uma t-shirt e umas chinelas de dedo, aturdido como um zombie, enquanto as chamas se propagavam por todo o lado em velocidade turbo, teve ainda tempo de se dirigir ao no barraco de tijolos onde os pais e os irmãos dormiam o primeiro sono da noite. Da entrada, através da porta de madeira e com a exígua claridade afunilada que entrava pelo postigo, no que parecia uma cozinha polivalente, depois de os olhos se habituarem à escuridão via-se um fogão no topo. Ao lado, havia uma banca e um grande balcão, ambos apinhados de coisas indistintas, numa desarrumação estrutural que nunca devia ter conhecido melhores dias. Mas, antes disso, a meio do caminho, entre a entrada e a parede de topo, estava uma mesa, posta com utensílios que teriam provavelmente os restos do que fora uma refeição com os membros da casa, seis, que se sentariam, também provavelmente, onde calhasse, talvez acompanhados da outra família ocupante do barraco contíguo. Um sofá, onde Sameiro dormia, estava colocado na parede contrária ao postigo. Ainda do mesmo lado, duas portas davam acesso a dois minúsculos quartos. De um deles, onde Inácio Maia, a mulher Cármen e o filho mais novo, um bebé de cerca dois anos dormiam, saía um sonoro ressonar dos dois elementos mais velhos. No outro, ouvia-se a respiração dos mais novos dormindo, e, na parede em frente ao improvisado quarto, vislumbrava-se o rectângulo negro do écran de um plasma. Toda a família, depois de dar como consumada a fatalidade da morte do Ringo, pensara no sono como a melhor coisa a fazer. Tanto mais que, na manhã seguinte, Cármen, Inácio Maia e o filho mais velho, Ramiro, de quase dezoito anos, teriam de se levantar cedo para irem vender os pólos e os lençóis tortos arrematados nas fábricas a preço simbólico e como refugo. Além dos cestos de vime, cuja venda incumbia ao irmão e à família deste. Treze pessoas no total.
          Mal viram o cadáver do animal a espumar pelos cantos da boca, como o bicho não estivesse doente, todos eles  nem sequer pensaram num cancro, numa cirrose de água ou qualquer outra doença igual à dos humanos. Antes, concluíram que o cachorro teria sido vítima de uma purga voluntária, com que tentara talvez tratar uma indigestão canina. Com toda a certeza, ingerira uma erva venenosa, cuja semente encontrara na terra um pequeno veio de humidade para se reproduzir, enganando a seguir o pobre rafeiro com a sua cor verde mas sem qualquer efeito medicinal.
          Litos, tropeçando num banco, dirigiu-se em pânico ao sofá onde a irmã dormia. Com os seus grunhidos de rapaz surdo, abanou-a várias vezes freneticamente. A rapariga, depois de se ter deitado pouco tempo antes, atingira rapidamente um sono profundo e dormia agora como uma pedra, mais surda de que o pobre irmão. Enquanto isso, no quarto ao lado, Cármen, dentro da enorme camisola que lhe servia de camisa de noite, acordava sobressaltada mesmo antes da filha, identificando de imediato as desesperadas peculiaridades vocais de Litos junto de Sameiro, renitente em acordar.
          Da cama junto à parede, à qual  Cármen dormia encostada, a mulher levantou-se de um salto. Com o cuidado possível, transpôs primeiro a criança, que dormia entre os dois. A seguir pulou sobre Inácio sem este dar acordo de si, agarrado pelo sono como se de um moribundo se tratasse.
          Já no chão, arredou com os pés um banco abandonado à sua frente, calçou atabalhoadamente umas chinelas de meter o dedo. Pisou entretanto algumas peças da roupa que haviam despido ao deitarem-se e se encontravam agora espalhadas pelo tugúrio a que talvez ainda tivessem a ilusão de chamar quarto.
          Quando chegou à cozinha, quer através da porta de acesso ao exterior, quer pelo postigo, constatou que fora estaria tudo a arder e que depressa seriam engolidos pelas chamas se não saíssem dali a correr.
           Não foi preciso chamar ninguém. Os seus gritos de pânico chegaram simultaneamente aos filhos, ao cunhado e ao resto da família do outro barraco, ampliando-se pelo escuro da noite ai ao redor e sem vivalma por perto para os socorrer. De segundo para segundo, as chamas iam progredindo numa calma indiferente a todo sofrimento que provocavam. Já haviam abocanhado alguns arbustos e árvores de maior porte.
          Enquanto isso, fagulhas altaneiras, impulsionadas pelo vento, que se regozijava em mudar continuamente de direcção, iam semeando o inferno no que, numa noite de Agosto, estava prestes a deixar de ser um acampamento de ciganos pacífico  para se tornar num amontoado de cinzas. Nessa altura já a barraca da lenha para o inverno e a erva seca para o cavalo ardiam ali ao lado, e, daí a nada, o fogo chegaria ao barraco de Inácio, onde os mais pequenos dormiam ainda.
          -Credo, homem! Deus nos acuda! Que vai ser de nós! – gritava Cármen, atarantada.
          Enquanto calçavam o que havia à mão, irrompiam todos em pânico e choro colectivo. Era como se estivessem já à porta de um hospital, onde um dos seus tivesse entrado em estado de coma, ou numa cadeia e a quem tivessem de prestar uma solidariedade feita de lágrimas, a única maneira de se ser verdadeiramente entendido pelos irmãos de raça e destino. Mas, por mais que gritassem e pedissem socorro, ali na mata, longe de tudo e de todos, dificilmente seriam ouvidos. Seria como gritar num deserto, onde nem areia nem estrelas poderiam valer-lhes. E era pouco provável, àquela hora, alguém, vindo da estação ou mesmo do outro lado do circuito da estrada que de um lado e de outro levavam à aldeia, os conseguisse ouvir.
          -Temos de fugir depressa daqui. Peguem nos catraios e subam todos para a carrinha de caixa aberta! Depressa, Rodrigo! – ordenou Inácio ao irmão, cunhada e sobrinhos -. Subam todos! – gritava, ao mesmo tempo que, junto à carrinha dos pólos e por todo o lado, o fogo lavrava num mar de labaredas esfomeadas,  alimentadas por mato seco e talvez por algum vestígio de óleo derramado pela carrinha no seu estacionamento inclinado.
          -Podemos despejar os bidões da água, no carro – sugeria Rodrigo, o irmão de Inácio Maia, aos gritos e atabalhoadamente, enquanto a gritaria e o choro dos mais novos aumentava à medida que viam tudo a ser consumido.
          -Nem pensar! A água, com o depósito do gasóleo por baixo, só ia piorar as coisas. Fujam depressa! A carrinha daqui a nada explode! – Cármen desaparece, estupor vai meter os miúdos no carro! Raios te partam! Não te ponhas para aí a choramingar, faz o que tem de ser feito! – resmungou entre a raiva e a comiseração pela mulher, aflita na disputa com o fogo.
          -E o cavalo? -  quis saber Ramiro, no meio da atrapalhação e do pânico comum a todos os membros da família.
          -Soltem-no! Ele que se desenrasque!- gritou.
          -Não será melhor ligar para os bombeiros? - perguntou Luzia, a mulher de Rodrigo, quase no último tempo de gravidez, em altos berros, enquanto, no frenesim da confusão, andava ela e os filhos de um lado para o outro perdidos e desgrenhados, depois de terem acordado no meio da noite com os gritos da cunhada.
          De repente, o lume chegou a um dos bidões de plástico da água cujo fundo começou a derreter, fazendo-o encolher um bocado, enquanto a água começava a sair da parte de cima. E foi Litos quem, depois da comoção a que o ateamento do fogo o tinha inicialmente levado, derrubou o bidão da água perto do local onde o cão jazia morto inundando o cobertor. Até se desenhar no farrapo  uma auréola que apagou um pequeno círculo de fogo sem grande expressão face ao mar de chamas circundante.
          -Vou tirar dali a carrinha dos lençóis! – gritou Rodrigo para o irmão, enquanto corria fazendo o gesto de se aproximar dela e a vegetação, ao redor, ardia descontroladamente.
          -Não! - rugiram Luzia e Inácio, quase em simultâneo, já a maior parte deles estava em cima da outra furgoneta -. A carrinha, se não for antes, vai explodir ao ser ligada! Fujam! – ordenou de novo Inácio aos berros.
          -Mas ela está cheia das coisas para a feira de amanhã! Temos de tentar salvá-la! – berrou Ramiro, irmão de Sameiro, totalmente de acordo com o Tio Rodrigo, ao mesmo tempo que  todos gritavam.
          -Não! – pedia de novo Luzia. Tenho mais um filho não barriga e não quero que este ou os outros fiquem sem pai. Pelo amor de Deus!
          -Deslizo com ela de marcha - atrás e desligada. O que lá está dentro vale demasiado para explodir! – e fazia menção de avançar, sendo de novo impedido pelo irmão, que o agarrou à força
          Litos, depois de despejar a água do primeiro bidão, sem grande resultado visto que o fogo continuava a alastrar mais depressa do que um rio na sua enchente, começou a ficar ainda mais inquieto do que sempre estivera. Olhava para todos os lados, como se procurasse alguma coisa demasiado preciosa para ser deixada para trás. E, f0sse o que fosse que o perturbara daquela maneira, era grande demais para alguém ficar indiferente ao desespero do pobre rapaz. Este, à vez, conforme quem tinha pela frente, dava murros ao pai, ao irmão mais velho, articulando pelo meio sons ininteligíveis acompanhados de um choro convulso, enquanto apontava para a carrinha dos pólos com o ferrete da dor esculpido no rosto. E, esperneando como um gato selvagem, aos pontapés a uns a outros, tentava desenvencilhar-se de quem o impedia de alcançar a bendita carrinha, quando a explosão eminente desta era alardeada pelo pai e agora por todos os outros. Após mais uma investida, era de novo travado por um e por outro, com a determinação de quem manda e tem sempre a certeza de tudo.



                                                                                                13

          Depois da última tentativa do rapazinho em chamar a atenção dos mais velhos, não havendo ali nada senão um acampamento num pasto de chamas, além de uma carrinha que teimosamente lhes resistia, já era tarde para abalar dali a toda a pressa. Inácio, ajudado pelo filho mais velho, atirou Litos para a caixa aberta do veículo sobresselente como atiraria um saco de batatas, enquanto o garoto, no meio dos irmãos e dos primos, continuava a manifestar aos guinchos a sua discordância em deixar a carrinha das feiras para trás. A seguir, Inácio mandou Ramiro subir, seguiu-se ele entretanto, e, desferindo uma violenta pancada na cabine, ordenou ao irmão que arrancasse a toda a velocidade como se estivessem a fugir ao Apocalipse. Na noite, os gritos de Litos continuavam a ser a trombeta da desgraça.
          E assim foram deixando para trás a vida de outrora e a carrinha que lha ajudava a ganhar. Esta principiava a retorcer-se aos poucos, com o cão ao lado, sobre um cobertor encharcado, alma no céu e de quem o rapaz parecia não querer separar-se por nada deste mundo.
           Não chegaram, a ligar aos bombeiros. No meio da atrapalhação, aqueles ciganos, com vocação de nómadas eternos e com fracos hábitos pela ordem, não conseguiram encontrar qualquer um dos seus telemóveis pré-pagos, um dos objectos  modernos da civilização em que a sua vida de antigamente parecia já não ter lugar. Ao menos sem algumas actualizações. E o telemóvel de Sameiro, que ela não largava em circunstância alguma, estava sem bateria, mudo e imune a aflições da dona ou de terceiros naquela noite do princípio de Agosto.
          No meio de tão terrível reboliço nocturno, ao ver as chamas aproximarem-se mais velozes do que o seu galope enferrujado à força de inércia, o cavalo já tinha desertado com a corda do pescoço ao dependuro,  como um ser condenado ao abandono desde então.
          Litos, durante a fuga, ia lançando os olhos ao acampamento como se ali tivesse deixado um pedaço irrecuperável da sua vida e gritava. Gritos tanto maiores quanto mais activas eram as labaredas de um lado e de outro da estrada, ao mesmo tempo que  o fumo descia sobre tudo num denso nevoeiro. Às primeiras horas daquela segunda-feira maldita, o Diabo interferira com uma carga forte de pirotecnia para devolver, exorcizada pelo fogo depois de anos de ocupação abusiva, um pedaço de mata ao dono para fins pouco recomendáveis como eram as malditas matas de eucalipto.
          Quando a camioneta já se encontrava longe, ouviu-se finalmente uma explosão, seguida de mais duas daí a nada. Com toda a certeza, a viatura, ou uma das duas garrafas de gás, tinha acabado de disseminar por todo o lado destroços calcinados, uma chuva de pragas cujos efeitos ainda mal haviam começado.



                                                                                 XIX

           -Coitado do Manolito! Ninguém reparou que nem todos os membros do clã estavam, na carrinha? Que raio de ciganos desleixados!
          -Não te exaltes, Domingos. Trata-se apenas de um filme de argumentistas com apreço pelo descalabro. Já vi filmes bem piores… bem mais dramáticos. Além de que me parece mal feito. A carrinha dos pólos não deveria ter ficado quase logo com tantos entorses. Só depois da explosão…
          -Mas este foi baseado em factos reais… Esquecerem-se do miúdo não lembra ao Diabo! Embora o realizador não o tenha mostrado, com toda a certeza ele está dentro da carrinha. Ao menos Litos poderia ter arriscado! – disse emocionado, como se a tal vida real que inspirara o filme estivesse a acontecer ali e agora.
          -Poderia mas não arriscou. E, e quando o quis fazer, já era demasiado tarde. Mas estes ainda têm desculpa. Há pessoas que se esquecem dos filhos dentro dos carros enquanto caçam pokémons ou vão tomar café. Bebés, numa grande parte das vezes, que ali morrem ao sol sufocados e sem oxigénio, com temperaturas infernais. Bebés e cães – acrescentou Fausto, na sua sala de cinema do hotel, quando não era ainda meia-noite e o filme estava bastante longe do fim.
          -Eu sei. Até me está a custar ver a barbaridade de um rapaz drogado e cheio de dor de cotovelo por causa de a Marisa ter arranjado um novo namorado. Não era caso para tanto! – ripostou Domingos indignado.
           -Há muita gente como tu, que conseguiria comover-se com a desgraça do pobre Manolito. Mas há outra tanta a dizer “ olha, é menos um cigano que, daqui a dez anos, anda para aí a vender droga e a matar os nossos filhos”. Incluindo os netos do Vieira. Quando souberem que o terreno ficou livre, tanto dos pinheiros como dos moradores, esfregam as mãos de contentamento. Os ciganos não voltarão para ali com medo de que o lugar tenha ficado assombrado. Mas, vamos lá ver o que acontece quando descobrirem que a criança ficou para trás.

Continua





Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 18, 2020, 16:29:48
Esperamos para ver então.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 23, 2020, 21:13:08
   Quase a terça parte do livro publicada...                                                                              


                                                                                              14

          À medida que a família dos Maia conseguia fugir ao avanço do fogo numa carrinha apinhada com aos seus membros, a primeira pergunta que o chefe do clã fazia de si para si era:
          -E agora, vamos para onde?
          Pouco depois, na noite e no meio de uma escuridão que os recentes acontecimentos tornavam maior, já livres de perigo, Maia deu uma nova pancada na cabine e, após o irmão afrouxar um pouco, gritou-lhes, de modo a ele, Luzia e as crianças que seguiam na cabine, ouvirem:
          -Vamos para o largo da aldeia! Temos de dar conta do que aconteceu e chamar os bombeiros! Antes que as chamas alastrem mais e fique tudo destruído.
          Rodrigo continuou a conduzir à velocidade máxima que a carrinha permitia, e zarpou a seguir como um barco sem obstáculos à frente no mar alto. A angústia dos ocupantes era geral, mas nem sequer se permitiam dar conta do perigo que as sinuosas curvas da estrada representavam. E, na aldeia, ao que o silêncio em redor dava a entender, ainda ninguém tinha dado conta daquele perigoso inimigo, que, daí a nada, estaria ali às portas, queimando indistintamente quanto apanhasse no caminho com a voragem de um ladrão pé-rapado e sem qualquer consideração por bens alheios.
          Prestes a de chegarem, Rodrigo fez ecoar na noite a buzina frenética da viatura, como se fosse um farol ruidoso em noites de nevoeiro intenso numa zona marítima. Apitava sem contemplações por quem estivesse no meio de um sono, puro e duro, ou dentro de um sonho bom induzido por Morfeu nas suas habilidades de deus. Sem mais, era preciso avisar do perigo, quando, todos ali na terra, naquela quietude, lhe pareciam um barco sereno no mar alto, com alguma probabilidade encalhar num pedrulho gigantesco. Ali, se não era nevoeiro, era fogo e fumo, talvez mais nefastos um e outro do que o real nevoeiro no mar. Sobretudo para asmáticos. E se de um pedregulho junto à costa um navio ainda poderia fugir, avisado por um farol amigo, do maldito fumo não se escapava. Invadindo livremente todos os recantos do céu, enquanto uma boa chuvada não derrubasse semelhante capacete, nenhum ser vivo à face da terra estava livre de respirar os seus venenos.



                                                                                 15


          Depois de Inácio, Ramiro, Joaquim, Cármen, Luzia e Sameiro, os mais velhos da família, terem descido da camioneta, Cármen começou a contar as cabeças das crianças na carroçaria, como quem conta espingardas no fim de uma batalha para fazer contas aos prejuízos:
          -Litos, Bruno, Sameiro, Ramiro. Mila, Ramon, Gonçalo, Joaquim, Alba – contava Cármen, dizendo: - Vão-se os anéis fiquem os dedos”, pensava a cigana mor, que viajara atrás com o marido, sobrinhos e quatro dos seus cinco filhos. Manolito viera com certeza na cabine junto da tia grávida, do marido desta e da pequena Alba, entretanto acordada e a pé, embora ensonada e a sofrer como os outros as consequências da mais eficaz acção de despejo conhecida.
          -Ao menos estamos vivos – exclamava ela com grande emoção, enquanto a primeira janela de uma das casas ali à volta da praça se abria com um rugido seco de persianas a alavancar-se até ao cimo.
          -A mata está a arder! – gritou Maia para o parapeito onde um homem assomou, ensonado e com algum mau humor pelo concerto da buzina dado por Rodrigo, antes e depois de chegarem ao largo.
          -Como? – perguntou o sujeito estremunhado ainda, ao ver por ali, àquela hora, a carrinha e os ciganos que se haviam assenhoreada do pinheiral dos Vieiras como de coisa sem dono.
          -O nosso acampamento pegou fogo- informou Rodrigo, em alta voz, para que o homem pudesse compreender toda a tragédia que, ali perto, lhes tomara os barracos de assalto.
          -Pegaram fogo ao acampamento? Então vocês não sabem que não se pode fazer fogueiras nos montes no verão? – acrescentou o interlocutor, com o mesmo mau humor inicial.
          -Não fomos nós! – defendeu-se Ramiro, o filho mais velho de Inácio Maia e de Cármen -. Será que pode chamar os bombeiros?
          O homem disse que sim e deixou a seguir a janela, aonde regressou passado cinco minutos para informar, com aparente resignação:
          -Os bombeiros não têm meios disponíveis. Dizem que os homens de uma data de corporações estão todos ocupados em fogos que lavram de norte a sul há dias.
          Nessa altura, já mais umas cinco ou seis pessoas, sobretudo homens de calções, t-shirt e havaianas nos dedos dos pés, haviam convergido para a praça como as primeiras moscas de um banquete, depois de observarem as labaredas um pouco mais ao longe e o cheiro a fumo, que nariz e olhos de uns e outros já haviam detectado, quais radares de morcego.
          -E então fazemos o quê? – perguntou um rapaz acabado de se juntar à pequena multidão, que, a pouco e pouco, se dava conta de terem em mãos  um problema para resolver. Ou, ao menos, minimizar, sem a ajuda de um corpo de bombeiros treinados em apagar incêndios.
          -Quem me atendeu aconselhou a que fiquemos atentos. Quem morar perto de matas deve, antes de tudo, molhar o mais possível em redor com uma mangueira. A seguir, se puder, deve cortar árvores e mato de forma a fazer uma zona tampão para travar o fogo.
          -A estas horas? Estão malucos! Ainda não são três horas da manhã! – disse um dos presentes com alguma ironia.
          -Sobretudo, aconselham-nos a não colocarmos as nossas vidas em risco. Aos primeiros sinais de perigo, devemos retirarmos para zonas amplas, e evitar casas e árvores – continuou o homem da persiana –. Se, por acaso, tivermos de ir para a frente combater o incêndio, que não vamos de calções, chinelas e manga curta. A roupa de ganga, para quem não tem fatos como os deles, é uma boa solução. Devemos ir vestidos até ao pescoço e proteger tudo. Mãos, pés, cabeça e olhos.
          -Por acaso já alguém se lembrou de tocar o sino para avisar o resto da população? – perguntou uma mulher sonolenta chegada entretanto, envolta num roupão cor-de-rosa.
          -Tem toda a razão. Alguém que vá chamar a Sãozinha zeladora para tocar a fogo! Se ela não puder vir, ao menos que empreste a chave da igreja.
          A igreja ficava na praça onde Litos, já apeado, não parara ainda de chorar, produzindo os únicos sons que a sua surdez lhe permitia. Chorava, pensariam todos, porque sofrera uma grande perda, conhecida de toda a família,  a morte do cão, e cujo sentimento de tristeza o pobre rapazito não conseguia expressar de outra maneira.
          Agora, ali estava uma pequena nesga de gente à espera do evoluir dos acontecimentos. Os ciganos mensageiros do fogo e os paisanos juntos no mesmo drama, eles que habitualmente viviam de costas voltadas, uns segregando outros, à medida das suas crenças e hábitos. Todos unidos a pensar na melhor maneira de travar o inimigo comum, o maldito fogo.

                                                                                          XX

          -É bem verdade que a desgraça une – disse Domingos, como se meditasse no significado da palavra solidariedade, e tentando, de algum modo, extrapolar o seu sentido para a acção do amigo no seu projecto de ressocialização.
          -Une sim. Por momentos, a quente. Espera por amanhã, quando os pobres ciganos tiverem de ser realojados. Vão ser empurrados de um lado para o outro como se tivessem peste. No resto da noite, aquelas crianças vão ficar amontoadas na carrinha como rabos-de-palha incómodos. Amanhã, cinco ou seis pessoas hão-de dar-lhes umas sandes de queijo à porta de casa, que, quando muito, colocarão sobre um papel em cima de um banco de plástico. Se, por acaso, lhes derem uma tigela de sopa, a seguir esmagam-na contra uma parede como se a malga ficasse contaminada por um vírus – acrescentou Fausto com ar de que, dos homens e das suas atitudes, percebia ele muito.
           -Coitados. Estão mesmo numa situação que inspira pena. Fora a carrinha, não tem um caco.
           -Mas isso és tu que estás longe, bem alimentado, bem vestido e a cheirar bem, depois de teres assaltado um dos meus perfumes preferidos. Se fizesses parte da trama e estivesses ali, junto com aquelas crianças porcas e malcheirosas, não pensavas assim. Fazias o mesmo que os outros, enxotava-las para bem longe – afirmou Fausto, entre o sério e o irónico, um conhecedor da psicologia humana ainda antes de esta  se lhe chamar preconceito social.
           -Não digas isso. Achas mesmo que aquela gente se está nas tintas para o que aconteça com os pobres dos ciganos?
           -É claro que está. A frio, longe do fogo e da desgraça que ele trouxe, ou ainda há-de trazer, está. Até os políticos, os sociólogos e tantos outros, defendem-nos só enquanto não lhes estão ao pé da porta. Ninguém quer ter ciganos como vizinhos. Entretanto, num faz-de-conta bacoco, acabam por efectuar baptismos estúpidos com eufemismos que não aquecem nem arrefecem o âmago da questão. Se tu trabalhares na polícia e tiveres de te referir, num registo biográfico, a um cigano, ou a um negro, não podes escrever “raça cigana”, ou “raça negra”. Tens de dizer ou escrever “etnia”. Pura hipocrisia, porque, em casa, de pantufas, referem-se-lhes como “o cabrão do cigano ou do preto”. Então ao pé da porta, nem pensar! Que vão morrer longe... é o que pensam.
          -Costumas ter aqui no hotel negros ou ciganos?- perguntou Domingos curioso, cada vez mais convencido de que Fausto era o último dos últimos filantropos à face da terra. Talvez o único verdadeiro que algum dia pudera conhecer.
          -Claro! Milhões! Era só o que faltava fazer segregação racial! Nesse aspecto, sou quase tão bom como Deus – e deu uma pequena gargalhada, dissuasora de pessimismos.
           -Só não queres crianças – prosseguiu Domingos ainda numa onda provocatória, que se revelara mútua.
          -As razões que te apresentei continuam válidas. Mas, vamos lá ver se descobrimos o que aconteceu a Manolito.
           -Para quem não quer aqui miúdos, estás a fazer como os políticos: “bonitas são as crianças mas longe da porta” – e ambos sorriram, prontos a assistir à  saga dos ciganos, que um maldito incendiário transformara, de um momento para o outro, em sem-abrigo.
          -Sem abrigo e pés descalços – disse Fausto como se adivinhasse os pensamentos do amigo -. Já viste que, a maioria deles não traz nada calçado? E a roupa é o que se vê. Afinal tinham acabado de se deitar…
          -É verdade. Os dois rapazes mais velhos e a rapariga têm sapatilhas com fecho de velcro, os ciganos mais velhos sapatos, que ainda tiveram tempo de procurar no meio da confusão. As mulheres trazem simples chinelas de dedo, encontradas ao acaso de pernas para o ar como tartarugas à espera de serem salvas da morte num santuário varrido por uma tempestade oceânica – terminou Fausto rindo.


Continua.....


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 27, 2020, 15:40:35
Vamos continuar?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 28, 2020, 18:38:31
16


         [Quase todos os miúdos, tanto os filhos de Cármen e de Inácio como os de Rodrigo e Luzia, após as atribulações da noite, dormiam no costado da carrinha, vergados ao cansaço de uma noite incomum. Joaquim, o mais velho, um rapaz de quinze anos, filho de Rodrigo e prometido de Sameiro desde que nascera, conversava com ela e com o futuro cunhado Ramiro. Os outros, uma escadinha a aumentar dentro em pouco com o que Luzia trazia na barriga, haviam sucumbido ao sono, sem sequer terem sido apeados. Só Litos, o primeiro a saltar mal haviam chegado, continuava agitado e choroso desde que haviam deixado o acampamento. A mãe, com Bruno ao colo a dormir-lhe no ombro, procurava acalmar o filho surdo, sem lograr mais do que um olhar de súplica do pobre rapaz, misturado com o que parecia ser uma pronunciada raiva. O queixume do garoto, de que ninguém conseguia fazer uma tradução aproximada, de tão repetitivo, começava a cansar, quase tanto como o ruído de um alarme que ninguém soubesse desligar.
          -Cala-te. Não chores! – ordenava, com pouca convicção Cármen olhando para ele, entre o severo e o apiedado -. Depois arranjamos outro cão - fazia ela a mímica de que era capaz para Litos a poder compreender no meio do seu silêncio.
A praça tinha cada vez mais pessoas, saídas do conforto da cama pelos sinos da aldeia, que não poderiam ter esperado pela manhã para anunciar o terrível acontecimento. Entre eles, já se encontrava o João do Aviário, preocupado com a possibilidade de o vento encaminhar o fogo para o local onde os frangos e as galinhas engordavam, para abastecer depois os hipermercados da região com que ganhava a vida, criara e educara dois filhos.
          Por todo o lado se ouviam comentários em surdina e mal-intencionados sobre a origem do fogo, que não abafavam o pranto do inconsolável ciganito.
          “Tinha de ser, não podíamos escapar sem levarmos com um incêndio, Não sei como ainda há mato para arder, Falam que começou à beira dos ciganos ou lá perto, foi um rapaz que estava agora aqui que o confirmou, E o acampamento, Ardeu todo, até a carripana explodiu, Às tantas foram eles a pegar-lhes fogo, Mas para quê, eles nem seguro devem ter, Ouvi dizer que os Vieiras querem fazer como os outros, atulhar a mata de eucaliptos para venderem à fábrica da celulose. Por isso os queriam expulsar de lá, Se calhar, Também ouvi dizer que a ciganada está farta de andar de câmara em câmara a pedir que lhes arranjem uma casa, Pois, para lá meterem o cavalo, Fala-se que há muitos anos fizeram isso num bairro do Porto. O animal subia escadas e tudo. Vivia na banheira, Mas se fossem eles a pegar fogo tinham ao menos trazido a carrinha dos trapos, E a droga, Não se sabe se não a trouxeram, Isso é que podia ir com o caraças mais velho, Ou então foram mesmo os donos da mata a tratar do assunto, As labaredas estão a avançar, daqui a nada caem-nos em cima, E os bombeiros demorarão, Eles não sabem para onde se virar, Pois, a auto-estrada Porto-Lisboa, ontem à tarde, esteve cortada umas seis ou sete horas, foi um pandemónio, Há fogo por todo o lado, Todos os anos morre gente no raio dos incêndios e se perdem muitos milhões, Só bombeiros já morreram uns poucos, É claro que a estas horas da noite só pode ter sido fogo-posto, Isto só lá vai quando se puserem uns quantos incendiários a arder no meio das labaredas que atearam, A televisão disse que um dos que pôs uma data de fogos era carteiro, Uns dizem que são os madeireiros, outros que são os aviões, outros que são os malucos, Há quem diga que a electricidade se aproveita bem dos montes queimados para lá pôr as eólicas, Fazem bem em plantar só árvores dessas, ao menos não ardem, Mas é suspeito, As pessoas também não têm cuidado nenhum, Pois não, se virem uma giesta a entrar-lhes em casa pela porta, desviam-se e não a cortam, Então se for pela janela até lhe põem umas cortinas à frente para a paisagem ficar mais bonita, Antigamente iam ao monte buscar mato para a corte dos animais e aquilo andava quase varrido à vassoura, Tem razão, e nesse tempo até os isqueiros precisavam de licença. Hoje toda a gente fuma e anda com um isqueiro no bolso, Pois, há-os aos pontapés, de todas as cores e feitios, Deviam era proibir a venda deles durante o verão, Mas nesse caso talvez os açambarcassem no inverno, E também é uma estupidez existir uma época de incêndios, É um convite ao fósforo, Pois é. É como quem abre a época de caça, Caça é o que há cada vez menos. Perdizes e lebres já quase não se vêem, não têm habitat para se reproduzir, morrem às centenas, É verdade, já viu o que um simples fósforo consegue provocar?”


                                                                                    17


           Cerca de meia hora depois, chegou o Presidente da Junta, António Pinto, que, após se ter juntado aos homens e mulheres da freguesia, com quem se inteirou dos acontecimentos, se abeirou a seguir dos ciganos. E de novo ouviu da boca dos protagonistas da noite a versão mais real dos factos.
          Inácio Maia, de vez em quando complementado com pequenos detalhes pelos membros da família, foi o porta-voz da odisseia.
          -Quem primeiro deu conta do fogo foi o Litos.
          -Mas antes o nosso cão morreu. Os miúdos foram dar com ele a deitar espuma pela boca – acrescentou Cármen.
          -Morreu como?
          -Não sabemos - respondeu a mulher.
          -Mas ele estava doente?
          -São como um pero! – informou Inácio Maia, cuja informação o irmão Rodrigo confirmou de imediato.
          -Então foi envenenado de propósito. Só pode ter sido. Vocês devem ter grandes inimigos.
          -Não diga, senhor presidente!...
          -Quem é que deu pela morte do cão?
          -Foi também o Litos – respondeu Cármen – mas ele não tem fala. Deus Nosso Senhor levou-lha aos dois anos com uma doença nos ouvidos. Estava com o Manolito, o irmãozito a seguir a este que tenho aqui ao colo.
          -E do fogo também foi o Litos que deu conta – relembrou Rodrigo –. Não deve ter conseguido adormecer por causa da morte do cão e então saiu outra vez. Foi quando tudo estava a arder.
          -Foi sim, a seguir fui eu, quando já só havia tempo para sairmos dali antes que morrêssemos todos carbonizados.
          -E o que é que diz, quero dizer, sei lá, o rapaz? – insistiu de novo António Pinto, o presidente.
          -Só chora. Quando saímos apontava para a carrinha. O meu cunhado queria-a ir trazer, sujeito a que o depósito do gasóleo rebentasse. Mas nós não deixámos. A carrinha rebentou passado um bocadito, já nós vínhamos a caminho daqui.
          -E o mais pequeno, o que estava com ele, não disse nada?
          -Senhor Presidente, o Manolito só tem quatro anos. E está a dormir na cabine da furgoneta onde viemos todos. O miúdo ainda não tugiu nem mugiu desde que chegámos. Vou ver como está – acrescentou Cármen, dirigindo-se ao veículo, com Bruno ao colo a dormir um sono inquieto, enquanto, ao passar pelo surdo, viu que ele continuava choroso e mais ou menos revoltado com a família.
Cármen tentou abrir a porta sozinha. Não o conseguiu, visto a porta estar algo perra. Foi chamar Inácio e, quando este, daí a segundos, escancarou o interior da cabine, com apreensão verificaram que o miúdo não estava lá. Imediatamente o homem espreitou sobre o taipal da caixa traseira, contou e identificou as crianças, concluindo, no maior desespero, que o filho não estava ali. Olhou depois todo o perímetro da praça a ver se entretanto ele tinha saído. Não o viu em lado nenhum. E então, aos gritos, começou por interpelar, primeiro a cunhada Luzia e a seguir a filha Sameiro:
          -O Manolito?
          -Ele não veio convosco atrás? – questionou a grávida, estarrecida por um  pressentimento que rapidamente se tornou comum.
          -Não, não veio! – respondeu Cármen aflita. E, no mesmo instante, desabou em pranto e em pânico, que rapidamente se estendeu a todos os membros da família –. Ai o meu rico filho que ficou para trás e deve estar agora todo queimadinho!
António Pinto, com palavras de conforto tentava sossegar a família:
          -Têm de ter calma. Pode ser que não tenha acontecido nada. Milagres acontecem – dizia à pobre Cármen, a quem o filho que tinha ao colo quase afrontava pela perda do outro.
          -Ai o meu irmãozinho, o que lhe terá acontecido?- Choravam Sameiro e Ramiro enquanto o outro irmãozito o Gonçalo, um rapazito de oito anos os acompanhava.
          -Perdão Manolito, mas a aflição era muita! Perdão por te termos deixado para trás! – gritava Cármen, certa de que o pior acontecera, enquanto as pessoas ali  lamentavam a criança, no caso de lhe ter acontecido o pior.
           Os gritos de treze ciganos desenraizados, a lamentar a sorte de um dos seus, conseguiram o que o sino de uma igreja tocado a desoras não logrou. Em pouco tempo, quase todos os habitantes do Eito haviam convergido para o local das concentrações importantes, o largo da aldeia, que, àquela hora e naquelas circunstâncias, se transformara num lugar acossado pelas forças do mal na pessoa de cada cigano ali presente. E se alguns dos deles poderiam ter culpas no cartório, como a questão da droga de que eram acusados com algum proveito, aquele por quem choravam, e cujo destino não era ainda conhecido, não era de certeza. Pela segunda vez na noite, atarantados e sem rumo, entre as acusações de uns a outros por causa do pobre Manolito, se algum dia haviam sido carrascos de alguém, hoje qualquer um deles não passava de mais uma vítima. E, por isso mesmo, havia na maior parte de toda aquela gente uma comoção sentida pela morte quase certa do pequeno Manolito.
          -Pode ser que não lhe tenha acontecido nada! – dizia-se aqui e ali, mas com pouca convicção. O fogo sempre fora o ladrão mais implacável de todos, um daqueles a quem era difícil escapar. Sobretudo se se tratasse de uma criança de quatro anos, por mais destemida que as leis da mata a tivessem deixado para enfrentar inimigos.
           No meio de uma contradição aparente, Litos, ao constatar que já todos sabiam de qualquer coisa grave que tinha o irmãozito como epicentro, parou de chorar de um segundo para o outro, cansado das lágrimas a que o seu silêncio o condenara durante demasiado tempo. Daí a nada, deixou-se escorregar para o chão do largo como um saco vazio, incapaz de se manter de pé. E, não demorou grande tempo, estava a dormir profundamente. Era como se tivesse acabado de se ver livre de um pesado fardo que até aí tinha carregado sozinho e num esforço sobre-humano.
          -Pobre ciganito. A aflição dele em não conseguir fazer-se entender! – dizia a Dona Celeste do café para uma vizinha, ali no meio da praça aonde toda a gente ocorrera ao som daqueles mil e um gritos.
          -Pode ser que o miúdo tenha conseguido escapar e esteja agora em algum lado à espera de que o encontrem.
          -Não se sabe. E o irmão também não consegue ajudar muito. Pobre dele. Pobre de um e de outro.
          -Já são quatro da manhã. Dos bombeiros nem sombra – disse o homem que primeiro abrira a persiana à chegada dos ciganos, agora no largo a comungar colectivamente daquela fatia amarga de angústia no meio da madrugada de uma segunda-feira amaldiçoada.
          Inácio Maia, mal conseguiu acalmar um pouco, agarrando-se à última esperança de encontrar o filho ainda com vida, decidiu ir sem demora ao acampamento. Se quando o abandonara eram as labaredas que ladeavam a estrada, provavelmente agora seriam só as cinzas a orná-la de negro, nos tocos das árvores calcinados pelo fogo. Mas ao menos os troncos mortos, talvez ainda incandescentes, iriam deixar passá-los.
         -Não faça isso – aconselha António Pinto – Se o fogo o apanhar, não teremos como resgatá-lo. E olhe que daqui a nada ele chega à povoação. Estamos bem arranjados se os bombeiros não nos vierem acudir! Já liguei para o presidente da câmara e ele não está certo de que elementos de alguma corporação possam ser enviados para aqui. Os homens estão exaustos. Nos quartéis há meia dúzia de gatos-pingados a assegurar uma ou outra situação urgente.
          -Tenho de ir! – protestou Inácio com convicção, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelo rosto, longas e intermináveis no meio de uma careta onde se lhe esborrachava o sofrimento.
          -Vou contigo! - disse o irmão do mesmo modo.
          -Eu também, proclamou Cármen, entregando o pequeno Bruno choroso à filha, que o recebeu juntando-lhe as próprias lágrimas.
          -Vão com cuidado, já que não os podemos impedir – aconselhou um homem no meio dos muitos que ali estavam.
          -E o que vamos fazer com os miúdos que ainda dormem na carrinha? – perguntou Luzia –. Não os podem levar. Ainda caía alguma fagulha em cima deles, e então em vez de um eram quatro ou cinco.
          -Temos de os tirar depressa – decidiu Rodrigo, querendo parecer mais lúcido do que na realidade estava.
          Foi o que Joaquim e Ramiro, depois de subirem para a carroçaria, começaram a fazer, a um ritmo apressado mas cuidadoso simultaneamente. Pegaram um a um em cada uma das crianças mais pequenas, obrigaram algumas a acordar, entregando-as de seguida a Inácio, Rodrigo e Luzia que, mal os recebiam, os iam colocando no chão em fila, alguns ainda a dormir numa doce ignorância.



                                                                              
XXI

          -Bem que alguma daquelas mulherzinhas podia arranjar um cobertor para as deitar! – remoeu Domingos solidário com os infantes, e amaldiçoando Telmo também ele.
          -Ou então abrir a porta e pô-las a dormir numa caminha!
          -Já nem digo tanto… A menos que lhe dessem banho, para o que, àquelas horas da madrugada, não haveria grande paciência.
          -Tens razão. Um banho é um dos requisitos mais elementares da civilização. Desde que haja água, claro (pobres de milhões africanos que nem sequer a têm para beber). E é por isso que não censuro quem, no caso, não se lembra de coisas tão simples como um cobertor. A falta de higiene tira a capacidade de discernir. E até de ajudar… Custa um bocado estar à beira de um cigano, ou de outra pessoa qualquer, que cheire mal e que cause vómitos. Na minha maneira de ver, trata-se da causa número um da segregação entre paisanos e ciganos. E entre qualquer pessoa, aliás – acrescentou Fausto – embora haja outras, como os costumes e por aí.
          -É verdade. Já deixei de ir a certas casas por causa da desordem. O caos atrai caos e todo o caos me deixa deprimido.
          -Tens toda a razão. O caos não deixa de ser o grande inimigo da felicidade, que, contra o que muita gente pensa, se alimenta de rotinas e da ordem.
          -És um grande filósofo, meu amigo – rematou Domingos sorridente.

Continua



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 29, 2020, 15:41:08
Filosofias à parte, vamos continuar a seguir a história!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 29, 2020, 16:28:51
No concurso em que o romance  esteve, acharam que  não valia nada. Mas, ao menos aqui, ainda tem leitores. E bastantes, ao que me parece...


                                                                                    18

          Inácio conduzia como um louco através do intenso fumo, que, como um pico de enxofre nos olhos saturados, lhes aumentava a nascente das lágrimas. E, à medida que se aproximavam dos escombros do acampamento, iam tendo a certeza de, naquele dia, a fatalidade ter ido ao extremo de lhe roubar duas vidas; a que já ali não poderiam ter, e a que lhes levara o pequeno Manolito num rasgo de maldade pura. E se uma das duas vidas poderia ser recomeçada noutro lado, a outra perdera-se irremediavelmente na pira do fogo ateado por gente sem alma
          Muito antes de parar a furgoneta na berma da estrada, a primeira coisa que lhes saltou à vista, à luz dos primeiros e incipientes raios da manhã, foi o esqueleto cinzento da viatura calcinada, ao lado dos barracos fantasma do que fora o lar da família durante vários anos. Da criança nem sinal, embora, numa estranha ironia, o cadáver do Ringo, sobre o cobertor molhado pela água do bidão, ainda pudesse identificar-se como um cão morto.



                                                                                  XXII


          -Estás a ver como o filme está mal feito? Depois da explosão da carrinha, ali ao lado, e das bilhas de gás, o cobertor devia estar pejado de destroços. Não teria resistido. Por muito molhado que estivesse
          -Pode ser que tenha ocorrido um milagre… sei lá – retorquiu Domingos.
          -Fia-te nisso.


                                                                                  19

          Cármen, de chinelas de plástico nos pés, foi a primeira a aventurar-se no chão da mata, vestida agora de negro como um fantasma, e nem deu pelo tição que lhe queimou um pé sem lhe arrancar qualquer grito de dor.
          -Não entres! – gritou-lhe Inácio, aflito – Isso deve estar um braseiro!
          Ela estacou assustada, e foi a seguir ele e o irmão, de sapatos nos pés, que, com o toco de um pau perdido na camioneta para eventualidades de trânsito, iam arredando as brasas, prosseguido cautelosamente até cada um dos barracos. E, espreitando para dentro, nenhum dos dois conseguiu ver nada que se parecesse com um corpo humano de criança. Muito menos viva.
          -Vamos embora, tudo isto está um forno – proclamou Rodrigo, depois de alguma insistência tentando encontrar com o pau, como se este fosse um detector de metais, o corpo do sobrinho, um pequeno cadáver no meio dos escombros que pudesse arrebatar daquele lugar maldito para o colocar num outro sítio com a dignidade requerida pela morte. Sobretudo de uma criança inocente.
          Quando se abeiraram de Cármen, na estrada, não precisaram de proferir palavra. O semblante carregado dos dois dizia tudo.
          Foi ela que, assaltada por um pressentimento, se dirigiu num ímpeto à carrinha, e, metendo as mãos dentro da camisola que trazia vestida para atenuar o calor da fechadura, abriu a porta traseira. Deparou-se de imediato com os pólos e os lençóis calcinados, e, sobre o que fora o monte constituído por eles, estava o que o seu instinto lhe dizia ser o corpo carbonizado do pequeno Manolito.
          -Está aqui o meu rico filho! - gritou, enquanto fazia um gesto de querer arrancar dali o que do rapazinho restava, um pequeno  tição.
          -Não faças isso! Olha as mãos! Queimas-te! – gritou Rodrigo, enquanto ele e o irmão arrastavam Cármen dali, colocando-a a seguir na estrada onde ela continuou a dar largas ao pranto.
          -Vamos sair deste inferno – sugeriu o cunhado, tentando convocar em todos uma ponta de razão para saírem inteiros daquele horror. A luz eléctrica colapsara durante a passagem do fogo, e a claridade da manhã não conseguia ainda a mostrar toda a dimensão da tragédia.
          -Não, não saio daqui sem levar o meu menino! – gritava Cármen, limpando as lágrimas a uma ponta da camisola retorcida pelo desespero.
          -Temos de ir! Agora o corpo já não é nosso! A morte tirou-no-lo – atirou Inácio num grito entrecortado pela dor.
          E tinha razão. Daí a um pedaço, viria o delegado de saúde, a polícia e os bombeiros para tirarem dali o que o fogo lhes levara num duro golpe.
          -Não, o Manolito não fica aqui sozinho! – insistiu a mulher obstinada.
          E também ela tinha razão. Os mortos não devem ficar sozinhos, antes de alguém, através de um papel com uma assinatura mandatada para o efeito, declarar que não há mais nada a fazer senão chorar enquanto as lágrimas não secarem.
          -Eu fico. Tendes de ir dar conta do sucedido – disse Rodrigo à cunhada e ao irmão.



                                                                                     20

          Pela primeira vez durante a noite, enquanto os dois ciganos regressavam do acampamento, as chamas começaram a ser visíveis mais ao perto, ameaçando deixar a aldeia envolta num manto mais negro do que a noite. O fumo era intenso, mal se respirava. O dono do aviário já tinha saído dali, depois de perceber que, com o vento bailarino a fazer-se sentir, daí a pouco teria cinco mil frangos de tamanhos diversos mortos e quatro pessoas desempregadas. Além de uns milhares de euros de prejuízo.
          Continuando os bombeiros sem aparecer, foi o desespero de quem começava a ver hortas e pomares ao pé da porta invadidos pelas chamas que obrigou o presidente da junta a lançar um aviso aos serviços de emergência.
          -Têm de vir imediatamente. Tanto quanto se julga saber, já morreu uma criança. E por este andar haverá mais mortes! Eu entendo que não haja grandes meios. Mas alguns deve haver. Agora ficarmos desprotegidos é que não! – dizia, com alguma indignação,  enquanto insinuava que talvez  as autoridades não estivessem a coordenar as operações da maneira mais racional. E tinha razão. O caso era dos mais urgentes. Nunca ninguém sente as aflições dos outros quando as nossas são únicas e as mais verdadeiras, e não nos é, censurável sermos egoístas nem um pouco.
          Agora, depois áspero telefonema para a Protecção Civil, tinha a certeza de, dentro de relativamente pouco tempo, haver pelo menos um carro de bombeiros a anunciar, através de uma sirene aflitiva, a sua presença salvadora, desde que saísse do quartel até entrar no teatro de operações. Polícias e bombeiros, numa estranha atitude, reagiam sempre à palavra “morte” como a nenhuma outra. A palavra “prevenção”, perante a palavra “morte”, sobretudo em casos como o presente, não tinha força nenhuma. A “morte” era sinónimo de acção e de vida, que, infelizmente, já não fazia parte do estado de Manolito.
          Daí a pouco mais de meia hora, Cármen, e o marido regressaram pior do que haviam partido. Traziam do acampamento a confirmação da notícia pelo senso comum, de todas e deixavam lá um cigano a guardar um montinho de cinzas a que tentavam ainda atribuir o nome de Manolito.
          -O meu menino morreu queimadinho! – chorava  a mulher, limpando continuamente os olhos aos ombros da t-shirt de manga curta,  contagiando toda a família e o resto dos presentes como uma onda inundando a praia antes de nela rebentarem as outras seis.
A praça encheu-se de novo de gritos pela perda da pobre criança. O presidente não exagerara. Mas, antes de levar a cabo qualquer outra diligência, teria de comunicar às autoridades a localização do cadáver de uma criança de quatro anos e de um homem a guardá-lo. Era o acampamento dos ciganos visíveis da linha do comboio, entre a fábrica das motorizadas e a empresa de lacticínios detectáveis até da Lua, ao contrário de uns barracos calcinados no meio de um desolador manto de cinzas com alguns cotos de árvores negras ao alto como estátuas mortas e fantasmagóricas.
          Decorrera mais de uma hora quando uma mota chegou apressada ao largo e o rapaz que a desmontou atirou à queima-roupa:
          -Já ardeu uma casa, a que estava chegada à mata. Acordamos todos com os gritos a fogo de dois vizinhos, enquanto as labaredas avançavam atrás das casas. Agora, perto na Rua do Cabeço, onde mora a Senhora Ana Rosa, há mais habitações em perigo. Incluindo a dela. Os emigrantes começaram a regar há um pedaço as vivendas novas para impedirem o fogo de avançar. Contudo, as mais velhas não têm as mesmas hipóteses de defesa. Já chamámos os bombeiros, mas eles continuam a dizer que não têm meios disponíveis. Estão à espera que amanheça para ver o que podem fazer.
           -Pronto. O vento fez das suas - atalhou António Pinto -. O Inferno chegou aqui. Estamos bem arranjados!
           E ligou de novo à Protecção Civil, agora que o maldito fogo mordia novos calcanhares.
          -Já avisaram os filhos, o Leandro e a enfermeira? – perguntou Alberto, o homem que tinha estado com o emigrante  pai da rapariga que casaria no próximo fim de semana.
          -Sim. Venho agora da casa dela. Está tudo em alvoroço. A filha, a Catarina ficou em pânico e desatou a correr para lá como uma doida, com medo de que alguma coisa acontecesse à mãe e ao filho. O miúdo mais novo, esta noite ficou a dormir em casa da avó, depois de a família ter jantado em casa desta. Entretanto, o marido, o irmão Leandro e mais uns poucos de homens já foram para lá. Muniram-se do que podiam; mangueiras, pás, picaretas e por aí.
Vindo do beco, surgiu Abel, o pai de Telmo. A mulher acompanhava-o, mais ou menos preparada para, daí a pouco, ir de novo trabalhar. E Susete, depois de se condoer com a desgraça dos pobres ciganos, vendo os pequenos deitados nas pedras como o Menino
          Jesus nas palhinhas do presépio, foi buscar três sacos-camas, do curto tempo em que os filhos mais novos tinham pertencido aos escuteiros.
          Daí a nada, a solidariedade da mulher estendia-se a outras portas. Apareceram então novos sacos e alguns cobertores para tapar as crianças seminuas e descalças. Um friozinho de alma começara a fazer-se sentir, deixando em todos a pele eriçada de galinha prenúncio de situações aterradoras.


                                                                             XXIV

          -A mãe de Telmo é um bocado como o Diabo – brincou Fausto.
          -Porquê?
          -Ora, porque o Diabo tem uma capa com que tapa e outra com que destapa. Ela destapou tanto na educação do filho mais velho e vem agora tapar do frio crianças cujo irmão morreu em consequência de uma barbaridade cometida por ele?
          -Mas, parece boa pessoa. O rapaz é que não há meio de dar as caras…
          -Dizes bem, “caras”. Vais ver que, quando aparecer coloca a melhor delas, com que se fingirá de inocente e tentará passar entre os pingos da chuva.
          -Lei das compensações, entre mãe e filho.
          -Talvez a isso se possa chamar a “Simbiose do Cordão Umbilical”. Contudo agora é melhor continuar a ver o filme.





Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Abril 30, 2020, 09:45:13
A remeter para uma realidade ainda muito presente. Continuando...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Abril 30, 2020, 19:32:12
                                                                                        21

          A praça, depois do alarme de mais uma casa a arder na Rua do Cabeço, estava quase circunscrita à presença dos ciganos. Quem ali estivera, inteirado da nova ameaça que pairava sobre a povoação, no outro lado, abalara para onde o fogo constituía agora maior perigo. Na zona norte, na famigerada rua atingida, o Diabo não deva tréguas. Apesar de ninguém ter a certeza, supunha-se que a velha casa engolida por ele estaria vazia, ou talvez cheia de recordações de outros tempos e sem ninguém para as evocar em dias de saudade. O dono, um emigrante que acabara de a herdar, não havia ainda aparecido pela terra depois disso. Após a morte da mãe, começara a passar o mês das férias na aldeia da mulher, uns quilómetros mais a sul, para não se defrontar sozinho com memórias do seu passado feliz na casa, entretanto uma ruína e agora um amontoado de cinzas.
          As crianças ciganas, essas continuavam a dormir, de momento com um pouco mais de conforto, depois de aconchegados nos providenciais sacos-cama trazidos por Susete e pelos que lhe seguiram o exemplo.
          Joaquim, mal viu os tios chegarem sem o pai, decidira ir fazer companhia ao progenitor. Era praticamente manhã. Acabara de comer um pão com manteiga que a Dona Celeste, a mando do presidente da junta, fizera chegar a todos, mesmo para quem ainda dormia, enquanto abria mais cedo o café para a chávena de leite que fazia parte da oferta. O rapaz falou, primeiro com Sameiro, e a seguir com a mãe e os tios. E, antes que o sobrinho se pusesse a caminho desafiando as labaredas, Inácio resolveu levá-lo na carrinha até onde o pai guardava o pobre Manolito, a esperar a chegada das autoridades, sozinho e sem Deus para o reconfortar nas suas dores de homem, talvez agora ateu.
         De um lado e de outro da estrada, estava agora tudo negro. Tudo não passava de um cemitério onde jazia o verde de uma floresta morta.
         Quando tio e sobrinho chegaram, viram com alegria que o cavalo, não só sobrevivera como regressara, estando agora a fazer companhia a Rodrigo como se quisesse consolá-lo da tragédia que os tornara reféns da caridade alheia.
          -Perdemos tudo, irmão – disse Rodrigo algo exaltado e, sobretudo, inconsolável.
          -Eu sei…
          -Não sabes não… O produto estava na carrinha… Tinha-o escondido atrás, debaixo da carpete sob a mercadoria, onde Manolito está agora - disse  duplamente compungido…
          -Depois de o cão morrer, devias tê-lo tirado de lá. Mas Isso agora não interessa para nada. Talvez se tivesse perdido na mesma…
          -Já ligaram à GNR? – perguntou Rodrigo, pensando que, noutras circunstâncias, fugiriam dessa gente como o Diabo do enxofre. Mas hoje não teriam como evitá-lo. O tempo urgia.
          Joaquim entregou o pão com manteiga ao pai e disse-lhe que, se quisesse, poderia ir-se embora. Ele esperaria pelas autoridades. Mas o pai não aceitou. Como o cavalo precisava, ao menos, de beber, aconselhou o filho e o irmão a levarem-no dali. Estava tudo morto. E era como eles se sentiam, mortos por dentro.
          Foi o rapaz que, segurando a rédea do animal, o levou dali a passo.


                                                                                            22

           Quando uma boa parte da população chegou à Rua do Cabeço, nos rostos dos cinco ou seis homens e mulheres armados com enxadas, galhos de árvores e mangueiras, era visível a consternação por mais uma desgraça.
          No chão, no meio da rua, estavam mais dois corpos tapados por duas mortalhas brancas. Ao lado dos cadáveres, Catarina e Vasco choravam o desaparecimento Ana Rosa e do filho Diogo, uma criança de cindo anos que, depois de um domingo de celebração na casa da avó com os tios de França, ficara com ela, dando-se colo mútuo de avó e neto como em tantas outras vezes. Ficava lá sobretudo em Agosto, quando a escola pré-primária fechava e Catarina precisava de o deixar com alguém. Para cuidar da criança, ninguém melhor do que a avó. Hoje, porém, numa hora má, enquanto na praça, junto à igreja, se lamentava a morte de uma outra criança, de algum modo permitira-se o avanço do fogo noutros lados. Até ele devorar a casa da mãe, a mãe e o filho. E se já seria doloroso perder a mãe em circunstâncias normais, num caso conjurado pelo inferno como o que se precipitara sobre a aldeia, vê-la partir levada por uma morte horrível com o neto pela mão, era devastador. Pior do que perder a mãe era, indiscutivelmente, a perda do filho, uma coisa anti natura, para lá de qualquer sofrimento humano e impossível de imaginar por quem nunca passou por ele.
          Quando o marido, Vasco, e o irmão se haviam precipitado para o caminho por onde avó e neto tentaram a fuga, nada mais lhes restava do que resgatar mais duas vítimas. Ainda tinham sido retiradas com vida, mas morreram a seguir uma e outra: Ana Rosa, ao colo Leandro, e Diogo no do pai. Nos braços de cada um, haviam soltado o último suspiro, enquanto o 112 colocava as interrogações habituais. Tanto acerca das atrocidades do fogo como sobre as condições das vítimas, ao mesmo tempo que, quem fizera o telefonema, praticamente insultava quem o atendia por julgar certas questões irrazoáveis naquelas circunstâncias. Ele ali a ver duas pessoas a passar-se para outra dimensão e alguém a fazer perguntas mais ou menos idiotas. E o que o fogo não matara fizera-o o fumo, numa capciosa combinação de esforços.
           Nada mais havia a fazer.
           -Malditos incendiários! – praguejava Catarina em desespero intercalado com gritos, destapando de vez em quando os lençóis que cobriam avó e neto –. Se um dia descobrir os culpados juro por Deus ou pelo Diabo que lhes faço o mesmo!
          E, depois da praga num momento de dolorosa exaltação, caía de novo na realidade desfazendo-se em lágrimas, constantes como uma fiada de pérolas sem fim. O marido tentava animá-la com as palavras circunstanciais de sempre, quando Deus passa a encher a boca de quem as profere verificada a impossibilidade de dizer:
          -Estás a sonhar. Tudo isto é um pesadelo. Vais acordar dentro de pouco tempo. A seguir deslocas-te ao quarto e então encontrarás o nosso Diogo a dormir o sono dos anjos.
           Mas, em vez disso, só lhe ocorria dizer, com a mesma cortina espessa de água nos olhos:
          -São incompreensíveis, até malditos, mas devem ser os desígnios de Deus, que quiseram juntar avó e neto na mesma mortalha.
          Até cederem à prostração e ao vazio, com a alma retalhada aos bocados pelas labaredas.
          Já era dia claro, um dia de cuja luz emanava uma enorme desolação, a que o fumo se apegava envolvendo-o no seu manto. A noite confundira-a até ao amanhecer, ocultando no seu negrume a verdadeira dimensão da tragédia. Mas agora tudo estava escancarado aos olhos de toda a gente, numa nudez cruel e mesquinha. Os esqueletos das coisas mortas tornavam-se paulatinamente visíveis, ensombrando a paisagem como fantasmas em retaliação. E, em penosa lentidão, quando dentro de cada hora havia séculos e em cada século milénios, os bombeiros ainda não haviam aparecido, a fim de trazerem com eles um fiozinho da esperança que, cada vez mais, faltava, enquanto os montes ardiam sem descanso. Esperava-se ainda que a GNR viesse guardar os mortos, como se os mortos valessem uma fortuna a não perder de vista nem por um segundo. Não só o cadáver do pobre Manolito, como os outros dois. A seguir, viria o Delegado de Saúde declarar os óbitos, ordenando depois a remoção dos corpos para o local da autópsia, na última determinação da lei. Uma lei que, às vezes, parecia encarar a morte com bastante mais dignidade do que encarava a vida. Ao menos na rapidez com que as autoridades se dirigiam a um local onde houvesse um cadáver. Mas, fosse como fosse, tudo ia acontecendo numa espécie de câmara lenta, como se se quisesse prolongar a agonia dos vivos torturando-os com o espectáculo da morte, insensata e sem sentido de oportunidade. E, mesmo que a lei e um médico não tivessem ainda declarado, com toda a solenidade, a morte de mais duas pessoas, de novo era preciso badalar o sino da aldeia e levar a toda a gente, através do som metálico do seu bronze, o toque a finados.




                                                                                               XXV

          -É raro ver-se alguém fazer uma jura invocando Deus ou o Diabo – comentou Fausto – Normalmente jura-se por Deus. E como Deus, pelos vistos, não interfere em vinganças desta natureza, é bem provável que Catarina cumpra a ameaça com a tal ajuda alternativa.
          -Não acredito. As mulheres não dadas a este tipo de coisas. Só se fosse um caso de marido e amante. Aqui é que elas requintam. Chegam a ser mais sádicas do que os homens. Não é que o Telmo não merecesse. Merece e bem. Se fosse a minha mãe que tivesse morrido daquela forma, juro-te que seria capaz de regar com um bidão de gasolina quem tivesse estado na origem do fogo e de o incendiar a seguir!
          -Concordo contigo. Se a tal pena de Talião ainda vigorasse, mal fosse descoberto, ficaria como um torresmo no meio das labaredas. Seria como um tição que se apresentaria perante o Diabo invocado pela Catarina – continuou Fausto, na mesma toada de requinte diabólico com que os dois se protegiam do horror que o écran lhes mostrava em doses massivas.
          -Era-lhe muito bem-feito! – reforçou Domingos
          -E se fosses tu? – perguntou Fausto.
          -Era a mesma coisa. Mas não estou a ver-me a incendiar seja o que for.
          -Não sabes! Contudo, se é assim, viva a questão de princípio! Mas, olha que, para além da Catarina, ali no meio daqueles homens e mulheres, que tentam apagar o fogo, há muito boa gente capaz de pôr o culpado a assar no meio de uma pira. Só que teria de ser hoje. A quente. Amanhã, passada a raiva, ninguém o conseguiria. Hoje, no calor dos acontecimentos, era, se não legítimo, quase desculpável. Amanhã seria bárbaro.

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Maio 01, 2020, 18:41:07
Capaz de o pôr na fogueira e muitos mais com vontade de o fazer. Continuando...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 01, 2020, 21:14:52
                                                                                    23

          Cármen, mal soube de que a morte ceifara de novo duas vidas, decidiu ir até ao sítio de onde ainda ninguém conseguira arrancar Catarina. Deixou os outros filhos entregues a Sameiro e Luzia, e no último instante, antes de cumprir o que se prometera, pediu a Inácio para a levar ao acampamento uma última vez, juntamente com Ramiro, o filho mais velho.
          Quando chegaram ao local, um dia a sua casa, a GNR já havia tomado conta do que restava de Manolito. Dada a quentura do chão, não tinham sido colocadas as fitinhas habituais de preservação do espaço, mas também não era preciso. A terra fervia e enxotava quem quisesse aproximar-se. Ramiro ficaria a seguir com o tio, junto das autoridades, até chegarem as restantes entidades para as tramitações seguintes e para o adeus definitivo ao acampamento.
          Quanto aos outros filhos, era melhor que continuassem a dormir na praça, em vez de assistirem ao espectáculo da morte, que já colhera mais dois inocentes.
          Cármen não sabia bem por que decidira deslocar-se ali, quando, antes, se propusera confortar outra mulher. Cigana ou não, Catarina, de quem nunca ouvira falar, também perdera um filho nas mesmas terríveis circunstâncias. Ainda assim, talvez tivesse querido ir ao que fora o seu lar de novo para a seguir tentar saber se o filho de um cigano era mais ou menos valioso do que o filho de um paisano, ou se as lágrimas de cada uma das duas mães eram mais ou menos salgadas umas do que as outras. E, quando concluiu que o sofrimento se devia equivaler, perante o esqueleto da carrinha transformado no sepulcro de Manolito, seguiu então para o local onde outra mãe e uma outra criança morta se despediam uma da outra neste mundo de loucos. Até aí, os acontecimentos tinham-se precipitado de uma tal maneira, que quase não tinham ainda pensado como se teria desencadeado na realidade o incêndio. Mas, agora, as palavras do presidente da junta começavam a fazer sentido. Deviam ter mesmo muitos inimigos. Tratara-se, com toda a certeza, de fogo posto. Pois se ele se levantara das sombras da noite como um predador, só poderia ter sido ateado de propósito!
          Por agora, Cármen tinha de ir cumprir o que se propusera. Depois se veria o que fazer, qual o destino de todos, quando tivessem de deixar a praça e ir para local incerto começar tudo de novo, sem nada nos bolsos a não ser as mãos com que desbravariam o futuro negro que se adivinhava.
          Quando a mulher chegou junto de Catarina, pela primeira vez se deu verdadeiramente conta de que estava pouco mais do que nua. Mas, nem mesmo assim desistiu de se aproximar da outra mãe, igualmente despojada do seu filho de uma forma igualmente bárbara. Talvez ela, Cármen, uma cigana de acampamento, fosse para Catarina uma espécie de bálsamo de que ela própria precisaria. Só não estava certa se a outra mulher a iria considerar como um par, na mesma desolação, ou se, apesar disso, se furtaria a um abraço estreitado entre lágrimas de duas mães privadas da sua cria em circunstâncias semelhantes.
          Nessa altura, já uma nova patrulha da GNR tomara as providências necessárias para isolar o local, onde Ana Rosa e o neto estavam na sua quietude mortuária. Alguns populares, mais ao fundo, continuavam a dar o seu melhor para as labaredas não avançarem sobre o miolo da aldeia. Outros estavam juntos da enfermeira, a tentar que ela saísse dali a fim de a preservarem  da  remoção dos dois cadáveres para a ambulância que os levaria a seguir para a morgue. Uma dose de horror dupla servida pelo Diabo no mesmo dia a duas famílias, a uma aldeia. Ou melhor, a um país inteiro, impotente perante aquela calamidade nacional do início de Agosto. E quando Cármen, de camisola que lhe servira de camisa de dormir, se abeirou de Catarina, sentiu ainda assim alguma resistência da parte dela. Isso fê-la pensar que a sua condição continuava a ser uma barreira intransponível entre ciganos e paisanos, mesmo na morte e num abraço que ela desejou sempre de solidariedade fraternal.
          -Eu sei o que isso dói. Também acabo de ficar sem o meu Manolito – disse, apesar de tudo contagiada pela dor de Catarina, esta sim, verdadeira.
          -Isto é desumano, ninguém devia nunca passar por uma coisa assim. – gritava a mulher –. Nenhuma mãe, nenhum pai! É contra a natureza berrava quase louca.
          -Tem razão, devia ser proibido por lei. Deus Nosso Senhor não devia permitir coisas assim – concordava Cármen, humedecendo as palavras com a água dos olhos, mas sem deixar o seu choro tirar o protagonismo ao choro de Catarina, que, por ser mais recente, precisava de se expandir até a tudo ficar suportável
          -O meu outro filho ainda não sabe. Não sei como vai reagir à morte do irmão e da avó – disse Catarina no meio do choro.
          -E nós que perdemos tudo. A carrinha da feira, as coisas para vender. Ficámos sem um tostão no bolso. Com a roupa do corpo. Se já éramos uns desgraçados, então agora nem se fala. Ficámos, como os coelhos e as perdizes, sem toca para fugirmos ao frio e à chuva. Já por diversas vezes pedimos à câmara duas casas, mas a câmara diz que não tem – disse Inácio –. Somos dos poucos ciganos neste país que não têm rendimento social. Pois se nem sequer temos uma morada para indicar! E a câmara já vendeu os bairros sociais há muito. Não está para ter problemas com inquilinos que às vezes não pagam.
          -Mas isso é dinheiro e o dinheiro às vezes é o menos. Eu dava tudo para ter o meu filho e a minha mãe de volta! – murmurava  a enfermeira,  a quem a raiva endurecia as lágrimas, que caiam caíam agora  como estalactites.   Já corria à boca pequena a ideia de fogo-posto como sendo a causa mais provável do incêndio. E os ciganos já começavam a ser ilibados do delito pelo senso comum de uma aldeia inteira. Só poderia ser assim! Aquelas pessoas, ali mal acantonados, não iriam imolar Manolito de uma forma tão cruel para obterem qualquer vantagem económica. Ainda que fosse uma casa. E também ninguém acreditava que os Vieira tivessem ido tão longe por causa de uma plantação de eucaliptos. Se fossem só os cacos ainda vá que não vá, mas assim não! Eles estavam, com toda a certeza, inocentes. Não teriam com certeza cometido semelhante barbaridade, por mais que às vezes se esfaqueassem ou pistolassem uns aos outros de vez em quando numa rixa banal. E isso também os outros homens faziam.
          Apesar de o abraço não ter derrubado o muro social entre ambas, ao ver a exígua roupa de Cármen e de Inácio, Catarina disse-lhes que fossem lá a casa, mal os cadáveres de avó e neto fossem removidos dali. Que fossem depois da partida da ambulância e quando aquele lugar passasse a ser na história de uma pequena aldeia apenas a má memória de uma tragédia. Entre as suas coisas e as do marido, haveria com certeza algumas que lhes poderia dar para cobrirem exiguidade em que o fogo os surpreendera. Quando ao vestuário dos filhos, sobretudo de Diogo, por agora não queria nada ter de tratar disso. Cada peça tocada seria mais uma ferida aberta, e feridas era o que ela mais tinha. Sangrava por todo o lado como se acabasse de ser crucificada numa cruz com mais espinhos do que a de Cristo. E do Tiago, do mais velho, rondando ele a idade de Litos, talvez tivesse algumas peças de roupa e calçado que lhe poderia dar. Incluindo para o outro filho, a seguir a Manolito, e sobrinhos, filhos de Luzia e Rodrigo, a quem o fogo apanhara à falsa pé no meio da noite como a todos os outros.
          -Não sei como estarão eles – acrescentou Cármen - Acho que o Litos sabe mais do que o que consegue dizer. Antes de sabermos da desgraça do irmão, nunca esteve sossegado. Só depois conseguiu dormir… Foi como se se tivesse livrado de um segredo que o atormentasse até à alma.


                                                                                   XXVI

          -Como vês, Domingos, Catarina, apesar de chorosa e sofredora, ninguém duvida disso, estabeleceu uma distância notória entre a cigana e ela própria. Praticamente, limitou-se a ser politicamente correcta. O presidente faz o mesmo. Além de que não vês ninguém no acampamento. Já no outro local, há uma série de pessoas ao lado de Catarina, do marido, da velhota e do neto. Não foi por todos eles estarem seminus, com toda a certeza – disse Fausto na sequência do que havia dito anteriormente -. E deixa passar algumas horas. Vais ver como tudo se vai acentuar.
          -Tens razão. Mas ao menos vai-lhes dar alguns farrapos para todos irem decentes ao funeral de Manolito. A propósito, quem irá pagá-lo, uma vez que os ciganos estão sem dinheiro?
          -A câmara. Vai ser enterrado provavelmente como indigente. A menos que a raça se solidarize e de uma hora para a outra e apareçam por ali com o dinheiro para o pequeno caixão.

Continua



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Maio 05, 2020, 17:58:34
Quem sabe? Por vezes, surpreendem-nos.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 05, 2020, 22:14:43
                                                                                                 24

          Enquanto a ambulância e o delegado de saúde não chegavam, o fogo continuava a sua colheita. Saltava de um lado para o outro como um farricoco numa procissão de almas sem rumo definido.
          O presidente, visivelmente agastado, saltava do mesmo modo, ora para um, ora para o outro local, desdobrando-se em telefonemas a diversas entidades. Se agora estava onde Catarina perdera o filho e a mãe, daí a nada era visto junto do acampamento, onde a GNR continuava a guardar o pequeno cigano acompanhada pelo Rodrigo e pelo sobrinho. Desta feita, depois de três vidas ceifadas, António Pinto usava-as como motivos persuasores, invocando ainda a calamidade que se abatera sobre todos. Enumerava as hortas, pomares e vinhas que continuavam a ser devoradas pelo lume num desastre económico sem precedentes. O fogo, sem açaime, prosseguia em livre curso e ao sabor do vento. No ar, àquela hora da manhã, além do cheiro a queimado, fazia-se sentir com intensidade um odor a carne queimada. E isso, embora ainda ninguém o tivesse confirmado, fazia crer na forte possibilidade de o aviário dos frangos do Sr. João já ter provavelmente sido devorado pelas chamas.
          Seriam oito horas da manhã quando, finalmente, era ouvida a sirene dos bombeiros a rasgar o ar empedernido pelo fumo que obscurecia o vermelho do carro ao longe. Mas, apetrechado de mangueiras, pás, enxadas e alguma água, apesar de bem-vindo, chegara sobretudo demasiado tarde. Três pessoas haviam perdido a vida. Sem falar nas perdas materiais, a que quase ninguém escapara. Contudo, toda a gente compreendia por que não tinham podido estar presentes durante aquela noite fatídica os soldados da paz. Por todo o lado havia barreiras de fogo a impossibilitar a passagem de viaturas, e homens e mulheres mortos de cansaço em todas as corporações. Deslocados de sul para norte como refugiados de guerra, era preciso, aos Serviços de Protecção Civil e do Corpo Nacional de Bombeiros, ter nervos de aço para coordenar um país a arder. Dezenas de profissionais e voluntários, há dias sem irem à cama, eram agora zombies humanos de mangueira em punho a tentar fazer o melhor, mas sem qualquer certeza de poderem, a breve trecho, acabar com o inferno que se amotinara na terra. Dias longe do carinho da família, do beijo de boas-noites dos filhos e com algumas queimaduras no corpo, que, apesar de protegido com material apropriado, não deixava de ser vulnerável a um inimigo tão invasivo. Além de que não eram só as matas do continente a ser incineradas. Na Ilha da Madeira iniciara-se uma onda de combustão sem precedentes. E, devido à estrutura montanhosa do terreno, só Deus saberia quando iria acabar. Combatida a derradeira fagulha, com a pinga de uma torneira ou com uma gota de chuva derramada por um céu disposto a ser a mão longa de Deus numa causa justa, também ninguém fazia ideia das sequelas que o fogo abriria dali em diante.
          Era por tantas coisas que, da longa espera pelos bombeiros, não resultara uma única palavra de revolta. Nenhuma praga, nenhuma blasfémia. Embora tivessem sido proferidas palavras de lamento e desalento, umas e outras salgadas com o sal de lágrimas pelas mortes sucessivas e por tudo o resto.
           Apesar de as labaredas serem visíveis por todo o lado, antes de se proceder à análise da situação, o carro parou na praça. Quase todos os homens desceram para desentorpecer as pernas durante alguns instantes. Local de passagem obrigatória e ponto de concentrações importantes, o chefe de uma equipa de cinco bombeiros entendeu, em primeiro lugar, dever ouvir quem, ao longo da noite, fizera o que podia e sabia para minimizar a calamidade. Infelizmente, para duas crianças e uma idosa, haviam chegado demasiado tarde, era o que todos diziam. Mas, disso, argumentava o Chefe Cláudio, não tinham eles, quatro homens e uma mulher, qualquer culpa. Andavam no seu limite há mais de dois dias, a combater uma montanha de labaredas a sul, onde haviam ardido várias casas e uma fábrica de moldes, que provavelmente havia deixado umas dezenas de pessoas desempregadas. A preocupação maior eram, contudo, sempre as pessoas.
          -Mas aqui perdemos três, chefe. Duas, uma idosa e uma criança estão lá ao fundo tapadas por um lençol. A terceira, outra criança também, está carbonizada no acampamento onde vivia com os pais irmãos, tios e primos, dentro do esqueleto de um carro. Pelo que se sabe, o fogo terá começado aí, ninguém tem ideia desencadeado pelo quê ou por quem. A partir de lá, e desde a uma hora da manhã, tem lambido tudo como uma sofreguidão de lobo faminto.
          -Lamentamos muito. Custa-nos sempre ver as coisas correr assim tão mal. Porque mal correm desde que o fogo começa. Possa embora não haver mortes – diz o chefe de equipa, confrangido pelo que acontecera enquanto combatiam outras frentes com alguns quilómetros, mais um mar de chamas no paiol nacional de um verão quente como poucos.
          -Tem toda a razão. O Inferno fez disto o seu quartel-general – anuí António Pinto. E todos os homens e mulheres faziam coro com ele, ali na praça perto da igreja, de portas fechadas desde a última missa da véspera.
           -Então esta pessoas acamparam agora aqui no largo – observa o bombeiro, olhando para as crianças que se haviam aproximado entretanto como pardalitos sem dono. A maior parte delas, descalças, acordara há um bom pedaço. Andava por ali com pouca roupa em pequenas traquinices, que traziam a marca da desolação no rosto. Sobretudo por não terem um lugar a que pudessem chamar casa para onde pudessem voltar. Num um sítio árido a ciganos como tantos outros, brincar sem brinquedos era a única coisa que poderiam fazer. E talvez nunca mais o conseguissem com a inocência da véspera, antes de o pobre cão ter sido condenado à morte e executado por envenenamento e o Manolito por incineração. Litos continuava a dormir o sono dos justos, protegido pela surdez que o tornara refém do silêncio na sequência de uma otite mal curada aos dois anos de menino criado ao deus dará numa barraca acossada pelo frio e por condições de vida miseráveis.
          -É verdade. O acampamento mudou-se para aqui em peso. – respondeu uma mulher perante as evidências.
          -E a grávida, está de quanto tempo? – perguntou discretamente o Chefe Cláudio,  antecipando a hipótese de ter de servir de parteiro ocasional a uma mãe e ao seu filho. Não seria a primeira vez…
          -Não sabemos – respondeu a mesma mulher. Ainda ninguém se lembrou de lhe perguntar. Mas tem barriga para muito perto de nove meses. Era só o que faltava, no meio disto tudo, a desgraçada começar agora a contorcer-se com as dores do parto.
           -Tem razão. Nós já temos muito eu fazer. E olhe que em certos momentos é com o coração nas mãos que empunhamos a mangueira. Cheios de queimaduras às vezes – diz, mostrando um pulso, onde uma fagulha se infiltrara por cima das luvas e deixara uma marca ligeira.
          -Quem é que vai levantar os mortos? São vocês? – pergunta de novo a mulher, confrangida como o cenário  da morte que os dois lençóis tapavam algures  a céu aberto no fundo do povo.
          -Não. A nossa responsabilidade é só com os incêndios. Hão-de vir carros apropriados, com isolamento para sangue e cheiros. Sim porque, em casos de morte, as circunstâncias variam muito. Pode haver putrefacção inclusive. Não é o caso, mas acontece de vez em quando.
          -Pois, era bom que viessem depressa. É uma dor de alma ver aquela tristeza – acrescenta a mulher.
E os presentes concordaram, com suspiros de revolta. Ainda não dava para acreditar. Ninguém merecia nada daquilo. Mesmo como castigo por algum pecado era excessivo. Para qualquer mortal.
          -Temos de ir. Já demorámos demasiado – anuncia o Chefe Cláudio.
          -Onde o fogo está mais atiçado agora é para sul – informa o presidente da junta que, finalmente, vê coroados os seus esforços de algum êxito.
          -É para lá que iremos. E, por favor, quem quiser ajudar no combate deve obedecer às nossas orientações. Não queremos ninguém em perigo. Levem roupas grossas, como ganga e botas. Chapéu também. Pás e enxadas. Sem esquecer a água para beberem. O calor é sempre infernal, o lume pica – aconselha o bombeiro, enquanto se dirige para a viatura. Ele e o jovem voluntário Miguel, um rapaz de vinte e um anos com bodas marcadas para o sábado seguinte. O mesmo dia em que Sílvia e Pierre receberiam, um do outro, as alianças do matrimónio no Santuário de Senhora da Saúde.
          -Vamos lá chefe! – Sugere o rapaz como quem dá uma ordem – Quero acabar com isto depressa. A ver se chego a tempo ao meu próprio  casamento – atira em jeito de brincadeira, tentando espantar das pálpebras um sono que não o poderia vencer, tanto era o trabalho ali à espera de mil homens, poucos ainda para cortar as ásperas línguas de fogo que lambiam a eito o maná do Deus mitológico do fogo, o velho e rabugento Vulcano.
          -Por este andar, acho que vais ter de adiar – acrescenta com resignada ironia o chefe da equipa, sempre pronto a levantar o moral dos seus homens caso os visse esmorecer no meio de uma certa impotência, frequente mesmo entre heróis.

                                                                                              25

          No mês de Agosto, com a laboração da maioria das fábricas em pausa por todo o país, o lazer das populações arrastava-se na lentidão de um calor que viera bravo. Por isso, alguns homens e mulheres, de férias, depois do improviso de fardas artesanais de ataque ao inferno, chisparam resolutos até ao local onde a paisagem ia sendo engolida. No ar, surdo como um morteiro, fazia-se ouvir frequentemente  o rebentamento de pinhas de um ou outro pinheiro, acompanhado pelo silvo sinistro das labaredas. O flanco sul da aldeia continuava a ser invadido pelo abutre em que o fogo se havia transformado depois da primeira chama. Era onde, ali numa aldeia do centro, em mais uma das mil e uma plantações nacionais, se situava a grande mancha de eucaliptos, as matas que, um pouco por todo o lado, há muito eram consideradas árvores malditas. Crescendo da noite para o dia até ao céu como no conto dos irmãos Grimm “o Pé de Feijão de João”, tinham, apesar da proeza, pouco de mágicas. Embora enchessem alguns bolsos com moedas de ouro semelhantes às da história. Contudo, eram quase sempre associadas a sinistros ciprestes e à sua preferência por viverem paredes meias com a morte, dentro ou fora dos cemitérios. A riqueza que produziam, vinda de um solo a meio caminho entre da esterilidade e o deserto, não passava, tanto na opinião corrente de um leigo, como na de um abalizado engenheiro agrónomo, de um fertilizante assassino. Era quase considerada dinheiro sujo.
          Ali e agora, a única vulnerabilidade dos eucaliptos era o vento. E este, havia mais de doze horas, empurrava as chamas para uma zona empanturrada das árvores non gratas, que, sendo excessivas por todo o lado, se haviam transformado numa praga pior do que a mimosa amarela. Por isso, cada vez mais, mil e uma vozes se manifestassem contra a grande importação do continente australiano para um local onde não havia cangurus para alimentar, nem necessidade de os introduzir para confundir as espécies autóctones. Os juízos do senso comum são normalmente os mais equilibrados de todos os juízos, aqueles com quem a natureza gosta mais de interagir. Por isso se ouviam por todo o lado, de novos e velhos:
          “A Terra, ainda há-se ficar como a Lua, completamente seca e deserta, Amaldiçoado o homem que permitiu esta galopante desertificação, Se fosse só isso, Ele deu cabo de tudo por causa do cimento, E dos carros que os estrangeiros nos vendem, Mesmo assim, as auto-estradas estão às moscas, E bem se pagam. A peso de ouro, Também não poupou as pescas, Mas para a saúde e para os bombeiros é que não há dinheiro. O equipamento é velho como a Sé de Braga, completamente ultrapassado. Até os outros países nos dão o material que já não usam, depois de já terem outro mais moderno. É verdade. E, por aqui, para eles ainda poderem ir comprando alguma novidade, não deve haver esquina que não tenha já assistido a um peditório. Tem razão. Sobretudo nas grandes cidades, quando se sai de casa, a um sábado ou a um domingo, a partir do meio-dia, passa-se, no mínimo, por uma lata onde se recolhe dinheiro para satisfazer um  pedido de todos os  géneros: para os bombeiros, para os sem-abrigo, para os ex qualquer coisa, para uma casa para os surdos-mudos, para os autistas, para isto e para aquilo”.

contínua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Maio 06, 2020, 18:58:57
É o santo peditório nacional. Daqui a pouco, pede-se para pintar a estupidez com cores de inteligência. Mas vai ser necessário mais dinheiro do que aquele que o mundo tem.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 06, 2020, 20:59:01
                                                                                         26
          Enquanto os homens seguiam a rota do fogo, a maioria das mulheres ficava junto de Catarina e do marido, prostrados ambos naquele cenário de horror como mais duas vítimas. Joanne, a sobrinha de Catarina, filha de Leandro e de Dulce, ficara com o primo Tiago, reduzido agora à condição de filho único e com uma adolescência pela frente que teria de enfrentar sozinho. À jovem, de momento, incumbia-lhe lidar com o pobre rapazinho, inventando a cada minuto, no seu português com sotaque francês de Marselha, uma desculpa convincente para iludir o próprio ar, conspurcado pelo fumo e pela desgraça que viera a reboque do fogo. Dulce tivera de levar o marido ao hospital, para ser tratado a uma queimadura que  lhe abocanhara uma das pernas, na disputa com o fogo que ele acabara por perder. Naqueles instantes, com um cenário dantesco pela frente, a vida de Leandro passara, apesar do perigo, a valer para ele próprio menos do que a vida da progenitora. Por isso, dos seus medos fizera tábua rasa, quando enfrentara as labaredas como S. Jorge enfrentara o dragão, com bem menos hipóteses de o vencer do que o santo. Na verdade, nem ele nascera com dons de santidade, nem as labaredas tinham crescido sensatas. E, infelizmente, a mãe morrera-lhe nos braços, como um animal indefeso devorado pelo bando de aves de rapina em que a chama de um isqueiro se havia transformado. O mesmo acontecera ao pequeno Diogo, o sobrinho, a quem fora tirada a hipótese de ser um dia alguma coisa na vida. Nem que fosse um bandido destinado a viver na prisão num deve e haver de crimes interminável. Mas haviam-lhe tirado todo e qualquer direito de escolha.
           Agora, à medida que a ideia de fogo-posto alastrava cada vez mais pela aldeia, toda a gente se socorria de ideias estandardizadas, elaboradas por quem julgava saber alguma coisa do assunto para atribuir um rosto ao incendiário. Mas, antes de tudo, nos pensamentos de cada um, pensava-se nesse rosto como o de alguém capaz de vender a alma ao Diabo, em simultâneo com o dedilhar do isqueiro num gesto mecânico do polegar imediatamente antes da ignição. Tratava-se de um inimigo de quem precisavam de se proteger. A tudo o custo, teriam de evitar uma nova incursão da desgraça em cada, porta como a que ainda decorria. E, ali com três cadáveres à espera do seu último destino, necessitavam também de se libertar daquela dor, uma opressão em cadeia que deixava em cada um uma devastadora vontade de dar murros no próprio peito. Daí ser imperioso encontrar um culpado a quem crucificar, fazer o julgamento sumário, ou o auto de fé, e entregá-lo ao Diabo dando o pacto celebrado entre ambos por cumprido. Contudo, ainda antes da fogueira na praça pública, era preciso igualmente atribuir uma identidade ao rosto encontrado a partir do folheto dos perfis de incendiários, sem margem de erro e para ninguém ser corroído pelo remorso um dia mais tarde caso se enganasse na identificação do culpado.
          Perante um puzzle de peças desconhecidas, lançava-se mão do perfil do pirómano estandardizado, para ver até que ponto certo nome soprado pela intuição se encaixaria na moldura. O retrato psicológico, traçado há anos pela Judiciária, era o recurso mais utilizado. Todavia, os recentes casos de incendiários demonstravam que a fotografia estaria a precisar de actualizações urgentes e alguns retoques. Se, antigamente, um pirómano era geralmente um homem a partir dos trinta e alguns anos, desempregado, com poucos atractivos físicos, de baixa condição social e incapaz de estabelecer relações com mulheres, o leque tinha vindo a alargar-se ao longo dos anos, como um carreiro de formigas indistintas umas das outras. Entre os incendiários, já havia gente com emprego, aparentemente sem problemas, a fazer ignições só para usufruir do espectáculo do fogo. Tanto na vertente noticiosa, sobretudo televisiva, como na azáfama a que obrigava os bombeiros em trabalho e sofrimento. O rasto do som das sirenes através do ar era, como nenhuma outra coisa, capaz de desencadear emoções semelhantes à languidez de um orgasmo, incontrolável e algo sádico. Ainda que este fosse meramente mecânico, entre uma prostituta e o cliente à beira de uma estrada que não estivesse ainda nua e negra como, de norte a sul, estavam agora quase todas. Os Neros tinham vindo a aumentar, sem, no entanto, terem em mente qualquer projecto de Roma reconstruída a partir dos escombros. Talvez o fascínio pelo fogo fosse uma doença transmitida aleatoriamente por contágio. Pelo olhar, sobretudo, tal como a cegueira ensaiada por José Saramago no seu livro, que, se não acabasse tão cedo, a breve trecho levaria a um canibalismo desenfreado de todas as personagens. E, com a saúde mental a degradar-se de dia para dia, segundo diziam os especialistas, agora seriam principalmente pessoas perturbadas, do sexo masculino a maioria, os vulcanos da terra, em estrito conluio com o esplendor do sol de verão. Sobretudo durante a noite, a hora do exílio do grande astro-rei. O que definia então o incendiário era uma questão de teor sexual, que o tornava num frustrado para quem o fogo seria um estimulante capaz de o fazer sentir-se um actor de cinema escondido atrás da cabeça de um fósforo, e a quem bastava o facto de só ele poder reconhecer-se na tela como o grande protagonista da trama. Uma coisa semelhante à emoção do jogador, afogado por emoções no rio das moedas a saltarem em catarata no prato ao som de um jackpot originado por uma combinação feliz de três símbolos iguais nas slots machines de um casino numa cidade satélite. E, a um frustrado sexual, um inábil com as mulheres, nenhuma lhe poderia atribuir importância como a importância desencadeada pela chama de um isqueiro propagando labaredas num pedaço de mato ressequido pela canícula. Por outro lado, as Teorias da Conspiração tinham cada vez mais adeptos. Braseiro nacional do estio era sistemático e concertado. De uma banda, estariam os patrões do fogo, da outra, os servos, gente capaz de vender a mãe em leilão e de se tornar incendiária se tivesse um bom motivo para ficar órfão. Sobretudo se lhe fosse acenado com um maço de notas. Notas mudas como o pobre Litos na hora de prestar testemunho, que não conseguira salvar Manolito por não saber falar e ficar talvez gago no seu mutismo enquanto assistia à morte do irmão dentro da carrinha. Assim andava o mundo da escassez, com demasiadas pessoas sem um cêntimo para comprar um pão no cenário quase obsceno dos hipermercados a abarrotar de coisas. Supérfluas, muitas das vezes. O que colocava o mais pacato cidadão como um pirómano em potência, um servidor e escravo simultâneo da causa que tinha o dinheiro como estandarte. Num jogo de suposições, talvez também de intrigas entre os madeireiros, os donos dos aviões de combate ao fogo e outros interesses colaterais relacionados com o mesmo. As imputações de culpa encaixavam-se umas nas outras como finas cascas de cebola sobrepostas e de fácil decomposição nos meandros da justiça e na sua procura de provas concludentes. Contudo, de prova difícil. E a maior e mais abrangente película, a que acobertava todas as outras, eram as decisões políticas de há anos, que se haviam imposto como uma necessidade irremovível para a vida das pobres árvores, mas onde cada vez havia mais e mais mortes. “A época do fogo começa dia tantos de mês tal, Os contratos para apagar os fogos foram feitos com a empresa Y (que tem de viver, coitadinha e ter lucros como empresa que é), As fardas dos bombeiros têm de ser comprados a Z, etc.” Contudo, depois de tanta área ardida desde então, a necessidade de outrora passara a ser vista como o maior inimigo da floresta, o Cão em pessoa, um ser omnipresente como Deus e capaz de lançar do céu mechas incendiárias que raramente deixariam de cumprir a sua missão. Às vezes isso acontecia. Mas, mesmo se alguém as encontrasse e se dispusesse a ir entregar a refractária assassina de florestas a uma esquadra de polícia, lá dentro ouviria palavras de fatalidade, juntas, em última análise, às inúmeras participações de fogo cujo destino seria o arquivamento por falta de provas. A menos que houvesse um agente da autoridade para investigar os milhares de queixas que, antes das catacumbas de um arquivo morto, transitavam de ano para ano, transformando as secretárias dos investigadores em poços sem fundo mas sem água para se apagar tanto fogo.
          Agora ele aí estava. Eclodira por todo o lado como se se tratasse de um concerto em execução contínua e progressiva. Não era difícil imaginar a batuta de um maestro, à frente da orquestra, a dar indicações precisas a cada um dos executantes para o espectáculo das labaredas. Nomeadamente quanto ao tempo de entrada dos fósforos e dos isqueiros em cena. E, no meio de tudo, mas não necessariamente por esta ordem, a falta de ordenamento do território florestal, a incúria dos proprietários na limpeza das matas, incluindo as do próprio Estado, seriam outras tantas causas a apontar para as sucessivas tragédias, com uns a acusarem os outros e uns e outros a sacudirem a água do capote melindrados com tantos pingos que lhes chegavam. Ou porque a culpa era da falta de prevenção, ou porque era a repressão que falhava redondamente. E, no fim de tudo, era como se a causa da floresta fosse esgrimida da pior maneira pelos partidos políticos, sobretudo da oposição, a fim de levar o governo à derrota nas eleições seguintes.
           Esquartejando argumentos uns atrás dos outros, havia muita gente a querer ver os incendiários incinerados numa pira de lenha, num país com os bolsos cheios de isqueiros obedientes às mãos dos seus donos, fumadores e pirómanos simultaneamente. Tudo compulsado, redundaria na necessidade de cada cidadão ser um polícia, se não de si próprio, pelo menos do vizinho mais próximo.

      


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Maio 07, 2020, 18:22:16
Há sempre quem brinque como o fogo…


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 07, 2020, 22:02:08
                                                                             XXVII

          Domingos, no pequeno anfiteatro com o amigo, vivia a ansiedade e revolta própria das pessoas indignadas pela injustiça de que o mundo sempre fora pródigo. Era um daqueles espectadores que não conseguem ficar indiferentes a uma tragédia, mesmo em ficção. E, aqueles três cadáveres da trama, à espera do carro da polícia a fim de serem depois esquartejados uma mesa de autópsia, e para quem a pressa já nada significava,  haviam tido demasiada influência nas suas emoções. Mal percebera que as labaredas tinham engolido Manolito, a pobre Rosa e o neto, começara a arrepelar-se e a sacudir com frequência a cabeça, como se esta lhe ardesse por dentro e por fora e estivesse ele próprio a ser devorado pelas chamas. Remexia-se na cadeira, acolchoada, segundo parecia, a bichos-carpinteiros capazes de lhe influenciarem os mais pequenos movimentos. Domingos aparentava ser um daqueles cinéfilos que se colocam na pele das personagens, indo talvez, nesse calçar de sapatos, ao descalabro psicológico de sentir a dor do outro por auto-sugestão. Desde logo, imaginando-se na pira onde o povo da aldeia, naqueles momentos de raiva, gostaria certamente de ver Telmo, se soubesse que tinha sido ele a atear o fogo ao acampamento por causa de um mísero grama de cocaína que Inácio se recusara a vender-lhe fiado.
          Fausto, percebendo a comoção do amigo, perguntou-lhe:
          -Queres que páre o filme?
          -Não. Estou com curiosidade de saber o que vai acontecer daqui para a frente. Ainda há dois casamentos marcados e três funerais, que ninguém sabe quando poderão ser feitos. Este filme é uma verdadeira tragédia. Podias ter escolhido uma história de amor – disse sorrindo para disfarçar. Sobretudo para descontrair.
           -É para tu veres o que um simples isqueiro pode provocar. Além das vidas perdidas, já deve haver uns milhares de euros de prejuízo só em madeiras. Muita daquela gente vivia da floresta. E agora, em vez do dinheiro, de que comeriam um ano inteiro, só têm árvores mortas de pé como fantasmas e tudo em cinza.
           -Será que o aviário também ardeu?
          -Não sei. Pode ser que tenha acontecido um milagre que haja poupado a vida dos frangos e das galinhas. Às vezes os santos capricham em surpresas – acrescentou Fausto enquanto soltava uma gargalhada, secundada por Domingos no meio da sua ansiedade. Estava cheio de sede.
           -O que é que tu pensas do que se diz quanto às causas dos incêndios?
           -Neste caso, por opção  do argumentista, sabemos que a motivação do Telmo foi um puro acto de vingança contra o cigano, tendo como impulsionador principal Marisa, a ex-namorada, num caso típico de frustração e inveja. Mas todos têm razão. Há muitos interesses económicos que se movimentam bem no meio das labaredas. A mecha incendiária é uma realidade. Digo-to eu, que um dia encontrei uma numa mata dos arredores do Porto.
          O banqueiro Mateus Rosa e a mulher, que já antes haviam assistido a uma pequena tira de filme, andavam por ali de novo, indecisos quanto ao retomarem ou não lugar na assistência. Fausto, ao vê-los, e antes de eles se aproximarem mais, disse para Domingos, com alguma dissimulação a fim de não ser ouvido pelos visados:
          -Aqui tens uma boa história protagonizada por estes dois…Não são bem de amor, mas dá para desenrascar…
          -Então deve ser de sexo…
           -E de dinheiro. Sendo ele banqueiro, dinheiro é o que não falta. Quando chegaram, ficaram os dois em quartos separados. Mas agora ela passa a vida metida na cama dele, e então tudo lá dentro range e geme. Incluindo eles… - disse com ironia e um sorriso, resguardado por uma mão discreta como se fosse um biombo japonês.
            -Com pagamento no fim, então…
           -Claro. Não sendo eu, enquanto hoteleiro, nenhum santo quando se trata do pagamento de impostos, os banqueiros levam a Palma de Ouro de Cannes e todos os Óscares de Hollywood. Pagam um rio de massa aos amigos, que subornam só para não pagarem ao fisco. Desde logo, segundo o que se diz por aí à boca pequena, na Assembleia da República, onde se fazem leis à medida. Depois sobra-lhes imenso pilim para tudo e mais alguma coisa. Inclusive para adornarem as mulheres de jóias e de raposas. As próprias e as outras. É claro que ficam todos presos na mesma teia. Mas isso não lhes causa mossa nenhuma. Salvo uns pequenos entorses que o tempo varre logo da memória. Uns seguram os outros como pensos rápidos e sempre disponíveis. Até alguém pegar fogo à casa. Mesmo assim, não lhes acontece nada. Só se for no Inferno - e riu dissimuladamente.  
           -O que tu sabes Fausto. És uma autêntica enciclopédia dos costumes – observou Domingos, rindo de igual modo, enquanto despegava por momentos os olhos da tela, onde as labaredas eram mais resistes do que o sol, que mal iluminando a terra, tinha sido capaz de se encolher sobre si como um novelo ao mais pequeno sinal de fumo.
            -Nunca ouviste dizer que o Diabo sabe muito porque é velho? – pergunta Fausto, com um mais ou menos velhaco  brilho nos olhos.
          -Já, claro que ouvi.
          -Ora então…
           Mateus Rosa aproximou-se. Fausto, para dar algum descanso à sensibilidade e à osmose cinematográfica do amigo, estendeu o sensor do comando para o enorme televisor, parando por momentos o filme. Até Domingos ganhar um novo fôlego que lhe permitisse ver o final sem desmaios. E, com alguns trejeitos de politicamente correcto, convidou os dois hóspedes a assistir ao resto do filme. No fim, talvez também a uma mesa redonda que uma película tão polémica seria bem capaz de desencadear. O enredo estaria agora no auge. Pela frente haveria mais ou menos uma hora. O tempo suficiente para, ao ritmo da cinematografia, serem celebrados dois casamentos e três funerais, entre outros eventos dignos de figurar na história de “O Rapaz do Isqueiro Assassino”. Além de que a polícia ainda tinha de descobrir que Telmo havia sido o anti-herói da noite, alguém que, num Western americano de John Ford ou de Clint Eastwood, ficaria desde essa hora com a cabeça a prémio.
           Depois de os dois novos espectadores se juntarem à sessão, sentando-se no anfiteatro como dois números primos, a mulher do lado esquerdo de Fausto, este introduz a questão aparentando neutralidade. Um mero Advogado do Diabo, destinado a pôr à prova a consistência das testemunhas e de qualquer outro género de prova:
            -O filme chama-se “O rapaz do Isqueiro Assassino” – disse virando-se para  a ponta esquerda da fila, para Mateus Rosa -. Trata-se de um jovem que, de noite, deitou fogo a um acampamento de ciganos, onde morreu uma criança de quatro anos. A seguir, o braseiro alastrou até uma aldeia e, depois de deixar um rasto de destruição, matou ainda uma idosa e o neto. A prioridade, de momento, é encaminhar os três corpos para a morgue. Entretanto, anda toda a gente empenhada em tentar saber quem ou qual  foi o rastilho da tragédia, o nome de baptismo e o número dos sapatos. Com o país a arder, os políticos e toda a gente com responsabilidades acusam-se uns aos outros, sem saberem o que fazer para combater e evitar tanto incêndio. Agora, o que está em discussão são os chamados interesses económicos escondidos atrás dos fogos. Qual é a sua opinião sobre o assunto, caro Mateus Rosa?
            -É bem possível que os haja – diz o homem, inclinado para a frente de modo a poder a ver o rosto do hoteleiro, igualmente inclinado e colocando-se na mira um do outro.
            Tratava-se de um sujeito magro, ainda com bastante cabelo, nariz afiado, boca fina, de cerca de setenta anos. Tinha, além de tudo, um ar de leopardo astuto e controlador. A sua relação com o dinheiro era de chefe de matilha velho, já quase incapaz de comer a presa em consequência de doença crónica, mas, mesmo assim, abocanhando-a só pelo prazer de manter os elementos sob as suas velhas patas. A mulher parecia uma abrilhantadora de festas privativas, daquelas que despiriam o rei deixando-o nu como viera ao mundo no meio de uma teia de chantagem. Nu e sem dinheiro. Ou, pelo menos, aparentemente sem dinheiro, depois de este se ter escapulido sem rasto, como rezaria qualquer história secreta  do mundo financeiro, em qualquer parte do globo onde a peste financeira tivesse atacado a economia. A loura, sua companheira de há alguns dias, teria os seus trinta e cinco anos e ar de rapariga de revista que vende moda em anúncios. De olhos verdes, alta e atraente, o sorriso exagerado, a maior parte das vezes teatral, era o seu porta-estandarte. De qualquer modo, bem diferente do felino com quem dormia no hotel, parecia dedicar-se menos a tecer opiniões do que a fazer contas a milhões, naquela sua sociedade com um banqueiro velho e agora com pouco prestígio, mas a quem esperava, apesar disso, rapar mais um pouco a panela.
            E, assim, o homem continuou:  
            -Aliás, eu acredito que os haja. O poder político, comparado com o poder do dinheiro, é um anãozinho nas mãos de um gigante. Um anãozinho que não tem, nem a seriedade, nem a destreza do bíblico David. Assim, haverá com certeza uma série de Golias a tentar enganar a fisga, em que  já nem sequer deve haver pedrinha. Os grupos económicos têm uma força terrível. Por isso se unem para formar uma barreira que nem a dinamite destrói.
           -O que acaba de dizer, vindo de um banqueiro, é de levar em conta…
            -Claro que sim. Desde que o mundo é mundo, um sempre cedeu ao outro. A política não passa de uma mulher da má vida que se deita ao menor pretexto debaixo do dinheiro.
          -Prostituição, então.
           -Congénita. E vírus, que se reproduz à força do hábito e de imitação. Ninguém quer ficar atrás de ninguém, a ver o espectáculo da riqueza passar-lhes à frente. Daí que fervilhem, numa cabeça mais do eu na outra, formas engenhosas de chegar a ela. Enquanto o dinheiro for a roda do mundo nada mudará – acrescenta o homem, como se estivesse a filosofar perante uma plateia de economistas com uma boa dose de idealismo que pretendesse deitar por terra.
           -E a senhora pensa o quê disto? – perguntou Fausto à mulher, a seu lado.
          -A Rita não tem opinião formada sobre assuntos tão complexos – soltou um risinho melífluo, que colocava a amiga no mesmo colchão ensebado onde a política faria as suas orgias. E ela, sorridente, engoliu em seco, enquanto faria provavelmente contas ao que aquela sociedade entre uma mulher jovem e bonita e um banqueiro, com idade para ser seu pai, quase avô, a iria ainda fazer lucrar. Além de tudo, tendo a cama como escritório.
          -Desculpe. A senhora estava tão calada… Só quis fazê-la participar na conversa…
          -Não faz mal - respondeu ela com um sorriso que dizia quase tudo.
          Entretanto, Mateus Rosa continuava:
          -Os capitalistas sempre ajustaram os seus argumentos de forma a eles caberem na ideia de que o grande motor da economia era o capital de per si. Sem eles, não haveria emprego, nem empreendimento, nem progresso. Contudo, sempre foram uns privilegiados. São tratados como flores de cheiro pelo fisco. Este não se arrisca nem sequer à sua chantagem. Quanto ao emprego, é o que se sabe. Sempre, até hoje, pagaram ordenados de fome. Cada vez mais. Se o Estado estiver atido aos capitalistas para a criação de emprego, bem lhes pode tributar até os dentes, indo além do tutano. Dali não escorreram grandes pingas de riqueza para o país. É só pegar nos papéis dos paraísos fiscais para se perceber o que acabo de dizer.
          -Tu lá saberás do que falas – pensou Domingos, que, sentado à direita do amigo como um deus falido, olhou a seguir a rapariga, sentada por sua vez do lado esquerdo de Fausto com uma mini-saia generosa. Um chorrilho de pensamentos sobre ela atravancou-lhe a mente em desordem e sem qualquer romantismo: “Mal empregada num velho, Nunca se sabe se hoje não vais dormir na suite número quarto do chalé, Comigo, És melhor do que a Orlanda, a esfaqueadora, Quem me dera que Fausto e este banqueiro sabido fossem discutir a política dos incêndios e a do dinheiro para outro lado, Para o penhasco, Aí não seriam incomodados por ninguém, Talvez só não se livrassem dos guinchos dos morcegos a amedrontar a própria noite, Aquilo agora deve ser um Inferno, Se calhar também lá há vampiros, que são da mesma família dos morcegos, Só que os vampiros chupam sangue”. – E levou a mão ao pescoço.
          -Antes de continuarmos, talvez possamos tomar uma bebida. Por conta do hotel – ofereceu Fausto.
          E o barman, a seguir, serviu um whisky gelado a cada um. Se muito bem calhasse, assim o drama da tela, suavizado a pequenos goles de álcool a escorrerem por gargantas sequiosas, deixaria de ter, daí para a frente e até ao final, em Domingos o efeito osmose que o rapaz havia experimentado ao imaginar o sofrimento de três pessoas reduzidas a cadáver pelas labaredas da aldeia do Eito.

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Maio 12, 2020, 12:42:03
O que é uma mini saia generosa? De pano ou de falta dele?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 12, 2020, 14:30:34
Uma mini saia generosa é a que mostra muito e com muita generosidade.

E agora a continuação

                                                                                27

          Desde que fora dado alarme de incêndio, a noite, embora nada tivesse de tranquila, ainda assim, levou a maioria dos membros da família de Telmo a pensar que o fogo teria uma muito remota hipótese de lhes abocanhar os calcanhares. Talvez, com o firme propósito de os poupar, as labaredas metessem o pé unicamente pelo caminho de terceiros, mais à mão na rota do inimigo. Daí terem feito os possíveis por conciliar e se reconciliar com o sono. Sobretudo nos intervalos dos gritos, intensificados mal Cármen e Inácio se aperceberam de que Manolito não viera com eles na carrinha. Luciano e Sérgio haviam chegado da festa da Barrinha, sãos e salvos alta madrugada, contornando, no seu cavalo de rodas, as línguas de fogo que arqueavam as várias estradas por onde tiveram de passar. Nessa altura, já os pobres ciganos estavam acantonados na praça da igreja, no meio de uma desolação ampliada com o passar do tempo como nevoeiro esvoaçante numa manhã de inverno. Contudo, ao chegarem onde haviam desaguado os pobres ciganos, os rapazes, depois de perceberem que pouco poderiam fazer, montaram as suas motas e foram para casa a fim de fazerem o que já precisavam há muito, descansar. Guardaram a seguir os veículos na garagem. E, já na cama,  não demorou mais do que um bocejo até os dois estudantes pré-universitários caírem de maduros no sono, dois tordos mortos pelo tiro de uma espingarda certeira após um dia festivo à beira-mar.
           No largo, algumas pessoas, sem o saberem ainda,  eram forçadas a comer de um  banquete de crimes,  servido pelo irmão a uma aldeia em peso, mais venenoso do que um prato de salmonelas.
          Paula, a irmã, chegara antes da meia-noite, com o namorado que a fizera apear de uma mota semelhante à dos irmãos e da maioria dos rapazes da terra. Estava de férias da Universidade da Beira Interior, onde passara os últimos dois anos. Desde o seu ingresso no curso de Química Medicinal, aí se esforçava por merecer uma Bolsa de Estudo, ricocheteando para o Estado, que lha atribuíra cada vez mais magra, um bom aproveitamento, conseguido a um meticuloso queimar de pestanas diário. E com isso deixava os pais contentes, depois do desembolsar destes, em cada ano, de mais alguns euros, para um dia, talvez não muito distante, verem a filha abalar para o estrangeiro com um canudo na algibeira recheado de boas notas e as melhores recomendações para com os destinatários da ciência da rapariga e uma nota positiva para Portugal que a formara na universidade. Talvez por isso, já aguardar o destino fora de portas, Paula não se tivesse aventurado a sair de casa. Assustara-se só com o olhar ao longe, através das janelas, as chamas que o mesmo  longe lhe devolveu com a vaga promessa de nunca se atreverem a bater-lhes à porta.
          O pai, Abel, apesar de gozar as férias da fábrica de motas, a seguir ao primeiro toque de sino que o impulsionou com Susete cama fora até à praça, regressou  também a casa na mesma companhia com que saíra dela, a mulher. Daí a nada, tal como se estivesse a cumprir o horário laboral do resto do ano, teria de a levar até à empresa de lacticínios, à secção de encomendas, que ela preparava para a expedição no ambiente frio dos produtos. Era uma rotina de há mais de vinte anos. As duas empresas ficavam no encalço uma da outra. Eram boas vizinhas que não tinham razões para temer a concorrência. Susete não conseguira encaixar o tempo das suas férias na moldura temporal que fora imposta ao marido. O único período em que havia coincidência, oito dias, seria daí a pouco mais de uma semana, por alturas das festas da aldeia e do concelho, quando os emigrantes estivessem prestes a abalar e o verão desse o primeiro sinal de aproximação do outono.
          Susete teria, naquela segunda-feira de Agosto, uma encomenda específica para satisfazer. Era o levantamento no multibanco mais próximo dos quarenta euros de que o filho mais velho precisava para se ver livre de um empréstimo. Provavelmente agiota como a maioria dos empréstimos a que o filho recorreria. O rapaz teria devolver o dinheiro ao amigo, depois do furto que o pobrezinho sofrera na festa da Barrinha, num domingo à tarde em que o feitiço se virara contra o feiticeiro. Pelo menos fora isso que ele lhe disse e ela acreditara, ou fingira acreditar.
           Passava um bocado das oito horas da manhã. Apesar de terem dormido pouco, os dois rapazes mais novos, mal sentiram as sirenes dos bombeiros a cortar o fio do ar embaciado, chisparam da cama até à praça, obrigando-se a ajudar no combate ao inimigo como dois bons cidadãos. Aí se inteiraram dos pormenores da morte de Ana Rosa, Diogo e de Manolito, experimentando o mesmo sentimento de pesar que descera sobre todos como uma lápide fúnebre. Seguiram depois para o local da peleja, vestidos o mais adequadamente possível e segundo elementares normas de segurança: calças e camisa de ganga, de manga comprida, sapatilhas, um gorro de asas na cabeça e uns velhos óculos de sol para servirem de barreira a fagulhas que andassem por ali a dançar em mais um baile negro.

                                                                                                        28

           Já na urgência do Hospital Infante D. Pedro, identificado à entrada por letras garrafais, o movimento era desusado para uma segunda-feira àquela hora da manhã.
          O tempo apresentava-se relativamente convidativo a uma ida à praia da Barra, ou da Costa Nova. O sol, embora se projectasse lá de cima sem ter à frente uma barreira intransponível de invernosas nuvens, encontrava-se, apesar disso, impedido de brilhar em todo o seu esplendor. Em baixo, a terra amochava sob um terrível manto fumado que a impedia, a ela de ver o sol e ao sol de a ver a ela. Pelo menos com nitidez. E o fumo era, afinal, a causa de tanta afluência aos serviços hospitalares dessa manhã intoxicante. Sobretudo de doentes asmáticos e insuficientes crónicos, impedidos de respirarem um ar minimamente saudável que os protocolos param as mudanças climáticas e a respectiva ratificação pelos países iam aconselhando. Num crescendo de doenças alérgicas nos últimos tempos, quem já havia sofrido a sua dose anual de agressão  dos pólenes via-se de novo confrontado com mais um ataque. Tão ou mais grave do que o primeiro. Mas, desta vez, em lugar de serem desencadeadas pela natureza irreverente das flores e do ciclo das estações, as invasivas tinham origem na grande praga dos Verões de todos os anos, desde há mais de trinta. Depois de uma semana a fustigar a terra com protões e neutrões envenenados, era rara a garganta que não estivesse assoreada com o mortífero gás. E era por isso que não se via na urgência o rasto de um acidente rodoviário, uma maca com alguém entubado despejado à entrada e enviado a grande velocidade com o código vermelho, entre a vida e a morte, para uma sala de operações. Em vez disso, a aguardar as mãos miraculosas de um médico e de um remédio salvador, o que se mais se ouvia na sala de espera era uma orquestra de tocadores de trombone  com pulseira amarela, a tossir descontroladamente e com o nariz e a garganta encharcados de geleia negra.
          Dulce de um lado, o vizinho que os transportara ao hospital, de outro, e Leandro no meio, amparado por ambos, mal puseram os pés fora do carro, ao dirigirem-se ao guiché de admissões, cruzaram-se com uma dessas pessoas a quem o fumo deixara o corpo como  se fosse uma fábrica de produtos químicos de que o enxofre fosse o protótipo. Era uma mulher de cerca de cinquenta anos, baixinha. Olhando-a de perto, podia-se vê-la a lacrimejar num pequeno caudal,  constantemente limpo a um lenço de papel  já bastante molhado. Simultaneamente, uma tosse insistente fazia-lhe dançar os ombros, antes de, num momento de acalmia, engolir o alcatrão que lhe arrolhava a garganta e lha deixava completamente encortiçada. À frente de Dulce e de Leandro,  na fila, a mulher não hesitou em ceder vez a Leandro, cujo caso lhe pareceu bem mais urgente do que a sua própria  garganta entupida pelo fumo. Com um pé descalço, no ar, acima do qual a perna esquerda, após lhe ter sido cortada a calça pelo joelho, mostrava uma queimadura com mau aspecto, não poderia fazer outra coisa senão deixar o pobre do homem passar à frente. Aquela era uma verdadeira urgência. Uma das que não se satisfariam com o som mais átono de “Centro de Saúde”. A palavra “Hospital” soava, naquelas circunstâncias, muito mais operadora de verdadeiros milagres como o que aquele paciente precisaria. Nem sempre possíveis, é certo, mas mais espectáveis do que numa casa confundível com outras casas no mesmo bairro. Para a carne viva da ferida ser tratada, o homem precisava mesmo do Hospital Infante D. Pedro e de todo do seu equipamento. Recursos humanos sobretudo, com um bom médico de queimados a fim de fazer, talvez, um remendo na lesão antes de a untar com uma boa pomada cicatrizante e carregada de antibióticos.
          Enquanto Leandro era levado numa maca, Dulce, logo a seguir, teve acesso às das coordenadas pessoais da outra mulher, ao mesmo tempo que esta indicava os dados  para o preenchimento da ficha de inscrição. Chamava-se Sandra e tinha um atelier de costura onde fazia arranjos de toda a espécie. Contou-lhe praticamente  toda a sua vida, enquanto falava das mazelas respiratórias depois de uma operação à tiróide que a deixara uma esponja permeável a toda a legião dos pólenes naquela  latitude em que vivia, Aveiro.
          Dulce tentara  entrar com Leandro, mas foi impedida pelo segurança. Assim,  teve de o deixar ir sem qualquer retaguarda. Psicológica sobretudo. E, antes de Sandra sumir na porta para ser atendida do lado de lá, com vestígios de lágrimas que ainda não conseguira estancar desde que a tragédia  da manhã fora conhecida, Dulce pediu-lhe para, no mínimo, alertar alguém caso o marido se fosse abaixo por causa de  qualquer uma das espécies de dor que levava consigo.
          -Hoje já sofreu demais, coitado – acrescentou, chorosa -. A mãe morreu-lhe nos braços, queimada num maldito incêndio. Um sobrinho, de cinco anos, teve a mesma sorte. Além de um ciganito a quem aconteceu o mesmo no acampamento que se vê da linha do comboio e onde terá começado o fogo.
           -Ah, Meu Deus, sinto muito. Os ciganos bem poderiam ter tido mais cuidados. O ano vai uma calamidade, muito seco e quente.
           -Pelo visto não foram eles a atear o fogo. Também serão vítimas.
           -Pois, quando assim é, toda a gente acaba por sofrer. Tenho um sobrinho que é bombeiro voluntário, o Miguel, e este ano não tem tido sossego. O rapaz tem o casamento marcado para este sábado e praticamente há três dias que não vai à cama.
           -Coitado. Vêem-se bombeiros exaustos por todo o lado. O inferno parece mesmo ter descido à terra com o propósito de ficar cá para sempre.
           -Esteja descansada. Nem que tenha de ligar à minha filha a perguntar-lhe o nome de uma médica, mãe de uma colega com quem estudou inglês, não vou abandonar o seu marido. Ele chama-se Leandro, não é?
           -É sim. Leandro Sousa. Eu sou Dulce. Muito obrigada. Somos emigrantes. Viemos de férias. Também íamos casar a nossa filha mais velha no próximo fim-de-semana – e as lágrimas saltaram-lhe de novo dos olhos, enquanto Sandra demorava a entrar para não deixar a outra sozinha a esvair-se em pranto sem um palavra de conforto antes de o condutor do carro que os tinha levado ao hospital chegara depois de ter estacionado.
          -O que eu puder fazer, esteja certa de que o farei – acrescentou Sandra no meio de mais um ataque de tosse. A atmosfera ficava cada vez mais pesada, e as suas partículas viajavam por todo o lado dissimuladas como minúsculos drones numa guerra de proporções atómicas.
          Quando, finalmente, a mulher transpôs a porta e se perdeu no pequeno labirinto da urgência, verificou que Leandro não se encontrava na sala  e que, provavelmente, já estaria a ser atendido.
          “Ainda bem, pensou, Que desgraça”, Aquilo tinha mau aspecto, O azar bateu-lhes à porta com mão de ferro, Se fosse eu cancelava o casamento, Mas já devem ter feito a despesa toda, Como poderiam os noivos ter um dia de festa na data da missa do sétimo dia, Não queria estar na pele deles, E a pobre criança, Ou melhor, as duas crianças, Se bem que às vezes os ciganos se morressem não faziam falta nenhuma, Bem me lembro do dia do casamento do meu primo Jorge, quando dei boleia a um cigano que depois vim a descobrir que era traficante, O perigo que eu corri se lhe desse para me meter apontar uma arma à cabeça e adeus, Mas, coitados, Coragem a todos para enfrentar os dias negros que têm pela frente, E ao homem, ao Leandro, Deus lhe dê saúde, Eu ao menos é só um ataque de tosse, Mas pobres dos bombeiros que se fartam de comer fumo, Horas e horas sem dormir, como o Miguel, O que um maldito incendiário pode causar, O Diabo o castigue na mesma medida, Não sou de rogar pragas, mas bem que este merecia ir para o Inferno no meio de labaredas como as que ateou, Que morram todos aqueles que se dedicam a fazer uma barbaridade como esta que me trouxe aqui com tosse e falta de ar como se fosse morrer a seguir”.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Maio 12, 2020, 15:01:37
Boa continuação. Obrigada pela resposta rsrsrs


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 14, 2020, 14:04:56
 Continuação...
                                                                        XXVIII
          -Outra praga de uma mulher, Domingos! – faz notar Fausto ao espectador do seu lado direito, como se quisesse avivar-lhe a ideia para uma espécie de corrente de intenções menos boas, e bem capazes de encher o Inferno de pessoas  através delas.
           -É verdade. Daqui a pouco passa a ser como uma oração dita a milhares de vozes. Dizem que as preces em conjunto têm mais força. E, como Telmo tem uma aldeia inteira a rogar-lhe na pele, por este andar, uma fagulha ainda se lhe infiltra no capacete da mota fazendo-o entrar em combustão como uma boneca de cera a pingar lágrimas por todos os poros. Bem o merecia! Já causou danos que cheguem!
           -São de temer as pragas das mulheres. Um dia conheci uma divorciada que, depois de ter ouvido de um homem uma enormidade, que a reduzia à condição de prostituta, não precisou de rogar a praga em voz alta para o Diabo a ouvir e fazer o servicinho. Bastou pensá-la. E eis que, daí a algum tempo, a maldição se cumpriu pelo requinte de um executor bem-mandado e eficiente.
          -E qual foi a praga?
           -“Havias de ter uma doença na língua que deixasses de falar”. Assim lhe  foi encomendado um cancro para lhe amaciar as palavras. Por defeito…
          Domingos riu, enquanto ironizava:
          -Que horror! Outro mudo na história?
          -A mulher até escrevia poesia. Naïf, à inglesa.
          -O que é isso?
          -Versos ingénuos, pastoris.
          -Mas que rica ingenuidade! Ou, então, as relações dela com o Demo eram fortes. De conselho de ministros para cima!
          Os outros espectadores nem se aperceberam do pequeno diálogo entre ambos. O filme decorria.

                                                                                   29

          As perguntas feitas pelo Dr. Pedro Alenquer a Leandro, mal dardejou o olhar sobre a carne viva da sua perna, um pouco acima da pala de um sapato, tinham em vista amenizar-lhe, sobretudo psicologicamente, a dor. Uma coisa que só a palavra de um médico poderia lograr.
          Que sobre a perna, pouco inchada, tinham estado brasas incandescentes por tempo excessivo era inequívoco. Por outro lado, de cara, mãos e roupas de ganga enfarruscadas, com as calças mutiladas de pirata pelo joelho, tudo dava a entender que o paciente estivera no cenário pouco amistoso de mais um incêndio.
          -Isto está mauzinho. Mas, apesar de tudo, teve sorte. Não me parece que os vasos sanguíneos tenham sido afectados. E muito menos qualquer nervo. Como é que fez este baixo-relevo? – perguntou o médico depois da primeira boa notícia, numa tentativa de criar  empatia com o quinto doente da manhã, abatido para lá do que a ferida o deveria ter deixado apesar de tudo.
          Leandro, até aí contido, deitado na maca onde o médico o observava, soltou a barreira das lágrimas engrossadas pelo silêncio até aí, rompendo-o num ímpeto. E, com palavras entrecortadas por soluços, repetiu o mesmo que Dulce havia dito à costureira do lado de fora. Entretanto, o pobre homem sentia uma das mãos do médico no ombro direito, como se este, através de um contacto mais estreito, quisesse ministrar-lhe uma injecção de coragem semelhante à que poderia aplicar-lhe para lhe diminuir as dores. Antes de lhe tratar da ferida, tinha de usar a sua faceta mais humana para lhe acalmar o coração. Tinha de reconfortar o paciente, ali na sua solidão de hospital que a maca tornava maior, enquanto lhe estendia um pedaço de papel para ele limpar o rosto alagado de suor e lágrimas.
          Depois, prosseguiu:
          -Sinto muito… Quem fizesse o mesmo ao bruto incendiário! – disse Pedro Alenquer, a meio termo entre o pesaroso e o indignado.
          Era um homem dos seus trinta anos, com a vida pela frente. Talvez não se tivesse ainda detido a pensar na dimensão sagrada da morte e no seu mistério para lá do último suspiro, a que ele já assistira algumas vezes. Partidário da ciência pela ciência, acreditava nela de per si, autónoma, sem o espírito universal de uma força divina por de trás das coisas e antes de tudo, uma entidade supra humana capaz de interferir na cura de um homem ou na sua intervenção para tirar a vida a outro. Quem sabe se, se ele fosse mais velho, por entre o bouquet de palavras com que tentava suavizar a mágoa de Leandro, não viesse, como um lírio triste perdido entre orquídeas, uma alusão, pequena que fosse, à vontade de Deus e aos seus desígnios superiores para o trágico fim de uma idosa e do seu neto na insensatez de um incêndio provocado deliberadamente. Mas, assim, desprovido desse veludo espiritual e avesso a justificações transcendentais para os nonsenses humanos, limitou-se a lamentar o sucedido, acrescentando-lhe o que lhe pareceu mais de acordo com as circunstâncias: o seu repúdio por essas criaturas, a quem a cabeça de um fósforo riscado, ou a chama de um isqueiro, atribuí um poder maquiavélico. E, talvez por não se escudarem atrás de um Deus, que às vezes parecia tão injusto, as palavras do médico, naquele momento, tivessem até mais força, com ele elevado agora, na sua função de curar, à mesma condição suprema de Deus.
           -Tentei salvá-los, mas fui tarde demais – acrescentou Leandro –. A minha mãe, com a roupa a ser devorada pelas chamas, caiu sobre o neto, o filho da minha irmã mais nova, mesmo na boca do fogo. Morreram os dois carbonizados – e chorava como uma criança, ao mesmo tempo que rememorava o sucedido, doloroso em cada evocação como no primeiro instante.
          -Duas pessoas? Meu Deus! Nem imagino o que todos devem estar a sentir – replicou o médico, num crescendo indignação -. E não há maneira de acabar com esta praga nacional, que se abate todos os anos sobre o país com milhões de prejuízos e muitas vidas perdidas. Com uma economia tão débil, sem dinheiro para mandar tocar um cego, não admira que toda a gente nos queira pôr o pé em cima como se fossemos os sapos da União Europeia.
          -Não foram só elas. Há mais um ciganito morto no acampamento que se vê da linha do comboio. Ele foi até o primeiro. Terá sido lá que o fogo começou, segundo os ciganos dizem.
          -Que fatalidade. Mas foram eles que o atearam? Com o calor destes últimos tempos, mesmo à noite, não é difícil um descuido tomar proporções catastróficas.
          -Segundo dizem, os ciganos não têm culpa. Terão sido as suas inimizades a desencadeá-lo…
          -Talvez como vingança…Às vezes eles metem-se em coisas perigosas e depois acontecem tragédias.
          -Mas a minha mãe e o meu sobrinho é que não tinham nada que ser apanhadas no fogo cruzado de guerrilhas de negócios escuros – continuava Leandro no meio de lágrimas, procurando engoli-las para se expressar a seguir com clareza –. Tenho duas filhas. A mais velha iria casar cá, no próximo sábado. Com isto tudo não sei o que fazer. Ainda não tive tempo de falar com ela. Daqui a pouco tenho de ligar para França. Eles deveriam chegar na quarta-feira, depois de amanhã. Mas vamos ter que adiar, com certeza. Depois de tudo, não há vontade para festas... Só apetece morrer no meio da nossa impotência… E chorava convulsivamente.
           -Não pense nisso, meu amigo. Tão novo ainda, terá com certeza ainda muitas coisas pela frente. Os netos serão uma delas. E acho que fará bem. Não deve deixar que o casamento da sua filha fique ligado a um acontecimento desta natureza.
          -Mas o pior são os convidados…
          -A sua filha acima de tudo! Ela não deveria gostar que o seu casamento fosse sempre associado a uma tragédia assim. Apesar de, de algum modo o ficar. Se fosse eu não quereria vê-lo assombrado por uma memória do género – opinava convicto o médico enquanto prosseguia com minúcia o tratamento da ferida, que o fogo deixara na perna do paciente como uma marca que, apesar de não ser muito profunda, seria contudo perpétua.
          E, depois de alguns minutos de conforto no meio do tratamento, Leandro estava pronto a regressar ao cenário que deixara para tratar da perna, e que, desde essa manhã, passara a ser uma espécie de teatro maldito de onde os fantasmas nunca mais sairiam.


Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Maio 19, 2020, 12:26:16
Perdiz com arroz também comia. O meu avô que era caçador fazia a maldade de as apanhar. A minha avó fazia a bondade de as cozinhar. E bem. Vamos entrar, o petisco está pronto.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 19, 2020, 14:34:16
                                                                                     30

          A velha Madalena, vizinha de Telmo porta com porta, cerca das nove horas da manhã, estivera na praça durante mais de meia hora, depois de, ao fundo do quintal, ter dado de comer às galinhas e aos coelhos. Algo trôpega e amparada à bengala sua parceira de há tempos, fora por diversas vezes ao café de Celeste inteirar-se das últimas desgraças, enquanto derramava uma lágrima ou outra pela tragédia. Após o reboliço inicial, de madrugada, andara dentro e fora, à medida que se iam espalhando as más notícias, as vítimas a aumentar enquanto o dia acompanhava o relógio e se percebia que todos haviam perdido alguma coisa: uma horta, um pomar de macieiras, ou uns pinheiros carregados de pinhas para acender a lareira de inverno.
          Foi quando ela saiu de casa mais uma vez que o dono do Aviário veio até ao largo da igreja dar a conhecer a perda de uns milhares de frangos da exploração durante a passagem do fogo. E, já no interior do café, no meio de uma água fresca com que tentava matar a sede de mais um dia que se adivinhava quente, referiu-se de novo ao assunto. A paleta de cores no exterior continuava a ser composta por ciganos de diversas idades sem eira nem beira, que intercalavam os seus lamentos com algum silêncio.
          -Fiquei sem nada. Quatro pessoas sem trabalho. Já não tenho idade nem coragem para recomeçar. Nem eu, nem a minha mulher – dizia o dono do aviário para os seus interlocutores, entre o irado e o indiferente -. E o futuro dos meus filhos não passa pelos frangos. Quando pude chegar perto, era um cheiro arrepiante a carne queimada. Um novelo de penas imenso estava sobre si num tição. O cheiro a carvão dava cabo da garganta a quem estivesse por perto. Os bichos deviam ter feito um alarido tremendo. Embora tivessem, de certeza morrido, quase todos à uma.
          -Deixa lá, João. Eram só umas aves. Estás vivo – acrescentou a velhota, sentada na mesma mesa onde estava o presidente da junta, com Celeste a fazer de contraponto –. Coitado de quem morreu. A pobre Ana Rosa, o neto e o ciganito, para quem não haverá mais oportunidades. Só se for no outro mundo, que não sei se o há ou não, quando este às vezes é um carrasco para nós.
          -É verdade – concordou António Pinto, depois de vir, cansado e em câmara lenta, do lado do fogo, tomar um café e beber umas águas redentoras com o mais recente prejudicado pela fúria do fogo que se conhecia. – Se agora te falta a coragem, há-de haver um dia em que deitarás mãos à obra. És ainda muito novo para a reforma. É preciso dar tempo ao tempo, sarar a esperança ferida enquanto arrefecem as brasas.
          -Não, amigos1 – respondeu o homem, levando a mão à cabeça, abatido e cabisbaixo pelo cerco que a tragédia montara a uma pacata aldeia –. A patroa também não quer. O que já tenho chega. O meu rapaz mais velho já está arrumado e já não regressará de Espanha. Para o outro também há-de chegar.
          -Pois. Por aí tens razão - disse a velha Madalena, na mesa onde os quatro desembainhavam mais uma conversa sobre o assunto do dia, que tantas sequelas deixara à mostra.
          -O que mais me custa é não envelhecer rodeado de netos. Nesta terra, os velhos levarão para a sepultura a chave das portas onde um dia habitou gente, a quem foi negado um futuro entre os seus. Sendo a minha nora espanhola e estando os dois estabelecidos em Madrid, já não voltam.
          -Acredito – anuiu o autarca –. Dizem que aquilo lá é mais civilizado. Pelo menos não arde tanto como aqui. Parece que, deste lado, anda uma quadrilha de malfeitores apostada em incinerar o país como se fosse uma casa de bruxas numa  fogueira à roda de um caldeirão.
          -E o mais novo só lhe falta um ano para acabar Biologia. Não tendo aqui futuro, terá de ir igualmente para fora.
          -Ainda não o vi por cá – realçou a proprietária do café, quase como numa crítica pela ausência do moço, quando os pais, mais do que nunca, precisariam do seu auxílio para, a seguir, solidários e em família,  apanharem os cartuchos vazios depois da passagem da última labareda. Era o que todos tentavam fazer, o levantamento dos prejuízos, a fim de avaliarem o que, daí em diante, poderia ser feito, ou não. Um recomeço, pelos vistos estava fora de questão para o dono dos frangos.
          -Foi passar uns dias com o irmão. Vêm todos para a festa da padroeira, para o final da outra semana.
          -Bem me parecia – acrescentou ela -. Há dias que não vejo nem sequer a mota no largo. Não tem vindo aqui.
          -Vêm depois do meio do mês.. Vêm todos.
          -E que festa!... – murmurou numa ironia triste a dona Celeste, enquanto levantava a louça da mesa e se dirigia, atrás do balcão, para o resto das suas tarefas - Uma festa que terá lugar semana e meia depois da morte de três pessoas antes da sua hora...
          -Nunca se viu coisa assim – concordou António Pinto. O diabo tem andado por aí à solta. Desta vez escolheu-nos para se empanturrar à nossa custa.
          -A propósito: já pensou no problema que tem entre mãos?- perguntou Celeste, já de regresso à mesa com mais uma garrafa de água para o cliente e amigo.
          -Qual deles? Tenho tantos neste momento, que não sei para onde me virar!
          -Ora, o alojamento dos ciganos – respondeu a mulher, enviesando o olhar para a rua através da janela, onde a maioria dos desalojados deambulava, olhando, com ar desconfiado, para tudo e todos, com o medo do desconhecido estampado na cara. Sobretudo as crianças. Estavam, mais do que nunca, inadaptadas ao inóspito habitat que haviam sido obrigados a ocupar no meio da noite, apesar de o acampamento, em que talvez tivessem sido felizes, não passasse de uma espelunca a que sempre se houvessem atrevido a chamar casa.
          -Já pensei, sim. Mas ainda não tenho a solução. Foi a minha mulher que, enquanto recolhia uns farrapos para eles vestirem do fundo das gavetas, me chamou a atenção.
          -E deu-lhe alguma ideia? – perguntou o dono do aviário morto.
          -Para falar verdade, falámos aí uma coisa ou duas. Já telefonei ao Padre Fernandes. Eles já tinham há muito pedido  casa à câmara, mas a câmara já vendeu há muito aos moradores a habitação social. Não dispõe de uma única unidade.
          Em como os ciganos não poderiam ficar ali ao relento, nem poderiam assumir de novo a sua condição de nómadas de outros séculos, todos concordaram.


                                                                                       XXIX

          -Vai agora começar o jogo do empurra e de argumentos contra os desgraçados irem morar para a aldeia. Não deve haver por ali ninguém que queira ter ciganos como vizinhos, conhecendo-se , como se conhece, o espectáculo degradante montado por eles em qualquer sítio onde se instalem – disse o banqueiro Mateus, habituado a um conforto capitalista desde pequeno, que o levaria a comprar um terreno na Lua só para não respirar o mesmo ar dos pés descalços que haviam sido enxotados da mata pela chama de um isqueiro.
          -Tem razão. E o que terá passado pela cabeça ao presidente da junta para ter telefonado ao padre? – Será que os vai albergar na igreja? – deixou Fausto no ar a interrogação, enquanto as quatro personagens, na tela, prosseguiam a sua saga, tendo como pano de fundo uma cortina de fumo que os impedia de ver as labaredas a lamber a floresta mais ao longe.
          -É melhor arranjarem mesmo uma solução, antes de eles ocuparem uma casa desabitada ali por perto. Em bom estado, ou em ruínas. Há tantas por todo o lado, acrescentou o banqueiro. E depois seria um castigo para os donos os porem de lá para fora. Até mesmo quando, mesmo legalmente, terceiros vão habitar uma casa que não lhes pertence, arrendada ou emprestada, é como se os donos lhe estivessem a dizer adeus para sempre. Há rendas com mais de cinquenta anos e de preços irrisórios. Casas onde o proprietário não pode, por lei, pôr os pés no interior. Ainda que saiba que aquilo por dentro está transformado num cortiço. As acções em Tribunal, com dilações umas atrás das ouras e por tudo e por nada, garantem muito pouco – continuou Mateus Rosa.
          -E o património das cidades está de facto numa grande ruína – concordou Fausto.
          -É verdade. O problema vem muito de trás. Já tem mais de cem anos. Com o congelamento das rendas, os proprietários especulavam nos preços aquando da celebração de um novo contrato. Era a maneira de fazer face a alguma inflação. É certo que nesse tempo ela era pouca. Mas se o Estado tivesse feito uma lei que obrigasse à criação de um fundo financeiro onde todos os imóveis arrendados estivessem inscritos e em que uma parte da renda recebida fosse destinada à conservação desse património vá que não vá! Não aconteceu nada disso e o resultado foi a degradação dos imóveis. Ficando todo o dinheiro nas mãos dos particulares, depois de pagos os impostos, o restante foi para gastar. Ou então os governantes pensaram que a economia ficaria para sempre estagnada como uma poça de água choca e que a inflacção não reduzia o dinheiro a patacos com pouco valor como aconteceu em mais de cem anos. Então depois da entrada do euro, meu amigo, nem lhe conto!
          Domingos e Rita, permaneciam alheados da conversa de Fausto com Mateus Rosa. E para os dois não terem de se inclinar a fim de se verem um ao outro, esta sugeriu a mudança de lugares.
          -Não é necessário. Isto foi só um comentário a propósito do problema que o presidente da junta, e talvez o da câmara, têm em mãos com os ciganos na rua – disse ele antes de se calar.

Continua

PS. Obrigada Nação Valente por me abrir a porta Antigamente os users comentavam mais. Agora é preciso, de vez em quando pedir. Sob pena de o romance ficar inacabado neste mundo virtual.





Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Maio 21, 2020, 19:26:24
Disponível para abrir portas, fazer pontes...estes Domingos e Rita...uff, ali há coisa...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 23, 2020, 22:41:38
                                                                                                 31

          -Não me digam que os vão meter no Centro Paroquial nas instalações, dos escuteiros? Eles têm-nas dividido em casulos. Uma verdadeira colmeia para aconchegar as alcateias com os seus lobitos, escoteiros e exploradores. Os miúdos não iriam gostar nada!...– alertou a dona do café, de sobrolho franzido e demostrando a sua discordância pessoal.
          -Tens razão, Celeste – acrescentou a velha Madalena -. Ficaria tudo remexido e sujo.
          -Mas, ao menos para já, haverá outra solução? – perguntou o presidente da junta.
          -Se calhar até há – acrescentou João dos frangos mortos, como um ilusionista ciente da sua capacidade de tirar um pombo da cartola apesar da desolação pela perda sofrida.
          -E qual é, indagou o presidente?
          -Vão rir-se. Mas se pensarem bem, está aí há anos uma casa à venda a que ninguém pega. É bastante grande. E se calhar os donos nem se importariam de a emprestar para lá meterem os ciganos. Pelo menos durante algum tempo.
          -Não digas que estás a pensar na casa assombrada, João!? – Exclamou a velhota com espanto.
         -E porque não? – perguntou o homem.


                                                                                XXX

          -Só cá faltava essa, o outro mundo a entrar em acção como mais um actor mirabolante. Vocês têm razão. Os pobres dos ciganos Já estão a ser enxotados como cães. Até os querem mandar para um lugar mal frequentado, se pensarmos que as almas penadas, ainda que pacíficas, nunca serão uma companhia agradável. Cheira-me que, além de um osso descarnado de que ainda não tomaram posse, o presente  venha ainda envenenado – disse Domingos para os cinéfilos ao seu lado.
          -Tem razão, caro amigo – concordou o banqueiro, inclinado de maneira a ter no seu ângulo de visão o rapaz.
          E Fausto, fazendo uma extensa caricatura do assunto, acrescentou:
          -Em qualquer terra do mundo que preze há sempre uma mansão de cujas paredes escorre assombração. Uma casa assim é realmente um bom palco para as personagens do além armarem barraca e fazerem das suas. A começar, talvez, por um frio árctico no meio da selva africana que resultou do incêndio, um piscar de luzes numa central eléctrica, umas bofetadas num cristão que lhe deixem na cara, desenhada a sangue, a mão demoníaca do invisível. No pior dos casos, uma faca a voar em ondas como uma águia de bico adunco para ir pousar, a seguir, com garbo e precisão, no peito de um inocente que o maligno tenha escolhido para vítima – disse antes da sua gargalhada estridente.
          -É isso mesmo. Mas, entre os casulos dos escuteiros, no centro Paroquial, e uma casa assombrada, esta hipótese tem, à partida, muito mais aliciantes – decidiu Mateus Rosa, a quem Rita, a mulher que o ajudava a engelhar a roupa da alcova no hotel e que permanecia calada, alisava a calça caqui que o homem envergava com pose de aristocrata –. Ver o Diabo entrar em acção pode provocar muita adrenalina a quem acreditar, nem que seja só um bocadinho, nele. No fundo todos acreditamos. Uma vida sem um ou outro apontamento desse reino seria demasiado monótona na sua regularidade lógica. O absurdo fascina sempre.
          -Então, vamos continuar a ver o jogo do empurra – disse Fausto para os presentes, cada vez mais interessado na trama.

                                                                                            32

          Descartada a possibilidade de Inácio e a família terem acesso a uma casa da câmara, a ninguém parecia viável que o acampamento viesse a transferir-se para um baldio, onde gente fugida de um fogo com uma parca roupa de dormir no corpo pudesse colocar umas latas com um toldo por cima na criação espontânea de mais um bairro de lata. Até por os pobres ciganos não terem um tostão furado no bolso para comprar uma enxerga, ainda que haja sempre uma lixeira com tudo e mais alguma coisa na sua vocação de hipermercado dos sem-abrigo.
          -Mas, qual é realmente a assombração da casa? – perguntou António Pinto, para ver até que ponto o seu conhecimento sobre os contornos metafísicos do caso coincidiam com as vozes do povo. Ao que julgava saber, era o fantasma de um padre a adornar mais uma lenda que fazia parte do imaginário da aldeia, dando assim um vasto contributo para a vertente mais sombria do bucolismo de uma aldeia.
          -Aqui a Senhora Madalena é que sabe, visto ser mais velha do que nós. Pelo visto, a história já é antiga – informou a dona do café, passando a responsabilidade da narração para terceiros insuspeitos como a velha mulher.
          -Ora, sei tanto como vós! A casa não era desta família, que a comprou por tuta e meia, depois de muito tempo em ruínas a seguir ao incêndio. O dono teria sido um padre de uma família rica, que, depois de terem sido roubados da igreja alguns santos, terá levado outros para casa a fim de os proteger dos ladrões. Lá, fez-lhe um altar, alumiou-os com uma lamparina de azeite. Na noite de vinte de quatro para vinte e cinco de Agosto, dia de S. Bartolomeu, não se sabe porquê, o altar terá pegado fogo, e o padre mais a velhota que lhe cuidava da casa e das batinas morreram queimados.
           -É mais ou menos o que eu sei… – disse António Pinto –. Só falta o pormenor do gato preto desconhecido, que, três dias antes, rondando em casa em correrias, terá miado como um desalmado e como se estivesse a adivinhar a tragédia.
          -É verdade – acrescentaram as duas mulheres –. É o que contam por aí.
          -Mas o pior foi o que veio a seguir – continuou a velha Madalena –. Quando a família vendeu a casa e os novos donos a reconstruiram, há mais de sessenta anos, deram-se conta de que aquilo por lá era estranho. As luzes acendiam e apagam-se sozinhas, as torneiras abriam-se do mesmo modo, ao ritmo de uma vida invisível e cheia de caprichos que deixava toda a gente com os cabelos em pé.
          -Podia ser avaria – fez notar o comerciante das aves calcinadas, com algum cepticismo sobres as habilidades do oculto.
          -Podia. O que não podia ser era as coisas estarem continuamente a desaparecer e serem depois encontradas em sítios estapafúrdios. A bíblia, que os novos donos tinham aberta no salmo cento e vinte e oito, todas as manhãs aparecia fechada. Houve quem visse o vulto do que parecia ser o tal padre, de batina e na adega, a abrir a torneira de um pequeno pipo de vinho que se via a correr sem deixar a seguir um vestígio no chão.
          -E o tal  salmo é para quê? – perguntou o incrédulo homem.
          -Para afastar o mal e vencer os inimigos.
          -Então o pobre homem deveria pensar que o estavam a expulsar de casa. Ou então que os novos donos é que eram os ladrões da igreja. Também me parece ter sido um bom bebedolas – brincou João, no meio da sua desgraça.
          -Não sei. Isto que vos conto foi o que sempre ouvi– disse seriamente a velha senhora.
          -Mas, antes morar numa casa assombrada do que não ter casa nenhuma. Além de que não acredito em nada disso – disse o homem num ímpeto de certeza inquestionável.
          -Não digas isso! – exclamou Madalena - Olha que o Diabo existe mesmo. Nesta altura anda bem por aí à solta!...
          -Certo, certo, é ninguém se atrever a meter lá o pé. A casa tem há mais de trinta anos o letreiro de venda à porta, já debotado pelas lágrimas do tempo, e ninguém a quer comprar pelos dez réis que pedem por ela – acrescentou António Pinto, a quem, em princípio e na sua condição de político número um da terra, incumbiria dar guarida aos recentes sem-abrigo, que viviam ao relento havia um bom par de horas.
          Madalena fez menção de se levantar para regressar a casa daí a pouco, enquanto todos alinhavam intimamente os prós e contras do albergue sugerido pelo comerciante como uma fatalidade inevitável:
          “Havia de ser bonito, treze pessoas, praticamente selvagens a viver numa casa com água e luz contadas em intermináveis rosários de meses e a terem de as pagar, Bem que lá cabiam, Para eles, seria um luxo como se estivessem no palácio de um conto das Mil e Uma Noites, de perna cruzada, reis atidos ao trabalho de escravos, Mas talvez os donos prefiram a casa habitada por fantasmas olheirentos, a voar sem pés e atravessando paredes, do que ver lá ciganos tisnados pelo sol de avós demasiado escuros para não serem confundidos com pretos, e para quem a faca e o garfo, de um lado e do outro do prato, será apenas uma inútil coincidência, Dariam cabo de tudo num instante, Não devia ficar um caco inteiro, numa guerra de pratos e contendas de insalubridade, E depois não levaria grande tempo até reclamarem por tudo e por nada, como se o mundo inteiro lhes devesse o céu e a terra numa mesma bandeja, Por a torneira pingar na insuportável tortura da gota de água, por causa de o esquentador dar o último suspiro surripiando a água quente, por as luzes se fundirem como cristais partidos pelos gritos de gente atreita a estardalhaços de língua, pela falta, na cavalariça, do feno para o Pepe. Enfim, queixas e exigências por tudo e por nada, Com ciganos ninguém faz farinha, Eles fazem o que querem como lhes dá na gana, Foi um castigo para os miúdos irem à escola, e nem sempre o faziam, A carrinha tinha diariamente de esperar e os garotos vinham como calhava, remelosos e despenteados, iguais a gatos sem dono, Cheios de piolhos, às vezes, a pegá-lo às outras crianças, E a Segurança Social nunca se atreveu a tirar-lhe os filhos, Era só o que nos faltava, termos estes vizinhos ao pé da porta, Depois ainda teria de ser a junta de freguesia a pagar aos proprietários as mesas e as cadeiras que eles haveriam de queimar à lareira, acesa, se muito bem calhasse, com as páginas da bíblia e de outros livros que tivessem ficado esquecidos na casa, depois, ou até antes, de queimados os calendários velhos e mirrados nas paredes após anos e anos de abandono, Até as batatas e as couves iriam lavar ao bidé, E o surro dos pés iria escanhoá-lo à entrada da porta, numa bacia da cozinha, Até haviam de atirar depois a água de rajada para a rua como na idade das trevas, antes desta coisa dos direitos humanos chamados à capa quando se trata de ciganos, E depois ainda se queixam que são discriminados, quando eles é que nos afastam com as baciadas da água e coisas do género, Raios partam os incêndios e os incendiários que nos deixaram com uma valente batata quente nas mãos” - dizia-se e pensava-se por todo o lado, deitando um olho, não no burro, porque ali só haviam um cavalo, e outro nos ciganos, olhando o perfil de cada um daqueles miúdos que se lhes pudesse porventura impor através da porta e da montra do estabelecimento que começara a sua vida útil como uma taberna.
          -Mas lá terá de ser. Ou na casa assombrada, ou noutra por assombrar. O que é preciso é tirá-los da rua o quanto antes – disse o presidente da junta, como se, através de uma boa solução para aquelas treze pessoas, vítimas e problemas simultaneamente, estivesse a jogar uma cartada politica antecipada que lhe garantisse o lugar nas próximas eleições autárquicas.
          -Oxalá os donos concordem. Não vejo outra solução – insistiu o mentor da ideia –. Mas, antes, parece-me que terão de os alojar por alguns dias nas instalações dos escuteiros. Assim o Padre Fernandes concorde.
          -E não terão os miúdos também uma palavra a dizer? – perguntou a vizinha do café, discordando seriamente da solução, ainda que provisória.
          -Isto realmente é complicado. Mas, para já, há um ferido e três mortos à espera de quem os leve para a morgue.




Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Maio 24, 2020, 19:42:59
Mais mortos, não! Basta o covid... Siga o romance!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 25, 2020, 18:56:33
continuação...


                                                                                      33

          Telmo, embora não tivesse assistido, ali à beira da igreja, às alterações provocadas pelo fogo, não tinha saído do labirinto onde a ressaca o deixara, líquido e sem sombra. Sentia-se a desintegrar. Era como se, a seguir a uma viagem espacial, estivesse a reentrar na atmosfera terrestre, que projectava cada pedaço do seu corpo em várias direcções. E olhando, estilhaço a estilhaço, essa coisa pulverizada em que se transformara, todos lhe apontavam, com maior acuidade uns do que outros, a necessidade de se livrar daquele estado de zombie em que a longa abstinência o cuspira, logo às primeiras horas do dia. Estava feito refém do seu vício. Contudo, o mais escorreito dos seus pensamentos aconselhava-o a fazer algo mais objectivo do que esperar pelo regresso da mãe, ao fim da tarde, com os magros quarenta euros no bolso, que, dada a crescente inflação do produto, talvez até nem chegassem para a dose diária de uma redenção a prazo. O melhor seria, sem demora, ia à caça de dinheiro fresco, desacautelado num lado qualquer do mundo. Não seria a primeira vez, e não haveria de ser talvez a última. Por ali, àquela hora da manhã, embora não tivesse exacta noção do tsunami de que toda a gente sentira as ondas de choque, haveria, com certeza, uma toca desprevenida com a boca escancarada a que pudesse arrancar o beijo salvador do dinheiro.
          A culpa de tudo aquilo era da Marisa. Em última análise, era do maldito Inácio, insensível a súplicas e à humilhação de um homem carente perante uma ressaca galopante:
          -Mais depressa lhe fiava a carrinha com os pólos lá dentro.
          E, depois, o cão era só mais um cão. Um dos muitos a andar por aí a chupar ossos das lixeiras e a recolher lágrimas de gente bondosa, que, no facebook, partilhava as habilidades dos “quatro patas”, escandalizando-se quando eles não são tratados como bebés. Além de a lei punir mais depressa quem maltratava animais do que quem abandonava velhos nos hospitais.
          Os dados estavam lançados, não podia fazer regredir o relógio até às sete horas da tarde, na véspera, naquele domingo quente que trouxera o Diabo consigo. Tinha de avançar depressa. Um furto a mais ou a menos pouco interessava para a sua folha de serviço, mais suja do que um aviário de galinhas, às quais, pelo mesmo buraco, saem ovos e outra coisa menos agradável à vista e ao nariz. E ele não precisava de nenhum processo kafkiano para saber que, em casa e nas redondezas, não passava de um rapaz ruivo, metamorfoseado num “Rapaz Merda” e ovelha negra simultaneamente. Ranhosa além de tudo. Não era preciso bater mais no ceguinho. O ceguinho já atingira o limite da dor, sem necessitar de mais espancamentos. Uma ressaca tinha, para qualquer um, a força de um dilúvio. E ele só a podia enfrentar cedendo à chantagem que o aprisionava, enquanto lhe apetecia trepar pelas paredes.
Seriam nove e meia da manhã, a passar, quando, apalpando as calças de ganga, as vestiu atabalhoadamente, juntando-as à t-shirt que nem se dera ao trabalho de despir horas antes, quando se arremessara na cama como um trapo decadente e sem horizontes.
           Já calçado com as sapatilhas, de olhos riscados a vermelho pelo delírio, desceu à rua em silêncio, um simulacro se si próprio. Abriu o ouvido aos sons da manhã, tudo menos pacífica. Provavelmente, a maioria das pessoas estaria fora de casa a espiar a mesma atmosfera carregada dos últimos dias, agora com razões acrescidas depois da sua acção de pirómano ressacado ou em vias disso. E, àquelas horas, quando ninguém se atreveria a pensar em ladrões de mãos e pés de veludo, haveria com certeza uma ou outra casa capaz de lhe untar os dedos com uma boa maquia, se ele tivesse a habilidade de se introduzir nela como um rato esquivo e oportuno. Talvez a vizinha Madalena estivesse na praça a inteirar-se das notícias do dia. E, assim, facilitar-lhe-ia a tarefa de renovar o seu estatuto de “bate-sornas”, levado a cabo numa hora amarga como aquela, quando conseguir a miserável farinha indutora de boas sensações era mais vital do que respirar um grão de oxigénio. “Bate-sornas” era como, na linguagem policial, se designavam os ladrões de reformados. Sobretudo quando espoliados de um magro pecúlio, num banco de jardim, por entre um jogo de sueca ou da malha arremessada no sítio certo para garantir a vitória. O que precisava era mesmo de alimentar o monstro, sossegá-lo com um grama de salvação temporária, ainda que cortado por zurrapa de má qualidade num laboratório improvisado num vão de escada.
          Numa expectativa de sucesso, entrou, com ar decido, na fábrica dos venenos que intervieram na morte do cão, a arrecadação da casa onde morava. Daí passou para o quintal, com ar de quem tem aí alguma coisa, decisiva para a Humanidade, a fazer. Atravessou a seguir o carreiro junto aos talhões das batatas já arrancadas, dos feijoeiros e dos pés verdes dos tomateiros já amarelecidos pelo calor. De nariz no ar, farejava as portas e janelas das traseiras de todas as habitações, a ver se havia espiões atrás das cortinas que lhe abortassem os planos só com o olhar.
          A velhota era uma mulher com perto de oitenta anos. Costumava esconder os euros do regime não contributivo que lhe chegavam por vale do correio atrás de uma das mil e uma réplicas da “Última Ceia” pendurada numa parede do quarto, onde dormia sozinha na sua viuvez de anos e embandeirada de luto à moda antiga.
          Olhando de um quintal para o outro, ao cimo das escadas contíguas, a porta da cozinha jazia em descanso, encostada à parede, franqueando-se com inocência a uma devassa selectiva em quanto de valor houvesse dentro. De preferência dinheiro vivo e saltitante, embora tudo o que vem  na rede de um pescador, se não for uma garrafa com uma mensagem de amor dentro, ou um naco de madeira de um barco naufragado há dezenas e anos,  seja sempre  peixe.
          A divisória de arame dos logradouros traseiros estava rasgada junto ao chão. E, depois de a ter arredado mais um pouco com mãos resolutas, Telmo assapou-se como os gatos, e foi através da rede que penetrou em domínio alheio, constatando a seguir, como ele previra, que não havia qualquer sinal da velhota dentro de casa.
          Quando regressou pelo mesmo processo, num caminho invertido e sem espinhas, trazia, aconchegados no bolso, um cordão de ouro e uns brincos que Madalena guardava no interior de uma gaveta do quarto como um tesouro histórico. Além de noventa e cinco euros, providenciais para um dia-a-dia que ele acabara de tornar mais difícil. Entretanto, Jesus Cristo e os doze apóstolos de Da Vinci não poderiam, em nenhum tribunal terreno, ser senão mudas testemunhas de um furto sem nome de autor.
          Em menos de vinte e quatro horas, era o segundo caso de mudez com que se defrontava, numa vida de constantes apuros por causa do maldito money. O primeiro fora o do pobre Litos, de quem não sabia se era vivo ou morto. Nem ele, nem o resto dos ciganos, cujo acampamento quisera mandar para o inferno através da chama de um isqueiro transformado instantaneamente num foguetão artesanal que mandara tanto fumo para o espaço.
          De regresso à garagem, sacudiu-se de resíduos de ervas secas que se lhe dependuraram no cabelo e na roupa quando passou a vedação, agachado como os gatos antes de darem o salto mortal. E, com um sorriso de triunfo, pegou num bidão de cinco litros de gasolina, ali guardados para a necessidade de uma mota de estômago vazio. Encheu o da sua com alguma tranquilidade, saindo depois pelo lado contrário à praça, furtando-se assim aos olhares de ira da igreja e de toda a praça contra o desconhecido, ainda a monte, de quem ele vestia a pele.




                                                                                       XXXI

           -Vai comprar droga – diz Domingos no anfiteatro, com tiques de rapaz impressionável pelo ferrete dos dramas, como um cavalo marcado pelo timbre da ganadaria.
          -Um flagelo – acrescenta Fausto – A droga já deu cabo de milhões de vidas em todo o mundo. Uma verdadeira peste silenciosa que avança na clandestinidade e em tropel como ratazanas.
          -Além de que o processo de desintoxicação é difícil e doloroso. Eu sei porque já tive um amigo que o tentou e não conseguiu. Morreu de overdose – continuou o rapaz, a quem um cigarro para iludir a ansiedade começava a ser indispensável. A além de piedoso. Mesmo antes do intervalo.
          -Embora mais difícil seja a cura do álcool – acrescentou Mateus Rosa. Em todo o caso, é um trabalho de gigantes. Tive um empregado a quem os filhos levaram ao suicídio. Eram dois rapazes. Toxicodependentes em último grau. O homem andava sempre a tinir com os empréstimos contraídos por causa deles para lhes pagar as dívidas. Fora o que roubavam e traficavam. Como o rapaz do filme… Até que um dia o Alírio não aguentou mais. Estava em casa com a mulher e os dois jovens. Depois de uma discussão por causa de dinheiro, ameaçou atirar-se da varanda de um sexto-andar, dirigindo-se de imediato para lá. A mulher, desesperada e aos gritos, ligou entretanto para a polícia a pedir ajuda. Foi atendida por uma inspectora. Esta, de seguida e rapidamente, tratou de mobilizar uma equipa com pessoas do piquete para tentarem impedir o homem de saltar. Na realidade, era mais para lhe retardarem a acção, porque ele parecia estar decidido. A esposa seria a interlocutora. Tinha de ir fazendo perguntas ao marido, ou repetir-lhe o que os polícias diziam. Entretanto, foi constituída outra equipa que de imediato seguiu para o local, cuja direcção a inspectora já tinha obtido durante o telefonema.
          Quando chegaram, depararam-se com uma papa ensanguentada na rua, e uma multidão dividida entre curiosos com coragem para observar espectáculos dramáticos e simples curiosos à beira do colapso.
Rita, sentada no anfiteatro, no meio de Fausto e de Mateus Rosa, estremeceu os ombros, impressionada com o cenário traçado pelo amante e deu um grito:
          -Que horror!
          -Calma! Não te sabia tão sensível!... – ironiza ele  para a rapariga.
          -Sou. Não posso ver sangue nem agulhas. Não percebo como há pessoas que usam seringas como quem chupa um rebuçado da tosse.
          -Mas agora não estás a presenciar nada disso. Estás apenas a ouvir o meu relato.
          -Mesmo assim – disse ela.
          -Só não percebo como não a legalizam globalmente – aponta Fausto –. Repito, por todo o mundo. Fazem uma distinção fantasiosa entre consumo e tráfico, como se um pudesse existir sem o outro!
           -Não legalizam porque assim o volume mundial do negócio é bem maior. Depois, essas avultadas quantias dão para financiar empreendimentos ainda maiores e bem mais sinistros. Como as armas, que, um pouco por todo o mundo, são o adubo das guerras, enxofre e sulfato ao mesmo tempo. Euros e dólares, nas transacções obscuras da corrente sanguínea da finança, ficam tão mudos como o pobre do Litos. Transitam de um lado para o outro livres como oxigénio.
           -Já agora, azoto – acrescentou Fausto. É o lado maquiavélico da pior invenção da humanidade, o Senhor Dinheiro. O que conduz ao Inferno – fez notar, acabando por aí o seu  comentário sobre a filosofia do mundo.

Continua



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Maio 27, 2020, 20:11:30
O dinheiro é apenas o veículo. Leva-nos para onde merecermos.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Maio 29, 2020, 14:42:17
                                                                    

                                                                         34
          Ainda não tinham decorrido mais do que vinte minutos, quando a velha Madalena regressara aonde há pouco haviam estado quatro pessoas a conjecturar providências quanto ao próximo futuro dos ciganos. Estes, do lado de fora, na praça, como botões perdidos e fora de casa, tentavam aceitar, ainda incrédulos, as mais recentes zombarias de uma vida a que o “sem eira nem beira” acabava de aumentar o grau de incerteza.
          No café, já só estavam Celeste e Marisa, a ex-namorada de Telmo, que chegara entretanto. Levada pelos cabelos de fibra do seu telemóvel e sentada a uma mesa, onde o rasto da chávena indicava que acabara de tomar café, a jovem parecia estar a viver numa dimensão regida por outras leis.
          A velhota estava chorosa, na sua roupa negra de viúva a quem os filhos, em pressas de domingo ao fim da tarde, visitavam de longe a longe. E, mal entrou, disparou uma expressão aflitiva, tão incrédula ainda quanto estariam os ciganos acerca da destruição do acampamento e da morte do Manolito.  
          -Fui roubada! Roubaram-me a reforma!
          -Não diga!... – exclamou Celeste.
          -O que vai ser de mim até ao final do mês. Nem sequer tenho dinheiro para os remédios! – dizia atarantada deitando as mãos à cabeça.
          -Mas, foi roubada como? – pergunta Celeste, como se duvidasse do tino da mulher quanto ao local da casa onde teria o pequeno banco para as suas necessidades quotidianas. Talvez ela tivesse perdido as coordenadas ao dinheiro e ao sítio onde o pusera.
          -Levaram-me noventa e cinco euros da cómoda, no meu quarto. Fui buscar dez para ir à mercearia comprar uns iogurtes e encontrei-lhe o sítio – deu a conhecer, levando a ponta do avental aos olhos, onde uma lágrima de deixara uma espécie de nódoa negra provocada por um soco.



                                                                                         XXXII

           -Coitada. E não foi só isso. O cordão e os brincos também se foram – suspirou Rita, como se Madalena a pudesse ouvir –. Mas pronto, o argumentista lá deve saber o exacto momento em que dará conta do resto. Pobre velhota – pensou, olhando para os cabelos brancos da mulher e para o seu ar desvalido de semiabandonada pelos filhos.
          Domingos, apercebendo-se do murmúrio da rapariga, não perdeu a oportunidade de acabar com o seu recente  silêncio, e, debruçando-se para que ela o pudesse ouvir, acrescentou:
          -Telmo transformou-se num monstro para aquela gente. Atrás de uma coisa má vem outra, e o dia nem sequer vai ainda a meio.
          Na penumbra da sala, a rapariga anuiu esboçando um sorriso, que depois estendeu a Mateus Rosa como se quisesse evitar um sentimento de ciúme ao protector, desencadeado por Domingos, a quem, desde o início, lhe pareceu não ser nada indiferente ao jovem. Sobretudo depois do olhar deslavado de Orlanda, que o relegara para o último dos seus desejos e o deixara talvez pouco confiante. Incluindo algum desejo que tivesse o sexo como ignição semelhante à que ateara o fogo ao acampamento.


                                                                                             35

         Marisa, até aí aparentemente alheada de tudo, manuseando o seu pequeno mundo tecnológico, mal ouviu falar em “roubo” pendurou os ouvidos com a máxima atenção na conversa das duas mulheres. Era como se, sobre assuntos daquele teor, tivesse uma sólida opinião e firmes certezas, apoiadas umas e outras em factos reais vividos ma primeira pessoa. Na expressão que lhe assomava ao rosto, desenhava-se um traço de suspeição, uma seta apontando o protagonista mau, o rapaz que durante longos anos fora o seu namorado de juventude e agora apenas  uma lembrança,  mais má do que boa.
          A velha Madalena, perdida numa orfandade de filhos vivos e agora sem dinheiro, insistia na sua recente desdita:
          -E agora como irei comprar os remédios para a hipertensão e para o coração? Valha-me Nossa Senhora! Tenho de o pedir aos meus filhos. E não queria nada fazer isso. Eles lá têm a vida deles… - acrescentou, certa de que o dia-a-dia de qualquer pessoa era um mar de dificuldades em todo o lado.
          Celeste, antes de apontar fosse para quem fosse como o culpado, ainda tentou uma despistagem em que nem ela própria acreditava. Por mais que se esforçasse. E, assim, concentrava-se no tino da velhota como o seu próprio e o mais provável ladrão. Embora o seu sexto sentido a acotovelasse com um nome, que já tinha suficientes créditos firmados na arena do crime. Mas, antes de o lançar ao mundo, de onde nunca mais o poderia tirar sem deixar um rasto de remorso, caso estivesse enganada, olhando dissimuladamente para Marisa, adiantou:
          -Não terá guardado o dinheiro noutro lugar? Às vezes fazemos coisas sem pensar e não nos apercebemos onde as guardamos. Não é a primeira vez que me acontece. E não será a última. Ou então gastou-o e nem se lembra!...
          -Em quê? … Não Celeste! Não gastei! Infelizmente roubaram-mo – acrescentou convicta, enquanto, com alguma raiva, através da janela do café, olhava para o bando dos ciganos como se os quisesse fulminar com os olhos. Nesse olhar estava implícita a insinuação de que alguém daquela gente teria, com certeza, a culpa pelo seu infortúnio. Ninguém lhe tirava isso da cabeça. E disso não iria esquecer-se tão cedo. Tanto mais que iria sentir a falta dos seus noventa e cinco euros ao longo do que faltava para o mês acabar. Até receber, de novo, o vale postal de uma reforma miserável, chorada por um dos últimos governos até ao cêntimo, e como se todos os velhos devessem, a qualquer custo, entrincheirar-se no caixão em vida, onde deveriam, por antecipação, esperar o beijo da morte. Só para aliviar os cofres do estado. A velhice não passava de um estorvo. Havia pouca gente capaz de vestir a pele de uma mulher com cerca de oitenta anos como ela e de lhe calçar os sapatos com que caminhara ao longo de uma existência difícil, enquanto criava três filhos feitos pródigos pela realidade laboral dos tempos modernos.
          -Vai ver que ainda aparecem – acrescentou Celeste esforçando-se por tranquilizar a vizinha – Quando o meu filho chegar para o almoço, deixo-o aqui um pedaço no café e vou consigo procurá-los.
          -Não vale a pena. Foram-se mesmo…- disse a pobre senhora em lágrimas.
          -Mas, se se foram, desta vez os suspeitos do costume não têm nada a ver com isso!... – afirmou a dona do café, depois de ter entendido demasiado bem  a suspeição da mulher,  e enquanto cruzava, de novo, o olhar com o de Marisa, que baixou o seu envergonhada.
          -Então quem é agora o mau, ou os maus da fita?
          -Sei lá!... Mas aqueles ali – e apontava para fora – desta vez são inocentes. Depois de tudo, principalmente após a morte do ciganito, teria lá qualquer um deles ânimo para coisas desse género?!
          -Se não é assim, então não estou a ver quem possa ter sido…
          -Só é pena que não apareçam marcas do dinheiro nas mãos do autor, umas rosáceas de sangue para ninguém ter dúvidas – acrescentou Celeste sem mencionar o nome de Telmo, em quem, desde logo,  pensara.
          -Era bom, era… Devia haver um pó qualquer que lhe fizesse isso…
          Marisa pagou o café e saiu com asas nos pés. Fê-lo aparentemente impulsionada pela brisa de uma mensagem escrita por Nelson, que se lhe mostrara no rosto do telemóvel. Embora, depois de a reler, a achasse algo estranha. Daí a nada, iria encontrar-se com o namorado e não quereria, talvez, levar traçados na cara o resto de uma impressão capaz de lembrar o “ falecido” ao novo namorado. Bem bastava a insegurança deste, um rapaz comum, com origens noutro continente, intimidado por vezes com a boa figura de Telmo, que ele julgava nunca ser capaz de suplantar no coração de Marisa.
          A rapariga desandou dali sem haver ainda conclusões sobre a autoria do furto, as quais deixou ao critério das duas mulheres. Apesar de ter parecido a Celeste que a rapariga partilhava, com toda a certeza, das suas suspeitas.
          Já sozinha com Madalena, aproximando-se da velhota, a dona do café sugeriu à vizinha, quase ao ouvido:
          -Se o dinheiro lhe desapareceu mesmo, para mim só pode ter sido o ex da Marisa, o Telmo… Mas por favor não diga que fui eu a dizer isto. Não quero problemas com a Susete e com o Abel. Todos eles são meus clientes aqui no café. Além de boas pessoas…
         -Não me digas!... – exclamou Madalena surpresa e indignada, tal como se tivesse ouvido uma blasfémia.
         -Não é novidade para ninguém, o rapaz tem maus vícios. Diz-se à boca pequena que, quando esteve aquele ano ou dois longe, em vez de estar em França, como a Susete disse por aí, terá estado preso em Viana do Castelo…
          -E por quê? – perguntou incrédula a vítima.
         -Não se sabe muito bem. Por roubo, venda de droga, sabe-se lá que mais. E, claro, o segredo foi guardado a sete chaves por toda a família. Sobretudo por vergonha. Entretanto, arranjaram uma desculpa para justificar a ausência… Mas, sabe como é, estas coisas acabam sempre por se saber… Escorrem ingenuamente pela mais ínfima ranhura do cofre bocal da mais bem-intencionada das pessoas.
          -Eu não sabia… A mãe sempre me falou do assunto como se o rapaz estivesse em França. Mas, sendo assim, se calhar o larápio foi mesmo ele. Raios o partam! Se tiver sido, o Diabo lhe dê em dobro as dificuldades que acaba de me criar! E Deus me perdoe se com isto peco!
          -Qual foi a última vez que viu o dinheiro?
          -Ontem à noite ainda o tinha. Deve ter sido hoje, depois de eu ter saído. Andei fora e dentro…
          Daí a nada, depois do final daquela difícil conversa, Madalena regressou a casa para tratar do dia-a-dia, que, apesar de tudo, tinha de continuar.
          Não demorou grande tempo, a mulher regressou a com a devastadora actualização que uma gaveta remexida lhe proporcionou. Numa busca mais minuciosa, constatou ter ficado sem aquela que, depois do marido, fora a melhor prenda de casamento, o cordão e os brincos.

                                                  
                           XXXIII

           -E pronto. A mulherzinha já sabe da história toda. Só não faz ideia de ter sido através do buraco da rede do quintal por onde passam os gatos que Telmo se lhe infiltrou em casa – disse  Domingos para  com os seus botões –. Apesar de não saber da missa a metade – continuou. Nem ela nem ninguém, a não ser o pobre Litos. Mas esse não seria nunca um problema. Era surdo desde os dois anos.




Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Dionísio Dinis em Junho 01, 2020, 16:31:16
Continuamos com interesse redobrado.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Junho 08, 2020, 18:19:34
Nunca confiando num surdo por ele ser surdo!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 08, 2020, 22:09:02
                                                                                    36

          Eram cerca de onze horas da manhã quando Leandro, na sua figura de pirata dos mares, sem a perneira direita das calças, depois da alta do médico e com a receita dos remédios na mão, pode juntar-se à mulher. Esta, juntamente com Xavier, esperava-o à entrada, com as mil interrogações sobre o estado do marido e a gravidade das lesões. E, quando se inteirou de que tudo era menos grave do que à primeira vista parecia, pôs Leandro ao corrente do que se vivera em Eito nesse meio tempo. Bastou um telefonema de Joanne para ficarem a saber que os corpos de Ana Rosa e do pequeno Diogo já haviam sido levados para a morgue de Aveiro, ali ao virar da porta por onde eles estavam prestes a abandonar o hospital. E foi para ela que um impulso natural impeliu Leandro, antes de ser dissuadido por Dulce e Xavier de, como um homem sombra desiludido com a humanidade, ir ali plantar-se para saber notícias da alma dos dois entes queridos, que o médico legista tivesse, eventualmente, encontrado perdida junto com o coração queimado de cada um.
          Manolito permanecia ainda no provisório sepulcro da carrinha onde fora imolado. Do que nem sequer parecia um pequeno corpo de criança, o Delegado de Saúde já havia ordenado a remoção. Tudo estava transformado num pedaço de carvão, a que era difícil atribuir forma humana. Muito menos espírito. O caso exigia, por isso, maiores cuidados. Com certeza absoluta, só a autópsia poderia, talvez também algum ADN encontrado num fragmento de osso, determinar se, na realidade, se tratava dos restos mortais do pequeno, ou de uma ilusão desencadeada pelo fogo,  a quem fora indiferente ter-se alimentado dos pólos e lençóis confeccionados numa fábrica de contrafacção, ou do corpo de um rapazinho infeliz com a morte do seu cão. Além de tudo, temia-se que os ciganos, não só a família directa da vítima como de outras comunidades, ao saberem do holocausto sobre o acampamento, se precipitassem para lá e viessem a dificultar o trabalho às autoridades. No mundo moderno, e, como um pensamento sem freio, as notícias corriam à velocidade da luz. No exacto momento da divulgação de um vídeo num lugar remoto a Terra, as novas deixavam de se circunscrever a uma pequena parte da geografia para atingirem o globo inteiro como um meteorito gigante. Talvez o espírito gregário de outros ciganos já tivesse sido alertado da morte do garoto e quisesse dar à família testemunhos de uma solidariedade tão especial como a que se vive no meio da etnia. Nem que fosse só a solidariedade das lágrimas, aquela que, ainda assim, é a mais económica entre todas. Além de evidente.
          Quando, vindos do hospital Leandro, Dulce e Xavier passaram pelo largo da igreja, os ciganos permaneciam no mesmo sítio, errantes como outrora em toda a terra, desta vez circunscrita a uma pequena praça de um lugarejo. Descalços, com fome todos eles, os mais pequenos estavam sobre os colchões que Susete e as outras mulheres, num gesto de boa vontade, lhes tinham levado durante a madrugada.
           Depois da primeira sandes da manhã preparada ainda cedo pela Dona Celeste do café, fácil seria concluir pela necessidade de lhes fornecer mais algumas ao longo do dia. E, provavelmente, durante bastante tempo. Sobretudo enquanto os acontecimentos estivessem frescos na memória de uma aldeia a braços com uma tragédia sem precedentes. Ainda que ninguém estivesse incumbido de matar a fome aos desalojados, era preciso ser solidário na justa medida, enquanto o assunto não entrasse na rota do cansaço caindo paulatinamente por terra ao fim de dois ou três dias.
          Um pouco após as onze horas, enquanto Rodrigo continuava na acampamento junto com a GNR a guardar o corpo do menino cigano, Inácio, Ramiro e Joaquim ausentaram-se durante algum tempo a fim de tratar do combustível, quase no casco, para a camioneta. Se não tomassem providências, daí a pouco o depósito do gasóleo ficaria completamente seco, impossibilitando-os de ir, pelos próprios meios, para onde as circunstâncias exigissem. A primeira deslocação teria a ver com a viagem de Manolito para a morgue a fim de ser retalhado, num um carro de polícia apetrechado para vítimas de morte violenta como fora a do menino. A segunda, e última, já com ele metido numa urna com a roupa que deveria vestir ao lado, por já não haver ali nada que se assemelhasse a uma criança, seria a ida de todos no dorso da carrinha para o cemitério,  num cortejo colectivo de defuntos uma vez que o funeral conduziria à cova três seres inocentes vitimas da mesma cobardia. Pessoas que ninguém deveria, talvez, ver uma derradeira vez,  para não ficar, para o resto da vida, com uma impressão da morte ainda mais triste do que a morte já era.
          Os três, embora sem dinheiro no bolso, tinham, contudo, alguns trunfos na manga para jogar no momento oportuno. Nada que a sua recente penúria não justificasse
          -Não temos com que pagar – disse Inácio para o rapaz da caixa, após o abastecimento, enquanto se fazia notar acompanhado dos dois rapazes, filho e sobrinho, todos ciganos e com uma certa fama étnica. Naquele momento, era como se tratasse de uma missão diplomática que exigisse todo o respeito por quem a levava a cabo.
          -Ficámos sem nada. O nosso acampamento ardeu. Morreu o meu primo, um miúdo de quatro anos. Estamos na rua, no Eito, em frente à Igreja e quase nus – acrescentou Joaquim, apontando para os calções com que haviam dormido na última noite, quando o fogo entrara no terreno dos Vieira com uma força maior do que a da polícia na execução de uma acção de despejo ordenada pelo Supremo Tribunal de Justiça.
           -Quando tivermos dinheiro voltamos cá para lhe pagar – acrescentou Inácio com uma lágrima a querer saltar-lhe dos olhos, contagiando todos numa irmandade que faziam valer em circunstâncias como aquela e de muitas maneiras possíveis.
O rapaz da caixa engoliu em seco, alisando as arestas de mais um facto consumado. Àquela hora da manhã, não era, habitualmente, necessário colocar a bomba em pré-pagamento para precaver a ousadia de ladrões. Por outro lado, aqueles ciganos, feirantes ao que se sabia, seus conhecidos de idênticos carnavais, nunca lhe tinham pregado um calote, mais gordo ou mais magro. E, embora se apresentassem com o aspecto de maltrapilhos e cheios de suor, o jovem não dispunha de precedentes que o levassem a suspeitar de qualquer golpe.
          Agora só tinha de reportar o sucedido ao gerente e esperar que um dia, como quem vai pagar um milagre a Fátima ou a outro santuário com igual prestígio no mundo da fé, um dia a promessa se cumprisse Mas o mais certo era ter de lhe rezar pela alma.
                                                      

                                                                                                  37

          Pouco antes do meio-dia, todos os membros da comunidade cigana tiveram direito a uma nova sande e um pacote de leite achocolatado, ou outra coisa do género. E, como o presidente da junta havia já demonstrado preocupações quanto ao futuro lar dos mais recentes sem-abrigo, logo se começou a intuir que o pagamento da conta por causa da comida, hoje e nos dias seguintes, estaria a cargo da junta de freguesia, ou da câmara municipal, como uma criança sem pai nem mãe que tivesse de ser adoptada o quanto mais depressa possível. De preferência antes de morrer.
          Com a carrinha suculenta de gasóleo no depósito, quando os três regressaram à aldeia já uma outra promessa se cumprira. Desta vez, a que Cármen obtivera da parte de Catarina quando esta velava o primeiro sono do filho no Além sob os lençóis brancos que o cobriam antes da terra definitiva do cemitério. Havia de tudo um pouco: calças, camisolas, vestidos de diversos tamanhos para as crianças, saias para as mulheres, roupa interior e calçado. Todos os membros da família que tinham ficado no largo durante a “operação combustível”, apresentavam já um novo aspecto. Tinham ido à casa de banho do café vestir algumas das peças colectadas pelas mulheres, depois da constatação da quase nudez do clã. No meio de tudo, havia um saco especial proveniente da última ma mamã da aldeia, e o seu conteúdo destinava-se ao bebé que Luzia trazia na barriga, uma rapariga, segundo ditara a leitura da sina por uma matriarca de Aveiro, já que o acompanhamento médico fora pouco ou nenhum. Com a praça pejada de sacos plásticos, de boca aberta e com roupas de fora como línguas moles, todos poderiam agora assistir decentemente vestidos à remoção de Manolito para a morgue, quando este fosse fazer companhia às outras duas vítimas para se cumprir um ulterior destino comum, sob uma ou mais lápides de cemitério.
          Pepe, o cavalo, ali preso à acácia do adro, nas relinchadelas intermitentes da sua peculiar acústica, já tinha dado a entender que estaria sobretudo com sede. E, antes de Inácio, Joaquim e Ramiro comerem as sandes do almoço, trataram de pedir ao primeiro homem com quem haviam falado de madrugada um balde com água para dessedentar o animal. A seguir, este bebeu com sofreguidão, deixando por momentos, de enxotar as centenas de moscas que lhe formigavam continuamente os olhos e o focinho. Enquanto isso, alguém sugeria que o levassem para um arrabalde ali bem perto onde o último e chuvoso inverno fizera nascer erva abundante, dourada pelo sol do verão como uma ceara de trigo maduro.
          O combate ao fogo prosseguia a sul, agora reforçado com mais uma equipa de bombeiros, cujo carro havia abordado o fogo por outro lado, onde ele estava agora mais espevitado, e onde já haviam chegado duas equipas de televisão para cobrirem o dantesco cenário das chamas. Ambas as corporações eram ainda ajudadas por alguns populares, a que Abel, o pai de Telmo, se juntara, mal regressara depois de levar Susete à fábrica logo pela manhã.

continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Junho 09, 2020, 19:23:51
E a luta continua...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 09, 2020, 21:12:45
                                                                                              38

          Já em casa, toda a família de Catarina e de Vasco pensava na melhor maneira de dar a conhecer a Sílvia os estragos de um mês de Agosto que, tendo um incendiário como carrasco, resolvera cortar as pernas à felicidade e a um amor que ela quisera enlear pelos nós sagrados do matrimónio na terra onde nascera. Agora, depois de semelhante golpe, nada poderia voltar a ser como dantes, passe o lugar-comum.
          -Ela já sabe. Telefonei-lhe enquanto o papá e a mamã estavam no hospital – informa Joanne, depois de o primo ter sido enviado para casa da avó paterna, até alguém arranjar coragem para lhe falar da perda do irmãozito, através de eufemismos que o tempo um dia deitaria por terra.
           -E ela? – pergunta a mãe.
           -Não sei como nem por quem soube.. Ficou atarantada, a chorar após a minha confirmação e sem saber o que fazer. Também lhe disse que o papá se queimara quando tentou salvar a avó mas que não era nada de mais. Pedi-lhe para não vos ligar enquanto estivessem no hospital.  
          -As más notícias correm depressa. São como a chuva, não têm fronteiras nem falam línguas desconhecidas. E que iremos nós fazer quanto ao casamento? – pergunta Leandro dirigindo-se às duas, compungido como todos eles.
           -A única coisa que deve ser feita, penso eu. Adiar – sugeriu Dulce com firmeza, olhando para a filha e para os cunhados, numa casa desolada, e cheia de lágrimas até ao tecto.
          -Ela, depois de um bocado, pensou sem saber o que fazer pensou nisso. Já deve ter falado com o Pierre, entretanto. Pobre da avó e do Diogo, que já não poderão assistir a nada – rompeu Joanne em lágrimas
          -A última palavra será sempre de ambos. Talvez já tenham realmente conversado sobre o assunto. Antes de quarta ou quinta-feira não poderemos fazer os funerais – acrescentou Vasco, o marido de Catarina, limpando o rosto com as costas da mão suada-. Até lá, hão-de decidir. Mas agora temos outras prioridades. O melhor é tratar delas o quanto antes – disse sem ter a certeza se estaria em condições de ser o homem da casa, quando, embora por fora aparentasse alguma serenidade, por dentro ardia em desespero, a que a raiva e a vontade de matar um culpado por tudo aquilo davam ainda algum fôlego.
          -Tens toda a razão, cunhado.
          -Tu encarregas-te das coisas da tua filha e do casamento. Eu trato dos enterros – e escondeu uma lágrima teimosa que o obrigou a deixar a sala para a disfarçar.
          Daí a pouco, Leandro e Dulce falavam com a filha ao telefone. A decisão estava tomada. Adiariam o casamento. Tudo por culpa de um incêndio que destruíra uns milhares de hectares de mata na zona centro do país. Um incêndio, como tantos outros, ateado por uma criatura que, com a chama de uma única ignição, enviara três inocentes para o outro mundo em menos de doze horas.
          -Malditos incendiários! – rugiu Leandro, entre a dor da queimadura, apesar do analgésico, e a raiva que o levava a dar murros de impotência nas portas do  sofrimento onde todos se sentiam aprisionados, e de que não podiam fugir. O Inferno, emergido das profundezas, escolhera-os como cobaias, estando agora a injectar-lhes a mais letal dose de sofrimento. A terra natal de Sílvia, do pai, dos tios e primos, não era agora senão um covil de pirotécnicos fora da lei, aonde não apeteceria voltar nunca mais. Com ossos tão grandes de desolação à mostra, os dentes das serras queimadas ao redor, o que outrora fora um oásis verde e acolhedor não passava de um monte de cinzas tristes, a que talvez nem a erva da próxima primavera restituísse alguma alegria.
A saga de uma família enlutada por duas mortes consistiria agora em desmarcar, junto do padre do santuário, o casamento da portuguesa e do francês, como quem apaga vestígios de um mal-entendido. Seguir-se-ia o contacto com os hotéis onde os convidados de Marselha iriam ficar durante algumas noites, se a tragédia não viesse antes surpreendê-los. Finalmente viria a anulação da boda, na bela quinta nas encostas da serra. O espaço, bem vistas as coisas, corria ainda o risco de ser devorado pelas chamas, se, rapidamente, a protecção civil e os bombeiros não fizessem algo mais eficiente do que deitar uma ténue água na fervura, como acontecera na aldeia do Eito quando os bombeiros chegaram bem depois da casa roubada, com meia dúzia de homens a pingar exaustão para lhe erguer as trancas. Em França, desfazer o que já estava feito ficou a cargo dos noivos, mantendo-se a data de vinda dos noivos e de alguns parentes. Mas, em vez de o motivo da viagem ser um enlace num santuário bonito, com Deus e os santos a abençoá-los, eram os funerais de duas pessoas, celebrados com missa de corpo presente na igreja da aldeia, depois de a morte, mais inoportuna do que nunca, lhes bater à porta à pancada. Ainda haveria um terceiro enterro para acabar o ciclo da tragédia, o de Manolito. Mas isso seria se tivessem força anímica para enfrentar as lágrimas de mais algumas famílias.

                                                                                         39

          Mal Inácio, Joaquim e Ramiro, acabaram as sandes, respigaram, de dentro dos sacos plásticos, uns pares de calças e t-shirts, que, como o resto dos ciganos da praça já havia feito, foram vestir ao café, transformado agora num gabinete de provas de pronto-a-vestir de uma feira ao ar livre.
          Cármen, com o filho mais novo ao colo a chorar, agora que a carrinha tinha de novo combustível, quis ir ao acampamento a fim de assistir ao levantamento dos restos mortais do filho, e dar, se possível, o último beijo num pedaço dele que estivesse reconhecível. O sol, no final da manhã, caminhava indiferente ao encontro da tarde. Continuava aturdido com o fumo de mil fogos, quando o céu já se havia tornado numa negra circunferência impeditiva de ver, para qualquer lado, a linha do horizonte, que parecia ter desaparecido de vez. E, enquanto os bombeiros, com bagas de suor a escorrer-lhes em caudal pela testa, combatiam ao longe as gigantescas labaredas como anjos caídos do céu, toda a gente sonhava com os dias pardacentos de inverno, varridos a chuva e a vento, ainda que pudessem trazer no ventre uma pequena catástrofe, dividida entretanto pelas aldeias como um pequeno mal, ou, mais especificamente, um mal necessário. Ansiava-se, por antecipação, ao invés daquele calor asfixiante, pelo aconchego de um cachecol, arrancado compulsivamente pelo frio dos armários para a saison. A mesma chuva que, em circunstâncias como as de agora, seria o bálsamo para a grande ferida aberta pelo fogo na montanha e na alma de uma pequena aldeia. Mesmo que a água fosse brava, sempre seria preferível lidar com uma tragédia desencadeada pela mãe natureza do que por mãos humanas, e, sobretudo, assassinas. Além de tudo, a agir na sombra. Ao menos, poder-se-ia culpar Deus pelo que pudesse acontecer. Ainda que não fosse possível sentá-Lo num tribunal de comarca terreno, onde um dia esperava ver-se sentado o incendiário que deitara tantas vidas a perder.


continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Junho 11, 2020, 09:27:31
É sempre difícil aceitar a solteirice da culpa...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 11, 2020, 13:24:21
                                                                                           40

         Litos, mal subiu para a carrinha, começou de novo a ficar inquieto, como quando chegara no meio da noite ao largo da praça com um terrível segredo que ainda não conseguira desvendar. Lembrava-se da última vez em que viajara sobre ela, com o coraçãozito dos seus doze anos de mudo inflamado por um sentimento de dupla perda, para o qual não tinha uma única palavra em que esse sentimento pudesse ser encaixado. A única coisa de que tinha a certeza era de que nunca mais iria brincar, nem com Ringo, nem com o pobre Manolito. E nenhum dos outros familiares, que com ele viajavam de regresso ao acampamento para a trasladação dos restos mortais do irmãozito, foi capaz de o acalmar na sua surdez. Assim, seguiu grunhindo no seu silêncio até lá, durante os escassos quilómetros que durou a viagem. Com os ciganos, seguiram vários carros e algumas motas, a que se juntaram alguns curiosos vindos entretanto da estação do comboio. Desde manhã, mal a GNR chegara, os carros paravam constantemente, começando os condutores a fazer perguntas à patrulha, enquanto controlavam a vontade de escancarar a porta da carrinha como se, em vez de vinho ou cerveja para matar a sede que o calor forçava, quisessem embebedar-se de horrores. Ciganos de outras comunidades, alertados não se sabe por que vozes, ao saberem da tragédia, dirigiram-se também ao local onde já haviam feito o seu ritual de dor, intercalado entre gritos e lágrimas, a exaltação das qualidades da pobre criança morta. Acabados de chegar, viram de imediato o carro onde seguiria o corpinho mirrado da criança para o necrotério e a equipa de técnicos a preparar-se para a remoção dos vestígios com todos os cuidados. O chão da mata, assim como a chapa e o esqueleto da viatura, após doze horas desde ignição, apesar de ainda bastante quentes, já haviam arrefecido o suficiente para poderem ser manuseados sem qualquer perigo. Além de que os dois homens e a mulher destacados para a operação se encontravam munidos com os aparelhos necessários para não haver percalços. Tudo era uma imensa mortalha negra, onde apenas se mantinham ao alto uns troncos de árvores calcinados, teimosos o suficiente para resistirem, quais testemunhas silenciosas, como o pobre Litos, ao desfraldar da próxima primavera.
          Rodrigo, durante o tempo de vigia ao corpo do sobrinho junto da GNR, com uma pá de cabo resistente ao fogo, já havia enterrado o Ringo embrulhado no cobertor, bem mais inteiro e reconhecível do que estaria com certeza o pobre Manolito. Esse acto pouparia as crianças, sobretudo Litos, do espectáculo deprimente de verem de novo o companheiro de brincadeiras sem vida a desencadear-lhe dolorosas recordações. Do interior do animal e pela boca, desde a hora da morte até ao enterro, havia escorrido uma espuma verde viscosa, que confirmava as suspeitas de António Pinto quando se referiu à morte do cão como uma acção intencional levada a cabo por quem pretendia ir mais longe.
          Na impossibilidade de serenarem o rapazinho, todos os familiares acabaram por se lhe juntar num pranto semelhante e que já se tornara imagem de marca dos ciganos em qualquer parte onde a vida de membros da comunidade tivesse sofrido alterações de monta. Desde a prisão, a casos de saúde dentro de um hospital, ou de morte, como a que agora acontecera a dois ramos da mesma família que vivia em estreita proximidade numa mata sem grandes condições.
          -Meu rico filho! – gritava Cármen, ainda antes de descer, ajudada por Inácio, enquanto Sameiro, sobre a carroçaria e igualmente chorosa, se encarregava de tomar conta de Bruno, o irmãozito mais novo, a quem os gritos de todos incutiam o terror irracional de um contágio sem explicação, desencadeado geralmente por coisas más.
          -Que mal teria feito este anjinho para ser assim levado para o céu?- questionava Luzia sem esperar resposta. Nem de Deus nem do Diabo.
          -Hei-de matar o maldito que fez tudo isto! – jurava Inácio no meio de violentos soluços -. Um balázio no meio dos cornos e nunca mais fará uma coisa assim! Hei-de ir à procura dele, nem que seja ao Inferno!
          -Ele não escapará irmão! Até pode ser a última coisa que faça na vida, mas juro-te que o cabrão há-de ir desta para melhor na ponta da minha navalha, com uma facada nas tripas como um porco! Nem que por causa disso venha a passar o resto da minha vida na cadeia!
          Os outros membros da comunidade, da sua missão de solidariedade para com os enlutados, evoluíram para um trabalho de apaziguamento dos dois homens, que juravam vingança indiferentes a qualquer castigo. Muito menos dos homens. E todos eles sugeriam, prudentemente, calma aos exaltados, enquanto, no íntimo de cada um, borbulhavam mil e uma interrogações e outras tantas suposições acerca da autoria daquela barbaridade, sancionadas por pragas em modo de maldição cigana:
“Junto-me à jura, Resolve-se tudo num instante, Aquilo foi coisa dos Vieiras, Se o velho era um homem bom, os herdeiros são uns assassinos, Estão por minha conta, Se lhes puder ser bom, não escapam, Hoje por eles, amanhã por nós, Que não tenha paz nem sossego quem mandou um anjinho para o céu dentro daquela carrinha, queimado como um tição, Afinal os compadres eram gente de bem, Vendiam os pólos falsificados nas feiras e não se metiam com ninguém, E a droga é um negócio como outro qualquer, Como as armas, como os cestos, Ninguém obriga ninguém a ir a um acampamento comprar seja o que for, Não se lhe aponta nenhuma pistola à cabeça, E depois o que pode um cigano fazer no meio dos paisanos se estes fogem de nós como se tivéssemos uma doença má, Alguém daria um emprego a um de nós? Até os que têm jeito para a bola passam a vida a ser criticados, por tudo e por nada. Desconfiam deles à mais leve coisa, É bem feito o que lhes fazemos, Cambada de gente com a mania de que é melhor do que nós, Nós que temos de viver, como eles, Não vivemos de ar e vento, Temos de ir ao supermercado para dar de comer aos nossos filhos, Haviam de estar no nosso lugar para saberem o que elas mordem, Tanta gente na aldeia e aqui só estão meia dúzia de gatos-pingados. É só para coscuvilhar. Mas nos outros dois mortos deve ter estado uma multidão”.
          -Deixem lá compadres. Deus Nosso Senhor há-de dar o pago a quem fez semelhante coisa – aconselha um cigano velho, vestido de negro, que parecia ser o chefe do clã solidário, apontando para o céu cinzento –. Não vale a pena estragarmos a vida, quando nada nem ninguém escapará à fúria do alto.
          -Compadre, há feridas que ninguém consegue sarar. A perda de um filho é uma delas – gemeu Inácio, com quem Cármen concordou no meio das suas lágrimas, limpas a seguir à manga curta da t-shirt.
Luzia, com um saco plástico na mão e amparando de vez em quando a barriga, ainda fez despoletar na cunhada e no marido o receio de que a criança, sem nenhum sentido de oportunidade, como todas as crianças no nascedouro, resolvesse irromper por aí a qualquer momento. Mesmo ali no meio de nada, um Menino Jesus feminino nascido em Agosto. Mas os seus gestos não passavam, mais ou menos, de uma carícia maquinal à roupa que trazia, um vestido largo, ainda da gravidez de Catarina e que tinha para esta um trágico significado.
          A determinada altura chamou Rodrigo, a quem se propunha entregar o pão e o pacote de leite achocolatado, menu idêntico ao que os outros membros haviam comido antes. O homem recusou. Apetecia-lhe tudo menos comer. Durante o tempo que passara ali sozinho, só com os agentes da GNR, a quem não podia confessar as preocupações, mais do que qualquer outro membro do clã, pudera pensar da dimensão total da perda: para além de uma vida, o ouro que desaparecera no meio dos tições e se enterrara de baixo da terra, à semelhança do que teria de ser feito com Manolito; as pistolas e as caçadeiras; o produto, sobretudo. Os cestos de verga eram coisa pouca, comparados com as dívidas que, daí a pouco, o fornecedor viria cobrar, prometendo um adiamento de mais uns dias, poucos para quem ficara reduzido a zero. Mas, talvez, no meio das finas camadas negras de roupa calcinada pelo fogo, ainda pudesse ser encontrado um cordão de ouro, utilitário e salvador ou outras coisas assim.
          Quando se preparava para regressar para mais próximo da carrinha onde as autoridades faziam o seu trabalho, Luzia, fazendo menção de lhe entregar um saco com umas calças de ganga e uma camisola, sugeriu-lhe lhe que fosse à carrinha e se vestisse com elas.
          -Não quero. Ao menos para já – respondeu, com um olhar enigmático, e como se tivesse algo importante a fazer antes de branquear o seu aspecto através daquela roupa usada.
          -Fica mal a um cigano estar assim vestido no meio de paisanos e com a morte de um sobrinho.
          -Não te rales, mulher. Tenho uma coisa importante a fazer…  
          -Diz mal queiras – replicou Luzia com o mesmo ar de quebranto que se abatera sobre toda a família mas moderando as lamentações, sem a mais pequena ideia do que se passaria na cabeça do marido.
          -Guarda-a para o funeral do Manolito.
          Quando tudo terminou e o pequeno cadáver estava prestes a ser levado para a morgue, todos os ciganos, sobretudo os familiares da criança, preparava-se para seguir atrás do carro. Ainda que nenhum deles tivesse no bolso um cêntimo para as ex scuts, onde, forçosamente, teria de passar o veículo com os restos mortais de Manolito, deviam-lhe este primeiro cortejo fúnebre. Se, noutras circunstâncias igualmente difíceis, nunca nenhum cigano se encolhera perante dificuldades como aquela, não era num dia triste assim que o iria fazer, fugir com o rabo entre as pernas como cães sem personalidade. Talvez ali, com tantas pessoas da raça a apoiá-los, não fosse difícil conseguir alguns euros para matar essa arrelia e outra qualquer, que, de todo em todo, não pudesse ser ignorada.
          Litos, sobre a furgoneta, seguia os movimentos de toda a gente, com o mesmo ar de lamentação que só o abandonara durante o sono, já a madrugada ia alta. Ainda tivera esperanças de ver o irmãozito uma última vez, mas não fora possível. Com certeza por ele agora ser pouco mais do que um toco de carvão de lareira apagada, incapaz de fazer alguém acreditar ter existido ali algum dia uma vida. Isso aumentara-lhe o desespero. Tanto mais que não fora dotado com palavras para poder exprimir esse e desesperos semelhantes, de modo a ser compreendido como toda a gente. E quando Inácio, depois de ajudar Cármen a subir para a carrinha, se preparava para fazer o mesmo, Rodrigo abeirou-se dele com ar de mistério. Olhando para os barracos de tijolos, agora enegrecidos pelo fumo, construídos à revelia dos Vieira, segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido, como um caçador de tesouros que não pretendia dar a conhecer o local da escavação senão ao parceiro de garimpo:
          -Não vou convosco. Agora que tudo está bastante mais frio, preciso de tentar encontrar salvados… Passem por aqui no regresso…Alguma coisa há-de ter escapado…
          Inácio concordou em silêncio.
          A seguir, com autoridade de chefe de clã, da decisão do irmão informou a cunhada, com um ar enigmático e augurando praticamente um milagre, que, daí a pouco, ira acontecer, por entre todas aquelas coisas mortas. Rodrigo ficaria no acampamento a cuidar de assuntos inadiáveis, como inadiável seria tratar, na melhor tradição cigana, mal o corpo ficasse disponível, do enterro de Manolito, perpetuando na memória colectiva um anjinho que partira contra a vontade para a última viagem e da forma mais terrível. Por isso, teria ele de conduzir a carrinha com treze pessoas em cima, distribuídas entre a cabine e a carroçaria, onde Cármen se revezaria no conforto aos quatros filhos que lhe restavam. Desde logo o inconsolável Litos e o pequeno Bruno. Ramiro e Sameiro já eram adultos o suficiente para suportar melhor a dor e dar livre curso ao caudal das lágrimas e do sofrimento.

                                                                                                       41

          Mal se iniciou a viagem, na estrada vestida de negro de um lado e de outro, enquanto os carros da polícia e do delegado de saúde seguiam cada qual o seu destino, com a comitiva de ciganos atrás, os rapazes das motas e mais alguns habitantes da aldeia dispersaram, deixando Rodrigo entregue aos seus escombros. Àquela hora, a fome principiava a apertar, e o cigano, mal se viu sozinho, comeu a sandes que Luzia, momentos antes de partir, teimara em entregar-lhe, juntamente com o saco plástico das calças e da t-shirt, que deveriam servir para o funeral da criança. Bebeu igualmente o leite achocolatado, e, já um pouco mais revigorado, abeirou-se depois da carrinha onde os pólos calcinados, lembrando-lhe o pobre do sobrinhito, lembravam-lhe igualmente que, ali derretido com os lençóis de refugo, estava o ganha-pão de duas famílias, a bendita “farinha”. Parte dela ainda por pagar ao fornecedor.
          De seguida, olhando à volta, tentou reconhecer, nas mil e uma folhas negras, quais pastéis de massa folhada queimados no forno, restos de objectos de que um dia se pudesse ter servido enquanto ali vivera: um par de chinelos a que as labaredas houvessem poupado as pontas, bacias de plástico retorcido e encolhidas pelo calor, com a cara à banda mimada por um ávido soco. E era, na verdade, o que tudo aquilo passara a ser, um violento soco na alma de todos.
          Refeito, em parte, da emoção, aproximou-se do seu barraco, de onde saiu uma baforada de ar quente. Antes de decidir entrar, colocou as mãos na orla da porta. Esta tinha desaparecido, deixando as dobradiças negras e desamparadas à mostra. Lá dentro era igual à parte de fora. E quando, daí a instantes, pôs o pé no interior, sentiu o chão ainda a arder, tomando consciência de que tão depressa não poderia tentar recuperar, de baixo da cama de ferro do casal encontrada no lixo no tempo em que montaram a casa, pelo menos alguma parte do seu ouro.


                                                                                    XXXIV

           -O homem não está bom dos miolos! – exclamou Mateus Rosa, tão conhecedor das característica da verdadeira riqueza. Devia estar farto de saber que o ouro derrete a cerca de mil graus Celsius. O fogo atingira certamente  bem mais do que isso.
          -Ele sabe. Mas, de momento, como o prejuízo lhe toca na pele, esqueceu-se. Quando o vai vender na candonga, sabe bem qual é o destino dele – acrescentou Fausto, conhecedor dos hábitos comerciais de pessoas ligadas ao mundo do crime e que tenham essa nobre liga como matéria-prima –. Mesmo que o comprador esteja autorizado a negociar com ouro, não é segredo para ninguém que, vinte dias após a compra, ele é derretido e moldado em barras, renovado todas as vezes que isso acontece pela alquimia do fogo.
          -Pode ser que tenha sorte – aventurou Domingos –. Acabei de ver um chinelo com a ponta poupada. Talvez algum cordão, ou um alfinete de gravata antigo, possam ser ainda recuperados com vida – sublinhou, enquanto experimentava  uma sensação esquisita. Isso deixava-o perdido e a meio caminho entre o hotel, onde o amigo o acolhera em apuros, e a aldeia do Eito representada na tela, e de que, de alguma forma, a tragédia de duas famílias o tornara mais um membro, revoltado com a horrenda acção de Telmo. Era por causa disso que dele se ia apoderando uma forte vontade de fazer ao protagonista o que o protagonista fizera a três inocentes: lançar-lhe fogo e mandá-lo para o Inferno, como Telmo  mandara três almas para o céu através do  recurso ao maldito isqueiro.
          Assim, numa estranha intermitência entre realidade e ficção, Domingos interrogava-se acerca de Fausto e do seu poder, bem como da droga que lhe ele dera no seu quarto de Príncipe da Montanha para lhe amaciar a ressaca. Talvez Fausto tivesse duas caras e uma delas talvez fosse a própria cara do Diabo, que, em diversas circunstâncias, sobretudo ao longo da visita ao complexo turístico ciceronizada pelo anfitrião, pareciam sugerir-lhe. Nomeadamente o precipício, em cujo caminho se cruzara com almas desgarradas como quem vai ansioso para o suicídio, sinónimo de libertação. Quem viva no inferno talvez nunca consiga sair dele. Daí o desespero.
          Orlanda surgiu entretanto à porta da sala. Fez sinal a Fausto de que mais um amigo acabara de fazer uma reserva para uma estadia longa…
          Fausto, pedindo desculpa aos companheiros, levantou-se depois de os informar de que acabava de ocorrer uma emergência na recepção.
          -Podem continuar. Não demorarei, estou em crer – mas Mateus Rosa e a amante aproveitaram o ensejo de se libertar do drama que Fausto escolhera para o tempo de lazer do amigo, sabe Deus com que fim.

continua






Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Junho 11, 2020, 19:56:28
E o romance adensa-se!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 12, 2020, 11:58:58
                                                                                      42

          Rodrigo, de calções, t-shirt e sapatos pretos de pala, que o deixavam algo ridículo, impossibilitado pelo calor de procurar o seu tesouro debaixo das cinzas e algo desiludido, tendo de esperar ali o regresso da família, sentou-se pensativo num pequeno muro da estrada. Sozinho, por agora, triste com todos os acontecimentos, pela primeira vez se dera conta de já não fumar um cigarro desde a véspera, antes de se deitar ainda com a visão do seu mundo ali à frente intacta. Sentiu, como nunca, a falta de tabaco. Mas, pobres como estavam, tão cedo não poderia dar-se ao prazer de pôr um cigarro nos lábios para matar o vício por um instante. O dia continuava com o mesmo ar viciado dos últimos tempos, desde que Julho se despedira do calendário, mortal como uma adaga. O calor, àquela hora, prenunciava uma tarde abrasadora, fustigada de novo a vento leste, com mais um céu plúmbeo invadido pelo fumo de todos os incêndios, em contínua laboração de norte a sul numa guerra à escala nacional.
          Enquanto lamentava a decisão de não ter acompanhado a família na viagem de Manolito e se via impossibilitado de ia até à morgue a pé, principiou a sentir uma sede de homem pouco habituado ao deserto. Nem um pássaro se via por ali, uma mosca, uma lagartixa a rabear, saída de um buraco para apanhar o sol de início de tarde. A memória trouxe-lhe lembranças da mata, verde e de pé ainda na véspera, ao passo que hoje não havia ali uma única árvore capaz de derramar sobre si uma nesga de sombra. Tudo estava morto. Aqueles tocos ao alto, aqui e ali, eram a nova realidade, absolutamente fantasmagórica. Todos teriam de a enfrentar com a coragem possível, mais ao deus dará do que nunca. E, com a secura a rebentar-lhe lábios e a assorear-lhe a garganta, ponderados os prós e os contras de não estar ali quando Inácio regressasse, decidiu pôr-se a caminho da aldeia, onde sempre poderia pedir um copo de água à proprietária do café. Talvez o irmão tivesse já as coordenadas do funeral do sobrinho, alinhavadas entretanto à porta da morgue. O cangalheiro incumbido de levar até à última morada os restos mortais de Diogo e de Ana Rosa devia andar por lá nos preparativos para os enterros. Ao menos este assunto já estaria, com certeza, em vias de ser resolvido. E a reforçar-lhe a decisão de sair dali estava Pepe, o cavalo, que, como ele, estaria provavelmente sequioso e irritado com as moscas a dançarem-lhe no focinho como vampiros apreciadores de um bom travo de ureia.
          Ao longe, o silvo dolente do comboio deixava-o mais só do que nunca. E quando, daí a nada, sentiu um carro atrás de si e se virou com a intenção de pedir, com pouca convicção, boleia ao condutor, viu finalmente uma equipa de televisão parar ao seu lado como o propósito de lhe fazer algumas perguntas. Às vezes a televisão chegava aos locais da tragédia primeiro do que os bombeiros, mas, neste caso, dividida pelos quatro pontos cardeais, a fazer a cobertura de um verão pródigo em labaredas, chegara quando o fogo andava entretido noutro quadrante, a queimar o que a acção dos bombeiros não conseguisse impedir. Embora, sabendo-o ou não, a equipa tivesse chegado ao berço do fogo, um acampamento de gitanos agora reduzido a cinzas e a memórias tristes.
          Depois de sair da viatura, identificada com o nome da estação, uma jovem repórter de rabo-de-cavalo, com a certeza que a pele daquele homem de calções e algo enfarruscado lhe dava a entender estar perante um cigano, a seguir ao “boa tarde”,  a medo perguntou-lhe:
          -Desculpe, mas é por acaso parente das pessoas que aqui moravam?
          -Eu morava aqui…
          -Lamento muito…Então não se importa de me dizer o que se passou, se conseguir? – Deve estar abalado com tudo, mas o meu papel neste caso é informar…
          -Têm, por acaso, aí alguma água? Estou a morrer de sede!...
          Quando o ar calcinava gargantas por todo o lado, era inevitável andar desprevenido e sem uma ou duas garrafas do precioso líquido. E quando um dos homens, de dentro do carro, lhe estendeu uma, Rodrigo esvaziou-a de um trago. A seguir, acedeu à proposta da jornalista, antes de pedir um cigarro ao colega da rapariga.
          E de novo teve de lembrar a véspera fatídica, com um cão envenenado à porta, crianças inconsoláveis a assistirem praticamente à morte do animal. Sobretudo Litos e Manolito, este a morrer depois carbonizado dentro da carrinha dos pólos enquanto todos fugiam do fogo sem suspeitarem de que este lhes acabava de roubar um dos seus.
          -E a Judiciária já veio aqui recolher vestígios? – perguntou ela?
          -Essa ainda não. Esteve a GNR. Até levarem o corpo para a morgue.
          -Não é costume. Mas sei lá…
         Mas, em off, a jornalista comentava que os incêndios não eram situações de investigação prioritária. E isso era perfeitamente compreensível. Se em cada verão, sempre que era noticiado um evento do género, saísse para o monte uma equipa de investigadores, nem a força e a mão-de-obra de um exército chegaria para dar vazão aos milhares de processos acumulados anualmente sobre as secretárias dos investigadores. Para isso, para um maior eficiência, teria de haver um ou outro elemento que fizesse a diferença. Para pior, como no caso recente.
          -Então ainda deve vir recolher vestígios. Afinal houve aqui uma morte, a que se seguiram outras duas na aldeia.
          Nesse meio tempo, haviam chegado ao local três motas conduzidas por outros tantos rapazes, seduzidos talvez pela eventualidade de uma imagem de dez segundos no ecrã.
          Rodrigo, depois de responder às perguntas da jovem, pode finalmente acender o cigarro que lhe fora oferecido. Fumou-o avidamente, já a equipa arrumava o material usado para a reportagem. A vedeta fora principalmente a carrinha calcinada, que fora focada por várias vezes. Ao lado, viam-se dois barracos de tijolo, erguidos no meio de uma mata de canganhos negros. E tudo ali contrastava com a auréola rasteira onde, sobre o cobertor, tinha estado o cão morto, a primeira vítima, ao que se supunha, de um incendiário sem alma.

                                                                                      43

           Foi na viatura da televisão que Rodrigo, aproveitando a boleia e furtando-se a um caminho orlado pela aridez do calor, se dispôs a ir indicar aos repórteres o local onde haviam perecido Ana Rosa e o pequeno Diogo. Enquanto isso, as motas seguiam atrás, com um ou outro carro chegado entretanto, dispostos uns e outros a sulcar a rota da tragédia. Nenhum deles sabia se por solidariedade, se por uma necessidade de se empanturrarem de horror até ao nojo, tentando enganar deste modo a dor. Nem Leandro, nem Catarina, nem qualquer outro membro da família estava por ali. E, mesmo que estivessem, não quereriam provavelmente submeter o seu sofrimento ao escrutínio nacional através de imagens ou algum depoimento, que seria sempre doloroso.
Foi por isso um vizinho de Ana Rosa, um homem à roda dos sessenta anos, a relatar de novo os acontecimentos, enquanto se procedia neste novo local à recolha de imagens, completadas pelas informações do homem, que também as vivera sem nada poder fazer para alterar o resultado.
          O sítio onde, de momento, os bombeiros faziam frente ao fogo foi a etapa seguinte da reportagem, com o Chefe Cláudio a fazer o ponto da situação. Enumerou as corporações de bombeiros, os equipamentos e a escassez de meios para um combate mais eficaz, já que os aviões não podiam ser para ali deslocados. Além das características do fogo e do vento que o alimentava e das portas que seria preciso fechar para o circunscrever.
          Rodrigo, desde a Rua do Cabeço, deslocando-se a pé para o largo da igreja, com o saco da roupa na mão e sem se atrever a vesti-la por estar demasiado enfarruscado, mal chegou, deu de caras com o cavalo a beber água no mesmo balde onde já havia bebido antes, cheio agora pela dona do café, incomodada pelas relinchadelas do pobre animal.
          Enquanto esperava pelo regresso da família, o homem pegou em cada uma das coisas ali espalhadas e arrumou-as a um canto como se estivesse a limpar os restos de trapos e papéis de uma feira ao final do dia. Sendo hora do almoço, muitos dos homens que haviam ajudado os bombeiros regressavam a casa, combinando entre todos uma colecta de água e de alimentos para levar a seguir aos soldados da paz.
          Daí a pouco chegou o Padre Fernandes, um homem moreno, dos seus sessenta e cinco anos. De estatura mediana e algo careca, vinha de uma missa de sétimo dia, celebrada numa paróquia vizinha onde também oficiava. A escassez de vocações sacerdotais obrigava-o a dividir-se. Às vezes tinha quase de ser ubíquo, embora não tivesse podido estar ali mais cedo quando tanta gente precisaria de uma palavra de conforto proferida na terra por um representante de Deus.
          Ainda antes de poder entrar na sacristia, dirigiu-se a Rodrigo, trocando com ele algumas palavras. Ao mesmo tempo, constatava quão deprimente era toda aquela exposição de colchões, farrapos, cobertores e sacos plásticos de boca aberta como a fome dos pobres. Apesar da recente arrumação, tudo dava a entender uma gritante falta de hábitos de civilização, de que eles não teriam talvez toda a culpa mas que, ainda assim incomodava.
          Não demorou grande tempo até Sãozinha, a zeladora da igreja, entregar ao pároco as chaves do templo e do equipamento destinado, durante o ano, a acolher as actividades dos escuteiros.
          Uns minutos após, já o padre estava no interior das igreja. E, depois da entrevista à televisão na qualidade de autarca, em que realçou um certo abandono por parte das entidades oficiais, surgiu António Pinto afogueado. Entrou a seguir no templo para se encontrar com o pároco. O assunto que os obrigava a reunir a toda a pressa tinha a ver com o alojamento dos ciganos.
           -Como o senhor padre vê, estão agora aqui – disse apontando para a porta de saída, como que a sinalizar Rodrigo do lado de fora -. Treze pessoas, com outra a caminho. A mulher daquele ali fora está grávida. Quase no fim do tempo. Os outros devem chegar daqui por um bocado. Devem estar agora à entrada da morgue, sem um cêntimo furado no bolso. De comer ainda se vai arranjando, embora a junta não nade dinheiro. Agora um barraco para os meter isso é um bocado mais difícil.
          -E então, como poderia eu ajudá-lo? Não estou a ver um local capaz de albergar treze pessoas com tais características…
          -Pois. Talvez metê-los por um dia ou dois nas instalações dos escuteiros, se o senhor padre concordar…Já estive a matutar no assunto e o caso é bicudo… Não é de uma hora para a outra que se lhe dá solução. Certo, certo é eles não poderem ficar ali fora, a sujar o largo e a fazer barulho, de dia e de noite. Até já a dona do café, apesar de os pobres diabos estarem aqui há apenas cerca de doze horas, já se queixou de que lhe deixaram a casa de banho num mísero estado.
           -E, então, na sua qualidade de autarca, quer o senhor presidente resolver o problema da Dona Celeste à custa dos pobres escuteiros... – ironizou o pároco
          -Bem…
          -Na verdade adivinha-se que, deixando eles de causar mossa no café e no largo, muito mais preservados do escrutínio do olhar alheio, a irão provocar no interior do edifício – retorquiu o padre Fernandes, lúcido e acutilante.
          -Tem razão. Por mais humanos e cheios de boa vontade que sejamos, não há como fazer vista grossa ao estado semi-selvagem deles. E isso, à partida, complica a solução. É claro que o meu medo, como o do senhor padre e de qualquer pessoa, é eles entrarem num sítio provisoriamente e abancarem lá para sempre. Como fizeram no pinhal dos Vieira. Mas não podem ficar lá fora… Nem sequer esta noite. Amanhã ou depois será o funeral do rapazinho e temos de dar um pouco de dignidade à questão.
          -E o Senhor António Pinto quer aproveitar a situação para ganhar mais alguns votos nas próximas autárquicas?…- Não sei se estou disposto a contribuir para a sua estratégia da victória… – acrescentou o padre, a quem se conheciam simpatias políticas noutro quadrante –. Além de que eu não poderia decidir sozinho...  
          -Senhor Padre, não esteja tão certo disso, dos votos!... Este assunto não passa de um pau de dois bicos. Se eu conseguir tirá-los daqui e pô-los num sítio qualquer, a expensas da junta, ajudado eventualmente pelos serviços sociais da câmara, se houver algumas pessoas a aprovar o resultado, talvez as mais sentimentais, as que morem mais longe do olho do furacão, há-de haver contudo um sector alargado da população a acusar-me de gastar os poucos recursos públicos em prol de gente que não paga um único cêntimo de impostos. Então se pensarmos na fama do acampamento como um antro de droga, por muita humanidade que cada um possa experimentar ela resvalará de imediato pelo cano de esgoto como um mal-entendido.
          -Mas, será que não há mais nenhuma hipótese? Que tal uma pensão? Não seria a primeira vez!... Aliás, é frequente isso acontecer quando há desalojados em situações de catástrofes.
          -Julga que não envidei já esforços nesse sentido? Já falei até com o presidente da câmara. Mas, qual é o dono de pensão, ou de hotel, que quer ciganos alojados nas suas instalações? E se os serviços públicos estão vinculados aos preceitos constitucionais de não descriminação, em função da raça, ou credo religioso, os particulares arranjam sempre maneira de contornar isso. Foi o que se passou com duas ou três contactadas. Quando perceberam de quem se tratava, treze pessoas, entre adultos jovens e os restantes, crianças dos dois aos dezasseis anos, as unidades passaram de vazias a abarrotar. E era eu quem as iria desmentir?


continua
                                                                          


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Junho 14, 2020, 12:02:01
No tempo em que comecei a conhecer ciganos eram nómadas que pousavam de terra em terra,  ao frio, à chuva, ao vento. Ninguém lhes abria a porta. Os tempos mudaram. Por isso, mas não só, vou abrir a porta. Afinal de cigano e louco todos temos um pouco.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 14, 2020, 20:33:25
                                                                                         XXXV
          Com a emergência que o obrigara a levantar-se sanada, Fausto chegou entretanto à sala. Domingos falou de Mateus Rosa e de Rita, realçando a falta de coragem dos dois para assistirem ao resto da trama. Era – haviam dito ao levantar-se – demasiado dramática para quem, ao longo da vida, nunca tinha sentido um único momento de escassez. Nem sequer na lata do pão. Muito menos de um naco de felicidade que pudesse ser comprada pelo bendito dinheiro.
          Domingos, de novo seduzido pelo carisma do amigo, depois das dúvidas de há pouco sobre a sua idoneidade, e perante a fartura de tudo com que o presenteara como um verdadeiras mãos largas, pô-lo ao corrente do enredo visionado durante os cinco ou dez minutos de ausência de Fausto.
          -O padre e o presidente da junta estão a discutir a possibilidade de Inácio e a família irem para as instalações dos escuteiros. Mas parece-me que o homem estará a fugir com o rabo à seringa. Acaba de sugerir a António Pinto para mandar os ciganos para uma pensão. Este respondeu-lhe que já o tentou, sem encontrar uma única disponível, depois de todas elas demonstrarem a pouca importância que dão à constituição da república no que diz respeito a minorias étnicas.
          -Não era de esperar outra coisa. O melhor lugar para os ciganos, gregos, sírios e troianos é sempre longe da porta. É o que todos pensam. Quem escreveu esses princípios não passa de um romântico saudoso do tempo em que os zíngaros erravam pelo mundo, levando atrás de si o misticismo das suas lendas. Sobretudo quando as mulheres paisanas, geralmente sacrificadas com inúmeros deveres e sem grandes contrapartidas senão parirem uma criança todos os anos, queriam saber do futuro, adivinhado por uma cigana velha nas palmas das suas mãos. Nessas épocas longínquas, não se sabendo de onde eles vinham os ciganos eram vistos como gente proveniente de uma terra encantada, para lá dos sonhos e da imaginação. Sobretudo das crianças. Era comum estas imaginarem-se a viajar com eles, a ouvir os seus contos fantásticos, a partilhar-lhes da magia do colorido das suas roupas de panos tingidos e vindos da Índia. Era o que eu sentia quando, entre Setembro e Fevereiro, ouvia o chiar penetrante da carroça a rolar pela estrada e os via, depois, debruçados nas cancelas das casas, à procura de um porco morto de doença. Mesmo enterrado há três dias. Numa sabedoria milenar, acreditavam estar imunes à transmissão da peste que vitimara o animal. Talvez por se julgarem mesmo uma raça encantada, quase supra-humana, vinda de uma outra galáxia. Salgada a carne, com sal-gema grosso, havia comida para um bom par de meses. Sobretudo se a morte, nesse ano, durante o cevo dos porcos, tivesse visitado umas poucas de pocilgas em tempo de gripes. Uma galinha enterrada há um dia ainda a desenterravam e comiam, mas de uma cabra, acabada de morrer, fugiam como o diabo da cruz.
          Agora, depois de os obrigarem à fixação, apesar de todas as leis, foi-se a magia e os problemas acamparam com eles. São poucos os que se integram, são poucos os que cedem um bocado dos seus costumes para se adaptarem a uma vida social criada por decreto para os tornar o que eles nunca se sentiram, nem serão. Nem a maioria da população quer que eles sejam. Essa é que é a verdade.
          E se o Padre Fernandes e o presidente da junta, de baixo do telhado da igreja e sob o olhar dos santos, qualquer que ele fosse – de tolerância ou de admoestação –, haviam posto o dedo na ferida, em nome dos interesses de uma comunidade, Fausto ia mais longe. Acusava, um e outro, de serem dois hipócritas, a quem não interessava um dedal o bem-estar das treze criaturas despejadas do acampamento por um incendiário ainda desconhecido. O foco da questão deslocava-se, de onde deveria estar, para se situar na perspectiva dos danos que a situação pudesse um dia causar à população. O que nenhum dos dois desejaria era ter, a queimar-lhe as mãos como castanhas quentes numa tarde fria de outono, um problema de tais dimensões. Um problema capaz se se tornar elástico, à medida que se lhe puxassem os fios intrincados e difíceis de deslindar, por estar em causa gente cujos hábitos, incluindo os de higiene, eram tudo menos ortodoxos. Pelo menos aos olhos dos patrícios.
          -A maneira como vivem é, de facto, pouco convidativa à integração. A um domingo à tarde, quando quem não toma banho todos os dias, se lava ao menos para ir à missa, os homens e rapazitos estavam sujos e remelosos. Só Cármen e a filha pareciam limpas. Pelo menos Telmo não desviou o nariz quando se cruzou com elas no comboio, como têm de fazer passageiros sensíveis brindados, demasiadas vezes, com o mau odor de criaturas pouco amigas da água e do sabão.
          -Seja como for, aqueles dois, ali a tecer destinos como quem dispõe as tiras de trapos no tear, regem-se por tudo menos por razões humanitárias. É a esta gente que, na primeira oportunidade, gosto de apanhar a jeito…
          -Para quê? Para os reciclares? – perguntou Domingos, sorrindo –. Quem te ouvir pensará que tens uma fábrica de moldar corações como se eles fossem de plástico.
         -A meu modo, tenho… Na verdade, sinto-me sempre provocado com gente como aquela, e nunca deixo de reagir. Melros iguais ao padre e ao presidente da junta há-os aos milhões em todo o mundo. E só têm provocado estragos na humanidade. Os políticos são, a maioria deles, uma raça maldita. Então os europeus e os americanos, com a sua grande percentagem de pessoas oriundas do velho continente, os únicos espécimes da criação humana que se acham civilizados, são responsáveis pela maioria deles nas suas deambulações pelo globo.
          -Não te esqueças que não és Deus, Fausto. Não podes mudar o mundo com um estalar de dedos. As coisas levam séculos a mexer-se. Além de nem sequer acreditares em Deus… - fez notar Domingos.
          -Ora aí está. Os senhores de quem falo, esses sim, julgam-se Deus. Quando estão em jogo certos interesses, saem da toca armados até aos dentes, dispostos a impingir os seus costumes a povos que nunca os partilharam, nem partilharão, durante o tempo de vida no planeta. Pois se alguns povos, por exemplo, sempre se deram bem com a poligamia, por que raio não há-de um homem, um soba africano, ter sete mulheres? Se tiver setenta filhos, dez de cada uma, morrendo trinta ou quarenta por cento, o casamento torna-se na condição básica de sobrevivência da espécie. E para que lhe hão-de levar antibióticos se depois eles não têm de comer? Se ao menos lhe levassem água!... E se sempre se deram bem e conseguiram até grandes prodígios civilizacionais com uma ditadura, por quê exportarem para lá a democracia, quando ninguém faz ideia do que isso seja?
          -Tens razão…
          -Pois, é mesmo destes que eu gosto, para os queimar no Inferno…
          Se, em certas ocasiões, Fausto parecia estar ao lado dos mais desvalidos, noutras, ao fazer o levantamento exaustivo da choldra global em que o mundo se transformara, comportava-se como um verdadeiro advogado do diabo. Às vezes parecia que o seu lugar era entre os grandes criminosos, como se vivesse para ser continuamente estimulado através de sangue e horrores e quisesse advogar irrevogavelmente nas suas causas sinistras. Ou, então, à medida que o tempo passava, as drogas tinham em Domingos um efeito que o levavam, progressivamente, a duvidar da generosidade do amigo.


                                                                                       44
          -Senhor presidente, o assunto é deveras complicado. Mas, não haverá, de todo em todo, outra solução? Até pode ser que eles nem queiram nada disto… Talvez tenham família…
          -Não me parece. Se assim fosse, não viveriam há anos na mata dos Vieira. Sobretudo depois de estes estarem fartos de lhes pedir para desocupar o terreno… Entre amigos, falou-se também, e ainda, de uma casa à venda a que ninguém pega por causa da fama de estar assombrada…Foi o João dos frangos quem a sugeriu, ele que também ficou sem o aviário…
          -Talvez seja boa ideia. Como padre, não me proponho ir lá fazer um exorcismo. Mas pode ser que uma magia cigana resolva o problema aos fantasmas, espantando-os definitivamente para o reino dos mortos – sorriu, depois de ironizar com as almas do outro mundo
          -Se calhar…
          -Quando às instalações dos escuteiros, nada feito. Não vou permitir que as transformem em aidos onde os ciganos se recolheriam em irmandade com cavalos e galinhas. A organização merece-me todo o respeito.
          -É a sua última palavra, senhor padre?
          -Com certeza.
          E, entre dentes, António Pinto esboçou sobre o assunto conjecturas: “ Quero ver como vai ser com o funeral do rapazito, Um bico-de-obra se os corpos forem libertados da morgue no mesmo dia, Como não caberão os três na capela mortuária, vai ser bonito, Se calhar nem a Catarina nem o Leandro quereriam juntá-los, Nem o resto da população gostaria de se misturar com os ciganos, nem sequer no cemitério, Mas isso é um problema teu. O do alojamento já me chega, Resolve como quiseres”.
          A seguir, ao sair da igreja, comparou as suas funções políticas com a humanidade de Cristo, tantas vezes apregoada ali dentro em sermões de missa, e concluiu que umas e outra se equivaliam. Às vezes não levavam a nada.
Passou, depois, frustrado pelo insucesso da diligência junto do padre, por Rodrigo, brindando-o, não com qualquer palavra, mas com uma expressão de compreensão pela perda do pobre Manolito e dos bens de primeira necessidade de duas famílias, ignorando os negócios escuros de que o acampamento seria palco. Neste caso, e no meio de algumas contradições, uma pequena frase diria tudo “Bem feito!”
          O calor abatia-se sobre tudo. Milhares de fagulhas mortas, a bailar no ar, procuravam, mais em baixo, caminhos, telhados, terraços e o que encontrassem à mão para se aquietarem um pouco. Sobretudo roupa branca a secar nas varandas, em que se espetavam como mosquitos confiantes nas suas garras predadoras. O som de uma buzina de bombeiros, ao longe, chegava algo esbatido ao centro nevrálgico dos acontecimentos, o Largo da Igreja do Eito, enquanto António Pinto continuava com um grande problema por resolver.
          O homem entrou a seguir no café. Por ser hora de almoço, ali estavam agora Heitor e Ricardo, marido e filho da Dona Celeste, que, na parte superior da casa, ultimava a refeição para os três. E, do café, pode ver alguns homens enfarruscados a sair de carros vindos da frente de fogo. Este, mais ao longe, principiava a galgar os limites do concelho, para se ir empanturrar com as matas vizinhas depois de ter devastado as da terra deixando por todo o lado as marcas de uma passagem devastadora.
          Quando, daí a nada, saiu, embora Heitor já soubesse de que mãos criminosas se haviam apoderado do dinheiro e do ouro da velha Madalena, nada disse a António Pinto.
          O presidente cruzou-se, a seguir, com o jeep de Nelson, o actual namorado de Marisa, depois de esta, tempos atrás, ter descartado Telmo da sua vida como "persona non grata". E, antes de abandonar o largo, onde o cigano ficou sozinho, sentado no banco sob a acácia, António Pinto pode ver Nelson, algo circunspecto, a entrar na rua da rapariga, enquanto alguns homens se dirigiam às suas casas para o almoço. Incluindo Abel e os dois filhos, Sérgio e Luciano. No fim da refeição, todos preparariam um pequeno farnel destinado aos bombeiros, que não arredavam da frente do fogo.

                                                                    45
           Marisa recebeu sorridente o seu estudante de veterinária, antes de perceber que, de véspera, Telmo, no breve encontro com eles, quando se despediam à porta de casa, havia causado alguns estragos na auto-estima do rapaz. Este, um jovem moreno de vinte e um anos, era pouco mais alto do que ela. O cabelo, algo crespo, situava-o numa descendência de segunda ou terceira geração com origem africana, confirmada pelos lábios grossos e pelo tom escuro da pele.
          Após o primeiro beijo, demasiado fugidio da parte do rapaz, não demorou muito até a rapariga perceber que a insegurança pessoal voltara a infernizar a vida do namorado. A ponto de forçar o encontro de hoje, quando não esperaria que Nelson se aventurasse por estradas cortadas a meio do caminho por causa do fogo, depois de terem passado juntos o domingo.
          Mal subiram à sala de casa onde Marisa, filha única, se encontrava sozinha, no dia em que os pais se haviam deslocado a Viana do Castelo por causa da venda de um terreno numa aldeia minhota, Nelson mostrou, quase de imediato, a farpa que o encontro da véspera lhe espetara coração. A mesma viera, certeira, quando a rapariga, virada para a rua durante as despedidas, se separara dele, aparentemente comprometida com o passado. Esse gesto, ao que agora lhe parecia, fora entendido por ele como se ela  ela tivesse sido tomada de assalto por um afecto antigo em que o namorado de outrora seria, com certeza, o destinatário. E, depois de uma noite corroído pelo ciúme, às voltas na cama como uma lagartixa a fugir ao calor, resolvera telefonar-lhe para esclarecer as coisas de uma vez por todas.




continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Junho 22, 2020, 16:59:58
Lá tem que vir o ciúme. Esta gente não aprende que mulheres há muitas. Talvez sete para cada um, segundo as estatísticas.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 24, 2020, 11:25:39
                                                                                      
                                                                                              XXXVI
          -Conheço uma rapariga parecida com a Marisa, mas não consigo lembrar-me de onde. Não sei se é por causa disso que não simpatizo com ela… É uma delambida, não me inspira confiança. É como se já me tivesse feito algum mal… Não sei como, nem como não… Não me parece que goste muito do rapaz… Por mim ele deixava-a…
          -Gosta sim. E muito. Só que o rapaz compara-se com o ex da Marisa e boicota-se a ele próprio. A jovem vai precisar de uma boa dose de paciência que lhe dar alguma tranquilidade. Telmo esteve talvez demasiado tempo na vida dela. Era ela uma criança quando ele a foi arrancar às saias da mãe, com o primeiro olhar esverdeado que lhe lançou. É natural sentir-se ainda perturbada com a sua presença. Mas não necessariamente por ainda gostar dele.
          -De facto, o rapaz parece ter um fraquinho por miúdas. Não deixou de deitar os olhos de cobiça a Sameiro, quando a encontrou no comboio acompanhada pela mãe e a manear as ancas, depois de as seguir até ao acampamento. A ciganita também só tem quinze anos, ele é um matulão de vinte e seis.

                                                                            

                                                                                                  46
          -Ontem, quando o Telmo se aproximou de nós, ficaste estranha… -começou o rapaz por dizer.
          -Estranha, como? – fitou-o surpresa, mudando a expressão inocente com que iniciara o encontro e colocando-se em situação de pé atrás com a conversa.
          -Não sei… Foi como se o beijo, de repente, te começasse a saber a sabão e precisasses de passar a boca por água…
          -Que ideia mais disparatada!
          -Não é nada…. Se visses a tua cara não dizias isso...
          -E como é que ficou a minha cara, podes dizer?
          -Desde logo, ficaste vermelha como uma cereja. Era como estivesses a fazer alguma coisa que ele não devesse ver por estares a tirar-lhe direitos adquiridos ao longo da meia dúzia de anos em que estiveram juntos…
          -Por acaso foi ele que acabou comigo?
          -Não. Mas só o deixaste por ele ser um traste mandrião, um drogado. O que não significa que tenhas deixado de gostar dele...
          -Claro que deixei! Não sei por que vens agora com isso! Se estivesse feliz não havia razões para o largar! E tu estás a ser tremendamente infantil!
          -Ele ainda continua a ligar-te?
          -Não sei. Talvez anonimamente, de vez em quando. Mas essas chamadas eu não as atendo.
          -Nunca me disseste isso…
          -Para quê? Para te aborreceres comigo e ficares com essa cara de mal-amado?
          -Não era suposto partilharmos todas as coisas?
          -Nem todas, Nelson. Deus te livre de algum dia me pedires a palavra-chave do Facebook e do meu email. Muito menos te atrevas a vasculhar-me o telemóvel!
          -Ele fez-te isso algum dia?
          -Já te disse que sim. Uma vez, já não andávamos muito bem, devassou-me as mensagens. Nessa altura já estava lá uma tua… E por favor não me fales mais nisso! O que eu quero é esquecer que o Telmo existe! Tu passas a vida a lembrá-lo, a trazê-lo para o meio de nós como um fardo para os dois!
          -Eu nunca te farei algo do género. Era incapaz de ler um email dirigido a ti sem seres tu a mostrá-lo…
          -Não sei, não! Com essa mania de que és um rapaz desinteressante e que eu sou uma rapariga fatal, ainda acabas por deitar tudo a perder!
         -Desculpa…Não queria que levasses as coisas a este extremo...
         -Ai eu é que estou em casa sossegada, dizes que queres almoçar comigo, fico toda contente e depois vens com essa conversa parva de que ainda estou apaixonada pelo outro anormal! Agora eu é que levo as coisas ao extremo?
         -Desculpa – disse Nelson mais uma vez – sabes que sempre fui muito inseguro…- e, depois de lhe pegar nos dois braços com suavidade, tentou beijá-la, mas a rapariga soltou-se bruscamente, fugindo a seguir para o quarto de lágrimas nos olhos.
          Nelson seguiu-a, confrangido com a situação que acabara de criar. Tinha, contudo, a esperança de ali, na macieza da cama, onde tantas vezes se haviam entregado um ao outro como dois pássaros sem memória, ambos pudessem deixar para trás, e para sempre, o mal-entendido desencadeado na véspera por uma presença pouco amistosa para com qualquer um deles. Talvez, por entre os beijos e carícias de uma reconciliação, o avesso do mundo, dentro e fora de portas, como a que ele abrira para deixar entrar um ciúme sem sentido, deixasse de existir. Mas, antes de tudo, estava com o terrível medo de que Marisa se zangasse seriamente, e que, por causa de um “morto”, nunca mais o quisesse ver. Isso seria como rebentar-lhe no peito um petardo que lhe retalharia o coração em estilhaços, impossíveis de reunir numa operação de restauro. Amava-a como nunca antes amara outra rapariga. Desde que ela, numa tertúlia entre estudantes, no Porto, lhe falara, com alguma mágoa, de um amor de infância, que, por razões de carácter da outra parte, estava prestes a ficar no passado com uma mortalha por cima. E já se imaginara a entrar com ela vestida de noiva na Sé de Viseu:
           -Casar em Viseu? Agrada-me – respondera Marisa sorrindo, quando Nelson a pôs ao corrente dos seus sonhos de rapaz enamorado.
          -Vamos sair daqui. Conversaremos noutro sítio. Limpa as lágrimas e anda. Não gosto de ver-te chorar – disse de novo, pegando-lhe nas mãos, que de imediato sentiu estrebuchar entre as suas para se soltarem com rudeza.
           -Não quero! Está tudo a arder por todo o lado. Vai-te embora! Não me apareças mais à frente!
          -Vem ao menos almoçar, como combinámos…
          -Não me apetece comer. Vai-te embora, já te disse!
          -Por favor, Marisa, sê razoável!
          -É o que te tenho pedido sempre e vê no que deu. E olha, talvez os teus beijos me saibam mesmo a sabão e eu prefira sabonete!
           -Desculpa. Saiu-me. Não passa de uma frase infeliz…
           -Mas saiu! E agora só me apetece cuspir o mau gosto que ela deixou. Na boca e por todo o lado!


                                                                                  XXXVII
          -Parece que acabaste por influenciar a rapariga contra Nelson… – ironizou Fausto, provocador -. Ou eu muito me engano, ou este namoro tem os dias contados… Ou sou que que estou apenas a deitar achas para a fogueira…
          -Até seria capaz de o fazer, se pudesse – respondeu Domingos no mesmo tom de Fausto –. Não gosto de um nem de outro. O rapaz é um tonto. Só deve ter jeito para as éguas e para as cabras. Por isso foi para Veterinária. Talvez tenha lugar em África, de onde os antepassados vieram, a salvar animais em vias de extinção.
          -Quem sabe? Quem sabe se não o veremos um dia num programa do National Geographic a pôr elefantes a dormir à pistola para lhe dar antibióticos? Ao menos, por lá, há bem menos fogos. Dizem que os indígenas são primitos, mas se há gente que conserva bem as florestas são eles. Apesar de, de vez em quando, haver alguns fogos em certos continentes que engolem cidades inteiras, como aconteceu recentemente na Província de Alberta, no Canadá. O incêndio de hoje deixou toda a gente com os nervos à flor da pele.
          -É-lhe bem feito ficar sem a rapariga. Quem se havia de lembrar de beijos a saber a sabão senão um tonto?
          -Não estarás, por acaso, com inveja?
          -Com inveja de gente de filme? Não me faças rir, Fausto!
           -Baseado em factos reais, não te esqueças. E podes influenciá-los sim… - sugeriu Fausto enigmaticamente… Estando tu a dormir, nunca foste acordado com uma pessoa a teu lado absolutamente silenciosa a olhar para ti?
           -Algumas vezes. Pela minha mãe. Até quando era pequenino, como ela me chegou a contar.
          -Então? – retorquiu Fausto com ar zombeteiro –. Sopra para a tela os teus desejos…
          -Não me queiras fazer de tonto, como o rapaz dos beijos com sabor a sabão... – e Domingos sorriu, maldoso.

                                                                                      47

           Nelson, depois de Marisa ter posto na discussão a frase de mau gosto com que, na véspera, tentara ilustrar a reacção da rapariga, não teve outra alternativa senão bater em retirada. Ao menos por algumas horas. O tempo suficiente para Marisa esfriar a cabeça e decidir-se, em nome do substantivo comum masculino do plural designado por amor, pela desvalorização do incidente. Nunca esperara uma coisa tão violenta da parte dela. Conhecera-a no auge da sua turbulência afectiva com Telmo, quando ela se sentia o elo mais fraco num namoro de infância, de que ele, o namorado de agora, nunca deixara de ter algum medo. Sempre tivera uma visão romântica dos amores de infância. Imaginava os apaixonados unidos por um cordão invisível, tecido num lugar frequentado por deuses e fadas bondosas, mas às vezes trapalhonas, inquebrável até à morte. Ainda que, por um motivo qualquer, atravancados com obstáculos esculpidos nas oficinas do Inferno, os caminhos dos enamorados deixassem de se bifurcar, precisamente no ponto em que ele entrara em cena numa noite de tertúlia de estudantes. Mesmo que um e outro fossem infelizes, depois de deixarem para trás a eterna magia do primeiro amor, o mote decisivo para belas recordações no futuro. Não que a imaginasse uma mosca morta, sem personalidade e a pedir colo por tudo e por nada, uma rapariga mimada e sem peito nem condição para dar a contrariedades. Mas fora exagerada ao mandá-lo desaparecer. Embora, depois de tudo, concordasse que “beijos a saber a sabão” não haviam sido a melhor metáfora para catalogar a rigidez com que Marisa se afastara de si  ao deparar-se com Telmo, enraivecido com um cigano avesso a fiados nos seus negócios e prestes a descarregar a ira no pobre do Zico.
            E, então, saindo vagarosamente do quarto onde Maria jazia chorosa sobre a cama, regressou à sala, pegou no telemóvel e nas chaves do jeep que havia aí colocado à chegada. Daí a nada, metia-se nele, constatando que o dia, ilhado de labaredas como um mar encapelado de espuma e nevoeiro, tinha feito descer a sua ira sobre várias vidas. Incluindo a sua e a da Marisa. Apesar de os ter poupado a ambos. Coisa que não acontecera a duas crianças e uma mulher idosa do povo que haviam morrido no meio de chamas.
           Já dentro do jeep, passou a seguir por Rodrigo, fez-lhe um aceno com a mão e regressou a Viseu.


                                                                                         48

          Marisa, sem almoçar e com a fome encolhida para o nível zero, enroscava-se na almofada, como se esta fosse a única coisa capaz de a reconfortar naqueles instantes de desilusão contra os rapazes em geral e contra dois em particular. Não conseguia evitar comparações. Se um se lhe atirara aos calcanhares da infância e a sufocara com a supremacia que a idade lhe dava, o outro, agora que se libertara das garras de Telmo, vinha destapar luras de onde os coelhos já tinham partido há muito. E se uma bonita cor de olhos, o ar garboso e o cabelo ruivo do ex-namorado haviam tido um papel importante num encantamento de outrora, este principiara a morrer ao mesmo tempo que ela florescia em beleza e se dava paulatinamente conta de que Telmo nunca passaria de um peso morto na vida de uma mulher. Fora demasiadas vezes dissuadida pelos pais de se ligar ao filho mais velho de Suzete e de Abel. Contudo, teimou em ignorar os avisos de mandrião e drogado dependurados no pescoço do rapaz, como se ele não passasse de uma loja em saldos. Além de tudo, de fraca qualidade. Telmo nunca fora modelo de virtudes em lado nenhum. E, só depois de o deixar, passara a compreender melhor a relutância dos progenitores em entregar a única filha a uma pessoa como a que o tempo viria a revelar, deixando-lhe as dobras sinistras à mostra. Telmo não gostava de trabalhar, Telmo enchia-se de bebida, Telmo, a partir de determinada altura, começara a drogar-se. Teve a certeza disso quando a melhor amiga, ao passar um dia de carro perto do acampamento dos ciganos, o viu a sair de lá com cara de comprometido.
          -Deixa-o Marisa! Ele é demasiado velho para ti! – Disse-lhe um dia a avó materna, na aldeia, em Viana do Castelo.
Zico, depois de ouvir a porta da rua bater, saiu do lugar onde estava, algures no quintal empoleirado numa árvore, e subiu pela porta das traseiras. Pressentindo o desânimo da dona, foi até ao quarto dela, lançando-lhe, do tapete onde se quedara por instantes, um terno olhar, antes de se decidir saltar para a cama e ir aninhar-se junto dela, ronronado de mimo como se a quisesse reconfortar do seu recente desgosto. Marisa acariciou-lhe o pêlo macio durante algum tempo, acalmando um pouco ao contacto da sua mão com um amigo de quatro anos, um gato preto luzidio e afável que um dia ela salvara da incerteza das ruas.
           Daí a nada, o gato dormia tranquilamente uma sesta antecipada. Enquanto isso, ela prosseguia com o inventário da sua vida com Telmo, bastante mais longa do que a que já vivera com Nelson. Por isso lhe ocupava bastante mais espaço de memória, repleta de coisas sem sentido e a precisar de ser esvaziada para dar lugar a novos arquivos com o novo protagonista. Os pais haviam ficado radiantes quando um dia ela lhe apresentara Nelson depois de se ter livrado de Telmo. Tratava-se um rapaz de boas famílias, beirãos retornados de Moçambique depois do 25 de Abril, e que, após tantos anos na cidade da Beira no fabrico de cerveja, se dedicavam na zona de Viseu à cultura de vinhos de qualidade. De algum modo, Nelson escolhera veterinária por ser uma profissão ligada à terra. Com três irmãos, dois rapazes e uma rapariga, ele era o mais novo. E, até o dia de hoje, nunca os namorados haviam sido espicaçados por grandes mal-entendidos de que não pudessem desviar-se a tempo. De resto, Nelson era um rapaz carinhoso, sensível. Sobretudo, tinha boa índole e sentido de responsabilidade. Sossegado, não dava muito nas vistas. A não ser quando era descoberto no meio de uma conversa em que se revelava bonito, por entre as suas opiniões sensatas e uma cultura para lá da média dos rapazes com a mesma idade.
           -O que lhe terá dado hoje? – pensava Marisa entre lágrimas, enquanto continuava a afagar  o pêlo de Zico, a dormir feliz a seu lado –. Nunca se dedicou a metáforas tão bizarras para ilustrar sentimentos.
Talvez fosse melhor transformar a frase infeliz em motivo para rirem os dois quando o mau tempo destapasse o sol, que, por causa do fumo, hoje estava demasiado venenoso. Tanto no céu nacional, como no de Espanha, sujeitando eventualmente o país português ao pagamento de uma indemnização aos vizinhos para ressarcimento de prejuízos provocados em bens e pessoas. Como se Portugal lhes tivesse declarado guerra e ficasse, a seguir, de joelhos, depois de a ter perdido. Cada vez havia mais gente a tossir, apanhada por alergias que, em princípio, deveriam caber por inteiro aos pólenes primaveris, e não ao maldito fogo do verão.
           O melhor, quando os dois se beijassem de novo e ela, porventura, se lembrasse do “mimo”, seria soltar uma gargalhada, arranjar um trocadilho com ele e catalogá-lo como fazendo parte do seu anedotário privado. Uma espécie de palavra passe comum para entrarem em sintonia, quando se sentissem a resvalar para o exagero e o mau gosto. Contudo, que nunca Nelson se lembrasse de, após uma zanga feia como a de hoje, tentar fazer as pazes debaixo dos lençóis, sem a conseguir primeiro em cima do tapete com boas palavras. E porque teria ainda Telmo tanto peso na sua vida, a ponto de a influenciar dessa maneira?
           -Será que algum dia contarei a alguém o facto de um dia ter sido vítima de violência da parte de Telmo? Não, acho que nunca terei coragem de superar a vergonha.
           Agora, com mais lucidez e desprendida de sentimentos controversos em relação a ele, pensava que nessa altura lhe deveria ter virado as cotas e tomar a bofetada na cara, que ainda hoje lhe doía, se não como um aviso de que um dia poderia ser uma séria vítima de maus-tratos, ao menos como um pretexto para se colocar a milhas de um homem demasiado permeável à violência. Talvez o facto tivesse tido bem mais importância do que então lhe atribuíra. A ponto de ser a razão pela qual hoje reagira tão severamente a uma criancice de Nelson. Certamente as andanças da noite, de braço dado com a morte, deviam ter deixado toda a gente sem discernimento. Ela era só mais uma a que a falta de um sono tranquilo toldara o bom senso, deixando-a sem jogo de cintura para lidar com uma coisa que, noutra altura, rotularia como uma brincadeira das mais divertidas. Não fora à toa que, no café da Dona Celeste, se defrontara com as suspeitas de Telmo ser o autor do rombo que a vizinha Madalena sofrera na sua pequena reforma. A cada dia que passava, era humilhante constatar a sua paixão de outrora por um traste sem nada que não se cingisse a uma figura bonita por fora e cheia de esterco por dentro. Não o odiava, apesar de tudo, nem sentia raiva por Telmo a ponto de lhe desejar a morte. Embora, um dia, a espumar de irritação, lha tivesse mesmo desejado, imaginando-o,  inclusive, seráfico e imóvel dentro de um caixão, de onde não poderia jamais sair para lhe infernizar a vida como nos últimos tempos. Mas, nada estava perdido com Nelson. Nelson era o seu refúgio e um bom presságio para uma felicidade que não deixaria fugir. No dia seguinte resolveria o mal-entendido com o namorado, que talvez estivesse já a pensar num pedido de desculpa por escrito num email carinhoso a que teria acesso daí a nada.
          E, após desligar o telemóvel, agora que se sentia quase tão macia consigo mesma como de fosse a alma gémea de Zico e do seu pêlo sedoso, já com saudades do rapaz e dos seus beijos com sabor a sabonete - até já lhe dava vontade de rir- começou a relaxar, fazendo daí a nada companhia ao gato no seu sono.

continua...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Julho 02, 2020, 13:18:24
Agora já nem falta uma apaixonada chorona. Que mais irá acontecer?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 05, 2020, 15:58:13
                                                                                           49

          Seriam duas horas e meia da tarde quando Telmo, depois de não ter aparecido na mesa para o almoço, com olhar de falcão saciado com a sua presa número, chegou a casa, onde, de momento, não se encontrava quem quer que fosse.
          Dirigiu-se a seguir à cozinha, despindo a jaqueta de ganga e colocando-a nas costas de uma cadeira, disposto a comer as sobras de um fundo de tacho que, em princípio, lhe seriam destinadas, e que devia ter comido em conjunto com o pai e os irmãos hora e meia antes. Sérgio e Luciano, após um banho para removerem os vestígios do carvão e das cinzas, contraídos como uma doença durante o combate ao fogo, a seguir ao almoço, tinham ido à vila ter com as respectivas namoradas. Paula, já com a louça lavada a escorrer na banca, obedecendo ao pedido do namorado, saíra com a mesma intenção dos irmãos. Enquanto isso, Abel, com o objectivo de tomar café, dirigira-se ao largo, onde Rodrigo, já vestido com a roupa da colecta levada a cabo pelas mulheres, continuava a aguardar a chegada do resto do clã, depois de, tanto a prospecção do ouro no acampamento como a conversa entre o Padre Fernandes e o presidente da junta se revelarem infrutíferas. O homem, ali com cara de abandonado, era Rodrigo, o cigano por quem Telmo, no seu regresso a casa, passara devagar em cima da moto, sem lhe dirigir aceno ou palavra, como se nunca se tivessem visto mais gordos ou mais magros um ao outro.
            Sozinho em casa, habituado a não sentir falta de ninguém, quando ninguém lhe sentia a falta – talvez só a mãe se incomodasse um pouco com as suas ausências – Telmo ingeriu o esparguete à bolonhesa com um apetite que há muito não sentia. Após, na véspera, ao jantar, se ter privado de um bocado de carne estufada para, com o 605 Forte, tirar Zico do mundo dos vivos e não ter, entretanto, comido alguma coisa de substancial, nada como algo que não desse grande trabalho a comer. O esparguete. E não se importava mesmo de ter toda a casa por sua conta. Nem um animal havia agora por lá. Desde que o último gato lhes morrera no derradeiro Natal, precedido pelo cão um ano antes, a casa estava interdita a animais domésticos, enquanto Susete fazia ainda o luto pelos seus bichos e a jura de nunca mais querer cães ou gatos. Sobretudo porque o filho mais velho começara a nutrir alguma antipatia por eles, acabando uns e outros por estabelecer más relações entre si, quando era sabido que ela nunca expulsaria Telmo de casa.
          De seguida, após a última garfada, o rapaz dirigiu-se à sala, ligou a televisão, fez zapping, saltando a correr sobre uma dúzia de canais. Parou num deles, cujo cenário parecia o de um filme retratando o Inferno ou coisa semelhante. Na tela, viam-se dezenas de pessoas vestidas como na Idade Média, a fugir, de olhos arregalados e expressão de terror, à frente de um mar de chamas, espicaçadas ainda por diabos com cornos e ganchos de terríveis pontas afiadas nas manápulas. Sempre preferira tramas que recorressem a efeitos especiais e heróis obrigados a recorrer à violência através da metralhadora, pistolas ou facas, escondidas por todo o lado para o golpe final sobre os maus da fita. Por isso, ao longo da relação, Marisa se privava continuamente de assistir a dramas e comédias românticas, bem mais do agrado dela.
          Com pouca paciência depois da ressaca da véspera que a última dose comprada num bairro de Aveiro com a reforma da velha Madalena não aplacara ainda na totalidade, decidiu ir à Dona Celeste beber um café. Litos, o único que o poderia reconhecer como o autor do fogo no acampamento, não estava por perto. Fosse como fosse, não lhe agradava a ideia de se cruzar com ele. Isso apesar de confiar na surdez de quase sempre do garoto como a melhor garantia de que, mesmo reconhecendo-o, nunca o poderia denunciar por falta do óbvio, as palavras. E, no fundo, recusava acreditar que a chama do seu isqueiro tivesse provocado três mortes, das quais só tivera real conhecimento quando regressara já com a dose na veia, que, paradoxalmente, o deixava sóbrio. Nessa altura, já o pai teria saído do café a fim de ir buscar a mãe à fábrica, e já esta estaria de posse dos quarenta euros para a receita seguinte, que teria de comprar agora num novo fornecedor, com quem teria de estabelecer boas relações para a eventualidade de um dia ter de recorrer a compras a crédito como no dia D.
           Quando bateu a porta da rua, passou pela moto onde a deixara no regresso de Aveiro. Mirou-a como se fosse a última namorada que ainda lhe restava.
          Já na praça, entrou no café, deitando um olho obtuso ao cigano sentado debaixo da acácia e a fazer contas à vida de sem-abrigo em que recentemente fora lançado. Havia quatro pessoas no interior do estabelecimento, três homens e uma mulher, sem nenhum deles, como previra, ser o pai.
          Saudou toda a gente com um frio “boa tarde”, pousou a seguir o telemóvel e as chaves sobre a mesa. Como o calor esgalhava, em vez do café, pediu um fino para afogar o esparguete que a Paula lhe deixara no fundo do tacho, e que nem precisou de aquecer. Enquanto isso, despia a jaqueta de ganga com que se protegia do vento quando andava de mota a alta velocidade pelas ex-scuts do distrito.
           A Dona Celeste, mal o viu entrar, com a imparcialidade abalada pelo desespero da vizinha Madalena ao ver-se despojada da sua pequena reforma, teve vontade de lhe atirar à cara, o copo da cerveja. Se o fizesse, seria como se estivesse a substituir-se numa ou outra bofetada que talvez tivesse faltado ao rapaz na infância. A mulher não partilhava das teses de que, dar-se uma palmada no traseiro de um filho quando ele nos levava ao limite, representava um perfeito acto de barbárie parental. Antigamente, a receita era de uso regular, e até bem vista se não fosse desproporcionada. Uma mãe tinha o dever de educar todos os seus pequenos bons selvagens à boa maneira dos métodos de filósofos antigos, respeitados ainda hoje. Uma palmada era só mais uma forma de o fazer, no meio dos mimos que também não deviam faltar. Contudo, com um estabelecimento de porta aberta ao público, engoliu a ânsia pedagógica, colocando o copo sobre a mesa com um certo desprezo, enquanto Telmo, mudo por opção, manuseava o telemóvel sem se sentir obrigado a nenhum agradecimento.
           Nesse meio tempo, os outros quatro clientes comentavam as notícias sobre o fogo de que hoje a aldeia do Eito fora uma das grandes protagonistas. As suas imagens, com a igreja como referência, o cavalo a pastar ali perto. O relato das circunstâncias dramáticas da morte de duas crianças e uma idosa haviam enchido os écrans de todas as estações durante o primeiro jornal, replicadas vezes sem conta nas emissões dedicadas exclusivamente a notícias.
          Depois de beber, Telmo saiu e voltou atrás, ao beco,e abriu a porta da garagem de onde retirou o capacete. Colocou-o na cabeça e, daí a nada, galgava até à mata dos eucaliptos, agora reduzidos a garfos espetados ao alto como finas estátuas mortas. E, onde o fogo não chegara com tanta intensidade, era visível a folhagem chamuscada pelo acastanhado da morte irreversível que se apoderara das árvores.
           Depois de se cruzar com uns quantos carros e motas a abandonarem o local, ainda se viam por lá algumas pessoas, embora a maioria já houvesse desmobilizado. No chão havia garrafas de água de plástico e paks vazios de sumos diversos, sacos com os vestígios do almoço oferecido aos soldados da paz pela população. Nessa altura, como o fogo já havia deixado de ser uma preocupação para aldeia, abocanhando já as fraldas das montanhas vizinhas, os bombeiros principiavam a reunir o equipamento para saírem dali. Com os fatos vermelhos negros de carvão e botas carregadas de lama, ao enrolarem nos carros as longas mangueiras de água espalmadas, pareciam homens das galés exauridos a puxar a frota de guerra romana no Mediterrâneo. Um Mediterrâneo que, ao longo de séculos e até aos dias de hoje, era como se guardasse na memória das suas águas uma maldição escrava propalada pelos mortos de então e repetida até hoje pelos milhares de refugiados afogados no lago, depois de o Mundo Árabe ter entrado em colapso. Os pobres bombeiros eram a imagem da exaustão. Se, quando haviam chegado, cerca das oito horas da manhã, já vinham cansados, agora pareciam sombras de si próprios, a tombarem enormes e vagamente inertes sob um início de sol de fim de tarde. Eles, a quem se exigia, em mil e uma circunstâncias, que não fossem só os heróis de quem se esperava o impossível, mas, antes de tudo, que fossem imortais, e que, como imortais, adentrassem as labaredas e lhe combatessem as raízes impedindo-as de se agigantarem na destruição.
           Mal Telmo desmontou, as criticas sobre si não se ouviam de viva voz. Adivinhavam-se, contudo, nos pensamentos dos presentes, tendo todos estes como denominador comum a vida sem rumo do rapaz ruivo:
          “Este vem agora, Como se fosse para uma festa, Ninguém o viu até ao momento, Deve ter ido meter para a veia, É um parasita, Tenho pena dos pais. Coitado do Abel e da Susete, Os irmãos é que hão-de sair prejudicados com isto tudo, Os pais hão-de gastar o que têm e o que não têm com ele, Sim, sobretudo a mãe, que lhe dá tudo e mais alguma coisa, Este é que se desaparecesse de uma vez por todas não fazia falta nenhuma, Foi uma pena não terem dado cabo dele na prisão, Nunca se soube muito bem a razão de ter estado preso, Não foi certamente por ter ajudado um cãozinho atropelado e com uma perna partida, Também não foi por ter recolocado no ninho um passarinho caído da árvore, Vem só cheirar o fumo, fingindo que está a snifar coca, Só não percebo como arranja ele dinheiro para o vício, Deve roubar, E traficar, Quando fui à hora do almoço a casa chegaram-me uns zunzuns de que alguém roubou a reforma e algum ouro à velhota vizinha, a Madalena. Cá para mim foi ele,  Ele e os ciganos podiam ir morrer longe, No Mediterrâneo, que hoje em dia é a maneira mais fácil de se morrer em massa, Também não queríamos ser invadidos pelos refugiados vindos lá do fim do mundo, É o que eu penso e é o que toda a gente deve pensar, Já temos pouco para nós, E depois vinham para cá os sírios, as mulheres com os véus, assim como quem anda disfarçado e em qualquer momento pode cometer um crime sem ser reconhecido, Nós que até para renovar a carta de condução temos de ter a assinatura do médico a dizer que usamos óculos”.


                                                                          XXXVIII

          -Estás tramado, Telmo – disse Fausto sorrindo e olhando para Domingos, silencioso a seu lado –. Esses aí só não te serão bons se não puderem.
          -Tens razão. Mas não me chames Telmo. Sou apenas parecido com o personagem… Um bom crápula, o rapaz! Se lhe chegassem um fósforo depois de lhe despejarem um balde de gasolina não se perdia nada!
          -Juiz dixit. Sentença final. Ou, então, que o mandassem de um avião de combate às chamas, quando, cá em baixo, o lume estivesse bem atiçado. Como se ele fosse um menino de balouço num dlim-dlan infantil, não daria muito jeito fazê-lo a partir de terra, dois homens a pegarem-lhe nas pernas qual boneco de trapos sem alma.
           Domingos, quando Fausto se enganou no nome, estremeceu. Deus o livrasse de ser Telmo, o protagonista da trama que a tela continuava a exibir e ia já um bocado longa. Ele que, em certos trechos, deixava de lhe prestar atenção para experimentar sensações esquisitas. Além de dolorosas. Era como se estivesse na pele das vítimas a ser incinerado vivo pelas chamas de um crematório. Com certeza, era por nunca ter experimentado aquela substância que o amigo lhe dera à chegada, excessivamente alucinogénia para os seus hábitos de consumo. E, à medida que o tempo passava, a incógnita em que Fausto, aos seus olhos, já se havia intermitentemente transformado, aumentava segundo a segundo. Quando lhe chamou “Telmo” em vez de Domingos, sentiu, como se se tratasse de um mau agouro, um calafrio, um arrepio na espinha, aliado ao facto de, com certeza por causa da maldita droga, nem sequer se lembrar do verdadeiro nome de baptismo. Quem era este homem que lhe tirara a memória e o deixava sem passado? Seria alguém de carne e osso, ou não passava de uma personagem tirada de um livro semelhante à Divina Comédia, de quem tivesse adoptado e posto em prática os tiques? Ele que aparentava dominar toda a Literatura, e que, em certas ocasiões, parecia ter especial apreço pelas vísceras do mundo empanturrando-se com os seus horrores. Fausto era, talvez, uma criatura com um pé no pecado e outro na santidade, como a ressocialização de delinquentes que levava a cabo com ex-presidiários dava a entender.
          Quanto a si, deveria estar a sofrer de uma terrível alucinação. Mas, quantos Faustos haveria na Literatura Universal para lhe servirem de modelo?
          -Há dois famosos: o de Marlowe e o de Goethe – respondeu Fausto, a meio tom, como se tivesse ouvido as reflexões do amigo.
          -Disseste alguma coisa, Fausto? – perguntou Domingos.
          -Não… Estava só a pensar em voz alta. Coisa que os inimigos de Telmo não fazem. Mas, os olhos que lançam ao rapaz dizem tudo.

contínua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Julho 11, 2020, 22:54:59
Telmo e Fausto. Parecidos?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 12, 2020, 22:09:06
Não sei se Telmo e Fausto são parecidos, Nação Valente. Vamos ver como se desenrolará a história daqui para a frente...

                                                                                            50

          Telmo, agora que o espectáculo do fogo entrara no período das cinzas, apertando a jaqueta e colocando de novo o capacete na cabeça, montou a mota e saiu dali com toda a calma. De algum modo curioso, dirigiu-se de novo ao largo da igreja, transformado há mais de doze horas num estúdio de informação, talvez disposto a romper o seu mutismo até essa altura e dar opiniões acerca do criminoso, “ Haviam de lhe fazer o mesmo. Tenho muita pena dos ciganos, Sobretudo do pobre Manolito. E claro, sem falar na senhora Ana Rosa e no pequeno Diogo. Quem faz o que foi feito ao cão só pode ser um bandalho.
          Pousou, a seguir, a mota no descanso, perto de mais três e ao lado de quatro carros, antes de ficar de novo com a cabeça ruiva à mostra. Por ali estavam também os jovens donos dos veículos, tanto dos carros como dos de duas rodas. Os motoqueiros mais jovens estavam entretidos com os telemóveis. Havia ainda algumas mulheres e raparigas corajosas, que haviam enfrentado as chamas em pé de igualdade com o sexo masculino.
           A tónica comum, às três horas da tarde e com um calor infernal a esgalhar inclemente no lajedo da praça, era todos estarem enfarruscados, cheios de lama nas botas e sapatilhas, tal como os bombeiros que haviam deixado entregues à tarefa de recolher o equipamento de combate. Estavam ali praticamente todos os homens da terra, num Agosto em que, como sempre desde há um bom par de anos, a maioria das fábricas havia fechado para férias do pessoal e, ou grande parte dos presentes não tinha dinheiro para elas, ou ainda não fora oportuno dar uma escapadela até à Praia da Barra, Costa Nova ou Mira. Alguns nem sequer haviam ainda tirado o gorro e os óculos de protecção usados durante o combate às chamas.

                                                                                51
          Não demorou grande tempo até Alberto, o homem que acompanhara o Leandro na primeira cerveja e nos amendoins, estacionar o carro à porta do café, enquanto, de dentro dele, de olhos inchados, saiu Vasco.
          Leandro, de calções um pouco abaixo do joelho e com a perna envolta numa ligadura, saiu a seguir. E, quando um dos homens  presentes lhe perguntou como estava da ferida, agradeceu o cuidado dizendo:
          -Estou melhor obrigado. Mas de nada valeu. Não impedi a morte da minha mãe nem a do meu sobrinho – e virou-se para a parede de uma casa ocultando o rosto onde as lágrimas assomaram num impulso, dizendo ainda: - coitada da minha irmã Catarina e do meu cunhado. Nem consigo imaginar o que lhes vai na alma.
          -Uma tragédia nunca vista – acrescenta uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, solidária com tamanha dor como toda a gente –. Parece que andou por aqui o Diabo à solta.
Um homem prosseguiu:
          -Tens razão, Conceição. O dia de o Diabo andar à solta é o dia de S. Bartolomeu, mas este ano o 24 de Agosto veio no início do mês, para nos dar cabo da vida.
          -Pois, mas o pior é que o Diabo que matou o meu filho e a avó é deste mundo! Quem me dera apanhá-lo e havia de lhe fazer o mesmo! Juro por Deus ou por esse Demónio dos Infernos que andou aqui a espalhar desgraças! – praguejou o homem.
          -Tem de ter paciência. Não vá agora destruir a sua vida por causa de uma alimária – aconselhavam um e outro dos presentes.
          Vasco informou a seguir que os dois corpos seriam liberados pela morgue no dia seguinte cerca das quatro horas da tarde, e que, em princípio, os funerais seriam na quarta-feira às onze horas da manhã, com missa de corpo presente, ali ao lado, na igreja paroquial.
          Rodrigo, depois de há pouco ter deixado o banco onde esteve um bom par de horas a matutar, talvez também no ouro perdido, aproximou-se do grupo de Leandro e do pai do pequeno Diogo, para, algo inseguro e numa posição de fragilidade social, prestar o seu apoio:
          -Tem razão, Enfermeiro Vasco. Eu era capaz de fazer uma coisa semelhante a quem nos incendiou o acampamento, matou o cão e tirou a vida ao meu querido sobrinho – enumerou, limpando a cara húmida ao braço esquerdo –. O Manolito era um anjinho como o seu filho, uma criança linda. Só tinha quatro anos e nunca fez mal a ninguém. O maldito que fez o que fez é que se deve pôr à tabela connosco se um dia for descoberto! Não há-de ficar com um osso inteiro! – jurou já menos tímido, cuspindo para o chão como se com isso quisesse descarregar a raiva acumulada ao longo daquele tempo.
          -Claro, ninguém pode ficar em paz com semelhante injustiça. E se a justiça da lei não passa ela de uma fraca justiça, há que fazê-la melhor com as próprias mãos – acrescentou Leandro, no mesmo tom de discurso inflamado dos outros dois e com a garganta embargada pela comoção, a meias com a raiva.
          -O meu irmão também deve estar a chegar com notícias da morgue. Temos de arranjar as coisas para o enterro. Não sei como, porque não temos um cêntimo furado no bolso. Mas lá se há-de enterrar o menino, se Deus quiser.
           Telmo, ao lado dos rapazes das motas, alguns dos quais haviam sido seus colegas na escola, associava-se à campanha de Vasco e Rodrigo, que, ainda sobre as brasas de uma situação dramática para todos, prometiam uma revanche severa. E, aparentemente solidário com os vingadores, arranjou voz, suficientemente dissimulada, para lhes aprovar os métodos:
          -Malditos incendiários! – disse, para o vizinho mais próximo, como se nada tivesse a ver com tudo aquilo, enquanto olhava para Rodrigo e para os dois cunhados –. Se fossem meus filhos e minha mãe faria o mesmo! Sem nenhum remorso!
           Daí a instantes, entrou de novo no café, bebeu ao balcão uma nova cerveja fresca e pagou-a antecipadamente, dando a entender que estaria com alguma pressa em sair dali, apesar de uma confiança grande na mudez de Litos, o melhor era evitar encontrar-se com ele.
           A Dona Celeste, a mando de António Pinto, longe dali há algum tempo, talvez a tratar do alojamento dos ciganos, levava entretanto a Rodrigo uma nova sandes de queijo e uma garrafa de água de trinta e três centilitros.
Pepe, o cavalo, mais ao fundo a mondar a erva do baldio, como um cão que sabe sempre quando os donos chegam a casa antes de estes meterem a chave na fechadura, relinchou ao ver aproximar-se a carrinha e a comitiva dos ciganos, dando a entender ser demasiado tarde para a retirada estratégica de Telmo. Com certeza reconhecera-o, e, momentos depois, ainda o não acabara de esvaziar a garrafa de cerveja, a família descia do veículo, um a um, Cármen do lado de Inácio, na cabine com Bruno ao colo, e Luzia junto dela, amparando a barriga a que a criança parecia querer fazer rebentar as águas a qualquer momento.
          Litos, cheio de sede, pedira de beber a Cármen. Esta apressou-se a entregar Bruno a Sameiro, dirigindo-se a seguir para o café a fim de dar de beber ao filho e talvez aos outros todos. À entrada, obstruindo-a, curiosos com a chegada dos ciganos, portadores certamente de notícias frescas, estavam dois homens a quem Telmo quase empurrou na ânsia de escapar dali o mais depressa possível. Contudo, mal saiu, nervoso, deparou-se, como na véspera, com os olhos de Litos estarrecidos a fitá-lo de novo como no remoque cinematográfico de uma trama em que o final se adivinhava pouco feliz. Vendo o miúdo pregado ao chão a fitar Telmo estarrecido como se se tivesse deparado com o Demónio, Cármen chamou o filho com a mão enquanto o encorajava a entrar no café:
           -Anda filho… Que tens? Os teus irmãos também devem estar mortos de sede… E de fome – acrescentou, já Telmo havia rompido no meio das pessoas, que, àquela hora, três da tarde, faziam o rescaldo do dia e de todas as suas desgraças.
Inácio juntava-se aos presentes, dando conhecimento da saída do corpo de Manolito no dia seguinte, pouco depois das dezassete horas. Por ser Agosto e alguns médicos-legistas gozarem férias na altura, a morgue estava desfalcada de pessoal. Mas, dado três pessoas da mesma aldeia terem morrido em circunstâncias tão terríveis, o chefe de serviços arranjara forma de que os restos mortais do filho pudessem ser levantados para os funerais em conjunto. Já falara com o armador, o mesmo que levaria para a última morada Ana Rosa e o neto Diogo.
          Litos, na sua exígua linguagem de acenos, gestos e guinchos, apontava agitado para Telmo, enquanto este se escapulia como um rato no meio da multidão. Este prosseguiu depois até à mota. De isqueiro na mão, foi entretanto interpelado por um jovem a pedir-lhe lume. Parou para satisfazer o pedido deparando-se com a gaguez do isqueiro, que lhe fez perder algum tempo.
          -Anda Litos!... – insistia a mãe  – O que foi rapaz?
          O garoto, aflito, insistia em apontar Telmo. E só quando imitou um isqueiro a acender e se baixou como se estivesse a incendiar o chão, Cármen percebeu que, na véspera, o viajante do combóio, seu conhecido por causa dos negócios do acampamento, poderia ter estado na origem da morte de Manolito.
           -Que dizes filho? – E, na mimica possível, de modo a entender Litos e de Litos a entender a ela, fez directamente a pergunta: – Foi aquele rapaz que matou o teu irmão?
          O miúdo fez que sim com a cabeça.
          Nessa altura, a dona do café, assistindo ao estranho diálogo entre o mudo e a mãe, compreendia, em simultâneo com Cármen, a acusação que o pobre surdo-mudo acabara de lançar sobre Telmo.
Estarrecida, a mulher deitou as mãos à cabeça, enquanto Cármen esbaforida aponta Telmo, dirigindo-se-lhe e gritando desaustinada na sua direcção.
          -Assassino! Assassino! Foste tu que atiçaste fogo ao acampamento, mataste o meu filho e deste cabo da nossa vida!

                                                                                            XXXVIIII

          -É agora Telmo… Encomenda a alma ao Diabo – aconselhou Fausto, num amplo e irónico sorriso, dirigindo-se ao espectador a seu lado, que cada vez estava mais alucinado depois de ter experimentado um novo psicotrópico que lhe estava a provocar reacções estranhas ainda o filme não ia a meio.
          Domingos não disse nada.

                                                                                                      52

           Telmo, com mil olhos cravados em si, suspendeu a subida para a moto, enquanto Cármen prosseguia o libelo acusatório e, à sua volta, todos se calavam momentaneamente atónitos.
          -De que está você a falar, mulher? – perguntou, acossado pela ira de Cármen, já esta estava à sua frente prestes a esmurrá-lo com a violência dos punhos de uma mãe ferida pela dor de ter perdido um filho naquelas circunstâncias terríveis.
          -Foste tu que chegaste fogo ao acampamento! O meu Litos acaba de mo dizer! – insistia dando  murros contra o peito do rapaz, enquanto toda a gente principiava a reagir após o sopapo de há instantes desencadeado pela acusação.
          -Você não está boa da cabeça, mulher! – assegurava Telmo fingindo-se zangado e aparando com os braços os golpes que a cigana lhe dirigia sem dó nem piedade.
           -Foste sim! Tenho a certeza!
          -E você acredita nos grunhidos de um surdo-mudo? Deixe-me em paz! Não me chateie!
          -Ele não mente! Não pode mentir porque nem sequer tem palavras para isso! – retorquiu, enquanto era rodeada por Luzia e por todos os outros ciganos entre o pranto e a raiva.
          Depois da revelação, no meio de toda aquela assembleia, o primeiro a romper com a incredulidade e colocar os pés na terra foi Inácio. Mas nem só ele precisava de encontrar urgentemente alguém para arcar com as culpas de todas as desgraças ocorridas, mas só ele sabia, com muitos graus de certeza, que a afirmação de Litos era a mais pura das verdades. O motivo era óbvio:
           -Isto não se pode fiar. Mais depressa lhe entregava a carrinha com os pólos.
          Por causa disso, Telmo vingara-se da maneira mais absurda. Matara-lhes primeiro o cão e depois Manolito. Agora teria de ser ele a convencer toda a gente da terrível afirmação. O ruivo era, sem sombra de dúvida, o culpado de tudo. Só teria de o demonstrar sem dar a conhecer os negócios escuros do acampamento e o motivo que levara o rapaz até lá.
           Vasco, mal refeito da surpresa, não querendo enveredar por acusações sem fundamento, dirigindo-se a Cármen, agora mais pacífica e de novo chorosa, perguntando-lhe:
           -Isso é verdade?
          -Ele – disse a mulher apontando Telmo, aos berros – esteve lá ontem, por volta das sete, a falar com o meu marido. E pelos vistos não se entenderam. Depois voltou lá de novo para fazer o que fez!
           -Tem a certeza? – perguntou o pai do pequeno Diogo, começando a ficar enlouquecido com a possibilidade de poder descarregar de imediato em alguém toda a sua raiva, contida até então por causa de Catarina.
           -Tenho, sim senhor – respondeu Inácio em vez da mulher-. Essa criatura – apontou Telmo com rancor – viajou com a minha mulher e a minha filha no comboio das sete. A seguir foi falar comigo. Queria namorar a Sameiro. Como não deixei, vingou-se desta maneira.
           -Bandalho! – rugiu Leandro a faiscar de ódio, a seguir a levantar-se do banco debaixo da acácia até onde há pouco tempo estivera Rodrigo a esconder-se do calor.
           -É a mais pura das mentiras!... Nunca fui ao acampamento na vida!... – afirmava Telmo, comprometido à medida que os olhares incidiam sobre si como um rastilho a que só faltava incendiar a ponta.
           E de novo se deitavam, na fogueira dos pensamentos mais íntimos de uma comunidade, achas capazes de fundamentarem a decisão por um veredicto que coincidisse com “Culpado”. Mas talvez não bem pelas razões invocadas por Inácio:
           “Eu acredito no miúdo, Eu também. Coitadinha da criança, vê-se mesmo que está cheia de medo, Aquele ali é capaz de tudo, Ainda hoje roubou a reforma à vizinha, Deve ter ido lá comprar droga, mas veio com certeza de mãos a abanar, Não devia ter dinheiro, O rapazinho, o Litos, está banhado em lágrimas, de medo e de ódio”.-murmurava-se aqui e ali.





continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Julho 14, 2020, 17:59:50
Venha a continuação!



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 14, 2020, 22:24:07
                                                                                                  53
         Com os ânimos a subirem de tom, Marisa, depois da sesta profiláctica desencadeada pela pequena zanga com Nelson, acordou sobressaltada com as vozes alteradas do largo da igreja. O Zico ainda estava a seu lado, mas, depois de a ver saltar da cama, fez o mesmo e foi à torneira da cozinha beber água, como fazia desde que aprendera a levantar e baixar o mecanismo.
           Deixando o gato entregue a si próprio, a jovem saiu a seguir, e foi inteirar-se do que estava a acontecer pelas três horas da tarde de uma segunda-feira de Agosto, tudo menos normal.
          Quando chegou, perguntou a uma rapariga a razão daquele tumulto. E, quando foi informada de que, contra Telmo, vinda de Litos, o rapazinho mudo dos ciganos, pendia a acusação de ter sido ele o causador do incêndio no acampamento e das três mortes subsequentes, ficou ruborizada, como se uma parte da responsabilidade de tudo aquilo lhe dissesse respeito.
          -O cigano mais velho, o Inácio, disse que o Telmo foi lá ontem pedir-lhe para namorar com aquela cigana que está ali com aquele miúdo ao colo – informou a jovem interpelada, apontando discretamente Sameiro.
          “Ao que o desgraçado chegou” – pensou Marisa ao olhar para aquele que fora o seu namorado durante a juventude, e que agora não passava de um verme.



                                                                                              54

          Como as notícias correm sempre velozes e esta tinha pernas de gazela, não demorou grande tempo até chegar a Catarina, empolada num tom cuja raiva aumentava à medida de cada novo relato. Daí que, quando bateu à porta da pobre mulher, fosse suficientemente grande para a tirar da prostração em que, nessa manhã, a morte da mãe e do filho a haviam deixado.
Finalmente havia um culpado, e ela queria enfrentá-lo olhos nos olhos, fulminá-lo com eles, e, se os olhos não fossem suficientes, deitaria mão a qualquer arma para o maldito rapaz não ficar vivo nem mais um minuto.
          Ao chegar ao largo, acompanhada de Dulce, a cunhada, deparou-se, além de outras pessoas, com o marido e o irmão, ainda mais ou menos incrédulos com a revelação. No auge da indignação, uns de uma maneira mais ostensiva e outros mais veladamente, todos insultavam Telmo com nomes relegados para o gueto do calão pelo dicionário, quer com o rubor das palavras comuns, quer das congéneres ilustres. Enquanto isso, pressentia-se a sempre temida confrontação física masculina. Pelo que os três homens, Inácio, Leandro e Vasco, eram disso dissuadido por alguns dos presentes. Sobretudo homens.
          Telmo, junto à mota e como se esperasse ser protegido da ira de quase todos os vizinhos, não deu conta da chegada das três mulheres. Catarina irrompia no meio da multidão, com o intuito de iniciar um bom rol de murros no peito do rapaz, tal como anteriormente Cármen havia feito. E, quando o alcançou, começou de imediato o ataque, obrigando-o a defender-se, de novo, de mais uma mãe com o olhar carregado de ódio.
          -Maldito sejas, seu bandalho! Mataste-me o filho e a mãe mas também não vais escapar! Seu cabrão, seu chulo! Hás-de arder no inferno! Nem que leve a vida inteira até te entregar ao Diabo!
           Cármen, não tanto por solidariedade pela paisana, mas porque sentia a rebentar no peito o mesmo nó, juntou-se a Catarina nos insultos, nos murros, nos pontapés, nas pragas e nas maldições, o único meio que, por agora, como o fio de terra de um pára-raios, seria capaz de descarregar de ambas parte do seu desgosto.


                                                                                    XLIV

           -Ai, ai! – gritava Domingos ao presenciar a cena, enquanto levava a mão à boca, onde um dente parecia ter sofrido uma contusão –. É como se as duas estivessem a bater em mim próprio… Desculpa lá, Fausto, mas que droga me deste tu há bocado? Estou há tempos a sentir-me esquisito e só pode ser do que abasteci pela veia...
           -Isso é psicológico. A substância é muito boa. Não te fará mal nenhum. Foi importada de um lugar absolutamente desconhecido. Não o vou revelar. Quero que tudo continue a ser segredo…
           -Não me digas que tem origem extraterrestre? – perguntou o rapaz entre o surpreso e o assustado.
           -Vais saber tudo, mas não ainda. Vamos continuar a assistir ao “Rapaz do Isqueiro Assassino”.

                                                                                      55

           Com Telmo a comportar-se como um cobarde, no meio de uma culpa que não conseguia disfarçar, depois de toda a gente dar por suficientes os socos, os murros e os pontapés das mulheres, Dulce, Vasco, Leandro e Inácio retiraram-nas para longe, onde nenhuma delas tivesse o rapaz na mira.
           A seguir, os cinco, no carro de Alberto, saíram em direcção a casa, enquanto alguém ligava para a GNR a “dar Telmo à morte”. Fora encontrado o autor do fogo no acampamento dos ciganos. E, com este contributo, o perfil do ateador de fogos já poderá ser actualizado. O novo incendiário até poderia ser um rapaz bonito como um actor de cinema. Pelo menos Telmo assim era, um verdadeiro rapaz de Hollywood.
           Àquela hora, três da tarde, o calor atingira o seu pico num céu vestido de negro, onde o sol continuava mortiço como nos últimos dias. A praça havia-se transformado numa concentração de homens e mulheres enfarruscados, a quem a revelação de Litos retardara o merecido banho para se livrarem dos vestígios do maldito fogo.
            Telmo, após isso, preparava-se com mais afinco ainda para pôr o capacete na cabeça e montar a seguir a moto, disposto a fugir dali o mais depressa possível como quem recua à beira de um precipício. Não aguentaria por muito mais tempo os olhares acusadores de todos a lembrarem-lhe a morte de três pessoas. Muito menos aguentaria os olhos de Marisa, perante quem não suportaria estar na mó de baixo. Mas não suportava, sobretudo, ter de experimentar de novo o mofo da prisão e aí passar os próximos oito anos rodeado de assassinos e traficantes, escolhidos a dedo na ralé da sociedade para lhe fazerem companhia. Ao menos que fosse rico, porque, tanto quanto se dizia, os criminosos de colarinho branco tinham direito a instalações de luxo e mordomias, como se estivessem num chalé de montanha a gozar férias divertidas e a escrever livros que, a seguir, lhes rendiam uma fortuna em direitos de autor.
            Marisa, sem vontade de assistir a mais nada que tivesse o ex-namorado como protagonista, regressou a casa, meteu-se sob o duche com vontade de se livrar do suor e de todas lembranças que tivessem Telmo como protagonista.



Continua...


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Julho 18, 2020, 17:45:48
O duche é sempre uma terapia relaxante, pelo menos enquanto dura.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 18, 2020, 22:05:03
É  verdade. E um duche em tempo de calor e incêndios como os de agora é uma bênção...

                                                                                56
          -Vais fugir seu filho de uma puta? – disse alguém com ódio a Telmo  e disposto a impedi-lo de qualquer jeito de sair dali.
          -Não deixem esse ordinário escapar! – acudiu alguém, por entre o tumulto das vozes alteradas de uma aldeia em peso.
          -Se depender de mim até lhe parto as pernas!- ouviu-se de novo um homem.
          Nessa altura, já Telmo tinha mais de uma dúzia de pessoas, homens e mulheres à volta, ao mesmo tempo que os ciganos mais velhos, Rodrigo, Joaquim e Ramiro, entre os gritos e o pranto de crianças assustadas a deambular esfomeadas por entre cobertores e colchões espalhados ao redor da igreja, se juntavam ao circo que Inácio seguia de perto. Antes que Telmo se escapulisse, por entre os carcereiros naquela prisão a céu a aberto, tal como Cármen havia feito, o pai do pequeno Manolito procurava atingi-lo de novo com violentos socos no estômago, acompanhados das terríveis maldições ciganas:
          -Seu desgraçado! O Inferno se abata sobre ti, assassino!
           O rapaz rugia a cada investida, mas, à medida que as forças físicas iam sendo subjugadas pela dor, recrudescia a sua cobardia.
          -Ai! Ai! Ai! Não fui eu que deitei fogo ao acampamento! Juro por Deus! – gritava contorcendo-se como se estivesse a ser espicaçado por mil e um punhais afiados.

                                                                                     XLV

          -Ai, ai, ai, Fausto!.. Estou a dar em doido… – urrou Domingos, contorcendo-se do mesmo modo que a personagem na tela, aparentemente com dores semelhantes e como se a droga injectada lhas tivesse feito coincidir com as do rapaz do cinema!
          -Já te disse que é psicológico. Uma coisa tenho a revelar-te: parte do filme foi rodada aqui no complexo hoteleiro. Não te apercebeste ainda de que o Largo da Igreja tem grandes semelhanças com a clareira onde os hóspedes vão às vezes fazer rituais satânicos?
          - Pois, tive essa impressão, mas…

                                                                               57
          -Não fui eu, acreditem!
          -Diz isso ao meu irmão seu estupor! Ele viu-te perfeitamente. Anda cá Litos! – Ramiro pedia à mãe que trouxesse o rapazinho.
          E este confirmava depois, através de gestos, o que havia dito a Cármen, enquanto os ciganos adultos faziam o gosto ao pé pontapeando Telmo num jogo lúdico, com tanto de libertador quanto de perverso.
          Daí a nada, eram retirados dali à força por uma ou outra pessoa mais dada à compaixão, insatisfeitos por não terem à mão a eficácia de uma pistola, ou o gume decisivo de uma navalha para resolverem o assunto de uma vez. Ao mesmo tempo, com a mais pura descontracção e com um brilho de adrenalina a vidrar-lhe os olhos, um rapaz, o dono de uma das motas ali estacionada, principiava a gravar a cena com o telemóvel, como se tudo aquilo fizesse parte do cenário de um filme e ele fosse o realizador.
          -Dá cá essa merda! – ordenou um dos presentes, um homem vindo do nada, quase mascarado por causa do fogo, que não tirara os olhos do jovem e das suas manobras cinematográficas
          Como o moço recusasse, o homem arrebatou-lhe o telemóvel das mãos. Atirou-o indignado ao chão, pisando-o a seguir com violência e olhando acusador para o rapaz. Enquanto isso, o jovem, surpreso, começava a reflectir na perda que acabara de sofrer. Não podia chamar até si, daí, a nada, o estatuto de estrela da Internet, através da sua obra mais recente e com os mais apreciados ingredientes de violência. Uma obra com uma força brutal no mundo virtual, já que os protagonistas eram uma matilha de homens e mulheres a espancarem a sua presa como na Idade da Pedra. Filmar um espancamento e exibi-lo depois era cada vez menos inédito no mundo moderno. Sobretudo feito por miúdos, produto de uma cultura de gueto alicerçada na degradação que alastrava por todo lado, como se o ADN dos tempos estivesse num processo regressivo à barbárie. Cada vez mais os espancamentos eram diários, entre os que ficavam conhecidos e os que eram mantidos no segredo dos deuses. Era mais fácil fazer um vídeo e colocá-lo na net do que descascar um ovo cozido deixando-o liso e sem mazelas. Poucas coisas no espaço virtual davam tanto a falsa sensação de poder como milhares de visualizações e “gostos” de situações absurdas e insólitas como aquela. Semelhantes emoções eram a melhor hipótese de alimentar egos, o que o rapaz da moto, ao ser despojado do telemóvel, acabava de perder quando vira um possível share de grandes audiências ir por água-abaixo. Além de ter ficado reduzido ao valor da sua palavra, caso tivesse de testemunhar sobre os factos. E o seu testemunho, embora retratasse a verdade, depois daquilo, passaria a valer muito pouco em comparação com o de uma aldeia sessenta por cento culpada do espancamento de Telmo e interessada, por isso, em boicotar o conhecimento geral do nefasto evento. Sobretudo em tribunal.
           Fora tudo isso que quem tirou o telemóvel ao realizador anteviu num golpe de lince astuto. E então resolvera cortar o mal pela raiz, destruindo a prova do corpo de delito. Embora ela de nada valesse na audiência de julgamento, sempre ajudaria a formar a convicção do juiz sobre os factos da aldeia do Eito e sobre quem os praticara.
O jovem, depois de ponderar um pouco, não fez grande alarido por causa dos danos sofridos. É certo que a perda de algo imprescindível nos dias de hoje, onde guardava coisas importantes – contactos, programas e fotos, algumas das quais não poderia refazer de forma nenhuma – era grande. Mas, no meio de uma guerra ainda a decorrer ali na praça violenta e encarniçada, optou por calar-se estrategicamente.
          Apanhou entretanto os fragmentos do telemóvel estilhaçado, até os ânimos acalmarem e poder, a seguir, negociar o prejuízo com quem lho provocara.  
          E, de novo, com mais um acontecimento presenciado por dezenas de pessoas num ângulo de trezentos e sessenta graus, ali à roda da praça, se adivinhavam as emoções do povo, que nunca teriam sido tão unânimes num único facto da História e em lado nenhum. Nem em lado nenhum, nem em qualquer povo, por muito diferente que esse povo pudesse ser do que estava ali a assistir a um espancamento sem que este despoletasse praticamente uma centelha de adrenalina de defesa que pudessem tirar Telmo do olho de semelhante furacão.
           “Selvagens, Vão matar o rapaz, Se bem que não se perderia nada, Coitado, a ser espancado daquela maneira, Haviam de lhes fazer o mesmo aos filhos, Raça maldita, a dos ciganos, E aqueles gajos ali que não os impediram de fazer o que já fizeram, Gente sem alma, capaz de ver um ser humano a ser morto sem mexer uma palha, É para nunca mais te esqueceres do que roubaste, seu ladrão, Sim, o dinheiro da caixa da oficina do Heitor, marido da Dona Celeste, que tu palmaste, meu sacana, Se fosse só esse, Como é que ele sustentava o vício, Aquele ali, o Joel, ainda se deu ao desplante de gravar os acontecimentos para pôr tudo a seguir na Internet, Foi-lhe bem feito, Acusa-cristos de merda, Sim porque ele fez isso para dar uma aldeia em peso à morte, No fundo, estamos todos aqui mortos por fazer o mesmo que já lhe fizeram, dar uma sova monumental ao rapaz e deixá-lo inválido numa cadeira de rodas, Era o que deveria ser feito, justiça pelas próprias mãos, Ao menos não fazia mais mal a ninguém, Não seria a primeira vez que se ouviria falar de um linchamento em Portugal, São constantes, aliás, O primeiro de que me lembro foi o de um rapaz demente que era o terror de uma aldeia. Até que a população deu cabo dele numa situação semelhante, Nesse tempo não havia nem telemóveis, nem Internet, No meio de trinta, quarenta pessoas, é difícil provar quem deu o golpe de misericórdia, quem rebentou com o fígado, com os rins, pulmões ou seja lá o que for que tenha provocado a morte ao desgraçado, Mas, no fundo, dá pena ver assim um farrapo aos pés de um grupo de homens a espancá-lo sem dó nem piedade, Seja o que Deus quiser, Que venha depressa a GNR, Os guardas demoram talvez por não terem pessoal, São é capazes de não pôr cá os pés por dizerem que não houve flagrante delito, Mas então o ciganito não o apontou como o incendiário? Não sei nada, os criminosos safam-se sempre, Não sei não, com estes homens e mulheres, depois de todos terem perdido uma leira no incêndio, palpita-me que isto ainda vai acabar mal”.
-Deixem lá o rapaz! Não lhe toquem mais! Já chega e sobra o que levou! – gritou a Dona Celeste, seguida por uma ou outra pessoa daquela assembleia amotinada sobre um rapaz como se este fosse um cadáver  prestes a ser servido a alguém num sacrifício merecido.
           -Só se perderam as que caíram no chão - ouviu-se a voz de um homem de calças de ganga encarvoadas, gorro na cabeça e óculos escuros, vindo da mata ardida dos eucaliptos –. Como a Celeste muito bem sabe – continuou – a última avaria deste tratante terá sido o furto da triste reforma à velha Madalena. Além de um cordão de ouro, presente do marido no dia do casamento
          A velhota estava ali perto, em frente ao café, e, mal ouviu o seu nome e a situação em que se vira envolvida pela manhã, replicou:
          -Não tenho a certeza de que tenha sido ele. Mas, embora isso possa ser verdade, não gosto de ver o rapaz aí espancado como um cão cheio de carraças. Já nem se consegue levantar. Tenho pena dos pais e dos irmãos. Sobretudo tenho pena da Susete. Deixem-no, pelo amor de Deus!
           -Não fui, não senhora! – negou Telmo, a custo, numa débil jura, motivada por uma posição de dependência dos seus guardas e com uma ponta de sangue a aflorar-lhe ao nariz.  
         -Tens sorte não estar aqui o Norberto das vacas, as que se vêem da linha do comboio. Ficou sem elas graças a ti. O fogo matou-as. Prometeu que se apanhasse o maldito incendiário lhe faria o mesmo – disse o homem, como se trouxesse na voz parte da raiva do referido Norberto. E não sei não, mas o João do Aviário era capaz de te fazer o mesmo. Ele fica com os pelos eriçados só de imaginar as pobres aves a morrer queimadas no meio de cacarejos lancinantes como gritos de pessoas que falem. Ou guinchem, igual ao rapazito surdo-mudo.
           E, como se o Diabo o tivesse trazido pela mão, instigado pelas vozes de uma povoação inteira dando como verdadeiras as acusações do ciganito, Norberto, depois de parar a carrinha no meio da praça, irrompeu até ao círculo onde Telmo jazia sentado no chão com a cabeça entre joelhos durante uma aparente acalmia do tumulto.
           -Maldito incendiário! – gritou de imediato sem querer ouvir nada nem ninguém, completamente perdido, pegando-lhe pelos colarinhos da jaqueta de ganga e obrigando-o a levantar-se do chão como a um boneco desengonçado –. Vou mandar-te para casa do Diabo mais velho como tu fizeste às minhas vacas seu filho de uma égua!
           E assim um novo interveniente começou a pontapeá-lo violentamente, no corpo, na cabeça e por todo o lado, aos berros, como se se tratasse de uma acção e de um grito de guerra destinados a incutir coragem a soldados incapazes de seguirem até ao confronto final.
           Após isso, vencido já o último resquício de resistência, incluindo a dos ciganos amantes de facas e pistolas, a violência abateu-se sobre Telmo em catadupa, deixando o rapaz de novo no chão a uivar de dor e aparentemente moribundo.
          -Deixem-me por amor de Deus! – pedia, à medida que sentia a alcateia esfaimada sobre si, embora não se vissem nele grandes vestígios de sangue. A não ser a pinta do nariz, e que parecia já ter coagulado. A gritaria era ensurdecedora, juntando-se ao sol amortalhado de negro que espiava tudo lá do céu sem grande reacção, depois de praticamente ter asfixiado com o fumo constante dos últimos dias..  
          -Deixem-no, que o matam! – gritou alguém, roído de compaixão.

[/i]

                                                                                 XLVI

           -Fausto, não aguento mais! – gemeu desesperado Domingos para o amigo, numa voz desfalecida e com as lágrimas nos olhos, desencadeadas pela dor lancinante que o trespassava como o gume de uma espada em brasa – Não pode ser só psicológico… É como se me estivessem a matar a mim próprio… Sinto dores infernais… Se tiverem sido assim as de Telmo, então o rapaz sofreu um castigo à medida das mortes que provocou… Um castigo preparado no Inferno com requintes de sadismo … - Foi dizendo pausadamente, como se precisasse de recuperar o fôlego a cada sílaba e estivesse prestes a soltar o último suspiro…
          -Vou buscar-te um copo de água. Espera um pouco – disse o amigo, deixando o rapaz sozinho.
          Entretanto deu uma gargalhada quase malévola, a troçar da fragilidade de um dos seus últimos hóspedes.


                                                                              60
          -Pelo amor de Deus, parem com isso! – E a GNR que não vem! Liguem de novo para ela, por favor, antes que nesta aldeia aconteça uma nova desgraça! Se soubessem o que se está aqui a passar já tinham chegado! Ou estarão à espera que alguém morra? Raios partam as autoridades! Parece que só reagem bem à morte e que desprezam a vida!
          -Não se comportem como selvagens! Tenham um pingo de vergonha! Trata-se de um ser humano!
          -É o que ele merece! – contestava aos berros um homem dos seus quarenta anos, que, até aí, não fora ainda visto por ali e que parecia querer lambuzar-se simultaneamente de vingança e tragédia –.Lembrem-se do Manolito, do Dioguinho e da pobre Ana Rosa! Eles não pediram para morrer, e no entanto têm o funeral marcado para as onze horas de quarta-feira!
          Telmo jazia no chão aparentemente morto, ou entre a morte e a vida. Respirava com bastante dificuldade, o que provocou uma certa acalmia na fúria dos presentes.
          Nesse momento Pepe, o cavalo dos ciganos, relinchou de novo, depois de já o ter feito uma primeira vez, dando a entender aos ciganos que, pelas três horas da tarde de um dia de calor como já não havia memória, estava de novo a morrer de sede.

    
                                                                      XLVII
           -Fausto, ajuda-me… - gemeu Domingos.
          -Então, rapaz? Aguenta. Já não falta tudo para o filme acabar…
          -Sinto-me como se estivesse a dar as últimas…
Continua




Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Julho 19, 2020, 17:43:04
E já é tarde para a continuação!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 21, 2020, 21:39:39
                                                                           57

          Rodrigo foi buscar o balde onde o cavalo havia bebido, que, vazio há um bom tempo, havia rebolado como uma bola num pequeno declive. Dirigiu-se depois ao café a fim de o encher.
          Quando saiu, cruzou-se com um homem desconhecido que trazia um balde semelhante na mão cheio até às bordas. O cigano voltou depois ao baldio para dar água ao cavalo, enquanto ouvia de novo um urro de Telmo, como se este esteve estivesse a entregar a alma ao Diabo de acordo com a jura de Norberto, a que se haviam talvez juntado todas as outras.
          Quando Rodrigo regressou ao ajuntamento, Telmo estava encharcado e um forte cheiro a gasolina fazia-se sentir por todo o lado. O homem do balde, de cócoras sobre o rapaz, junto à cabeça deste, acendia um isqueiro aproximando-o dos seus cabelos ruivos, ao mesmo tempo que o sopapo do fogo a propagar-se fazia recuar todos os que, perto do jovem, o haviam espancado.
O filho de Abel e Susete estava a ser queimado vivo, perante a cobardia dos presentes que pouco ou nada fizeram para o evitar, não havia qualquer dúvida disso.
          Entretanto uma mulher, aos gritos, no meio das coisas que haviam sido distribuídas aos ciganos para os miúdos dormirem na noite anterior, procurava um cobertor a fim de apagar o fogo, que, alastrando-lhe por todo o corpo, consumia a roupa de Telmo, enquanto lhe afundava os botões da jaqueta no peito como quem enterra as raízes de uma planta num canteiro.

                                                                                     XLVIII

          -Bem-vindo ao Inferno, Telmo! – saudou Fausto ao afastar-se, devagar, do amigo.
          Domingos, depois do desmaio provocado pela visualização dos últimos momentos de vida de um incendiário às mãos do povo, acordou confuso como quando chegara.
          Sentia-se de novo um tição negro, alguém que passara pelo constrangimento de um incêndio de grandes proporções que o tivesse deixado reduzido a metade do seu metro e muitos de altura.
          Sozinho, chamou por Fausto, enquanto uma nuvem de traças esvoaçava sob a ténue luz da sala, esborrachando-se algumas contra si num voo sem rumo. Uma delas, gigante, provocando um som assustador, foi estatelar-se com violência na cadeira ocupada por Fausto, depois de este se levantar para providenciar a água.~

                                                                                     58
           -Está morto, Apagou-se, Morreu como matou. – ouviu-se quando alguém, passados alguns segundos e já com o fogo extinto, levantou o cobertor deixando à mostra o cadáver de Telmo, um Cristo a clamar por sepultura em pleno mês Agosto.
           E um silêncio ensurdecedor abateu-se sobre o largo da igreja, quebrado a seguir pelos gritos dos pequenos ciganitos, horrorizados com o espectáculo. Litos era agora um miúdo zombie, a viver numa dimensão onde a morte era o prato do dia.
Em cadência aparentemente estudada, a praça começou a esvaziar-se. Quem mais directamente participara na execução escapulira-se, talvez também já com algum remorso pelo desfecho. Praticamente só os rapazes das motas permaneciam ali, vigiados por dois homens apostados em impedir novas filmagens e a divulgação na net em tempo real do evento.
           Antes de a GNR chegar, após nova insistência e a brutal actualização de dados, António Pinto chegou esbaforido ao local onde o filho de Susete estava de novo tapado com o mesmo cobertor que havia servido para apagar o fogo.
           A notícia da morte do rapaz, embora sem pormenores, chegara aos ouvidos do presidente vinda de cada esquina da aldeia, tão timidamente como o sussurro com que se habitualmente se envolvem os segredos. Era um espectáculo macabro que o esperava, depois de, durante o tempo da sua ausência, ter batido a todas as portas de Ceca e Meca para tentar resolver, por qualquer meio, o alojamento de quem ficara sem um local para, ao menos, descansar o corpo ao fim do dia. Mas, agora que se defrontara com a morte de Telmo, denunciado por um surdo-mudo como o suposto incendiário do acampamento, lamentava profundamente não ter estado presente para ter, ao menos, tentado impedir um resultado do qual, supunha, ninguém estaria livre de culpas. Isso a avaliar pela timidez da revelação que lhe fora chegando, quase aos soluços, quando regressara. E, em semelhantes circunstâncias, não valeria a pena indagar fosse o que fosse junto de que quem quer que fosse. O muro de silêncio a pairar agora sobre a aldeia do Eito, juntamente com o fumo dos incêndios, não seria talvez rompido por nenhuma picareta deste mundo. Nem sequer pela que as autoridades lhe pudessem vir a aplicar em sede de investigação criminal.
          A grande verdade é que saíra com um problema às costas, e, quando voltara, tinha outro ainda mais pesado à espera, sem o dos ciganos se ter movido um milímetro da estática de sempre, visto continuar sem resolução à vista. Daí terem eles de dormir, mais uma noite, de baixo do céu, que, infelizmente para a causa dos incêndios, continuava seco como se tivesse firmada uma aliança com os “Conspiradores pro Fogo”, se é que os havia.
           Da família de Telmo nem sinal, ninguém avisara ninguém. E não admirava. Não haveria certamente quem quisesse ser portador, junto de uma mãe ou de um pai, por muitas assimetrias que houvesse no seio familiar, da notícia de filho morto entre a paulada e a incineração no largo da aldeia, depois de ter sido acusado do ateamento do fogo ao acampamento dos ciganos. E, claro, acusado de igual modo das repercussões desse mesmo fogo nos bens de uma série de pessoas e na vida de três delas. Apesar de nada do que Litos imputara ao rapaz estar ainda provado.
           Já a si, presidente da junta, no seu papel de autoridade máxima da terra, competia-lhe o ingrato papel de fazer o comunicado a que todos legitimamente se esquivavam, e, desta vez, não seria talvez pelo espinhoso da missão em si. Ao que tudo indicava, seria porque uma grande parte dos seus conterrâneos arderia tanto em culpa como Telmo ardera no meio da praça, consumido por uma chama alimentada a gasolina lançada sobre ele por um desconhecido que completara o serviço com a ignição de um isqueiro.
De qualquer modo, não podia adiar mais tempo. Tinha de informar um qualquer dos membros da família, se não pudesse primeiro falar com o pai ou a mãe. Nenhum dos dois irmãos mais novos da vítima estava em casa, e desde manhã que se sabia da ida de Susete para a fábrica em virtude de não ter conseguido férias simultaneamente com o marido. Havia, com certeza, quem tivesse os números de telemóvel, tanto de Abel como de Susete. Contudo ninguém parecia disposto a assumi-lo, com receio de, mais tarde, ser tomado como suspeito pelas autoridades na barbárie, sem ao menos tentar avisar os pais do rapaz do que estava a acontecer.
           Agora, antes de tudo, era necessário pensar numa forma amena de revelar a terrível verdade. Era preciso prevenir qualquer evento nefasto, um acidente na estrada por onde Abel e Susete regressariam a casa de carro. Além de ser imprudente pôr a verdade a nu através de um telefonema, sem se poderem controlar e reduzir ao mínimo as perturbações emocionais do outro lado. Seria desumano permitir a chegada dos dois à praça e fazê-los deparar-se, no meio dela, com o cadáver do filho morto e tapado por um cobertor anónimo já ensebado pelo contacto com o lixo do chão. Sobretudo para Susete, a quem se reconhecia a predilecção pelo filho mais velho, também o mais tonto e problemático. Mesmo o único filho tonto e problemático de Susete e Abel.
          Foi assim que António Pinto, quando eram sensivelmente quatro horas da tarde, ligou para a fábrica de lacticínios e pediu à telefonista para o pôr em contacto com a mãe de Telmo. Tratava-se de uma emergência. Como tivesse sido informado de que ela já saíra do turno, em nome da mesma emergência solicitou-lhe o número do telemóvel da mulher, para o qual ligou a seguir, munido de uma aparente frieza com que tentava banalizar informações tão dramáticas sobre o primogénito da mulher.
Abel conduzia o carro por uma das ex-sucts, mulher ao lado acabrunhada, já no regresso, quando o telemóvel dela tocou.
Susete procurou o aparelho na sua carteira feminina e saturada, atendendo  o interlocutor:
           -Fala António Pinto, o presidente da junta. O Telmo meteu-se em sarilhos… Por favor, venham para casa, mal possam. O Luciano, o Sérgio e a Paula não estão por aqui. É melhor contactá-los também.
           -Mas, o que é que aconteceu? – perguntou ela, aflita, quase a chorar – e, virando-se para o marido -. Desde que acordei com os ciganos no largo tenho andado de coração apertado. Passou-se algo de muito grave com o infeliz do nosso filho mais velho!
           -Tem calma – aconselhou Abel, sem se atrever, desta vez, a ser impiedoso com Telmo, como era seu hábito quase desde sempre.
           -Não posso adiantar pormenores. Falaremos quando chegarem – acrescentou o mensageiro do telemóvel, decidido a não contribuir para uma maior perturbação dos dois, que, naquelas circunstâncias, poderia até levar a um acidente de estrada. Isso se outros não surgissem, desencadeados pela comoção de qualquer um deles perante uma notícia tão violenta como a que, daí a nada, teria de dar. De desgraças já bastava por hoje, um dia fatídico que presenteara uma aldeia com quatro mortes quase de enfiada. Além da destruição de um acampamento, casas e uma mata recheada de eucaliptos, a bem dizer uma pequena parte da praga nacional de que faziam parte as malditas árvores.
           Mal António Pinto desligou, Susete, dando desta vez largas ao pressentimento que tentara sufocar desde o início, procurou algo atarantada o contacto do filho mais velho, ligando-lhe. O telefone deu “fora de rede”.
         Falou depois com Paula, perguntando-lhe se sabia o que se passava com o irmão. A voz da filha, ao dizer-lhe “não sei nada do Telmo”, pareceu-lhe, contudo, estranha. Após isso, não procurou falar com nenhum dos outros dois rapazes. Segundo o presságio que a oprimia desde cedo, o que sucedera com o filho era a pior coisa que já lhe acontecera. Só não sabia o quê.
           -Deve ter tido um acidente de mota – disse depois, na maior angústia. E deve estar em estado grave no hospital. Se é que não morreu… - adiantou com as lágrimas a inundar-lhe os olhos.
           -Não é nada disso, mulher. Não sejas tão pessimista. É só mais uma em que ele se meteu – disse Abel apelando à calma de Susete, sempre com tendência para o melodrama quando o assunto era Telmo –. Às tantas foi apanhado pela polícia e preso. Não seria a primeira vez. Afinal anda sem documentos desde ontem!...
         -Mas, para o presidente da junta nos dizer que avisássemos a Paula e os rapazes, é porque o assunto é grave – chorava Susete, limpando os olhos a um lenço de papel, sem conseguir acalmar nem um pouco.
            E, antes de os dois chegarem à praça, António Pinto, seguido da dona do café, da velha Madalena e do Padre Fernandes, entretanto informado de mais uma tragédia na aldeia do Eito, saiu-lhes ao caminho, obrigando Abel a parar. Atrás, além do grupo do padre, entre homens e mulheres, vinham umas sete ou oito pessoas. Incluindo, Dulce, Luzia, Catarina e Vasco, que, desde o recente confronto de Catarina com o rapaz, não largava a mulher.
           -O Telmo está morto… - informou o autarca quase a medo e sem saber que mais, e como dizer, após um avassalador silêncio e uma troca de olhares entre todos, que espelhava impotência, culpa e remorso. Fora a isso que conduzira o impulso de fazer justiça por conta própria, um rapaz morto por espancamento no largo da igreja às mãos de um bando de selvagens que, até esse dia, se diziam civilizados.
            Tanto Abel como Susete não reagiram de imediato. Ficaram em transe e incapazes de experimentarem qualquer emoção. Contudo, não demorou muito até ele recuperar da surpresa inicial e começar a digerir a informação validando-a ao ritmo de sentimentos contraditórios que, aparentemente, o deixavam neutral em relação a tudo. Habituado a não ter alegrias vindas daquele filho, não lhe ocorreu logo perguntar o que sucedera para Telmo ter passado para o mundo dos mortos ao meio da tarde numa segunda-feira quente do início de Agosto. Não perguntou o que acontecera. A não ser daí a um pedaço, quando, da surpresa, passara pela emoção e saltara até à lógica das coisas.
           Já Susete, ouviu as palavras do presidente como se se referissem a um acontecimento ocorrido noutra dimensão e incapaz de provocar alterações naquela onde ela própria vivia. Muito menos alterações que tivessem o filho como objecto de truculências.
Por isso, entre o catatónico e o febril, pouco depois de António Pinto lhes despejar nos ouvidos o nome de Telmo, geralmente associado a cicatrizes familiares e coisas más, de olhos esgazeados, desatou a correr à frente de todos como louca, derrubando na correria o mais novo dos ciganitos. Enquanto isso, a sua atitude provocava nos presentes um misto de receio pela saúde mental da mulher e de compaixão pelo sofrimento que, quando caísse em si, iria sentir em presença daquela criatura carbonizada que talvez já não reconhecesse como filho. Os ciganos mais pequenos andavam de um lado para o outro, na inquietude da infância e talvez cheios de fome, já que o pão e o leite achocolatado oferecido pela junta começavam a tardar. Depois dos horríveis acontecimentos, a pouca ordem estabelecida até então descontrolara-se completamente.
           O calor do alto continuava a esgalhar na terra, inclemente. Alguns homens que haviam combatido o fogo, reconhecíveis a seguir ao banho tomado em casa eu lhes dera um ar de normalidade aparente, já estavam ali de novo junto do morto à espera das autoridades.
            Susete, no mesmo ímpeto que a obrigara a correr inicialmente, mal se viu perante o cobertor no meio da praça em que  ainda se fazia sentir um forte cheiro a gasolina, removeu-o do que ele cobria, deparando-se com o corpo do filho irreconhecível. Mas, ao invés de soltar os gritos sufocados dentro de si pela demência momentânea, sempre em silêncio, ajoelhou-se junto de Telmo e puxou-o para si com impetuosidade, deixando-se cair a seguir sobre os joelhos sentada com ele ao colo. Ninguém se atreveu a dizer fosse o que fosse, enquanto algumas pessoas se viravam para as paredes da praça a fim de que ninguém lhes visse as lágrimas nos olhos.
           Foi como uma Piéta de Miguel Ângelo que a GNR e a Judiciária vieram encontrar Susete, um pouco antes da chegada dos primeiros jornalistas e das estações de televisão.
          Hoje, a aldeia do Eito era a estrela das notícias nacionais. Abrira os telejornais da hora do almoço com as malditas labaredas a devorar as matas circundantes e com três cadáveres esculpidos por elas, indiferentes à matéria-prima das suas obras. Agora, a cereja no topo do bolo era a morte do rapaz do isqueiro assassino em circunstâncias estranhas, a apurar mais tarde por quem de direito. Os dias seguintes iriam ser demasiado complicados para desentrelaçar tantas culpas. Até tudo entrar nos anais do esquecimento daí a uns anos, quando o verde voltasse às matas pelas mãos da chuva redentora.
           No dia seguinte, Abel, juntamente com Sérgio e Luciano, teve de ir logo de manhã tirar uma certidão de nascimento do filho mais velho, na qual, daí a um dia ou dois, seria averbado o respectivo óbito e a causa da morte: incineração pelo fogo após espancamento, em princípio.

                                                                                       XLIX

           -Coitada da pobre Susete. Nem quero imaginar se se tratasse da minha mãe. Apesar de Telmo ter feito tudo para merecer o que lhe aconteceu. A começar pelo envenenamento do caõzito – disse Domingos.
           -Foi mesmo a Pena de Talião em cheio. E, como referi, as coisas só poderiam ter aquele desfecho hoje, com as emoções à flor da pele. Amanhã soaria a premeditação amadurecida ao longo de vinte e quatro horas, tempo mais do que suficiente para acrescentar umas migalhas substanciais à condenação.
          -Sem dúvida.
           -E tu, estás melhor?
           -Sim, obrigado. Raio do filme que nunca mais acaba. Há bocado, houve aqui uma invasão de traças. Era como se uma praga semelhante à dos gafanhotos egípcios estivesse a invadir o teu hotel.
          -É deste calor infernal. Ficam perdidas no meio da luz. A traça nasceu para viver nas sombras. Se o Inferno existisse, dar-se-ia bem por lá… Queres comer ou beber alguma coisa? Uma cerveja, um sumo, pipocas?
          -Não, obrigado. Tantas mortes no écran deixaram-me sem apetite.

continua



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Julho 26, 2020, 21:02:46
Pena de Talião?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 26, 2020, 21:58:47
                                                                                  59

          Terça-feira amanheceu na mesma cor mortiça dos últimos dias, depois de o fogo continuar a sua varredura por todo o lado sem o mínimo respeito, sequer, pelas áreas protegidas como reserva ecológica. Era o dia da chegada de Sílvia, de Pierre, dos pais deste, do Tio Alfredo, da Tia Amália e dos dois primos. Viriam de qualquer maneira, embora o evento pensado para lhes tornar a estadia agradável nada tivesse a ver com os dois funerais em que desembocara um casamento desfeito pela chama de um isqueiro. Aterraram, cerca das dez horas da manhã, no Aeroporto do Porto, onde Vasco e um amigo de infância de Alfredo e Leandro foram buscar as oito pessoas integrantes da comitiva, que, de nupcial, passara num bater de asas e pela chispa de um isqueiro a um cortejo familiar, fúnebre e funesto
          À tarde, pouco depois das quatro horas, chegaram como o previsto, vindas da morgue, as urnas com os restos mortais de Ana Rosa e do pequeno Diogo, sendo depositadas no centro de uma capela mortuária de razoável dimensão, um ao lado do outro, no último encontro entre avó e neto. O espaço comportava, até, dois caixões de adultos, caso, numa fatalidade raramente acontecida, a morte pudesse visitar no mesmo dia duas pessoas da mesma família – ou de outra – como agora acontecera. Ao lado, havia ainda uma espécie de capela de segunda classe, utilizada felizmente pouquíssimas vezes. E não demorou muito até começarem a aparecer os primeiros ramos de flores e manifestações de pesar aos enlutados.
          Depois, iniciado o velório, decorria tudo sem sobressaltos, apesar de se viver um ambiente de consternação geral pelas mortes, sem se saber se mitigado ou não pela aplicação da justiça popular que levara ao espancamento de Telmo e à sua morte.
          Catarina, Vasco, Leandro, Dulce, Joanne e todos os recém-chegados estavam sentados no mesmo banco lateral, quando, do lado de fora da igreja, seriam sensivelmente cinco horas, se levantou um pequeno burburinho, obrigando a família a levantar-se para se inteirar do que se passava no exterior. Um novo carro funerário, da mesma empresa mortuária, havia chegado. E, mal estacionara, os ciganos, forçados a uma permanência na praça pelas circunstâncias, acudiram em tropel, junto com irmãos da comunidade ali chegados entretanto. Era agora a vez de descarregar a pequena urna branca com os restos mortais do pobre Manolito irreconhecível, na verdade um pedaço de carvão deformado pelo fogo. Sem ter sido possível vestir-lhe qualquer roupa, isso obrigou os serviços da morgue à recomendação, uma espécie de ordem profiláctica, de que o caixão fosse mantido fechado a todo o custo. O ciganito fora o mais sacrificado pelas chamas. Contudo, em virtude de estragos semelhantes no pequeno Diogo e em Ana Rosa, embora menores, a fim de não tornar a comoção geral numa memória de horrores, os mesmos serviços haviam emitido idêntica recomendação para os caixões de ambos.  
          Assim se dava de início a novas lamentações do povo cigano, agora num coro amplificado com novas vozes que acompanhavam, como abelhas a convergir para a colmeia, o encaminhamento da urna até o interior da capela onde, a seguir, seria depositada no sítio residual dos defuntos. Contudo esta circunstância adquiriu de imediato para todos os membros da comunidade cigana a dimensão de estigma. O enterro de Manolito parecia estar a ser catalogado como um funeral de saldo, com o mesmo valor dos lençóis e dos pólos contrafeitos que sempre haviam vendido na feira. Mas se uns e outros não passavam de roupa que se poderia facilmente substituir por outra, o rapazinho era único no mundo, nem melhor nem pior do que Diogo ou a avó, e não iria ser tratado de maneira diferente pela discriminação de que, ao longo de séculos de história, sempre se haviam sentido vítimas. A criança tinha direito a ficar num espaço condigno. E iria tê-lo.
           -O meu menino não vai para esse cortelho! – disse indignada , Cármen, em voz alta , apoiada por Inácio, Rodrigo, Luzia e todos os outros num intervalo de lágrimas.
          -Mas onde é que o vamos colocar? – perguntou o agente funerário.
          -À beira do outro anjinho – respondeu a mulher, enquanto Catarina e a restante família saía da sua contristação para tomar posição num caso com fortes probabilidades de descambar para o arroxo –. Afinal nem vai ser possível abrir as urnas para o último beijo de despedidas em nenhum deles! – continuou a matriarca cigana.
          -Quer pôr o seu filho em cima do meu? Não vê que não há espaço? – remoqueou Catarina de rosto agora endurecido e que só um acontecimento carregado de má vontade como aquele poderia ter desencadeado.
          -Pois, isto são urnas com pessoas dentro e não caixas de sapatos que se possam empilhar umas sobre as outras! – acrescentou Vasco defendendo a mulher.
           -E por que é que o meu sobrinho terá de ser tratado como o filho de um deus mais pequeno e mandado para as catacumbas como se fosse parente do diabo? – interrogou Rodrigo, com Luzia a fazer-lhe eco das palavras.
          -Ó homem, não é nada disso! É mesmo porque não há espaço – acrescentou Leandro -. Ninguém tem culpa de ter acontecido aqui o que aconteceu!
          -Não sei por que marcaram o funeral para o mesmo dia!... – opinou Dulce com alguma ironia -. Só se for por não terem dinheiro para pagar ao padre.
          -Queriam o quê? Que guardássemos o Manolito no frigorífico como se fosse um torresmo? – ironizou também Inácio, com mágoa e raiva.
          -Não! Queríamos que fosse para onde devia, para a capela ao lado. Vocês estão a complicar o caso sem razão nenhuma – disse Vasco zangado.
           Providencial foi, daí a nada, a presença do Padre Fernandes e de António Pinto, que, numa conversa recheada de contrapartidas e em que simultaneamente se excluía qualquer ideia de preconceito sobre a raça, convenceram a família cigana a aceitar a situação.
          -Aqui todos estão solidários convosco – sublinhou o presidente –. Enquanto não resolverem a vossa vida, continuaremos a apoiá-los com comida e outros bens de primeira necessidade – continuou o homem algo incomodado com o cheiro a suor exalado por todos os ciganos –. O alojamento está a ser tratado… Apesar de hoje terem ainda de dormir ao ar livre. Já há mais cobertores e colchões.
          -No que depender da paróquia, treze pessoas, mais a que vem aí a caminho – continuou o padre apontando a barriga de Luzia –não morrerão à fome.
          E assim o caixão da pobre criança, uma modesta urna branca com dourados simples a enfeitá-la, era colocado na capela mortuária de segunda classe e tão modesta quanto a caixa de madeira onde Manolito dormia o sono eterno.
          Parte do caos gerado por Telmo parecia ter entrado na rota da ordem, se não da forma ideal, pelo menos da forma possível. Contudo, quer uma, quer outra das duas famílias, estava visivelmente contrariada pela convivência forçada e pela partilha de um local da igreja onde jaziam os seus entes queridos. Era como se, no fundo, cada uma se visse privada do protagonismo das lágrimas e invejasse cada ramo de rosas que pudesse ser depositado na capela nobre, aos pés dos dois paisanos, ou na mais humilde, junto do pequeno Manolito. Embora fosse de prever a avalanche de flores homenageando Diogo e a avó, em comparação com aquelas a que teria direito o ciganinho, se um gitano endinheirado não resolvesse comprar uma florista em peso para honrar a criança cigana e “fazer ver” ao povo.
          Antes do fim da tarde, contudo, um novo quiproquó teve lugar, já que todos os pedregulhos de véspera tinham feito descarrilar do seu trilho a ponderação de algumas pessoas para gerir, sem conflitos, a morte que se instalara na aldeia do Eito. Incluindo o padre e o presidente da junta. Se a morgue havia conseguido médicos legistas suficientes para realizar quatro autópsias, uma pequena aldeia do centro não lograra edificar, de um dia para o outro, qual Ponte da Misarela construída pelo Diabo numa noite, capelas mortuárias suficientes para quatro defuntos, sendo um deles o carrasco dos outros três. E nem sequer a agência funerária, com a sua preocupação principal a girar à volta do velho princípio “eu não quero que ninguém morra, só quero que a vida me corra”, pensou nas implicações que uma tal mistura poderia provocar em cada uma das três famílias, levando-as a pensar, pelo menos a duas delas, em discriminação mesmo na morte. Logo numa circunstância em que as pessoas, mais do que nunca, deveriam ser iguais como no nascer, apesar do lugar-comum do “berço de ouro”.
          Daí que, quando o carro funerário parou na praça com o cadáver de Telmo, uma hora depois de chegada de Manolito, além de não ter no largo da igreja ninguém da família para o receber, se deparasse com a inexistência de um local apropriado para depositar o caixão:
          -“Como é que ninguém pensou nisto A morgue o que queria era ver-se livre de pessoas indigestas como esta, Ao menos que o levem para uma das freguesias vizinhas, enquanto as duas capelas não vagarem, Quem é que quer prestar homenagem a um bandido destes, Não me digam que os funerais vão ser todos à mesma hora, Claro, Embora o cemitério não seja longe, se houver para lá uma corrida às pinguinhas, terá talvez a ver com o carro da funerária e não por causa da missa, O senhor Padre Fernandes não estará disposto a repeti-la quatro vezes, Assim, em exéquias colectivas, só se preocupará em nomear as pessoas por ordem de chegada ao reino dos mortos: Manolo Maia, Ana Rosa, Diogo e, finalmente, Telmo Cerveira, o rapaz do isqueiro assassino”.
          -Só se o colocarmos na igreja… O que é que o senhor padre acha da ideia? – perguntou o funerário ao pároco, quando, a aproximar-se, estava Susete, menos catatónica do que na véspera ao deparar-se com o cadáver do filho e protagonizou uma cena bíblica semelhante à que fora imortalizada por Miguel Ângelo. Um pouco mais atrás, vinham o marido e os outros três filhos, os filhos bons, já que a maçã podre iria, finalmente, a enterrar numa hora presumida, a dos outros três. Na confusão desencadeada por tantas mortes, ninguém se havia referido ao horário do funeral do rapaz que acabara com três pessoas e mais um cão. Sem contar, ainda, com o aviário do João e as vacas do Norberto, para além do prejuízo em matas, vinhas e pomares de macieiras carregadas de frutos
           -Não me parece boa ideia…Se colocar o ciganito na capela pobre já foi um problema, permitir-se que quem, alegadamente, esteve na origem de tanta desgraça fosse para a igreja iria talvez provocar um motim!... – respondeu o padre, obrigado pelas circunstâncias a pensar na sua paróquia como um político igual ao presidente da junta, ali a seu lado disposto a intervir em conflitos da respectiva alçada. –. A família dos outros três iria sentir-se indignada. “Ah, ele, o assassino, vai para a igreja como se fosse um rei e os desgraçados mortos por causa dele têm de ficar espremidos nos anexos” . Deveriam ter pensado nisso antes!
          -Pois. Mas agora não podemos devolver o corpo à morgue. Temos de dar solução ao contratempo.
           -Vou falar com cada uma as duas famílias. Coitadas, estão exaustas e depois de sanado o primeiro aborrecimento, verem-se envolvidos noutro passado uma hora só os vai deixar ainda mais perturbados.
           E o padre começou a abordagem:
           -Nem pensar! – recusaram simultaneamente Catarina, os irmãos, Cármen e Inácio, informados do recurso em vista –. Era só o que faltava! Esse assassino que vá para o inferno! – praguejou Cármen.


                                                                                     L

           -Era de prever que, sobretudo na morte, quer Catarina e os irmãos, quer os ciganos, quisessem ver vítimas e agressor bem longe uns dos outros. Temos, assim, uma das poucas criaturas humanas sobre cujos pecados a morte não lhe passa nenhuma esponja logo ali no velório, como acontece habitualmente. – “Ah tinha lá os seus defeitos como toda a gente, mas não deixava de ser boa pessoa A mim nunca me fez mal, foi sempre respeitador, Só se tivesse umas cervejas a mais no bucho ou droga na veia”.
          -Tens razão, Fausto. Se os responsos do padre não o ajudarem, então Telmo tem o Inferno garantido. Além de que eu também teria medo da possibilidade de o rapaz começar, de imediato, a assombrar o descanso eterno dos três, como lhes ensombrara a vida durante uma noite a ponto de os mandar para o outro mundo.  
           -O padre de político tem pouco – observou Fausto –. Deveria ter feito às outras duas famílias uma sugestão diferente. Sendo que iria sempre confrontar-se com a oposição dos parentes do malfeitor. Sobretudo de Susete. Uma que desse mais jeito ao Diabo, para onde Cármen o mandou.
          -Qual?
          -Que tal confinar o culpado nos anexos e mandar as vítimas para a igreja, a casa grande?
                                                          
                                                                             60

          -E se fosse ao contrário? – perguntou António Pinto como se tivesse ouvido a sugestão de Fausto ue assistia a tudo no écran.
           -Tem razão, senhor presidente...- observou o padre – bem visto…
           -Ao contrário como? – quis saber Alfredo, irmão de Leandro, esperançoso de, finalmente poder velar a mãe e o sobrinho longe do manifesto mau-cheiro de qualquer um dos ciganos, a quem ainda ninguém se lembrara de oferecer, no mínimo, um quintal e uma mangueira de água fria para poderem a seguir vestir a roupa limpa que a irmã começara por lhes dar na véspera.
          -A vossa mãe e o Dioguito vão para a Igreja, o Manolito vai para a capela melhor e o rapaz irá para a outra – adiantou o Padre Fernandes.  
          -Nem pensar! – disse Cármen energicamente, vislumbrando de novo na solução uma forma de racismo a que não iria de maneira alguma submeter o filho.
          -Ou, então, iriam para a igreja. Ainda que tivéssemos de arredar alguns bancos para caberem os três – continuou o padre como se Cármen, com a sua recusa intempestiva, lhe tivesse obstruído a formulação correcta da oferta.
          -Assim está melhor – concordou Inácio, enquanto Catarina e o resto da família, desiludidos, enrolavam a cara num nó de desagrado, sem poderem usar de novo o argumento do espaço para se livrarem da proximidade dos ciganos e das suas irritantes lamentações.
          Depois de António Pinto e o Padre Fernandes lhes lembrarem as circunstâncias em que Telmo morrera, tanto Susete como Abel e os três filhos aceitaram como boa a solução profiláctica encontrada. Afinal, seria conveniente não exacerbar de novo a ira do povo, sabendo-se agora do que ele era capaz. Talvez nem depois de morto Telmo se livrasse dela. E, se fizessem grandes ondas, estariam a complicar a possibilidade de um velório com o mínimo de dignidade. Ainda que numa capela havida como um mero refugo para mortos qualificados da mesma maneira. Por isso, era melhor deixarem-na sozinha com o filho, enquanto este não baixasse à terra para entregar finalmente a alma a Deus no dia do julgamento final.


                                                                            LI

           -Com o currículo dele, aposto que vai para o outro lado – brincou Domingos –. Fez bem por merecer o inferno.
           -Se tu o dizes, até um tribunal de júri poderia confirmá-lo.


          continua



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Julho 30, 2020, 18:29:48
Telmo deve ser caso único. Nem depois de se ir, é considerado boa pessoa.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 30, 2020, 21:19:07
Deve ser mesmo, Nação Valente. O único morto a quem a morte não está a branquear grande coisa...




                                                                           61
          Na véspera, enquanto Telmo era confrontado com as terríveis acusações de pirotécnico, Marisa regressara a casa bastante perturbada. Ainda assim, através de um bom duche, tinha esperança de se ver livre da terrível sensação de haver mergulhado numa tina de água choca, onde parte das suas recordações com o mesmo protagonista da praça lhe pareciam agora girinos nojentos a chafurdar cegos no lodo. Contudo, não conseguiu abstrair-se delas. Nem enquanto sentia a água tépida escorrer-lhe pelo corpo como uma carícia, ao longo do tempo em que prolongou o banho como se quisesse fugir à realidade, nem depois de voltar ao quarto enrolada na toalha onde Zico dormira de novo na paz dos gatos felizes com os seus amores. Apesar de não ter havido ainda nenhum tribunal a confirmar as afirmações do surdo-mudo, acreditava nelas. O rapazinho não iria inventar tudo aquilo, por muito marginal que fosse a vida de todos no acampamento. Era demasiado macabro alguém, privado de um sentido como a audição, ser capaz de efabular, através de outro, semelhante acusação. Por muito que os olhos ajudassem na sedimentação da maldade, o contributo dos ouvidos seria sempre decisivo. Por eles entrava a maior parte das componentes ruins do mundo. E Telmo, depois da emblemática bofetada com que a marcara no rosto por algumas horas, ilustrou para sempre, como num mostruário de tecidos, as nuances de que o seu grande potencial de violência seria capaz. Até o Zico sabia isso.
          Sozinha em casa, sem se decidir ligar a Nélson para selar a paz entre ambos, mal soube da morte de Telmo, o horror invadira-a a ela e a toda a casa. Era como se o fantasma do rapaz se tivesse colado às paredes e ao tecto em qualquer sítio onde ela estivesse, deixando-a tonta de medo. Falou, entretanto, com os pais, para Viana do Castelo. Tudo aquilo era demasiado horrível. Telmo estava morto. E se não fosse a sua alma penada pelos cantos a atormentar-lhe a vida, como parecia estar já a acontecer, o corpo não seria de certeza, quando uma aldeia inteira o vira a ser espancado na praça, seguindo-se a sinistra incineração. Àquela hora estava na morgue, num gélido frigorífico para ser autopsiado no dia seguinte, esquartejado de cima a baixo, por dentro e por fora, a fim de ser determinada a exacta causa da morte. Talvez, por esse meio, lhe fossem encontrados também, em qualquer lado, sentimentos onde andasse perdida alguma sensatez à espera de ser reconduzida ao lugar devido. E, analisadas as coisas friamente, quem o incendiara, se não padecesse de demência, teria certamente o mesmo potencial maquiavélico do morto, sendo igualmente de temer. Talvez a aldeia estivesse infestada de assassinos. Além de tudo, os pais só regressariam no dia seguinte.
           Foi no meio de um medo avassalador que decidiu ligar ao namorado, quando o ar macilento da tarde principiava a precipitar-se na escuridão de uma noite que sofria da mesma doença. Viseu era a dois passos. Nelson, agora sem o seu mais tenebroso Calcanhar de Aquiles, Telmo, numa hora estaria com ela. E então livrar-se-ia daquela opressão gigantesca que a derrotava mesmo até perante o pobre do seu gato.
           Mal, após a mensagem a avisá-la da chegada, Marisa abriu a porta da rua, antes de proferir uma única palavra, lançou-se lavada em lágrimas nos braços do rapaz, enquanto este a afagava em silêncio contendo-se para não fazer o mesmo.
Sem qualquer dos dois, por mais que isso estivesse presente entre ambos, querer falar do que acontecera na praça, mal conseguiu acalmar, pegando entre as mãos no rosto de Nelson, desculpou-se ainda de olhos marejados.
           -Fui muito parva hoje…Desculpa
           -A culpa foi minha, reconheço…
          -Amo-te, seu tonto! Seu rapaz de beijos com sabor a sabonete – brincou, já com um sorriso nos lábios.
           Nelson sorriu igualmente.
           -Também te amo Marisa. Muito. Desde o tempo dos teus primeiros desabafos sobre…
           -Não digas nada…- acrescentou antes de uma pausa –. Sabes que, no fundo, tenho pena dele? Foi horrível saber que morreu e como morreu. Não lhe desejava a morte, por muitos incómodos que ele me causasse ainda…
           -Imagino. Nunca pensei que lhe pudesses desejar semelhante coisa. Apesar de ele ter ido longe demais…
           -Sim, é verdade… Incendiar o acampamento com os ciganos lá…E ainda me magoa pensar que, desde a infância, estive durante tanto tempo apaixonada por alguém como ele, capaz de fazer o que fez.

                                                                LII
           -Não digas! Devem estar os dois todos contentes. Apesar de teres trocado um príncipe por um sapo!
           -Só porque Nelson tem ascendência africana, não quer dizer que não seja um rapaz interessante – defendeu Fausto.
          -Só se for para ti. Entre um rapaz com a mutação de uma carapinha na cabeça e um ruivo, se estivesse no lugar dela preferia o príncipe dinamarquês.


                                                                            62

          -Agora percebo-te. Fui um idiota ao pensar tantas vezes que ainda sentias alguma coisa por ele. Tudo não deve passar de uma mágoa que, não se colando à pele, cola-se contudo ao coração como uma película impossível de remover.
          -É coisa que, por muito que nos doa, fará parte da nossa vida. Não podemos despir memórias como se elas se transformassem em camadas de roupa, tornada fora de moda de repente por um novo amor. Obrigada por teres vindo.
          -Eu já não queria ter ido embora, mas pronto… Não falemos mais no assunto. E é bom saber que que me tornei no rapaz dos beijos com sabor a sabonete – mimavam-se um ao outro, enquanto entravam num processo de levitação ao mesmo tempo que, abraçados pela cintura, subiam as escadas como se fossem um só.
          Agora tinham a certeza de, a partir desse dia, poderem falar sem reservas sobre qualquer assunto. Mesmo tratando-se do morto que tanto ensombrara em vida o pobre Nelson, com os seus genes modificados que lhe haviam atribuído a cor ruiva ao cabelo e semeado no rosto e nos braços aquela areia castanha de sardas.
          -Ficas comigo esta noite?
          -Claro, querida. Não vou voltar, pela segunda vez no mesmo dia, para Viseu.- sussurrou Nelson renovado pela reconciliação na sua auto-estima.
          -Preciso muito que fiques, mesmo, amor. Se soubesses o pavor que já experimentei sozinha nesta casa! Foi como se os fantasmas das histórias da minha infância voltassem hoje pela mão de Telmo para me amedrontarem.
          -Ficarei até os teus pais regressarem, se quiseres. Quando é que eles vêm?
          -Amanhã. E claro que quero que fiques, amor! Nem se pergunta!
          -Não iria deixar-te sozinha. Não hoje, numa terra cheia de mortos e vivos confusos, a respirar em simultâneo ódio e amor da mesma partícula de ar. Isto aqui está explosivo, como um paiol de pirotecnia ao lado de uma loja de fósforos.
          -Quero é que fiques para sempre! – murmurou Marisa, cada vez mais doce, naquele renovar de harmonia entre os dois.
           -Para sempre não me parece muito tempo… Tens de lhe acrescentar mais qualquer coisinha… – brincou o rapaz, beijando-a ao entrarem no quarto onde Zico, espreguiçando-se sobre a cama de Marisa, acabava de acordar de mais uma sesta.
          -Está bem até ao infinito? - perguntou no mesmo tom teatral do namorado, enquanto iludia por instantes a onda de horrores a que havia assistido durante o dia.
          -Muito melhor!... Para já, não conheço nenhuma palavra com um significado mais longo… – continuou Nelson, sorrindo de aprovação.
          Ao aproximar-se do animal, este deixou-se agarrar pelo jovem, que o afagou por alguns instantes antes de o pousar no chão. Depois de um alongamento no tapete transformado em ginásio, Zico sumiu pela porta, fechada entretanto pela urgência do amor que os impulsionou para a cama, disponibilizada integralmente aos dois por um gato discreto e cheio de boas intenções.
           -Tive tantas saudades de ti, do teu corpo… - sussurrou o rapaz, daí a nada, enquanto a despia lentamente, agora que a exígua roupa de um sufocante dia de calor se tornava inútil. Um estorvo para as caricias com que ambos iam construindo o seu desejo, tecido, beijo a beijo, sobre um rasto de lágrimas a que um fantasma não era alheio mas que acabara igualmente por ajudar a secá-las uma a uma.
          -Também eu, seu louco... – disse a rapariga numa voz doce como um prazer  merecido –. Contigo tudo é tão bonito… Fazes-me sentir sempre especial…- acrescentou, ajudando-o a despir com a mesma subtileza com que, como uma flor fresca acabada de colher, ele a deixara nua sobre a coberta azul florida.
          -És tão linda… Adoro o teu cabelo, a tua pele, os teus lábios, os teus seios - sussurrava entre uma carícia e a outra, contemplando o corpo da rapariga que se oferecia ainda com a timidez da recente reconciliação.
E assim, numa uma noite de plena embriaguez, os desconsertos do mundo lá fora se haviam diluído quase completamente pela magia do amor e do prazer que ele trouxera consigo.
 
                                                                                        63
          Acordaram abraçados, já a manhã ia longa na vida de uma aldeia coberta pelo mesmo capacete dos últimos dias. O sol mostrava-se de novo taciturno, quase sem esperança de alguma vez voltar a ter o brilho de outrora. Enquanto isso, o cheiro a fumo suspendia-se no ar por todo o lado, mais um fantasma macabro em busca de pessoas a quem se agarrar. Até lhes provocar a náusea disfarçada de alergias da Primavera e acompanhada de tosse, os sinais exteriores de bloqueio das vias respiratórias de que ninguém conseguia fugir. O país era um paiol, nenhuma estrada oferecia garantias de nela se poder circular sem nos depararmos com um corte da protecção civil fosse onde fosse por causa do fogo.
          Quando receberam o telefonema da mãe de Marisa a adiar o regresso, decidiram não ficar a ver o rescaldo das tragédias da aldeia do Eito, piores do que a pior das maldições. A terra parecia, definitivamente, assombrada por fantasmas de árvores, pessoas e animais, do mais complexo como o homem até à mais nojenta barata que, como os outros, contribuía para um equilíbrio ecológico cada vez mais ameaçado.
          -Vamos para minha casa – disse Nélson, sem admitir recusa.
          Fora a maneira mais simples de se esquivaram à confrangedora dança de caixões entre capelas imperfeitas e uma igreja decorada no interior a talha dourada e já com alguns séculos de história.




continua....


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Agosto 02, 2020, 19:22:01
Nada como uma reconciliação... dizem. Se puder dar opinião, não concordo rsrsrs


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 04, 2020, 17:55:03
                                                                                 LI
          -Finalmente uma cena de amor entre mortos!... – observou Fausto com ironia, desde o início apostado em provocar o amigo por causa das suas semelhanças físicas com o protagonista.
          -Tépida, por sinal. Marisa é uma mosca morta. Uma romântica fora de moda, uma rapariga sem sal nem azeite.
          -Além de te fazer lembrar alguém que conheces bem e de que não te lembras…
          -É verdade. Às vezes temos destes bloqueios. Talvez isso seja por causa da mistela que me deste no teu quarto…
          -Ages como se tivesses ciúmes do pobre Nelson… Mas ele não passa de um intérprete da trama a vestir a pele de uma personagem secundária.
          -Baseada em factos reais, lembra-te disso. Mas não é por essa razão. Embora não te saiba dizer por que raio sinto tanta antipatia pelos dois…
          -Espero que te lembres até ao final.

                                                                                           64

          Por volta das oito horas da noite, os ciganos comiam de novo uma sandes de queijo e fiambre. Desta vez, precedida de uma sopa de couve coração que a Dona Celeste preparara entre a cozinha da sua casa e a copa do café onde tratava dos pedidos dos clientes. António Pinto desdobrava-se em diligências para matar a fome a uma família de treze pessoas sem uma côdea no bolso para tentar um rato que tivesse escapado ao holocausto provocado pelo fogo. Era na realidade deprimente ver tantos miúdos a deambular por ali, no meio de cobertores, sacos cama e colchões de praia, entre o adro da igreja e o largo, desgarrados no meio de pessoas que, apesar de tudo, lhes pareceriam hostis. A culpa disso talvez fosse das histórias ouvidas dos pais contra esta gente de outro mundo na Terra. Entre as inúmeras pessoas que se haviam deslocado à igreja, estavam algumas da comunidade gitana que viera especificamente para velar Manolito, deparando-se constrangidas com a estranha mistura a que as circunstâncias haviam obrigado. O rapazinho, dentro do caixão aos pés de Ana Rosa e ao lado de Diogo, parecia mais um neto da pobre mulher, que se colocara ali para ouvir a última história contada pela avó.
          De resto, a maioria dos homens e mulheres, entrando e saindo de um lado e o outro, era constituída pelas mesmas pessoas que, de véspera, entre assistência e participantes, haviam feito parte do bárbaro espancamento de Telmo. E, hoje, num velório colectivo, repartido entre uma capela para defuntos e uma igreja para missas e casamentos, todos eles apresentavam alternadamente os pêsames às diversas famílias, oscilando certamente entre sentimentos de genuína consternação e de remorso. Susete, Abel e os outros três filhos, impedidos pelo muro de silêncio que se abatera sobre a aldeia de saber os contornos da morte de Telmo, recebiam as manifestações de pesar com alguma desconfiança. Não seria descabido imaginar que algumas daquelas lágrimas, em vez de solidárias, fossem de cebola. Ou, então, de alguém que tivesse pontapeado o filho como se este fosse o filho do diabo e que, através de um ramo de flores, quisesse manifestar arrependimento numa espécie de exorcismo florido.
          Cerca da meia-noite, a igreja e a capela fecharam, obrigando os últimos veladores de defuntos a sair. Parte dos ciganitos havia sucumbido ao sono. Dormiam por ali onde podiam, enfiados nos sacos-cama e tapados pelos cobertores, transformados em farrapos velhos pelo cenário miserável que se destinavam a adornar, a praça em frente à igreja, onde daí a pouco mais de uma semana iria decorrer a festa da Padroeira Santa Margarida. Enquanto isso, quase toda a gente regressavam a casa, deixando a praça entregue aos desalojados e a alguns curiosos.
          Tiago, o rapazinho mais velho de Catarina, não estivera presente. Para o poupar, mal se percebeu que Ana Rosa e Diogo os haviam deixado sozinho neste mundo de doidos incendiários, fora enviado para casa dos avós paternos. Embora no fundo o garoto soubesse que o irmãozito já não pertencia ao mundo dos vivos e que nunca mais lhe poderia fazer as pirraças a que um irmão mais velho tem sempre direito.
          Vasco e Catarina, apesar da insistência dos irmãos dela em não os deixar sozinhos naquela primeira noite, insistiram em dormir em casa. Antes do funeral, marcado para as onze horas do dia seguinte, precisavam ainda de imaginar os dois filhos no quarto a dormir tranquilamente, como se o futuro do pequeno Diogo continuasse inabalável à sua espera. Ou, então, queriam estar presentes, como se ele pudesse vir a acordar a meio da noite com um pesadelo e quisesse meter-se junto com eles na cama para adormecer de novo protegido dos monstros que o haviam despertado durante o pesadelo. Alfredo bem insistira em que ficassem com eles, na vivenda construída e argamassada com o suor de França ao longo de anos de muitas privações, mas os dois foram inabaláveis. Leandro fez o mesmo, nada os demoveu. No sábado anterior, quando parecia não haver nada a ameaçar o casamento de Sílvia nem a vida de ninguém, ter-se-iam divertido todos a falar dos sucessos uns dos outros e a sublimar os fracassos, mas, hoje, estavam tão mortos por dentro como a velha Ana Rosa e o filho. Diogo ficaria sempre pequenino nos seus corações como uma flor por abrir. Agora, a casa estaria para sempre vazia. Logo à entrada, até a chave da porta da rua, a ranger na fechadura como um lamento, fizera questão de lhe lembrar que parte dela já não existia. Colapsara quando o fogo lhe arrebatara a mãe, mas, sobretudo, quando lhe arrancara o filho dos braços num acto de selvajaria pura. Era como se o mesmo fogo que os matara aos dois tivesse entrado ali e, ironicamente, tivesse deixado tudo de pé como os cotos negros das árvores mortas. De hoje em diante a sua vivenda branca, se não fosse para sempre a “Vivenda da Morte”, pelo menos passaria a chamar-se definitivamente “Vivenda da Saudade.
          Catarina havia prometido a si própria não voltar tão cedo ao quarto dos filhos, onde o pequenito passaria a ser apenas uma memória imaterial que ela não poderia jamais apertar nos seus braços e cobri-la de beijos sempre que lhe apetecesse. Contudo, ao passar junto a ele, fechado anteriormente por Vasco para a poupar a recordações dolorosas, não resistiu a abrir a porta. Escancarou-a num impulso, acendendo a luz num ímpeto nada condizente com a apatia com que entrara em casa. Foi como se ouvisse, ao lado de Tiago, a dormir profundamente na cama, o choro de Diogo a sair de baixo da sua, depois de ter caído de dentro dos lençóis estampados com os pinguins de Madagáscar no meio de um pesadelo e tivesse de o ir levantar depressa para, a seguir, falando-lhe com, ver se lhe encontrava algum papo na cabeça.
          -Sai daqui querida! Não devíamos ter vindo… – pediu Vasco, pegando na mão da mulher e tentando tirá-la dali sem ela opor resistência –. Desta casa escorrem lágrimas por todo o lado como humidade numa mansarda durante o inverno. Vamos embora. Tão cedo não entrarei aqui.
          -Não quero – gemeu Catarina -. Não quero sair daqui nunca mais.
-Não podes. Por favor, anda.
          Vasco conseguiu, aos poucos, levá-la para o quarto do casal, onde ela se atirou sobre a cama como uma fardo de si própria, num sofrimento sem o conforto das lágrimas, secas entretanto por exaustão. Ajudou-a a despir-se e a meter-se na cama. Deitou-se a seguir ao lado dela, enquanto a abraçava pelas costas a ouvir-lhe o silêncio e o desespero. Também se sentia um caco, vazio e sem alma, mas Catarina era mãe há mais tempo do que ele havia sido pai. Leva-lhe um mês de avanço. Além dos oito de gravidez em que esta já não era segredo para ninguém.
          -Vasco, por favor, faz qualquer coisa a ver se isto passa… Dói tanto… Parece-me que vou rebentar por dentro. Talvez morra de desgosto ainda esta noite…
           O homem, sem saber o que dizer, começou a afagar-lhe a nuca, a beijar-lhe os cabelos, tocando-a a seguir com ternura, nas costas nos seios, beijando-lhe depois o corpo, poro a poro, centímetro a centímetro com suavidade, como se quisesse arrancar-lhe de dentro todo o sofrimento por essa via, enquanto ela se entregava como um animal desvalido e sem nada que pusesse fazer daí para a frente senão usufruir do corpo do marido e libertar-se por essa via da sensação de morte que a aniquilava.
          A seguir, antes de adormecer exangue, lembrando-se da igreja onde estavam avó e neto, sentiu algum remorso pelo prazer de há instantes. O filho e a mãe jaziam dentro de uma urna para a última viagem e depois do êxtase animal de há instantes a dor voltara mais aguda do que nunca.
          Vasco levantou-se daí a pouco, e, para não acordar Catarina, foi chorar como um louco para o quarto dos rapazes.
-Oh, Deus, ajuda-me! Traz-me o meu filho de volta! Quero morrer!


                                                                                             LII

          -Outra cena de amor... – observou Domingos algo incrédulo.
          -É. E triste. Poucos pensarão em aliviar um sentimento de perda como aquele através do sexo. Mas, neste caso parece ter resultado. Posso jurar que se amam de verdade. O casamento deles vai resistir. De contrário, não demoraria grande tempo até um começar a acusar o outro da morte da criança. “ Tu é que o deixaste ir dormir a casa da tua mãe, Por acaso a tua mora aqui para os deixamos com ela quando temos de ir trabalhar?” -Muita lama arremessaria um ao outro na vã tentativa de sujar um culpado diferente do que todos conhecem, o rapaz que dá pelo nome de Telmo.
          -Tens razão. Conheço um miúdo que, depois de um acidente numa piscina na casa dos avós, ficando em estado vegetativo, esteve ainda muitos anos assim a seguir ao divórcio dos pais por esse mesmo processo acusatório. Até que Deus, fazendo-lhe a ele a todos uma esmola, o levou.
          -Não será o caso. Mas, a partir daqui, vai haver uma grande volta na trama… Demasiadas surpresas…Até para ti…
          -Para mim?
          -Sim.
          -Por que é que dizes isso?
-Porque sim! – E Fausto calou-se, enigmático.
                                                                                    65

          As onze horas de quarta-feira, hora da missa e dos funerais, chegaram depressa, com a maioria das pessoas a convergir para o local bastante cedo. Um pouco antes de se iniciarem as cerimónias fúnebres, chegaram ao local dois desconhecidos, homens ambos, que nunca ninguém havia visto até aí. Alto um e outro, misturaram-se discretamente com os presentes, aparentando, mais do que prestar homenagem aos mortos e condolências aos vivos, tirar nabos da púcara do ambiente. Pelo ar, que já não sabia estar de outra maneira senão pesado e triste, circulava o temor de que se levantasse algum sururu maior do que o de véspera. Evitá-lo, ou reduzi-lo ao mínimo, estaria no bom senso do Padre Fernandes, já que a catástrofe temida tinha a ver com as exéquias em conjunto ou separado de quem ia ser sepultado. Não por causa dos mortos, mas por interferência dos vivos. Bem poderia acontecer que, num único ofício, pago a quadruplicar, com o mesmo chapéu se tapassem quatro cabeças. Díspares além de tudo, como díspar havia sido a vida de cada uma delas, com umas a merecer mais do que outras a derradeira homenagem e uma boa encomenda. Talvez isso, a opção por um funeral colectivo, ainda que se mencionasse, sempre que preciso, os nomes dos encomendados, fosse motivo suficiente para uma rebelião. Todavia, o exemplo de véspera servira-lhe de aviso, e o pároco resolvera respeitar a ordem de chegada de cada um à capela, ainda que a precedência de chegada ao outro mundo coubesse por inteiro ao pobre Manolito. Embora o seu tempo fosse escasso, decidiu assim fazer as exéquias a Ana Rosa, Diogo e Manolito em primeiro lugar, visto já estarem todos na igreja. A seguir, depois das primeiras pasadas de terra no cemitério e do último adeus, então prosseguiria com a santa obrigação de entregar Telmo Cerveira ao Criador, talvez com o rol de responsos aumentado por ele ser o mais pecador. Era, contudo, grande a possibilidade de a cerimónia do rapaz ficar deserta devido ao cansaço de uma aldeia inteira, mas não poderia ser de outra maneira. A ordem fora pré-estabelecida por duas capelas que, para o efeito, lhe pareciam agora mais do que perfeitas.
          Vindos de vários sítios das redondezas, misturados com os pares e com os outros cidadãos, havia bastantes homens, mulheres e crianças ciganas, algumas ao colo das mães que, como carpideiras de um passado longínquo, vinham chorar o pequeno, fazendo-o com aparente relutância. Talvez por temerem que as lágrimas derramadas fossem tomadas como suas por qualquer um daqueles três mortos, uma mulher e duas crianças, incapazes de se distinguirem, entre eles, como os verdadeiros destinatários das lamentações. Tanto dos ciganos como de quaisquer outras pessoas.
          No decorrer da missa, um pouco antes da altura de passar o cesto das esmolas para a colecta, o padre, referindo-se ao ciganito, lembrou aos presentes as condições em que a família se encontrava. E, ali perante Deus, anjos e santos, disponibilizou em seguida o conteúdo do cesto das esmolas para ajudar ao pagamento do caixão da criança, enquanto apelava à generosidade de todos e a uma boa contribuição. Até o agente funerário se prontificara a pagar metade, levando a concluir que estaria provavelmente a abdicar do seu lucro. Olhando para alguns escuteiros presentes, o pároco pensava na conversa com António Pinto e na sua recusa das instalações para abrigar os ciganos por algum tempo. Agora, com o gesto que acabara de esboçar, entendia que, mais do que nunca, uma mão lava a outra e as duas lavam a cara. Menos um problema para a junta de freguesia. Em última análise, para câmara da vila, o pagamento do enterro, que ele fazia de graça. Continuava, apesar de tudo, com a mesma opinião sobre os novos vizinhos da praça: cheiravam demasiado mal para irem conspurcar as instalações dos escuteiros ali na aldeia:
          -Contribuam com o que poderem, sem esquecer que quem dá aos pobres empresta a Deus.
          E a colecta fora generosa, o cesto foi depois recolhido forrado a bastantes notas de euro.



continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Nação Valente em Agosto 05, 2020, 20:16:14
E quando temos um casamento?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 09, 2020, 00:15:40
Calma, Nação Valente! Vamos ver no que isto dá...

                                                                                        66


            O cemitério não era longe. Depois de os três descerem à tumba, no meio de um mar de pranto colorido pelo negro da roupa dos ciganos mais velhos e as ramagens dos mais novos, sobretudo das mulheres, Catarina e os irmãos regressaram a casa num recolhimento em que se faziam sentir, além de profundas marcas de desgosto, um ódio profundo pelo último morto do dia. Agora era hora de o maldito incendiário ser responsado nas derradeiras cerimónias a que teria direito na terra, que ele transformara num inferno.
Para isso foi removido, ele e meia dúzia de ramos de flores, da capela de defuntos para a nave da igreja, onde santos e anjos poderiam ajudar na sua transição para o céu guiada pelos rituais fúnebres do Padre Fernandes no ajuste de contas final. A morte fora a última casa encontrada para Telmo habitar. Afora ela só a prisão, que, bem vistas as coisas, se assemelharia mais ao Inferno. Inferno que talvez o rapaz também tivesse pela frente, se não pudesse contar com a intervenção divina para se livrar dele o quanto antes. De qualquer modo, entre o Inferno do lado de lá e o que ele ateara na terra não haveria, talvez, grande diferença.
          A missa começou entretanto. Apesar de tudo com uma assistência razoável. Os parentes do rapaz e os vizinhos tinham comparecido todos. Afinal, haviam assistido ao seu nascimento, às primeiras fraldas, palavras e ida à escola, sem nunca imaginarem os caminhos tortuosos por onde depois ele se embrenharia. Por isso não lhe negaram uma última réstia de compaixão.
Já da família das vítimas não havia ninguém junto do corpo de Telmo. Era a sua última manifestação de ódio, não pelos pais e irmãos mas defunto em si mesmo, desprezado tanto na vida como na morte. Também os ciganos, incluindo os desalojados, se haviam metido nos respectivos carros, deixando o largo e o estenderete dos colchões e cobertores, enquanto meio mundo pensava na possibilidade de a questão do alojamento ter, finalmente solução. O problema seria, com certeza, o cavalo, mais um membro de família de que nenhum gostaria de se ver livre.
           Susete jazia prostrada e já sem lágrimas num banco da igreja, amparada por Paula e Luciano. O facto de a urna não poder ser aberta, dava-lhe a remota sensação de que não era o filho quem estava dentro dela, e que tudo não passava de um teatro mórbido a que fora convidada a assistir por pura maldade do encenador de uma peça maldita.
Enquanto isso, o Padre Fernandes prosseguia com os responsos.
Quando terminou, todos os parentes do rapaz, sobretudo Suzete, vendo a hora de se despedirem dele, foram de novo tomados pela emoção.
           Chegada a hora da ida para o cemitério, a mãe de Telmo inundava a igreja de gritos como ele inundara de chamas as matas da aldeia. Pedia ainda perdão para o filho e a condenação de quem o espancara tão barbaramente.
          -Descansa em paz – disse o padre, depois da habitual ladainha aos mortos.

                                                                                 LVIII

          -Dr. Fausto, chegou mais um cliente. Sugeria-lhe que fosse dar-lhe uma palavrinha – pediu Orlanda, assomando à porta da sala.
           – Além de que já tenho aquele documento de que estávamos à espera… Está aqui comigo, disse abanando o papel que trazia nas mãos.  
          -Não pode aguardar uns segundos? Isto está quase a acabar…
          -Eu não o aconselharia. Talvez seja melhor suspendê-lo por uns minutos. Ou então rebobiná-lo quando regressar…
          -Bom, sendo assim,  tenho de ir, Domingos. Volto logo que possível.
           -Está bem, respondeu o rapaz. Se não for precisa, a Orlanda bem podia ficar aqui um bocado. O filme é tenebroso. Mas ela não se deve assustar com a morte. Afinal já mandou um homem para o outro mundo na ponta de uma navalha…
           -Sim, pode ficar. Orlanda, tome aqui o meu lugar – ordenou Fausto à rapariga como patrão que não admite réplicas..
           As traças voltaram entretanto, reforçadas por um bom número de novos insectos, grandes como Domingos nunca havia visto.
           -Que bichos agoirentos! – observou para a mulher.
           -Há muitos por aqui. Aliás, bichos é o que não falta. E bem maiores do que esses…
          Os insectos esvoaçavam doidos por toda a sala, onde a luz, embora com a intensidade reduzida, estivera sempre acesa.
          -Este documento diz-lhe respeito. É a sua certidão de nascimento actualizada. Depois mostro-lha. Como não trazia nenhum, nem sequer a carta de condução, o Dr. Fausto, como o seu melhor amigo e para lhe evitar problemas caso fosse encontrado por aí sem eles, requisitou-a.
           Muita eficiência neste hotel – disse Domingos para os seus botões.
           Agora compreendia melhor os intuitos de ressocialização e reinserção social de Fausto para com os colaboradores. Se todos fossem como a rapariga, então estava plenamente justificado o pouco dinheiro que talvez recebessem do patrão. Não acreditava que ele lhes pagasse nenhuma fortuna, quando é sabido que a maioria do patronato só não escravizava os empregados a cem por cento por não poder.
           -Aqui não brincam em serviço!... – acrescentou, depois da reflexão.
           -Claro que não. Temos de ter a certeza de que quem vem para cá está no sítio certo e à hora certa… Não há como atrasar o relógio. Embora às vezes o adiantemos… Quanto mais eficiência e eficácia melhor, como diria o Elias na sua actividade de angariador de clientela.
            -Tem razão. Tempo é dinheiro. Sempre ouvi dizer isto (como esta rapariga mudou desde que cheguei até agora. Se for sincera, ainda terei alguma hipótese…).
           -E então, em que parte vai o filme?
           -Telmo está prestes a descer à tumba. A mãe parece tão morta quanto ele. Estou com imensa pena dela.
           -É só para ver o que às vezes fazemos aos pais. E aos outros. Um cão envenenado, três pessoas mortas, um aviário esturricado, quatro vacas com a mesma sorte. Já para não falar nas perdizes, coelhos, lagartixas, centopeias minhocas, pardais. Quando nos dão umas boas chapadas, são poucas as que caem no chão. Eu também fui uma rebelde inconsequente. Andei por onde não devia e depois vim parar aqui, de onde só não saio por não poder – disse algo enigmática –. Antes de lhe mostrar a certidão, vamos então acabar de ver “O rapaz do Isqueiro assassino”.
           E Domingos pareceu vislumbrar nas palavras da mulher, que esta, veladamente, estaria a falar mal do patrão, acusando-o de escravatura como ele já havia suspeitado. O que não era de admirar em nenhuma parte do mundo. Era a regra, a excepção seria fazer dele um anjo, inimigo de políticos e banqueiros e incapaz de sonegar os impostos ao estado ou ter um lucro exorbitante nos negócios.

                                                                          67
           -Descansa em paz, meu filho, dizia Susete, enquanto, no cemitério, deitava uma mão cheia de terra sobre a urna de Telmo.




                                                                                         LVIX

          De repente, vindas da porta por onde Orlanda chegara, as feiticeiras eram aos milhares, e Domingos, tomado de pânico, gritava horrorizado, enquanto os insectos arremetiam contra o ecrã estilhaçando-o em mil pedaços, que caíram no chão numa chuva miudinha acompanhada pelo silvo agudo dos vidros.
           Orlanda deu uma gargalhada sinistra e, estendendo a certidão de nascimento ao rapaz exclamou:
           -Bem-vindo ao Inferno, Telmo Cerqueira!
           O rapaz, se já ficara sem discernimento com a invasão das traças e quebra do televisor, agora perdera completamente a noção da realidade. Contudo, aos poucos foi recuperando da surpresa, Até, dai a nada, perguntar à rapariga:
           -Telmo!...  Que Telmo?...
            E lembrou-se da uma ou duas vezes em que Fausto se lhe dirigira do mesmo modo, aludindo igualmente ao Inferno ao mesmo tempo que ele, zonzo, abria a tal certidão de nascimento dobrada ao meio, em que  leu:
           Telmo Domingos Silva Cerqueira, filho de Abel António Cerqueira e de Susete Fernanda da Silva, nascido a vinte e quatro de Agosto de mil novecentos e oitenta e nove na freguesia de Eito, distrito de Aveiro. No canto superior direito pode ler ainda:
Óbito ocorrido em nove do oito de dois mil e dezasseis, sendo a causa da morte traumatismo interno generalizado e queimaduras diversas.
           -Que horror! – gritou o rapaz, levantando-se num salto da cadeira e dirigindo-se à porta, fechada entretanto com um estrondo aterrador.
           -Quero sair daqui depressa! Vocês querem dar comigo em doido! Deixem-me ir embora! – suplicou.
           -Impossível. Ninguém que tenha entrado no Inferno consegue sair dele - disse a rapariga fazendo troça –. Agora és um prisioneiro do Diabo, o teu querido amigo Fausto… – continuou no mesmo tom, que, de trocista, passara a maquiavélico.
           -Não acredito! Abre a porta, por favor! – gritava o rapaz.
           -Nada disso! Entretanto, podes continuar a ver o filme da tua vida… - sugeriu ela no mesmo tom.
           -Com o televisor em cacos?
           -Vais ver que não precisas dele para nada. O Inferno é em qualquer lado. Embora este aqui seja numa outra dimensão. E absolutamente acessível a um homem morto. É o que és agora, um morto, que a morte transformou em alma penada. De maneira que podes andar por todo o lado. Apesar de teres de ficar eternamente subjugado ao excelso do Dr. Fausto… E ele manda que fiques devidamente inteirado dos estragos provocados por ti e das vidas que tão negativamente influenciaste.
           -Como é que poderei fazer isso?
           -A película que divide o Inferno do sítio onde tu moraste – e “ainda moras”, diga-se de passagem – podes muito bem transpô-la só com um dedo. Como naquela cena de que o teu amigo Fausto falou, quando sugeriu que poderias induzir certos acontecimentos só com os olhos…
           O rapaz lembrou-se de ter dito a Fausto que costumava acordar só com a mãe a olhar para ele. Por isso, o que Orlanda dizia devia ter um fundo de verdade. E a rapariga parecia ter na verdade um curso superior sobre o Inferno. Também já se dera conta de que Orlanda, do tom cerimonioso de há pouco, passara a usar com ele de toda a familiaridade, como se, de repente, ele passasse a fazer parte da escumalha a que ela pertencera e continuava a pertencer.
           -Não te irrites. Não és melhor do que quem está cá. – disse a mulher, como se lhe ouvisse as reflexões. – Além de incendiário, és um assassino como eu.  
Era então verdade, fizera a passagem para o outro lado, espancado por vizinhos no meio de uma praça em frente à igreja da aldeia do Eito. Por isso, quando chegara, se sentira um pedaço preto de carvão, um “vomitado” por um vulcão em actividade há anos. E, em vez de ter à sua espera a Avó Martinha, aquela que aprendera a ler pelas letras do jornal quando tinha já mais de sessenta anos, tivera, na comissão de recepção, um Mastim brasileiro, o Diabo, que Fausto lhe apresentara como um anjo bonito no corpo de um cão com um nome feio. Além de uma prostituta pouco simpática, ida possivelmente para ali de uma forma tão pouco ortodoxa quanto a sua. Elias, o traficante de droga, era outro, assim como Paulo, o homem da noite que talvez não olhasse a meios para atingir fins, e o pedófilo Ernesto. Quem sabe se este não fora igualmente morto por espancamento na prisão às mãos dos outros detidos amigos das crianças? O tratamento “especial” dado aos pedófilos! Fausto, o patrão do Inferno, não passara de uma farsa, alimentada a roupa de marca, comida gourmet e um passeio higiénico pelo hotel, a fim de acolher, à custa de mordomias provisórias, mais um hóspede na sua vida eterna e definitivamente infernizada. Tudo fora como se Fausto, em pessoa, estivesse a participar activamente numa campanha eleitoral, destinada a atrair votantes através de cartazes tão sedutores como umas sapatilhas Nike, bermudas Calvin Klein ou um perfume Givenchy.
           Telmo Domingos da Silva Cerqueira era agora um servidor da legião de demónios tantas vezes citada na Bíblia, de que Fausto fora sempre o grande mestre. Era, pois, igual a Orlanda, Elias, Paulo, Ernesto e outros como o banqueiro Mateus Rosa, a amante Rita, o deputado Macário ou o ex- politico Alcino. Como ele, recém ingressado, estavam todos ali, após o Diabo os ter levado no fim de vidas tecidas a fraude, infâmia, luxúria e morte, depois de lhe terem vendido a alma às vezes por uma bagatela. Tão activos e eficientes, do tal lado da película de que Orlanda lhe falara, como haviam estado na Terra a induzir a maldade em vivos permeáveis a mordomias, vícios e prazeres compráveis sobretudo a dinheiro. A avaliar pelos Pavilhões “Auschwitz” e pelos que Fausto teria certamente por todo o lado, haveria no Inferno milhões de criaturas. Umas a servi-lo fielmente, e outras contrariadas como se estivessem numa prisão cujas grades nunca poderiam quebrar. Nem sequer à força de arrependimento. Talvez fosse o caso da amante de leitura, que, no dia da sua chegada, durante a visita ao complexo, lia, por entre suspiros e olhar distante, a Divina Comédia, sonhando certamente com o céu, como Fausto então sugerira.

  Continua                                                                                          



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Agosto 10, 2020, 09:22:19
Calma até temos, mas vamos também "torcer" pelo livro em papel.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 10, 2020, 21:49:49
                                                                                               LX

          Fausto não voltara a aparecer desde o episódio das traças. Era como se, de repente, o rapaz, importante à entrada a ponto de lhe ser emprestada roupa de marca e de lhe ser destinada a suite número quatro, passasse a um reles escravo sem pedigree, no meio de ciganos como os do acampamento. Nem sabia qual seria agora a forma de Fausto, depois de sempre ouvir dizer que o Diabo seria pródigo em disfarces. Se assim fosse, talvez um dia ainda lhe aparecesse como um lacrau, igual ao que, em determinada altura, lhe mordera a perna direita levando-o a experimentar uma dor lancinante. Quase tropeçara na morte. Ou como uma víbora, um traficante de droga a impingir-lhe meio quilo de heroína fiada para o hipotecar e que, depois, numa hora de aflição, lhe negasse um grama como Inácio Maia fizera, levando ao resultado a que Fausto o obrigara a assistir com o maldito filme.

                                                                                             LXI

          Agora que ali estava, teria de arranjar uma forma de matar o tempo.
          O melhor era, desde já, enquanto estivesse no estado de graça concedido pela transição entre a vida e a morte, começar a usar as suas prerrogativas de alma e visitar o que ficara para trás, depois de um brutal espancamento a que se seguira uma incineração desnecessária. A causa da morte não fora, de todo, o fogo, como constava na certidão de óbito. Embora reconhecesse que, após o seu feito vingativo e as suas consequências, as intenções de quem jogara sobre si um balde de gasolina e acendera depois um fósforo tivessem sido as mais adequadas como castigo. Ouvira isso da sua própria boca enquanto assistia ao desenrolar do filme.
          “Era regá-lo com gasolina e chegar-lhe também o fogo” – “ Um bom crápula, o rapaz! Se lhe chegassem um fósforo não se perdia nada!” – dissera pelo menos em duas ocasiões, sem ter consciência de que o rapaz era ele próprio, a ver, em retrospectiva, a parte final da sua vida. Pelo visto toda a gente teria direito a esse flashback. Era, ao fim e ao cabo, fazê-lo provar do próprio veneno. Mas o espancamento antecipara-se.
          Como Fausto o ignorava agora, ao menos para já, sem grande noção do tempo passado entretanto, decidiu visitar mãe. Decorriam ainda os cinco dias de nojo a que ela tinha direito pela morte do filho. A mais nítida imagem que guardava dela, horrorizado, era a de Pietá, quando os botões metálicos da jaqueta de ganga lhe estavam enterrados no peito como se aí quisessem deixar uma marca perpétua capaz de o distinguir dos milhões de almas penadas existentes no universo como um escravo especial do Diabo.
          E subiu para a mota metafísica, a fim de iniciar a viagem de revisitação, assomando ao beco pelo lado contrário à praça.
          Ao entrar em casa, teve uma estranha sensação de vazio.
          Encontrou a mãe chorosa, no quarto, deitada sobre a cama, a responder por monossílabos, de vez em quando, às perguntas de Paula. Tinham a ver com a roupa de Telmo e com a tarefa de separação para posterior dádiva. Fora a mãe quem a mandara fazer aquilo.
          Ficou chocado. Agora, depois de os irmãos e o pai sempre o haverem tratado como a ovelha negra da família, até a mãe se recusava a ter vestígios da sua passagem por li. Podia vê-las às duas, mas elas, se o viram, fingiram que não. E, em vez de ir fazer na cara da mãe a festa de que tinha vontade, saiu porta fora como tantas vezes fizera no passado, dirigindo-se ao acampamento para remoer as cinzas das suas lembranças.
          Já nem se recordava de como aquilo ficara em carvão, os barracos de pé, negros de fumo, os tocos das árvores mortas por todo o lado, a ausência do pio dos pássaros, sem ninho nem guarida. Morte, só morte e desolação. O esqueleto da carrinha dos pólos havia sido removido para análise e recolha de provas. Ao lado estava a parte intacta onde o Ringo, sobre o cobertor, fora velado por dois miúdos chorosos e inconsoláveis. O cãozito, fora enterrado.
           A seguir, dentro do barraco de Rodrigo, tentou vasculhar sob a cama de ferros retorcidos e o colchão negro magma, a ver se encontrava algum dos objectos de ouro que ele próprio  lá fora levar tantas vezes em troca da “cena”.
          Não encontrou nada de valioso, mas achou uma pistola. Tentou apanhá-la, largando-a de imediato por ela estar incandescente e lhe ter queimado as mãos.
          Frustrado, regressou depois à praça que o vira morrer. Os ciganos, sem rei nem roque, deambulavam por ali, maltrapilhos mais do que nunca, entrando e saindo no café da Dona Celeste onde lhe apetecia beber uma cerveja. Pediu-a, mas a mulher, olhando para ele, fingiu não perceber, como se tivesse à sua frente um renegado. Era o que se sentia, um renegado. Quis entrar na igreja, fora aí baptizado e fizera lá a primeira comunhão, mas uma mão invisível impediu-o com uma firmeza irredutível. Uma voz poderosa ecoava entretanto nos seus ouvidos:
           -Estás proibido de entrar! Não voltes a tentar! – ordenou. Não sabia de quem se tratava. Afinal, ara ainda muito novo na morte.
            E, passando pelos dois desconhecidos que vira no funeral, voltou para donde viera, tentando adivinhar quem seriam os homens a falar com Cármen, na sua condição de intérprete do filho surdo-mudo.


                                                                                      LXII

           A semana decorria anormalmente quente. O fogo continuava, maquiavélico, a devorar montanhas e montanhas sem fim, enquanto os bombeiros morriam de exaustão nacional. O fumo incorporava o ar, impedido o próprio ar de respirar há mais de dez dias:
“ Deflagrou um incêndio em…, Mais labaredas a lavrar no monte Y e Z por aí adiante, e assim, e assim, num terrível cordão de notícias tendo sempre o fogo como protagonista. Nos jornais e televisão, eram massivamente mostradas imagens dos soldados da paz prostrados, fatos negros, sujos pelo carvão e empastados de suor, homens e mulheres, quantas vezes a dormir um curto sono de minutos num lajedo, dias e dias sem ir à cama. As partilhas de fotos nas redes sociais, entre amigos reais e virtuais, eram constantes, os pedidos de ajuda para os flagelados bombeiros eram consecutivos, destinados a corporações de norte a sul:
          -Os bombeiros de tal parte estão a precisar de…, Os bombeiros de…, indefinidamente os bombeiros careciam disto e daquilo. Sobretudo, precisavam de uma coisa que nenhum mortal lhes podia dar, chuva; chuva que apagasse todos os fogos. Só assim os pobres soldados da paz poderiam ter uma noite de descanso. E lá ia sempre alguém, um pequeno contributo aqui, outro ali, com o bolo a crescer com o fermento da solidariedade.
          -Os Bombeiros Novos necessitam de mantimentos de fácil transporte, barritas, sumos, leite de trinta e três centilitros…


                                                                                      LXIII

          Foi dos primeiros pedidos que Sandra, ainda cheia de tosse depois da ida ao hospital na segunda-feira de manhã quando se cruzara com Leandro, vira no facebook. Quarta-feira, ao princípio da noite. Sendo já tarde, decidiu ir no dia seguinte comprar umas garrafas de água, sumos, umas bolachas. Sentia-se obrigada a cumprir com a sua quota-parte de abnegação aos  soldados da paz, que a protegiam o quanto podiam da maldita catástrofe. O facto de ser uma pessoa vulnerável ao fumo, levava-a a pensar na enorme exposição de cada bombeiro a esse veneno, uma coisa terrível que a levava a lágrimas de comoção, choradas algumas vezes na solidão da casa, do carro, ou fosse onde fosse. Mais do que ninguém, não podia ficar indiferente.
          Mal efectuou a compra, dirigiu-se à cidade. Embora vivesse na região há um bom par de anos, não a conhecia suficientemente bem para saber onde eram os Bombeiros Novos. Pelo que soubera depois, à semelhança do sucedido entre as universidades inglesas de Oxford e Cambridge, eles eram o resultado de uma cisão dos Bombeiros Velhos. Haviam protagonizado, em suma, uma espécie de cisma papal entre Avignon e Roma protagonizado pelos os Clementes por imposição do rei francês Filipe IV no século XIV. Sabia onde se situavam os Bombeiros Velhos, mas do sítio dos Novos tinha apenas uma vaga noção.
           Quando chegou ao centro histórico, deparou-se com uma cidade esventrada, um retorcido de ruas de acesso dificultado pelas obras e pelas alterações de sentido no trânsito. O que, em enganos sucessivos, a levou a dar um bom par de voltas em nó cego, até parar no sítio devido.
           Já na sede da Corporação, encontrou a grande porta, por onde saíam e entravam as viaturas, fechada. Viu um bombeiro do lado de fora a preparar-se para entrar num carro de combate e dirigiu-se a ele:
          -Por favor, onde poderei deixar um pequeno contributo? – perguntou, tosse em descanso até novo ataque.
          -Entre por aquela porta pequena – apontou-a –. Dentro, há colegas a receber as ofertas. Desculpe não a ajudar, mas vou agora para mais um incêndio.
           -Nesta altura era bem melhor que tivesse de ir para uma inundação!... – brincou Sandra, entre a pressa do bombeiro em ir embora e a sua em cumprir a missão e sair daquele labirinto de ruas  caóticas e tão pouco familiares.
          O homem sorriu, e, daí a nada, o carro em que seguia desapareceu na esquina, deixando no ar o rasto do seu silvo de marcha prioritária.
          Numa pequena saleta, repleta de mil e um bens alimentares, encontrou uma mulher jovem, vestida com o fato de bombeiro da cor vermelha adoptada pela corporação. Sem grandes palavras, sobre uma mesa já com bastantes coisas, depositou a seguir o que levava. A bombeira agradeceu e Sandra saiu.
          Quando chegou a casa, através dos jornais on-line e das redes sociais, quis saber dos avanços ou recuos do fogo nacional.
          Deparou-se, desde logo, com mais um pedido urgente: uma máquina de lavar em bom estado. As do quartel não davam vazão a tanta roupa suja.
          Não podia fazer nada por agora. A não ser partilhar.
          Quando uma fábrica de electrodomésticos fez a oferta de duas, a ajuda seguinte consistiria em detergente e toalhas, prontamente atendida pelo espírito solidário nacional desencadeado pela grande calamidade de Agosto.
           Até sexta-feira, Sandra foi aos Bombeiros Novos ainda uma outra vez. Levara pó de talco e pomadas para queimaduras. Da sua iniciativa, juntou no saco um maço com meia-dúzia de pares de meias comprados na feira, a que o vendedor, mesmo sabendo a que se destinavam, não fez qualquer desconto. Uma outra bombeira de serviço aplaudiu a ideia das peúgas, agradecendo-as juntamente com todo o pacote da oferta.
                                                              
                                                                                        LXIV

           Era já sexta-feira ao fim da tarde. Sábado estava reservado ao primo de Sandra como um dia importante. Miguel, o bombeiro interessado, na segunda-feira anterior, em chegar a tempo ao seu próprio casamento, subiria ao altar com Rosário na Igreja de Vera Cruz. Era ali paredes meias com os canais da ria e o quartel. O sonho da rapariga, desde sempre, fora casar no Convento de Arouca, forrado a memórias de freiras, rezas e sofrimento por amor a Cristo. Contudo, as coisas não se haviam encaminhado dessa maneira. Então, sendo ambos naturais de Aveiro, ficaram-se pelo centro e por poucos convidados, que, entre familiares, colegas da fábrica e da corporação, festejariam a boda numa aprazível quinta das redondezas.
          De duas cerimónias agendadas para o mesmo dia, salvara-se uma. Telmo arruinara a outra com a morte de avó e neto. Sílvia vivia agora o interlúdio de um casamento adiado sine die. E se Miguel e Rosário casassem no Mosteiro de Arouca não teriam grande sorte. Todo o concelho era um pasto de chamas, e todos os bombeiros e bombeiras andavam ensonados. Zombies ambulantes, era como todos se sentiam.
           Cerca da uma hora da tarde, Miguel vestia um fato de cerimónia, no dia mais importante da sua vida. O padre indicava-lhe oralmente o rascunho da velha fórmula sacramental para noivos, através da qual ele deveria aceitar Rosário como esposa:
           -Eu, Miguel, recebo-te por minha esposa…
          Pairando num outro mundo, o jovem nem se apercebeu de que era o foco do olhar dos presentes, ansiosos pelas suas palavras, que culminariam, depois de o padre os declarar marido e mulher, com o beijo da praxe. A noiva vivia, sem surpresa para ninguém, a mesma expectativa.
           Só alguns instantes passados, um silêncio excessivamente longo desde a fala do padre, Rosário, numa fracção de segundo, pensou na horrível hipótese de ser rejeitada no altar em frente aos convidados. O que a levou a abanar o noivo com bastante nervosismo:
          -Miguel?
          O jovem dormia, literalmente, em pé, e a assistência, ao aperceber-se do hiato em que o rapaz mergulhara, aligeirou o assunto numa gargalhada, mais do que compreensiva para com o out do rapaz.
           Sandra, a prima, ao lado do marido, pensava para com os seus botões:
          -Quem mandou estes dois marcar o casamento para o mês de Agosto? Mas, tinha de ser, aproveitar as férias dos parentes emigrados na França, na Alemanha, Suíça e Luxemburgo. Desde os anos sessenta do século passado, não havia uma única família que não tivesse alguém no estrangeiro. Ainda assim, no agendamento da cerimónia, um e outro deveriam ter presente a última vez em que Miguel saíra em serviço por umas horas e só regressara a casa ao fim de quatro dias.

continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Agosto 11, 2020, 18:00:43
Adormecer na cerimónia ... bem, menos mal...