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Textos => Contos => Tópico iniciado por: Nação Valente em Julho 11, 2020, 19:05:16



Título: A Gata dos Telhados XXII
Enviado por: Nação Valente em Julho 11, 2020, 19:05:16
VIII

-Porra, pensou JCorreia. Já não tenho idade para acções de risco elevado, e associadas  a cenas de romances. Não sou nenhum Pepe Carvalho, do Montalban.
JCorreia fez uma visita ao local, identificou o armazém, e preparou o plano de acção. Pediu o carro emprestado a um velho amigo dos tempos em que vivia na hospedaria, com quem mantinha contacto. Estacionou numa rua próxima e deslocou-se a pé até junto do armazém/dormitório. Às dezassete horas e trinta minutos aproximou-se  da porta de entrada e dirigiu-se ao vigilante, um homem de meia-idade, que o olhou de soslaio.
-Chamo-me Adelino, e aluguei uma cama a partir de hoje, como deve estar informado. Sei que a entrada é às vinte horas, mas queria guardar a minha mochila, que está muito pesada. Quem me fez o aluguer admitiu que assim fosse. Pode contatá-lo se quiser confirmar. Entro e saio de imediato.
-Isso contraria as regras, mas se tem autorização do chefe, vou acompanhá-lo até à sua cama, deixa a sua mochila e volta a sair.
Subiram um pequeno lanço de escadas. Dentro do dormitório o vigilante conduziu-o até junto da cama que lhe estava destinada. O detective pousou a mochlila e antes de a guardar no cacifo, pousou-a em cima da cama, dizendo que precisava da a abrir tirar a sua carteira. Meteu a mão e tirou uma pistola com silenciador que encostou à barriga do vigilante, bem mais encorpado.
-Sente-se, disse, se quer salvar a pele.
O vigilante, surpreendido não conseguiu reagir, e sentou-se na cama. JCorreia voltou a meter a mão na mochila de onde retirou um pano húmido com clorofórmio que colocou na cara do vigilante. Este fechou os olhos e esparramou-se na cama. O detective tirou-lhe as chaves que tinha no bolso e dirigiu-se para o escritório situado ao fundo da sala. Abriu a porta e viu Rosalinda sentada no catre onde dormia.
-Detective, como chegou aqui?
-Não há tempo para explicações. Vamos.
Quando se aproximava da saída, o vigilante acordou do sono forçado e procurou reagir. Correia que ainda não tinha esquecido técnicas de luta aprendidas na PJ deu-lhe uma joelhada entrepernas que o deixou a contar as tábuas do chão, o tempo necessário para saírem do edifício, e entrarem no carro. Durante a viagem até à sua casa, o detective explicou a Rosalinda como tinha conseguido chegar aquele local e libertá-la.
-Hoje por uma questão de segurança vai dormir aqui, disse ao entrarem no seu apartamento. Amanhã contacto o seu marido. Temos de elaborar um plano de segurança permanente. Não sei com quem estamos a lidar nem o que querem, mas parece-me gente perigosa. Já preparei umas ervilhas com ovos escalfados. Vai avaliar a minha competência de cozinheiro.
Dirigiram-se para uma pequena sala que desempenhava a função de cozinha e local de refeições. Com a comida preparada e a mesa posta sentaram-se. O detective serviu Rosalinda e encheu-lhe o copo com um vinho tinto sem coloração, uma especialidade da Ervideira.
-Rosalinda não precisa de me dizer que passou um mau bocado. Agora não é hora de pensar nisso. Beba deste néctar dos deuses e relaxe, que bem precisa. Depois voltamos a falar. Este resgate correu bem e fez-me renascer uns anos. Parece que voltei ao tempo da guerra com as devidas diferenças.
-Obrigado detective. Admiro a sua coragem e congratulo-me por não ceder a chantagens.
-A coragem, a coragem. Todos somos corajosos ou medrosos ao mesmo tempo, depende das circunstâncias. Olhe na guerra temos de ser corajosos para sobreviver. Mas o medo está sempre presente. Numa das primeiras missões em que participei na Guiné, ainda periquito como chamavam aos novatos,  o alferes que estava no comando mandou parar a viatura e chamou um soldado chamado Casado,  especialista no levantamento de minas e disse “nesta zona costuma haver minas anticarro. Vamos pela margem da picada para verificar”. Tu Correia vem também”. O alferes Matos ia na frente seguido do Casado e eu seguia na terceira posição. Um estrondo enorme. Uma nuvem de poeira. Um silêncio ensurdecedor. Pisaram duas minas antipessoais muito próximas. O soldado Casado perdeu uma perna, e gritava desesperado “já não posso casar”, o alferes Matos foi cortado ao meio e teve morte imediata. Dois jovens com uma vida para viver. Apanhei com uns estilhaços numa perna e fui enviado para o hospital de Bissau. Não costumo falar da guerra, é um assunto que quero esquecer, mas não consigo. O stress de combate agarra-nos como uma lapa. Ainda tenho pesadelos. Geralmente desabafo com a minha gata, a Judite. Mas quem passou por isto, não pode ter medo de enfrentar outras guerrinhas. Levantamo-nos em cada dia, e voltamos a refazer, o que foi desfeito. Mas agora precisa de descansar. O quarto de hóspedes, sempre solitário, vai gostar da sua presença.
-Pode contar comigo. Apesar dessa história triste comi muito bem. E o vinho foi um bom calmante. Está aprovado como cozinheiro.

continua

Nota-Tive de iniciar um novo bloco. Ninguém me abriu a porta. Nem é preciso comentar. Basta pôr um letrinha, por exemplo o “a” que é a primeira. Se for possível. Gratidão imensa.


Título: Re: A Gata dos Telhados VIII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 11, 2020, 21:34:55
Pois, tenho andado bastante ocupada. Virei babá por uns tempos e tenho andado bastante ocupada e cansada. Abraço de porta aberta. E vou ver se abro também o outro...


Título: Re: A Gata dos Telhados VIII
Enviado por: Goreti Dias em Julho 14, 2020, 18:04:20
Comer e beber sempre foram apaziguadores... venha a continuação.


Título: Re: A Gata dos Telhados IX
Enviado por: Nação Valente em Julho 18, 2020, 20:53:38
IX

 Pode contar comigo. Apesar dessa história triste comi muito bem. E o vinho foi um bom calmante. Está aprovado como cozinheiro.
-Fico contente por admirar os meus dotes culinários, que vão muito para lá desta pequena amostra. Quando se opta por ser um solitário, temos que estar preparados para executar todas as tarefas domésticas.


- Não quero entrar na intimidade da sua vida, nem devo. Respeito as opções que cada pessoa faz. Repartir a vida com alguém, não é tarefa fácil, implica prescindirmos um pouco da nossa liberdade. A minha mãe, depois da má experiência com o homem que a emprenhou, nunca mais quis começar outro relacionamento. Dedicou-se toda a sua vida a procurar para mim um caminho melhor. Às vezes penso que o seu esforço foi em vão. Muito nova deixei-me ir na conversa fiada do Damião, parecia que vivia um conto de fadas. Até fomos noivos de Santo António, com casamento na Sé. Vestido de noiva, grinalda, ramos de flores, minutos de fama na televisão. Mas depois do deslumbramento veio a desilusão. A realidade mostrou-se bem diferente. Nem santo António me valeu. Deve ter outras preocupações.

-Sempre desconfiei que a Rosalinda não tem uma vida familiar fácil. Quando conversei com o seu marido fiquei com essa certeza. Percebi que não a trata como merece. E fiquei convencido que “lhe chega a roupa ao pelo”, como se diz em linguagem popular”.
- É verdade, mas não gosto de falar da minha vida de portas a dentro. Talvez o vinho hoje me tenha soltado a língua. De facto o Damião considera-me propriedade sua. É muito ciumento, talvez até obsessivo. Está sempre a acusar-me de o trair. Se vou às compras interroga-me porque demorei tanto. Se estamos num lugar público, inventa que estou a olhar para algum homem que esteja presente. Se o jantar se atrasa, conclui que estou a pensar num amante, em vez de me concentrar no que faço. Há poucos dias queria que lhe dissesse porque estava a falar com um vizinho com quem me cruzei na rua. Por mais que insistisse que apenas trocámos breves palavras de cumprimento, queria que lhe confirmasse que era meu amante. Perante a recusa passou-se dos carretos e deu-me uma chapada com a sua grande “manápula”. Apanhei eu e por tabela o fogão, concentrado no seu trabalho fogão. Por milagre não me queimei.
-Já tinha percebido. O que não percebo é porque se sujeita a essa tortura, e não faz queixa na polícia?  Ou porque não o abandona e corta o mal pela raiz!
-A situação não é assim tão fácil. Começamos por estranhar, depois habituamo-nos. Após a morte  da minha mãe, atacada por Alzheimer, fiquei só. O Damião era a minha família. Fui-me  adaptando com a esperança que ele mudasse. Faço de tudo para lhe agradar. Trato-o como um príncipe. Esmero-me na cozinha, esforço-me por lhe satisfazer os apetites sexuais, embora às vezes de tão cansada, me compare à Luísa do poema de Gedeão “sobe Luísa, sobe a calçada”. Queixas na polícia só iam piorar. Sei que nas esquadras não dão muito importância a esse tipo de queixas. Seguem um pouco o lema “entre marido e mulher não metas a colher”.
-Não quero intervir, Rosalinda, nas suas decisões, mas pode  contar com o meu apoio no que for necessário. Sei que a situação é melindrosa, mas penso que deve procurar libertar-se dessa escravatura. Comece por pensar que a nada é definitivo, e que a mudança está em cada esquina, à nossa espera
-Obrigado detective Correia pelo apoio. Vou conversar com o travesseiro e dormir sobre o assunto. Boa noite.

JCorreia apagou as luzes e sentou-se numa espreguiçadeira junto à vidraça, ainda partida, com vista para o Tejo. O espelho de água da rio, os barcos que deslizavam como patins sobre gelo, os guindastes que lhe pareciam adamastores a defender a cidade, serenavam-lhe o espírito. Esquecia as tarefas quotidianas, e embrenhava-se em recordações de que era feita a sua vida. Nessa noite de confidências, acordaram do sono da sua memória as suas relações com Aida, protagonista do primeiro romance que viveu, depois de chegar à cidade.
Passou pelo trabalho na indústria, e na procura de um caminho para a sua vida, começou a trabalhar como vendedor, numa empresa nórdica que fabricava e comercializava eletrodomésticos na venda directa. Foi integrado numa equipa onde para além do chefe e de duas senhoras que podiam ser suas mães, estava uma jovem que o acompanhou durante a fase de adaptação aquela função. Trabalhavam na zona da Lapa, onde a grande riqueza está paredes meias com a pobreza assumida como destino. Percorriam todas as ruas, todos os prédios, todos os andares. O objectivo era convencer as pessoas abordadas a aceitar uma demostração de um aspirador ou de uma enceradora, para as implicar na sua compra.
Aida acompanhada por Joaquim Correia, a fazer o seu tirocínio, bateu a uma porta, e a mulher que os atendeu, antes de se apresentarem perguntou:
-O que deseja este casalinho?
Quando se afastaram, Aida olhou para Joaquim com um ar ternurento, sorriu e disse, “um casalinho”.
-Pois, disse Joaquim, são pessoas modestas, que veem a vida de uma forma simples, ainda estão na fase da vassoura e longe da do aspirador. E vê-se que não têm condições para o comprar. Quanto à questão do “casalinho” até podia ser, mas vejo uma aliança instalada num dedo teu
-Não há como desmentir, sou casada. O meu homem tem o dobro da minha idade, e já nem me aquece, disse Aida a sorrir.
-É pena, assim só podemos ser um casalinho na aparência, mas também não há problema. Nesta fase da vida ando por atalhos à procura de um caminho que ainda não encontrei. Estou muito longe de pensar em constituir família.

Aida e Joaquim continuaram na sua tarefa diária e o assunto foi esquecido. Nos dias em que estavam cansados de subir e descer escadas e ouvir “não obrigado” resolviam ir até um cinema de bairro, ver um filme. Um dos que ficava próximo, na Estrela, chamava-se Paris. Uma vez, assistiram a um filme romântico, que se passava entre  Veneza e Paris, À saída Aida disse.
-Como gostava de ir à verdadeira Paris?
-E porque não? O problema é que com o que nos pagam, mesmo acima da média, não há dinheiro para esses luxos.
Concordo, respondeu Aida, mas para um passeio cá dentro sempre se arranjava.
-Então é fácil, convences o teu marido.
-Não percebestes? Não quero ir com o meu marido, quero ir contigo.
-Porra, pensou Joaquim, que corou até à raiz dos cabelos, a moça é atrevida. Ó Aida estás a brincar?
-Estou muito a sério.
-Não sei o que pretendes, mas olha que eu não estou em condições de passar à condição de marido.
-E depois? Vive-se um dia de cada vez. Até já tenho um plano. Um fim de semana em Aveiro. Tem algumas semelhanças com Veneza e é muito mais acessível.
-E o teu marido concorda?
-Não concorda, nem tem que concordar. Invento um curso de formação. Assim como assim, tem uma pequena fábrica de luvas e está sempre ocupado. O trabalho é a sua amante.
José e Aida instalaram-se num pequeno hotel com vista para a ria. Viajaram de comboio de forma discreta, procurando não dar nas vistas. Para haver algum romantismo naquele passeio começaram por fazer uma viagem na ria dentro de um barco moliceiro. O ambiente proporcionou a toca dos primeiros beijos . No quarto do hotel, Aida, mais desinibida, começou a libertar-se da armadura do pudor, apareceu despida de preconceitos, e sentou-se ao lado de Joaquim. Este sentiu a macieza da sua pele…

JCorreia acordou com a noite a deitar-se. Enroscada nas suas pernas estava a gata Judite, que ali se instalara sem ter dado por isso, e que o aquecia com a macieza do seu pelo. No seu horizonte , a mesma paisagem com que adormecera. Os guindastes agora não pareciam sentinelas, mas braços de gigantes que moviam contentores como se fossem peças de lego. Outro dia ia começar. Outro dia de labuta. O que fazer com Rosalinda? Como continuar a investigação do marido desaparecido? Como interpretar as misteriosas comunicações da “gata dos telhados?
 
Continua...


Título: Re: A Gata dos Telhados IX
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 18, 2020, 21:40:19
Esta gata dos telhados tem um excelente sentido de oportunidade. Está sempre onde é preciso...


Título: Re: A Gata dos Telhados IX
Enviado por: Goreti Dias em Julho 19, 2020, 17:43:49
E não é assim que deve ser, Gabriela?


Título: A Gata dos Telhados X
Enviado por: Nação Valente em Julho 24, 2020, 20:25:34
X
Caramba Judite, tu abusas da sorte. Agora usas-me como cama? Deixa lá também não tenho companhia para dormir. Não tenho nem nunca tive, a não ser ocasionalmente. Antes de dormir ou de acordar, estive na lembrança a Aida, uma outra gata, e que gata, quando tu ainda não o eras, nem sabias se o serias.

 Aquela primeira noite foi inesquecível, mas não te vou dar pormenores. Se tiveres imaginação, imagina. Outros dias e outras noites se seguiram, cada vez com mais paixão. E tive quase a cair na tentação de ficar preso na sua sedução, mas fui salvo pelo “gong”. Acorda Joaquim!
Como é que foi isso? Suponho que queres saber. Aconteceu com a mesma naturalidade com que começou. Aconteceu quando a empresa em que trabalhávamos começou a ter dificuldades  nas vendas. Uma crise a nível mundial causou perturbações nos mercados. Começaram os despedimentos. Antes que chegasse a minha vez certo dia fui ter com o chefe de zona e disse-lhe. “senhor Figueiredo, isto está a ficar difícil, venho apresentar a minha demissão. O chefe Figueiredo, que até simpatizava comigo perguntou? Já tem outro trabalho? Não. Então o que vai fazer? Tirar umas férias. Tirar uma férias? Caramba! Como é possível? Eu trabalho há mais de quinze e nunca tive férias”.

O que não tem que ser não é, e parti para outra, como se costuma dizer. Eu parti e a Aida ficou, com a sua vida, com o seu marido. Se percebesse língua de gata, imagino que me perguntasses se foi doloroso. Claro que foi. Longe da vista, longe do coração, pois somos viajantes de passagem, sempre a iniciar novas viagens.
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre
a começar…
A certeza de que é preciso continuar…
A certeza de que podemos ser interrompidos.
antes de terminar.
Por isso devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo
Da queda um passo de dança…
Do medo uma escada…
Do sonho, uma ponte…
Da procura, um encontro.
Não penses Judite que este poema que reflecte o que estou a dizer é da minha lavra. Não tenho unhas para tocar tão bem guitarra. É de um tipo que se chama Fernando Pessoa. Um solitário com o qual me identifico, mas a quem nem chego aos calcanhares. Quase um desconhecido no seu tempo, e hoje e sempre, imortal.

JCorreia foi acordado das suas divagações para uma gata, pela voz de Rosalinda.
-Bom dia detective. Incomodo?
-Olá Rosalinda, nunca incomoda. Dormiu bem? Está pronta para sair? Já tenho um plano de trabalho para hoje. Vou pedir-lhe para seguir a Idalina, a mulher do marido desaparecido. As fotos que tirou têm pouca qualidade. Vai tirar outras e quem sabe avançar um pouco mais na investigação. Mas antes vamos tomar o pequeno almoço. Há aqui próximo uma pastelaria, a Sete Colinas. Continuaremos lá a nossa conversa.

Na pastelaria, ainda quase deserta, sentaram-se num local discreto ao fundo da sala.
-O habitual, detective?  perguntou uma jovem, com um largo sorriso.
-Para mim o habitual, para a minha secretária, uma tosta mista e um doce “especialidade da casa”. Ela não precisa de fazer dieta como eu. O colesterol ainda não a acompanha.
-Muito bem, a menina vai gostar do meu bolo “alfacinha”.
Desculpe Rosalinda por ter sido parco em palavras no escritório. Estou cada vez mais convicto que estou a ser escutado. Já dei volta ao apartamento e ainda não encontrei nada. De qualquer modo, tenho de tomar precauções. Por isso vou-lhe dar agora os pormenores. Vamos em táxis separados para junto da habitação da Idalina. A Rosalinda vai segui-la. Eu sigo-a a si. O principal objectivo é ver se apanho o merlo que a andou a seguir a si. Se eu estiver certo, desta vez só sabe metade da operação.
-Então menina Rosalinda que diz do meu doce?
-Só encontro uma palavra: divinal. Voltarei…

O detective e a secretária dirigiram-se para junto da residência de Idalina. Esta saiu de casa às nove e trinta, e caminhou pela avenida da Igreja, em Alvalade, até à estação do metro. JCorreia que as seguia a uma distância segura, não notou nada de anormal. Porém quando Rosalinda  descia as escada do metropolitano, viu sair debaixo das arcadas de um prédio próximo, um indivíduo vestido informalmente, com calças de ganga e blusão de pele. Quando este se dirigia para o metro, jCorreia disparou a sua Polaroid. Na sua observação e na imagem que saiu da máquina fotográfica, pôde ver o rosto do desconhecido, um pouco desfocado.
-Diabos me levem, pensou JCorreia, esta cara não me é estranha.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados X
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 27, 2020, 21:04:35
...da queda um passo de dança.... Muito bem, esta dança de gatas...


Título: Re: A Gata dos Telhados XI
Enviado por: Nação Valente em Julho 30, 2020, 20:32:05
XI
Diabos me levem, pensou JCorreia, esta cara não me é estranha.

JCorreia contactou Rosalinda por telefone. Pediu-lhe para sair na estação seguinte, apanhar um táxi e dirigir-se para o escritório, onde iriam fazer o ponto da situação. Na missão que tinham iniciado estava concretizado o principal objectivo.
Quando Rosalinda chegou, JCorreia analisava o dossiê do caso do marido desaparecido. Comparava a foto que tirara com a que lhe foi fornecida, pela sua cliente. Apesar da má qualidade da imagem instantânea, não havia dúvida, o homem fotografado era o marido desaparecido de Idalina. Na verdade um falso desaparecido. Preferiu, por precaução, não informar Rosalinda. Continuava convencido que tinha a casa sob escuta. Dirigiu a conversa para assuntos pessoais.

-Sobre a operação que hoje executou, disse JCorreia, falaremos mais tarde. Ainda estou a rever a informação. Para já é prioritário resolvermos a sua situação familiar. Em primeiro lugar considero que lhe devo uma explicação. Decerto que se lembra do nosso almoço, na taberna…onde me falou do seu passado e das suas origens.
-Como me podia esquecer, foi um dia especial para mim. Para além do bom momento gastronómico, pude desabafar, fazer um pouco de catarse, sem pagar consulta.
-De psicólogo e louco todos temos um pouco, e foi muito importante também para mim conhecer o seu passado, que afinal já se tinha cruzado com o meu.
-Eu sei, detective. Já me contou o divertido encontro no Rossio, quando eu vendia flores.

-Não se trata disso Rosalinda. Do que lhe quero falar, aconteceu muito antes. Aconteceu quando a Rosalinda era uma criança com pouco mais de um ano, e esteve na aldeia serrana dos seus avós maternos. Hesitei em dizer-lhe até hoje, mas a pessoa que a recebeu, Amélia era a minha mãe. Eu tinha cerca de dez anos e lembro-me de estarem na nossa casa, durante uma semana, até fazer a sua recuperação. O que lhe estou a dizer significa que ainda somos parentes. E resolvi dizer-lhe para reafirmar que para lá de razões humanitárias, a minha preocupação com a sua vida familiar tem motivos acrescidos.

-Nem por sonhos estava à espera de uma notícia dessas, mas é uma boa notícia. Eu era muito pequena e não tenho memórias desse período. Sei da situação, porque a minha mãe me a lembrava frequentemente.

-Nesse ano, talvez, 1956 , o meu pai estava ausente. Nós vivíamos do cultivo da terra, mas nos tempos de menos trabalho nos campos, José, o meu pai, dedicava-se ao contrabando para conseguir melhorar a nossa situação. Entre a sementeira e a monda, entre esta e a ceifa, e entre a ceifa, e a nova sementeira, ausentava-se por cerca de duas semanas. Com o seu companheiro atravessavam a fronteira com um carregamento de café, cedido por um comerciante/ contrabandista. Partiam, altas horas da noite, para não serem vistos pelos guardas da fronteira de um e do outro lado.
Atravessavam o Guadiana a nado, rebocando a carga num saco de lona flutuante. Ao chegaram a Espanha, caminhavam com a carga até chegar à terra de destino, De dia dormiam em sítios isolados, em palheiros, e de noite caminhavam. Ao chegar ao destino entregavam o produto, e recebiam o pagamento. Com a sua parte do dinheiro e para o rentabilizar compravam alguns produtos mais baratos e mais raros que em Portugal, como tecidos, cosméticos, e calçado de baixo preço. Era um trabalho duro e arriscado, mas correu sempre bem, excepto numa viagem, na qual foram abordados quando atravessavam o rio a nadar, no regresso. Primeiro, sentiram o barulho de uma lancha a remos, depois uma voz que lhes era familiar a mandá-los parar. Como instinto de sobrevivência largaram os sacos que rebocavam com os produtos adquiridos. Todo o seu lucro ia nele, assim como a própria roupa. O guarda que os abordou e que nem estava de serviço, parou para recolher os sacos, e deixou-os seguir. Chegaram a casa apenas vestidos com o chapéu na cabeça, onde guardavam o dinheiro do comerciante.
O meu pai precisava dos rendimentos que tirava do contrabando, mas sempre me pareceu que exercia aquela actividade com muito gosto. Podia como outros agricultores encontrar outros trabalhos complementares, como a ida para as ceifas no Alentejo, que eram feitas manualmente. Mau grado o risco, nunca desistiu.
A minha mãe recebeu a prima, renegada pelo pai, que poucas vezes vira e fez o melhor que pôde para vos ajudar. E sei que mantiveram contactos por correspondência, durante muito tempo, e que a sua se mostrou disponível para me receber quando vim viver para Lisboa. Mas preferi manter a minha independência. Agora que por acaso nos reencontramos, podemos restabelecer esses laços familiares, começando por dispensar o tratamento formal. E indo a coisas mais recentes, já pensastes na relação com o teu marido?

-Sei que tenho de voltar a casa. Sou casada com o Damião, e falaremos sobre o nosso futuro, com a certeza que não estarei sozinha.
-Muito bem. Vou então telefonar-lhe para o informar que fostes  libertada, e que pode vir buscar-te. Entretanto vamos analisar as fotos do caso do marido desaparecido.
JCorreia aproximou-se da janela com vista para o rio. No porto havia um movimento desabitual. Carros de polícia. Uma zona fechada.

Continua…


Título: Re: A Gata dos Telhados XI
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Julho 30, 2020, 20:40:11
A vida de outros tempos e o contrabando.... Parece uma realidade de outro planeta....Faz-me lembrar outras vivências de que eu desde sempre ouvi contar... a caça ao volfrâmio no tempo da guerra...E pobreza, muita pobreza. Mas agora trata-se de gatas detectives...


Título: Re: A Gata dos Telhados XI
Enviado por: Goreti Dias em Agosto 02, 2020, 19:27:41
As gatas evoluíram, pois claro!


Título: Re: A Gata dos Telhados XI
Enviado por: Nação Valente em Agosto 05, 2020, 21:10:19


XII

JCorreia aproximou-se da janela com vista para o rio. No porto havia um movimento desabitual. Carros de polícia. Uma zona fechada. Pegou no telefone e ligou para um camarada na PJ.
-Leandro, fala Correia, como vão as coisas'
.-Vão-se  aguentando à bronca…e tu velhote? E a Judite? Quem diria que as gatas já são detectives?
-Pois, tudo evolui, até as gatas! Quero-te pedir uma informação, se for possível. Estou qui no meu buraco a olhar para o rio e vejo grande confusão no porto. Sabes o que se passa?

-Ó Correia não dás ponto sem nó. E eu a pensar, “queres ver que o gajo me vai ligar para tomar uns drinks”…mas tudo bem. Não é assunto para o meu departamento. O que consta é que  é assunto que mete droga. Foi para lá a brigada dos estupefacientes.
-Obrigado Leandro. Sabes que me divorciei do álcool, do tabaco e… Foi duro após um longo casamento. Agora só mamo da teta da vaca. Deixa lá, mas ainda nos podemos encontrar à volta de um bom prato de febras, como nos velhos tempos. Palavra de escuteiro que nunca foi. Até lá não te metas sarilhos.

JCorreia disse a Rosalinda que precisava de sair, e entregou-lhe o dossiê com as fotos do caso do marido desaparecido, para fazer um relatório. Ao sair, pediu-lhe para ter cuidado e não abrir a porta a ninguém. Começou  a descer a rua em direcção ao porto. Pensou em Rosalinda dentro de uma alcofa a snifar seiva de pinheiro, nas margens da ribeira da aldeia. Na ´época passava-lhe um bocado ao lado. Às três da tarde saía da escola, e quando o tempo se libertava das garras do inverno, ia com o seu primo Eliseu, nadar para um pego em forma de piscina, e com pouco profundidade. Foi aí que deu as primeiras braçadas em boa harmonia com a água, apesar de nessa zona, sob a “jurisdição do senhor Palma” pago pelos agricultores, os jovens não serem bem vistos. Depois de despir a farpela e ficar em pelo, estavam sempre de olho no guarda da fruta, que por ali existia. Até que um dia, quando na água mudavam de posição viram um gigante, magro como um cão vadio, com um varapau nas mão. Era o senhor Palma. Fugiu-lhes o sangue para os pés-
-Mas que merda é esta, disse o gigante, não sabem que não se podem banhar-se aqui? Querem levar uma paulada no lombo?
-Nós só viemos nadar, disse Eliseu, não roubamos nada.
-Sei que são bons moços e não vos faço mal, mas ponham-se daqui para fora.

JCorreia riu-se, para dentro, com esta lembrança, por pouco tempo, porque preso no recanto de más memórias, soltou-se das amarras,  a porrada que levava na escola primária. O senhor professor usava a pedagogia do “não sabes levas”. Quando era chamado ao quadro para fazer problemas de matemática, as pernas tremiam-lhe  como varas verdes. Era certo que não se livrava de umas ponteiradas, puxões de orelhas, e voltava como tinha ido, sem perceber patavina. O pior aconteceu no dia em que substituiu a sua sacola de pano, por uma pasta de napa, que o pai lhe trouxe de Espanha, nas suas viagens de contrabandista. Logo a levou todo ufano para a escola. O senhor professor, curioso, quis verificar, abriu-a espreitou  par o interior e disse “bem me parecia”. A seguir Joaquim virou-se para trás para mostrar a pasta, e o professor virou-lhe a cabeça para a frente com linguagem gestual. Resultado: teve de se adaptar a ver só com um olho durante uma semana.
Foi embrenhado nestes pensamentos que o detective JCorreia chegou ao porto. Mostrou o seu cartão de sub-chefe de brigada da PJ, ao polícia que controlava a entrada para a zona reservada. Entrou e logo reconheceu o sub-chefe Carvalho que dirigia as operações.
-O que fazes por aqui Correia. Voltaste ao serviço?
-Gabo-te o humor, pois sabes que não me querem cá. Assim que fiz sessenta anos puseram-me na alheta. Estava ali no meu poiso, na encosta e vi este movimento todo e pensei “Correia vai lá matar saudades”. E então,  afinal que se passa?
-É pá, mais uma apreensão de droga. Há tempo que andávamos a investigar. Veio num cargueiro que estava a descarregar. Já prendemos para interrogatório quatro mânfios. Dois embarcados e dois estivadores. “Pombos correios” que levavam informação aos mandantes. Vamos interroga-los para ver se chegamos aos traficantes.
-F*da-se…., desculpa o palavrão, saiu-me, não reparei que tens aí uma estagiária.
-Não te preocupes agora já nascem licenciadas em palavrão.
-É que conheço um dos merlos que engavetastes. É o marido da minha secretária. Chama-se Damião.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 09, 2020, 00:33:45
E o mistério adensa-se...


Título: Re: A Gata dos Telhados XII
Enviado por: Goreti Dias em Agosto 10, 2020, 09:22:41
Sem dúvida!


Título: Re: A Gata dos Telhados XIII
Enviado por: Nação Valente em Agosto 12, 2020, 19:48:34
 
XIII
É que conheço um dos merlos que engavetastes. É o marido da minha secretária. Chama-se Damião.

JCorreia saíu do porto preocupado. Como daria a notícia a Rosalinda, como reagiria ela? Enquanto se afastava da zona intervencionada pela polícia, avistou no seu horizonte uma figura, que pelo aspecto parecia um sem-abrigo. O seu instinto e a sua experiência alertou-o para uma situação imprevista. O estranho caminhava na sua direcção de forma num andar titubeante. . Ao aproximar-se refreou o passo, parou e abordou-o.
-Senhor, pode dar-me uma ajuda?
Uma enorme barba branca escondia-lhe o rosto, mas o detective reparou que os seus olhos pertenciam a uma pessoa jovem
-Pode ajudar-me…
JCorreia levou a mão ao bolso, sem desviar o olhar dos movimentos do seu interlocutor. Apesar da idade, deu um salto rápido para o lado direito. De imediato, sentiu a camisa a romper-se e a suavidade fria do aço a afagar a sua pele. Fazendo  uso das técnicas de defesa e ataque, que aprendeu quando na juventude praticou boxe amador no atlético Clube da Estefânia, com uma mão paralisou o braço direito do agressor, e com a outra mão cerrada, colou-lhe o estômago às costas. Este largou a faca e dobrou-me com um esgar de sofrimento, misto de dor e falta de ar. O detective tirou um lenço do bolso e baixou-se para apanhar a faca. O atacante procurou recompor-se e afastou-se o mais depressa que conseguiu, ganindo comoum cão assustado. Quando JCorreia acabou de recolher a arma do ataque, já o falso sem-abrigo tinha desaparecido entre os contentores. Ainda pensou se o seguiria, mas abandonou a ideia.. Nessa altura, já a sua mente recuava no tempo, até ao primeira vez que foi ao circo, com os seus avós, onde a cena do homem que atirava facas com os olhos vendados,  a uma mulher presa a um painel,  estava bem nítida.

Os serrenhos desciam em massa ao litoral, como bandos de pássaros, durante a feira anual. Mas como não tinham asas precisavam utilizar os transportes públicos. Joaquim Correia lembrava-se bem dessa aventura, porque duma aventura se tratava para ir, ficar e voltar. Como a carreira normal não chegava para tanto movimento a empresa rodoviária fazia desdobramentos. Os passageiros esperavam com uma paciência de santo que aparecesse uma camioneta para os levar. Com cada autocarro que nascia da curva da estrada exultavam. “É agora”. Mas não era. O veículo passava indiferente ao desespero dos passageiros da feira. Por norma e interesse, primeiro estavam os passageiros de terras mais longínquas. Passava um e outro e outro. Joaquim lembra-se bem.  Os desesperados passageiros decidiam “não passa mais nenhum. Fazemos uma barreira humana”. Decidido e feito, mas tarde de mais. A camioneta bloqueada era a que vinha buscar aqueles passageiros. No regresso.  a mesma canseira. Esperavam e esperavam, até cansar a paciência. Joaquim não se esqueceu. O avô virou-se para o seu grupo e disse para que todos ouvissem “vamos alugar uma camioneta à empresa Pilar” da concorrência, e que não tinha a concessão daquele percurso. Designou-se uma equipa para tratar do assunto. Ainda esta não se tinha afastado cem metros, já estava no local a almejada camioneta da empresa oficial. Parece que as pedras da calçada tinham ouvidos.

Joaquim  lembra-se de tudo. O que ficou sempre mais vivo nas suas lembranças foi o espectáculo do circo com os trapezistas, os contorcionista, os ciclistas, os ilusionistas, os palhaços,  a orquestra a dar suporte e suspense a cada número. O que mais o divertia era a actuação dos "faz tudo” Apareciam entre cada actuação, vestidos com roupas largas e coloridas, e ao mesmo tempo que mudavam os artefactos da pista, divertiam o público com as suas pantominas. Só mais tarde Joaquim percebeu porque se chamavam “faz tudo”. Não faziam parte do elenco artístico. Eram contratados para montar, desmontar as tendas, e dar toda a assistência, a troco de um prato de comida, mas para Joaquim eram verdadeiros artistas. Não é fácil provocar o riso.
 
Após o espectáculo e de um dia cheio de emoções, Joaquim e os avós iam pernoitar a casa de uma parente ou de uma conterrânea, sempre de portas abertas para os receber. Portas abertas para  eles, e a muitos outros em idêntica situação. Joaquim recorda-se  de dormir numa sala, em que a cama era o chão de ladrilhos, escondido por umas mantas.  Não havia um centímetro livre. Encaixado ente a sua avó, e uma moça já mulher, de que ainda sente o calor, dormiu como se estivesse num colchão de penas.

Quando entrou no seu apartamento JCorreia viu Rosalinda sentada na sua mesa de trabalho, a escrever o relatório do caso do marido desaparecido. Tinha sido um dia cansativo, no presente e no passado, e só lhe apetecia estender-se nem que fosse num chão de ladrilhos. Rosalinda, sem levantar os olhos do seu trabalho disse:
-Estou a concluir o relatório que pediste. Depois posso voltar para casa. Tentei ligar ao meu marido, mas não atende.
-Não atende, nem vai atender. Tenho uma notícia desagradável para te dar. Acabei de chegar do porto, onde decorre uma operação da PJ sobre tráfico de droga, e…não sei como dizer…vou ser directo: o Damião foi preso, como suspeito de fazer parte da rede de tráfico de droga. O mais certo é ficar em prisão preventiva. Nesta área os juízes, não dão tolerância-
-Rosalinda perdeu a cor do rosto e levou tempo a reagir:
-Não posso crer? Mas agora reparo tens a camisa cortada, e com sangue, o que se passou?
-Coisa pouca. Vinha a caminhar distraído, e não me apercebi de um fulano com um canivete de ponta e mola aberto. Ainda me consegui desviar. É só um arranhão. Bate chapas e tinta, disse procurando esboçar um sorriso. Quanto ao teu marido irá ser interrogado. Podemos contratar um advogado. E não te aconselho a ir para casa sozinha, enquanto este novelo não for desenrolado. Tenho receio que ainda falte muito. Aqui estás como em casa. Afinal temos laços familiares.
-Não consigo imaginar o Damião nesses assados. Por outro lado e ligando as pontas, agora começo a entender porque trazia cada vez mais dinheiro para casa. Dizia-me que se matava a trabalhar.
-O mistério adensa-se, disse JCorreia. Adensa-se ao ponto de nem o narrador o conhecer.
-Sem dúvida...

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XIII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 12, 2020, 22:44:27
Assim é que é bom, o narrador ser enganado pelas personagens...

Abraço


Título: A Gata dos Telhados XIX
Enviado por: Nação Valente em Agosto 19, 2020, 20:06:59
- Não consigo imaginar o Damião nesses assados. Por outro lado e ligando as pontas, agora começo a entender porque trazia cada vez mais dinheiro para casa. Dizia-me que se matava a trabalhar.
-Esqueçamos , por agora o Damião, está incontatável. Se ficar na prisão, vamos fazer-lhe uma visita, e logo pensamos no assunto.  Então  o que diz esse relatório do marido desaparecido? Cheira-me que está tudo ligado.
- No percurso que seguimos da Idalina, não encontro nada fora do vulgar, disse Rosalinda. Depois de sair da sua casa apanhou o metro para a baixa da cidade, e dirigiu-se para o seu local de trabalho, a empresa Figueira & Laranjeira, export/import. À hora do almoço saiu e foi comer comida macrobiótica. Durante todo este percurso não contactou com ninguém. Voltou ao local de trabalho e quando saiu fez o trajecto de regresso a casa. Apenas notei numa foto, antes de entrar na estação do metro, uma ligeira paragem junto a uma mulher de etnia cigana, que parece entregar-lhe um objecto. Talvez seja importante ampliar essa foto.
-Irei  pedir ao fotógrafo para fazer a ampliação. Tenho a sensação que souberam das nossas diligências, e foi tudo encenado. Mas onde raio estarão as escutas? Bom, temos de nos alimentar. Vou preparar o jantar. Estou a pensar num bacalhau no forno com migas.
-Eu trato disso, Joaquim. Aliás, com toda a modéstia, migas é umas das minhas especialidades. Herança da minha mãe, que tinha uma costela alentejana, e que deliciava o Damião
A noite já ia velha e JCorreia esperava em vão pela vinda do sono. Rosalinda dormia a bom dormir. A prisão de Damião parecia não a ter afectado. O detective continuava a olhar para a foto de Idalina quando se cruzava com a cigana. Judite, a sua gata, dormitava aos seus pés, indiferente às preocupações do seu dono. Este olhou-a e invejou-lhe a vida simples e despreocupada. “Sabes judite, acho que estou metido numa grande alhada, mas também sei que não me podes ajudar. Se ao menos me desses um sinalzinho, com o teu instinto de gata, sobre o local onde está colocada a “escuta” fazia-te uma estátua. Mas hei-de descobrir.
Aquele estranho contacto da sua cliente com a cigana, fê-lo lembrar-se de uma outra cigana, Zaira que lhe previa o futuro, quando com o seu avô Baltazar Correia, ia à feira anual da sede do concelho. “O menino vai ser um bom "homem”. Ao seu avô e à sua avó, Beatriz Cavaca, não lia o futuro porque já não o  tinham. Falava do seu passado, desde a mais tenra idade. “Como é que raio a cigana sabe de coisas que nunca contei a ninguém”.
Joaquim viu-se recuar no tempo até 5 de Outubro de 1910, onde o seu avô, um jovem de doze anos, estava com outros jovens do seu tempo, a ouvir o senhor Joãozinho, proprietário rural, comerciante e republicano, a falar-lhes de uma revolução em Lisboa ,que pusera fim à monarquia, que agonizava depois do assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe . Manuel que herdara o trono impreparado para a função, tinha sido derrubado e partira para o exílio. O dirigente republicano José Relvas proclamou a República, nos Paços do Concelho. “Um futuro melhor se abrirá para vocês, e para o nosso povo “dizia-lhes o senhor Joãozinho
Comeram e beberam até à saciedade e a seguir partiram pelas ruas da aldeia a gritar vivas à República, como pedira o senhor Joãozinho. "Amanhã voltem para receber umas prendinhas e ver o que vamos fazer com a “padralhada” que juntamente com a monarquia são o mal deste país".
-Entrem rapazes, disse o senhor Joãozinho, estiveram muito bem, pela República. Hoje vamos dar mais um passo. Vão até junto da casa do padre Pinto, e dizer “fora os padres”. E não digam que eu vos mandei, porque a minha mulher é muito devota, mas acabará por se acostumar.
-Senhor Joãozinho disse Baltazar, não é preciso. O senhor padre Pinto já se foi embora, pois receava pela sua vida.
-Como soubestes?
-Esqueceu-se que o meu avô é o sacristão. Com a minha ajuda, enrolamos as patas de uma mula, para não fazer barulho, e o senhor padre Pinto partiu ao início da noite. Já está longe. Eu também não gosto de padres, embora fosse criado na sacristia, onde comia as hóstias com o meu primo Serafim, às escondidas. Claro que não estavam consagradas. E também sou republicano.
-Muito bem Baltazar. O problema resolveu-se por si. Como representante da República nesta terra tinha de tomar medidas.

JCorreia abriu os olhos, encandeados por uma réstia de sol matinal que entrava pela janela. ou pelo ruído vindo da cozinha. Levantou-se, como saído de um sonho, e viu Rosalinda a colocar na mesa o pequeno almoço.
-Ó Rosalinda, és minha secretária e não cozinheira. Aquele bacalhau envolvido em presunto numa cama de cebola, acompanhado de migas com feijão preto, estava divino, mas não é essa a tua função.
-Fiz com muito gosto. Gosto de cozinhar e é que faço todos os dias. Mas se fazes questão, na próxima é a tua vez.
-Combinado. Depois  do pequeno almoço, vamos trabalhar no caso do marido desaparecido. Primeiro passamos pelo porto para falar com estivadores, e a seguir tentamos descobrir a cigana da fotografia.
Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XIII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 19, 2020, 21:36:49
"...Herança da minha mão, que tinha uma costela alentejana, e que deliciava o Damião....

Lapso,com certeza, uma pequena queda da mãe para a mão... 


Título: Re: A Gata dos Telhados XV
Enviado por: Nação Valente em Agosto 24, 2020, 21:07:19
XV
-Combinado. Depois  do pequeno almoço, vamos trabalhar no caso do marido desaparecido. Primeiro passamos pelo porto para falar com estivadores, e a seguir tentamos descobrir a cigana da fotografia.

O porto tinha um aspecto estranho. A habitual azáfama de guindastes e contentores transformara-se numa quase total apatia, o que deixou surpresos JCorreia e Rosalinda. Dirigiram-se a um segurança a quem perguntaram o que estava a acontecer.
-Bom dia, disse o detective, transmutado com um chapéu preto, e vestido de fato e gravata, um disfarce para a ocasião. Sou o Araújo o advogado do estivador Damião, que ontem foi preso, e pretendia falar com alguns dos seus companheiros. A minha acompanhante é a sua esposa. Porque está o trabalho paralisado?
-Os trabalhadores estão reunidos com o seu sindicato. Creio que vão discutir questões laborais, relacionados com prémios de turno, e segundo consta, está na mesa, a convocação de uma greve. Vão até aos armazéns, perguntem pelo Acácio, é delegado sindical e conhece bem o Damião.

No local da reunião perguntaram pelo Acácio. Algum tempo depois, apareceu um senhor de meia idade, com longa barba e boina basca, uma espécie de imitação de Che Guevara. Dirigiu-se-lhes com ar afável.
-Sou o Acácio de Castro, em que posso ajudá-los?
-Chamo-me Rosalinda, sou a companheira do Damião, que ontem foi acusado de traficar droga e venho acompanhada por um advogado. Pretendemos recolher algumas informações sobre as razões que levaram à sua prisão.
-Muito prazer em conhecê-la. O que lhe posso dizer? O Damião é muito reservado, e não falava da sua vida privada. É um bom profissional e um bom camarada. Sempre disposto a entrar nas lutas contra os filhos da puta dos exploradores, que nos sugam como vampiros. Lembram-se da canção do Zeca? Esses mesmos. Hoje estamos aqui reunidos para decidir o que fazer em relação ao incumprimento contrato de trabalho.
-Mas senhor Acácio, relativamente à acusação do tráfico de droga, notou da parte do Damião algum comportamento estranho? Perguntou JCOrreia.
-A resposta é não. Sempre o vi concentrado no trabalho. Sempre disponível para fazer horas extraordinárias. Sim, porque ao contrário do que dizem, todos nós precisamos de as fazer para conseguir um salário digno. Quanto ao tráfico de droga, também fui apanhado de surpresa. Para ser sincero não via o Damião metido nesses assados. Mas não ponho as mãos no fogo por ninguém. Temos que esperar pelas provas policiais. Os trabalhadores do porto são gente de trabalho. Há quem se deixe corromper? Neste mundo capitalista é possível. Não posso adiantar muito mais.

-Eureka, disse JCorreia quando saiam do porto. Não adiantamos nada sobre a questão do tráfico de droga, o que era previsível, no entanto, penso que dei um passo de gigante na descoberta do local das escutas. Verifiquei que hoje não fomos seguidos. Possivelmente os seguidores não ouviram a nossa conversa de ontem à noite, o que significa que não está num suporte fixo. Já tenho uma pista. Preciso de voltar ao escritório. Tu, Rosalinda, vai até junto da empresa Figueira & Laranjeira, para observar a Idalina: Encontramo-nos na pastelaria Suíça para almoçar. Não andes por locais com pouca gente, e mantem-te sempre em contacto.

Nem o barulho da porta a abrir-se, nem os passos do detective acordaram a gata Judite que como boa noctívaga, prolongava a noite para dentro do dia num sono profundo. JCorreia sentou-se a olhar para o casario que parecia querer descer a encosta, para partir à aventura à procura de gentes que antes ali estiveram, e que deixaram parte da sua herança genética e cultural, que caldeou aquilo que é a idiossincrasia portuguesa. Lembrou-se de a ver bem representada, quando vivia na hospedaria, nos primeiros anos da década de setenta. Para além da proprietária, oriunda do alto Alentejo, quarentona divorciada, ali habitavam mais seis hópedes, e um seu filho solteiro. Eram jovens machos, com excepção da menina Olinda, vindos de vários recantos de Portugal, à procura de um futuro mais promissor.
A menina Olinda era transmontana, ou não se sabia se era ou sequer se existia. Joaquim Correia chegou a pensar que fosse um holograma. Para além da magreza quase transparente, ss únicas palavras que lhe ouviu, em vários anos, foi bom dia, boa tarde ou boa noite, quando se cruzavam no corredor. Durante as refeições entrava muda e saía calada. A seguir, recolhia ao quarto que partilhava com a proprietária, serena e discreta,
Havia ainda o Carlitos, da Beira Alta e o Carlão, da Beira Baixa, seu companheiro de quarto, um calmeirão que praticava atletismo, e arrastou Joaquim para empresa de vendas onde trabalhava. Os imãos Bicho Rato que trabalhavam na Cidla, eram o protótipo do verdadeiro alentejano.

-Estás a abrir os olhos Judite? Estava a recordar os tempos em que a cidade ainda era uma aldeia grande e eu vivia numa comunidade que representava quase todo o país. A convivência fazia-se nos muitos cafés, nos cinemas, nos teatros. A televisão tinha dois canais, os telemóveis e os computadores ainda eram ficção. No andar que ficava por cima da hospedaria, vivia uma actriz, que nos arranja bilhetes para os espectáculos em que participava. Num dessas peças, no  Teatro Experimental de Cascais, transportei a turma masculina, e o namorado da nossa hospedeira, que a dividia com a legítima Levou-a a ela e à menina Olinda. Na peça havia uma cena em que as actrizes apareciam a dançar em trajes menores, e vi pela primeira vez o corpo desnudo da nossa vizinha, chamada Irene. Havia de vê-lo mais vezes. Noutras circunstâncias. Tive sorte. Engraçou comigo. Dizia que me achava parecido com o Dustin Hofman, mas mais bonito.
Vê bem Judite? Achas-me parecido com o Dustin Hofman? Encolhes as orelhas? Ainda bem que não te percebo
Quando conheci a Irene, eu estava a passar um mau bocado profissionalmente. Trabalhava para uma empresa que vendia livros, “porta a porta”. Mas quem queria comprar livros num país com muito analfabetismo e sem hábitos de leitura? Foi nessa altura que recebi um convite do Carlitos, para ir à sua aldeia, lá para os lados de Freixo-de-Espada à Cinta, ao casamento do seu irmão. Que aventura! Se te portares bem, talvez te conte. Anda cá. Deixa-me ver uma coisa. Tenho uma chamada para atender…
-Estou…diz Rosalinda…já vou para aí. Tenho novidades. Descobri o microfone.

Tenho que sair. Depois vamos ter uma grande conversa, Judite.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XIV
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 24, 2020, 21:15:27
Esta Judite está sempre no lugar certo...


Título: A Gata dos Telhados XVI
Enviado por: Nação Valente em Agosto 24, 2020, 21:59:54
- Não consigo imaginar o Damião nesses assados. Por outro lado e ligando as pontas, agora começo a entender porque trazia cada vez mais dinheiro para casa. Dizia-me que se matava a trabalhar.
-Esqueçamos , por agora o Damião, está incontatável. Se ficar na prisão, vamos fazer-lhe uma visita, e logo pensamos no assunto.  Então  o que diz esse relatório do marido desaparecido? Cheira-me que está tudo ligado.
- No percurso que seguimos da Idalina, não encontro nada fora do vulgar, disse Rosalinda. Depois de sair da sua casa apanhou o metro para a baixa da cidade, e dirigiu-se para o seu local de trabalho, a empresa Figueira & Laranjeira, export/import. À hora do almoço saiu e foi comer comida macrobiótica. Durante todo este percurso não contactou com ninguém. Voltou ao local de trabalho e quando saiu fez o trajecto de regresso a casa. Apenas notei numa foto, antes de entrar na estação do metro, uma ligeira paragem junto a uma mulher de etnia cigana, que parece entregar-lhe um objecto. Talvez seja importante ampliar essa foto.
-Irei  pedir ao fotógrafo para fazer a ampliação. Tenho a sensação que souberam das nossas diligências, e foi tudo encenado. Mas onde raio estarão as escutas? Bom, temos de nos alimentar. Vou preparar o jantar. Estou a pensar num bacalhau no forno com migas.
-Eu trato disso, Joaquim. Aliás, com toda a modéstia, migas é umas das minhas especialidades. Herança da minha mãe, que tinha uma costela alentejana, e que deliciava o Damião
A noite já ia velha e JCorreia esperava em vão pela vinda do sono. Rosalinda dormia a bom dormir. A prisão de Damião parecia não a ter afectado. O detective continuava a olhar para a foto de Idalina quando se cruzava com a cigana. Judite, a sua gata, dormitava aos seus pés, indiferente às preocupações do seu dono. Este olhou-a e invejou-lhe a vida simples e despreocupada. “Sabes judite, acho que estou metido numa grande alhada, mas também sei que não me podes ajudar. Se ao menos me desses um sinalzinho, com o teu instinto de gata, sobre o local onde está colocada a “escuta” fazia-te uma estátua. Mas hei-de descobrir.
Aquele estranho contacto da sua cliente com a cigana, fê-lo lembrar-se de uma outra cigana, Zaira que lhe previa o futuro, quando com o seu avô Baltazar Correia, ia à feira anual da sede do concelho. “O menino vai ser um bom "homem”. Ao seu avô e à sua avó, Beatriz Cavaca, não lia o futuro porque já não o  tinham. Falava do seu passado, desde a mais tenra idade. “Como é que raio a cigana sabe de coisas que nunca contei a ninguém”.
Joaquim viu-se recuar no tempo até 5 de Outubro de 1910, onde o seu avô, um jovem de doze anos, estava com outros jovens do seu tempo, a ouvir o senhor Joãozinho, proprietário rural, comerciante e republicano, a falar-lhes de uma revolução em Lisboa ,que pusera fim à monarquia, que agonizava depois do assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe . Manuel que herdara o trono impreparado para a função, tinha sido derrubado e partira para o exílio. O dirigente republicano José Relvas proclamou a República, nos Paços do Concelho. “Um futuro melhor se abrirá para vocês, e para o nosso povo “dizia-lhes o senhor Joãozinho
Comeram e beberam até à saciedade e a seguir partiram pelas ruas da aldeia a gritar vivas à República, como pedira o senhor Joãozinho. "Amanhã voltem para receber umas prendinhas e ver o que vamos fazer com a “padralhada” que juntamente com a monarquia são o mal deste país".
-Entrem rapazes, disse o senhor Joãozinho, estiveram muito bem, pela República. Hoje vamos dar mais um passo. Vão até junto da casa do padre Pinto, e dizer “fora os padres”. E não digam que eu vos mandei, porque a minha mulher é muito devota, mas acabará por se acostumar.
-Senhor Joãozinho disse Baltazar, não é preciso. O senhor padre Pinto já se foi embora, pois receava pela sua vida.
-Como soubestes?
-Esqueceu-se que o meu avô é o sacristão. Com a minha ajuda, enrolamos as patas de uma mula, para não fazer barulho, e o senhor padre Pinto partiu ao início da noite. Já está longe. Eu também não gosto de padres, embora fosse criado na sacristia, onde comia as hóstias com o meu primo Serafim, às escondidas. Claro que não estavam consagradas. E também sou republicano.
-Muito bem Baltazar. O problema resolveu-se por si. Como representante da República nesta terra tinha de tomar medidas.

JCorreia abriu os olhos, encandeados por uma réstia de sol matinal que entrava pela janela. ou pelo ruído vindo da cozinha. Levantou-se, como saído de um sonho, e viu Rosalinda a colocar na mesa o pequeno almoço.
-Ó Rosalinda, és minha secretária e não cozinheira. Aquele bacalhau envolvido em presunto numa cama de cebola, acompanhado de migas com feijão preto, estava divino, mas não é essa a tua função.
-Fiz com muito gosto. Gosto de cozinhar e é que faço todos os dias. Mas se fazes questão, na próxima é a tua vez.
-Combinado. Depois  do pequeno almoço, vamos trabalhar no caso do marido desaparecido. Primeiro passamos pelo porto para falar com estivadores, e a seguir tentamos descobrir a cigana da fotografia.
Continua



Título: Re: A Gata dos Telhados XV
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 25, 2020, 08:24:06
Adiante...


Título: A Gata dos Telhados XVI
Enviado por: Nação Valente em Agosto 30, 2020, 19:17:01
 XVI

Estou…diz Rosalinda…já vou para aí. Tenho novidades. Descobri o microfone.
Tenho que sair. Depois vamos ter uma grande conversa, Judite.


Na esplanada da pastelaria Suíça enquanto debicavam um bitoque com  molho de café. JCorreia e Rosalinda observavam a entrada do metropolitano para ver se  havia rasto da cigana. Rasto talvez houvesse, o que não havia era cigana. Mas havia um saboroso bitoque com molho de café. Entre uma e outra garfada, e um e outro gole de imperial, o detective que parecia ter renascido, pelos últimos acontecimentos, elogiava Rosalinda pela sua colaboração, nos casos, nada fáceis , que tinham em mãos.
-Estou contente pelo teu empenho, disse, e mais que por isso, por te ver com uma alegria que não era habitual. Ao contrário dos que dizem que mudamos a realidade, acredito que muitas vezes é ela que nos muda a nós. Nunca imaginei que estaríamos aqui a degustar um tradicional bitoque à pala de uma misteriosa cigana.

-Tenho a mesma sensação. Trabalhar, voltar a casa para a rotina das tarefas domésticas, sujeita aos humores do Damião, dormir à espera de mais do mesmo, era o meu dia a dia. Hoje, tenho esperança, que esteja a chegar, o meu 25 de Abril. Sei que não sou investigadora policial, mas senti-me  confortável a seguir a Idalina, e a descobrir que esta, se encontrou discretamente com o suposto desaparecido marido.
-Não te menorizes Rosalinda, estás a fazer um bom trabalho. Acho que, neste momento, somos uma equipa, cada vez mais unida pelo misterioso caso da Gata dos Telhados, que me parece, relacionada, com o caso do marido desaparecido. Pelo primeira vez desde a minha aposentação, parece-me que voltei a ser polícia. Quando descobri que o sistema de escuta estava na coleira da Judite percebi que esta não se cruzou comigo por acaso. Alguém me anda a espiar, de tal modo, que nem sei se sou investigador ou vítima.
-E agora o que fazemos?
-Vamos manter tudo como está. Não desligo o sistema, e faço de conta que nada sei, o que nos vai ajudar a dar mais uns passos na investigação.
Parece-me correcto Joaquim. Já despachamos o almoço, e da nossa cigana, nem sombra.

É verdade. Quando se fala em cigana, lembro-me da Zaira, que todos os anos encontrava  na feira da minha infância. “Cigana sabe tudo, senhor”. O meu avô franzia o sobrolho, mas achava graça à Zaira e deixava-a fazer as sua previsões. Embora não acreditasse nessas coisas, tinha a ideia, que fazia parte do pacote da feira. E sem a cigana a feira não ficava completa. Numa dessas adivinhações, lembro-me de ter dito, “esta família vai está ligada a três guerras. O senhor Baltazar foi o primeiro, o seu filho o segundo, e o seu neto será o terceiro, numa guerra muito mais distante. Mas não se assuste menino, porque vai voltar são e salvo. A Zaira não mente. Por acaso ou não, acertou. E se o meu avô tinha estado na Primeira Grande Guerra, e o meu pai na Guerra Cívil de Espanha na fase final, eu só viria a cumprir esse desígnio na Guerra Colonial.
Eu sei –disse Rosalinda, que saboreava um bolo de bolacha-que desde 1961 e até 1974, esse era destino dos jovens deste país, mesmo que não estivesse traçado nas linhas da mão. O irmão da minha mãe, também abandonado pelo meu avô, e o familiar com quem mais convivia, emigrou para França para que o seu filho não fosse para essa guerra. Foi e nunca mais voltou, como uma árvore a quem tinham cortado as raízes.

Tal e qual Rosalinda, muitos portugueses partiram para o exílio para fugirem a um conflito que não devia ter acontecido. Treze anos de uma inutilidade, até porque a solução só podia ser política. O meu pai também emigrou, mas eu fiquei, e cumpri o serviço militar obrigatório. Na Guiné consumiram-se dinheiro e vidas. Enquanto lá estive vi, muitas vezes, a morte perto. Perdi camaradas, fui ferido sem gravidade e estive hospitalizado. Aí conheci a outra dimensão da guerra: a loucura.

Quando estive internado no Hospital Militar de Bissau, para ser operado a uma perna atingida por estilhaços de minas, conheci o Alfredo, um farrapo humano, protagonista de uma história trágico-cómica. O Alfredo foi internado com uma depressão profunda. Era um jovem do Alentejo, que apenas queria que o tempo passasse depressa, para voltar para a sua aldeia, onde juntaria os trapinhos com a Ludovina, cujo nome ostentava orgulhoso, gravado a tinta, no braço direito. Mantinha com Ludovina correspondência regular através de aerogramas. Como não sabia ler quem lhe lia e escrevia as cartas, era um alferes da sua Companhia. As cartas foram diminuindo até que deixaram de chegar. O alferes notara que aquela relação iria terminar, mas ocultava a verdade para não angustiar o Alfredo. Um dia, chegou uma carta da sua mãe a dizer-lhe para esquecer Ludovina, pois não o merecia. Juntara-se com outro. O alferes não pôde esconder o sucedido. Alfredo ficou descompensado, e tentou matar o alferes. Teve de ser imobilizado e internado. Procurou, por vários processos, apagar o nome da namorada do seu braço, mas não resultou. Tinha de estar sedado. Num período de maior lucidez disse-me “eu não consigo viver com o nome de uma puta gravado no meu braço”. E não viveu. Numa fase em que parecia ter melhorado, conseguiu enforcar-se. Desculpa Rosalinda. São assuntos de que evito falar. Costumo abordá-los com a Judite, que ouve, mas que decerto que não entende português. As palavras são como as cerejas. O que a lembrança da cigana me fez recordar. E afinal parece que  da cigana que procuramos, nem sombra. Recebi uma mensagem. Será ela?
    

 Bom dia,
Chamo-me Laura de Castro, sou advogada. Soube da prisão do senhor Damião, no porto de Lisboa. Precisava de falar consigo. Quando me pode receber?

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XV
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 30, 2020, 20:40:56
....A conversa é mesmo como as cerejas. E, com que então,  Joaquim passou de caçador a caça...


Título: Re: A Gata dos Telhados XV
Enviado por: carlossoares em Agosto 30, 2020, 22:04:35
Daqui a uns anos, o valor destes textos será incomensurável. Parabéns! Continue. Isto é obra.


Título: Re: A Gata dos Telhados XVI
Enviado por: Nação Valente em Agosto 30, 2020, 23:05:12
....A conversa é mesmo como as cerejas. E, com que então,  Joaquim passou de caçador a caça...


Título: Re: A Gata dos Telhados XV
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 31, 2020, 21:45:25
Pois...


Título: A GATA dos TELHADOS XIX
Enviado por: Nação Valente em Setembro 03, 2020, 20:37:00
XVIII
     Bom dia,
Chamo-me Laura de Castro, sou advogada. Soube da prisão do senhor Damião. Precisava de falar consigo. Quando me pode receber?

Laura de Castro deixou o detective de boca aberta. Nem alta, nem baixa, na medida certa, na sua perspectiva, já que nesse conceito, como em muitos outros, não existe bitola única. Viu-a   mais como uma daquelas belezas que fazem capa de revista, do que como advogada, sem desprimor para a beleza das mesmas, que também as há. Mas o que mais o atraiu, foram  os olhos, de um castanho claro e de um brilho, que hipnotizava. Uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo reconfortante, deixou-o quase sem reacção. Pensou que se tivesse tido uma filha, era assim que a imaginava. Procurou retomar a naturalidade, e disse-lhe para entrar e para se sentar. Chamou Rosalinda que apresentou como sua secretária.
-Então a que devemos a honra da sua visita, senhora doutora Laura?

-Muito obrigado por me ter recebido senhor detective. Venho em representação de uma cliente que partilhamos, e que o senhor conhece como Gata dos Telhados.
Gata dos Telhados? Nem sei se lhe posso chamar cliente. Não sei quem é, nem o que pretende. Até agora, parece-me mais fantasma, que gente deste mundo. O certo é que desde que aceite o caso, ou não caso, parece que ando rodeado de almas penadas, salvo seja.
-Garanto-lhe que essa cliente existe e a prova é que aqui estou a seu pedido. Será que me considera um fantasma detective Correia?
-Claro que não doutora Laura, mais que não seja porque mostra sentido de humor…mas podemos fazer a prova. Aceita um café? Confirma que tem substância física.
-Um café é uma bebida que não consigo recusar.
-Eu trato disso, disse Rosalinda, deslocando-se para a cozinha, de onde apareceu, pouco depois, com três chávenas de café.

-Ora bem, então vou-lhe transmitir a proposta que trago da minha cliente. Ela disponibilizou-me para fazer a defesa do senhor Damião, marido da sua secretária, sem quaisquer honorários, se estiverem de acordo.
-Doutora, há uma coisa que me intriga. A nossa cliente, mostra estar bem informada, dos últimos acontecimentos a que a Rosalinda está ligada. Tem poderes "advinhatórios" ou anda a espiar-nos?
Nem uma coisa nem outra. A Gata dos Telhados, por enquanto chamemos-lhe assim, antes de contratar os seus serviços, procurou informar-se  da competência de quem precisava de contratar, o que é normal, não acha?  A propósito ainda não vi o outro membro da família, a Judite.
-A Judite? Bem …não sei a que família pertence…talvez uma infiltrada…Rosalinda o que acha da proposta da senhora advogada?

-Não precisam de responder já. A nossa cliente interessou-se pelo Damião. E ironia das ironias, ela também teve um passado de consumo e de pequeno tráfico. Desceu aos infernos da loucura. Tudo começou quando o marido a deixou com uma criança para nascer. Acusou-a de adultério e de não ser o pai, porque sabia que era infértil. Resquícios de papeira na juventude. Procurou sobreviver sozinha mas não foi fácil. Para conseguir pagar as despesas, começou a vender o corpo. Uma mão lava a outra e da prostituição ao consumo de drogas, ou vice-versa ,há um pequeno passo. Começou por consumir marijuana e acabou em produtos mais pesados, com haxixe.

Em 1983 assistiu ao assassinato de uma amiga que a ajudou na fase mais difícil da sua vida. Foi uma das vítimas no processo que ficou conhecido como o “estripador de Lisboa”. Nunca superou essa situação, ainda hoje tem pesadelos, e é muito crítica em relação  à investigação deste processo, até porque não existem crimes perfeitos. Algo falhou. A Gata dos Telhados, depois desses crimes, teve força para se superar. Fez tratamentos de recuperação e reorganizou a sua vida. Mas tem contas a ajustar com o passado. O processo prescreveu em 2008, mas tem a convicção que o assassino está vivo. E que por falta de meios que não existiam e por incapacidades diversas, e decisões incompreensíveis, como a substituição do primeiro coordenador do caso, já não pode ser acusado. No entanto, ainda não desistiu de esclarecer a situação em nome das vítimas e dos seus descendentes.

JCorreia ouviu-a atentamente. Também esteve na equipa que iniciou a investigação, e sempre sentiu alguma frustração por não ter continuado. Olhou para Laura e desabafou:
-O caso do “estripador”, não foi resolvido pela PJ, como não foram outros idênticos, noutros países. Foi uma investigação complexa onde o criminoso não deixou provas evidentes. Mas também penso que se podia ter ido mais além. Portanto, pode contar com a minha colaboração. Quanto à defesa do Damião se a Rosalinda concordar, pode assumi-la.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XVIII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Setembro 03, 2020, 22:31:26
 :fixe:


Título: Re: A Gata dos Telhados XIX
Enviado por: Nação Valente em Setembro 06, 2020, 20:41:02
XIX
-O caso do “estripador” não foi resolvido pela PJ, como não foram outros idênticos, noutros países. Foi uma investigação complexa onde o criminoso não deixou provas evidentes. Mas também penso que se podia ter ido mais além. Portanto, pode contar com a minha colaboração. Quanto à defesa do Damião se a Rosalinda concordar, pode assumir a sua defesa.

Laura Castro despediu-se reforçando a sua disponibilidade para defender Damião. JCorreia olhou para Rosalinda, à espera de uma opinião.
-Ainda estou na fase da surpresa, disse, para já penso que devíamos   recolher mais informações sobre a senhora advogada.
-Tens razão. Vou falar com um amigo da Ordem dos Advogados, para comprovar se a dita advogada faz parte da mesma, e se merece confiança. Nas primeiras impressões parece-me que está de boa fé, embora não consiga perceber, o que pretende a dita Gata dos Telhados, e ainda menos no que nos está a envolver. Um caso bicudo, com muitos bicos. Até parece que vivemos dentro de um romance, e somos marionetas de um autor alucinado.

Rosalinda saiu para fazer compras. JCorreia sentou-se na sua chaise longue. Precisava daquele isolamento. A catadupa de acontecimentos tinham mudado a sua vida rotineira de detective privado de casos passionais. O silêncio funcionava como uma droga para um dependente. O reavivar da história das prostitutas esventradas, que escondera num recanto escuso da memória e fechara a sete chaves, entrara de rompante na sua vida como uma tempestade inesperada. Como polícia habituara-se a lidar com o lado obscuro da vida, homicídios, mortes por overdose, e tanto quanto possível habituara-se a viver com isso, com naturalidade. Mas a imagem daquelas mulheres, expurgadas dos seus órgãos internos, sempre lhe causara uma sensação e enjoo. Interrogara-se e interrogava-se como era possível haver um ser humano capaz de cometer tal atrocidade. Na altura quebrou psiquicamente, e a imagem  perseguiu-o durante meses, tirando-lhe o sono ou causando-lhe pesadelos. O reacendimento dessas memórias, fê-lo infringir os conselhos médicos de tolerância zero à bebida e ao tabaco. Bebeu um copo de wisque e acendeu um charuto. Entre uma outra fumarada, conseguiu relaxar, e refugiar-se num tempo em que fora feliz e não sabia. A gata Judite aproximou-se a ronronar, mas JCorreia ignorou-a. Já estava noutra dimensão.

Corria o ano de 1973, quando um dos seu companheiros de hospedaria, o Carlitos, o convidou para o transportar à sua terra de nascimento, onde ia realizar-se o casamento do seu irmão. Joaquim Correia era o único que tinha automóvel, entre os seus amigos, e percebeu que o Carlitos o queria contratar como motorista e transportador privado. Não lhe desagradou a ideia. Não tinha nada de especial para fazer e iria conhecer uma região do país, lá para os lados de Freixo de Espada à Cinta. Olhou para o Carlitos e disse-lhe:
-Vou ser sincero. Teria muito gosto  em ir, mas não posso. Como sabes mudei de trabalho, e estou a passar um mau bocado. Indo directamente ao assunto, depois de pagar a mensalidade do alojamento, fiquei com vinte e cinco tostões no bolso.
-Não há problema Quim. Eu pago-te o combustível, e pago-te a alimentação durante as viagens. Na aldeia vivemos à conta dos velhotes.

Partiram numa sexta-feira de manhã em direcção a Coimbra. Almoçaram numa cervejaria e continuaram subindo e descendo serras, por estradas de um país pobre e subdesenvolvido. Estava o dia a despedir-se quando chegaram à aldeia do Carlitos.
Na pacatez daquele lugar descrito nos romances de Camilo, de Eça, ou de Júlio Dinis, Joaquim viu um reflexo da sua terra. A pequena agricultura como modo de vida. A saída dos mais jovens para zonas mais industrializadas e para a emigração. A população rural que começava a envelhecer, como o pai do Carlitos. Joaquim apenas notou uma diferença em relação à sua região. A habitação, em granito, tinha dois pisos. No piso inferior acomodavam-se os animais, e no piso superior viviam as pessoas.
Os pais do Carlitos, pessoas simples, e cujo primeiro filho com vinte e dois anos ia casar, acharam estranho que Joaquim quase trintão, ainda estivesse solteiro, a caminho de ser solteirão, pelos padrões daquela comunidade. E como gente solidária procuraram logo ali arranjar-lhe casamento.
-Senhor Joaquim, disse a mãe do Carlitos, o meu compadre, sapateiro e comerciante, um dos homens mais importantes da terra, tem duas filhas casadoiras, que andam a estudar para professoras primárias. Vá lá ver de uma delas.

Joaquim, com ou sem vontade, teve de ir quando o Carlitos foi visitar o sapateiro que era seu padrinho. E lá estavam as ditas moças casadoiras, mas falaram sobretudo com o pai, um bom vivente, que duas vezes por semana transportava produtos agrícolas para Lisboa. Bom conversador, entre duas marteladas na sola, falou das suas viagens, dos locais que visitava, e como bom macho latino, até de algumas aventuras, quando a mulher e as filhas, que iam ser professoras, não estavam presentes.
-Então senhor Joaquim já viu da filha do meu compadre?
Joaquim, balbuciava, desviava o assunto, e pensava “mas como raio é que um pelintra perdido nas azinhagas da vida, sem rumo definido, e com vinte e cinco tostões no bolso, que nem dão para comprar uma rosa para lhe abrir a porta do coração, pode interessar-se pelas filhas do sapateiro andante”.

No dia da boda, juntaram-se os convidados na igreja para a cerimónia religiosa, que foi breve, seguindo depois para o repasto servido pelos padrinhos, numa sala da sociedade recreativa. Quando os noivos partiram para a sua lua-de-mel, Joaquim, sentado ao lado de Carlitos, notou que outras mocinhas, naturalmente casadoiras, cochichavam e riam, enquanto lhe dirigiam olhares furtivos. Foi nessa altura que Joaquim lhe pareceu ter os bolsos do seu casaco creme e apropriado à estação. Meteu a mão no bolso, sentiu uma coisa pegajosa, e tirou restos de frango. Risada geral. Veio-lhe à memória o rei D. João VI, que andava com os bolsos da casaca de seda cheios de pedaços de frango, e que comia mesmo durante encontros diplomáticos.
-Então Joaquim, estás a guardar mantimentos, para a viagem, observou Carlitos
Joaquim fez um sorriso sem cor, ao mesmo tempo que pensava. Esta mocidade feminina deve saber que só tenho vinte e cinco tostões no bolso, e quer alimentar-me”.

Antes de regressarem, e na despedida, a mãe do Carlitos, voltou a dizer:
-Senhor Joaquim , não viu da filha do sapateiro, mas veja lá de uma mulher.
Haveria de ver, mas não era assim tão moça, e muito menos casadoira.
Rosalinda regressou com as compras. Estava a anoitecer. Abriu a porta e apenas escuridão e silêncio. JCorreia, dormia a bom dormir, com um charuto apagado na boca.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XIX
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Setembro 06, 2020, 20:51:55
As memórias são como as cerejas. Pena que às vezes só nos sem dos bolsos memórias podres...


Boa continuação


Título: Re: A Gata dos Telhados XXIII
Enviado por: Nação Valente em Setembro 12, 2020, 18:50:00
XX
Rosalinda regressou com as compras. Estava a anoitecer. Abriu a porta e apenas escuridão e silêncio. JCorreia, dormia a bom dormir, com um charuto apagado na boca. Rosalinda preparou uma refeição frugal à base de saladas. Tinha entrado na casa dos cinquenta. Começava a preocupar-se com a linha.
Acordou cedo. JCorreia continuava a dormir. Parecia estar a recuperar de insónias acumuladas. Resolveu sair para continuar as investigações em curso. Não lhe fora atribuída essa tarefa, mas desde que Damião, o marido, fora preso, que parecia ter renascido. Liberta dos deveres domésticos e da clausura marital, estava a ganhar asas para novos voos. Começara a ganhar gosto pela investigação policial e queria deixar de ser uma rotineira secretária.
Dirigiu-se para a seguradora onde trabalhava o marido de Idalina. Perguntou se Ernesto tinha regressado ao trabalho, pois era o seu agente se seguros. A resposta foi taxativa. “Desapareceu sem ter dado qualquer justificação. A sua companheira informou que também não sabia qual era o seu paradeiro”. Para a empresa era caso encerrado. Não fazia parte dos seus quadros por abandono de posto de trabalho. Rosalinda tinha-o avistado, junto à estação do metropolitano de Avalade, no dia em que seguia a sua mulher. Que papel desempenharia neste caso? Decerto que não seria um joker!
Rosalinda subiu até ao largo de Camões e desceu até meio da rua do Alecrim. Procurou um local onde pudesse observar entradas e saídas da empresa Figueira & Laranjeira, impor/export. Ao fim de cerca de uma hora viu sair Idalina com um embrulho na mão. Desceu a rua até à estação do Cais Sodré, onde entrou. Cruzou-se com um homem a quem entregou o embrulho que transportava e seguiu o seu caminho. Este dirigiu-se para o cais e entrou num comboio que ia partir. Durante uns fugazes segundos viu-lhe a cara. Não havia dúvida, tratava-se do dito marido desaparecido. Rosalinda sentiu-se confortada. A investigação estava a fazer progressos. Uma facto estava comprovado, Idalina tinha programado o seu desaparecimento, como para negar a sua existência. Pensou que Joaquim Correia iria ficar satisfeito.
JCorreia adormeceu com o dia e com ele acordou. Durante as longas horas de sono perdeu um pouco a noção da realidade e achou estranho o ambiente envolvente. Ainda continuava nos anos setenta, na sequência da viagem a Freixo-de Espada-à-Cinta, com o Carlitos. Na sua mente persistia o dia do regresso. A sua vida dera um novo passo. Abamdonara o trabalho precário de vendedor de livros e estava a tirar o curso para ingressar no metropolitano como maquinista. Iria fazer parte dos quadros da empresa, com uma situação mais estável, o que também teve reflexos no seu estado de espírito.
Ao entrar no restaurante onde costumava jantar, viu a actriz Irene, sua vizinha, sentada snuma mesa, sem acompanhante. Com o restaurante cheio, perdeu a vergonha, e perguntou-lhe se se podia sentar. Irene sorriu e disse que sim. Foi o início de uma relação amorosa, livre e sem compromissos. Irene era liberal na política e nos costumes. Tirava o melhor que podia de cada momento. Não lhe interessava qualquer compromisso sério, queria manter a sua independência e a sua liberdade. Para Joaquim Correia foi um período de aprendizagem sobre o mundo do espectáculo. Para além das aparências, apenas uma grande devoção à profissão mantinha muitos deles nessas actividades. Trabalho sempre precário, geralmente mal remunerado. Com excepção de alguns nomes mais famosos, a maioria dos artistas, vivia no limiar da sobrevivência. Joaquim que, em tempos, fora atraído pelas luzes da ribalta, e até fizera um perninha no teatro amador, percebeu essa realidade que estava para além da fantasia. Mas a relação com Irene foi um momento importante que apesar dos altos e baixos, deixou marcas na sua vida. Boa recordação de um tempo ao qual não se importava de voltar.
A campainha do telemóvel, trouxe-o de volta à realidade, como despertador que nos acorda para um novo dia, que de novo apenas tem um número no calendário.
-Alô, fala Rosalinda.
-Rosalinda? Mas por onde andas? Parece que não te ouço há uma eternidade. E muito menos te reconheço, nesse linguajar abrasileirado. Andas a ver muitas novelas?
-Nem por isso. Enquanto dormes eu trabalho, como me compete,-disse -procurando introduzir na conversa alguma ironia.
-Devo estar dentro de um sonho És mesmo a Rosalinda? Na investigação? Não me lembro de te dar nenhuma tarefa.
-Sou a mesma, sendo outra. Acordei cedo, estavas a dormir, e resolvi avançar. Tenho novidades. E vê lá se regressas à real. Toma um banho gelado.
-Caramba Rosalinda, mas que se passa. Deu-te para filosofar? E queres ocupar o meu lugar? Isto parece um golpe de “estado”
-Ora,ora, nunca quis o que não me pertence. . Mas a sério, temos que falar. Porque não vens até ao cais Sodré. Há por aqui sítios simpáticos para almoçar.
-Combinado. Vou tomar um banho para ver se saio do estado catatónico.
JCorreia levantou-se. Sentia a cabeça pesada, e custou-lhe arrastar-se para a banheira. O estômago clamava por um antiácido. Quando a água quente começou a acariciar-lhe a pele, percebeu porque razão nunca tinha casado. Uma das razões era não ter de andar a toque de caixa de uma mulher, que era o que lhe estava a acontecer. Saiu do banho mais aliviado. Dirigia-se para a cozinha quando o telemóvel voltou a tocar. Atendeu. Uma voz que parecia vir do fundo de um poço disse-lhe. “Tome atenção e registe. Tenho informações sobre a Idalina que o irão surpreender. Se não quiser ouvir, desligue. Se estiver interessado, ouça sem interrupções”.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XX
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 12, 2020, 19:52:20
E  ouviu ou desligou? rsrsrs


Título: Re: A Gata dos Telhados XX
Enviado por: margarida em Setembro 12, 2020, 20:21:04
Saudades destas estórias ;)


Título: Re: A Gata dos Telhados XXI
Enviado por: Nação Valente em Setembro 12, 2020, 20:59:51
Goreti, não sei. Quem sabe é o JCorreia, se é que sabe. M
Margarida, também pode ler o "O rapaz do isqueiro assassino" de Gabriela de Sá.


Título: Re: A Gata dos Telhados XX
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 18, 2020, 14:07:54
Sem cansaços de maior (teus, não da personagem), siga! Mais de 1300 leituras valem isso!


Título: Re: A Gata dos Telhados XXI
Enviado por: Nação Valente em Setembro 19, 2020, 19:50:12
XXI

JCorreia dirigia-se para a cozinha quando o telemóvel voltou a tocar. Atendeu. Uma voz que parecia vir do fundo de um poço, disse: “Tome atenção e registe. Tenho informações sobre a Idalina que o irão surpreender. Se não quiser ouvir desligue. Se estiver interessado, ouça sem interrupções”.

Jcorreia clicou no botão desligar. Viera de outro tempo. O que mais o assustava era ser comandado pela tecnologia. E enquanto tivesse poder sobre ela, iria exercê-lo. Decerto que a utilizaria para falar com o Doutor Carlos Madeira, da Ordem dos Advogados. Conheceu-o quando frequentou a Faculdade de Direito, que abandonou precocemente. Seguiram caminhos diferentes, mas mantiveram a amizade cimentada nesses tempos. Precisava de informações sobre a doutora Laura, e Madeira era a pessoa indicada. Com o telemóvel amordaçado, entrou na cozinha. Preparou e bebeu um chá digestivo para acalmar a ressaca. A luz do sol matinal que lhe entrara portas adentro, como sempre fazia, causava-lhe tonturas. Fechou cortinas e sentou-se. A criação do detective  JCorreia para ocupar a disponibilidade  depois da aposentação, estava a arrastá-lo para um pesadelo. Pensou que mais valia ter ocupado o tempo a escrever as suas memórias, ou quiçá, romances policiais. Material não lhe faltava. Mas lia poetas e prosadores e chegava à conclusão que não tinha unhas para tal guitarra. Escasseavam-lhe as metáforas, não era bem recebido por figuras de estilo. Por isso, quis continuar a ser polícia.
 O mais curioso é que ser polícia nunca fora um sonho. Como em muitas outras coisas do seu percurso, aconteceu por acaso. Apareceu a oportunidade, sentiu que era mais uma rua que se abria e que não se importava de percorrer. Concorreu, foi admitido, fez a formação, e viu-se polícia. Às vezes, pensava que estava no seu ADN. O seu pai fora transitoriamente Guarda Fiscal e o seu avô Guarda Republicano. Parecia estar no destino da família.
O seu avô, Baltazar Correia, entrara para a GNR depois de ter terminado a Primeira Guerra Mundial. Mobilizado em 1916, para fazer parte do Corpo Expedicionário Português, que ia combater para a Flandres, ainda pensou desertar. Para tal contribuiu um oficial antiguerrista da sua unidade militar. Quando foi à terra, de licença, com o seu amigo de infância, Baltazar ponderou essa possibilidade. Tinham nascido no mesmo dia, eram companheiros inseparáveis , quase irmãos, e até namoravam duas irmãs gémeas. Na véspera do regresso ao quatel o seu amigo foi perentório.
-Baltazar, já decidiste se voltas? Eu não vou voltar até terminar a maldita guerra.
-Até aquele dia sempre tinham chegado a acordo sobre o que fazer. Baltazar, olhou-o nos olhos com tristeza e disse:
-Amigo, sou republicano desde que me conheço. Se o governo da República decidiu ir para a guerra para defender os nossos interesses, estarei presente. Amanhã sozinho ou acompanhado regresso ao quartel.
 
Baltazar fez pela primeira vez a viagem até ao aquartelamento sem a companhia de Gaspar. Uma viagem a pé subindo e descendo montes, que lhe pareceu mais longa que o habitual, talvez por a fazer  sozinho. Durante o trajecto assaltava-o uma dúvida: quem estava a ser mais corajoso? Ele que ia para uma guerra, ou Gaspar que se assumira como desertor? A solidão que se lhe colava à pele  iria acompanhá-lo nos anos seguintes.

 O seu regimento ter partido para Tancos a fim de fazer a preparação militar adequada aquele conflito. A viagem para França iniciou-se com o embarque no cais de Alcântara em 23 de Abril, de 1917,e terminou com a chegada à frente de combate, após uma nova formação militar na Flandres, para adaptação à guerra de trincheiras. Foi um período muito complicado. A longa viagem, a falta de organização do exército, a adaptação a um clima chuvoso e muito frio.
Para quem vinha de um país de clima ameno, aquele frio que gelava corpo e alma, levava-o a pensar que talvez o inferno fosse melhor. Com o tempo, iria perceber, que o inferno só podia ser ali. A primeira experiência na linha da frente foi difícil. As trincheiras do sector entregue aos portugueses não podiam ter mais de um metro de profundidade, por se situarem num terreno pantanoso, tendo de ser completadas com sacos de terra na superfície. O espaço era exíguo, lamacento, silencioso. Era preciso estar sempre atento ao inimigo. A pressão física e psicológica era constante. Baltazar que nascera e vivera numa aldeia, e estava habituado a condições de vida duras, teve momentos de desânimo. Ir à terra de ninguém e ver restos de corpos, agoniava-o. Piolhos, pulgas, ratos, estavam sempre presentes. Baltazar nunca se esqueceu do poema musicado, “O piolho do soldado” que se cantava na frente. Joaquim lembra-se de o ouvir repeti-lo, de vez em quando, cantarolando uma ou outra estrofe:

O piolho lá na frente
Acompanha toda a gente,
É deveras um guerreiro
Quando sente o alemão
Ferra logo o seu ferrão
E põe alerta o seu dono.

JCorreia sentia-se um pouco perdido. Interrogou-se se teria seguido o caminho certo, tal como o seu avô o seguira, quando decidiu ir combater contra os alemães em 1916. A gata Judite apareceu como vinda do nada, e distraiu-o das suas reflexões.
-Por aqui Judite? Apareces e desapareces quando te apetece, e decerto que não te angustias. Andas a espiar-me? Uma coisa te digo, não vais conseguir captar os meus pensamentos. Que sabes tu das guerras dos humanos? Escaramuças entre gatos comparadas com isso, são brincadeiras. Adiante. Tenho de ir ter com a Rosalinda. Já estou atrasado. Mas antes de ir vou dar de beber à dor. Apenas dois goles de “visque” para ganhar coragem. Tu não viste nada.

Rosalinda estava à sua espera numa pastelaria com vista para o rio. Enquanto aguardava por JCorreia, apreciava o movimento dos barcos a subir e a descer. Este avisara-a que chegaria depois do almoço. Entrou e viu-a a folhear um jornal enquanto bebia o café. Sentou-se. Uma menina com um ar muito jovem perguntou:
-O que vai pedir
-Quero uma meiga de leite, respondeu.
-Não devo ter ouvido bem...é uma meia de leite?
-Não. Uma meiga de leite, insistiu.
-Não sei o que é?
-Não sabe? Está mesmo à minha frente, novinha e meiga. Há lá coisa mais saborosa que uma meiga de leite, para levantar o ânimo, a um quase ancião. Com respeito e boas intenções.
A jovem corou ligeiramente, sorriu e disse:
-Estou a trabalhar, e não costumo brincar em serviço. Só depois de sair.
-Não ligue-disse Rosalinda-traga a meia de leite.
A moça afastou-se. Rosalinda falou:
-Que se passa Joaquim? Não te reconheço. Não te conhecia esta faceta. A galantear jovenzinhas? Ainda te acusam de assédio.
-Espantas-me Rosalinda. Até parece que tens ciúmes. Será por o trambolho do teu marido estar engavetado?
-Voltastes a beber, Joaquim? Só pode,
-Admito, e não posso. Mas a barra está a ser pesada. Deixa-me disparatar. Se me encontrares com um copo de liquido amarelo, tens campo livre para me dares uma chapada. Mas afinal, quais são as novidades?
Rosalinda, contou-lhe o que tinha descoberto quando seguiu Idalina, a cliente do caso do marido desaparecido. JCorreia, ouviu-a com toda a atenção, e respondeu.
-Fizeste um bom trabalho. No entanto, considero que estamos a seguir uma pista falsa. Esse caso parece-me uma manobra de diversão. Vamos concentrar-nos na doutora Laura. Já marquei um encontro com um amigo da Ordem dos Advogados. Depois, se for o caso, voltamos à Idalina.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XXI
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Setembro 19, 2020, 23:02:55
Até parece que anda a ver telenovelas onde há maridos desaparecidos, quiçá, mortos...


Título: Re: A Gata dos Telhados XXI
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 23, 2020, 19:21:27
Pode não ter andado a ver novelas, mas a história dava uma. Bem melhor do que as que tenho visto. São poucas, mas tão más que nem sei se tenho azar ou se é tudo assim.


Título: Re: A Gata dos Telhados XXII
Enviado por: Nação Valente em Setembro 25, 2020, 19:06:35
XXII
-Fizeste um bom trabalho. No entanto, considero que estamos a seguir uma pista falsa. Esse caso parece-me uma manobra de diversão. Vamos concentrar-nos na doutora Laura. Já marquei um encontro com um amigo da Ordem dos Advogados. Depois, se for o caso, voltamos à Idalina. O Carlos Madeira ficou de se encontrar connosco, mais ou menos daqui a meia hora. Vamos esperar.

JCorreia saboreou a meia de leite, trazida pela meiga de leite. Fez silêncio. Concentrou-se no rio e nos barcos, pequenos, grandes, médios, que sulcavam as suas águas. Rosalinda percebeu que o seu primo detective se refugiara na nostalgia que aquele curso de água lhe causava.
-Olá Joaquim, ainda cá estás? -  disse Rosalinda
-Estou e não estou. Quando olho para o Tejo, tenho a sensação que estou a viajar, por desvairados espaços e tempos. Já pensaste, Rosalinda, que segredos  esconde nas suas memórias milenares. Por este rio navegaram povos mediterrânicos, povos vindo do Norte, gentes de muitas religiões e culturas. O Tejo criou esta cidade, acarinhou-a, rejeitou-a, mas nunca a abandonou. Pelas suas águas chegaram comerciantes, guerreiros, invasores. Romanos moldaram Lisboa na fé cristã. Árabes e Berberes adaptaram-na aos ensinamentos do Corão. Cruzados resgataram-na para o cristianismo, no apoio ao fundador da nação. Mas por detrás destas linhas da grande história, quantas estórias da pequena história, dormem neste belo rio. Felizes, dramáticas, trágicas…

-Também me vejo nessa história, qual moura encantada, pelo seu amor a um cristão, disse Rosalinda, procurando seguir o raciocínio de Joaquim, o homem despido das vestes de policial.

-Todos nós, com mais ou menos encantamento, fazemos parte dessa pequena história, que se apagará com o nosso desaparecimento. O que se torna perene são grandes feitos. A partida das caravelas para navegar por mares desconhecidos. O seu regresso com riquezas e gentes de outras latitudes. Mas quem deu corpo a essa gesta foram cidadãos anónimos como nós. Pequenos contributos individuais, num esforço colectivo. Um povo que desde a fundação da nacionalidade esteve ligado ao mar.

-Às tantas o rio também nos observa, - interrompeu Rosalinda, comum  ligeiro sorriso – eu e Damião conhecemo-nos num barco que ia de Belém para a Trafaria, de onde seguíamos para a praia da Costa. Foi uma atracção instantânea.
  
O rio assistiu e continua a assistir – continuou Joaquim sem se se parecer interessar, pelas viagens da Rosalinda. -  Viveu o cerco dos Castelhanos no século XIV, viu partir a corte para o Brasil, assistiu à ida da revoada de jovens para a guerra colonial. Também embarquei em Alcântara para defender os pântanos da Guiné. Ainda vejo os lenços a acenar no cais, enquanto o barco avançava rio abaixo. Tal como o meu avô quando partiu para a Flandres, mas sem lenços na despedida, porque estavam proibidas despedidas. Com o meu avô, antes de ir para a Guiné, tivemos uma longa conversa, onde tentou transmitir-me confiança e ânimo.

“Não costumo falar do assunto, mas como vais para guerra, vou falar da minha experiência. Quando embarquei para França tinha vinte anos. Não sabia se faria a viagem de regresso, se voltaria a ver a família ou a tua avô, com quem namorava e com quem esperava casar. Fomos transportados em barcos ingleses até França. Depois foram vários dias de comboio até à região do rio Lys, onde íamos combater os "boches". Mal preparados e com mau armamento, fomos colocados na frente, encaixados, entre Divisões inglesas. Desde a nossa chegada até ao início do ano de 1918, estivemos nas primeiras linhas, sem substituição. Estávamos seis dias na frente, e seis dias na retaguarda, chamada linha da aldeias para descansar. Na “front” ,como se dizia, o descanso era mínimo. Havia constantes escaramuças.”

-E calculo que a moral, estaria a ser afectada, ou não, avô?

“Sim, as condições que referi, não davam ânimo. Os nossos oficiais tentavam manter a disciplina, o General Tamagnini, comandante do C.E.P. e o General Gomes da Costa, comandante da 2ª Divisão, visitavam a frente e conheciam as condições. Passavam pelas passadeiras de madeira que construímos para não desaparecermos na lama, e sentiram a dificuldade em equilibrar-se naquele piso molhado e escorregadio. Mas a sua capacidade de acção era limitada pela vontade dos políticos que estavam em Lisboa.”

-Os políticos avô, decidem as guerras, mas não as combatem. Um teórico militar alemão, que escreveu um tratado sobre a guerra, sintetizou o seu pensamento numa frase: a guerra é a continuação da política por outros meios. Porra, eu diria que se existe guerra é porque a política falhou, e é incompetente. Nós, a arraia-miúda, é que damos o coiro.

“É verdade Joaquim. Resta-nos tentar sobreviver. Para que servem heróis mortos? Em Janeiro de 1918, os ataques dos boches começaram a aumentar. Os bombardeamentos eram constantes, no nosso sector, talvez por saberem  ser o que estava mais frágil. Foram pedidos reforços, prometidos, que nunca chegaram. Além disso, aguentámos durante meses sem ceder um milímetro. Na dia 8 de Abril, os alemães reforçaram as suas tropas em frente ao nosso sector. No dia 9 de Abril, acordámos com mais um bombardeamento. A pouco e pouco percebemos que era mais violento.”

-Os ingleses sempre desvalorizaram essa batalha. Para eles, avô, a batalha de La Lys, foi apenas um episódio de uma invasão mais ampla. Mas estudos recentes mostram, que que o ataque ao sector português, foi uma estratégia preparada durante meses, com a intenção de ultrapassar o rio Lys. O comando inglês também foi surpreendido.

"O que sei foi o que vivi. Ao nascer do dia, o bombardeamento  continuava. A nossa linha da frente tinha sido destruída. Eu estava lá e sobrevivi. Tivemos de recuar para o que se chamava linha B. Começou então a invasão da infantaria inimiga, em pequenos grupos. Penetraram primeiro pelas nossas laterais, onde os ingleses começaram a recuar. Não se via um palmo à frente do nariz devido ao fumo dos disparos, e a um nevoeiro cerrado. O tempo tinha-se aliado aos "boches". Com o recuo inglês, começámos a ser atacados pela frente e pela retaguarda. As comunicações foram cortadas. Não havia linha de comando. Era cada um por si.  A única informação que chegou à frente, vinda do comando inglês foi: “morrer na linha B”. Depois  de varridos a metralhadora, lutava-se corpo a corpo. O meu pelotão foi passado a baioneta. Sobrevivi com três companheiros. No meio daquela bagunça, devem ter-nos confundido com alemães, até pela cor dos nosso fardamento. Conseguimos recuar até à linha da aldeias, exaustos e sem munições. Senti que a morte andava por ali, mas ignorou-me. E aqui estou. Espero que aconteça o mesmo contigo, mas faz por isso.”

-O avô sobreviveu, mas houve centenas de mortos, e de milhares de prisioneiros. Do lado alemão as baixas ainda foram  maiores. Ao contrário do que conta a história inglesa, a resistência do sector português foi fundamental para que os alemães não chegassem onde pretendiam. E deu tempo aos ingleses para reforçarem a retaguarda.

“Eu sei José. No fim do dia 9 ainda se combatia naquele sector. Os alemães tinham sido treinados, como nós, como máquinas de guerra, e como nós, matavam para não morrer. Fui feito prisioneiro ao anoitecer, mas a batalha continuou nos dias seguintes.”

 Rosalinda reparou num homem que entrou na pastelaria, e estava a olhar para a mesa onde se encontravam. Parecia ter, mais ou menos, a sua idade. Alto e magro, cabelo encaracolado, com a cara semiescondida nuns óculos escuros, podia ser um agente secreto vindo do Norte da Europa. Aproximou-se.

-Boa tarde. Bons olhos te vejam Joaquim. Depreendo que a tua acompanhante seja a Rosalinda.
-Viva-respondeu JCorreia-obrigado por vires. Apresento-te a Rosalinda, ao vivo.
-Muito gosto “senhorita”. O Joaquim já me tinha falado de si, mas excedeu as minhas expectativas. É muito bonita.

Perante o embaraço de Rosalinda, JCorreia interferiu.
-Rosalinda, o meu amigo Carlos, sempre foi um sedutor. Na faculdade nem te conto. E é mais homem de galão bem escuro, que de meiga de leite, mas é um cavalheiro.
-Obrigado, pelo galanteio - respondeu Rosalinda - já recuperada do impacto. E obrigada por se ter interessado pelo assunto do meu marido, fez questão de frisar.
-Quem se interessa por esse caso,-disse Carlos-é a doutora Laura Castro. O meu papel, a pedido do Joaquim, é confirmar que ela é nossa associada, e que exerce  advocacia.

-E que mais podes acrescentar?-perguntou JCorreia
-O que sei é que é uma boa profissional. Foi uma das melhores do seu curso - enfatizou Carlos. Consta que teve uma infância difícil. Foi criada apenas pela mãe, que parece que esteve ligada à prostituição e consumo de drogas, acabando por se reabilitar. A entrada para Direito está relacionada com um desejo da sua mãe. Não sei muito mais. Ela evita falar do passado.
-Obrigado mais uma vez doutor Carlos. Irei aceitar a oferta da doutora Laura para assumir a defesa do Damião.
-Posso fazer-lhe um pedido, Rosalinda? Trate-me apenas por Carlos. Para mais é familiar do Joaquim. Somos amigos há muitos anos. E a propósito quando é que fazemos uma patuscada, extensiva à Rosalinda?
-Havemos de combinar.

Quando Carlos saiu, Joaquim olhou para Rosalinda, e deu uma gargalhada.
Qual é a graça? – disse Rosalinda procurando manter-se calma.
-A graça, Rosalinda , é que parece que arranjaste um pretendente. Se calhar o Damião tem razões para ser ciumento.
-Pretendente ou não, acho-o atrevido e pretensioso. Sou casada, e mesmo que não fosse, não estou em saldo - disse Rosalinda -denotando alguma irritação.

-Claro. Viramos a página.-- concluíu JCorreia, para encerrar o assunto -  Acabei de receber uma mensagem. Diz assim.

Já telefonei e desligou-me a chamada, mas vou dar-lhe a informação. É do seu interesse. Idalina e Ernesto não são casados, nem podem. São irmãos. Viviam juntos e faziam-se  passar por um casal. Agora se era a sério ou a fingir não sei. Talvez lhe interesse descobrir, se não for detective de faz-de-conta.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XXII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Setembro 25, 2020, 20:35:14
Não há aqui um erro histórico?

"Em Janeiro de 2018, os ataques dos boches começaram a aumentar. Os bombardeamentos eram constantes, no nosso sector, talvez por saberem  ser o que estava mais frágil."

Abraço


Título: Re: A Gata dos Telhados XXII
Enviado por: Nação Valente em Setembro 25, 2020, 21:31:49
Existe um erro, e bastante evidente. Só podia ser 1918. Li e reli o texto, e escapou-me. Obrigado pela leitura e pelo aviso. Está contratada para revisora.  :fixe:


Título: Re: A Gata dos Telhados XXII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Setembro 25, 2020, 21:58:25
Abraço...


Título: Re: A Gata dos Telhados XXII
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 26, 2020, 16:37:53
Faz de conta que é detetive? esperemos que não. A menos que mude o rumo à história de forma importante ou necessária.


Título: Re: A Gata dos Telhados XXIII
Enviado por: Nação Valente em Outubro 03, 2020, 19:10:09
XXIII
Já lhe telefonei e desligou-me a chamada, mas vou dar-lhe a informação. É do seu interesse. Idalina e Ernesto não são casados, nem podem. São irmãos. Viviam juntos e faziam-se  passar por um casal. Agora se era a sério ou a fingir não sei. Talvez lhe interesse descobrir, se não for detective de faz de conta.

Rosalinda e JCorreia ficaram em silêncio, não tanto pelo conteúdo da mensagem, mas por estranhar a insistência de alguém que teimava em interferir nas suas investigações. JCorreia sentiu-se um pouco perdido, com a sensação que andava às voltas dentro de um labirinto. Olhou para Rosalinda e disse:
-Vamos sair daqui. Precisamos de reexaminar todos os dados e fazer uma reflexão.
-Concordo, respondeu Rosalinda, mas antes precisava de passar pela minha casa, para ir buscar mais alguma roupa.

Anoitecia quando chegaram o apartamento de Rosalinda. Um céu cinzento prometia chuva depois de um prolongado estio. Ao entrar no quarto, Rosalinda, emudeceu e ficou paralisada. jCorreia apercebeu-se e perguntou com alguma preocupação.
-Que se passa?
-Não acredito, respondeu Rosalinda, mal conseguindo articular as palavras. Vem ver. Está tudo virado do avesso. Alguém entrou e deu volta a tudo.
-Não há sinal de arrombamento- comentou JCorreia- portanto quem veio, tem a chave da porta ou é especialista em abrir fechaduras. De qualquer modo, não deve voltar, quer tenha ou não encontrado o que procurava. Vê se falta alguma coisa.
Depois  de terem observado todas as divisões, encontraram a mesma situação. Numa primeira observação Rosalinda pareceu-lhe que não faltava nada.  Portanto o motivo não fora o roubo. Tudo apontava, à primeira vista, para assunto relacionado com o Damião e o seu envolvimento no que está a ser acusado.
- Não mexas em nada - disse JCorreia -  lembrando-se da sua experiência de investigador policial.

Enquanto Rosalinda preparava um bacalhau no forno com migas alentejanas, JCorreia sentou-se na sua secretária e consultou os dossiês das investigações que estava a fazer, acrescentando os últimos dados. Ao mesmo tempo, tentou encontrar algum sentido para os casos que tinha em carteira, procurando estabelecer pontos de contacto. O caso do marido desaparecido, que não desaparecera, a estranha empresa de import/export, onde trabalhava a sua esposa que não o era, a misteriosa e esquiva Gata dos Telhados, (que soubera do rapto de Rosalinda e ajudara no seu resgate), a prisão de Damião, a generosidade da advogada Laura.  Parecia ser um puzzle de difícil resolução. Sentia-se bloqueado, como num beco sem saída. Seria um detective de faz de conta, como o desafiara o autor da mensagem anónima?  Da sua experiência de vida, da sua actividade profissional sabia que não existia perfeição. Como costumava dizer um inspector da sua secção da PJ que gostava  de filosofar, quando as investigações andavam às voltas, como cão atrás do rabo, justificava-se:  “perfeito é Deus, mas não faz investigações”. Mais,  naquele momento sentia que não passava de uma personagem de um romance, manipulada por um autor delirante, também perdido no labirinto que construíra.

Rosalinda aproximou-se para informar que o bacalhau no forno estava quase pronto, e concentrou-se na estante onde JCorreia guardava os livros que fora comprando durante a sua vida. Predominavam edições já bastante antigas.  O detective despertou das suas divagações e perguntou, com alguma ironia.
-Então Rosalinda que te atrai na estante? A desarrumação ou o interesse por algum livro? Desculpa a minha curiosidade, mas nunca te vi com esse interesse.
-Não é bem assim Joaquim, tenho observado a tua estante, não tanto por causa dos livros, com os quais nunca tive muita proximidade, pelas circunstâncias da vida, mas pelas fotos que aí estão expostas. Chama-me a atenção especialmente a foto desse senhor idoso, vestido de militar. Nunca tive coragem de perguntar quem era, por receio de invadir a tua privacidade.
-Os livros-respondeu Correia-são os meus amores. Amores sinceros. Nunca me traíram e muito me têm ensinado. Tenho aqui todos os clássicos da nossa literatura, e muitos da literatura estrangeira. Dos autores mais recentes, Saramago, Lobo Antunes, Erico Veríssimo, Jorge Amado, Modiano, Vargas Llosa, Garcia Marquez, entre muitos outros sem desprimor.
Tirou um livro da estante, mostrou-o a Rosalinda, e comentou.

-Este livro chama-se “Cem Anos de Solidão”. Foi-me oferecido em meados dos anos setenta, como prenda de aniversário, por colegas da faculdade de Direito. Tem uma dedicatória muito sentida. Marcou-me muito. Uma história que li e reli, e que foi a base  de um trabalho na Universidade. Tive ao longo da minha existência vários vícios, mas o da leitura é o vício supremo. E ao contrário de outros, liberta e não faz mal à saúde. Devíamos experimentá-lo  Rosalinda, acredito que ias gostar. Quanto à foto do senhor vestido de militar, e com um bigode farfalhudo, é o meu avô Baltazar, depois de voltar da guerra.

Durante a refeição, JCorreia retomou a conversa sobre a fotografia que despertara a curiosidade de Rosalinda.
-Quando nos sentamos para comer não nos lembramos dos que não têm comida, e ainda são muitos. O meu avô, viveu paredes meias com a fome, durante os meses em que viveu no campo de concentração  de Duelmen,  depois  de ter sido feito prisioneiro pelos alemães. Os prisioneiros portugueses , no sequência da batalha de La Lys,  viviam  em péssimas condições. O meu avô, costumava comentar que a falta de alimentos de que algumas pessoas carecem, é uma brincadeira comparada com o que se passou nesse campo.

Vi morrer muita gente, Joaquim, depois de terem passado por entre as balas, e de terem resistido ao ataque dos gazes.  No campo onde estive, os portugueses eram os únicos que não recebiam alimento do exterior.
Os franceses e os ingleses, recebiam todos os dias ração, proveniente do seu país, com base num acordo ente os países em guerra. Nós éramos alimentados com o escasso pão fornecido no campo, e que os franceses utilizavam como combustível para se aquecer. Eu tive sorte porque utilizei a minha profissão de sapateiro para conseguir enganar a fome. Arranjava o calçado de prisioneiros de outros países, e recebia como pagamento comida par me manter vivo, e para ajudar outros  prisioneiros. O mesmo não aconteceu com um número elevado de camaradas, que acabaram por sucumbir. Mal alimentados não resistiam a um simples constipado.
Os que viveram para contar, como eu, tiveram a sorte de ser ajudados, por soldados de outros países. A temperatura era outro inimigo, em instalações de madeira sem nenhum conforto. A roupa era a que tínhamos no corpo, e se a tirássemos para lavar, acabávamos  por a vestir ainda húmida. Os alemães também nos utilizavam em diversos trabalhos. A vida no campo era muito dura. O risco de vida imediato não estava presente como na frente de combate, mas o perigo de uma morte lenta, dependia do tempo que ali estivéssemos.
Depois da guerra terminar ainda ficámos algum tempo à espera de negociações do nosso governo com os alemães e da disposição dos ingleses para fornecerem o transporte para o regresso.  Quando cheguei à aldeia, a minha mãe não me reconheceu de imediato.

Nem estava à minha espera. Não fora informada da minha prisão, fazia parte do rol dos desaparecidos, o que queria dizer que tinha ido desta para melhor. Mas a tua avó continuava a esperar-me, apesar da tentativa dos seus pais para a casarem com outro. Não queriam que casasse comigo
.

-A minha mãe também passou muitas dificuldades, como sabes, mas nunca nos deixou passar fome - disse Rosalinda -  e mudando de assunto perguntou: então o que achas do meu bacalhau?
JCorreia esboçou um sorriso de aprovação e não respondeu porque  foi interrompido pela campainha do telefone. Levantou-se para atender:
-Está?
-Fala Laura de Castro. Podem vir amanhã às dez horas, ao meu escritório, para continuarmos a nossa conversa?
-Está bem doutora. Lá estaremos, disse JCorreia depois de olhar para Rosalinda.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XXIII
Enviado por: Goreti Dias em Outubro 05, 2020, 15:09:26
Pois pode continuar. A gente agradece.


Título: Re: A Gata dos Telhados XIX
Enviado por: Nação Valente em Outubro 09, 2020, 20:35:52
XXIV
-Fala Laura de Castro. Podem vir amanhã às dez horas, ao meu escritório, para continuarmos a nossa conversa?
-Está bem doutora. Lá estaremos, disse JCorreia depois de olhar para Rosalinda.


JCorreia começou a levantar a mesa.
-A louça está por minha conta – disse JCorreia – procurando afastar Rosalinda dessa tarefa. Tu já fizeste a comida. Trabalho colectivo, sem tabus. Pode não parecer mas sou um tipo “pra frentex”. Não deixo de ser um filho do Maio de 1968. Na altura, era militar e estava na guerra colonial na Guné, mas consegui  seguir os acontecimentos. Tive as minha fontes. Quando todos dormiam sintonizava discretamente a rádio Argel, de onde a oposição ao regime, nos punha em contacto com a realidade escondida. A utopia de 1968 não mudou a essência do poder, mas renovou as mentalidades.

O som da água a bater no vidro das janelas anunciou a chegada da chuva. Enquanto  Joaquim arrumava a cozinha, Rosalinda foi até à janela apreciar a primeira chuva de outono. Gostava do cheiro a terra molhada. Transeuntes  desprevenidos  caminhavam apressados. Um gato procurava abrigo. Lembrou-se da Judite.  Por onde andaria? Não a tinha visto durante o jantar. Perguntou:
-Joaquim , viste a hoje a gata?
-Não – respondeu Joaquim – parecendo pouco interessado na situação. Só faz o que lhe apetece, Também deve ter o espírito do Maio de sessenta e oito. Pode ser que a chuva  a faça regressar, se é que não se embeiçou por algum gato.

-Quem sabe? Apesar da meu casamento, não ter sido um mar de rosas, considero-me uma romântica, acentuou Rosalinda. Na juventude gostava de ler as novelas das revistas e as radionovelas. Derramei muitas lágrimas na “Simplesmente Maria”. Mais tarde perdia-me por telenovelas. Era uma compensação à merda de vida que tinha…e, sem ser grande leitora de livros, também li o “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco. E que amor tão bonito, o que ele viveu, com Ana Plácido. Foi do que me lembrei quando me falaste do amor contrariado dos teus avós, que não conheci, mas que são meus tios.

Joaquim, dirigiu-se à estante e pegou numa fotografia, amarelecida pelo tempo, mostrando-a a Rosalinda.
-O que vês nessa foto?
-Parece-me ser um casamento, de há muito tempo – respondeu Rosalinda, não escondendo a curiosidade.
-Tal e qual, Rosalinda. Foi há mais de oitenta anos, o casamento dos meus avós. Casamento contrariado pela família da avó, Luísa, por desentendimentos, relacionados com a questão das “terras da Ordem”. Estas terras situadas na zona da Ribeira de Mouros, tinham pertencido à Ordem de Cristo até à revolução liberal de 1820, passando depois para a posse do Estado. Mais tarde, teriam sido vendidas a um particular, que nunca apresentou documentos da compra. Na segunda metade do século XX o povo quis ocupar essas terras abandonadas., mas esbarrou com a oposição do dito proprietário. Dividiu-se a população em dois grupos: o designado como “gatos brancos” e os que tomaram o partido do “dono” das terras, que se chamavam “gatos pretos”. Foi um guerra de gatos que durou muitos anos. Em criança ainda assisti a esses confrontos, e até fui arregimentado com outros moços para contestar os “gatos pretos”. Saímos da escola em formatura, gritando uma lengalenga:

      Gatos brancos, gatos brancos, ponham as unhas de fora
      Corram com os gatos pretos , a ocupar terras agora
      Gatos pretos de má pelo, venderam por um pataco
      A vossa alma ao demo
      Fora, fora, fora , fora….

Foi uma querela que se arrastou até aos anos sessenta, quando a agricultura de subsistência perdeu fôlego para a emigração. Foi resolvida depois do 25 de Abril, quando quase não havia agricultores.
O avô teve de “fugir” com a avó durante a noite. Depois de voltar da guerra fez parte da GNR, e foi colocado em Almada. Combinou com a avó, por carta, que ia ter uns dias de licença, e que iria buscá-la. Assim fez. Os pais dela deram pela sua saída, mas não mexeram uma palha. Na época isso era normal. O pai apenas comentou: - “a nossa Maria     vai com um…e no caminho para a vila”. “Deixa lá homem. Se vai para a vila, sempre sai desta meséria, e não casa com esse estupor dos “Correia”. Nunca lhes passou pela cabeça que fosse com o avô Baltazar. Quando souberam juraram acabar com essa má raça. Porém o mais grave que aconteceu foi trocarem uns sopapos na venda do Chico. O casamento, da foto, foi um anos depois, já o meu pai tinha nascido.
 
Às dez horas do dia seguinte, JCorreia e Rosalinda chegaram ao edifício, situado na Avenida da República, onde se situava o escritório da drª Laura Castro. Era um prédio nascido da arquitectura, sem personalidade, do fim do século XX, com uma fachada envidraçada, que destoava dos seus vizinhos e da sua sobriedade. Subiram até ao sexto andar , e tocaram à campainha. Uma senhora que JCorreia calculou que poderia ter aproximadamente a sua idade, de aspecto elegante, conduzi-os até a um gabinete onde se encontrava a advogada,  que os recebeu com um sorriso.

-Sejam bem-vindos – disse com alguma familiaridade. – Sentem-se e estejam à vontade. Aproveito por vos apresentar, a minha cliente,  que se não importarem, participará nesta reunião. A sua presença é muito importante.
JCorreia olhou, de novo, para a senhora, com ar distinto. Reparou nos olhos, algo tristes, que denotavam um passado com algumas agruras. Mas a forma como se deslocava lembrava-lhe um felino.
-Muito gosto senhora, sou o detective JCorreia, e a minha acompanhante, é a Rosalinda, secretária e amiga.
-Muito bem – interrompeu – a advogada. Podem sentar-se nas cadeiras junto à secretária. Então decidiram aceitar os meus serviços para defender o senhor Damião?
-Sim – disse JCorreia – mas deixe-me dizer-lhe, porque não sou de arcas encoiradas, que primeiro tirei umas informações, sobre a doutora. Não me leve a mal, cautela e caldos de galinha…dizia a minha avó…
-Não há problema, detective. Faz o seu papel. Antes de mais, vou dar a palavra  à minha cliente, para lhe explicar porque se interessou pelo Damião, e o que mais pretende dos vossos serviços.

-A dama com ar distinto, sentada num sofá, olhou JCorreia com tal intensidade que este teve de desviar o olhar. Com uma  voz calma e pausada, falou:
-Obrigado por ter aceite os serviços da  Drª Laura. Trabalha para mim desde que exerce advocacia, e garanto a sua competência. Sou uma empresária da área da moda, negócio que desenvolvi após a morte do meu marido. O interesse pela defesa do Damião, não tem a ver com o presente mas com o passado. Quando era jovem, passei um mau bocado. Andei perdida por caminhos sem destino. Estava a ver o horizonte, mas quanto mais me aproximava, mais ele se afastava.

Fez uma pausa, para a abafar a emoção que lhe embargava a voz. Respirou fundo e continuou.

-Tive de vender o corpo para sobreviver. Houve um tempo que era a única valia que tinha para rentabilizar. Mulher de vida fácil, está a entender, detective. Mulher de vida fácil, diz o senso comum. Mulher de vida muito difícil, digo eu. Mas antes de chegar aí comecei pelas “drogas” primeiro leves, depois mais pesadas. Ultrapassei e fiz o luto. Mas há feridas que nunca foram saradas. Conheci o meio da prostituição e fiz amizade com algumas prostitutas.

Nova pausa. JCorreia pareceu-lhe ver uma lágrima furtiva, que teimava em segurar. Rosalinda, mais coração de manteiga, estava muito emocionada.

Lembra-se detective- continuou- do assassínio de prostitutas nos anos oitenta. Uma delas era minha amiga íntima. Ajudou-me muito quando entrei naquele meio. Crimes que ficaram impunes. Sei que o detective, esteve nessa investigação, e fez o melhor que lhe foi possível, e por isso falo de um processo que não lhe é estranho.
-Lembro-me, - respondeu JCorreia – e ainda tenho pesadelos. Mas não percebo o que isso tem a ver com a prisão do Damião? O processo que refere está encerrado.

-Damião é pelo que parece, um pequeno traficante, “arraia-miúda” – disse a distinta senhora. – Damião, enquanto tal, não me interessa. Defendo-o para ver se conseguimos chegar mais além. É a contrapartida. Nesta vida, detective JCorreia, não há almoços grátis. Se alguma coisa aprendi no meu percurso, foi isso. Diz que o processo está encerrado. Para mim não está nem nunca esteve. Nunca é tarde para fazer justiça. Pela minha amiga, e pela filha menor que deixou. As duas coisas podem não estar relacionadas. Mas a droga deu cabo da vida de muita gente, e continua a dar. Se puder dar o meu contributo nessa luta, sentir-me-ei, mais leve.
JCorreia, procurou ordenar as ideias. Começou a ligar algumas pontas dispersas. Respondeu à senhora, cujos olhos o perturbavam:
-Como sabe, senhora, exerço investigação privada. Já não faço parte da PJ. Não disponho de meios, nem de legitimidade para investigar o que deseja.

-Caro JCorreia –disse a dama dos olhos penetrantes, procurando estabelecer alguma proximidade – do Damião se encarregará a drª Laura. Pode tirá-lo da prisão, se ele colaborar. Sobre o outro assunto compreendo o que diz, e sei que não pode fazer investigação oficial. Eu também investigo e tenho algumas pistas. Preciso da sua colaboração, como óptimo investigador. Apenas terá de seguir as minhas informações. É um duplo desafio: recebe os seus honorários, em exclusivo, e presta serviço a uma causa justa.
-Preciso de reflectir, senhora…ainda não sei o seu nome…
-Sabe, sabe- respondeu – Trate-me por Gata dos Telhados, ou se preferir por Aida Macedo.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XXIV
Enviado por: Goreti Dias em Outubro 10, 2020, 19:04:17
A coisa promete. Com tantos gatos... e uma gata...


Título: Re: A Gata dos Telhados XXIV
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Outubro 14, 2020, 21:19:54
"....com Rafaela Plácido...." Não será Ana Plácido? De resto, vamos finalmente descobrir quem foi o estripador de Lisboa...


Título: Re: A Gata dos Telhados XXVII
Enviado por: Nação Valente em Outubro 18, 2020, 20:28:59
XXV
-Preciso de reflectir, senhora…ainda não sei o seu nome…
-Sabe, sabe- respondeu – Trate-me por Gata dos Telhados, ou se preferir por Aida Macedo. E agora vou retirar-me. Darei notícias. Continuem a conversa com a minha advogada
.

Aida Macedo abandonou a sala deixando um rasto de perfume de boa qualidade. No último olhar que trocou com JCorreia, notou-se uma névoa de amargura. O detective acidental, sentiu uma estranha sensação. Aquela forma de andar de Aida perturbava-o. Respirou fundo para conseguir alguma serenidade. Laura de Castro, a advogada do diabo, percebeu o estado de espírito de JCorreia e com um sorriso relançou a conversa.

-Muito bem. A minha cliente traçou as linhas gerais do que pretende dos vossos serviços. A mim, para já, compete-me tratar dos detalhes técnicos, relacionados com a prisão do Damião. A minha intenção é pedir a sua libertação se for constituído arguido, e evitar que fique em prisão preventiva. Estão de acordo?

JCorreia ainda continuava em estado catatónico. Rosalinda teve uma reacção de espanto. Parecia surpreendida. Não se mostrava muito entusiasmada com a libertação de Damião. O curto período do marido preso, tinha-a feito renascer para uma nova viva. Aproveitando o silêncio de JCorreia perguntou:
- Desculpe drª Laura, mas se a libertação estiver dependente do pagamento de uma caução, tenho que a informar, que não posso pagar.
- Quer ou não quer ver o seu marido fora da prisão? - respondeu Laura colocando  ênfase na expressão – Se implicar dinheiro , não se preocupe. Não será por isso que não terá o seu marido- concluiu Laura -  com alguma ironia. O que preciso , neste momento, é que me responda a algumas perguntas. Por exemplo, alguma vez notou no comportamento do seu marido, atitudes que lhe parecesse estar implicado nesse tráfico?
-Não  – disse secamente Rosalinda.
-E não notou nenhum aumento, nos rendimentos do Damião?
-Notei que, talvez há mais de um ano, começou a trazer mais dinheiro. Dizia que fazia trabalho extraordinário, para trocar de carro. O que de facto aconteceu, com a compra de um automóvel de gama alta. É o que sei, drª Laura.

JCorreia aproveitou aquele interrogatório, que achava pouco relevante,  para se refugiar num recanto da sua mente. Viu-se num outro cenário, na pacatez da sua aldeia, longe das confusões em que se via envolvido. Interrogava-se mais uma vez porque raio tinha decido continuar a ser polícia, quando podia estar na sua terra, a ocupar o tempo que lhe restava, em ocupações que não lhe atazanassem o espírito. Percebera da conversa com a denominada Gata dos Telhados, que estava a ser arrastado para uma porta do passado que queria encerrar. Percebeu que estava perante uma pessoa presa no tempo, e que assumia a condição de justiceira por conta própria. Como gostaria de estar longe e poder retomar as longas conversas como seu avô Baltazar. Mas perante tal impossibilidade, alimentava-se das que ficaram registadas num recanto da memória.
 
Depois de voltar da guerra colonial Joaquim Correia lembra-se do primeiro encontro com o avô e do que lhe disse:
- Como vê estou inteiro, mas diferente de antes de passar por esta experiência. A cigana da feira, por acaso ou não, acabou por acertar.
- É verdade Joaquim, todos passámos por isso na família. Três gerações, três guerras. E por mais que nos queiramos convencer que somos a mesma pessoa, sem deixar de a ser, também somos diferentes. Os traumas invisíveis que transportamos não se apagam. Tenho os meus, tu terás os teus, e o teu pai que esteve na Guerra Civil de Espanha terá os dele. Quando ele foi voluntário à força, em 1938, ainda tu não eras nascido, e eu estava a passar por um mau bocado. No dia em que recebi a notícia, fui preso, com muitos outros companheiros, por causa da questão das terras da Ordem. Quando amanheceu estávamos cercados pela GNR que foi de casa em casa prender os que estavam na lista do eventual proprietário. Valeu-nos o drº Frederico Drago, que apoiava a nossa causa, e nos conseguiu libertar. Dei comigo a pensar porque razão me meti na luta pela posse de terras, quando nem das minhas tratava, depois de ter optado por abrir a oficina onde fabricava calçado por encomenda. Cheguei à conclusão que faz parte da minha natureza.
-Eu sei que o meu pai esteve na na Guerra Civil espanhola, mas não conheço os pormenores. Ele é muito reservado e quase não fala desse passado.

-Não fala, porque na minha opinião, foi uma participação que sempre o envergonhou. Fez parte da Legião dos nacionalistas, como outros portugueses que ficaram conhecidos como os Viriatos. Ao contrário da grande maioria, foi obrigado a aderir para salvar a pele. Como sabes, ele fazia contrabando. Numa dessas viagens teve o azar de ser descoberto e preso pelos nacionalistas que controlavam a Andaluzia. A alternativa que lhe deram foi ou “um tiro nos cornos” ou integrar-se nas forças militares de Franco.

¿Qué haces aquí, portugués, con un montón de comida? ¿Tienes autorización?
? Perguntou um oficial do Exército do Sul
(…)
- ¿En qué servicio estás? De España o comunismo
- Não me meto nisso. Faço comércio.

Comercia ilegalmente. Te doy dos hipótesis: juicio sumario, o integración en las tropas del general Franco

Depois de uma instrução rápida esteve com o exército que foi deslocado para a Catalunha, para combater na batalha do Ebro em agosto de 1938. Teve de lutar no lado errado, de acordo com as suas convicções. Limitou-se a evitar a morte, numa batalha onde houve muitas baixas, nos nacionalistas e nos republicanos. Foi ferido numa perna e retirado para a retaguarda. Recuperou e ainda foi enviado para Madrid onde viu cair o governo republicano. Quando chegou depois de relatar a sua experiência disse: estou vivo, assisti a muita carnificina, combati para não ser fuzilado, e quero pôr uma pedra, bem pesada, em cima desta fase da minha vida.

JCorreia sentiu qualquer coisa a roçar-se nas suas pernas, o que o fez sair do baú das suas memórias. Laura de Castro continuava a interrogar Rosalinda. Olhou para baixo e viu uma gata que lhe pareceu ser a Judite. “Que raio fazes aqui”?, foi a primeira ideia que lhe veio à mente. Laura de Castro apercebeu-se e disse:
- Está sossegada Madonna, deixa o detective em paz. Desculpe, mas a minha gata, às vezes gosta de se envolver com os clientes.
- Madonna? Interrogou JCorreia, pareceu-me ser a Judite, a minha gata. Será que estou com alucinações? Se não é a Judite, só pode ser gémea ou clonada. Se calhar, tantas gatas na minha vida, estão-me a dar volta ao miolo. Pareço uma ilha rodeada por gatas. E logo agora que de gato já só tenho o espírito.

- Que se passa Joaquim, estás mesmo aqui? – disse Rosalinda. - Eu a responder a um interrogatório da senhora advogada, sobre o Damião, e tu a filosofar sobre gatos.
- Tens razão estive ausente mas já voltei, embora estivesse melhor de onde vim.- afirmou JCorreia procurando desdramatizar a situação. -  É como diz uma canção dos tempos do do PREC, “vim de longe, de muito longe, o que passei para aqui chegar”. Mas ainda percebi que a drª Laura quer libertar o Damião. O que lhe digo é que não se precipite. A casa dele foi assaltada, o que pode estar relacionado com o tráfico de droga. Dei conhecimento a um colega da brigada de estupefacientes da PJ, para fazerem uma diligência.

- Desconhecia o que relatou, detective, - disse a advogada – irei esperar pela decisão do Juiz. Depois agiremos em conformidade. Parece que temos algumas afinidades, pelo menos no que diz respeito aos gatos. Também vivo sozinha e a Madonna é a minha companhia. Se é igual à sua Judite, só pode ser coincidência. Comprei-a numa loja.

Com o respeito, drª Laura, a menina também é uma “gata” no bom sentido. Não me leve a mal, mas é um elogio à sua beleza. Se alguma coisa aprendi, é que na vida, não podemos ser apenas máquinas de produzir.
- Estou admirada e preocupada contigo Joaquim. Voltaste a dar uma de “velho gaiteiro”? –disse Rosalinda, denotando algum nervosismo, e lembrando-se da conversa, com a empregada da pastelaria.
- Não me ofendo. Tenho sentido de humor, disse a advogada.
- É mais uma coisa em que temos afinidade. Começam a ser várias, drª Laura.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XXV
Enviado por: Goreti Dias em Outubro 19, 2020, 09:37:29
Ui ui! quanta afinidade!


Título: Re: A Gata dos Telhados XXVI
Enviado por: Nação Valente em Outubro 22, 2020, 20:37:36
XXVI
Com todo o respeito drª Laura, a menina também é uma “gata” no bom sentido. Não me leve a mal, mas é um elogio à sua beleza. Se alguma coisa aprendi, é que na vida, não podemos ser apenas  máquinas de produzir.
- Não me ofendo. Tenho sentido de humCom todo respeito drª Laura, a menina também é uma “gata” no bom sentido. Não me leve a mal, mas é um elogio à sua beleza. Se alguma coisa aprendi, é que na vida, não podemos ser apenas  máquinas de produzir.
- Estou admirada e preocupada contigo Joaquim. Voltaste a dar uma de “velho gaiteiro”? –disse Rosalinda, denotando algum nervosismo, e lembrando-se or, disse a advogada.
- É mais uma coisa em que temos afinidade. Começam a ser várias, drª Laura.


- JCorreia e Rosalinda saíram da reunião com a advogada. O céu nublado anunciava chuva. Caminharam em silêncio ao longo da avenida. As palavras pareciam ter-se esgotado naquela reunião. Joaquim sentiu que a secretária estava algo triste, e tentou desanuviar a borrasca que parecia eminente. Falou, pegando nas palavras com uma pinça.
- Depois de uma reunião muito produtiva, acho que está na altura darmos uma trégua ao trabalho. E se fôssemos dar ao dente. Sinto um ratinho a roer-me o estômago. Que dizes?
- Faz como quiseres – respondeu Rosalinda – num tom agreste. Aquela advogada tirou-me o apetite. Se não tivesses estado quase sempre ausente, terias reparado que  me quer atirar para as manápulas do Damião.
- Valha-te Deus Rosalinda. És mais nova que eu, mas pareces mais careta. Ninguém é obrigado a viver com ninguém. Estamos no século XXI. Até minha bisavó avó paterna se divorciou, no início do século XX. Qual é o drama? Esquece para já o Damião, depois pensamos nisso. Vamos comer ao restaurante do minhoto. Os cheiros  vão abrir-te  o apetite.

Sempre que entrava naquele restaurante, Joaquim renascia. Voltava aos seus tempos de juventude e de neófito na cidade. Ali convivia com os seus amigos. Ali começou a sua relação com Irene. Ali viu um dia chegar a liberdade.
Bom dia subinspector Correia – disse o proprietário, onde já predominavam os cabelos brancos.  – bons olhos o vejam.
- E veem-me bem. E também digo que sempre que o vejo, me parece que vai em contramão. Está cada vez mais menino, ainda bem, porque não conheço ninguém que me satisfaça tanto as papilas gustativas. E a propósito, o que temos hoje?
- Para além dos grelhados, tenho um petisco especial. Rojões à minhota. Até parece que adivinhei que vinha cá.
- Vamos então nos rojões. Concordas Rosalinda? E um verde de Melgaço, para dar de beber à dor, principalmente da minha companheira, que teve um dia mau.
Enquanto degustavam os rojões, o vinho foi levantando o ânimo de Rosalinda, e soltou a língua a Joaquim, que aproveitou par voltar ás memórias que sempre associava aos sítios por onde tinha passado. Ao mesmo tempo pretendia afastar o pensamento de Rosalinda, dos maus momentos por que passou.

- Neste restaurante sempre fui feliz. A última vez que aqui vim, a tua primeira, conheci o teu passado, e tive a alegria de te descobrir como familiar. Mas muitas  outros bons momentos que vivi estão ligados a este lugar, para lá do prazer da boa comida. Aqui almocei no último dia da ditadura e no primeiro da democracia
 Esta é a madrugada que eu esperava
 O dia inicial inteiro e limpo
 Onde emergimos da noite e do silêncio
 E livres habitamos a substância do tempo
 Foi  assim que o definiu a escritora  Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi assim que também o vi, embora não fosse capaz de o definir com esta sensibilidade.

Tinha feito o último turno da noite no metropolitano. Deitei-me tarde e de manhã fui acordado pelo vozeirão do Carlão a falar com outro hóspede , “começou a guerra”. Estão a dizer na rádio para ficarmos em causa, e a pedir aos médicos para se dirigirem para os hospitais”. Tinha dormido pouco, e pensei que era uma brincadeira de mau gosto. Apeteceu-me mandá-lo bugiar. Liguei o pequeno rádio de transístores na emissora nacional. Afinal o Carlão tinha razão.
“Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma."

Não consegui voltar a adormecer. Continuei a ouvir a mesma comunicação, até que, ao contrário do pedido, não fiquei em casa. Deambulei pela cidade quase deserta. A informação sobre o que se passava de concreto era escassa. Ao meio dia entrei neste restaurante. O cozinheiro do Minho, continuava a fazer os seus grelhados. Pareceu-me um pouco assustado. Quando paguei o almoço, o senhor disse-me: estão a dizer que o Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, está  refugiado no quartel da GNR no Carmo, e que está cercado por tropas. “então é para aí que vou”, afirmei. “Tenha juízo, vá mas é para casa como recomendam”. Não quero perder nenhum cliente”. Caro amigo, já passei por uma guerra e sobrevivi. Vou, se for necessário, participar numa guerra mais justa. A liberdade do meu país.

- E fostes? Tiraste a coragem de dentro de uma garrafa? - perguntou Rosalinda que tinha recuperado a boa disposição, com o “verde” de Melgaço.

- Ora ,ora, temos a Rosalinda de volta. Ainda bem, porque que vamos ter muito trabalho. Se for preciso repetimos o mesmo tratamento. Mas voltando ao movimento militar de 25 de Abril, nesse dia fui para o largo do Carmo. Havia militares nas ruas adjacentes. Jovens  com pouca experiência, mas empenhados. O mais interessante é que os paisanos circulavam livremente. Um bom indício. Em frente ao quartel, havia chaimites vindas do Terreiro do Paço. Foi lá que se ganhou a guerra, quando a força comandada por Salgueiro Maia com pior armamento, teve a coragem de enfrentar, de peito aberto, os poderosos blindados de Cavalaria 7. Com essa coragem, levou os atiradores s desobedeceram às ordens de disparar, do seu comandante. Sem disparar um tiro o golpe estava ganho. O que se passou no largo do Carmo foi o culminar do processo. Com o espaço cheio, por uma multidão eufórica, apenas  se esperava a rendição do regime.

- Eu também estive por perto nesse dia – disse Rosalinda.- Estava no Rossio a vender flores, e assisti à passagem dos militares, com cravos nas espingardas, embora não tivesse muita consciência, do que se passava.
- A ditadura durou quase quarenta anos. Uma guerra de treze anos ajudou a desgastá-la. Naquele dia ou noutro acabaria por cair. Mas foi um dia importante. Pena é que as novas gerações que sempre viveram a liberdade, associem o dia a mais um feriado.
 
JCorreia e Rosalinda desceram a a Avenida da Liberdade até ao Rossio, e subiram até ao Chiado. Na “Brasileira” sentaram-se na esplanada junto à estátua de Fernando Pessoa. JCorreia gostava de visitar aquele  local, por  onde tinham passado grandes pensadores.  Enquanto  tomavam  o café, o detective  infringindo mais uma vez os conselhos do médico, pediu um cálice de absinto, em honra do grande poeta e do 25 de Abril. Perante a crítica de Rosalinda comentou:

- Dias não são dias. "É pra desgraça é pra desgraça". Hoje é o dia da romagem da saudade. O absinto ajuda a inspiração. Amanhã vamos fazer o que tem que ser feito. Voltamos à investigação do caso do marido desaparecido. Este caso e o da gata dos telhados, parecem-me a mesma moeda.

-Não me digas Joaquim que também queres ser poeta? - ironizou Rosalinda

-Não ficas sem resposta. Quando saí da PJ, e antes de me inventar como detective privado, escrevi umas coisas. Um dia mostro-te. Só a ti.

Continua



Título: Re: A Gata dos Telhados XXVI
Enviado por: Goreti Dias em Outubro 23, 2020, 13:19:56
Poeta é quem pode. Até Pj ou engenheiro...


Título: Re: A Gata dos Telhados XXVII
Enviado por: Nação Valente em Outubro 29, 2020, 19:54:16
XXVII
- Dias não são dias. É pra desgraça é pra desgraça. O absinto ajuda a inspiração. Amanhã vamos fazer o que tem que ser feito. Voltamos à investigação do caso do marido desaparecido. Este caso e o da gata dos telhados, parecem-me a mesma moeda.

O subinspector Carvalho da brigada de estupefacientes,  entrou no apartamento de Damião, para fazer uma diligência, sobre o caso da droga apreendida no porto de Lisboa. De acordo com a informação recebida de JCorreia, estava tudo virado do avesso. Sabia que havia uma dependência da casa que não era utilizada, segundo declarou Rosalinda, e onde Damião se costumava , trancando a porta. Rosalinda, da única vez que questionou Damião  sobre o assunto, apanhou um tabefe, e não voltou a fazer qualquer comentário. O subinspector, concentrou a investigação nesse quarto. Estava mobilado com uma cama, duas mesas de cabeceira, um roupeiro e uma cómoda. Tudo tinha sido esvaziado. Até o colchão estava destruído. Mas se ali havia droga escondida, não lhe parecia que tivesse sido descoberta. Por cautela, Carvalho, resolveu pedir a vinda de uma cão especializado. Quando este chegou deixou a equipa da PJ boquiaberta. A sua atenção concentrou-se no tecto. Os polícias olharam e não viam como podia ali estar. No estuque não se vislumbrava qualquer sinal de haver esconderijo. Foi então que um agente da equipa reparou no candeeiro, ligado ao tecto com uma campânula. Desmontaram o candeeiro e por baixo da parte coberta estava a entrada para um buraco. Retiraram dois quilos de heroína.

JCorreia recebeu a chamada do subinspector, depois de ter telefonado para empresa de import/export Figueira & Laranjeira. Quando atenderam o telefone, apresentou-se , com uma identificação falsa.
-Bom dia. Chamo-me Alberto Estevão. Tenho uma pequena empresa de produção de brinquedos tradicionais, que gostaria de exportar.  Na pesquisa de empresas exportadoras cruzei-me com a vossa. Gostaria de saber se estão interessados na exportação dos meus produtos.
-Vem ao sítio certo. O ramo dos brinquedos é uma das nossas principais actividades. Mas também transacionamos outros produtos. Faça-nos uma visita para podermos conversar e conhecer a nossa empresa, conhecer condições.
-Certo. Mandarei amanhã a minha secretária.
 
A essa hora Rosalinda estava junto à empresa Figueira  & Laranjeira. Como já tinha acontecido, Idalina, saiu e dirigiu-se à estação de comboios do cais Sodré. Rosalinda seguiu-a. No átrio da estação, pouco frequentado, estava à espera Ernesto, o suposto marido desaparecido. Trocaram dois embrulhos. Separaram-se, e Rosalinda seguiu Ernesto, que entrou num carruagem de um comboio que ia partir. Rosalinda comprou um bilhete até ao fim da linha, e entrou na mesma carruagem. Ernesto saiu na estação do Estoril. Rosalinda foi atrás dele até uma vivenda que não era recente, situada numa rua sossegada. Esperou algum tempo. Viu entrar duas mulheres ainda jovens, e um pouco depois um homem de meia-idade.

JCorreia atendeu o telefonema de Carvalho:
-Então Correia como vão esses ossos?
-Os ossos aguentam-se. Já o mesmo não posso dizer de outros órgãos. Então em que pode ser útil, um ex-polícia metido em sarilhos.
-Qual ex-polícia?  Sei que nunca deixaste de o ser. E a verdade é que colaboraste connosco. Investigamos a casa do Damião, e encontramos material. Está justificado o assalto. Parece-me que o Damião não se vai livrar de "Preventiva". Avisa a sua esposa.

A gata Judite apareceu quando JCorreia ligar para Rosalinda. Roçou-lhe as pernas, com uma suavidade, que  fez vir-lhe à janela da memória, outra gata, a Irene e a sua meiguice.

-O que é que queres Judite, ou serás a Madonna que vi no escritório da drª. Laura? Mas ainda hei-de tirar isso a limpo, ou não me chame JCorreia, detective, especializado em assuntos de gataria, incluindo a Irene, que me pôs uns patins, por discordâncias políticas.
A nossa ruptura começou no tempo do chamado PREC. A luta política estava ao rubro, entre os moderados que defendiam uma democracia parlamentar, e os que queriam instalar uma nova ditadura, copiada do modelo dos países acantonados para lá do muro. A divisão começava na sociedade civil e continuava no sector militar. O governo do general Vasco Gonçalves apoiado pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda liderava o processo revolucionário. Os militares moderados e o partido Socialista dirigiam a oposição. As posições estavam muito extremadas. O povo, sobretudo a Norte, levantou-se, às vezes dirigido por forças reacionárias, assaltou e destruiu sedes do PCP. Na região de Lisboa, operários da indústria apoiavam o Governo. O golpe spinolista de Março, falhado, foi o cúmulo dessa divisão. O governo Gonçalvista caiu substituído por um governo moderado, mas a situação radicalizou-se. Uma guerra civil desenhava-se no horizonte. A revolta dos paraquedistas em Tancos, despoletou a resposta do governo moderado, com a saída do regimento de comandos, que tomou as unidades afectas ao PREC, com o apoio do presidente da República. Foi o fim da deriva comunista.

Estávamos no dia 25 de Novembro de 1975. Eu coloquei-me ao lado dos moderados, Irene que pertencia ao grupo de artistas ligadas ao PCP, do lado contrário. A acusou-me de ser antirrevolucionário, e pôs fim à relação. Tive pena. Gostava mesmo dessa gata. Apoiei o 25 de Abril. Vivi quarenta anos em ditadura. Não queria viver noutra, fosse de direita ou de esquerda. A vida continuou. Madonna, ou será Judite? Mas para ti que é que isso interessa? Que sabe gato de revoluções e contrarrevoluções, de democracia ou de ditadura? Nada. Chega-lhe viver o dia a dia. Toca o telefone, deve ser a Rosalinda.

-Estou. Então Rosalinda há novidades?
-Há e muito interessantes. Segui o homem até uma casa, no Estoril. Pelo que observei, cheira-me a negócio de pornografia. Quando voltar, dou mais pormenores.


Título: Re: A Gata dos Telhados XXVI
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Outubro 29, 2020, 21:55:10
Um investigador fica sempre com uma costela empenhada no ofício, mesmo reformado...


Título: Re: A Gata dos Telhados XXVI
Enviado por: Goreti Dias em Novembro 01, 2020, 16:07:17
Plenamente de acordo!


Título: Re: A Gata dos Telhados XXVIII
Enviado por: Nação Valente em Novembro 04, 2020, 20:11:45
XXVIII
-Há e muito interessantes. Segui o homem até uma casa, no Estoril. Pelo que observei, cheira-me a negócio de pornografia. Quando voltar dou mais pormenores.

Rosalinda estava sentada num pequeno gabinete da empresa Figueira & Laranjeira. Reparou no espaço acanhado, nas paredes nuas e no seu interlocutor que se apresentou como gerente. Era um homem de meia-idade, de estatura média, de olhos pequenos atrás de uns óculos redondos, com o pouco cabelo rapado. Levava um vestido justo e curto, que lhe acentuava as formas, e uma maquilhagem carregada. Vestira-se deste modo por sugestão de Joaquim, que a convenceu, com a frase “ um investigador competente tem de mudar de visual de acordo com o ambiente” como o camaleão. Para ele, aquela empresa de import/export, não se dedicava unicamente ao comércio de brinquedos. Mais, este comércio não passaria de fachada para negócios mais rentáveis. O visual que recomendou a Rosalinda encaixava-se no que considerava a principal actividade da empresa. O gerente cumprimentou Rosalinda e apresentou-se como sendo Januário Brilhante. Tirou um cigarro de uma cigarreira de prata, e ofereceu um a Rosalinda que recusou.

- Não se importa que fume senhorita? Acentuando o senhorita, enquanto passeava os olhos pelos seus generosos seios. Esta apercebeu-se e aproveitou para descer o decote do vestido, e ao mesmo trocar as pernas, com uma lentidão cinéfila. Os olhos de Januário escorregaram pelo vestido cor-de-rosa, de tal modo que se não estivessem presos nas órbitras teriam caído no chão´
-Não me importo que fume – respondeu Rosalinda – embora eu nunca o faça em serviço.
-Pois eu, é em serviço que fumo mais…concentra-me. Mas qual é a sua graça?
-Chamo-me Rosalinda, e espero não o desconcentrar -  disse - trocando, de novo, as pernas.
-Rosalinda, um nome que faz jus a quem o tem. Três vezes linda, por ser Rosa, ser Linda, e ser linda de morrer.
-Ora senhor Brilhante, agradeço o galanteio, mas estou aqui em trabalho - afirmou Rosalinda - puxando o vestido para baixo. O meu patrão, o senhor Timóteo, encarregou-me de lhe mostrar, os nossos produtos. Dá-me licença?

Rosalinda levantou-se , e virou-se para trás para apanhar o dossiê,  preparado por Joaquim com fotos de brinquedos tradicionais, que tinha recolhido em feiras de artesanato. Aproximou-se da secretária de Januário, e colocou-o na sua frente.
-Senhor Brilhante, dê uma vista de olhos. Pode ver que é material autêntico.
-Menina Linda, trate-me por Januário. Acredito que iremos fazer bons negócios.
Januário, foi desfolhando o dossiê,  mas com o olhar em roda livre , entre as fotos e o corpo de Rosalinda, que ao mesmo tempo que fazia o seu número, pensava que o primeiro assalto estava ganho.



Laura de Castro entrou na empresa de Aida eram nove horas. O porteiro informou-a que esta chegaria um pouco atrasada. “A sua mãe disse para a esperar no seu gabinete”, porque está um pouco atrasada. A advogada sentou-se e olhou como acontecera, vezes sem conta, para a criança da foto que se destacava na secretária de Aida, e que a transportava para um tempo, onde a ingenuidade superava a adaptação ao jogo de sombras que imperava na vida adulta.

-Bom dia filha – disse Aida – entrando de supetão. Desculpa o atraso, mas já sabes como é a vida de uma empresária.
-Ora mãe, já estou habituada. Tive urgência em encontrar-me hoje contigo porque fui informada que o Damião, ficou em prisão preventiva. A partir do momento em que foi encontrada droga na sua casa, a  situação agravou-se. Vai ser mais difícil tirá-lo da prisão. Por outro lado, pelo que deu a entender, a Rosalinda, quer-se livrar dele, e não está interessada, que seja libertado.
-O Damião, como sabes, não me interessa muito. –  respondeu  Aida - Meti-o ao barulho para me aproximar do detective  JCorreia e ganhar a sua confiança. Vamos dançar conforme a música. Se não é essa a vontade da sua mulher, melhor para nós. Possivelmente ela quer pedir o divórcio. Vem mesmo a calhar. É mais uma oportunidade para estarmos nas boas graças de JCorreia. Espero que  não descubra a nossa relação. Mas temos de ser muito cuidadosas, porque ele é muito perspicaz.



JCorreia ficou no seu gabinete de trabalho. As suspeitas feitas por Rosalinda sobre as trocas de embrulhos, e entrada de Ernesto naquela vivenda no Estoril, não pareciam ser legais:. Era necessário descobrir a quem pertencia a casa, e que actividades lá se desenrolavam. Que intercâmbio poderia haver entre uma empresa que importava brinquedos, e aquele local. Pela morada descobriu um número de telefone que lhe estava associado. Precisava de encontrar um motivo para telefonar.
A sua gata Judite, dormia junto aos  seus pés, o sono que lhe roubara a noite. Enquanto matutava em como poderia saber mais sobre a casa do Estoril, sem que nada lhe ocorresse, lembrou-se o que seu avô Baltazar lhe dizia quando tinha um problema que parecia insolúvel. “Esquece Joaquim. Pensa noutro assunto. Quando menos esperas, aparece a solução”.
Judite manifestou-se na sua língua de gato. JCorreia fixou-se nos seus olhos azuis, o que lhe desviou o pensamento para o seu pai, e para a cor dos olhos que não herdara, mas que recordava como uma marca distintiva. Ainda se lembrava de o ver fardado de Guarda Fiscal, onde foi incorporado depois de voltar de Espanha e de ter cumprido serviço militar no Exército Português. Esteve nesta corporação militarizada pouco tempo. Tal como o seu pai, Balltazar Correia,  que fora expulso da GNR, depois do golpe militar de 1926, que levaria ao Estado Novo, por insubordinação, começou a perceber que aquele não era o seu lugar. Sentia-se mais contrabandista que guarda da fronteira. Saiu da Guarda para voltar ao que gostava de fazer, trabalhar na agricultura, e nos tempos livres fazer contrabando. E não era apenas, por motivos económicos. Era um vício, pela transgressão, pelo risco, pela aventura.

Num país que assumira a neutralidade na Segunda Guerra Mundial, mas que sofrera as suas consequências económicas, como a escassez de bens, era uma boa oportunidade para ganhar dinheiro à margem do sistema. A Espanha destruída pela guerra civil estava ali mesmo ao lado e a troca de produtos uma necessidade. A agricultura de subsistência dava para ter comida na mesa, o contrabando para a complementar . Quando o pai desaparecia durante duas semanas, Joaquim sabia que tinha passado a fronteira com um saco de café ou de miolo de amêndoa às costas. Foi graças a esse rendimento, que pôde estudar num colégio privado, um pouco para além da instrução primária salazarista, e para poder fugir de uma vida de horizontes fechados, e onde a pobreza era encarada como fatal naturalidade, num país parado no tempo, na visão de um ditador sem ambição, enclausurado numa missão redentora, como um desígnio divino.


Enquanto esperava uma reacção de Januário Brilhante, Rosalinda pensou que JCorreia estava certo, quando ela tinha levantado reservas ao seu plano. Para a convencer, Joaquim dissera-lhe que visse a vida como uma representação, uma peça de teatro onde todos somos actores. Durante grande parte da minha vida representei o papel de polícia- disse-lhe- o mais longo, e de tal modo determinante, que já nem precisava de ensaios. De vez em quando, represento outros pequenos papéis, como agora, o de empresário. O que vais fazer na empresa de import/export, será mais uma representação. Não temos nada para exportar. Queremos é saber, o que pode estar para além dessa fachada.

-Menina Rosalinda – disse Januário, depois de observar o dossiê – tem aqui material muito interessante. Terei, no entanto, que reunir com a administração, antes de lhe dar uma resposta, e discutir pormenores. Mas estou convencido que nos vamos entender. Podemos marcar um novo encontro, num restaurante onde podemos associar os negócios a uma boa comida. Costuma dizer-se que os melhores negócios se fazem à mesa.
-Há outra teoria que diz, que grandes negócios, se fazem na cama –disse Rosalinda, surpreendendo-se a si própria, e indo para além do que seria a sua “deixa.” – Ao mesmo tempo, e perante o ar aparvalhado de Januário, pensou se não teria improvisado de mais. O que poderia acontecer a uma actriz inexperiente num papel, que nunca desempenhara?


Título: Re: A Gata dos Telhados XXVIII
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Novembro 07, 2020, 22:50:28
Agora, negócios, nem à  mesa nem na cama!  :fixe:


Título: Re: A Gata dos Telhados XIX
Enviado por: Nação Valente em Novembro 11, 2020, 19:32:36
XIX
-Há outra teoria que diz, que grandes negócios, se fazem na cama –disse Rosalinda, surpreendendo-se a si própria, e indo para além do que seria a sua “deixa.” – Ao mesmo tempo, e perante o ar aparvalhado de Januário, pensou se não teria improvisado de mais. O que poderia acontecer a uma actriz inexperiente num papel, que nunca desempenhara?

-A menina surpreende-me. Para além de tudo o mais, tem sentido de humor. Estou rendido – afirmou Januário, com um largo sorriso.
- Não será que se rende antes da batalha? De facto, ainda nem estamos nos preliminares, talvez estejamos nos “entretantos”. E antes de chegar à cama ainda há muito para andar. Vamos ver se chegamos à mesa. Decerto já percebeu que eu sou uma pessoa desinibida. Vim aqui para apresentar brinquedos, mas o nosso negócio, tem outras vertentes.
-Como assim- disse Jánuário - mostrando curiosidade.
- Uma empresa, nem sempre, consegue viver da produção de brinquedos artesanais. Para sobreviver, fazemos outros brinquedos, digamos mais “íntimos”. E eu, quando é necessário, também colaboro. Mas deixemos isso, não estão no âmbito das vossas exportações
- De maneira nenhuma – respondeu Januário – também não somos esquisitos. Exportamos, ou importamos, o que possa dar lucro.
Rosalinda riu para dentro, e pensou com os seus botões, “este patego está a cair que nem um patinho. Nem é preciso ser muito inteligente. Qualquer burra de saias, o levava à certa. Mas, com toda a modéstia, estou a sair-me bem. Nem o Joaquim esperava tanto.”


A advogada Laura de Castro estava sentada numa sala da penitenciária , à frente de Damião. Este olhou-a surpreendido, e perguntou de chofre:
-Quem é a senhora, e o que pretende?
- Sou advogada da sua mulher, Rosalinda, que me encarregou de o contactar, a fim de lhe perguntar se aceita que eu o defenda. Chamo-me Laura de Castro.
- Que é feito da minha mulher? Antes de ser preso tinha sido raptada, como me informou o detective JCorreia.
- A sua mulher foi libertada, pelo detective, na véspera do senhor ser preso. Nessa noite, decidiram que ficaria na casa dele, até se encontrar um sistema de segurança. No dia seguinte o senhor foi preso.

- A cabra ficou com o detective?  - interrogou Damião ,quase a ter um ataque de nervos -. Sempre achei que era uma puta, mas nunca me passou pela cabeça, que se enrolasse, com o porco velho. Devia ter-lhe partido os cornos, quando fui perguntar por ela.
- Acalme-se senhor Damião. A Rosalinda tem apenas uma relação profissional, e também de amizade, porque descobriram que são familiares. Pelo que sei a sua mulher nunca o traiu, apesar de se queixar de maus tratos.
- De maus tratos? – disse Damião, que perdera a compostura  – Todas as que levou ainda foram poucas. Às tantas foi ela que pôs a droga na nossa casa, para me f*der. Quando puder, não se fica a rir. Nem ela, nem o porco.
Modere-se senhor Damião – disse uma voz na sala – respeite a senhora advogada, que o vem defender.
- Modero-me o ca…pare se não tenho de intervir, interrompeu a mesma voz. – Quero essa serigaita daqui para fora.
- Senhor Damião. – respondeu Laura, procurando manter a compostura – o que está a dizer é muito grave. Chama-se violência doméstica. Volto a informar: a Rosalinda encarregou-me da sua defesa, e não lhe deseja nenhum mal, o que não significa, que queira voltar a viver consigo. Aceita ou não, os meus serviços?
- Não aceito nada que venha dessa cabra. Estragou-me a vida. Estou convencido, que o rapto, não passou de encenação, para se juntar ao velho gaiteiro.
-Muito bem, senhor Damião, voltaremos  a ver-nos, para falar do divórcio…


A campainha libertou JCorreia da vivência de um tempo passado, e até quase desconhecido de quem não o viveu. Levantou o auscultador e ouviu a voz melodiosa de Laura de Castro.
- Olá doutora, a que devo a honra do seu telefonema.
- Estive reunida com o senhor Damião. Quero informar que não aceitou  os meus serviços, e ainda tive de ouvir, uma série de impropérios. Acusou a Rosalinda de estar de “cama e pucarinho”, permita-me a expressão, consigo. O mais leve que lhe chamou, foi cabra, e ao senhor,  porco.
- Nada que me surpreenda, vindo do Damião. De cabras não sei muito. Porco, sabe o que me faz lembrar? Um animal que todos os anos entrava na casa dos meus pais, acabado de nascer, e que era adoptado, como um membro da família. Alimentado e bem tratado durante quase um ano. Depois abatia-se para nos ajudar a matar a fome. A matança do porco constituía, o único banquete do ano, para a nossa casa e para a de outros vizinhos.
Quando era mais pequeno nunca assistia a esse acto. Custava-me ver espetar uma faca na goela do animal, que durante tantos meses, vivia paredes meias connosco. Depois fui-me habituando. Percebi que não se tratava de um animal de estimação, mas de uma componente da nossa sobrevivência. A cerimónia da matança, feita com a ajuda dos convidados, passava pela recolha do sangue, e a seguir era chamuscado e lavado. O matador desmanchava-o, separando em diversas partes. As mulheres lavavam as tripas na ribeira, enquanto os homens comiam sangue cozido. À noite haviam de regressar para o banquete principal, composto de carne frita, e acompanhado com vinho de produção local. Homens na sala e mulheres na cozinha, fazendo a preparação da carne para fazer chouriças. E assim se fez até o meu pai partir para terras de França. Portanto, cara doutora, não vejo o porco como algo depreciativo.
 
- Claro, mas sabe que a palavra tem outras conotações, detective. Quanto ao que descreve conheço essa tradição quase extinta, através de descrições e documentários. Não assisti ao vivo. Sou menina da cidade. Aliás nunca tive uma família completa. Fui criada pela minha mãe e nem sei que é o meu pai, - concluiu Laura, notando-se alguma emoção na voz -.Mudando  de assunto, precisava de falar com a Rosalinda, para ver o que  fazemos a seguir.
- Lamento advogada a situação que descreveu. Por acaso a Rosalinda também passou por um processo idêntico, e ultrapassou-o. Ainda hoje foi numa missão algo complicada. Vamos ver como se sai. Depois falará consigo.

Continua


Título: Re: A Gata dos Telhados XIX
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Novembro 13, 2020, 21:03:46
Gostava do dia da matança do porco, mas era horrível ouvir os gritos do animal. E detestava o fígado que, nesse dia, tentavam impingir-me. Mas os rojões eram deliciosos.
Esse Damião é um cara podre. Embora este livro seja todo sobre gente muito suspeita, a que se juntou uma gata espevitada.

Abraço


Título: Re: A Gata dos Telhados XIX
Enviado por: Goreti Dias em Novembro 16, 2020, 16:01:24
Assisti e participei de muitas matanças de porco. Lá tinha que ser... Um dia correu-me mal!


Título: Re: A Gata dos Telhados XX
Enviado por: Nação Valente em Novembro 19, 2020, 20:54:42
XX
- Lamento, advogada, a situação que descreveu. Por acaso, a Rosalinda também passou por um processo idêntico, e ultrapassou. Ainda hoje foi numa missão algo complicada. amos ver como se sai. Depois falará consigo.

Laura de Castro saiu da Penitenciária com a convicção que Damião era um filho da puta. Um indivíduo que maltrata o seu semelhante, valendo-se do seu maior poder, não merece outro epíteto. Neste caso, era a sua própria mulher, a vítima,  mas se fosse outra pessoa indefesa merecia-lhe o mesmo repúdio. A sua mãe, hoje empresária de sucesso, mas que vivera tempos muito difíceis, procurara dar-lhe uma educação, baseada na fraternidade e no respeito pelos semelhantes. O pai, de quem ostentava o apelido, e que com a mãe continuara casado, mesmo depois da separação que ele forçara, pondo-a fora de casa, não era o seu pai biológico. A mãe, nunca lhe quis dizer quem era, limitando-se a informar que  resultara de um encontro fortuito, que queria esquecer.

Ainda tinha memórias de viver na casa de uma ama, onde recebia a visita da mãe, que lhe ocultava a sua profissão. Veio a saber mais tarde que vivia  da prostituição, de onde tirava proveitos para se sustentarem. Já frequentava a escola quando passou a coabitar com a mãe, num apartamento da outra margem da cidade. O pai, que não era, morreu de doença incurável, e nunca fez testamento. Deste modo Aida, a sua mãe, casada com comunhão de bens, herdou todo o património, o que lhe permitiu refazer a sua vida.
Apesar de as ter expulsado de casa, quando ainda vivia na barriga da mãe, e de nunca o ter conhecido, compreendia as suas razões, e tinha-lhe mais respeito, de que ao desconhecido pai biológico, que considerava tão filho da puta, quanto Damião. Sabia pela experiência da própria vida, que o amor e o ódio, eram extremos que se tocavam. Sentiu depois desse encontro com o marido de Rosalinda, uma vontade quase obsessiva de conhecer, desejo que sempre tivera, o seu verdadeiro pai, para lhe testar a consciência se a tivesse. Foi com este pensamento que chegou à fábrica, onde Aida, estava reunida com uma equipa de designers, tendo em vista o lançamento de uma nova colecção.

Aida quando a viu entrar, notou no seu semblante, um ar de preocupação, e interrompeu a reunião para a receber.
-Que cara Laura? –disse – que se passou?
- Peço desculpa mãe, por te interromper. Estive reunida com o preso acusado de tráfico de estupefacientes, na Penitenciária. Não aceitou os meus serviços de advocacia, insultou a mulher, o detective, e acabou por me faltar ao respeito. Isso, em si, não me incomoda, mas fez despoletar no meu íntimo, um sentimento de vingança, em relação a muitas injustiças, incluindo as de que nós fomos vítimas. Quer gostes ou não, estou decidida a saber quem te engradivou e a seguir nos deixou.
- Laura – respondeu Aida – não alimentes desejos de vingança. Remexer nesse passado, não vai alterar nada. A responsabilidade do que aconteceu também foi minha. Talvez um erro de juventude. Contratei JCorreia, porque quero fazer justiça, não em relação à minha vida pessoal, mas a amigas que não mereciam o que lhes aconteceu.
- Compreendo e apoio o teu objectivo, mas quer queiras quer não, estou determinada a avançar. JCorreia talvez me possa ajudar.
- És teimosa Laura. JCorreia foi um investigador policial que, enquanto agente da PJ, esteve ligado a processos importantes, e que redundaram em fracassos investigatórios. Hoje, não passa de um pobre diabo, que quer continuar a brincar aos polícias. Apesar disso, considero que me pode ajudar no meu plano de fazer a justiça que nunca foi feita, pelo conhecimento que tem desse passado. Foi uma promessa que fiz , em nome das vítimas de um assassino sem sentimentos. Sabias qual foi o primeiro grande processo a que esteve ligado. Foi ao caso que ficou conhecido como FP25.
- Pelo que vejo, a mãe está bem informada sobre o percurso do detective.
- Sim, a partir do momento em que nos cruzámos, no processo das FP25. O movimento Forças Populares de 25 de Abril, formados por militantes da extrema-esquerda, foi fundado em 1980, para combater o sistema parlamentar e capitalista, designação que davam ao regime saído da revolução de Abril. Pretendiam instalar um sistema basista de democracia popular. Apresentaram-se com rebentamento de petardos em todo o pais, assassinatos selectivos, de policias e empresários, assaltos a bancos, como forma de financiamento. Era então uma jovem empresária, que procurava salvar a empresa que herdara do meu ex-marido. Sofri ameaças desse movimento, relacionadas com eventuais despedimentos de trabalhadores. Foi durante a chamada operação Orion, em 1984, que me cruzei com o então agente Correia da PJ. Esteve na empresa como elemento da brigada antiterrorista, para recolher informações sobre as ameaças que tínhamos recebido. A operação Orion que começou com prisões no Porto, alargou se a todo país, o que permitiu, prender muitos operacionais, embora não tivesse levado ao seu desmantelamento. Foi quando foi preso e acusado o coronel Otelo, estratega do 25 de Abril, que sempre recusou pertencer às FP25. Depois voltaríamos a cruzar-nos no caso das prostitutas assassinadas. Tem, como podes ver, conhecimento sobre esses processos.


JCorreia retirou da garagem o seu velho MG descapotável, uma relíquia que comprara nos anos setenta, e que considerava uma, a das suas joias da coroa. Desceu até ao porto e viajou ao longo da marginal. Pareceu-lhe que regressava ao passado, a um tempo em que a vida não lhe pesava, e ia até ao casino do Estoril, derreter umas moedas, e procurar algum encontro ocasional. Percorreu a devagar a distância até ao Estoril, procurando fruir a paisagem, onde o rio e o mar se entrelaçavam num casamento eterno. O seu destino, não era o casino, mas uma casa rosa, disfarçada, numa rua discreta. Estacionou o MG, e esperou. Tinha a percepção, quase a certeza, que seria um lugar ligado a abusos sexuais.

Continua



Título: Re: A Gata dos Telhados XX
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Novembro 22, 2020, 21:19:41
As FPs 25 de má memória, mas a direita reacionária de memória idêntica . E depois, os arrependidos... Enfim, coisas da História.


Título: Re: A Gata dos Telhados XX
Enviado por: Nação Valente em Novembro 26, 2020, 20:34:12
XXI
O seu destino, não era o casino, mas uma casa rosa, disfarçada, numa rua discreta. Estacionou o MG, e esperou. Tinha a percepção, quase a certeza, que seria um lugar de abusos sexuais.

Ernesto Boavida viu o MG estacionado e estranhou. Tinha do seu lado duas razões: naquela rua periférica viviam sempre os mesmos carros; aquele MG antigo, além de ser uma viatura que não se via a circular, não fazia parte do cenário. Era um intruso. Quando se aproximou, viu sair do seu interior, uma personagem, para ele tão desconhecida como o veículo. Era um homem vestido com umas calças de ganga, bastante usadas, uma t-shirt amarela, e um blazer azul. Um rosto indefinido, de onde sobressaiam uns óculos escuros de tipo “raiban”. Uma boina basca disfarçava-lhe o couro cabeludo. À primeira vista pareceu-lhe uma personagem, algo exótica, saída dos anos sessenta. Juntamente com o carro dava a ideia de ter regressado de outra realidade. Quando passava ao lado do MG, tentando mostrar descrição, o desconhecido deu um passo em frente, soltou uma baforada de fumo, que lhe pareceu ser de charuto, e ouviu-o dizer, numa voz firme:

- Senhor Ernesto, dá-me um minuto do seu tempo?
Ernesto paralisou, e interrogou-se se não estaria a ter alucinações.
- Sou JCorreia, detective privado, e precisava de lhe dar uma palavrinha.
- JCorreia, o detective, que costuma ter o anúncio no DN? Muito gosto. Acredite ou não , sempre gostei de conhecer um detective de carne e osso. Conheço muitos detectives mas são todos feitos de papel e tinta, e cuja ação decorre em páginas de livros. Gosto particularmente de um chamado Dennis McShade, (Mulher e Arma com Guitarra Espanhola) pseudónimo do escritor português Dinis Machado, que se tornou conhecido pelo romance, “O que diz Molero”.  Abandonou a escrita, com muita pena de Lobo Antunes, seu amigo pessoal, que lhe reconhecia, grande talento. Mas voltemos à realidade. A que devo a honra de me querer falar?
-  Obrigado  pela disponibilidade. Também sou um detective de papel. Acabou de dizer que me conhece das páginas de um jornal. Quero apenas fazer-lhe umas perguntas, relacionadas com o seu desaparecimento…
- Desaparecimento? Interrompeu Ernesto, mostrando surpresa.
- Foi o que me disse a Idalina, sua mulher, que me encarregou de o procurar.
- A Idalina? Deve estar a gozar consigo, como gozou comigo. Julgava-o mais perspicaz. Essa grande cabra sabe que nunca desapareci. abandonei-a para não fazer um disparate. Enrolou-se com o gerente da empresa onde trabalha, um tal Januário Brilhante. Pôs-me os chavelhos, percebeu. E desconfio que não foi o primeiro. Culpa minha. Juntei-me com ela, apesar de todos os avisos “essa gaja não é de confiança, já tem historial”. Estava cego e surdo. Sabe como é, a carne é fraca, a garina era jeitosa, bem, e na cama, uma louca.
- Chega ,senhor Ernesto, não preciso de mais pormenores. Se estiver interessado há por aí muita literatura erótica. Se bem percebi, o senhor “deu de frosque” e ela teve essa percepção.
- Claro que soube. Disse-lhe na cara. Disse-lhe o que Maomé não disse do toucinho. Sou um cabrão, mas com a alma lavada. O que me apeteceu foi…enfim…não quis estragar a minha vida por causa de uma puta. Fiz o que tinha que fazer. Um homem tem a sua dignidade.
- Então tenho que concluir que a Idalina me mentiu. Há uma coisa que não percebo, porque raio me encarregou do encontrar. E há outra coisa que gostaria de saber: mora ou trabalha nesta vivenda rosa?
- Mudei-me para aqui. – disse  Ernesto , após uma breve reflexão. - Refiz a vida. A minha vontade era ter emigrado, para não voltar a ver as fuças dessa galdéria.
- Muito bem, vou fazer o relatório, entrega-lo à Idalina, e encerrar o caso. Agradeço  a sua colaboração. As minhas desculpas pelo tempo, que lhe ocupei.

Laura, embora nos anos oitenta fosse uma criança, e a política não fizesse parte do seu mundo, lembrava-se vagamente da existência das FP25, devido à sua mediatização. Na sua memória conservava registos de violência, bombas, atentados, perseguições políticas, sem muita noção de quem as praticava e quais as motivações. Mais tarde, percebeu que essa violência esteve ligada à extrema esquerda mas também à extrema direita. E como estudante de Direito conheceu em pormenor todo processo, incluindo a operação Orion de que a mãe lhe falava. E que foi possível à PJ, entrar dentro da organização, conhecer membros e acções programadas graças aos chamados “arrependidos” que passaram a informadores da polícia. Era uma adolescente quando aconteceu a morte das prostitutas, por um assassino que nunca foi descoberto. Seguiu o processo de perto por as vítimas serem conhecidas da sua mãe, que na altura se interessou por ajudar a resolver o caso. Aida mantinha amizade com Maria José que conhecera no tempo em que vivera naquele meio. Foi uma das testemunhas ouvida pelo inspector coordenador, da equipa de seis elementos, designada para investigar os crimes, Vítor Campos. Ficou muito desiludida com o rumo das investigações. Nem pistas, nem indícios. Nada. Estava convicta que o assassino estava vivo. E faria tudo para o encontrar. A utilização dos serviços do detective privado, o único dessa equipa, o então subinspector Correia, que ainda continuava ligado à actividade investigatória, era fundamental. Laura decidiu não carregar na tecla, da descoberta de quem era o seu pai. Continuaria a ajudar a mãe na sua intenção de fazer justiça. Como se diz, "uma mão leva a outra e as duas lavam o rosto"Quem sabe se não se aplicariam ao seu desejo.

JCorreia despediu-se de Ernesto Boavida, com um “fique bem”. Estava convicto que lhe estava a mentir. Quis dar-lhe a ideia que acreditava no que lhe dissera.  Não podia espantar a caça. Meteu-se no velho MG com destino a Lisboa. Ao passar perto do casino lembrou-se da última vez que ali estivera como jogador. Foi numa noite chuvosa de Março de 1975. Saiu da hospedaria onde vivia, depois de jantar, com destino a Paço de Arcos, onde vivia Irene, que alugara um apartamento com uma colega, numa nova urbanização pensada para gente nova. Irene e a sua amiga não lhe abriram a porta. Apercebeu-se que estavam acompanhadas. Foi então que decidiu ir para o Estoril, onde entrou no casino. A sala de slot machines estava quase cheia. Várias filas de máquinas ocupadas por viciados ou desesperados como era o seu caso. Quando saiu já noite velha, não tinha um tostão no bolso. Azar no amor, sorte no jogo, uma ova. Uma chuva forte não dava descanso ao limpa para brisas. Numa marginal quase deserta carregou a fundo, no acelerador do seu “mini”. Lembra-se de ultrapassar vários carros numa correria louca, mas chegou inteiro a casa. Irene ficara, de vez, para trás. No dia seguinte, o Processo Revolucionário em Curso, daria mas um passo no caminho da radicalização, depois do RALIS ser atacado por forças spinolistas. Para Joaquim Correia, na fase política, funcionou como um antidepressivo para o seu desencanto.

O MG, uma raridade, atraía olhares de mirones à sua passagem, perante a indiferença de JCorreia, embrenhado nos seus pensamentos. Ao aproximar-se do seu apartamento, pensava no que Rosalinda descobrira, para poder ligar às pontas que resultaram do seu encontro com Ernesto.


Título: Re: A Gata dos Telhados XXI
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Dezembro 01, 2020, 21:34:26
Vamos lá prosseguir cm este romance tão diversificado...

Abraço


Título: Re: A Gata dos Telhados XXII
Enviado por: Nação Valente em Dezembro 02, 2020, 21:50:06
XXII
O MG, uma raridade, atraía olhares de mirones à sua passagem, perante a indiferença de JCorreia, embrenhado nos seus pensamentos. Ao aproximar-se do seu apartamento, pensava no que Rosalinda descobrira, para poder ligar às pontas que resultaram do seu encontro com Ernesto.

Quando entrou no seu apartamento JCorreia encontrou Rosalinda, junto ao fogão, bem disposta e a cantarolar uma canção em voga em ritmo de fado, enquanto preparava a refeição que compensava um dia de trabalho produtivo. Recebeu-o com um largo sorriso.
- Bons olhos te vejam Joaquim. Estava a ficar preocupada. Liguei-te várias vezes para o telemóvel, sempre desligado.
-  Agradeço a preocupação, respondeu Joaquim, um pouco emocionado. Um solitário assumido e com laços familiares cada vez mais restritos, não espera que  alguém se preocupe com a sua pessoa. Mas não me queixo, foi esta a minha opção de vida. É o preço a pagar quando se privilegia a liberdade pessoal. Eu sei que o ser humano é, por natureza, um ser social, e não fujo à regra, mas por necessidade, ou por acaso, sacrifiquei a constituição de uma família, com mulher, filhos, netos, rotinas, a uma independência, sem compromissos. Reflexões filosófico/sentimentais à parte, ficas avisada que em trabalho, estou ausente do que não estou a fazer. Evito interrupções. Telemóveis ligados só atrapalham. E afinal o que estás a cozinhar? O cheiro já me está a fazer subir a testosterona.

- Tem maneiras Joaquim. Depois da lenga lenga sobre a solidão, arriscas-te a não pôr o dente no meu petisco. E não penses que é uma poção mágica que ressuscita o que está morto. É apenas um arroz de marisco, receita da minha mãe, que já vinha de família.
- Acredito, a minha mãe, também o fazia. Quem sabe se não é a mesma receita? Foi o prato que a minha mãe cozinhou, no dia do regresso do meu pai após, uma longa ausência.
Ausência? Interrogou Rosalinda, mostrando surpresa.
- Ausência primeiro dolorosa, depois aceite. Está tudo registado numa carta que ainda guardo. Se tiveres um pouco de paciência, enquanto esperamos, pelo teu petisco, vou relê-la. Costumo fazê-lo em silêncio. Como todas as cartas familiares a principal via  de contacto na época, começa assim.

Estimado  filho,
Espero que esta carta te vá encontrar de boa saúde. Nós por cá bem graças a Deus.


Não passava de uma frase feita, que estará em desacordo com o conteúdo.

Tenho que te dar uma notícia que te vai surpreender. O teu pai emigrou para França. Foi contra minha vontade. Teimou que tinha que ir, porque a lavoura estava a morrer, o contrabando a desaparecer, e queria ir para um sítio onde se ganhasse dinheiro. Ainda lhe disse que no nosso país, podia também arranjar outro trabalho, e que com quase cinquenta anos era muito arriscado. Não me ouviu e ainda teve que se endividar, pedindo oito contos ao António da venda, a juros, para pagar ao passador. Partiu à aventura, e eu é que fiquei com o coração nas mãos. Já não me bastava tu estares na tropa, e puderes ir para a guerra, cai-me isto em cima. Tenho andado num enervamento que só Deus sabe.

Esta ida do meu pai para França não me causou qualquer surpresa. Sempre vi o meu pai com uma insatisfação, e uma irrequietude que o levava, a recomeçar tudo de novo.
Anos antes, ainda era criança, lembro-me de se ter inscrito no programa do Estado Novo para ir para Angola. Recebia uma fazenda e outros apoios. A mãe disse “se quiseres ir, vais sozinho”. Acabou por ficar, mas porque o Estado não pagava as viagens, e não tinha possibilidade de o fazer. A seguir inscreveu-se no programa salazarista de colonização interna. Iria receber terra e alfaias na região de Pegões. A concorrência era muita e não foi selecionado.

Estive mais de duas semanas sem notícias, mas só agora te conto, porque não te quis preocupar, já chegam as minhas preocupações. Ontem recebi uma carta sua a dizer que já estava em França, um pouco abalado, mas bem. Diz assim:
Estou numa região que se chama val d`Oise, depois de uma longa viagem. Entrei em Espanha pela Beira Alta. Tivemos de passar a fronteira a salto, durante a madrugada, coisa que não me era estranha, a não ser o local. Depois fomos transportados por carro, viajando por estradas menos usadas, descansando em casas abandonadas ou palheiros. Em Hendaia passamos de novo a fronteira. Começou a parte mais dura. Tivemos que atravessar serros “à pata”. À partida éramos um grupo de quarenta almas.
Levamos cinco dias e cinco noites. No primeiro dia caminhamos por uma zona com árvores. Só parámos para comer. Quando anoiteceu dormimos numas casas abandonadas. No segundo dia, entrámos numa parte mais inclinada. Íamos por um caminho muito estreito. Caia um chuva miudinha. O piso estava muito escorregadio. As botas com pregos ajudaram-me. O passador avisou,  “tenham muito cuidado, se alguém escorregar, nunca mais se vê”. Houve um moço à minha frente que começou a deslizar. Consegui agarrá-lo com perigo para mim. Arranjei um amigo para sempre. No terceiro dia, o mais ruim, passamos pelos cimos mais altos, o nevoeiro cerrado era como se andássemos no escuro. O cansaço começou a sentir-se. O passador dizia: “ninguém para”. Na parte de trás alguém começou a atrasar-se “esperem por mim”. Ninguém para”. Ao anoitecer paramos junto a uma cabana, onde dormiam ovelhas. O passador enxotou-as para fora, para nos proteger-nos. O frio quase nos paralisava  Fez-se a contagem. Já faltavam dois. Os pés de gente muito mais nova estavam em sangue. No quarto dia escasseava a comida. Recebíamos chocolates para nos aguentarmos. No quinto dia chegámos junto a uma estrada, onde estava um camião. Dizia: Camião – Porcos. Entramos. Havia um bidon para fazer as necessidades.
O camião deixou-nos junto a uma pequena aldeia. Houve quem apanhasse um carro de praça, porque já levava morada de conhecidos. Eu fui encaminhado para uma "ferme", ou seja fazenda, que cultivava beterraba. O patrão fez-me os papéis “carta de trabalho” que tenho que levar ao consulado para me legalizar
.

O meu pai havia, mais tarde, deixar esse trabalho, ingressando na fábrica onde se fazia o açúcar.

O cheiro do cozinhado de Rosalinda, era cada vez mais intenso. JCorreia, respirou fundo.
- Vamos lá provar essa delícia. Recordar esta história fez-me fome.
A refeição foi feita em quase silêncio, acompanhada de um branco de Borba. JCorreia não se cansou de elogiar a cozinheira, mas faltava uma surpresa. Rosalinda tirou do forno um bolo de maçã. Correia ficou sem palavras, e pensou de si para si. Com uma mulher assim talvez tivesse hipotecado a sua vocação de solitário. Voltou a elogiar a cozinheira.

- Estou rendido Rosalinda. Não há dúvida, pela boca morre o peixe, mas diz-me: como correu a tua diligência na empresa de import/export.

- Correu muito bem. Meti o gerente, um tal Brilhante, num chinelo. Não sei se é mérito meu, se é ele que é choninhas. Tenho-o na palma da mão. Acreditou na patranha que somos empresários de brinquedos e produtores de pornografia. E deu a entender que fazem esse negócio, com outras repercussões. Agora tenho de descalçar outra bota. Está convencido que estou presa aos seus encantos. Se pensa que vai sentir a macieza da minha pele, ou pôr as pernas em cima ou em baixo das minhas, pode tirar o cavalinho da chuva. Não sou nenhuma santa, e tenho os meus desejos, mas não era com um gajo com cheiro a brilhantina, que trairia o ainda meu marido.
- Muito bem, disse Joaquim, continuas  a surpreender-me. Mas não quero que te ponhas em risco. Hoje estive a falar com o Ernesto. Disse cobras e lagartos da Idalina, mulher ou suposta mulher. Acusou-a de ser amante do tal Brilhante, e de a ter abandonado. Essa empresa e a casa rosa, parecem-me ser duas faces da mesma moeda. Coisa feia. Também tenho de te informar que o Damião, não aceitou os serviços da Drª Laura, e ainda te descompôs. Vais ter de te reunir com ela, para resolver a tua relação com o Damião.
- Amanhã, se nos receber, falaremos com ela, disse Rosalinda.
Continua