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Autor Tópico: Sem estrada nem vontade  (Lida 2016 vezes)
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Burity
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« em: Agosto 26, 2009, 17:16:20 »

      Surgiam por todos os lados. No casebre empedrado desta sala vazia, rumores v√°rios, na imensid√£o de mar do salgado sil√™ncio a regatearem uma raz√£o. Um burburinho pelo ch√£o. Chegaram ao amanhecer esguios gr√£os, numa espiral de quentes sonos, vozes cor de pedra no corredor nefasto de qualquer imensid√£o preenchida por nadas ambulantes na ambul√Ęncia inexistente dos meus cadafalsos doloridos, escorrem pela testa, descendo a veloc√≠metros de bicicleta iluminando raros percursos ali escondidos pela sombra da noite, perto e cambaleantes contra as paredes do √≥bvio, numa confusa descri√ß√£o demag√≥gica, idealizando vindouros seres pela estrada de creme.
      Parecia a chegada √† casa de Francisco, sem muros que esque√ßam n√£o h√° vontade, mergulhar sem temores o descalabro surdo desta rua enamorada de quantos minutos que fossem caminhadas at√© mais cedo a noite, sempre, os dedos i√ßados na nevr√°lgica dor por entre o olhar que de longe dissipava o lugar nenhum de algu√©m consigo mesmo, eu do outro da estrada seguia sem rumo num olhar disperso quase a perder-se na nostalgia ali inventada para que mais tarde, de nada me arrependesse, n√£o consegui. Segui os met√°licos rumores de dentes a estilha√ßarem como numa palha√ßada as ideias que me sorviam de mim contra os passos crus a que Francisco, sabendo de mim, evitaria conscientemente cruzar-se no meu caminho, ia sem que vez alguma torcesse o pesco√ßo num olhar que fosse para as traseiras da sua inconsciente passada.
      Acima da cabe√ßa, pareciam sorrisos os destro√ßos do tempo num vendaval de tempestades e chuvadas, a prometerem molhar cada vez que aconte√ßa, o meu peito devagar, as minhas m√£os no caminho riscado da testa, como se fosse o que acontece tantas vezes quando me debru√ßo no peitoral da janela daquela casa velha onde tantos anos passei, a observar-me do outro lado da estrada, como se fosse assim poss√≠vel estar, evitava apenas ouvir de n√£o sei quem, os gritos que ensurdeciam a minha dor de cabe√ßa perdida, para dentro do meu descarnado instante, e nessa janela anos a fio passados a desmembrar as in√≥cuas verdades, plantadas no rio desta chuvada a descer carreirinhos pequenos, a minha voz inventada, eu ali, no fio brilhante dos meus resqu√≠cios, a inventar como desprezar-me este instante mais, a deglutir remorsos se conseguisse nascendo-me a cada gota desta janela, relva, sons, vidros quase partiam a estalos do vento met√°lico no zurzir doloroso dos meus murros sobre a mesa que havia na cozinha, se houvesse mesa na cozinha. N√£o havia sequer cozinha por isso, nem murros nem gritos, apenas a janela virada para as traseiras da minha casa que era um quarto sem janelas, eu era o que se poderia dizer o martelo furando chapas e conseguia abrir os olhos atrav√©s do nada vendo assim para l√° desse imposs√≠vel recreio o brinquedo que me distra√≠a, de olhos colados para a rua da estrada que a cidade constru√≠a, os homens da junta aut√≥noma de estradas caminhavam para tr√°s e para frente, sulcos negros de alcatr√£o a borrarem de cima a baixo todo o ru√≠do na estrada que se iniciava nessa tarde de fim de esta√ß√£o. Est√°vamos no inicio do ver√£o e ainda assim, chuvadas imensas perturbavam o come√ßo das obras vadias do meu corpo sem rumo. N√£o havia estrada nem vontade.
      Ao fundo, se fosse um quintal, se fosse quem sabe uma distra√≠da verdade, acreditava, simplesmente, a mesma, simples, a acontecer no decorrer p√°lido do instante era eu, momento a doer, esta vontade de janelas abertas, Francisco seguia a avenida sem sequer se interpelar pela nossa verdade fingindo-se ausente, nunca o ouvira noutra circunstancia que n√£o a de ter que se debru√ßar por mim, conquanto, a janela de anos anteriores desta mesma casa onde por muitos anos me consentiu ser minha, nela tantos instantes que se foram na simplicidade sincera dos bocejos sequiosos de tantas vidas disfar√ßadas nela, venha comigo o que vier eu nunca me irei pronunciar por isso, esta casa vende-me a tudo o que a vida de mim usurpara. Seria apenas um espelho ali, nos fundos alicer√ßados na vontade de quem me submetera √† sua condi√ß√£o, uma enervante sa√≠da de disfarces, eu, sinceramente digo, os meus olhos na imensid√£o vasta deste fumo de cigarro que engulo a variar as intemp√©ries do meu descalabro silencioso, neste arrumo de finados, a viagem de fins-de-semana a fim, a engendrar como deglutir o sabor fervoroso deste cigarro entre os dedos, a vida a morrer a passos lentos, o espelho.
      Sei quem mais por l√° vivenciava o naufr√°gio, quem mais sorria contra as intemp√©ries quase verdadeiras daquele h√≠brido instante, por ventura, viaj√°vamos no mesmo comboio tantas vezes uma inesperada passerelle de vindouros nefastos cruzamentos na carruagem √≠mpia dessa mesma noite, a que nos fermentava a agonia, fervorosa era a sua voz sem que se retorquisse por verdades vindouras, era ali um peda√ßo mais, a vida desprovida de t√£o escassa vontade, um fim de turno √† meia-noite, a viagem dum sono a dormitar silenciosos medos da vida verde. Agonia por ventura, eram vozes disformes a navegar o requinte feroz daqueles instantes, o requinte fervoroso daqueles momentos em fim de esta√ß√£o, n√£o as meteorol√≥gicas, n√£o as da l√≥gica, n√£o havia como e apenas o desmazelo nos levaria ao desd√©m do assunto retorquido nas membranas avulsas da viagem em derrapada constri√ß√£o, iria a caminho do leito vertebrado da saudade nos instantes seguintes, no leito areoso de praias por l√° deleitadas a minha alma acomodada √† recorda√ß√£o de que foram comigo carruagens de um certo comboio aniquilado nas mais severas dores, um dia de cada vez sei, na soma os seguintes acumulados aos anteriores, n√£o dormia certo sei que na areia mergulhava o instante cada vez mais declinado contra a vertigem assolapada daquela noite decorada com outros nadas a vertigens que me enervavam, a impaci√™ncia era eu comigo na esfera certa, remoinhos enfeitavam o decote decorria e a vida quase morria. Amarelo o bar de escadas de madeira, salto pela areia que se entrela√ßa nos dedos descal√ßos, os p√©s na insidiosa madrugada caminhavam como se eu na verdade me desvendasse ali, uma noite mais, ou enfim outras como tantas, a vida decorada na madrugada de praias seguindo um ritual destreinado, recordo as vezes que ali jogava a bola de trapos com os outros, o Paulo tantas vezes simulava o truque das fintas de um jogo nocturno nos areais do meu sil√™ncio, e Francisco, nem mais, pelo menos nestes momentos em que pertencera eu aos que se desvirtuam dos restantes minutos da vida anterior a um sono que revigore, salutar e verdadeiro.
      - Se dependesse dos gritos n√£o ficaria aqui. (...)
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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Agosto 28, 2009, 07:40:43 »

√ďptima narrativa! Linguagem requintada!
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Goretidias

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Vanda Paz
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« Responder #2 em: Agosto 28, 2009, 22:30:47 »

Reconheci o estilo.

Abraço

(quando aparecem?ainda h√° espumante...)
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Vanda Paz
Burity
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« Responder #3 em: Agosto 31, 2009, 07:24:00 »

Obrigado pela opini√£o e leitura Goreti.
Ol√° Vanda, como vais?
Prometo que um dia destes vamos aí, conversar um pouco, e, rs, beber desse espumante.
Um abraço.
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
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Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
Março 01, 2018, 20:26:58
Boa noite!
Dezembro 30, 2017, 21:19:00
Ol√°, amigos do Escritartes!
Dezembro 27, 2017, 09:04:13
Boas Festas!
Dezembro 21, 2017, 10:51:56
Ol√° para todos! Desde j√°, um feliz natal e um 2018 de novas escritas!
Novembro 11, 2017, 17:23:12
Boa tarde a todos! Votos de muita inspiração na nobre arte da escrita.
Outubro 25, 2017, 10:20:24
Meu bom dia a todos!
Julho 18, 2017, 20:17:24
Ol√° para todos! Boas escritas!
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