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Geral => As nossas leituras - Espaço de opinião => Tópico iniciado por: Tim_booth em Outubro 15, 2008, 17:43:22



Título: Histórias de Amor
Enviado por: Tim_booth em Outubro 15, 2008, 17:43:22
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Acendeu um cigarro e olhou à volta, as cadeiras, as mesas de ferro, o hotel à esquina do passeio, e a janela do quarto do primeiro andar. Os olhos ficaram-se-lhe ali, naquele estore verde ainda corrido, nas paredes peladas à volta das vidraças.
- José Cardoso Pires, "Week-end" in Histórias de Amor, 2008

(http://livrosemcriterio.eraumavezumrapaz.net/wp-content/uploads/2008/10/historiasdeamor.png)

Agora que neste mês de Outubro se lembram, entre outras efemérides, os dez anos passados desde que o mestre José Cardoso Pires partiu do mundo que conhecemos, li esta edição de Histórias de Amor, um livro que foi editado em Julho de 1952 e prontamente apreendido pela PIDE em Agosto do mesmo ano. Reeditado em Setembro de 2008 com base nos originais censurados e com as passagens que o lápis azul cortou destacadas, bem como alguns anexos de curiosidade histórica, a carta que Cardoso Pires enviou ao Director dos Serviços de Censura e três críticas da época.

Histórias de Amor é um livro de contos, aliás, quatro contos e uma novela para ser exacto, contos que tratam do amor ou sexualidade de um Portugal profundamente enterrado nos malhas púdicas da censura, como tão bem o verificámos através dos cortes assinalados. Em jeito de breve sinopse lemos em Week-end um fim-de-semana que ditou um fim; Uma simples flor nos teus cabelos claros é um salto constante entre um apaixonado romance de livro e um frio casamento; a novela Dom Quixote, as velhas viúvas e a rapariga dos fósforos conta a estranha história de um romance entre uma jovem que vivia com a avó e o que virá a ser o típico marialva tão bem cunhado pelo mestre anos mais tarde, que a trata por "a minha miúda"; no Ritual dos pequenos vampiros, um grupo de quatro morcões aproveitam-se de uma rapariga que um deles engatou; e, finalmente, em Romance com Data, (Romance 1951 no original dactilografado), talvez o mais conseguido dos contos, um casal proibido e separado bruscamente durante a madrugada.

Quem esperava encontrar neste livro o José Cardoso Pires por quem se apaixonou, como eu, sai enganado. Não há mais ninguém que culpar a não ser eu próprio, e talvez um pouco da publicidade e sururu que este livro gerou na comunidade literária, especialmente se olharmos para a capa e lermos num redondo azul "O livro que a censura apreendeu em 1952". Tudo verdade, mas ingénuo seria se não soubesse que as palavras "censura" e "apreendeu" têm um certo misticismo para todos nós que somos filhos da revolução e que não conhecemos outra coisa que não seja a liberdade de expressão. Atenção, não quero com isto dizer que o livro seja mau, nada disso, simplesmente não é um livro bom, não é um livro de Cardoso Pires, apesar de já nele se lerem alguns traços característicos do autor como as personagens fascinantes do Simas Anjo de Ritual dos pequenos vampiros, ou os homens de Week-end e Romance com Data. Se alguém me lesse um conto destes e me dissesse que tinha sido escrito pelo mestre José levaria tamanha carga de porrada que nunca mais me apareceria à frente. Mas a verdade é que ele realmente escreveu isto. Num princípio muito princípio de carreira, é apenas o segundo livro publicado, o primeiro tinha sido três anos antes e provavelmente os contos que este contêm terão sensivelmente a mesma data de escrita que os contos de Os Caminheiros e outros Contos.

Talvez a melhor forma de ler este livro seja como um documento histórico onde claramente vemos a mesquinhez da Censura perante palavras tão inocentes como "nú", chocantes ao olho do censor. E lendo-o dessa maneira, sim, encontramos muito material interessante.

Gostava de poder dizer que este segundo livro de José Cardoso Pires me tinha apaixonado tanto como Os Cús de Judas (http://livrosemcriterio.eraumavezumrapaz.net/?p=115) ou Memória de Elefante (http://livrosemcriterio.eraumavezumrapaz.net/?p=49) do seu bom amigo António Lobo Antunes mas não é verdade. Este é um livro menor do mestre José, talvez por isso não mais tenha sido editado enquanto viveu. É preciso não esquecer a data em que este livro foi publicado, 1952, e reflectir sobre o tipo de coisas que se dava à estampa em Portugal nesta altura. Com esse panorama na consciência digo sem sombra de dúvidas que é provável que este tenha sido um dos melhores livros a ser publicado naquele ano, prenúncio do grande autor que se estava a criar.

Histórias de Amor é um livro para quem gosta, para quem gosta muito, de José Cardoso Pires mas não é, definitivamente, para quem quer gostar.

Escrito originalmente aqui (http://livrosemcriterio.eraumavezumrapaz.net/?p=137).