EscritArtes

Textos => Contos => Tópico iniciado por: Nação Valente em Junho 06, 2020, 20:41:20



Título: A gata dos Telhados VII
Enviado por: Nação Valente em Junho 06, 2020, 20:41:20
IV
“Vai lá comer a tua ração e bico calado”disse  JCorreia à sua gata. Mas que é isto? Agora o personagem além de se armar em narrador, gasta o seu latim a filosofar com gatos . Que se limite ao seu papel de investigador policial e não assuma tarefas que não lhe estão destinadas. Faz-me lembrar o sapateiro que se arrogou o direito de apontar defeitos no joelho da escultura  do grego Apeles.
-Come a tua ração Judite, e segue a resposta do escultor Apeles ao sapateiro que o criticou : “que não suba o sapateiro acima da chinela”. Mas que estas fotos me estão a intrigar estão. Vou descansar a cachimónia e amanhã penso nisso.
O detective JCorreia, foi acordado pelo toque da campainha da porta. Olhou para o relógio da mesa-de-cabeceira, que registava nove horas e trinta minutos. Levantou-se e  foi a abrir a porta enrolado num pijama de sono.
-Bom dia detective, disse a secretária Rosalinda. Ainda em traje de mergulho? Desculpe se o acordei, mas costuma ser mais madrugador. Que aconteceu? Andou às gatas?
- Ó Rosalinda não sei o que me aconteceu, parece que ainda estou dentro de um sonho. Vá pondo o expediente em ordem, enquanto tomo um duche e como uma bucha.
Rosalinda desceu até ao átrio para retirar a correspondência da caixa do correio. Encontrou entre diversas cartas, um envelope castanho e volumoso. Regressou ao escritório e sentou-se na sua secretária de uma forma descontraída. Quando JCorreia estava presente gostava de o provocar, trocando e destrocando as pernas, esticando a saia para as tapar. Percebia que o detective parecia despercebido, mas não conseguia afastar os olhos de olhares furtivos. Rosalinda casara com o namorado que conhecera ainda na infância, e que depois de ser preso por roubo, arrepiara caminho, inventando-se como trabalhador honesto. Mourejava nas docas como estivador. O seu porte físico adaptava-se bem aquela função.
A  vida de Rosalinda, fora igual há de tantas outras mulheres. Tratar da casa e do seu homem. Nas horas restantes continuava a vender flores na rua, tal e qual como fazia quando menininha,  as ofereceu ao jovem Joaquim Correia. Não se podia dizer que o marido a tratava mal, nem que a tratava bem. A vida em comum não fugia à rotina de um casal remediado. Após um dia de trabalho jantavam, ela ficava a lavar a louça, enquanto o companheiro ia até à taberna conversar com os amigos. Quando regressava já Rosalinda estava deitada. E quando o estivador lhe apetecia, como ele próprio dizia “saltava-lhe para cima”.
JCorreia entrou no escritório e sentou-se na sua secretária, onde Rosalinda depositara a correspondência. Chamou-lhe a atenção o envelope castanho. Abriu-o e verificou que continha fotos e vários papéis. Numa curta missiva estava escrito numa letra bem desenhada:

Senhor detective,
Falei consigo ontem pelo telefone. Hoje, como prometido, envio-lhe material relacionado com a investigação quer quero que faça. Veja-o. Se me resolver esta  caso, para além dos seus honorários, dou-lhe um brinde extra. Sei que fez parte da brigada que investigou o chamado caso do “estripador de Lisboa” no fim dos anos setenta. O caso já prescreveu, mas eu possuo informações que lhe podem interessar, apesar da prescrição. Um bom polícia nunca fica satisfeito quando falha uma investigação. Voltarei a dar instruções.
Sua servidora, Gata dos Telhados


O detective olhou para Rosalinda e pareceu-lhe ver uma expressão de tristeza no rosto. Notou-lhe o corpo contraído, as pernas juntas, sem aquele movimento de abrir e fechar que fazia para se refrescar, mesmo quando não usava lingerie, o que era sempre. Numa segunda observação, ficou com a ideia que a secretária tinha a cara um pouco inchada.
-Que se passa Rosalinda? Acho-a um pouco estranha! Disse
-Impressão sua detective, estou bem.
Antes assim, mas continuo a achá-la esquisita, tal como esta carta que estive a ler de uma cliente não identificada, que me traz à memória um caso em que participei e onde a PJ andou à nora, sem encontrar provas, sobre o assassínio de cinco prostitutas, em 1977 e 1978. Porque raio vem esta assunto à baila trinta anos depois? A quem interessa desenterrar um crime prescrito? E porque quer meter ao barulho um polícia reformado, resignado a tratar de traições conjugais e divórcios?
-Ainda bem que chegam casos novos. Nos últimos tempos não temos tido trabalho poa aí além. Decerto nada que escape ao seu faro policial que muito admiro. A propósito já observou as fotos que lhe trouxe ontem?
-Já lhe dei uma vista de olhos, respondeu JCorreia, mas com mil demónios as fotos que acabei de tirar deste envelope parecem-me iguais, com um pormenor, a Rosalinda também está dentro delas. Devo estar com alucinações, ou então estou a ser vítima do enredo de guionista perverso? Vou quebrar uma regra sagrada. Prepare-me um whisky com gelo.
(Continua)


Título: Re: A gata dos Telhados IV (continuação)
Enviado por: Goreti Dias em Junho 08, 2020, 18:15:21
Vamos lá ver como pode isso ser...


Título: Re: A Gata dos Telhados IV, V
Enviado por: Nação Valente em Junho 11, 2020, 17:46:43

V
Devo estar com alucinações, ou então estou a ser vítima do enredo de guionista perverso? Vou quebrar uma regra sagrada. Prepare-me um whisky com gelo.
-Às suas ordens detective, mas sinto-me na obrigação de o avisar que o seu fígado não vai ficar agradecido. Não se esqueça da cirrose.
-Agradeço a preocupação Rosalinda. A minha cirrose ficará grata. Será uma excepção. E sabe porque cheguei aqui? Foi por stress profissional. Quem está de fora não faz ideia do que é a vida de um investigador profissional. Muita pressão, muita dor de cabeça. Depois de um dia de trabalho, é preciso fazer uma pausa para esquecer. Ver um cadáver esventrado, por exemplo, não é fácil. Afinal somos humanos. Ou álcool ou xanax? Optei pelo primeiro. Qualquer deles dá cabo do fígado. Este caso da Gata dos Telhados está a deixar-me preocupado. Olhe, vou convidá-la para almoçar comigo, preciso desabafar. Há um restaurante simpático onde costumo ir. Alinha?
A taberna popular distinguia-se pelos grelhados com sabor a fumo. Existia desde 1970, quando o proprietário deixou Monção e a profissão de trolha, com a mulher, para se instalar em Lisboa como cozinheiro em construção. Tinha uma clientela de baixa condição social, atraída pela razoável qualidade da comida e pelos baixos preços. Os próprios clientes ajudavam no serviço de mesas. Décadas passadas, a cidade tinha perdido a sua matriz desses tempos, refinara-se, tornara-se mais cosmopolita, mas a taberna popular manteve-se fiel à sua originalidade.  JCorreia  e Rosalinda optaram por umas febras de porco preto grelhadas e acompanhadas do tradicional molho minhoto, segredo do cozinheiro improvisado. Um tinto de Monção acompanhou a refeição e ajudou os dois comensais a animar-se, e a soltar a língua para assuntos mais pessoais.

-Este novo caso está a causar-me alguma preocupação, mas o que me preocupa mais é a Rosalinda. E quis vir aqui para falarmos fora do ambiente do trabalho, e porque me  ajuda a reencontrar-me com um lugar e um tempo em que fui feliz. Era jovem, despreocupado, vivia cada dia com a esperança ingénua que o seguinte seria melhor. Foi aqui que almocei no dia em que fui preso pela DGS, nome da  PIDE marcelista ,e  do salazarismo tardio.
 
Estávamos em 1973, ano que houve eleições legislativas para a Assembleia Nacional, e em que num simulacro de democracia foi permitido que os opositores ao regime concorrerem. Comunistas, socialistas, democratas sem filiação, juntaram-se na CDE. Quis dar a minha contribuição, e comecei a aparecer na sede de campanha na avenida Almirante Reis. Davam-me pequenas tarefas como distribuir propaganda. Um dia fomos entregar panfletos para a praça da Figueira, um grupo onde estava o poeta Ari dos Santos . Aí apareceu a polícia política e levou-nos para a sua sede com o poeta a gritar “levam-me preso, fascistas”
Fui interrogado pelo agente Cruz Carrasco que queria à viva força que lhe desse informações sobre dirigentes comunistas. E por mais que lhe dissesse que não tinha qualquer ligação a esse partido não desarmava. Chegou ao ponto em que perdi as estribeiras e disse ao agente,

“sou apenas um democrata que quer o seu país livre de uma opressão, que tem que terminar"

Digamos que esta afirmação obrigou o agente Carrasco a perder a compostura, e a dar-me um tabefe que me fechou um olho por uns dias. Olhou-me com ar raivoso e disse-me,

“Cala a boca Che Guevara de pacotilha,(talvez por eu usar barba crescida) quem livrou a pátria da bagunça em que vivia foi o senhor doutor Oliveira Salazar, grande estadista e patriota”

Depois disse-me que ia passar a noite naquele lugar para aclarar as ideias. Mandou-me levantar e colocar-me de pé à sua frente. Tive assim algumas horas. Quando o cansaço me vencia e procurava fechar os olhos era de novo agredido. Chamava-se tortura do sono. 
A meio da noite o agente Carrasco foi substituído por outro polícia. Quando entrou ,reconheci-o.
“Porra o mundo sendo grande é pequeno” foi o que pensei.
Era o Óscar, meu conterrâneo e companheiro de escola, embora fosse um pouco mais novo. Há muitos anos que não o via. Era na altura agente estagiário. Também me reconheceu, apesar do olho negro, porque me olhou, enquanto dizia:

“Ó Quim porque raio é que estás aqui? Em que merda te meteste. Nunca te imaginei nestes assados. Sempre tão choninhas, tão bem comportado”

Virou-se para o seu companheiro e explicou que punha por mim as mãos no fogo, que me conhecia e à minha família desde a infância, e que éramos pessoas de confiança, fiéis aos interesses da Nação. Acrescentou que os meus pais eram pequenos proprietários rurais, e que como todos os outros receavam que o comunismo lhe tirasse as poucas terras. E lembrou que fui combatente contra os turras na Guiné.
 
“pode deixar sair o rapaz, não faz mal a uma mosca e garanto que não tem nada a ver com comunas”

-E foi graças ao Óscar, sobre quem constava na aldeia, que já havia feito denúncias locais,  que saí dali sem mais mazelas. A campanha continuou até ao acto eleitoral, mas a oposição desistiu de ir a votos, porque sabia que seria manipulado. Apenas usou esse período para denunciar a natureza do regime que cairia no ano seguinte.

-Nunca me interessei por política detective. A minha vida sempre foi o trabalho. Nem me lembro de ter feito mais nada. Desde pequena que vivi com a minha mãe na Madragoa. Não sei quem é o meu pai. Fui registada com pai incógnito.
A minha história é daquelas que dava uma novela a puxar ao choradinho. Olhe começou pela minha avó, abandonado pelo marido por estar amancebada com o álcool. O meu avô que era Guarda Republicano juntou-se com outra mulher para refazer a vida e mais tarde voltou  à sua aldeia na serra algarvia. A minha avó morreu cedo e a minha mãe ficou sozinha, começando a trabalhar como criada de servir, muito jovem. Teve um namorado que se serviu dela e quando soube que estava prenha, deixou-a à sua sorte. Nunca me disse, mas não me custa acreditar que tivesse também sido abusada pelo patrão, que vivia na zona da Lapa.

Com uma criança nos braços alugou um quarto, e começou a trabalhar como costureira numa pequena fábrica de camisas, e ainda costurava em casa para as pessoas da vizinhança, quando os bairros eram como aldeias. Como vê não é na cidade que estão as minhas origens. A minha mãe contou-me que quando era criança de berço tive tosse convulsa e que o médico a aconselhou a levar-me para um sítio com ares campestres. Lembrou-se da aldeia dos seus pais e escreveu a uma prima com quem mantinha contacto, que se dispôs a receber-nos. Durante essa estada ainda ousou ir visitar o pai, com nova família, apresentando-se como a filha Deolinda, mas que a escorraçou com as palavras “não tenho nenhuma filha Deolinda”.

O detective JCorreia ouviu em silêncio aquela história, e no fim veio-lhe à lembrança  que a conhecia. Recordou-se de a sua mãe ter recebido uma prima com um bebé, e de os ter alojado durante um tempo. Nessa altura teria talvez dez a doze anos. Tinha ainda num recanto da memória a mãe, e a filha deitada numa alcofa,  a deslocarem-se para uma zona onde havia uns pinheiros bravos, para combater a doença da criança. Afinal a  secretária ainda era sua parente.
“o mundo é mesmo pequeno”, pensou JCorreia com os seus botões. (continua)



Título: Re: A gata dos Telhados IV, V
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 12, 2020, 12:22:33
Pequeno? Pequenissimo! O mundo é mesmo um grão de ervilha...

Abraço


Título: Re: A gata dos Telhados IV, V
Enviado por: Goreti Dias em Junho 12, 2020, 15:42:01
Tão pequeno como um botão e redondo...


Título: Re: A gata dos Telhados VI
Enviado por: Nação Valente em Junho 16, 2020, 20:48:23
Gata dos telhados VI,
-O mundo é mesmo pequeno. O mundo é mesmo um grão de ervilha…tão pequeno como um botão redondo, em expressões de sabedoria popular. Decerto que para ti Judite, é tamanho dos teus desejos. Não sei de onde vieste, nem porque me procuraste. Uma coisa te digo, sem saber se entendes, cheiras-me a polícia. Acredito que não estás aqui apenas por acaso. Um dia hei-de descobrir, não me chame Joaquim Correia. Tal como descobri ontem que a nossa secretária pertence ao meu tronco familiar. Como soube? O que tem que se saber acabará por se saber. Como por exemplo, porque raio Rosalinda, também uma gata, não desfazendo, tem andado com ar acabrunhado. Desconfio do Arménio, o marido, estivador ou pedreiro, tanto faz. Parece-me que a relação deles não prima pela harmonia. Estranho hoje ainda não ter aparecido. É muito pontual. Ainda estás a ouvir-me? Bah, desconfio que estás nas asas de Morfeu. Tens razão. Conversa mole serve para adormecer gato. Quando acordares voltas a levar comigo. Não tenho muita gente com que falar.

Trriiiim…
JCorreia, detective. Em que posso ajudar?
-Pode ajudar Rosalinda.
-O que lhe aconteceu?
-Até ver nada, mas depende de si. Ouça sem fazer perguntas. A sua secretária está em boas mãos, como as armas desaparecidas no PREC. Lembra-se? Não quer que a sua secretária desapareça, certo? Siga as instruções que lhe vamos dar por telemóvel.

Ao descer para o Rossio para onde o mandaram dirigir-se JCorreia teve a sensação que estava a ser seguido. Cumpriu à risca as instruções recebidas. Não podia estar armado, não podia dar conhecimento a mais ninguém, e devia seguir o roteiro que lhe traçaram sem desvios. Nos Restauradores recebeu ordem para apanhar o metro e sair na estação dos Anjos. Na plataforma da estação soube que tinha que entrar na igreja e dirigir-se ao confessionário para confessar os seus pecados, dos quais dependia ou não a absolvição. Na sua vida de polícia nunca tinha estado numa situação semelhante. Sentia-se num jogo de gato e de rato, no qual desempenhava o papel do rato.  Junto à porta um pedinte estendeu-lhe a mão “tenho fome”.  Desviou o olhar para a fachada neo-clássica. A igreja de 1908, substituiu a que existia desde o século XVII, demolida para construir a actual avenida da República. No interior onde se manteve o estilo barroco da igreja anterior o silêncio era ensurdecedor.  Na semiobscuridade  Correia dirigiu-se ao confessionário. Ajoelhou como determinada. Na semiobscuridade dirigiu-se ao confessionário. Ajoelhou como determinado.
-Que se passa filho? Nesta fase da vida deste em pecador?
-Deixe-se de ironias e diga o que pretende? Onde está Rosalinda?
-Saberás ou não na altura própria avozinho. Depende de ti. Não estás em condição de exigir, mas de obedecer. Queres salvar a Rosalinda ou não? É fácil. Deita para o lixo esse caso da Gata dos Telhados. Dedica-te à tua gata Judite. Já não tens idade para estas cavalgadas. Vou pôr-te em contacto com a secretária, até ver.
“está Rosalinda, que diabo se passa? Fui atacada ao sair de casa metida num carro e vendada. Não sei onde estou, nem o que querem? Agrediram-na? Não. Ouça, eles querem que abandone o caso da gata dos telhados. Se fizer isso, desilude-me. Tem que ser, é a sua vida que está em perigo. “
-Vai ficar connosco até cumprires o que exigimos.
-O que posso fazer? Ainda não investiguei nada, nem podia. Não sei quem pede a investigação, nem o que quer que investigue. Apenas me coloca enigmas. Como quer que abandone o que não comecei?
Irás receber mais instruções. Quando isso acontecer, dá um rotundo não, ou voltas a ver a Rosalinda por um canudo. Percebeste velhinho? Dedica-te aos casos passionais já que não queres calçar as pantufas, nem ir para o jardim jogar à sueca.
Calçar as pantufas Judite, vê bem. Esses filhos da puta não sabem com quem se metem. Nunca fui tipo de violências. Na minha vida de polícia, posso ter dado um ou outro safanão me nalgum acusado, mas nunca arranquei confissões pela força. Enganam-se se pensam que me amedrontam. Estive na guerra colonial, dois anos no mato, ouviste, dois anos. Calor, mosquitos, malária turras como dizíamos, tiros, minas, e sobrevivi. Fui um herói? Não. Tive sorte, ao contrário de outros. Tantas vidas ceifadas pela gadanha da morte para quê?
 O que será agora? Quem estará a bater à porta? Já vou. Porra Judite, nem para porteira serves?
O homem que estava do lado de fora, parecia não poder entrar, pelas suas dimensões. Alto, hercúleo, com barba mal aparada, um bigode farfalhudo, um ar de mal-encarado.
-Boa noite. Sou o Arménio o homem da Rosalinda. Desde de manhã que não aparece..
-Entre e sente-se, que já lhe explico.
-Diga o que tem a dizer sem floreados.
-Não entrou hoje ao serviço, e fui informado que foi raptada. Acalme-se, estou a tratar do assunto, vai tudo correr bem.
-Mas onde é que essa galdéria se meteu. Estou farto de lhe dizer que esteja sossegada e que trate da casa, ainda ganho para a sustentar. Não me ouve. Quer andar a brincar aos polícias. Tenho que lhe partir os cornos a sério.


Título: Re: A gata dos Telhados VI
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Junho 20, 2020, 15:01:48
Violência doméstica em todo o lado. Até em investigador(a)es. Que raio.


Título: Re: A gata dos Telhados VI
Enviado por: Goreti Dias em Junho 28, 2020, 15:38:49
Como diz o "outro": caramba!


Título: Re: A gata dos Telhados VII
Enviado por: Nação Valente em Junho 28, 2020, 19:19:47
VII

Mas onde é que essa galdéria se meteu. Estou farto de lhe dizer que esteja sossegada e que trate da casa, ainda ganho para a sustentar. Não me ouve. Quer andar a brincar aos polícias. Tenho que lhe partir os cornos a sério.

O detective JCorreia percebeu que Rosalinda era vítima de violência doméstica, como desconfiava. A maior parte das vítimas por razões diversas, acomodam-se à situação. No intimo sentiu vontade de desancar aquele gigante com cheiro a docas, mas manteve-se, aparentemente sereno.
-Senhor Arménio, estou em contacto com os raptores. Cedi às suas exigências, mas não posso dizer mais nada. Volte para casa. Logo que tenha notícias aviso-o.

O estivador saiu a resmungar. JCorreia respirou fundo. Olhou para Judite que esperava pela refeição. Deixou-se invadir por uma angústia inexplicável. Não a sentia há mais de quarenta anos, quando cumpria serviço militar obrigatório na Guiné portuguesa.
-Judite, estamos metidos numa alhada. Um caso que antes de ser caso, já tem uma vítima. Um estranho caso de um marido desaparecido. O caso do “esfaqueador” para baralhar. Nem no tempo do activo estive numa situação parecida. Como vamos sair disto? Não sei. Estou convencido que sairemos, como saí de situações bem complicadas na guerra colonial.

O Furriel miliciano Joaquim Correia embarcou para a Guiné, em comissão de serviço em 1969. Desembarcou em Bissau com a sua companhia de Caçadores e a primeira sensação que teve ao pisar o cais foi de claustrofobia. O calor húmido roubava-lhe o ar que precisava para respirar. A ele a todos os “bravos” que durante cerca de seis meses tinham sido mentalizados para defender a pátria, dos malvados “turras”, ao serviço do comunismo. A pátria tem de se defender, está acima de tudo, até da própria vida. Assim o exigia a nossa história gloriosa. Quem não o fizesse não a merecia.
-Sobrevivi ao clima e à guerra, Judite. Um dia atrás de outro dia. Uma hora atrás de outra hora. A morte dormia à nossa cabeceira. Depois de desembarcar em Bissau meteram-nos numa lancha com destino a Lime, no interior. Quando subíamos um rio chamado Gaba pude ver a vida que me esperava durante dois anos, se os cumprisse.. Ao passarmos por sítios onde a mata era tão densa que parecia engolir o rio, armas vomitavam fogo para o arvoredo para prevenir eventuais ataques do inimigo. Aquela melodia dantesca não tinha nenhuma comparação com o ruído suave das “guitarras” que aprendemos a tocar na instrução. Depressa percebi que a verdadeira instrução ainda não começara.

Do local do desembarque deslocámo-nos a pé até ao aquartelamento. Foi a amostra do que ia ser o nosso dia a dia, ou noite a noite. Estava quase a escurecer. Num espaço curto vi o que era uma picada, e senti na pele a quentura da água de um campo alagado que nos cobriu até á cintura. O ambiente tornou-se mais irrespirável. Por fim avistámos uns barracões degradados. Pareceu-me que ia para um hotel de cinco estrelas. Tal era o cansaço provocado por aquela viagem. Só queria um lugar para descansar o esqueleto.
 -Consegues imaginar Judite? Nem tu, nem quem nunca lá esteve. Para mais és gato. Que sabes de guerras. As guerras  da tua espécie não passam de escaramuças. Não fabricas instrumentos para matar e conseguir mais, sempre mais. Essa é uma característica dos humanos chamados racionais. Vou dar-te a tua refeição. Merece-la pela paciência em me ouvires. Quem quer saber da brutalidade da guerra? Por mais realistas que sejam as descrições nunca são o que vemos nos nos filmes.

JCorreia olhava insistentemente para o telefone. Esperava o mais desejado telefonema da sua vida. Esperava a chamada de uma outra gata que se apresentava como a gata dos telhados. Procurou libertar-se do que se estava a tornar uma obsessão. Concentrou-se nas fotos tiradas pela Rosalinda, e nas enviadas pela misteriosa cliente. Eram muito idênticas. Mostravam as mesmas cenas, o percurso da cliente do marido desaparecido. O enquadramento marcava as diferenças. A conclusão estava ao alcance de qualquer investigador principiante. Rosalinda fora seguida e fotografada. O caçador também estava a ser caçado.

Um barulho interrompeu o silêncio da madrugada e o sono tardio do detective Correia. Um metralhar repentino interrompeu o sono pesado e inicial do furriel Correia. O aquartelamento onde tinha chegado à cerca de uma semana, estava a ser atacado pelo inimigo. Numa operação surpresa, feita na passagem de testemunho entre a Companhia que acabara a comissão e a que a ia render, os atacantes conseguiram ultrapassar a rede de arame farpado e entrar no quartel. Saiu da caserna e aproximou-se do soldado que com uma metralhadora procurava parar o ataque. Quando chegou ao local, esse militar foi atingido e morto. Correia tomou o seu lugar e começou a disparar em direcção aos invasores. Foi o seu baptismo de fogo. Para o companheiro abatido, era a sua última noite na guerra, antes de regresso.
Para o detective este acontecimento era um pesadelo recorrente. Foi interrompido pelo som de um objecto que entrara pela vidraça da janela. Levantou-se e dirigiu-se à sala que lhe servia de gabinete. No chão estava um pequeno tubo de metal. Por entre os vidros partidos, apanhou-o. Do seu interior tirou um rolo de papel. Desdobrou-o e leu a mensagem.

Não ceda à chantagem. O caso que lhe entreguei é muito importante. Vou ajudá-lo a salvar a sua secretária. Encontra-se num velho armazém em Alcântara, transformado em dormitório de gente sem casa. É gerido por um proprietário de uma pensão em Santa Apolónia, mas que é apenas um testa de ferro. Os utilizadores só podem entrar a partir das 20 horas. Até lá tem um vigilante na entrada. Vista roupas apropriadas e apresente-se como um novo inquilino, chamado Sebastião, antes da hora de abertura e convença o segurança que precisa de entrar mais cedo. Não se desloque no seu carro. Rosalinda está fechada no antigo escritório. Faça o plano para a resgatar.
         Gata dos telhados

-Caramba, pensou JCorreia. Já não tenho idade para acções de risco elevado, e associadas  a cenas que acontecem nos romances. Não sou nenhum Pepe Carvalho das histórias do Montalbán.

Continua


Título: Re: A gata dos Telhados VII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 11, 2020, 21:37:07
E afinal já tinha lido... Não sei por que não abri a porta... Abraço