EscritArtes

Textos => Crónicas => Tópico iniciado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 21, 2020, 15:41:53



Título: História de um brinco
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 21, 2020, 15:41:53
           Quarta-feira de manhã, ao olhar-me ao espelho da casa de banho na primeira visita ao local, verifiquei que me faltava o brinco da orelha esquerda.
          -Deve estar perdido numa dobra da cama, da coberta, de um lençol, dentro da fronha, com certeza, pensei.
          E não me preocupei muito com o assunto. Na primeira limpeza aos meus aposentos privativos, ele iria acenar-me de algum canto,  pedindo-me para o tirar de lá e colocá-lo sobre a mesa-de-cabeceira, onde, entretanto, havia colocado o outro. Não seria desta vez que se iria cumprir a fatalidade de eu perder o par de um objecto, como sou useira e vezeira. O primeiro, que me lembre, tinha eu dezasseis anos, e, depois de ir à rua, cheguei a casa sem ele, para nunca mais o ver, deixando desirmanado o outro companheiro das minhas orelhas.
          Todavia, já de noite e depois de ter dado umas boas voltas à procura do perdido – levantar lençóis, cobertas, espreitar de baixo da cama e de todos os móveis deu-me para ir abrir o “ guarda-jóias” – aspo a palavra porque, de jóias, o que lá está guardado, tem pouco. Confesso não ser grande apreciadora de ouro e prata. Tenho a certeza de que, quando morrer, me desapego melhor dos farrapos, sandálias e sapatos. E também sou menos sedutora para os ladrões. Na verdade, nunca ninguém tentou, verdadeiramente, abrir-me, ou roubar-me o coração, esse sim, uma jóia em bruto. Na maioria das vezes e usando uma chave falsa, só suscitou a curiosidade a brutos, com pouca sensibilidade para o abrir como eu abri, às duas da manhã de quinta-feira, o meu rudimentar guarda-jóias. Enfim, Riam-se à vontade, que eu faço o mesmo.
          Na minha desenfreada procura nocturna, eis que tive de desemaranhar fios de prata, alguns partidos, inúteis e escuros pelo tempo, tendo simultaneamente verificado que me faltava um anel preto de bijutaria, um brinco de ouro, outro de prata, a que, se Deus quisesse, no dia seguinte e após uma procura mais minuciosa, não se iria juntar o mais recente desaparecido. A fuga, desaparecimento, ou fosse lá o que fosse, iria ser muito provisória.
          E, com um cinto, amarrei o Diabo à perna de um banco, enquanto guardava o responso a Santo António para melhor oportunidade.
           No dia seguinte, antes de despir o pijama, e sem que para tal houvesse feito planos, eis-me a desfazer a cama, a munir-me de aspirador, pano de pó baldes, e demais necessários a uma boa escanhoadela, a ver se encontrava a coisa perdida, num canto qualquer para onde uma formiga obreira a tivesse transportado, só para gozar comigo.
          Ao fim do dia, costas derreadas, suor abundante e casa num brinco, a minha desilusão era grande. Afinal, não encontrara o que procurava há mais de 24 horas. A única vantagem era de que ficara com tudo arrumado, e 99,9 por cento de certeza de que o brinquinho tinha ido pela sanita abaixo, numa das minhas visitas nocturnas e de luz apagada à casa de banho. O meu sono é ruim como a ruindade, e, uma vez desperta, nunca mais o encontro.  Por isso não pode ver senão uma pequena luz de presença para não se espantar de vez.
          E, desta maneira, dei como perdido o meu brinco, que, na minha companhia, já levava mais de trinta sólidos e bons anos de amizade.
         Depois, numa adaptação, do ditado sobre os anéis, decidi-me por estabelecer para mim um novo adágio: “vão-se os brincos, fiquem as orelhas”, apetecendo-me, entretanto, mandar, sanita abaixo, o brinco sobrante, agora triste e sem par. Mas contive-me, não fosse o Diabo andar a brincar às escondidas comigo, até me apresentar o brinco no local mais inusitado e onde eu nem sequer o perdera.
          Ao fim da tarde, despi o pijama das limpezas, tomei banho, pu-lo depois a lavar na máquina com mais umas pecinhas, estendi-as a todas ao lusco-fusco na minha marquise e fui dormir, com a casa limpa mas, um pouco mais pobre com a prata que perdera no fundo de uma sanita, que não iria escavacar só para encontrar uns gramas de AG.
         Hoje de manhã, mesmo antes do pequeno-almoço, com este tempo de Agosto meio marado, resolvi ir de imediato à marquise ver da roupa. Como estivesse seca, comecei  a apanhá-la.
         Eis senão quando, vejo o brinco pendurado e devidamente fechado na renda da parte superior de trás do pijama…
          Assim, andara eu sempre com o meu brinco às costas, sem nunca ele se manifestar.
         E agora digam comigo:
          - Ele há coisas do Diabo!


Título: Re: História de um brinco
Enviado por: Goreti Dias em Agosto 23, 2020, 16:38:35
Como disse em outro lugar, pior mesmo é procurar os óculos na cabeça.


Título: Re: História de um brinco
Enviado por: Nação Valente em Agosto 30, 2020, 17:46:04
As palavras são como as cerejas, umas trazem as outras. Difícil é colocá-las na ordem devida. É o que acontece nesta história do desaparecimento do brinco. Uma delícia. E a imagem do cofre do coração, um achado.
Abraço


Título: Re: História de um brinco
Enviado por: Maria Gabriela de Sá em Agosto 30, 2020, 20:33:39
 :woot: ahahahah, Nação Valente...