EscritArtes

Geral => As nossas leituras - Espaço de opinião => Tópico iniciado por: Tim_booth em Setembro 01, 2008, 17:55:34



Título: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 01, 2008, 17:55:34
Citar
    Siddhartha escutou. Era agora todo atenção, todo mergulhado no escutar, totalmente vazio, impregnando-se por completo; sentiu que aprendera agora a escutar até ao fim.

- Hermann Hesse, Siddhartha

(http://static.publico.clix.pt/docs/cmf/autores/hermannHesse/capaGRANDE.jpg)

Ora aqui está um livro que é polémica garantida. As opiniões acerca de Siddhartha são, provavelmente, as mais dispersas e antagónicas que já ouvi em relação a qualquer livro. Se para uns este é o livro de uma vida, para outros é apenas mais um livro como muitos. Eu sou um dos outros - a polémica começa aqui.

Mas já lá vamos. Antes disso convém, para aqueles que ainda não leram a obra, dizer de que trata então Siddhartha. Este é, tal como A morte de Ivan Ilitch, um livro sobre a vida, especificamente sobre a vida de um jovem, filho de um brâmane, também ele a caminho de se tornar brâmane, um sacerdote hindu, de seu nome Siddhartha. O seu nome é composto por duas palavras sânscritas - siddha (o que tem) e artha (significado) - que juntas significam “aquele que encontrou o significado”. Este era também, de acordo com a história, o nome de Buda, conhecido como Siddhartha Gotama. No livro, o Buda é apenas identificado como Gotama.

Mais do que um livro sobre a vida, é sobre uma viagem, interminável para a maioria dos homens, a busca do significado da vida, a verdadeira essência da filosofia, a procura eterna do conhecimento. Esta é a premissa de Siddhartha.

Um dia, o jovem Siddhartha decide que já aprendeu tudo o que conseguia aprender com o seu pai e os outros sábios. Parte, então, da sua terra natal na companhia de Govinda, seu amigo de infância, e junta-se a uma tribo nómada, os samanas, uma tribo que vagueia pela terra em busca do conhecimento e que domina as artes de jejuar e da retórica. Siddhartha e Govinda ficam com eles durante alguns anos, aprendem tudo o que podem deles mas, inevitavelmente, chegam à conclusão de que os seus mestres não vão ser capazes de lhes ensinar a verdade que procuram. Ouvem então falar de Gotama, um monge que se diz ter atingido o nirvana e partem na esperança de se juntarem aos que o seguem. Siddhartha à frente, sempre acompanhado de Govinda.

Govinda, ao ouvir os ensinamentos de Gotama decide juntar-se aos monges que o seguem, tomando assim a primeira decisão autónoma da sua vida já que Siddhartha prefere continuar o seu caminho. Os dois amigos despedem-se emocionados. Ao abandonar a aldeia onde os monges se encontravam, Siddhartha cruza-se com Gotama, fala com o mestre explicando-lhe as razões porque não fica junto dos seus discípulos numa conversa que o marcou para sempre.

O livro continua a descrever a eterna viagem de Siddhartha em busca de conhecimento, de si próprio e da vida, que o leva a experimentar praticamente tudo o que no mundo há para experimentar, até que, eventualmente, a sua busca cessa.

É um livro filosófico, indiscutivelmente. É um livro bem escrito, indiscutivelmente. É um livro com mensagem e que nos faz pensar, indiscutivelmente. Então porque é que para mim é só mais um livro? Preparem-se, esta é a frase polémica: porque, para mim, não passa de um livro de auto-ajuda muito bem escrito, uma espécie de O segredo mascarado de obra literária. Quase que consigo ouvir o queixo do leitor a cair com tamanha alarvidade escrita. Mas eu explico.

A mensagem que o livro traz é simples: podes procurar o que quiseres, aliás, deves procurar o que quiseres, mas as respostas para todas as tuas dúvidas estão dentro de ti. Só tens de aprender a escutar-te (escutar o rio, no livro, que alegoricamente se refere a todas as experiências acumuladas ao longo da vida) e atingirás o conhecimento. O que há de errado com esta mensagem então? A palavra . A obra apresenta estas conclusões como se atingir a paz espiritual fosse apenas uma questão de vontade, mesmo tendo em conta toda a viagem do protagonista até este se aperceber disso. Não é passada a dificuldade, ou pelo menos eu não a percebi ao longo da leitura, esperada para uma tarefa desta natureza. Nada é assim tão simples, não basta parar um pouco e pensar sobre aquilo que vivemos para descobrir o sentido da vida. Este é o meu grande problema com o livro.

A outra quezília que Siddhartha e eu temos está na própria mensagem que não é, pelo menos para mim, nada de novo. Ou seja, quem já se debruçou e gastou algum tempo a reflectir sobre o sentido do mundo certamente já se deparou com a ideia de que todas as respostas só se encontram dentro do próprio ser e da própria vida e não em qualquer livro ou enciclopédia. Quando leio um livro, especialmente um livro filosófico, espero que este me levante novas questões, me traga respostas diferentes, não que me apresente conclusões que eu já tirei.

Apenas por isso Siddhartha não significa para mim tanto como significa para outras pessoas. Admiro, ainda assim a qualidade da escrita de Hesse, que não sendo a mais brilhante que alguma vez li, é de génio. Gostava de saber ler alemão para a aproveitar ainda mais. No entanto, Pedro Miguel Dias foi o tradutor da edição que li (capa na imagem) e confio no seu trabalho.

Agora disparem à vontade, apresentem os vossos argumentos, contrariem os meus, espero sinceramente que me consigam mudar a opinião àcerca deste livro, todos sairíamos a ganhar.

Publicado originalmente aqui (http://livrosemcriterio.eraumavezumrapaz.net/?p=25).


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 01, 2008, 21:07:31
E eu vou lê-lo!


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 01, 2008, 23:31:48
Estava mortinho para ler a tua resposta Laura, adoro uma boa argumentação.
E devo admitir que a tua foi brilhante: primeiro porque encontraste uma citação do livro bem melhor que aquela que escolhi para iniciar a minha crítica (apesar de a minha escolha se concentrar mais no final já que era esse o ponto que queria ilustrar), depois porque a mesma citação foi resposta perfeita a parte da minha argumentação, mas atenção, não a toda.

Ora bem, primeiro deixa-me dizer-te que provavelmente conseguiste extrair mais do livro porque, tal como tu mesma disseste, a minha leitura foi forçada. Da primeira vez que o li não passei de meio, da segunda li todo, mas, sem vontade nem grande gosto. Como tal é provável que algumas das pérolas de que falas me tenham passado ao lado (e passaram).

Mas nem por isso concordo com tudo o que dizes. Comecemos então pelos pontos:

1. A meu ver, penso que neste ponto te expressaste mal, isto porque todas as pessoas inteligentes foram sempre inteligentes, no entanto, começaram sem saber nada de nada. A inteligência difere da sabedoria. Por isso discordo de que todas as pessoas inteligentes tenham começado por ser idiotas, apesar de concordar que todos os sábios começaram por ser ignorantes - mas mesmo assim Siddhartha não inovou aqui: Sócrates já dizia o famoso Só sei que nada sei...

2. Este ponto que apresentas aqui, foi um dos tais que não descobri na leitura, apesar de agora me parecer extremamente evidente. E é um daqueles que vai levar um redondo não. Pelo menos para mim, não. Não consigo instantaneamente (ou ao longo de muitos anos) compreender tudo ao ver uma folha a flutuar no rio; além disso isto vai um pouco de encontro ao ponto 3 - se tudo pudesse ser absolutamente compreendido com uma coisa tão simples, de nada adiantava encontrar na vida pessoas mais sábias e humildes, se todas as nossas respostas estavam respondidas...

3. No question there, e tanto o livro como a tua argumentação me fizeram compreender ainda mais isso.

4. O tal amor universal de que falas é utópico. É practicamente uma definição alternativa do estado de Nirvana no Budismo. Isso vai de encontro aquilo de que falei durante a crítica, se tudo fosse tão fácil de encontrar como Hesse nos faz crer, então todo o mundo seria feliz e viveria em paz e harmonia. Isto vai precisamente de encontro à minha maior quezília com o livro: não basta procurar para encontrar. Um homem pode procurar a vida inteira, muitos já o tentaram, sem nunca encontrar as respostas que procura.

É isso precisamente que te faltou refutar na minha argumentação: Siddhartha procurou e encontrou. O que há de diferente nele em relação a todos os outros homens que procuram e não encontram?

E talvez, Tim, isto não te diga nada. Porque já sabes tanta coisa. Mas para mim, foi uma revelação.

Percebo que nas minhas palavras se note algum tom de arrogância, mas não foi minha intenção, acredita que não. Não me julgo mais entendido que ninguém em coisa nenhuma (mentira, até tenho um certo orgulho irritante em algumas coisas mas não neste campo, que fique claro) mas aquilo que o livro me disse eu já tinha percebido sozinho, disse-o como a mais pura das verdades. Não foi um feito extraordinário chegar a uma conclusão que já milhares de pessoas chegaram antes de mim, como não é superior ao facto de ler uma conclusão antes de reflectir sobre o assunto, ou reflectindo, encontrar soluções díspares. Pareceu-me que, com esta tua última frase, te sentiste ferida com alguma arrogância que admito que se possa encontrar nas minhas palavras mas que lá existe contra a minha vontade. Espero que agora percebas isso.

Ainda assim fizeste-me descobrir algo novo no livro, concordando ou não, é sempre mais um ponto a favor de Siddhartha - agora venham mais e a continuação desta argumentação que as boas discussões são sempre interessantes para todos!

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Djabal em Setembro 02, 2008, 11:22:09
"Gastei muito tempo e ainda não cheguei ao fim, para apenas aprender isto: que não se pode aprender nada! Acho eu que a tal coisa que chamamos “aprender” de fato não existe.
Existe, sim, meu amigo, uma única sabedoria que se acha em toda a parte. É o Átman, que está em mim e em ti e em qualquer criatura.
E por isso começo a crer que o pior inimigo dessa sabedoria é a sede de saber, é a aprendizagem." Herman Hesse, in Siddartha

O Oriente se destaca do Ocidente como duas partes de uma laranja, se olharmos a questão sob um ponto de vista mais amplo, mais geral. Aquela civilização aprendeu por ver, por meditar,por sentir e livrar a mente do pensamento; após muitos e muitos milênios de aprendizado formal.
Desse pensamento que exige a razão, a lógica para tudo. Essa forma de pensar ainda é útil para algumas coisas, porém se mostra falha, à medida que subamos mais e mais na escala da compreensão. Nós podemos constatar que a lista das nossas ignorâncias é vasta, muito mais do que a mais completa lista dos saberes.
Aprendemos muitas coisas, mas não nos livramos das doenças, da velhice e da morte. E essa questão angustia aos orientais.
Aprendem vendo, aprendem meditando calmamente, na loucura que é a vida. Tirando momentos para sentir que fazemos parte integrante do mundo inteiro. Que o ar que você expira,será também inspirado por chim, subsequentemente. E o impacto o valor e as consequências disso tudo ainda é ignorado e não sentido por nós todos, quase todos. Existem momentos de lampejo na literatura que Eça lembrou num conto particularmente belo.
São problemas que ainda não passam com a gravidade devida pela mente do Ocidente. A nossa civilização ainda está ou é carente por acumular coisas.
Fernando Pessoa também se viu preso nessa contradição entre o saber e o sentir e disse uma frase miraculosamente bela, a respeito:
"O mundo exterior existe como um actor num palco: está lá mas é outra coisa." in Livro do desassossego, através de Bernardo Soares.

Assim para você se convencer ou não do valor desse livro, tente se livrar dessa maneira de ver as coisas, veja você mesmo como um ser integrante do mundo inteiro, e que por mais que se faça, ainda existirá a doença, a velhice e a morte, portanto, a solução não está no saber, está em encontrar um caminho para que você passe e bem por esse período chamado vida, entre dois momentos do não existir, o antes e o depois. E é assim que me vi convencido, por não conseguir definir precisamente o que é uma flor, muito menos conseguir explicar o que é eletricidade. Por mais sábio que seja o homem, a ele não está dada a graça de saber, só de sentir.
Ah, lembro-me ainda de um argentino genial chamado Borges, que poderá ilustrar nossa discussão num conto chamado 'Formas de uma lenda" e em "Aleph". Tudo poderá ficar mais claro, ou mais obscuro. Depende de nós mesmos.
Peço desculpas por me estender dessa forma.
Um grande abraço e felicito-o por levantar uma conversa tão intrigante e de forma tão honesta.





Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 02, 2008, 13:12:08
É verdade Djabal, que talvez a chave para a compreensão de Siddhartha esteja na visão claramente oriental com que o livro é escrito. Talvez apenas lendo com uma mesma visão oriental se consiga atingir a plenitude daquilo que nos é transmitido por Hesse. Por outro lado, lembro-me que Hesse é alemão e que, provavelmente ao escrever, tentou fazê-lo de maneira a ser um livro multi cultural, acessível a todos os povos já que ele mesmo é uma mistura de Oriente e Ocidente (viveu alguns anos na Índia, durante a infância). Ainda do mesmo lado, lembramo-nos que estamos na chamada "aldeia global", já não é tão difícil assim entender as culturas que nos são distantes pelo simples facto de que não são tão distantes assim, só desta maneira somos capazes de entender, pelo menos, os conceitos básicos de budismo e hinduísmo que Hesse fala ao longo do livro.
Admito, no entanto, que mesmo tendo um conhecimento completo da cultura oriental, nem assim a somos capazes de experienciar e limitamo-nos a observá-la da nossa esfera ocidental, talvez até a julgá-la sob os nossos parâmetros ocidentais, o que, tal como o Djabal disse, pode contribuir para uma sub-apreciação da obra.

Grato pela sua resposta Djabal, não tenha medo de se alongar. As discussões querem-se alongadas, racionais e interessantes.

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Djabal em Setembro 02, 2008, 13:42:31
Mais uma contribuição, agora poética e portuguesa, para a nossa 'discussão' a respeito:
"Lição de Buda

Não creias em nada
Não creias em nada seja qual for o livro
Que tenhas lido a pedra
Onde esteja gravado
Não creias em nada seja quem for
Que te tenha dito
Não creias em nada
Ainda que eu próprio o tenha dito
Não creias em nada
A não ser que a tua mente a tua razão
Em vazio desfeita
Tenha dissolvido o sim e o não
Não creias em nada
Sequer no vaso onde se fundem a noite
As estrelas e as águas do mar
Que nada são nada sabem
Porque não há nada
Que se possa segurar.

Casimiro de Brito"

Acabo de conhecer essa poesia publicada na revista Poesia Sempre, n.26 editada pela Biblioteca Nacional.

Outro grande abraço.



Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 02, 2008, 19:31:25
Djabal, esta Lição de Buda vem ainda dar mais argumentos a ambos os lados da barricada...

Citar
Não creias em nada seja quem for
Que te tenha dito

Laura, as discussões querem-se animadas! Vamos lá ver se mais gente se junta à nossa conversa...


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Dionísio Dinis em Setembro 02, 2008, 19:36:31
E se sentíssemos o livro de Hesse em primeira instância e só de seguida tentássemos perceber e intelectualizar o tema tratado?
Dar, por vezes, o primado às sensações, não deve trazer mal maior ao mundo!


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 02, 2008, 19:38:50
E se sentíssemos o livro de Hesse em primeira instância e só de seguida tentássemos perceber e intelectualizar o tema tratado?
Dar, por vezes, o primado às sensações, não deve trazer mal maior ao mundo!
Um dos problemas com este livro para mim foi precisamente esse: ele não me fez sentir nada. Não consegui sentir nada. Talvez por isso tenha intelectualizado tanto o assunto, à procura da sensação que certamente Hesse lá deixou. Mas, mais uma vez reafirmo que foi uma leitura forçada...


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Djabal em Setembro 02, 2008, 19:50:11
Sim, ele dá argumento para ambos. Lembre-se que o ideal oriental é sentir. Não intelectualizar. Eu mesmo confesso que tive grandes dificuldades para entender (creio que ainda não o consegui) como sentir sem um aprendizado escrito.
Fiquei com o seguinte: vendo o mestre, ouvindo histórias que façam com que você 'desperte' para um sentido mais amplo daquilo que é explicado.
As histórias dos mestres taoístas são famosas por despertar o  interior do ouvinte para sentidos mais amplos, comparados com a simples leitura de um texto.
E talvez o motivo seja esse: os olhos vêem simultaneamente: ao passo que o  transcrito é sucessivo, porque a linguagem o é.
Aceito o seu desafio, e aguardemos os nossos amigos. Que eles também entrem a conversar.
Um grande abraço.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 02, 2008, 20:04:15
Fácil foi a sua leitura

Esquecendo a mensagem, ajudaste-me a encontrar aqui uma falha na escrita de Hesse. Não senti minimamente a dificuldade da vida de Siddhartha. Ele queria aprender com os Samanas, aprendia. Quis viver com o povo das crianças, viveu. Quis ser mercador e tornou-se rico, percebes o que quero dizer? A dificuldade da vida de Siddhartha não passou, pelo menos não a mim.

Quanto ao "O Fio da Navalha", tenho de confessar que nunca ouvi falar no livro - que tal uma critica aqui para este espaço?

Citar
Quanto ao amor universal, é para mim algo de absolutamente indiscutível. Não posso apresentar-te provas. Só quando largares os bits e bytes de vez...

Anseio pelo dia... :)

Djabal, tem razão quando diz que a aprendizagem tem de ser mista. Concordo que apenas os textos não chegam para aprendermos e que sozinhos dificilmente conseguimos tudo. Este livro tem esse condão: de despertar as pessoas para discussões, tanto à volta do próprio livro como das questões maiores de que ele fala...

Vamos, vamos! Mais opiniões, mais!

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 02, 2008, 20:12:29
E achas que é fácil, seguir o coração? Claro que não sentiste...
Não é fácil seguir o coração, mas a vida dele foi desde o seu nascimento preparada para a busca do conhecimento, ele ia-se tornar num Brâmane...


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Guacira em Setembro 06, 2008, 20:05:26
Laura,
você disse tudo! Venho acompanhando a discussão e, creio, só agora veio à luz sua essência...
Respondam-me: é fácil seguir o coração?
Quando aprendermops a fazer isso, teremos aprendido...sem necessidade de intelectualizar; ela estará dispensda!
beijo,
Guacira.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 06, 2008, 20:13:48
Posso ainda atirar mais achas para a fogueira: o que é seguir o coração? Fazer tudo o que nos apetece? Fazer tudo para sermos felizes? Sem olhar a meios? Se o destino do nosso coração se atravessar em obstáculos humanos, o que fazer? Como se define, então, o que é seguir o coração?

Só estou a manter o tópico activo :D

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Guacira em Setembro 06, 2008, 23:20:02
Você está sendo MAAUUU!!

Não creio...fazer o que nos apetece seria seguir a cabeça e/ou os instintos, as vontades...quando entendo algo com o coração, entro numa dimensão mais ligada à sensibilidade e à espiritualidade.
Assim me posicionaria quanto a seguir; ouvir o coração, sem ser piegas. Dessa forma, se o escutamso não nos deparamos com nossas humanidades como obstáculo, mas como aprendizado.
Guacira.

   


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 06, 2008, 23:33:24
Assumindo então que todo o homem possui um lado espiritual, aceita-se também que existam homens que negam o seu lado espiritual - serão eles capazes de seguir o coração? Será essa negação de espiritualidade o próprio caminho que eles devem seguir?

(Isto já vai bem longe de Siddhartha, agora é só discussão filosófica mesmo...)


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Guacira em Setembro 06, 2008, 23:43:29
 :(
Não, necessariamente!...creio eu.
Se um ser humano for capaz de seguir o coração (ainda que dê a isso um outro nome), o fará por ser capaz ter desenvolvidas essas dimensões. Esta é a minha percepção. Eu acredito nisso.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 06, 2008, 23:47:28
Então, se eu negar a existência de uma vozinha interior que me diz a minha vontade (o tal caminho do coração), acabo por segui-lo na mesma se agir de acordo com aquilo que quero, assumindo é claro, que a consciência é capaz de separar os caminhos bons dos maus, sem ser necessário recorrer a qualquer tipo de espiritualidade.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Guacira em Setembro 06, 2008, 23:56:48

Olha, eu não tenho respostas prontas ou definitivas sobre nada; mas, talvez se possa chamar "ter consciência " de alguma coisa, de caminho do coração...Acho que importante seria se abrir, apenas isso...sem imposições, sem convenções, mas com reflexão.

                                          :yup:

PS. adorei aprender a usar essas carinhas...obrigada.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 06, 2008, 23:59:10
Concordo Guacira, apenas achava (e acho) a expressão "seguir o coração" extremamente redutora e vaga, por isso a quis explicar. Veremos se mais alguém tem opinião sobre isto...


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Guacira em Setembro 07, 2008, 00:14:04
Talvez ampla...então poderemos mudar para:  ouvir o coração?? risos.
Jung nos refere que, quem olha pra fora sonha; dentro é que estamos, realmente...



Boa noite e obrigada. :D
Guacira.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 07, 2008, 00:16:48
Agora podemos chamar o que quisermos: o conceito está explicado!

O que eu gosto destas discussões  ^-^ e agora finalmente um sítio para debates interessantes!


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Guacira em Setembro 07, 2008, 13:12:00
Queridos, bom dia.
Entendendo que a vida é um complexo sistema, onde ela exista, havérá redes, conexões.
Quando me referi à espiritualidade, quis dizer que caminhamos - e já não é sem tempo - para uma visão mais consciente de mundo, que começa a emergir, inclusive harmonizando o ser humano com sua maior referência - na minha compreensão - que é a sabedoria/filosofia oriental, uma vez que ela nos fornece fundamentos consistentes, capazes de abranger as nossas mais avançadas e contemporâneas teorias sobre o mundo físico. Para que isso possa ocorrer não será possível excluir tão importante dimensão humana: a espiritualidade. Não falo de religiosidade implícita em qualquer credo, mesmo porque, não professo nenhum...
Beijinhos,
Guacira.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 07, 2008, 19:44:06
Por mim, não a excluo, Guacira, de forma alguma. Só quis tirá-la desta equação, porque senão a argumentação contrária apresenta a negação, simplesmente. E também pretendi demonstrar que existe um "seguir o coração" para todos, quer neguem ou não a sua espiritualidade. Por mim, prefiro evitar discussões que entram no ramo do "sentir", como diz o Djabal, porque são discussões surdas. Um diz que sim, o outro diz que não. Um sente, o outro não. Um sabe, o outro também sabe.

Tens razão, discussões sobre o que se sente não levam a lado nenhum. Todos sentem de maneira diferente...

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Guacira em Setembro 07, 2008, 22:30:22
Compreendo-a, Laura, porque é exatamente o que penso e já referi antes. Quer queira, quer não...
 
"Se um ser humano for capaz de seguir o coração (ainda que dê a isso um outro nome)..."

Bem, entro nesse acordo, quanto às questões que são de foro íntimo.
Foi bom podermos partilhar nossas formas de pensar; obrigada.

 


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: goncalos em Setembro 08, 2008, 14:10:49
A discussão está extremamente interessante e não resisto a deitar também umas achas para essa fogueira filosófica. Depois de ler o debate de fio a pavio, anotei aqui dois ou três temas. Não li ainda o Siddharta por isso excluí-o desses pontos.

1. Diz a Laura "Podemos saber as coisas e não as sentir" e tem toda a razão. Já me apercebi disso com tanta coisa que aprendi. Nota-se da seguinte forma, apreendemos a informação e guardamo-a no cérebro sem problemas, ela faz para nós um sentido lógico como dois mais dois igual a quatro. Mas o estágio seguinte (que é sentir as coisas) é quando vemos essas coisas acontecer no nosso imaginário com todo o seu impacto e envolvência. Por exemplo, pensamos que se comprarmos mais dois pães, teremos quatro porque já temos dois em casa mas que aí talvez um se estrague e que quatro custam x e, se formos padeiros ainda vemos mais, como quantidades de farinha, sal, etc...tudo porque o padeiro sente os pães como mais ninguém...claro que a este nível pode parecer tudo muito básico, mas quando se trata de conceitos de filosofia, engenharia, arte, história, gestão, medicina, etc... bom aí sentir os conceitos em vez de simplesmente os saber (no sentido de os debitar no caso de nos apetecer ou de alguém nos perguntar), é uma diferença enorme. O mesmo pode suceder em coisas tão simples como ver flutuar uma folha sobre o curso de um rio (confesso que aí devo estar um pouco longe do que vê Hermann Hesse, ou talvez não, só ele o poderá dizer). Creio que é esse sentir as coisas que se aprendem que distingue os bons dos excepcionais no seu métier. Os excepcionais sabem as coisas não só com a razão mas também com a emoção e por isso, são mais rápidos a reagir a imprevistos, a criar novas soluções, a saber o que é melhor em cada caso concreto do dia-a-dia mesmo que por vezes lhes seja até dificil explicar aos outros os porquês (mas aí também há que investir em livros sobre comunicação :) ).

Se ainda tiverem paciência continuem a ler...

2. Seguir o coração é bem diferente de seguir a cabeça. Assim como seguir a emoção é diferente de seguir a razão. Seguir o coração é, para mim uma forma de dizer, que há uma emoção forte por trás de determinada decisão que tomo. Uma emoção que me tolda o espírito, que me põe ansioso ou nervoso por exemplo... e que me faz deitar algumas das possíveis consequências racionais da decisão em causa para trás das costas. Isto pode acarretar problemas sérios já que as consequências podem ser terríveis mas não seguir o coração pode também deixar marcas de arrependimento que quase podem matar a alma.

3. É optimo que tenhas lançado esta discussão que achei maravilhosa, Tim Booth, todo o crédito por isso, porque li-a toda com enorme agrado mas parece-me que independentemente do que aqui se diga a seguir vais sempre discordar de qualquer coisa que a pessoa disser, isto porque me parece que estás a ficar emocionalmente ligado a esta brilhante discussão que criaste, é como um filho teu, e agora custa-te deixá-la esmorecer e ficar em cinzas. O que é optimo e extremamente natural. Até a mim me custa se esta discussão se transformar em cinzas, de tão enriquecedora que tem sido... :)


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 08, 2008, 18:11:36
Acho bem que continue! Ainda me vão  fazer criar outro tópico onde incluir este tipo de debates... o Tim faz girar as mentes! Vamos a isso!


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 08, 2008, 18:23:52
@Gonçalos:

Ainda bem que estás a gostar da discussão, ver alguém com opiniões frescas é sempre bom!

Agora quanto aos pontos...

1. Nada a apontar. Concordo inteiramente.

2. Será melhor seguir o coração ou a razão? Eu, sou racionalista, intelectualizo tudo, mas ainda assim pergunto-me se por trás desta filosofia com que me identifico não estará a emoção a controlar, como um defender a barraca. Se me perguntarem direi que se deve seguir sempre a razão, porque acho que o intelecto é capaz de processar emoções e distinguir os impulsos bons dos maus...

3. Ora aí está uma questão que não me tinha ocorrido, talvez tenhas razão... Se isso se começar a notar mais do que tem sido é só dizerem e a minha matraca ficará para sempre fechada neste tópico, prometo.  8)

Obrigado pela tua intervenção Gonçalos!

@Goreti
Eu não faço girar nada goreti, elas já o faziam sozinhas, eu só criei polémica, bem diferente!  :P

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 08, 2008, 18:48:10
Então, continua! Estou a adorar!
Quanto a seguir a razão ou o coração, não ouso dizer o contrário do que dizes. Devemos seguir a razão. Mas, em abono da verdade, estando supostamente a razão no cérebro, ela é controlada pelo coração que bombeia o sangue para a alimentar rs...rs... Agora se me perguntares se sou como os "padres" que dizem "olha para o que eu digo e não para o que eu faço", juro que não te respondo!


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 08, 2008, 19:05:57
Bem, em abono da verdade goreti... também sou um bocadinho "Olha para o que eu digo..." eheh

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Djabal em Setembro 08, 2008, 20:01:17
Bem, parece que discussão vem se resumindo no agir com a mente ou com o coração. Os demais pontos foram desaparecendo aos poucos.
Tentarei acrescentar uma outra palavra na discussão. Que tal trocarmos coração por intuição ? Esse vocábulo dá uma outra dimensão menos romântica, talvez, e mais ...mais...objetiva. Vi há dias passados, um professor de física dar uma entrevista (Amit Goswani) sobre ela, a intuição ou consciência cósmica, que é como ele a denomina.
Ele pontifica: "Chega um momento que os racionalistas (cientistas) não conseguem avançar. Estão parados à beira do caminho. A razão faleceu em explicações. O caminho está escuro, e, repentinamente a intuição indica que deveremos caminhar por tal senda.
Não existe nada que indique certo ou errado, mas seguiremos essa intuição, e depois, ficaremos racionalizando os porquês desse comportamento.
Numa situação sem saída, é a única alternativa. Temos exemplos na Geometria (plana para a espacial) e agora a Física Quântica, que desmente cabalmente que tudo no mundo da física é matemática".
Não, meus caros, nem tudo é matemática. Esse americano de origem hindu, ou hindu residente na América, não o sei, deu-me uma boa 'dica' para a nossa discussão. Os sistemas são convergentes, não excludentes. Afinal como disse alguém, uma (mente) sem o outra (intuição) não funcionará a contento.





Deixo pública minhas felicitações a todos os participantes, um grande abraço especial ao Tim, pelo pioneirismo e competência a conduzir. Todos acompanhamos com  indisfarçável prazer esse papo. Que, felizmente não deixa ninguém certo ou errado. Todos estamos um bocadinho em cada parte e em nenhuma ao mesmo tempo.


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 09, 2008, 00:58:59
Obrigado pelas felicitações Djabal, mas isto já não é meu, é de todos nós. A discussão tornou-se interessante por cada intervenção que aqui foi feita, não tenho mérito nenhum. É como diz, nenhum de nós está completamente certo e nenhum completamente errado. Estamos a tentar perceber onde e porquê é que erramos e, quem sabe, criar uma nova corrente filosófica! Eh eh eh, brincadeira.

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 29, 2008, 20:07:09
Terminei a leitura deste livro que tanta boa discussão fomentou. Penso que é um livro para sentir, muito mais do que para ler. Adorei a alegoria do rio (vida) e a forma de "sentir-se" através dos "santos" todos os rostos, sentimentos, virtudes e pecados. A vida em pleno! Volta a ler, Tim!


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Setembro 29, 2008, 20:10:31
Volta a ler, Tim!

Agora só noutra altura, com outra disposição, senão a opinião não muda...

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: anamarques em Outubro 07, 2008, 15:24:31
Eu li o livro há tantos anos que mal me lembro dele. Mais do que do livro gostei da vossa argumentação! Mas também pode ser por mera falta de memória. Eu gosto do herman Hesse. O meu livro favorito dele é o Lobo das Estepes que é uma espécie de livro de culto para mim. No entanto achei os argumetnos muito pertinentes. Talvez volte a reler o Siddhartha para ver se sinto alguma coisa...


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Outubro 07, 2008, 18:11:11
[Olha, isto ainda vive  ^-^]

Pois é Ana, toda a gente me diz para ler o Lobo das Estepes, prometo que não faltará muito.

Cheers


Título: Re: Siddhartha
Enviado por: Tim_booth em Outubro 09, 2008, 22:17:58
Ok, prometo que está na minha lista de compras. Segunda-feira é dia do aderente na Bertrand...

Cheers