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Autor Tópico: Segundo de um livro ainda sem titulo...Acaso  (Lida 2219 vezes)
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Antonia Ruivo
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« em: Agosto 15, 2009, 22:45:24 »

Faz tempo que adormeceu, o homem que a conduz na estrada quase deserta, de vez em quando olha para ela, no seu olhar transparece um misto de surpresa e certeza, a certeza de que aquela mulher, não está por acaso sentada no banco da frente do seu carro.
Tem que haver a mão de uma força superior por detrás do motivo que o levou a sair de casa nessa manhã. não que acredite nessas coisas, mas as evidências falam por si.
Pouco ou nada dormiu nessa noite, e de manhã bem cedo saltou da cama, como se um motivo inadiável o empurrasse, tomou um banho apressado, e vestiu uma coisa qualquer que tirou do armário, não se reconheceu nessa manhã, era metódico em tudo o que fazia, jamais saíra de casa sem ter a certeza que tudo estava nos seus devidos lugares, nessa manhã pouco ou nada se importou com detalhes.
- Ainda não nasceu a tal, mãe, as mulheres actualmente são muito complicadas.
Esta a resposta, que dava sempre que a sua mãe se queixava, de um dia morrer e não o ver amparado.
- Mas, meu filho, uma mulher faz falta a qualquer homem, um homem sem mulher é como um cesto sem asa.
Estas conversas acabavam sempre com dois beijos repenicados nas faces da velha senhora, que encolhia os ombros num gesto contrafeito.
Está de férias, mora sozinho desde que a sua mãe faleceu, de um ataque de asma repentino, vai para cinco anos. Sempre foi um solitário, apenas um amor de adolescência o marcou e decepcionou, não que não tivesse tidos muitas mulheres. Teve-as sim, mas a nenhuma se apegou, todas passaram sem deixar marcas relevantes.
Advogado, com uma carreira sólida, a vida corre-lhe tranquila, ainda telefonou para a agência de viagens com a qual trabalha, a marcar uma pequena viagem de férias, desta vez esteve quase a ir para os Açores, gosta dos Açores por altura da Páscoa, tem por lá bons amigos, que lhe proporcionariam uma estada agradável. Uma semana antes de viajar telefonou para a agência a desmarcar a viagem, alguma coisa o impedia de viajar naquele momento, por mais voltas que desse não conseguia arranjar uma razão plausível para tal decisão. Acabou por decidir passar as mini férias da Páscoa no aconchego do lar.
Homem viajado, conhece metade do globo, quase nada o surpreende, mas agora, esta mulher mexe com ele, e consegue surpreende-lo.
- Que terá acontecido, porque uma mulher sozinha, está caída na valeta de uma estrada deserta, aparentemente o seu estado é de choque, mas choque do quê, e porquê.
Os pensamentos voam à mesma velocidade com que o carro galga os km nus do asfalto.
- Melhor que adormeceu, deixá-la descansar.
Quando chegar à cidade tentará saber quem é e de onde veio.
Tenta conduzir as ideias de forma concisa, ao mesmo tempo sente-se perdido, está habituado a lidar com factos concretos, e este é tudo menos um facto concreto.
Recorda a conversa que teve no ultimo fim de semana com o seu amigo Rafael, amigo de infância ,também ele advogado, ambos sócios da mesma firma de advogados cujo escritório fica na zona histórica de Évora.
Rafael, com o seu jeito de menino que nunca cresce, apesar dos cabelos brancos que proliferarem na sua ainda farta cabeleira, mandou umas bocas a tipo de provocação.
- Meu amigo, estás a ficar velho, isso é que é, tens medo de não conseguires apagar o fogo das meninas que proliferam pelos bares dos hotéis que gostas de frequentar, é isso, tenho quase a certeza que é isso!
-Mas como podes ser tão irritante, contrapôs, se não te aturasse desde gaiato juro que nunca mais me vias os dentes.
- Pois, pois, já não aguentas a pedalada.
Rafael deu uma sonora gargalhada, e continuou.
-Agora fora de brincadeiras, diz lá o que se passa contigo, estás doente e eu não sei. Ah, apaixonaste-te, finalmente, quem é a sereia, eu conheço, já era tempo lá isso era, daqui a pouco nem idade tens de ser avô, quanto mais pai!
Como o amigo consegue ser desconcertante, sempre que quer, talvez por isso sejam amigos desde os bancos da escola, precisa da jovialidade e descontracção que o amigo emana, contrafeito tinha-lhe respondido.
- Não é nada disso homem, está descansado que está tudo bem comigo, mas não sei o que se passa, este ano não me apetece viajar, quero ficar em casa e curtir o meu sossego, sozinho, deve ser da crise económica que atinge o planeta, vais ver a mim atingiu-me os neurónios. Não me apetece sair e pronto, a ti nunca te apeteceu ficar quieto no teu canto, duvido…
Ao sabor das recordações vai deitando o olho à desconhecida, não descuida nenhum pormenor que lhe possa ajudar a decifrar o mistério.
Repara nas suas mãos esguias e delicadas, unhas bens tratadas e pele macia.
Num gesto mecânico, estica a sua mão para tocar as dela, mas contem-se a tempo, não a quer acordar.
O vestido azul turquesa que traz vestido é de boa qualidade, linhas direitas, decote em bico, a manga um pouco abaixo do cotovelo, nos pés calça uns sapatos azuis escuros de salto rasteiro, repara na maciez da pele, não são uns sapatos quaisquer, devem ter custado uma pipa de massa.
Deita um olhar mais atento ao saco de pano, que continua a manter ao ombro, e que aperta contra o peito, um daqueles sacos de retalhos que se compram nas feiras de artesanato, destoa de todo o conjunto, mas ao mesmo tempo, parece que faz parte do quadro, a visão não seria a mesma sem aquele saco.
- Que terá dentro, de certeza que carrega a chave para o mistério que a envolve.
O Mercedes, azul escuro descapotável, continua a sua viagem rumo à capital.
Essa a direcção que a desconhecida tinha tomado nessa madrugada, esse mesmo caminho, decidiu tomar o doutor David Figueiredo. Advogado famoso na praça, desde os tempos de estudante, que mantêm um apartamento em Lisboa, no Campo Grande, ali para os lados da cidade universitária.
Nessa manhã, sentiu uma necessidade urgente de fazer uma visita ao apartamento, a ultima vez que lá esteve foi há mais de dois meses, aquando de um julgamento de um responsável financeiro famoso no mercado imobiliário, o homem tinha sido acusado de burla agravada, pelo estado Português, foi seu advogado de defesa, grande vitória esse julgamento, quando todos tinham o homem como culpado, ele conseguiu provar a sua inocência. Casos como este enchem as prateleiras do seu gabinete de trabalho. Os seus pares chamavam-lhe olhos de lince, processos perdidos à partida são por ele ganhos. Consegue quase sempre, descobrir uma prova a favor do arguido. Gosta de trabalhar com provas insignificantes aos olhos dos outros, da prova forense mais insignificante, consegue trabalhar a defesa, com este recurso e a sua vocação oratória, junta vitórias atrás de vitórias na sua já longa carreira.
Chegam ao cruzamento de Pegões decide-se pela estrada que conduz à ponte Vasco da Gama, é o caminho mais curto e o melhor em termos de tráfego, a esta hora do dia as filas na entrada da ponte já se dissiparam, certamente.
De vez em quando olha a desconhecida, que agora dorme tranquilamente, os soluços contidos acabaram por se dissolver num sono quase infantil. A sua beleza é serena, nada espalhafatosa,
- Uma autentica leidy.
Como diria a sua mãe.
Em pouco mais de meia hora estacionou o carro á porta de casa, mas manteve-se imóvel, com pena de a acordar. Conseguiu aguentar quase uma hora, esperando, mas a mulher não dava sinal de si, acabou por a carregar novamente ao colo e de a deitar suavemente sobre o sofá da sala.


Antónia Ruivo

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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Agosto 16, 2009, 16:56:24 »

Continuo a seguir com interesse a continuação! Vai num bom ritmo narrativo. Estou a gostar!
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Goretidias

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Antonia Ruivo
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« Responder #2 em: Agosto 18, 2009, 22:31:21 »

Um dia destes publico só mais um capitulo, e depois só o livro, rsss, isto é o esqueleto , vamos ver no que dá, beijinhos
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