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Autor Tópico: L.A.  (Lida 1860 vezes)
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marcopintoc
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« em: Agosto 06, 2009, 23:48:11 »

O dicion√°rio diz decadente.

Aquele que enfraquece, abatido, corroído pelos dias feitos de ressaca , noites a brilhar como um cometa feito de opiáceos . O dicionário não tem palavra para os patéticos homens de pupilas feitas cabeça de agulha que se sentam nos seus cabelos longos e descuidados nas esplanadas do Sunset Boulevard. Braços cobertos de tatuagens berrantes de rosas , mulheres nuas e armas fumegantes. Camuflagem das ferradas da seringa, óculos espelhados protegem a congestionada retina, anéis de nobreza ausente, pulseiras de cabedal e ferro fora de moda.

Santos de p√≥ emitem sorrisos embevecidos no bourbon √† passagem da patinadora de seios grandes e biqu√≠ni curto. Um deles  grita que ela √© um rel√Ęmpago que o faria em cinzas no conchego do cetim  . Quem fala √© aquele que cheirou mais , aquele que ainda n√£o conheceu  o sono e  para o qual   a presen√ßa do sol √©  apenas um inc√≥modo momento de luz que se atravessa na espera pelo n√©on que brilha, os carros potentes descer√£o  a avenida com os woofers a rebentarem no bombo duplo a f√ļria de uma can√ß√£o. A letra  diz que √© hora de ligar os reactores e  deixar a vida implodir  em laivos de nitroglicerina ; hora de esquecer o amor pois isso √© coisa de crentes demasiado lentos.

E ela sorri para tr√°s , olhos feitos da vontade de ser a babe suprema da sinfonia de insanidade ,fatos lustrosos de cabedal e lantejoulas. Uma multid√£o a gritar, as n√°degas do guitarrista expostas pelo antiquado desenho das cal√ßas. A  plateia cheia, mulheres encharcadas em shots e cheiros  levantam as camisolas e mostram o peito. H√° de tudo , grandes , pequenas, a cair de uso , a cair de esperar que algu√©m as aperte. Algumas tatuadas, algumas recauchutadas.

A viver o sonho de ser a estrela que jamais ser√£o .

O sol de Los Angels a fazer brilhar as ancas perfeitas, os peitos musculados dos atletas , todos sorriem , todos s√£o ausente de gordura. Queimam-na em gin√°sios, nos clubes limpam os √ļltimos res√≠duos da obesidade nas dan√ßas  e na faina dos narizes.
Sobre as luzes da ribalta  os veteranos  da inc√ļria de si mesmo. As pris√Ķes , as fotos √≠ntimas tornadas tr√°fego colossal de internet , as can√ß√Ķes por vezes esquecidas , o piroso levado ao limite do r√≠mel em olhos de homem ,vestes apertadas que revelam membros sempre erectos no deboche qu√≠mico .

Os homens velhos , o esmorecer  esclerosado   na express√£o do guitarrista que s√≥ √†  for√ßa de bombas de anfetaminas consegue dedilhar o solo daquele que foi , outrora , o √™xito numero um das tabelas. A bateria a disfar√ßar no reverb as falhas de coordena√ß√£o entre o pedal do bombo e o prato de choque, E todavia , quando os homens velhos sobem ao palco nas suas rid√≠culas fatiotas , passos hesitantes de profunda como√ß√£o, quando a bota de tac√£o brilhante toca a madeira do palco, o tempo do rock √© generoso com eles
O vocalista louro ecoa  , camiseta de veterano do Vietname ,  tatuagens ainda com pinga de sangue ; o grito de guerra perante os cinquenta mil que enchem o est√°dio. As musas que vivem nos elementos activos do bom √°cido e da pouco cortada coca√≠na atiram-se √† turba como um cardume de piranhas famintas do suor fresco daqueles que agora gritam , daqueles que erguem os punhos , o puto de cinquenta anos a tripar um grande solo entre os cabelos brancos e a gigantesca barriga . As mamas de Sally , m√£e de tr√™s , cinco abortados , ca√≠das ao solo √† vista de todos  , imenso esgar de vagabunda no canto do l√°bio.

A tatuagem diz ‚Äú Fode-me , sou f√°cil‚ÄĚ.

O sistema de amplifica√ß√£o lan√ßa a can√ß√£o doente do amor que se quer de s√≥ uma noite e de posi√ß√Ķes pouco ortodoxas, gritos de prazer fingidos que s√£o o oculto e  real segredo  de mais uma noite com a realidade forasteira que se diluir√°  nos vapores do matinal esquecimento.
Vida  que acaba entre noites de borga com o f√≠gado corro√≠do e as art√©rias revestidas por dentro de uma espessa camada de todos os v√≠cios que se pode por no corpo.  Sacrif√≠cio grupal, corpos em queda , em chamas , incinerados por esta cidade que tem demasiados clubes , demasiadas mulheres , homens de h√°bitos de Sodoma e Gomorra , demasiado cr√©dito , demasiados traficantes e noites que exigem para pagamento da sua grandeza imensos  peda√ßos de alma.

O baixo cheio de efeito a marcar o tempo a que os corpos se deixam ir uns para os outros, homens de suor no rosto acariciam-se mutuamente, duas esculturais groupies entrecruzam as l√≠nguas de cascavel no cio. No centro da arena j√° √© numeroso o amontoado de criaturas que trocam car√≠cias mais intimas. A can√ß√£o diz que o devemos fazer durante toda a noite. Algu√©m toma mais um comprimido procurando  alento. Outros correm para a casa de banho, as fitas que usam na testa fazem belos garrotes.

Circo do lixo branco em plena ebuli√ß√£o .Quem que √© se preocupa com o que se passa nesta arena? Neste coliseu de imperadores do caos e gladiadores de todas as pervers√Ķes que os homens conseguem fazer uns aos outros. Como um cora√ß√£o que bate depressa demais e sente a gl√≥ria dos seus dias dourados a partir no f√īlego que se perdeu nas entrelinhas da insanidade, o som da can√ß√£o atravessa o ar e entra sobre as frinchas caladas de  Sunset Boulevard. Pouco tempo depois ecoam os gemidos e ais daqueles que dormiam at√© que a lengalenga  ,que fala de uma mulher de c√≥coras e um homem desejoso de a ter ,os desperta e reaviva  os esquecidos libidos que a noite √© feita para as coisas da carne e s√≥  quando o sol queimar os corpos de forma insuport√°vel devem os convivas do hedonista festim   recolher aos seus covis. Que quando ca√≠rem sobre os len√ß√≥is sujos da cama n√£o devem ir s√≥s, que Sally dir√° que os amar√° at√© lhe doerem os ossos. Algumas horas depois, quando voltar √† consci√™ncia, a devassa mulher perguntar√° a seus amantes quais seus nomes pois s√≥ os relembra pelo √≠mpeto e tamanho.

O sol a raiar de novo sobre a grande avenida.

Em passos arrastados regressam os jeans rasgados , rostos enrugados em noites brancas retornam √†s suas suites de motel e aos seus sonhos de uma mans√£o que as d√≠vidas esfuma√ßaram. Junto a um bistro, que tem √≥ptimas coment√°rios nas revistas e serve doses minimalistas ,a outrora bomba  sexual de busto gigantesco discute com um agente entediado se pode relan√ßar a carreira fazendo  porno .O homem cansado do p√≥ sem brilho que enche os decotes das estrelas decadentes encolhe os ombros e relembra que n√£o h√° parte do seu corpo que n√£o esteja dispon√≠vel para descarga electr√≥nica .  

Um pestanejar dos longos artifícios antecede o esgar do estrogénio e inquire sobre alternativas. Talvez uma religião das vadias esquecidas , um programa numa cadeia regional de baixa audiência , um combate de wrestling na lama , um trio ao vivo num reality show, um filho de uma celebridade mais fresca. A lista termina com um grito de impaciência que algo seja feito para o seu bem-estar.

Novamente encolhendo os ombros o empres√°rio sugere o suic√≠dio mas, tr√™s segundos ap√≥s a inicial afirma√ß√£o ,  corrige-se perante a vulgaridade do facto  entre as vielas que v√£o at√© Beverly Hills .
As unhas longas da mulher que enverga joalharia falsa e um vestido curto escarlate entrela√ßam o m√ļsculo tonificado que se esconde sobre um casaco da colec√ß√£o de dois mil e dois. Falsos diamantes de sentimento escorrem pela bochecha inchada. O agente relembra que h√° uma d√©cada atr√°s eram milhentos os homens que imaginavam o seu prep√ļcio afagado  por tal cavidade. Decide que o √ļnico facto de relev√Ęncia comercial e p√ļblica da sua cliente foi apenas o exagero das suas curvas , a beldade esculpida em serras que acertam ossos ,a tes√£o hedionda que a sua falta de vergonha ( e o  facto de fazer garganta funda)  despertou na popula√ßa masculina. Resignado, aceita a ideia da pel√≠cula com triplos xis. Exige uma choruda comiss√£o e ,pelo menos, um trio multirracial e uma ousada cena l√©sbica. Tem no seu portfolio  quinze candidatas de silicone a necessitar retoque sequiosas de rolarem na cama tamanho de rei sobre os focos quentes e os grandes planos das depila√ß√Ķes.

As m√£os tr√©mulas e pintalgadas pelo vento seco dos tempos e o exagero de sol√°rio rebuscam a carteira procurando uma esferogr√°fica que assine o contrato. Quer falar de promo√ß√£o e das entrevistas em prime time.   Ellie  Foxx nada encontra excepto um isqueiro que alumia cigarros longos e apressados , uma lamela de barbit√ļricos  quase no fim e um espelho que a cada dia se torna mais dif√≠cil de encarar.


« Última modificação: Agosto 06, 2009, 23:56:26 por marcopintoc » Registado

Marco Pinto Correia

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« Responder #1 em: Agosto 07, 2009, 06:38:39 »

As coisas que colocas debaixo desse sol! A luz intensa e cruel a mostrar todas as misérias humanas que fazem do mundo um enorme "espelho que a cada dia se torna mais difícil de encarar."
Beijo
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« Responder #2 em: Agosto 11, 2009, 23:12:27 »

Obrigado pelo coment√°rio. O sol luminoso de Los Angels esconde, decerto, muitas tristezas
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
Março 01, 2018, 20:26:58
Boa noite!
Dezembro 30, 2017, 21:19:00
Ol√°, amigos do Escritartes!
Dezembro 27, 2017, 09:04:13
Boas Festas!
Dezembro 21, 2017, 10:51:56
Ol√° para todos! Desde j√°, um feliz natal e um 2018 de novas escritas!
Novembro 11, 2017, 17:23:12
Boa tarde a todos! Votos de muita inspiração na nobre arte da escrita.
Outubro 25, 2017, 10:20:24
Meu bom dia a todos!
Julho 18, 2017, 20:17:24
Ol√° para todos! Boas escritas!
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