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 em: Hoje às 18:59:47 
Iniciado por Maria Gabriela de Sá - Última mensagem por Maria Gabriela de Sá
Pois não, só na cova....

César....

Supostamente ela teria o vírus da Sida e, depois de me deixar indeciso, sem saber o que pensar ou fazer, numa noite acabou por descair-se: só queria vingar-se e ver-me – disse - ver-me não, os nossos quiproquós tinham lugar apenas através do telefone… – borrado de medo. Nessa altura armou um grande teatro. Sempre lhe senti essa vocação. Tanto para o escrever como para o representar. Chamou-me todos os nomes possíveis e imaginários. Desde traficante a proxeneta e mulherengo sem alma. Disse-me, entretanto, que um dia eu havia de morrer só como um cão abandonado numa estrada, sem ninguém para me fazer um chá e chegar-me uns chanatos quentes no Inverno, depois de me ter dito, em altos gritos, que eu era uma criatura amoral. Antes, nós os dois e apesar de tudo, julgava eu, éramos perfeitos nas nossas singularidades: eu com a coleção de poemas escritos nos guardanapos de papel das esplanadas e ela a colocar em cena, desde logo e verbalmente, o que mais tarde a mamã viria a reduzir a escrito. Começou com uma morte, negra como a peste, a minha própria morte e com flores, idênticas em tudo àquelas que não pude cultivar, nos ramos de todas as minhas ex amantes, quando se plantaram lá no cemitério, como túlipas de cabeça descaída, a espreitar para dentro da cova. Como numa procissão de missa negra, todas levavam então flores semelhantes às que eu não tinha podido plantar quando sentia dentro de mim a vocação de floricultor. De facto, nunca consegui desabrochar nessa arte senão na ficção de uma escritora que escreve, com igual empenho, tanto romances eróticos como géneros melodramáticos capazes de deixar em o leitor de lágrima ao canto do olho. Durante essa discussão, comportei-me como um cínico, quando afirmei ter gostado dela e que nenhum homem lhe teria aturado tantos desmandos. Ela, nessa altura, andava uma autêntica asna, quando, ressalvando o exagero da metáfora, me pediu quase uma declaração por escrito a mencionar a data, ano, dia e hora do fim do meu amor por ela. Contudo, durante a acalorada troca de palavras, houve um momento em que não consegui conter a minha sui géneris gargalhada.
 Foi nessa altura que a Claralílica me acusou de ser ruim, a ponto de nem a terra e uma legião de minhocas me quererem comer, por mais esfomeados de cadáveres que estivessem. Por fim, acrescentou ela, quando me desenterrassem, inteiro e seco como um bacalhau, o povo ainda havia de passar a chamar-me santo.
Não me contive, confesso. Eu santo! E ri a bom rir.
Agora cá estou eu, finalmente, Gabriel, um jovem de vinte e oito anos, casado com uma mulher mais velha, uma santa também. E a Lilicas tem muito a agradecer-me pela circunstância de a ter livrado de uma missão tão espinhosa como lançar lama sobre uma pessoa por quem ela se sente sempre tão bem coitada, quando os nossos eflúvios, os meus e os do mano César, se derramam no corpo dela com a força das Cataratas do Niágara no pino do Inverno. Se nós os dois, um com cara de anjo e outro anjo de corpo inteiro, não levássemos a cabo a nossa missão de amantes, a Lilicas já teria cumprido a ameaça de morrer. Não foi o que prometeu mal viu o Gabriel? “ Morro se não me amares” – disse então.
Quanto a mim, se outros crimes mais graves não cometer, pelo menos um crime de lúbrica omissão não gostaria de perpetrar. Ainda mais sobre uma criatura para quem o meu dicionário na cama não é um problema. É só soltar o palavrão, e ele sai da boca como se fosse um peregrino agradecendo com entusiasmo a Deus o ter chegado ao fim da caminhada. Mesmo sendo a companheira de jornada uma mulher diabólica e ninfomaníaca como a Lilicas solas e cabedais. Acho que Gabriel, ou eu –  nós somos não uma trindade como a de Deus mas apenas  um duo quase perfeito – pensa o mesmo sobre rapariga…
E, agora, depois de tanto tempo à porta de casa para aquele beijo bíblico, que deposita sempre na face da Sarita, é melhor Gabriel entrar, se não quiser desafiar a sorte e ir juntar à velha hérnia discal, à palidez e à asma, uma nova doença que o atire de verdade para o mesmo local onde eu estive como defunto de ficção (não.., parece-me que a asma, a mesma por que Clara deixou de fumar,  está agora  apegada à Lilicas, não sei se para sempre se só nas alturas cruciais, durante o coito, quando as circunstâncias a obrigam a arfar como uma gata ronrona e mais ou menos tuberculosa).
Para já, como o mano não se deve ter lembrado de agradecer a oferta do banco Ambrosiano depositada nas níveas e brancas mãos dele, vou fazer um telefonema à nossa querida e velha benfeitora. Nunca se sabe quando as vacas magras voltarão a andar à solta, disseminando a miséria pelos nossos bolsos e deixando-nos embaraçados quando nem sequer tivermos dinheiro para mandar castrar um gato.

continua

 2 
 em: Hoje às 18:50:32 
Iniciado por Nação Valente - Última mensagem por Maria Gabriela de Sá
Vamos lá continuar...

 3 
 em: Agosto 08, 2022, 21:37:26  
Iniciado por Nação Valente - Última mensagem por Nação Valente
Tentações

António bem recomendado pela mãe e pela madrinha D. Efigénia, que lhe destinou a carreira eclesiástica, cumpria religiosamente as tarefas de seminarista. Habitou-se a sobreviver naquele meio hostil à sua natureza rural. Estabeleceu com os companheiros Américo e Marcelo uma cumplicidade que permitia amenizar o ambiente soturno e escuro do seminário. Depois da missa de domingo davam uma volta pela cidade. As suas sotainas pretas distinguiam-se no meio do colorido que animava as ruas do centro. Donzelas provocadoras, olhavam-nos com malícia como tentações saídas do inferno. Pares de namorados circulavam em amena cavaqueira como se pertencessem a outro mundo. Regressavam ao Seminário esquecidos do cinzentismo que ajudavam a compor, mas com grandes interrogações próprias da adolescência. Desafiando o pecado não conseguiam tirar da mente a imagem daqueles corpos femininos que observavam nos seus passeios e na solidão das retretes não conseguiam fugir à sua natureza humana pecaminosa aliviando os seus impulsos sexuais. Anos antes quando esses desejos começaram a perturbá-los viram-se inocentemente a praticá-los em conjunto, chegando a fazer campeonatos de produtividade.
Um dia, ao abrir a sua Bíblia, António encontrou uma estranha mensagem. Com a ajuda dosamigos procurou descobrir o seu autor. Pela caligrafia associou-a a Salomão um jovem estranho e portador de um olhar triste. "Se quiseres podemos ajudar-nos. Desabotoa dois botões da batina como sinal". Américo e Marcelo pensaram, pensaram e disseram a António:
-Não podemos entrar nos quartos dos outros, mas como as portas ficam abertas vamos espreitar o Salomão. Deslizaram como sombras ao longo do corredor e colados às paredes cinzentas foram-se aproximando do quarto suspeito. O silêncio do recolher pesava como chumbo. Os seus pés procuravam levitar para não despertarem nenhum demónio. Junto da porta olharam para o interior do quarto e os seus olhos não conseguiram enxergar no escuro denso, mas sons estranhos escapavam para o corredor. Um chiar de molas cansadas misturados com gemidos abafados desafiavam o silêncio obrigatório. Ao longe começaram a ouvir-se passos arrastados pelo peso dos anos. A figura colossal do Director começou a vislumbrar-se na penumbra. Os três mosqueteiros da sobrevivência afastaram-se a tempo de um castigo exemplar.
Quando voltou para o ùltimo ano no Seminário menor António já não encontrou Salomão, tinha sido expulso. O grupo de António não sentiu a sua falta e este comentou para os outros:
-Ao menos livrou-se desta cruz. E nós conseguiremos?

 4 
 em: Julho 31, 2022, 23:00:47  
Iniciado por Valdevinoxis - Última mensagem por Maria Gabriela de Sá
Gosto

 5 
 em: Julho 28, 2022, 15:57:20  
Iniciado por gdec2001 - Última mensagem por Valdevinoxis
Gostei da análise mas não concordo inteiramente.
Os géneros não são sempre dissociáveis (nem é claro que o sejam) e, em grande medida, até poderão ter uma vertente de complementaridade. Quem escreve prosa pode fazê-lo com poesia e o inverso também se aplica.
A formatação não significa mais ou menos leituras, pode-as potenciar positiva ou negativamente mas, em boa verdade, isso resulta de um efeito quase "template" a que estamos habituados. Não se trata de uma questão de se ser bom ou mau mas sim de "cair no goto" (passe a expressão)  Cheesy.
A análise que foi feita tem este dom, o da opinião e isso é salutar.
Também não penso que "Tanto se pode ser mau, bom ou genial numa como na outra.". Não considero que haja maus ou bons, geniais ou menos geniais... há gostos e esses são sempre do leitor que é quem critica ou assume leituras (e devia fazê-lo sempre porque ser indiferente é uma má opção).

Mas, lá está, é uma questão de opinião e este texto parece-me que é isso mesmo (tal como o meu comentário). É válido, como tal, é capaz de gerar uma discussão saudável sobre o assunto.


 6 
 em: Julho 28, 2022, 10:23:07  
Iniciado por Valdevinoxis - Última mensagem por Valdevinoxis
doem-me os pés quando fabrico passos,

como se deles só houvesse ossos

raspados pela pedra, na procura de descanso.

dir-me-ia nu e descalço

se não me conhecesse o tutano...

esse é teimoso e não permite o engano.

 

assim, cá vou por caminhos falsos

pejados de cruzes e percalços

vislumbrando o horizonte baço

resumido um engano crasso

mas, tão evidente, tão pouco urbano

como nebulado, sujo e, no fundo, ufano

 

mas doem-me os pés e rio a espaços.

coisas de equilíbrios e juízos escassos

quando se quer uvas onde só há engaço...

triste o fito inquinado de fracasso

em tal demanda natural do humano,

toda torta e carregada de ventoso abano

 

despeço-me dos pés doídos e madraços

desfazendo-os, com as pedras, em pedaços

enquanto me sento à espera do abraço

que me desenhe com o torto traço

de arquiteto moribundo e decano...

não vem, aguardo e não vem… tirano!


valdevinoxis (27/07/2022)

 7 
 em: Julho 27, 2022, 01:07:42  
Iniciado por Nação Valente - Última mensagem por Maria Gabriela de Sá
Prosseguindo....

 8 
 em: Julho 26, 2022, 19:43:56  
Iniciado por Nação Valente - Última mensagem por Nação Valente
 
Tempo de corvos
 
Dias depois de completar doze anos, António ia partir para Viseu. Enquanto esperava pelo comboio na companhia da sua mãe, lembrou-se do primeiro dia em que frequentara a escola primária e do ar curioso e assustado dos meninos que com ele ocupavam a mesma trincheira da pobreza. Nascer pobre numa aldeia de um país periférico e atrasado significava, no final conturbado do século XIX, ter como destino a vida dura e austera de gerações de camponeses cujos horizontes se perdiam nas faldas das serras adamastóricas que aprisionavam vidas e sonhos. A fuga consentida para os jovens, com pacto secular com a miséria passava pela missão de servir nos caminhos do Senhor. Esse passo maior que as suas débeis pernas ia António dá-lo naquela manhã submersa a caminho do Seminário menor. Quando a máquina que se arrastava envolta numa nuvem de fumo, assomou da última curva e se aproximou da estação, pouca terra, pouca terra, António menino que queria ser forte, sentiu as pernas fraquejar e não conseguiu segurar uma lágrima que teimosamente lhe acarinhou o magro rosto. Um apito estridente, logo abafado por um longo silvo que escorregou pelas profundezas do vale do Dão, pôs aquela engrenagem de ferro e fogo em marcha cada vez mais acelerada. António encostado ao ombro da mãe, viu no cais os braços das irmãs a afastar-se como se resolvessem viajar para outras paragens. Mas para além da ilusão óptica, quem se afastava para um mundo povoado de sotainas pretas era ele.

Por detrás daqueles muros rigorosamente vigiados, onde se produziam os discípulos de Pedro, os dias passavam sempre iguais: aulas, rezas, missas, tudo muito condimentado com muita disciplina castigos divinos e terrenos para quem não respeitasse as regras. Deitado na sua cama, nas longas noites de Inverno, António saltava todas as barreiras e voava para Oliveira do Dão e para a liberdade de correria, tanto quanto lhe permitia o seu pé defeituoso, pelos campos abertos, agitando os milheirais, espantando a passarada do fim do dia, mergulhando nu nos pegos da ribeira (com os poucos moços que com ele se identificavam),nos dias quentes de estio ou olhando a menina dos olhos verdes que à tardinha o espreitava da janela e com quem se via a passear de braço dado depois da missa domingueira.

Tinha saudade do principal companheiro de estroina, que nascera um ano depois por insistência do patrão do seu pai, que não desistira de fabricar um varão, depois do nascimento da filha um ano antes. Quem pagou as favas foi dona Efigénia que ainda não acabara de desmamar a filha recém-nascida e já tinha um embrião a crescer dentro de si. António e Afonso tornaram-se amigos pois frequentava a casa do fidalgo e foi crescendo como se fosse filho adotivo. Frequentaram juntos a escola onde António mostrou inteligência acima da média e como e onde ganhou estatuto para prosseguir estudos. Mas quem nascia para ser peça da engrenagem produtiva, só tinha um caminho: o seminário. Quando regressava do devaneio, sobre a menina dos olhos verdes, António entristecia profundamente. Como seria possível se ia ser padre? Que raio de vida a do pobre!

 9 
 em: Julho 24, 2022, 16:15:40  
Iniciado por Maria Gabriela de Sá - Última mensagem por Nação Valente
"O bicho homem nunca mais aprende"...pois só aprende o que lhe dá jeito, e nisso é perfeito na imperfeição. Grande César.

 10 
 em: Julho 20, 2022, 12:59:00  
Iniciado por Nação Valente - Última mensagem por Maria Gabriela de Sá
Onde é que eu já li este texto?

Abraço

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Outubro 14, 2021, 00:43:39
Obrigado, Administração, por avisar!
Setembro 14, 2021, 10:50:24
Bom dia. O site vai migrar para outra plataforma no dia 23 deste mês de setembro. Aconselha-se as pessoas a fazerem cópias de algum material que não tenham guardado em meios pessoais. Não está previsto perder-se nada, mas poderá acontecer. Obrigada.

Maio 10, 2021, 20:44:46
Boa noite feliz para todos
Maio 07, 2021, 15:30:47
Olá! Boas leituras e boas escritas!
Abril 12, 2021, 19:05:45
Boa noite a todos.
Abril 04, 2021, 17:43:19
Bom domingo para todos.
Março 29, 2021, 18:06:30
Boa semana para todos.
Março 27, 2021, 16:58:55
Boa tarde a todos.
Março 25, 2021, 20:24:17
Boia noite para todos.
Março 22, 2021, 20:50:10
Boa noite feliz para todos.
Março 17, 2021, 15:04:15
Boa tarde a todos.
Março 16, 2021, 12:35:25
Olá para todos!
Março 13, 2021, 17:52:36
Olá para todos!
Março 10, 2021, 20:33:13
Boa feliz noite para todos.
Março 05, 2021, 20:17:07
Bom fim de semana para todos
Março 04, 2021, 20:58:41
Boa quinta para todos.
Março 03, 2021, 19:28:19
Boa noite para todos.
Março 02, 2021, 20:10:50
Boa noite feliz para todos.
Fevereiro 28, 2021, 17:12:44
Bom domingo para todos.
Fevereiro 26, 2021, 21:31:48
Bom fim de semana para tod@s.
Fevereiro 25, 2021, 20:52:03
Boa noite a todos.
Fevereiro 24, 2021, 20:43:45
Boa noite a todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:46:56
Uma boa semana para todos.
Fevereiro 22, 2021, 16:43:41
Sejam muito bem vind@s
Fevereiro 22, 2021, 16:41:57
Boa tarde a todos.
Fevereiro 18, 2021, 20:52:07
Boa noite a todos.
Fevereiro 17, 2021, 19:09:25
Boa quarta para todos.
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Boa noite a todos os presentes.
Fevereiro 15, 2021, 14:54:45
Boa semana para todos.
Fevereiro 14, 2021, 15:29:30
Bom domingo para todos.
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