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Textos => Contos => Tópico iniciado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 29, 2020, 21:17:15



Título: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 29, 2020, 21:17:15
          - Desta vez correu-te mal… – disse Fausto para o amigo recém-chegado que acabara de o procurar, sem esperar grandes justificações. Era o que fazia sempre. Ou, pelo menos, numa grande parte dos casos. Nunca insistia em arrancar confidências à força de palavras carregadas de insinuações maldosas, fruto de um conhecimento antecipado sobre a vida dos outros. Soubesse embora estarem eles em maus lençóis por causa de mau feitio ou vícios que só a morte poderia curar.
          - É verdade…
          O rapaz, na casa dos vinte e poucos anos, chegara esbaforido, tal como quem sai de casa à pressa e sem tempo para meter numa mala meia dúzia de peças indispensáveis para umas férias de verão, por mais quente que ele estivesse. Era o caso, não seria preciso grande roupa. Ainda assim, não levara nenhuma. Os termómetros tinham atingido o descalabro de uma temperatura que, mesmo àquela hora, marcavam uns sufocantes trinta e sete graus, liquefazendo quantos não conseguiam enganar o calor através do recurso ao ar-condicionado.
          - Antes de ires para o quarto, onde ficarás o tempo suficiente para resolveres os teus problemas, usas as minhas coisas – disse Fausto com uma autoridade em que não cabiam recusas, enquanto ambos se encaminhavam para os aposentos do anfitrião -. Todas as peças te devem servir. Tens roupa interior, calças, calções e calçado para a vida toda, se for caso disso – acrescentou o homem mais velho sorrindo.
          - Obrigado, és um bom amigo. Sem ti, não saberia o que fazer. Quando dei conta da necessidade de me refugiar em algum lado para pôr as ideias em ordem, o nome Fausto foi o primeiro a ocorrer-me. Obrigado mais uma vez.
          - Não tens de quê. E agora trata de ti. Estás como se tivesses atravessado um deserto de cem graus Celsius em que até o sol se tivesse divertido a tisnar-te e a deixar-te como carne sobre brasas passada do ponto. Estás irreconhecível. Sempre te tive debaixo de olho, de contrário não chegava lá…, a quem tu és…  
          - Obrigado mais uma vez.
          - De nada. Vai lá então.


(continua)



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Nação Valente em Janeiro 30, 2020, 16:37:07
Um história que promete, e que representa um regresso desejado, desta escritora amiga e agora valonguense.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Janeiro 30, 2020, 23:33:41
II

          Quando ficou sozinho, o rapaz olhou-se ao espelho da enorme casa de banho da luxuosa suite. O cabelo ruivo, farto e uniforme, sujo como estava, parecia mesmo uma giesta queimada por uma lareira num dia de Inverno. Fausto tinha razão, se a namorada o visse agora, assim enfarruscado, morreria de susto ao primeiro relance. Nunca lhe daria um beijo. Estava num triste estado após a sua mais recente travessia de um deserto talvez ainda por inventar. Até os olhos, de azuis como o céu, estavam agora negros da cor do Inferno, fundos e cavos como alçapões cheios de nada. De tão alquebrado, sentia-se como se tivesse encolhido uns bons centímetros, e imaginava-se um pequeno duende numa floresta invisível a olho nu a tentar equilibrar-se nos próprios ossos.
         Pensar na rapariga, na namorada, deixava-o mais ou menos furibundo. Nos últimos tempos, a sua existência, vista de qualquer ângulo, tornara-se demasiado confusa. Uma nuvem de fumo que o impedia de ver as coisas com clareza e perspectivar um futuro ao qual pudesse segurar as pontas.
          Mas, o melhor era não pensar na jovem tão cedo. Ou, pelo menos, antes de retomar o seu bom aspecto habitual, que levava as mulheres a apaixonar-se por si num estalar de dedos como se ele fosse um verdadeiro galã de Hollywood.
          Enquanto a água corria para a banheira, um pequeno regato caseiro refrescando o ambiente à volta, ao olhar-se de novo no espelho, tudo o que estava a viver naquele momento o fazia imaginar-se como um bêbado a cambalear num hospital antes da maca salvadora. Além de tudo, em estado de coma e com toneladas de lixo às costas, e a quem médicos e enfermeiras se recusam a tratar antes de um bom banho. Talvez estivesse, na realidade, num estado de coma provocado por si mesmo para fugir a reflexões dolorosas e que agora lhe vinham à memória sem tréguas.
          Enquanto, emerso na enorme banheira, pele a sentir-se revigorada pela água abundante de espuma, olhava em redor, pensava no amigo como um homem de sorte. Fazia jus ao nome. Vivia efectivamente num ambiente de fausto e como um príncipe moderno chegado à ribalta pelas mãos da fantasia. Quando abrira gavetas e armários para tirar a roupa de que precisava, verificara que não faltava ali nada que o benfeitor não pudesse usar em qualquer circunstância, por mais extraordinária que ela fosse. Havia de tudo. Desde luxuosos Black Ties e toda a gama de peças de belas peças de cerimónia. Até às mais informais bermudas para a pesca de carpas num rio, de baixo do sol a ouvir o murmúrio das águas e o canto inebriante dos passarinhos. Tudo era efectivamente requintado e de bom gosto. Calças de ganga de marca, polos t-shirts, sapatos e acessórios como num conto de fadas em que, no fim, tivesse uma donzela vestida de seda à espera como o grande prémio de toda uma vida.
           Desde sempre conhecera o amigo assim: um homem elegante, capaz de atrair os olhares de meio mundo por entre uma multidão. Nos últimos tempos, a sua riqueza aumentara consideravelmente, tal como se Fausto tivesse nascido com o toque de Midas e a pobreza lhe fosse uma infelicidade vedada por um nascimento bem fadado. Agora era dono daquele hotel na montanha, um antigo chalé que um dia um prospecto publicitário lhe dera a conhecer, a ele, pobre viajante forçado, como um excelente local de refúgio. Os preços, altos e rechonchudos, variavam, ainda assim, à medida da almofada económica dos clientes mais abastados daquele oásis. Embora ele, rapaz de aldeia e filho de gente modesta, não pertencesse a essa elite dos príncipes do dinheiro. Mas, a necessidade de ir para algum lado, esconder-se,  era muita. Uma verdadeira situação limite, em que se sentira lançado depois de uma má jogada da sua parte com cartas que ele próprio viciara. Por isso se vira na necessidade de procurar o amigo, apesar de, insistia consigo mesmo,  o seu bolso não ser nenhuma mina de diamantes. Muito menos uma caverna de Ali-bá-bá com as paredes a escorrerem ouro. Contudo, um dia, apesar de não saber bem como, esperava pagar a estadia naquele paraíso montanhoso e aquelas férias forçadas. Ainda que para isso tivesse de vender a alma ao Diabo.
          Reconfortado depois de sair do banho, daquele ritual de felicidade e bem-estar, optou por umas calças caqui e uma t-shirt verde justa. Queria confundir-se com as árvores da floresta, pinheiro bravo, eucalipto, sobreiro, carvalho e azinheiras, onde, uns séculos atrás, alguém se lembrara de construir aquele robusto castelo destinado a durar milénios. Para isso, fora aproveitada uma imensa clareira de areias, onde, aqui e ali, perdurava uma árvore de bom porte respeitada pelo construtor que lhe antevira futura e eterna utilidade. Os carvalhos, sobretudo, tinham atingido um tamanho gigantesco. Recortavam agora enormes sombras, que protegiam recantos onde bancos aprazíveis serviam para desfrutar em plenitude da tranquilidade verdejante da montanha e e da sua paz.

(continua)



Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Goreti Dias em Janeiro 31, 2020, 10:04:20
Escrita exemplar! Parabéns! Espero a continuação.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Fevereiro 03, 2020, 22:43:11
          III

..........Quando saiu do quarto, seriam umas seis horas. Dirigiu-se de seguida à entrada a passos contemplativos, observando os pormenores da decoração à sua volta. Já ali havia estado, sujo e tisnado, mal chegara, e, aí, ainda degradado, tinha sido recebido por uma mulher bastante jovem, bonita, a quem, num tráfico de influências descarado, teve de desarmar a má vontade inicial desencadeada pelo seu mau aspecto.
          A pergunta “Por favor, o Dr. Fausto está, selou-a ele com o seu nome, como se fosse chave de uma casa forte que guardasse dentro um segredo. Mas, agora, depois dos banhos de água e de roupa de marca, sentindo-se outro, revigorado e atraente. Aproveitou por isso o seu bom aspecto para, sorrindo, se insinuar num galanteio:
          - Estou melhor agora?- ao que ela, sem revelar, apesar de tudo, uma simpatia como a que ele esperava de uma pessoa jovem do sexo feminino, respondeu com alguma ironia:
          - Bastante. Está parecido com o meu patrão…
          - Pode dizer-me onde é que ele está neste momento?
          - Venha comigo, se faz favor.
          A recepcionista caminhava à frente como modelo de passerelle, enquanto o jovem olhava as elegantes pernas da rapariga, a insinuarem-se sob a mini-saia, que, com a camisa branca, o colete e o laço negro, fazia parte da farda do hotel. Era atraente a empregada do hotel que seria agora o seu refúgio por algum tempo.
          Encontraram Fausto sentado num bar que se valia do couro castanho para imprimir um ar masculino a todo o espaço, e onde nenhuma mulher, até aí, adquirira o estatuto de dona. Nem do sítio, nem do coração do amigo, que continuava como sempre o conhecera: sem ninguém e rodeados de mulheres ao mesmo tempo. Havia quatro maples de couro, alguns espécimes embalsamados, umas cabeças de veado. Todo o ambiente fazia lembrar animais mortos sob à mira de uma espingarda, ao som dos seus estampidos e ao fogo azul dos caçadores. A caça, por ali, seria frequente em qualquer época do ano. Talvez como vício ou simples subjugação da liberdade de outras criaturas. Tanto por parte dos hóspedes, como do dono do hotel. Seria, talvez, até, uma das razões pelas quais o chalé era tão procurado. Sobretudo no outono, quando as neves não tivessem ainda caído o suficiente para deixar as árvores prateadas e os animais inquietos, prestes a aventurar-se mais longe acossados pela fome desencadeada pelo escassear de recursos da estação que se avizinhava.
           Nas prateleiras atrás do balcão, as bebidas refulgiam das garrafas, e Fausto, não tendo por perto o barman, de momento no terraço ali à frente das imensas portadas envidraçadas do bar a servir um cliente, ele próprio encheu o copo com a cerveja que o amigo manifestara vontade de beber. Acompanhou-o, depois, no seu whisky de doze anos, bebendo com gozo o almiscarado da bebida.
          Concentrados nas suas estratégias de ataque ao tabuleiro, numa sala ao lado, dois homens jogavam xadrez numa mesa redonda, forrada pelo pano verde que, nos casinos de todo o mundo, apadrinha os jogos fortuna e azar deixando no ar um clima de esperança e  excitação.
          De copo na mão, os dois amigos transpuseram as portas corridas das vidraças e sentaram-se frente um do outro no terraço, sorvendo os raios da tarde que se infiltravam curiosos por entre as agulhas belicosas dos pinheiros num moderado frenesim de vento leste.
         - Então, já te sentes melhor? - perguntou Fausto em tom intimista, procurando não chamar a atenção do homem que, ali no mesmo terraço, bebia igualmente um whisky, cadenciado com as baforadas de um cachimbo que deixavam no ar um cheiro característico a tabaco havanês.
          - Bastante. Sinto-me um pedaço de ti metido na tua roupa. Um privilegiado – acrescentou sorrindo –. Estava capaz de fumar um cigarro para celebrar o meu estatuto de gentleman.
          - Não seja por isso. Tens preferência por marca?
          - Não. Qualquer uma serve. Pode ser a que fumas, já que de momento sou uma espécie de teu espelho.
          E Fausto, chamando o barman, entretanto liberto da anterior incumbência e já disponível, pediu que lhes trouxesse um ou dois maços de tabaco e uma caixa de charutos cuja referência indicou.
          - Vou fumar também. Desta vez um havaiano.
          Depois da primeira baforada de um e outro, o mais recente hóspede agradeceu de novo a hospitalidade em voz mais ou menos sussurrada, concentrando-se a um tempo no fumo do cigarro e na bebida. Não queria dar a conhecer àquele estranho, ali ao lado a perfumar o ar com o cheiro doce do seu cachimbo, a sua vida privada e todos os seus nós.
          - Obrigado, Fausto. Ainda que um dia te pague, como conto, nunca conseguirei ver-me livre desta grande dívida para contigo num momento de tanto aperto.
          - Ai pagas, com toda a certeza – disse Fausto rindo com ar dissimulado. Se não for neste mundo é no outro! A propósito, já te registaste na recepção com a Orlanda?
           - Ainda não.
           - Bom, é melhor que o faças. Embora seja eu o dono, tem de haver um certo controlo. Até para salvar as aparências. Como deves calcular, não estou imune ao fisco, , apesar de não ser um pagador imaculado de impostos ao estado – disse no mesmo tom reservado com que iniciara a conversa e como quem vê no interlocutor um cofre capaz de guardar grandes segredos.
          - Não tens de justificar. E vou daqui a pouco ter com ela. Por sinal não é lá muito simpática, a tua recepcionista…
          - Mas é discreta. Não anda por aí a propalar a vida dos hóspedes do hotel, que às vezes a tomam por confidente. Ainda assim, não dês o teu nome verdadeiro… Se os sarilhos andam atrás de ti, é melhor que demorem a encontrar-te…
          - Tens razão. E como achas que deva chamar-me? – perguntou sem ideias para o seu baptismo temporário na montanha.
          - Se eu fosse Robinson Cruzoe, chamava-te Segunda-Feira, por causa do dia em que chegaste. Mas talvez isso desse aso a confusões e mal-entendidos. Sobretudo no início da semana. Deveria parecer que se estava a invocar o tempo e a fazer rituais de magia sobre ele sabe-se lá com que intuitos. Que tal Domingos?
          - Domingos… Sim, Domingos parece-me bem. Os domingos são os dias de não fazer nada. Talvez já não seja bem assim, desde que que os centros comerciais nasceram. Mas pelo menos ainda vão tendo essa fama.
          - Então, a seguir, quando acabarmos de beber, vais ter com a Orlanda. Diz-lhe que te furtaram os documentos quando vinhas para aqui. Depois já posso apresentar-te aos restantes hóspedes do chalé. Só do chalé, porque para todos os outros, os dos pavilhões entretanto acrescentados a este corpo principal, não me chegaria a eternidade – brincou, agora sem medo de ser ouvido pelo vizinho do terraço.
         - E este aqui ao lado é quem? – perguntou em voz surda, com um trejeito de cabeça, apontado para o homem que,  com eles,  partilhava pachorrento  o fim da tarde. Era elegante, de gestos finos, aparentemente moldados muito mais do que a dinheiro, por um berço de ouro que lhe permitiria enganar qualquer um sem levantar a mais leve desconfiança.
         - Mateus Rosa, um banqueiro falido a contas com a justiça – disse Fausto já longe do terraço, com Domingos a dirigir-se à recepção, onde Orlanda parecia estar a aguardá-lo como mais um indesejável D. Juan, acerca de quem deveria ficar sempre de pé atrás.
         - Hoje em dia os banqueiros têm bastante má fama. Quase tanto como os homicidas. Apesar de pagarem bem menos do que os assassinos à cadeia. Têm deixado milhares de pessoas na miséria por dá cá aquela palha. E cada dia são mais e mais sofisticados. Multiplicam-se como pragas no verão fugindo ao calor. Entretanto, vêm para o teu hotel repousar como nababos…
         - Desde que me paguem!... E não julgues ninguém. As coisas nem sempre são o que parecem…
         Domingos voltou para o mesmo sítio, depois de resolver a burocracia junto de Orlanda, constando agora como mais um hóspede com prerrogativas especiais junto do patrão. Pediu entretanto uma nova cerveja gelada, desta vez servida pelo barman, um homem dos seus quarenta anos, vestido com a mesma farda da recepcionista na versão masculina que uniformizava a criadagem. Fausto regressou também, repetindo a bebida que Paulo lhe serviu entretanto num copo largo ornado a pedras de gelo, fundidas paulatinamente com o whisky no intervalo de cada gole, à medida que o tempo passava. O banqueiro já se havia retirado para a saleta onde os dois clientes, num mundo à parte, se dedicavam ao jogo de xadrez como a partida das suas vidas. Sem um parceiro para os imitar, Mateus Rosa pegou em dois baralhos de cartas da gaveta de uma mesa e entreteve-se a jogar paciências ao lado, esperando pela hora do jantar. Ou talvez aguardasse a companhia feminina que, desde que chegara, uns dias depois do velho banqueiro, lhe fazia uma companhia melada por sorrisos carregados de segundos sentidos. As mulheres demoram sempre uma eternidade a sair do quarto quando têm de se apresentar perante um homem a quem querem agradar por algum motivo.

(continua)


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Nação Valente em Fevereiro 08, 2020, 18:35:06
O rapaz do isqueiro assassino é um mistério. Mistério, suspense, amor e o que mais vier, são ingredientes para um bom cozinhado literário. Estou curioso.


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Fevereiro 08, 2020, 22:18:34
Capítulo IV (1ª parte)



          -Já me tornei oficialmente Domingos Saraiva, como me sugeriste. Vou ficar na suite número quarto.
          -É muito boa.
          -A Orlanda é que que continua pouco receptiva à simpatia dos clientes… Uma cara fechada com um punho. Nem por eu ser teu amigo.
          -Lá terá as suas razões. De onde ela veio as coisas com os homens não eram fáceis…
          -Não me digas que se tornou lésbica por um acumular de desilusões?
          -Longe disso…- murmurou Fausto como quem está prestes a contar um segredo a um amigo, certo de que segredo e amigo tombariam no mesmo dia e em cova única, finda a vigência terrena de cada um.
          Depois, prosseguiu com alguma descrição:
          -Um dia, quase como tu, Orlanda chegou aqui bastante maltratada, desesperada quase a vomitar as vísceras…Não veio como hóspede, mas sim pedir emprego. Era prostituta e teve um problema bicudo com um cliente numa noite de excessos. Passou alguns anos na cadeia, uma ave bonita presa sem glória por causa dos maus instintos de um cavalheiro perdido de bêbado. Aliás como o Paulo, o barman, igualmente um homem da noite, na vertente do prestador de serviços, atrás de um balcão ou por entre as mesas da fauna nocturna. Este também se viu envolvido num crime ocorrido numa discoteca. Nessa altura, um jovem foi para o outro mundo fulminado por uma bala cega, dirigida a outro e cujo lugar o pobre rapaz, por azar, tomou…
          -Que horror!... – espantou-se Domingos, calando-se a seguir durante uns segundos, impressionado com a história –. Mas e a Orlanda, a que missa foi? – perguntou, em crescendo de curiosidade e alguma apreensão, à medida das revelações do amigo sobre o passado dos seus funcionários. Demasiado macabro. Era demais para o primeiro impacto.
          -Mais ou menos a mesma coisa… – acrescentou Fausto –.  Certa ocasião, um cliente quis roubar-lhe o apuro da jorna, que ela, daí a nada, teria de dar ao chulo. Mas, antes de o conseguir, o sujeito travou conhecimento com a navalha pouco amistosa de Orlanda. E assim foi despachado de uma vez para o outro lado num só golpe, cego e certeiro. Depois, quando ela aqui chegou, como era e ainda é muito bonita, aproveitei-a para a recepção, onde agora tu lhe cobras sorrisos que ela não se sente muito disposta a esboçar…
          -Bem poderia ser mais afável… Antes também o devia ser. De contrário não teria clientes. Seria bem mais fácil para ela limpar a folha de serviço que a cadeia não costuma branquear. Bem pelo contrário! Na cadeia a troca de experiências é sempre muito enriquecedora para quem queira tornar-se num profissional do crime e hóspede regular da prisão.
          -E onde é que uma prostituta de rua tem de ser simpática? Tem é de ser eficiente!
          -Também. Mas uma coisa não tira a outra…
          -Isso é mais no caso das acompanhantes de luxo, que às vezes também aparecem por aqui… Essas é que têm de usar a máscara da simpatia e do chame para sangrar a carteira do cliente.
          No terraço, a conversa decorria entre os dois homens, que, apesar de não se verem havia alguns anos, era como se se tivessem despedido de véspera, no fim de um copo entre amigos, para a vida e para a morte, celebradas uma e outra no mesmo aperto de mão.
Fausto era um homem a quem era difícil atribuir a idade. Aparentava ser bastante mais velho do que Domingos, entre um pai que tivera um filho ainda jovem e um irmão com mais dez ou quinze anos em cima. Teria o seu metro e oitenta de altura, e uma estrutura bem proporcionada entre ossos e músculo. E, sobre um pescoço esguio, um rosto fino apresentava-se tão perfeito como se se tratasse do melhor retrato de um pintor famoso que tivesse caprichado nos mais ínfimos pormenores. O cabelo era de um louro cor de cobre, ondulado, levemente caído sobre uma testa alta, no fundo da qual dois olhos verdes atribuíam um ar sedutor ao seu dono. Sobretudo quando combinados com o sorriso, nascido nuns lábios serenos que pareciam fazer parte da boca de um anjo. Poderia dizer-se que Fausto era um homem muito belo.
          Quase no fim da bebida, e depois de um silêncio em que Domingos digeria as confidências do amigo ao mesmo ritmo com que bebia a cerveja, o recém-chegado prosseguiu:
          -Então, dedicas-te à reciclagem humana e às novas oportunidades… - disse Domingos com alguma hesitação, tentando interiorizar o assunto e sorrindo,por causa da matéria-prima usada para aquilo que deveria ser uma nova pessoa. Ou várias novas pessoas, depois de todas se despirem do passado tenebroso como quem despe uma camisa suja e, após um banho regenerador, veste a seguir lantejoulas. Como ele próprio fizera há pouco.
          -Podes dizê-lo, sim. Novas oportunidades. Segundas, terceiras, quartas oportunidades e por aí adiante. Nunca desisto de ninguém, nem morto. Interesso-me sobretudo por casos destes, sobre quem ninguém apostaria uma unha para a limpeza de uma latrina. Em cada ser humano, se não se conseguir aproveitar tudo, há sempre alguma coisa de útil. Raramente uma maçã está toda apodrecida. No mínimo, há-de ter caroços para semente. Acho que é até por causa disto que a vida cada vez me corre melhor. Puro bafejo da sorte.
          -Pois, já vi que continuas a prosperar… – observou Domingos espraiando o olhar nos pinheiros, onde os raios de sol se tornavam cada vez mais oblíquos embora ainda longe do fim do dia -. Parabéns por este magnífico hotel de montanha.
          -Obrigado. Devias seguir o meu exemplo. Agregar pessoas perdidas a favor de uma boa causa.
          -E recebes alguma coisa da Segurança Social por este teu serviço humanitário?
          -Não. Não recebo. Nem quero. Se assim fosse, não era solidariedade com os “malditos”, iguais à Orlanda e aos outros, mas sim aproveitamento. Pelo menos numa boa parte. Tenho cá mais como ela. E até muitos dos que recebem por empregar ex-reclusos e marginais… Na realidade, a maioria desses empregadores acaba por vir para aqui gastar o dinheiro, ganho com essa falsa caridade depois de fazerem umas quantas trapaças para chegar ao pote… Mas, agora reparo, desde que chegaste não comeste nada. Tens fome ou queres esperar pelo jantar?
          -Não, não tenho grande fome. Posso esperar. Como pouco…
          -Consegues aguentar até às nove horas ou preferes enganar o estômago até lá com um triângulo de queijo e um brioche?
          -Não quero comer nada. Esperarei até essa hora.
          -Então, enquanto esperamos, vou mostrar-te o hotel no seu conjunto e todos os seus mistérios. Quer do chalé, quer dos novos pavilhões. Esta parte aqui é para os milionários, os que nadam em riqueza melhor do que tu nadarás numa piscina de água quente. A parte restante é para músicos a quem o dinheiro não telinte tão harmoniosamente como no bolso de banqueiros iguais a Mateus Rosa.

(excerto do IV capítulo) continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Goreti Dias em Fevereiro 10, 2020, 19:31:10
Isto promete!!!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Fevereiro 10, 2020, 22:37:21
IV

          Preparavam-se para se levantar, a fim de encetarem a visita, quando Domingos pegou no isqueiro de ouro com que acendera há pouco o cigarro, fazendo menção de fumar de novo.
          -Não fumes agora. É proibido fazê-lo lá fora, em quase todos os lados. Já viste se uma ponta de cigarro distraída se abraçasse a uma giesta seca e os dois inflamassem tudo como só o fogo é capaz? Embora haja aí um lugar onde às vezes certos hóspedes vão fazer rituais à roda de uma fogueira, como meninos que de inocentes nada tem!... Só que eu não vejo e não consigo impedi-los… Talvez nem queira, por razões económicas óbvias…Vamos lá passar daqui a bocado.
          -Desculpa, não pensei nisso. Tens toda a razão. Seria um perigo. Mas é que estou mesmo a ressacar… Não tenho fome, contudo, preciso de meter qualquer coisa nos lábios e na boca…
          -Pois, mas não é nada disso… - disse Fausto com algum mistério e uma boa ponta de compreensão … - Chegaste há cerca de três horas, com o tempo de viagem, e ainda não alimentaste esse animal…
          Domingos baixou os olhos.
         -Desculpa – disse de novo, certo de que, como o seu hospedeiro dissera que nunca o tinha perdido de vista, lhe conhecia assim todos os vícios de humano frágil entre os fortes, que ele não se orgulhava de ser -. Talvez tenha de ir embora mais cedo por causa do animal a que te referes…Depois volto cá devolver-te a roupa e os ténis…
          -Não penses nisso, nem te preocupes… Vou resolver-te o problema por agora. Anda comigo.
          E, entrando no bar, atravessaram depois a ampla recepção, onde Orlanda continuava atrás do balcão, a conferir se as chaves dos quartos estavam penduradas nos sítios devidos e a verificar o livro de entradas. À frente tinha o computador e um telemóvel, o que, aliado à ansiedade por causa da ressaca em progressão, provocou no rapaz um certo pânico.
          -Só agora me dou conta de que não trouxe o meu. Devo tê-lo perdido durante a viagem. Se precisar de telefonar ou mandar uma mensagem não posso fazê-lo….
          Fausto, no cimo do lanço superior da escadaria que levava aos dois andares superiores, no último dos quais, com uma visão de muitos graus sobre a montanha, era o seu quarto, estacou e puxou para cima Domingos na frase que proferiu num ênfase mais ou menos cómico:
          -Para que queres tu um telemóvel quando aqui nem sequer há rede? Os hóspedes vêm para se verem livres do mundo, não para se me meterem na boca dele!
          Domingos respirou fundo, tentando engolir o seu imperdoável esquecimento. Sorriu de seguida, salvo pela pureza da montanha, impermeável em boa parte às tecnologias de globalização que nos tornava um alvo fácil da devassa alheia em qualquer parte do mundo.
          Após o absurdo do telemóvel, juntamente com o anfitrião, o rapaz subiu até ao quarto onde estivera há pouco e de onde saíra metido na roupa do amigo.
          Fausto, de uma das paredes da sua suite, de baixo de um quadro de uma criança a chorar pintado por Giovanni Bragolin, depois de abrir um cofre embutido na referida parede, retirou dele um pequeno saquinho de plástico com algo branco e macio no seu interior. Ao lado, ainda no cofre, havia um recipiente de plástico com tampa, de onde Fausto tirou também uma pequena colher de café, um pedacinho de papel vegetal e uma palhinha. A seguir mandou sentar Domingos em frente ao tocador espelhado dos seus perfumes, e, deitando com a colher uma pequena pitada do produto sobre o papel, disse-lhe com cinismo dissimulado:
          -O quadro é de mau gosto, mas para mim é uma espécie de fetiche…Anda, senta-te e snifa um bocado. Ou, se preferires, tens aqui uma seringa e tudo o que precisas se optares pela veia. Mas é só por hoje!... Isto é apenas para situações de crise. Não quero ter de chamar ao hotel o INEM para nenhum hóspede a trepar pelas paredes como um gato assanhado no meio de uma ressaca de cocaína ou de qualquer outra coisa!
          E deixou o rapaz sozinho por alguns minutos, em frente ao toucador, enquanto ele, através da ampla janela do quarto, olhava a montanha com um olhar misterioso e dominador simultaneamente.

contínua

Capítulo V
Capítulo V (O Rapaz do Isqueiro Assassino

          Daí a um pedaço, quando Domingos acabou a reposição dos seus níveis de adrenalina no sangue, saíram para a entrada do chalé com algum vagar.
          Fausto, fazendo questão de ser ele a levar a cabo uma visita guiada ao complexo, dirigiu-se à entrada, onde, contra o que seria de esperar, não havia qualquer portão. Nem sequer uma guarita como a de um quartel, onde um porteiro nocturno pudesse receber um o soldado retardatário no meio de uma tempestade de areia ou meteoritos. Os muros, em todo o perímetro, eram todavia, altíssimos, sendo de presumir que nenhum cliente conseguisse fugir através deles sem pagar a estadia. Ainda que fosse um verdadeiro alpinista de montes tão íngremes os Alpes Suíços ou mesmo o Evereste.
         Ao chegarem perto da entrada do complexo hoteleiro, o mesmo cão dissuasor de Domingos, quando o impediu de entrar com a sua mota de escape livre, apressou-se a lamber amistosamente as mãos ao dono, enquanto lhe saltava ao peito dançando nas patas traseiras uma espécie de chula vareira.
          -Então Diabinho, estás com muito calor ou nem por isso, meu velho? – perguntou Fausto, deixando-se lamber em seguida e apresentando ao rapaz, imóvel e algo distanciado daquelas manifestações de afecto, um negro mastim brasileiro digno de respeito.
          -Já o conheço. Veio ter comigo à entrada, quando cheguei. Sem qualquer latido, dançou sozinho à frente da moto como agora dançou contigo nessa demonstração de amor. Era como se me quisesse impedir de cavalgar em cima dela, bem diferente de um qualquer dos quatro cavaleiros do Apocalipse a entrar majestosamente aonde devia sobre o seu cavalo.
          E, olhando para fora, encostada ao muro e à sua espera para o regresso, ainda não sabia quando, Domingos viu a sua lambreta estacionada, bonita obediente e calada. Com ela galgara uma estrada de alguns íngremes quilómetros, até desmontar ali. Tinha-lhe um amor semelhante ao que havia entre o cão e o dono seus hospedeiros. Um amor, por assim dizer, forte, como forte era o brilho reluzente do metal que a alindava, e como se a sua moto fosse uma mulher bonita e bem maquilhada para uma festa elegante a fim de brilhar no meio de uma multidão de convivas igualmente reluzentes e aperaltados.
          -Vais dizer-me que a via está em mau estado, cheia de mato e silvas de um lado e outro, que a engolem como ervas carnívoras a pedirem a morte por guilhotina. Ou, então, a cabeça de um fósforo riscado e incandescente, atirada ao acaso para provocar danos aleatórios. Mas agora quase já não é usada. Nem para passeios pedestres. Praticamente todos os hóspedes chegam de helicóptero, deixando os carros bem longe por causa da poluição. Aqui fazemos como os milionários excêntricos a quem saiu o Euromilhões e que até à padaria vão de avião comprar um papo-seco.
          Domingos riu-se e, a medo, tentou fazer uma festa a Diabo, sem este se tornar muito efusivo, e, muito menos reagir ao acanhado mimo, enquanto Domingos admiradamente dizia:
          -À excepção do vira de um lado para o outro, bailado à entrada e à minha frente, o Diabo comportou-se como um Anjo com letra maiúscula e sem pinta de raiva. Mal me viu descer da mota, deitou-se sobre o peito como um cordeirinho cansado em hora de sesta. E quando, pausadamente, passei por ele com um falso á vontade, parecia dormir qual justo vergado ao peso de cansativas mas boas acções. Sobretudo daquele dia. Nem sequer pestanejou.
-Tens razão. À entrada é, de facto, um sineiro a dar as boas-vindas aos hóspedes. À saída é que é pior. Faz jus ao nome. Só sai daqui quem eu deixar. O Diabinho tem uma espécie de sexto sentido e um excelente olho clínico para diagnosticar os pensamentos das pessoas. Sobretudo os maus. Por isso não há aqui portão, nem ferrolho. Ele é a minha chave mestra, sem eu ter de carregar com ela cada vez que alguém, por qualquer razão, queira indevidamente fechar-se no quarto a fazer seja o que for de indigno ou impróprio. Se alguém pusesse o pé em ramo verde, encarregar-se-ia de impedir que, levasse simplesmente como recordação um cinzeiro com o logotipo do hotel ou um roupão de banho. É um óptimo cão de guarda. Na verdade é mais do que os meus olhos e ouvidos quando não ando por aqui ou estou ocupado A minha alma, em suma…
           -E mete muito respeito… Se não fossem as condições em que me encontrava, sujo como um vagabundo e esgazeado, nem teria entrado só para não ter de passar por ele e pelo seu natural ar de fera. Mas, desnorteado, um barco sem bússola e com a estrela polar encoberta, precisava como nunca de uma tábua de salvação a que me pudesse agarrar, e de alguém que me chegasse um copo de água no meio de uma tormenta cuja dimensão ainda não compreendi muito bem nem qual foi. Sentia-me tão sequioso, peganhento e cheio de crostas como se tivesse sido vomitado pela boca de um vulcão.
Felizmente, encontrei-te! De contrário, a esta hora ainda estaria com o mesmo ar de homem em apuros, plantado em frente da Orlanda com um problema às costas que não conseguiria resolver sozinho. Obrigado mil e uma vezes – agradeceu de novo Domingos.
           -Não me agradeças mais que me confranges. Então se sou capaz de ajudar estranhos com passados de faca e alguidar como a rapariga, não iria ajudar um amigo? Vá, anda daí.
A propósito, a “receita” já está a fazer efeito?
           -Sim. Sinto-me reconfortado. Animado para o passeio até à hora do jantar. Capaz de escalar os Alpes
           -Ainda bem. Vamos lá. Vais gostar do meu habitat milenar, povoado, a toda a hora, com gente de todas as partes do mundo – disse Fausto com um sorriso franco e simultaneamente enigmático.
           Fausto deu de seguida uma palmadinha cúmplice no dorso do animal. Este foi deitar-se, pachorrento, no seu local privilegiado, debaixo de um pinheiro bravo, enrolado num novelo e com a melhor aparência ursinho fofo para adormecer crianças de sono difícil.
           Os dois amigos afastaram-se um pouco, enquanto levantavam os olhos para o exterior do chalé, localizado perto da entrada, do lado direito. De construção antiga, dir-se-ia, metaforicamente, milenar, o que se impunha ao primeiro olhar eram os mil e um telhados negros de lousa, sobre outras tantas janelas do que pareciam águas-furtadas em cascata. Sucediam-se umas às outras até ao último andar, indo depois o tecto do edifício morrer numa pirâmide de templo chinês. Bastante inclinadas, as coberturas tinham semelhante configuração para, no Inverno, permitirem que a neve não ficasse aí acumulada longos meses levando-os ao colapso antes de derreter. Dos primeiro e segundo andares fazia parte a zona das suites, e, no rés-do-chão, situavam-se as áreas de apoio, a sala de jantar, comprida e ampla como a nave central de uma igreja, bar, sala de jogos, e ainda uma superfície de lazer onde os hóspedes poderiam assistir a sessões de cinema. A cozinha e copa, privativas do chalé, ficavam atrás da recepção. De resto, havia varandas em todos os andares, grandes terraços no rés-do-chão, praticamente a toda a volta do edifício, cobertos ainda com os mesmos telhados de pagode que conferiam a toda a estrutura um toque de privacidade. Fora o primeiro espaço a funcionar como hotel, e, à medida que os negócios eram soprados pelo vento da abundância, Fausto expandia-se graças à copa frondosa da sua árvore do dinheiro. Até se ter tornado num homem abastado e cheio de expedientes lucrativos.
          -Bonito, o teu chalé.
          -Único no mundo, na verdade. Mas eu sou suspeito – sorriu.

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Dionísio Dinis em Março 16, 2020, 20:42:57
Vai de vento em popa e a levar os leitores em atenção redobrada.
Continuemos!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Março 17, 2020, 17:30:28
VI

           Acompanhado por Domingos, Fausto dirigiu-se depois para o lado esquerdo do bosque. Caminhavam sobre o empedrado, comum a todas as ruas, bordejadas por árvores diversas, e, mesmo àquela hora, o calor era tanto que se viam as suas ondas a emergir das pedras, incendiadas pelo sol a pique do meio-dia, que já se fora há tempos, mas cuja quentura ainda permanecia agarrada ao chão. Era como se o vento leste, esperado para a noite, tivesse feito ali o seu hangar favorito. Nem um pássaro se ouvia, e o murmúrio das folhas não deixava dúvidas de que estariam a congeminar uma forma expedita de resistir, presas nos ramos, às fortes rajadas nocturnas.
          À medida que iam progredindo para a esquerda, começou a ouvir-se, cada vez mais nítida, uma música aos saltos, que perturbava a pacatez da montanha. Era uma chinfrineira dessas que fazem pensar nos bailes populares de verão, nas festas de Agosto. Uma mulher cantava uma canção, tão fácil de ouvir e de cantar como se a canção fosse, ela mesma, uma mulher da vida impregnada de segundos sentidos.
           Conforme iam avançando e a música se tornava ensurdecedora, a perspectiva de um conjunto arquitectónico de seis pavilhões escuros começava a tonar-se maior aos olhos de Domingos. Dispostos três a três em meia-lua, de cada lado do arruamento, que se abria agora numa rotunda, aproximava os hóspedes num convívio circular, visto todas as entradas se poderem ver umas às outras em simetria. Sete ou oito pessoas, homens e mulheres, sentadas em cadeiras castanhas de plástico, abancando mãos e braço em mesas do mesmo material, bebiam cerveja e comiam estridentes amendoins. E, como se depreendia pelo som que que se alongava pela montanha, o ambiente era alegre e de festa.
           Domingos não gostou particularmente da maneira como o amigo concebera aquela parte do complexo turístico. Já fora, com certeza, branco, mas agora todos os edifícios pareciam ter sido assaltados por fuligem já madura, que a insanidade de labaredas teria deixado para trás após a barbaridade de  incêndio os chamuscar.
           A primeira coisa que todo o conjunto lhe fez lembrar foi o Campo de Prisioneiros de Auschwitz, tal como as inúmeras fotos e filmes lho tinham dado a conhecer quando deambulara em jornais e leitura de ocasião por essa parte negra da História do Século XX. Só faltariam, talvez, as chaminés dos crematórios no tecto de cada bloco, a conferir-lhe a autenticidade de campo de extermínio nazi. Todavia, como a comparação era quase maquiavélica, limitou-se a falar na necessidade de uma nova pintura que restituísse algum brilho àquele sector mais ou menos abandonado, sem sombra de dúvida destinado a bolsas bem mais modestas do que as que se aventuravam no chalé. Por outro lado, enquanto alinhava palavras politicamente correctas para dizer alguma coisa, questionou-se intimamente sobre a espécie de protegidos de Fausto:
           “Estarão a trabalhar nesta parte assassinos em série escapados da cadeia escondidos em países de brandos costumes? Violadores? Canibais? Fixe para eles, que têm a sorte de não ter nascido na América, na vigência da cadeira eléctrica ou da injecção letal. Fixe por terem encontrado um coração de plasticina, sensível às consequências de modelos de comportamento tão graves como umas facadas no bucho de um frequentador de bordéis e uma prostituta de rua”.
No meio de um colar de cantigas em enfiada cujo som obrigava a um esforço de voz suplementar, para Fausto o conseguir ouvir, quando as associações de ideias lhe deram tréguas, Domingos, escolhendo preciosos eufemismos a fim de caiar a situação, tanto como as paredes dos pavilhões precisavam de ser caiadas, deu por fim a sua opinião:
           -Gosto menos desta parte. Precisa, como é bom de ver, de levar cor. Talvez branco, para contrastar com o verde das árvores e o castanho dos troncos.
           -É claro que sim. Isto está feio e escuro. Parece o Inferno. Mas, lá iremos… Para o ano, sem falta, se a vida continuar a ser bondosa comigo…
           -De qualquer modo, as pessoas parecem felizes. Daqui a nada estarão todas  freneticamente a dançar…
           -Estas vieram há pouco tempo. Ainda estão a festejar a chegada… À saída as manifestações de alegria são bem menores…
           -Pois. Lá diz o lugar-comum:- Para onde vais? Vou para a festa. De onde vens? Venho da festa…, assim num tom de melancolia e saudade...
          Mas, ainda não vi nenhuma criança… Não são admitidas por aqui? – perguntou Domingos, interessado em perceber aquilo que lhe parecia uma exclusão liminar das pobres criancinhas –. Há hotéis que não as querem…
           -Este é um deles. Por duas razões: por um lado, nunca se sabe se, num dia qualquer, não há um maluco a raptar alguma, a violá-la e a matá-la dando má fama ao hotel. Não seria o primeiro caso. Por outro, há um ditado que diz: Diabo à noite com canalha deitado, de manhã acorda molhado –. E, ao dizer isto, soltou uma gargalhada, seguido por Domingos que nunca tinha ouvido semelhante provérbio sobre o Diabo e sobre canalha, por quem, pelos vistos, Fausto não morria de amores.
          -E cães? – perguntou depois.
          -Também não. O Diabinho não lidaria bem com eles. É uma questão de domínio e liderança. O seu cheiro está por todo o lado como uma impressão digital, aliada aos seus pêlos e cuspe. Este território pertence-lhe inteiramente. É o seu santuário.
          -A propósito, podias mandar construir uma capela. Passavas a realizar casamentos...
          -Mas, lá está. Com uma capela, teria de admitir crianças. Além de que sou ateu e agnóstico – respondeu Fausto, como se quisesse acabar por aí o assunto, que, de algum modo, parecia irritá-lo, atenta a expressão carregada em que  encarcerou o sorriso anterior à sugestão.
           A Domingos, de posse de um diploma do décimo segundo ano, conseguido quase à beira da desistência, os conceitos de “ateu” e “agnóstico” soaram como realidades inatingíveis à sua compreensão basilar de rapaz sem grandes perguntas sobre religião e filosofia. Todavia, teve a intuição clara de que, para Fausto, Deus era um absoluto embuste, e instituições criadas à sua sombra, como o baptismo e o casamento, realizados eventualmente numa capela semelhante àquela cuja construção lhe acabara de sugerir, seriam o prolongamento da pantomina e uma absoluta perda de tempo. Para ele, um solteiro de bem com esse estatuto e um bon vivant metaforicamente secular, era-lhe indiferente que um homem e uma mulher, vestidos a rigor, se casassem numa igreja consagrados por um padre, ou numa taberna com uns andrajos sujos e ao som de dois copos de vinho, num brinde feito pelo taberneiro numa atitude de deboche.
           -Sim. Só nos casamentos reais é que as crianças ficam em casa entregues às amas. Os reis e príncipes, pelo visto, partilham as tuas ideias sobre os miúdos – acrescentou o rapaz depois da exaustiva reflexão a que fora levado pela informação jornalística sobre o assunto.  
           -Vamos entrar e ver como são por dentro estes acrescentos ao projecto inicial – sugeriu Fausto, quebrando os pensamentos do rapaz sobre a filosofia de vida do amigo.
          No hall de entrada, amplo, a primeira coisa que se impôs a Domingos foi o chão, um imenso tabuleiro aos quadrados pretos e brancos, grandes a ponto de quase caber em cada um deles qualquer uma das trinta e duas peças de um tabuleiro de xadrez em tamanho vivo. Incluindo o cavalo e a torre sineira de um castelo medieval. O que o fez pensar na inspiração lúdica que teria guiado o arquitecto e o dono na concepção do aglomerado. Jogo puro, como a vida não deixava de ser, com cada ser humano sempre pronto a dar o xeque-mate ao adversário. E, por entre maples pretos de tamanho grande, jarrões brancos, com flores secas dispostas no seu interior, à frente de um balcão para atender clientes, vazio de momento, completavam a decoração, tornando o espaço relativamente acolhedor na sua imponência.
           Um homem chegou entretanto, após descarregar do carro de serviço, sob o coberto da entrada, as malas de um hóspede que o acompanhava. Este acabara de chegar de helicóptero, segundo percebera pelo som de uma hélice que abanara o ar quente da tarde e as folhas das árvores à sua passagem. O empregado, no seu fato misto de camareiro e piloto, diferenciado apenas pelo boné ornado a ouro exclusivo do exterior, tinha ido buscar o novo cliente.
          Indo em direcção ao elevador, mal viu Fausto, que raramente se deslocava àquela zona, o funcionário fez o mesmo ar de quem acaba de apanhar um susto, enquanto era sacudido por um pequeno estremeção de surpresa. Depois, com alguma atrapalhação e como se tivesse medo de ser repreendido por algum deslize cometido entretanto, cumprimentou o patrão num misto de receio e servilismo:
          -Boa tarde, Dr. Fausto, como vai?
          -Bem, obrigado. E o trabalho por aqui?
          -Vai andando. Eu bem me esforço. Se não há mais clientes é porque a concorrência redobrou de astúcia.
          Fausto esboçou um sorriso e, já em jeito de despedida, retorquiu:
         -Nada mal. Mas, podes fazer melhor, se quiseres. Tens jeito para o mercado…
          Entretanto os dois amigos afastaram-se, já o elevador envidraçado, mais ao fundo, subia com a bagagem do recém-chegado cliente e empregado dentro, este estimulado pelas palavras encorajadoras do patrão.
          -Este homem, além de camareiro e piloto, é angariador de gente para passar aqui férias. É um perfeccionista. Muito ambicioso, nunca está satisfeito com os resultados. Ganha à comissão. Julga sempre que nunca estou satisfeito com o seu trabalho, quando é ele que quer mais e mais. Às vezes tenho a certeza de que me inveja, que queria vestir as minhas camisas e apoderar-se do que é meu. Mas, enquanto cumprir como até aqui é pacífico…
           E foi então que Domingos pensou na grande probabilidade de Fausto ter tantos amigos como inimigos, apesar da sua acção de bom samaritano apostado em reintegrar ex-condenados, com um enorme passado às costas refinado como açúcar pela alquimia da prisão.
           -Então, e este, qual é a especialidade dele? – perguntou curioso e com um sorriso de provocação.
           -O Elias? – Tráfico de Cocaína. Um pequeno barão da droga. Mas perdeu tudo ao jogo. Sabes como é, dinheiro fácil, que, se a água o traz, a água o leva na primeira enxurrada. Foi o que lhe aconteceu…
          -Deve ter sido ele a abastecer-te para as emergências do hotel...
          -Claro! – respondeu Fausto, sem vontade de dar mais explicações sobre o seu pessoal, estranho para o senso comum de uma pessoa que nunca tivesse posto um pé em falso.
          Mas, vamos lá ao passeio. Daqui a pouco ficas com fome e uma pessoa esfomeada transforma-se num alucinado, com todos os sentidos a convergir em tropel para a comida como um enxame de moscas. Um homem com fome é um canibal em potência.
          -Ainda não cheguei a esse limite – acrescentou Domingos -podes confiar em mim – brincou.
           Enquanto conversavam no tom irónico que o passado dos seus colaboradores não deixava de sugerir, tomavam um arruamento após outro, tendo a natureza como pano de fundo, mais ou menos  a segredar-lhes sons estranhos e  misteriosos. Mais uma unidade do Auschwitz, como a imaginação de Domingos lhe sugeriu logo que começou a visita conduzida pelo dono, o mais sabedor dos guias turísticos do mundo.
          Depois, mais adiante, entrariam no caminho de terra que conduzia ao desfiladeiro, debruçado sobre a magia natural de um rio correndo sob um abrupto desfiladeiro. Mas só o alcançariam a seguir a uma subida íngreme, que lhes deixaria a roupa impregnada com o odor da transpiração desencadeada pelo esforço e pelo calor infernal da tarde. Este não dava tréguas, mesmo ali no meio da montanha, com o vento a bulir em fogo. E então atingiriam o ex libris do hotel, o responsável número um pela procura de experiências, quase se poderia dizer, radicais. Se havia local no mundo propício a desencadear adrenalina era aquele, fundido medo e aventura num só. Era como lançar-se, num voo único, para a liberdade e para a eternidade simultaneamente.
           Num pequeno recanto do percurso, sombreado por um carvalho, sentada ao lado de uma pequena fonte, uma mulher ainda jovem estava a ler, concentrada e imóvel como a pedra do banco em que se sentava. Alheada de tudo, parecia estar a viver momentaneamente num outro mundo, ali sobre as páginas do livro, e a fazer parte da história como a sua protagonista. Ao vê-los aproximar-se, fechou-o maquinalmente, e então os dois amigos puderam verificar que se tratava de “A Divina Comédia” de Dante.
          A seguir, foi Fausto a admitir a hipótese de a sua hóspede, por causa da cara de felicidade apresentada, estar, com toda a certeza, na parte que tratava do Paraíso e do seu universo de anjos diafanamente esguios.
Enquanto isso, mais do que postas em relevo as fragilidades culturais de Domingos, foi Fausto a estabelecer de novo o paralelismo poético entre o medievo Dante, com a sua “Divina Comédia, e o renascentista Camões com os seus Lusíadas, um e outro devotados às causas épicas da Humanidade e à sua visão do Universo, em que o Outro Mundo não deixava de estar contemplado.
          Quando acabou, Domingos, entre um sorriso idiota e um olhar desinteressado por literatura, sem hesitações como as anteriores ao imaginar os pavilhões como uma réplica de Auschwitz, sem se envergonhar do seu Calcanhar de Aquiles sobre bibliotecas e livros, disse:
          -Para quem chegou aqui roto e quase nu, toda essa Literatura é capaz de ficar empanturrado mesmo antes do jantar.
          E riu-se com ar de gozo.
          -Ai se Fernando Pessoa te ouvisse!
          -Porquê?
          -Então e o seu poema “Liberdade” mundialmente conhecido por amantes de livros e de bibliotecas?
          -Pois. Se alguma vez o ouvi não me lembro.
          -Também não serei eu agora a declamá-lo…Mas, tens razão – anuiu, sorrindo igualmente - Vamos lá deixar a senhora no décimo céu das suas aspirações, desejando que não sofra qualquer vertigem do voo em nenhuma circunstância. Se não ficar cega entretanto, oxalá não tire os pés da terra, de onde pode sempre contemplar a lua e as estrelas. O céu é uma coisa difícil de alcançar. Sobretudo por amantes de prazeres idênticos aos que o meu hotel proporciona…

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino
Enviado por: Dionísio Dinis em Março 24, 2020, 20:38:16
De um fôlego. Como quem espera o final sem desejar que esta história termine. Bem Bom!


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Março 24, 2020, 21:38:46
VIII

          Como a hora avançasse, havendo, apesar de tudo, ainda bastante sol, verdes, saindo, de onde em onde, debaixo das pedras, lagartixas no seu camuflado atravessavam com rapidez o empedrado, sobre o qual  os dois homens seguiam com relativa  ligeireza.
          -Deve haver bastantes animaizinhos destes por aqui – fez notar o rapaz, numa constatação evidente da biodiversidade que a montanha albergava no seu meio único.
          -Sim. E não só. Cobras e lagartos também. Estão no seu ambiente natural. Nós é que estamos deslocados. À beira do chalé aparecem bem menos. Querendo sossego, fogem a sete pés dos humanos como o Diabo foge da cruz. E dos gatos, uns pequenos seres bem atrevidos para o seu tamanho, que gostam de se divertir com elas fazendo-as rabiar com malabarismo. Embora raramente levem a melhor. Animais ladinos, as lagartixas. Em contendas, podem ficar sem o rabo, mas raramente perdem a cabeça, como muitos humanos.
          Ao aproximarem-se de uma clareira, onde um relâmpago tinha lambido a labaredas meia dúzia de pinheiros, Domingos reparou em dois homens e uma mulher, que, ao verem os amigos aproximar-se, começaram a afastar-se. Tornava-se nítido que ali, frequentemente, eram acendidas fogueiras sem nada a ver com magustos gigantes de outono. Seriam com certeza  vestígios dos rituais de que Fausto já o pusera ao corrente. E, ao chegarem-se mais, viram ainda que, naquele sítio, agora mais ou arenoso e lavado pelas águas da última chuvada, estava desenhado um pentagrama invertido como uma banal construção de areia numa praia propícia à arte efémera.
          -Falaste-me nisto há pouco…
          -Alguns hóspedes vêm para aqui fazer ritos satânicos. Sacrificam até animais. A maioria das vezes lagartixas como as que viste agora, e cobras. Mas também gatos. Não é raro chegar-se aqui e vê-los mortos, depois de lhes terem bebido o sangue até à última gota. No fim, terminado o culto e a invocação do mal, os abutres vêm aqui buscar as carcaças. Dá para todos, presumindo eu que, a haver algum resultado depois, até as águias, os milhafres e todos os predadores se tornem demoníacos.
          -Mas, há gatos aqui? E que raio de hóspedes tu tens! – exclamou Domingos, meio a sério meio a brincar.
          -Há. Quando o hotel foi criado, trouxe dois ou três, um deles uma fêmea. Depois foram nascendo uns quantos a cada cio, um verdadeiro saco de gatos. Não tanto como os coelhos na Austrália, mas, ainda assim, numerosos. São alimentados com as sobras da cozinha. E, à hora em que estivemos no chalé, ainda andavam por aí a lagartar em qualquer lado. Talvez no seu posto favorito, empoleirados nas árvores e a fazer de trapezistas.
          -O Diabo não os persegue?
          -Nem um pouco. É mais uma das suas facetas de anjo. Um mastim querubim – riu-se -. Lambem-se uns aos outros como se fossem todos tão doces gelados de verão. Mas, vamos lá subir ao penhasco.
Domingos ainda não tinha visto qualquer bichano refastelado e a pentear os bigodes ao calor da tarde. Ele, que não os apreciava grandemente, ficou surpreso com a recente descoberta afeição de Fausto por gatos. A ponto de, numa efabulação de dramaturgo surrealista, ter antevisto o amigo como uma velha, suja, feia e andrajosa, a viver numa pocilga cheia de trastes até ao tecto e a dar, sobre uma folha aberta de um jornal para não sujar nada, as espinhas a vinte e um gatos cheios de remela, doentes e sem nunca terem feito uma visita ao veterinário.

IX
 
          Enquanto galgavam as rochas, nuas cada vez mais à medida da aproximação ao topo, de semblante carregado, apreensivos alguns, uns quantos homens e mulheres faziam o percurso inverso. Como se fossem pequenos arbustos presos pelas raízes, espetavam os pés nas reentrâncias das pedras para não caírem.
          -Não há uma forma mais fácil de chegar lá ao alto? – pergunta Domingos, começando  a experimentar o mau gosto da fome, após algumas horas sem trincar uma folha de alface.
           -Há. Mas estes gostam de alpinismo e de emoções fortes. Vamos por este caminho – sugeriu Fausto, aproximando-se de um carreiro que, serpenteando as escarpas, os fazia contornar os obstáculos, enquanto, para prosseguirem com êxito, tinham de arredar com a mão giestas invasoras.–. Não sei se eles conhecem este acesso…
          -Mas, então, o que há lá em cima que atraia tanto os hóspedes?
          -Para começar, o próprio penhasco. Trata-se de um lugar inóspito e inacessível, onde, em circunstâncias normais, praticamente só chegam aves de rapina. Sobretudo as diurnas, por precisarem de ver bem do alto as suas presas. Águias, milhafres, grifos falcões e por aí. Também há lá a cavernas dos morcegos, e corvos às dezenas. Às vezes o barulho de todos eles mete um bocado de medo aos mais afoitos. Sobretudo de noite – acrescentou Fausto olhando para o ângulo do sol, a cair paulatinamente para oeste em busca do mar.
          -Acabaste de me falar do Inferno – brincou de novo Domingos –. O Inferno não deve ser tão assustador como o quadro que pintaste.
          -Fausto riu-se com o exagero do amigo. Tratando-se ou não do Inferno, era a sua casa.
          E, como para ilustrar a descrição do lugar mais místico a que se podia aceder, um oportuno bando de corvos fez-se ouvir por cima deles numa escarpa de bicos pontiagudos, logo seguido do eco de outras aves de que Domingos nunca ouvira falar.
          O vento leste, que ao longo do caminho soprara esporadicamente, à medida do subir do fim da tarde no horizonte, à beira do crepúsculo, recrudescia, desgrenhando como pentes agrestes os cabelos dos dois escaladores da montanha. Na acepção bíblica, o vento leste era um vento de destruição. Além das areias do deserto, sempre trouxera à vida dos homens a morte, anunciada por mensageiros tão indesejáveis como pragas de gafanhotos, moscas, mosquitos rãs e coisas semelhantes, que às vezes caíam do céu em catadupa numa partida de mau gosto forjada pelos deuses melífluos do espaço.
          Até ele, Fausto, começava a achar demasiado tenebroso o relato dos prodígios do seu penhasco. Talvez estivesse a assustar excessivamente Domingos, impedindo-o de desfrutar da paisagem vista lá de cima. Por isso julgou por bem ficar por ali, sem se alongar mais em explicações e adjectivos. Mas Domingos, percebendo-lhe a hesitação, insistiu:
          -Anda lá, continua. Não tenho medo, nem de pássaros nem sequer do Diabo. Olha para a minha barba! – propôs, passando a mão pelo rosto num sorriso desafiador.
          -Fazes bem… Quem inventou o Diabo foi o mesmo que inventou Deus. E um outro são uma farsa. Não existem fora da nossa imaginação. O que existe são as acções e as suas consequências. O resto é pura invenção dos homens para justificarem, tanto os sucessos como os fracassos.
          -Claro! - acrescentou Domingos enquanto chegavam ao cume. Em baixo, a centenas de metros, ali ao lado no desfiladeiro, uma queda de água chocalhava o rio, deixando-o cor de prata e borbulhante de espuma, ao mesmo tempo que o seu eco chegava ao cimo, algo assustador mesmo no verão
          –Isto aqui no inverno é tenebroso. A chuva cai desabrida nos rochedos como cascos de cavalo a arrancar à pedra sons de arrepiar. E todos os ventos fazem disto o seu ponto de encontro. Em dias de tempestade, uivam como uma alcateia enfurecida sobre uma presa indefesa. É como se a montanha se vá despenhar inteira nas águas a qualquer momento, ansiosa por se libertar da fúria da natureza. Mas, ao mesmo tempo, esta paisagem não deixa de ser, , diabólica e deslumbrante. Não concordas? Olha só lá para o fundo! – sugeriu Fausto fazendo notar os contrastes.
          -Tens razão. É de cortar a respiração – concordou Domingos extasiado.
          -Sim. É mesmo de ficar sem fôlego…E como cada lugar assim fascinante tem o seu lado mau, este não foge à regra…
          -Que queres dizer com isso? – perguntou o rapaz, começando a ficar apreensivo. Sobretudo pelas caras amargas de duas ou três pessoas com quem se tinham cruzado à subida, e que, agora com tantas culpas atribuídas por Fausto ao lado maquiavélico do penhasco, o levara a pensar em tragédias ocorridas naquele lugar com pessoas atraídas pelo abismo.
          -Quero dizer que às vezes isto aqui é palco de suicídios… E eu, como deves calcular, não o posso impedir…
          -Claro – disse Domingos horrorizado, e para quem a vontade de descer de um sítio que agora lhe começava a aparecer maldito se tornara bastante forte.
Fausto, adivinhando-lhe os pensamentos, retorquiu num tom menos sombrio:
          -Vamos embora. Está quase na hora do jantar. Hoje, no chalé, a ementa é salmão com legumes salteados e perdiz com puré de couve-flor. É privativa. Só para gente com dinheiro, para apreciadores da cozinha gourmet. Como o banqueiro Mateus, o ex-Deputado Alcino e Macário, o dono de um casino. Normalmente, todos eles costumam jantar à mesma hora que eu.

Continua


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Goreti Dias em Março 27, 2020, 16:32:21
Então, e se continuasses?


Título: Re: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Março 27, 2020, 16:50:53
Nem é tarde, nem é cedo...


                                                                                  X

          No caminho de regresso, quase à chegada, Domingos não resistiu a questionar o amigo:
          -Não sei o que poderia dar pior fama ao hotel: se os suicídios no desfiladeiro, se uma criança raptada e morta a seguir para encobrir o crime.
          -Nem se questiona! Claro que era a criança! E eu admito-as. Mas têm de ter mais de doze anos. Agora vamos jantar, deves estar esfomeado. Pode ser que a Orlanda tenha entretanto ficado mais simpática com o amigo do patrão – brincou mordaz.
          Domingos quis perguntar a Fausto se a rapariga gostava dele para lá do uniforme de recepcionista e de baixo de outra roupa, no calor da cama e no auge de ais e suspiros de prazer. Mas não se atreveu a tanto. Não quis ser vulgar. Teve medo de parecer ordinário e de perder, com uma tal  indiscrição, uma estadia de príncipe num hotel de luxo. E, agora, viesse lá o salmão, a perdiz e a sobremesa, a fome era muita. Sentia-se um alforge sem fundo e devorador.
          -Queira Deus que a comida chegue – pensou, enquanto os dois, com ligeireza, se dirigiam para a mesa.




                                                                                  XI

          Enquanto, numa pequena mesa expressamente colocada para o efeito na esplanada do bar, jantavam,  um em frente do outro, Fausto olhava para o rapaz e lembrava-se da infância do moço. Quando o conhecera, era um miúdo egocêntrico, que pais e avós achavam engraçado, nos seus ditos de menino mimado e fértil em atitudes egoístas. Educado com excessiva brandura, sobretudo pela mãe, filha única, tornara-se o terror dos sítios onde passara logo aos primeiros anos. Desde o infantário até à primária, como se de um pequeno demónio se tratasse, os outros miúdos temiam-lhe os beliscões, empurrões e mimos do género até à alma. A professora, sempre que Domingos se excedia, chamava a mãe à escola, informava-a  da gravidade das diabruras do filho. Ela ouvia-as, se calhasse corava de vergonha, ia a seguir contar a uma amiga pondo a mão à frente da boca, e tudo ficava por isso mesmo. Nunca conseguira fazer nada do garoto. Cedia sempre aos seus caprichos. Raramente tomava em devida conta as obrigações escolares do rapaz obrigando-o a levá-las a cabo. Deixava normalmente o trabalho odioso por conta do pai. Tendo o miúdo sido, em mais uma ocasião, repreendido por não ter feito os deveres de casa, das vezes seguinte, para o filho não ser castigado na escola, fazia ela própria os trabalhos, sem discernir o mal que lhe provocava. Por isso Domingos se tinha tornado um pequeno déspota, algo mentiroso e até mau. Ávido por dinheiro e pelos prazeres proporcionados por ele, era capaz de pisar os irmãos no capacho da entrada se fosse preciso, só para levar a dele avante.
          Mas, agora, anos passados, estava ali à sua frente, com uns calções e o resto da roupa seus, barbeado e apresentável, bonito como nunca. Embora com um vício que, não sendo de desvalorizar, talvez não viesse a ser a sua ruína. Parecia mais ajuizado, apesar de um modo adverso do seu próprio modo de encarar o mundo e a forma de lhe endireitar os entorses. Orlanda, Paulo, Elias e os outros que ele ajudava, e que Domingos nem sequer conhecia, tinham levado o rapaz a um juízo de censura mal disfarçado pelos actos do passado criminoso de todos. E isso, apesar de tudo, era sinal de que o jovem estaria no caminho certo e que a ele mais lhe agradava. Como se Domingos fosse seu filho e ele lhe quisesse dar, na mesma bandeja, o melhor de dois mundos.
          Por sua vez, o rapaz achava que Fausto, com tantas acções solidárias, não deixaria de ter um certo interesse em manter os ex-reclusos por perto. Talvez uma espécie de escravos a quem pagasse uma bagatela pelo trabalho no hotel. Ele não seria, com certeza, nenhum santo. Um santo não tem droga no cofre e não foge ao Fisco, como o amigo admitia fazer. Mas se um santo tradicional era complacente com toda a gente, incluindo com banqueiros ladrões, deputados corruptos e tentava arrancar de cada um deles o seu melhor, Fausto devia ter tanto de santo como de demónio. E como uma mão lava a outra, ali estava ele a usufruir desse equilíbrio, a meio passo entre o caminho do Céu e o do Inferno.
          Por agora, tinha fome e a comida estava à sua frente, a cheirar bem e apetitosa.
          -Que tal o salmão? – perguntou Fausto.
          -Muito bom. Já não comia há mais de vinte e quatro horas – acrescentou, levando aos lábios um copo de vinho branco fresco, que Paulo lhe servira da garrafa, colocada entretanto no balde de gelo para se manter a uma temperatura adequada.
          -Se quiseres podes repetir. Mas não to aconselho. A perdiz estará, com certeza, uma delícia. O cozinheiro, o Ernesto é especialista em caça. E por aqui há muita.
          -Também é dos tais?... – não resistiu o rapaz a perguntar.
          -Pedófilo, mais concretamente…
          -Então é mesmo melhor que não haja aqui miúdos…
          Chegou a perdiz, a sobremesa veio a seguir, o café por último, na ordem de um jantar cheio de requinte, um verdadeiro manjar dos deuses. Um homem saciado é um homem feliz e assim por diante.

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