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Textos => Letras => Tópico iniciado por: Guacira em Agosto 02, 2008, 23:03:56



Título: "Escreveu, remeta" ; fragmento (Guacira Maciel)
Enviado por: Guacira em Agosto 02, 2008, 23:03:56
Às vezes gosto de escrever ouvindo música. Assim, acabei de ouvir uma que me disse: “se escreveu remeta”... Eis o resultado:
Palavras são pontes estendidas entre as pessoas, e entre elas e o eterno, através de laços que se vão (re) estabelecendo, uma vez que creio existirem por obra da natureza, se a entendo como sendo única. Quando disse o que aqui vai registrado, deixei de dizer mil outras coisas que me viriam à cabeça, se não tivesse que fazer uma opção. Caso contrário, este resultaria num texto/desabafo, cujo nexo, além de mim mesma, poucos entenderiam...
A arte (como a filosofia) não é vital para a sobrevivência, sob o ponto de vista utilitário, entendendo-se que ela não existe para resolver nada, mas para transportar-nos a algum lugar; por isso, arte não se aprecia; vive-se; ou não!
Analisada sob esta ótica, poderia (até) entender Platão em sua “República”, quando considerou os poetas seres inúteis à sociedade, sabendo-se que ele descreve ali, o diálogo no qual Sócrates imagina uma cidade ideal, fundamentada no conceito de justiça, e onde descreve uma educação que pudesse formar homens “com certa natureza filosófica”, principalmente quando se refere à classe dos guardiões, cuja educação deveria ser à maneira tradicional grega, isto é, o aprimoramento do corpo, através da ginástica e da alma, através da música (arte).
Paradoxalmente, um dos objetivos lá do livro X é o de evidenciar que os poetas não têm conhecimentos (episteme) verdadeiros sobre os assuntos dos quais falam tão bem, iludindo os ouvintes pelo encanto que a poesia traz no seu âmago, associada à pior parte da alma, uma vez que a parte racional, mais sábia, é que deveria governar as outras. Mais adiante Platão ainda negaria o valor das artes, como básico para o conhecimento e compara a atividade do poeta à do pintor e assim, a obra de um e de outro, por conseqüência, “são objetos aparentes desprovidos de existência real” por serem feitos através da mimese, que está definida como algo cujo produto está “três graus afastado da realidade”.
Como disse antes, no contexto específico, estaria sendo condescendente com o paradoxal raciocínio do filósofo, se percebemos que a proposta seria formar guardiões “com certa natureza filosófica” e se sabemos que imagens construídas pela pintura ou poesia ou dança ou outra linguagem artística levantam questionamentos guiados por conceitos a partir dessas expressões, para os quais não há respostas prontas, nos estimulando a pensar sobre questões, como o sentido da vida; relação entre arte e verdade; amor ou inevitabilidade da morte. A arte não existe para satisfazer as necessidades estéticas, estando, assim, sujeita ao sabor do gosto de cada um. Ela nos remete, sim, à reflexão, saindo da tirania dos sentidos e dos sentimentos. Quantas vezes, ao apreciar uma obra da arte plástica, por exemplo, somos incontrolavelmente impelidos a tocá-la? Pois, essa vontade não se constitui o resultado de um estímulo puramente mecânico; ela é gerada no pensamento, vez que determinados comportamentos são a materialização dos nossos  estados interiores, do nosso sentir! E fico a me perguntar: quais os caminhos que ela percorreu? Como se deu esse processo? Como essa vontade foi internamente elaborada, para chegar a esse resultado?  Não, eu não tenho estas respostas. .Apenas creio que o artista torna real o que alguns considerariam impossível, se a linguagem artística incorpora a visão da Física Quântica, em que o fundamento da realidade é o indeterminismo, ou seja, a possibilidade...



Título: Re: "Escreveu, remeta" ; fragmento (Guacira Maciel)
Enviado por: Laura em Agosto 03, 2008, 18:36:45
Excelente reflexão sobre a arte, Guacira. Acho que foi Salvador Dali quem disse um dia que "a arte é tudo aquilo que é absolutamente inútil". E este inútil é, naturalmente, uma ironia. Se existiu um momento da criação, este foi uma obra de arte. Arte é criação e expressão e auto-conhecimento. Pode ser metódica, pode ser caótica e espontânea. Mais do que a sua utilidade, o que deve ser avaliado é a necessidade que temos dela. Ou o que seríamos nós, na sua ausência.
Abraço,
Laura


Título: Re: "Escreveu, remeta" ; fragmento (Guacira Maciel)
Enviado por: Guacira em Agosto 03, 2008, 22:43:54
Obrigada, queridas; às duas, Laura e Dite, pelas reflexões e comentários.
Beijo,
Guacira.


Título: Re: "Escreveu, remeta" ; fragmento (Guacira Maciel)
Enviado por: Goreti Dias em Agosto 04, 2008, 06:39:19
O utilitário não se confina ao que usamos, ao que nos permite sobreviver ou vegetar... Útil é aquilo que nos faz felizes. A arte, seja qual for a sua vertente, é útil na medida em que cria sensibilidades geradoras de entendimentos e relações humanas mais estáveis. Em última análise, um ser humano que aprecie a beleza de um quadro representando uma bela paisagem, dificilmente concordará com o lançamento de uma bomba atómica ou se tornará, para ser menos radical, num incendiário de florestas.
Apreciei o texto por completo!
Um abraço


Título: Re: "Escreveu, remeta" ; fragmento (Guacira Maciel)
Enviado por: Guacira em Agosto 04, 2008, 10:07:35
Obrigada, Goreti.

Pois... a utilidade à qual se refere o texto, é aquela imediatista, sem a compreensão e condição de fruição, tão comuns na contemporaneidade...Entendo que ela seja, realmente, possibilidade interna; não "pertence" a nada...é fugaz e transitória...
Abraço,
Guacira.