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Textos => Arquivo Contos => Tópico iniciado por: Goreti Dias em Setembro 18, 2007, 22:21:09



Título: Regresso às origens
Enviado por: Goreti Dias em Setembro 18, 2007, 22:21:09
O horizonte estende-se nu, deserto, cinzento. Num abraço de desespero, encontra-se com as nuvens negras que tapam o sol, e tudo gira emplumado de luto.
Encontro-me perfeitamente isolada, não vejo vivalma e um arrepio de frio percorre-me a espinha dorsal. Uma tempestade parece pronta a submergir-me, mas eu prossigo na minha teimosa subida.
Do outro lado da montanha, espera-me a minha pequena aldeia, a aldeia onde nasci e que deixei há uns bons anos para trabalhar numa fábrica de confecções, numa cidade a muitos quilómetros dali.
Enquanto subia apressada, tentando escapar à chuva que se aproximava, ia pensando nos meus colegas de infância. Onde estariam todos? Teriam ficado por ali? Teriam abandonado a sua terra como eu? Quem sabe que surpresa me esperará? Fui lembrando um a um, cada um deles: a sardenta Joana, a loira Maria a quem os rapazes arreliavam chamando-lhe ruça, a Lucinda, minha prima, filha da Tia Ana... Como pude estar tanto tempo longe e nada saber deles?! Escrevia de vez em quando para a minha avó, a parente mais chegada, nada mais. Agora regressava para umas curtas férias com ela.
Que infeliz ideia a minha! Porque não fui de autocarro até à aldeia, num dia destes? Que queria ver neste descampado, nestes montes cobertos de feno seco, sem uma árvore frondosa, apenas uma ou outra azinheira raquítica à força da terra árida? Um regresso às origens, à infância feliz, uma busca de paz, a procura do sabor do primeiro beijo de amor, tímido e único, perdido no tempo, tão perdido que nem lhe sentia já o mínimo gosto. Só a recordação do gesto restava. Mas tinha sido por ali, debaixo de uma daquelas azinheiras, que  duas crianças tinham pousado os seus lábios ingénuos um no outro.
Que parva! Onde isso vai! Éramos duas crianças, nunca mais nos vimos, o mundo se encarregou de nos separar. Ora! Tenho saudades! E depois?! Que mal há nisso? Alguém por aqui lê os meus pensamentos? Onde param as perdizes que perseguíamos brincando? E os pequenos insectos? E as flores silvestres que colhíamos para tecer grinaldas com que ele me enfeitava os cabelos? Nada! O Inverno aproxima-se a passos largos. E eu a sonhar com Primaveras! Que loucura! A chuva vai começar a cair!
Ei-la que se abate sobre a terra! A aldeia tão longe ainda! Só depois do cume ela será visível . Estugo o passo debaixo da chuva, ignorando o frio que começo a sentir!
Finalmente, atinjo o cume. Paro estupefacta. A aldeia brilha lavada aos meus pés. Que linda está, tão branca, tão acolhedora! Brevemente abraçarei a minha avó que me espera ao fundo da aldeia, na última casa.
Então, logo ali ao dobrar do cume, reparo numa pequena vivenda, nova, linda na sua singeleza. Uma varanda de madeira rodeia a casa. As janelas estão fechadas. Reparo melhor e verifico que uma pessoa se encontra sentada numa cadeira de verga, abrigada da chuva pelo largo beiral. Um automóvel vermelho está estacionado em frente à casa.
Que estranho! Não me recordo desta casa. Deve ser recente! Algum forasteiro que escolheu este local para descansar, certamente!
Preparava-me para passar adiante, em passo ligeiro, na ânsia de me afastar da chuva impertinente e fria, quando uma voz me chamou:
- Ei! Menina! Abrigue-se um pouco! Não vê a chuva? E sem guarda-chuva?! Que lhe deu para andar por estes lados com uma chuva destas e sem abrigo? É de cá? Nunca a vi!
- Vim visitar a minha avó que mora nesta aldeia e resolvi sair antes, para vir a pé e rever estes sítios que já não via há tantos anos. Só que não esperava que chovesse!  Devia ter feito a viagem toda no autocarro! Foi uma perfeita loucura! Obrigada pela oferta de abrigo. Contudo, não vou aceitar porque, encharcada como estou, se parar ainda será pior. Ainda apanho uma gripe!  Vou despachar-me para chegar a casa da minha avó o mais rápido possível! Obrigada, de qualquer forma - respondo da forma mais simpática que consigo porque, de facto, estou a tiritar de frio e nada bem disposta. A solução não parece agradar ao jovem que me interpelara da varanda :
- Nem pense! Eu levo-a lá de carro. Afinal, nas aldeias todos somos vizinhos, não é verdade? Entre!
Fiz-lhe a vontade, não querendo ser indelicada mas, na verdade, bastante contrariada. Queria era fugir para um abrigo quente, mas rápido! Ele parecendo adivinhar os meus pensamentos insiste:
- Vá lá! Rápido!
Olha para mim e exclama:
- Meu Deus! Está pior do que eu pensava. Venha cá! Entre!
Entro de forma relutante e sigo-o casa dentro. Encaminha-se para uma porta que abre e diz:
- Trate de tomar um banho bem quente! Vista um roupão dos que encontrar na gaveta superior do armário. Ser-lhe-á grande, mas serve enquanto não tem outra roupa. Vem sem mala, não traz bagagem para ficar em casa de sua avó?
Um pouco atarantada com a situação, respondo que dias antes a enviara por uns parentes que vieram à aldeia. Parece decidido, o rapaz:
- Fique à vontade, vou a casa dela buscar alguma coisa para poder vestir e depois levo-a lá. Como se chama a sua avó? Eu sou de cá, conheço toda a gente.
Respondo-lhe e ele olha-me de forma estranha, da cabeça aos pés. A hesitação dura pouco e ordena-me:
- Despache-se a tirar essas roupas e tome o seu banho quente. Eu volto já!
Fecho a porta, admirada com tanta rapidez de decisão, mas aceito a ordem. Livro-me de toda a roupa que não tinha um fio seco e enfio-me debaixo do chuveiro. A água quente escorrendo-me pelos ombros faz-me parar de tremer de frio. Que bom! Deixo-me ficar, ensaboando-me devagar, gozando o calor tão apetecido. Quem será o cavalheiro tão cavalheiro? Diz que é de cá ... terá nascido aqui? Ou terá vindo morar para a aldeia? Para conhecer toda a gente... Ele logo diria! É bem simpático, elegante... que charme!
Ainda estava a secar-me quando ele bate à porta da casa de banho:
- Já cheguei! Trouxe-lhe roupas que a sua avó escolheu de entre as que havia na sua mala. Estão em cima da cama no quarto em frente. Esteja à sua vontade. Eu espero-a na sala. Até já!
Fico encantada com a sua voz suave, agora menos autoritária. Visto um roupão e penso ” Isto é dele!”, sabendo-me bem a intimidade inesperada de um tecido que já esteve sobre a sua pele. Dirijo-me ao quarto e troco a maciez do tecido turco pelas minhas roupas. Dou uma escovadela ao longos cabelos castanhos e dirijo-me à sala. Uma saborosa lareira ardia alegre, espalhando um calor suave. Levanta-se e entrega-me uma chávena de leite quente:
- Tome bem quente! Acabei de o aquecer no microondas. Não é como aquele que habitualmente bebíamos em crianças, acabado de tirar pela tia Ana, mas é o que há. Acabadinho de chegar... do supermercado da cidade!
Solta uma gargalhada sonora e acrescenta, bem disposto, olhando-me nos olhos:
- Dá cá um abraço, rapariga! Então não me conheces? Bem..., para falar verdade, eu também não te conheci! Estás linda... Ana!
Olho-o com mais atenção e reparo nos seus olhos. Ah! Aqueles olhos cinzentos não eram para esquecer, não por mim, que os olhei profundamente no passado, com ingenuidade, mas com muito carinho. Um rubor sobe-me ao rosto e fico sem saber se o abraço ou não. Não tenho tempo para pensar mais. Ele já se aproximou o suficiente para eu sentir que não vale de nada a minha indecisão. Ele já decidiu. Aperta-me nos braços fortes e eu apenas tenho tempo de dizer ”João”! O abraço dura uma eternidade, múltiplas sensações me percorrem e eu nem sei classificá-las! Afastamo-nos um pouco, embaraçados com tamanha efusão.
O tempo voou enquanto eu lhe contava como me afastara da aldeia e ele me contava como resolvera mandar construir ali aquela casinha para onde vinha todos os fins de semana. Afinal, trabalhava numa cidade a vinte e poucos quilómetros daquela em que eu morava. Tinha vontade de lhe perguntar se casara. Ele antecipou-se:
- Estás casada ou solteira?  Eu ainda não encontrei quem me fizesse esquecer umas certas tranças !
Coro ( hoje não faço mais que corar, penso irritada!) e tartamudeio:
- Não, estou sozinha!
...
O que se passou naquele dia e nos seguintes foi um conto de fadas. As tranças que ele não esquecera eram as minhas, e dele eram os lábios que primeiro beijei e que me tinham feito sonhar durante aquele passeio a pé pelo monte. Afinal não fora má ideia ter vindo por ali. Quem sabe se o teria encontrado indo no autocarro! Era já tarde quando naquela noite ele me levou a casa. A minha avó não ficara preocupada. Percebera, logo que ele apareceu a buscar as roupas, que teríamos muito que conversar. Afinal, dois amigos de infância que se encontram depois de tantos anos querem contar todas as novidades e mais algumas! Não sabia que tínhamos sido uns amigos tão especiais e muito menos sabia que a maior parte do tempo que gastámos naquele dia fora a tentar vencer a timidez que me assaltara. Ficámos horas de mãos dadas, relembrando as nossas correrias, as nossas brincadeiras, até ele falar num certo beijo muito carinhoso. A medo, repetímo-lo, tentando reencontrar o sabor antigo. Não o reconhecemos. O inesperado da situação e a nossa maturidade encarregou-se de lhe retirar a leveza, a ingenuidade. E o que se pretendia suave e carinhoso tornou-se fogoso corcel à desfilada nos nossos corações. Nenhum de nós estava preparado para tal intensidade! Como seria possível termos continuado tempo fora à espera um do outro? Vivêramos todos estes anos à espera de um beijo que ameaçava não terminar!
Aquela noite passei-a sem dormir, rolando na minha cama, sonhando acordada com as suas mãos e os seus lábios, antecipando ternuras desconhecidas, ânsias infinitas. Os dias seguintes, passei-os numa felicidade sem limites adivinhados. Tranquilos, namorámo-nos pelos campos, pelas veredas e debaixo das azinheiras, tentando encontrar flores que tecessem grinaldas de noiva. Não as havia ainda. Mas não tardariam:
- Ana, meu amor, casas comigo?
- Sim!
O sol brilhou sobre os montes lavados da chuva de Outono e um arco íris em todo o seu esplendor lançou sobre nós a sua benção colorida, prenúncio das pétalas de rosa que cobririam o adro da igreja e as nossas cabeças daí a uns meses, quando a Primavera engrinaldasse os muros dos caminhos. Tapetes de musgo e margaridas brancas nos serviriam de passadeira até à pequena capela branca no alto do monte.
 E seríamos felizes para todo o sempre!



Título: Re: Regresso às origens
Enviado por: britoribeiro em Outubro 24, 2007, 18:28:03
A vontade de revisitar a serra, o encontro com o passado, o destino. Muito bom.

Abraço


Título: Re: Regresso às origens
Enviado por: Goreti Dias em Dezembro 05, 2009, 03:21:03
Quando ele não nos mata. Obrigada.
Abraço