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Autor Tópico: Cena de ca√ßa no Bambangando  (Lida 1383 vezes)
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Antonio
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« em: Fevereiro 27, 2008, 18:21:22 »

Este √© o quarto artigo de uma s√©rie em que escrevi sobre as minhas experi√™ncias em √Āfrica

Vem esta narrativa na sequ√™ncia de outras tr√™s que j√° est√£o colocadas neste site: "O meu 25 de Abril", ‚ÄúSobrevoando a savana‚ÄĚ e ‚ÄúO cortador de carnes verdes‚ÄĚ.
A acção decorreu nessa terra do fim do mundo, o Rivungo, onde eu era o comandante do Destacamento de Marinha do Cuando, composto por mais doze marinheiros de água doce que, bem longe do mar, navegavam no estertor da guerra colonial, nos finais de 1974.
A minha ida para lá fora motivada pelo mês de férias do comandante efectivo. Quando pedi para me dizerem quando regressava ao seu lugar o meu colega, o Comando Naval de Angola respondeu-me que já não ia. E que eu podia desactivar a unidade e ir embora com o pessoal e o material que fosse transportável por camião sobre picada. Devido a várias vicissitudes, ainda lá fiquei outro mês.
E mesmo este pequeno período de oito semanas foi suficiente para ficar meio apanhado da cabeça.

Como já anteriormente referi, a comida que recebíamos semanalmente só chegava para alimentar aqueles jovens esfomeados durante quatro dias. Para suprir as carências para o resto da semana, ia-se caçar.
O transporte era um dos jipes, na parte mais recuada do qual fora soldada uma estrutura em ferro, mais elevada, configurando um banco de três lugares devidamente almofadados para proteger os rabinhos. As armas, metralhadoras G3.
Havia dois homens que eram habituais nas caçadas: o cabo José Castro e o artilheiro João Correia. O primeiro como condutor da viatura e o segundo como atirador.
Este era o mais antigo no Destacamento. Marinheiro de artilharia, estatura m√©dia, magro, loiro, fumador inveterado e com os dentes estragados apesar da sua juventude, depois de dois anos de comiss√£o no Rivungo pediu para l√° continuar pelo que j√° ia no terceiro ou quarto. Era o mais respeitado pelos outros, depois dos graduados. Estava sempre a trabalhar e era pau para toda a colher. Vivia numa cubata com a ind√≠gena mais rica da localidade, pois o pai era o dono da √ļnica loja existente. Vendia de tudo. Um verdadeiro supermercado, √† escala da terrinha, claro. E a filha era a negra mais bem vestida das redondezas pois o pap√° lhe facultava os melhores e mais berrantes panos para confeccionar a roupa. O Correia tinha-lhe verdadeiro amor. Era o √ļnico que cumpria hor√°rio, pois fora das horas de servi√ßo ia para sua casa e dedicava-se inteiramente √† mulher e, entre outras coisas, ensinava-a a ler, escrever e contar. Tinha o comportamento de um verdadeiro marido e chefe de fam√≠lia embora n√£o tivessem filhos. E, quando retiramos definitivamente daquelas paragens, foi pungente v√™-los a chorar que nem crian√ßas pois ambos sabiam que nunca mais se encontrariam. Amor lindo!
Além dos dois, normalmente iam mais três homens para as caçadas semanais que eram em locais relativamente perto e demoravam pouco tempo graças à pontaria do Correia.
Apanhavam ca√ßa ligeira, normalmente coelhos, ao in√≠cio da noite, usando a t√©cnica do encandeamento dos animais por um potente holofote. Chamavam-lhe ‚Äúfarolinar‚ÄĚ. E bicho parado era bicho morto.
De vez em quando fazia-se uma caçada mais longe para apanhar caça mais grossa.
Foi precisamente para eu poder tomar parte numa dessas caçadas, que se combinou para determinado dia uma ida à zona de Bambangando (o nome foi-me transmitido oralmente, nunca o vi escrito pelo que, se não for exactamente assim, espero ser perdoado).
Além de mim, do cabo Zé, e do João, iria o Nunes, grumete de tronco largo e musculado, barba rara e um bigodinho ridículamente frágil, que trabalhava bastante na confecção dos alimentos e tomava conta da bicharada doméstica do destacamento. Incluía um pequeno jacaré, cães, um macaquinho e umas cobritas.
Como a zona para onde √≠amos era afastada o suficiente para nos perdermos (mas nela havia abund√Ęncia de animais de carne saborosa), ia connosco um nativo para servir de guia. Tamb√©m lev√°vamos machados para dar in√≠cio √† amanha das bestas abatidas.
E assim, bem cedo, numa manhã soalheira de finais de Outubro (não esqueçam que o Rivungo fica no hemisfério sul), estávamos prontos para uma aventura completamente inédita para mim.
Quando perguntei se o material de comunica√ß√Ķes estava na viatura, disseram-me que n√£o costumavam levar:
- Mas isso muda j√° hoje! ‚Äď disse eu, e ordenei ao homem das comunica√ß√Ķes, o Neto, que preparasse um transmissor-receptor para ir connosco. E tamb√©m combinei com ele que de duas em duas horas n√≥s comunicar√≠amos em determinada frequ√™ncia. Se n√£o recebesse nada, deveria tentar contactar-nos.
O lanche n√£o tinha, naturalmente, sido esquecido. E muito menos a √°gua. √ćamos para uma zona mais afastada do rio e, portanto, mais quente. A savana pura!
Toda a malta do destacamento se veio despedir de n√≥s. Fiz duas ou tr√™s recomenda√ß√Ķes ao sargento Gomes que assumia, interinamente, o comando da unidade.
E lá partimos à aventura.
Tudo corria bem. Eu estava entusiasmado e ia tirando umas fotos. Par√°mos ainda em duas pequenas povoa√ß√Ķes para descansar os cuzinhos dos solavancos. A certa altura, j√° o sol ia alto (acho que os rel√≥gios marcavam entre as dez e as dez e meia), o Correia disse:
- Sr. Zé! Páre o jipe e o motor!
E logo após os meus tímpanos vibraram com um tiro e, alguns segundos depois, com outro.
- Acho que matei um javali! ‚Äď disse o Jo√£o.
O cabo arrancou e fomos na direcção indicada pelo atirador.
- Est√° ali! ‚Äď disse o Nunes.
E estava, de facto, um animal caído. Ainda mexia. O guia pegou num machado e deu-lhe o golpe de misericórdia.
- L√° vou eu comer carninha de javali! ‚Äď falei para os meus bot√Ķes.
Após algum tempo de descanso sob umas árvores, pois o calor já era fortíssimo, arrancamos para tentar apanhar mais uma peça.
Diga-se que, nestas caçadas maiores, distribuíamos parte da colheita por alguns (no total eram muito poucos) brancos de outros aldeamentos que os meus homens conheciam. E, chegados ao Rivungo, também vários eram os contemplados. Mas a recíproca também era verdadeira.
Com o jipe novamente a galgar terreno sob um sol cada vez mais forte nova situação de tiro se propiciou mas, desta vez, falhamos.
No entanto, pouco depois, um disparo certeiro do artilheiro atingiu um caixote. Foi naquelas paragens que ouvi falar pela primeira vez naquele nome. Depois de morto e de o observar, pareceu-me uma espécie de antílope, mais corpulento.
E ainda caçamos um segundo javali.
- Vamos apanhar mais um e depois regressamos ‚Äď disse o cabo Z√©.
Seria perto da uma hora. Sol a pique, novo caixote à vista correndo veloz, pé a fundo no acelerador, um grande solavanco, um estrondo, um jipe parado, um motor fumegante.
O bloco estava partido. Não poderíamos sair dali sem ajuda de outros.
- Vamos puxar o carro para aquela zona com √°rvores. Aqui n√£o aguentamos o sol e o calor ‚Äď disse o cabo.
- Depois comunicamos com o Neto. A pr√≥xima hora prevista √© √†s duas. Mas pode ser que ele esteja por perto e nos escute ‚Äď disse eu.
E todos em cuecas ou calção de banho puxamos, com uma forte corda que fazia parte da carga habitual, o jipe para uma zona de sombra. Foram pouco menos de duzentos metros.
Reparamos, ent√£o, que no meio da vegeta√ß√£o havia uma grande chana. Tamb√©m foi l√° que ouvi pela primeira vez falar nesta palavra. √Č um charco, maior ou menor, de √°guas quasi estagnadas, onde os animais v√£o beber.
Mas est√°vamos a coberto dos raios solares e isso era muito importante.
Ainda antes de comer a merenda contactamos o Destacamento. Ninguém respondeu. Deviam estar a almoçar.
Começamos a refeição mas, quando eram duas horas, ouvi a voz do nosso telegrafista depois de o ter chamado.
Contei o que tinha acontecido, indiquei o local onde est√°vamos (o guia foi precioso para esta informa√ß√£o) e demos instru√ß√Ķes sobre quem deveria ser contactado para nos vir buscar. Era um dos brancos que vivia numa das pequen√≠ssimas povoa√ß√Ķes por onde pass√°ramos e que tinha um cami√£o.
E fomos esperando.
Duas, três, quatro, cinco horas da tarde.
A água acabou. A sede era imensa. Só havia uma solução: beber daquela água da chana, apesar de estar cheia de bichinhos lá dentro e uns mosquitos enormes caminhando sobre ela.
- O que n√£o mata, engorda! ‚Äď sentenciei.
E enchemos os jerricans filtrando a água com um lenço. Até hoje não tive qualquer problema por ter bebido daquele líquido certamente inquinado. Os organismos mais jovens tem boas defesas mas, apesar de tudo, tivemos sorte.
E a espera continuou.
Seis, sete, oito, nove horas. Noite.
Os contactos com o Neto foram frequentes.
Já perto das dez, iluminados por uma fogueira que além de clarear poderia servir para afugentar algum animal menos desejado, ouvimos o ruído de um motor. Pouco depois vimos a luz de faróis. Finalmente salvos!
O jipe foi carregado para cima do camião e após algum tempo de viagem chegamos ao primeiro dos povoados.
Saciamo-nos com √°gua fresquinha. E cerveja.
Entretanto, alguém referiu que os animais mortos já estavam a deitar mau cheiro. Como ainda faltava algum tempo para chegarmos ao destino, decidimos deixá-los ali mesmo para depois serem enterrados. Lá se foi o resultado da grande caçada. E a carninha de javali...que chatice!
Chegados ao Rivungo e feitas as despedidas dos nossos salvadores, contamos a aventura rapidamente. A fadiga era muita. Fomos tomar banho e dormir.
No dia seguinte, a narrativa foi calmamente detalhada.
E disse ao Neto:
- Ora v√™s a import√Ęncia de se ter um meio de comunicar e saber quando ele pode fazer falta?
- Tem raz√£o, Sr. Tenente ‚Äď anuiu, abanando simultaneamente a cabe√ßa em sinal de aprova√ß√£o.
O Neto era um tipo baixote, cabelo grande e muito encaracolado, um patusco bigode. Era considerado meio tolo pelos outros. Mas era bom como t√©cnico de comunica√ß√Ķes.
Um dia, mais tarde, fui encontr√°-lo na sua min√ļscula cabine aninhado, cal√ß√Ķes em baixo, e o pirilau metido dentro de uma tigela com um l√≠quido aquoso.
- Que se passa, p√°? ‚Äď perguntei.
Embara√ßado, confessou-me que ele e o Xana, um dos grumetes mais mandri√Ķes do grupo, e que era fumador de liamba segundo me disseram, depois de tanto ouvirem dizer que se fossem circuncisados teriam muito mais prazer nas rela√ß√Ķes sexuais, haviam recorrido ao servi√ßo de um dos dois enfermeiros negros e beberr√Ķes da povoa√ß√£o que, com uma l√Ęmina de barbear, lhes tinha cortado o prep√ļcio.
Resultado: uma infecção em cada um deles e cura demorada, pois a medicação existente não era a mais adequada.
Daí o demolhar do membro viril (que, naquela fase, não o devia ser muito) numa solução de borato de sódio.

De facto, muitas vezes aquele local parecia mais um manicómio que um quartel militar (mesmo em miniatura).
Mas, a mais interessante, enriquecedora e louca experiência ainda estava para acontecer.
Um dia vir√° aqui poisar.
At√© j√° tem t√≠tulo: ‚ÄúDiplomacia no Rivungo‚ÄĚ

(escrito em 17 de Julho de 2005)
« Última modificação: Fevereiro 28, 2008, 09:07:35 por Antonio » Registado
Goreti Dias
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« Responder #1 em: Fevereiro 27, 2008, 20:50:54 »

Essa de mandar circuncisar-se sem necessidade era de doidos mesmo... ganharam uma infecção e um orgão bem feio, depois dessa cura mal feita! Quem lhes desse juizo...
Mas gostei da descrição! Muito!
Um abraço
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Goretidias

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Antonio
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« Responder #2 em: Fevereiro 28, 2008, 18:56:52 »

Estas situa√ß√Ķes de isolamento em rela√ß√£o √†s formas civilizacionais a que estavamos habituados requeria outro tipo de comportamentos que depois eram transportados para a cidade, ap√≥s o regresso.
Beijos
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« Responder #3 em: Mar√ßo 02, 2008, 16:48:24 »

Mais uma aventura pitoresca da tua "guerra". Muito bem contada!
Venha a próxima.

Abraço
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Antonio
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« Responder #4 em: Mar√ßo 03, 2008, 13:02:53 »

A próxima não vai demorar...espero!

Abraço
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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
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Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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