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Autor Tópico: Sem estrada nem vontade  (Lida 2566 vezes)
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Burity
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« em: Agosto 26, 2009, 17:16:20 »

      Surgiam por todos os lados. No casebre empedrado desta sala vazia, rumores vários, na imensidão de mar do salgado silêncio a regatearem uma razão. Um burburinho pelo chão. Chegaram ao amanhecer esguios grãos, numa espiral de quentes sonos, vozes cor de pedra no corredor nefasto de qualquer imensidão preenchida por nadas ambulantes na ambulância inexistente dos meus cadafalsos doloridos, escorrem pela testa, descendo a velocímetros de bicicleta iluminando raros percursos ali escondidos pela sombra da noite, perto e cambaleantes contra as paredes do óbvio, numa confusa descrição demagógica, idealizando vindouros seres pela estrada de creme.
      Parecia a chegada à casa de Francisco, sem muros que esqueçam não há vontade, mergulhar sem temores o descalabro surdo desta rua enamorada de quantos minutos que fossem caminhadas até mais cedo a noite, sempre, os dedos içados na nevrálgica dor por entre o olhar que de longe dissipava o lugar nenhum de alguém consigo mesmo, eu do outro da estrada seguia sem rumo num olhar disperso quase a perder-se na nostalgia ali inventada para que mais tarde, de nada me arrependesse, não consegui. Segui os metálicos rumores de dentes a estilhaçarem como numa palhaçada as ideias que me sorviam de mim contra os passos crus a que Francisco, sabendo de mim, evitaria conscientemente cruzar-se no meu caminho, ia sem que vez alguma torcesse o pescoço num olhar que fosse para as traseiras da sua inconsciente passada.
      Acima da cabeça, pareciam sorrisos os destroços do tempo num vendaval de tempestades e chuvadas, a prometerem molhar cada vez que aconteça, o meu peito devagar, as minhas mãos no caminho riscado da testa, como se fosse o que acontece tantas vezes quando me debruço no peitoral da janela daquela casa velha onde tantos anos passei, a observar-me do outro lado da estrada, como se fosse assim possível estar, evitava apenas ouvir de não sei quem, os gritos que ensurdeciam a minha dor de cabeça perdida, para dentro do meu descarnado instante, e nessa janela anos a fio passados a desmembrar as inócuas verdades, plantadas no rio desta chuvada a descer carreirinhos pequenos, a minha voz inventada, eu ali, no fio brilhante dos meus resquícios, a inventar como desprezar-me este instante mais, a deglutir remorsos se conseguisse nascendo-me a cada gota desta janela, relva, sons, vidros quase partiam a estalos do vento metálico no zurzir doloroso dos meus murros sobre a mesa que havia na cozinha, se houvesse mesa na cozinha. Não havia sequer cozinha por isso, nem murros nem gritos, apenas a janela virada para as traseiras da minha casa que era um quarto sem janelas, eu era o que se poderia dizer o martelo furando chapas e conseguia abrir os olhos através do nada vendo assim para lá desse impossível recreio o brinquedo que me distraía, de olhos colados para a rua da estrada que a cidade construía, os homens da junta autónoma de estradas caminhavam para trás e para frente, sulcos negros de alcatrão a borrarem de cima a baixo todo o ruído na estrada que se iniciava nessa tarde de fim de estação. Estávamos no inicio do verão e ainda assim, chuvadas imensas perturbavam o começo das obras vadias do meu corpo sem rumo. Não havia estrada nem vontade.
      Ao fundo, se fosse um quintal, se fosse quem sabe uma distraída verdade, acreditava, simplesmente, a mesma, simples, a acontecer no decorrer pálido do instante era eu, momento a doer, esta vontade de janelas abertas, Francisco seguia a avenida sem sequer se interpelar pela nossa verdade fingindo-se ausente, nunca o ouvira noutra circunstancia que não a de ter que se debruçar por mim, conquanto, a janela de anos anteriores desta mesma casa onde por muitos anos me consentiu ser minha, nela tantos instantes que se foram na simplicidade sincera dos bocejos sequiosos de tantas vidas disfarçadas nela, venha comigo o que vier eu nunca me irei pronunciar por isso, esta casa vende-me a tudo o que a vida de mim usurpara. Seria apenas um espelho ali, nos fundos alicerçados na vontade de quem me submetera à sua condição, uma enervante saída de disfarces, eu, sinceramente digo, os meus olhos na imensidão vasta deste fumo de cigarro que engulo a variar as intempéries do meu descalabro silencioso, neste arrumo de finados, a viagem de fins-de-semana a fim, a engendrar como deglutir o sabor fervoroso deste cigarro entre os dedos, a vida a morrer a passos lentos, o espelho.
      Sei quem mais por lá vivenciava o naufrágio, quem mais sorria contra as intempéries quase verdadeiras daquele híbrido instante, por ventura, viajávamos no mesmo comboio tantas vezes uma inesperada passerelle de vindouros nefastos cruzamentos na carruagem ímpia dessa mesma noite, a que nos fermentava a agonia, fervorosa era a sua voz sem que se retorquisse por verdades vindouras, era ali um pedaço mais, a vida desprovida de tão escassa vontade, um fim de turno à meia-noite, a viagem dum sono a dormitar silenciosos medos da vida verde. Agonia por ventura, eram vozes disformes a navegar o requinte feroz daqueles instantes, o requinte fervoroso daqueles momentos em fim de estação, não as meteorológicas, não as da lógica, não havia como e apenas o desmazelo nos levaria ao desdém do assunto retorquido nas membranas avulsas da viagem em derrapada constrição, iria a caminho do leito vertebrado da saudade nos instantes seguintes, no leito areoso de praias por lá deleitadas a minha alma acomodada à recordação de que foram comigo carruagens de um certo comboio aniquilado nas mais severas dores, um dia de cada vez sei, na soma os seguintes acumulados aos anteriores, não dormia certo sei que na areia mergulhava o instante cada vez mais declinado contra a vertigem assolapada daquela noite decorada com outros nadas a vertigens que me enervavam, a impaciência era eu comigo na esfera certa, remoinhos enfeitavam o decote decorria e a vida quase morria. Amarelo o bar de escadas de madeira, salto pela areia que se entrelaça nos dedos descalços, os pés na insidiosa madrugada caminhavam como se eu na verdade me desvendasse ali, uma noite mais, ou enfim outras como tantas, a vida decorada na madrugada de praias seguindo um ritual destreinado, recordo as vezes que ali jogava a bola de trapos com os outros, o Paulo tantas vezes simulava o truque das fintas de um jogo nocturno nos areais do meu silêncio, e Francisco, nem mais, pelo menos nestes momentos em que pertencera eu aos que se desvirtuam dos restantes minutos da vida anterior a um sono que revigore, salutar e verdadeiro.
      - Se dependesse dos gritos não ficaria aqui. (...)
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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Agosto 28, 2009, 07:40:43 »

Óptima narrativa! Linguagem requintada!
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Goretidias

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Vanda Paz
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« Responder #2 em: Agosto 28, 2009, 22:30:47 »

Reconheci o estilo.

Abraço

(quando aparecem?ainda há espumante...)
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Vanda Paz
Burity
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« Responder #3 em: Agosto 31, 2009, 07:24:00 »

Obrigado pela opinião e leitura Goreti.
Olá Vanda, como vais?
Prometo que um dia destes vamos aí, conversar um pouco, e, rs, beber desse espumante.
Um abraço.
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Boa semana para todos.
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