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Autor Tópico: Concurso “IMAGENS DA NOSSA MEMÓRIA”  (Lida 87428 vezes)
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josé antonio
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escrever é um acto de partilha


« Responder #465 em: Setembro 06, 2010, 20:24:03 »

Boa noite,
Suicidei-me! :byecry:
Grande abraço.
Encontrar-nos-emos no dia 9 de Outubro... :fixe:
José António
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Tere Tavares
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« Responder #466 em: Setembro 06, 2010, 20:36:43 »

Aqui 17:00 horas! Passaremos dos 300!
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Escreve também no blog:
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Todos os textos registrados nº 540.178 livro 1027 folha 386.
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elvira
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« Responder #467 em: Setembro 06, 2010, 21:06:23 »

Olá, José
Vais ter que resuscitar! Pois nem S. José te vale. E o almoço vai ter que ser especial. Vai aprontando a carteira. Bj Elvira
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« Responder #468 em: Setembro 06, 2010, 23:19:35 »

Texto n.º 302

Alvo
 
Teve certeza que o egoísmo – sentimento tão absurdo e horrendo – poderia vingar-lhe sobrevivência. Relutou. “Vou pensar em mim”. O inferno são os outros – esquecera, é mais fácil lembrar do sentido do que do autor que o desencadeou – Sartre teve a felicidade de aguçar em três palavras uma grande verdade humana. Talvez um livro secreto o tivesse incumbido dessa fagulha de eternidade da qual não havia como não concordar, exceto pela ínfima razão de que o céu existe porque o inferno existe. O que cabia, talvez fosse aferir com terrível exatidão o caminho do meio sem ser Einstein ou Da Vinci.

Texto n.º 303


Dom
 
Hoje o normal virou-se e disse um olá. Na contramão o inconfesso quis aproximar-se e temperar o sortilégio mental da sua preguiça. Soube apenas do portão aberto ao toque inseguro, agilmente determinado. Ao chegar não perscrutou perguntas, preocupações ou suspeitas. Depois da pausa o recomeço; é assim sempre, ou quase sempre. De definitivo só o presente com o que há de definitivo. Interrompe o silêncio que agora se instala para outra pausa igualmente silenciosa. A beleza inaugura o que a contempla como um menino recém acordado. Deixa-se ficar – em nome da arte quanto em nome de Deus.

Texto n.º 304


FESTA NO LICEU
 
 
                                               Eras tu, que me davas uma rosa
                                               Eras tu, que me pedias para dançar
                                               Eras tu, com asas de mariposa
                                               Eras tu, que me fascinavas com o olhar!
 
                                               Eras tu, aquele jovem ardente e suave
                                               Que tinha a vida para amar,
                                               Mas o teu amor era como a ave
                                               Que logo poisa e recomeça a voar!
 
                                               Olhei, vacilei e aceitei…
                                               Começamos a dançar;
                                               Ao de leve a cabeça encostei
                                               E meus cabelos estavas a  beijar!
 
                                               Fiz o que não queria,
                                               Quando aos teus braços fui parar!
                                               Mas eras tu, quem me pedia,
                                               Nesse dia para dançar!... 

     
Texto n.º 305


Vinham das redondezas e, até, de bem longe. Era às sextas-feiras.Chamavam-lhe o dia « de pedir ». Os ricos, na noite anterior, já deixavam entregue à « criada de servir » a saca das esmolas com os tostões. Os " menos ricos " não tinham saca, mas bolso de onde tiravam algum pedaço da côdea da sobrevivência, numa partilha samaritana.A todos, os POBRES agradeciam, rezando avé-marias e padre-nossos « pelas alminhas de quem lá têm. »
Em Lisboa um ditador condoía-se com os « pobrezinhos » e mandava cantar que uma casa portuguesa tinha sempre, com certeza, pão e vinho sobre a mesa .

Texto n.º 306


A Bobine
 
As imagens que desenrolo, como se de bobine de filme se tratasse, guardo-as na caixinha mágica, bem protegidas, quase em segredo.
E são tantas!!!
Algumas pintadas em sonâmbula ilusão; outras, com pincéis de preto carvão.
E a caixinha abrindo e fechando, em memórias vai crescendo, ditando meu testamento.     
 
 
( Aceitei o desafio de uma imagem escrever, dou os parabéns a todos por tão soberbo lazer)



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« Responder #469 em: Setembro 06, 2010, 23:22:47 »

Terminou o concurso.

O trópico foi trancado. Ficaram agora publicados os últimos textos.



Daqui a algumas horas serão colocados aqui todos os textos em sequência. Depois começará a ser preparado o tópico de votação.

A Administração agradece a óptima colaboração que todos prestaram.
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« Responder #470 em: Setembro 07, 2010, 05:22:41 »

Texto n.º 1


DEZASSETE TOSTÕES
 

Apenas dezassete tostões satisfariam o prazer de uns tantos cigarros no consolo dum vício de décadas. Um maço de cigarros “ Definitivos”. Mas do sustento da casa e dos filhos os dezassete tostões não sobravam e a satisfação do vício teria de aguardar por melhores dias. Pelo dia em que depois de todas as despesas pagas, eles sobrassem, sem causar mossa no orçamento sempre batido no zero absoluto, do nada igual a nada. Para além do leite, do pão e da mercearia eles teriam de sobrar um dia. Dia que nem ele, sofredor angustiado nem a mulher adivinhavam quando poderia acontecer.

Texto n.º 2


Enquanto a noite se fazia rogada, o homem trôpego de álcool e a mulher perdida de vida trocavam mágoas a muitos milhões de lamentos por segundo.
O bar vazio com o empregado bufando sono e cansaço cantavam um requiem em louvor daquelas almas penadas.
Por quanto tempo se suporta a dor própria sob a dor da mais desafortunada companhia?
Também, qualquer que fosse a resposta dada a uma equação etílica, nenhuma luz se faria sobre a inquietude dos perguntadores. A verdade da noite, ia mais uma vez ser mascarada por dia vestido de óculos escuros.
Noites e dias repetidos até à exaustão…

Texto n.º 3

O Jeremias depois de uma noite de pândega e asneirada, deu-se ares de deus louco e de pensador eminente.
A coisa ia dando para o torto, não fora a dona Efigénia ter filado o desmiolado do Jeremias no preciso momento em que ele se fazia de Ícaro e se preparava para voar da janela da Carminha cabeleireira, que minutos antes trepara para se aventurar numa alcoólica serenata matutina.
Com calma e experiência de anos de maritais bebedeiras, dona Efigénia lá convenceu o Jeremias a descer de modo mais ortodoxo da varanda e mergulhou a estouvada cabeça do tratante no lago dos peixinhos vermelhos.   

Texto n.º 4

Recolhe o tempo no tempo maior, descem as sombras no descampado da luz e sonha-se a Lua perdendo-se na planície.
O tempo calcorreia a vida do pobre pedinte desassombrado que, sem mossa maior, espera a sopa à porta do albergue. Foge-lhe o tempo na tigela sem colher, água verde ausente de cores outras. Foge-lhe o tempo nos olhos baços. Folhe-lhe o tempo nas pernas bambas, acidente vascular cerebral de outras eras. Apenas o chão espera o próprio tempo. Para matar o resto do tempo. Assim, sem regras nem demoras, como se o Universo não tivesse cancelas.

Texto n.º 5


Seu lábio tocou o meu. Na escola na sala cinza no recreio. Sua boca de boneca sapeca sapecou-me um beijo. Ela não sabe, mas foi meu primeiro beijo na boca. Lembro-me do sabor de novidade que aquele contato intumescido proporcionou. Fiquei atônito e perplexo. Os olhos ainda maiores brilhavam como fogo. Senti as faces queimarem e todo o meu corpo junto. Mal sabia eu o que me esperava. Havia pimenta guardada. O gosto leve e cheiro suave de fim de infância eram apenas a entrada de um grande banquete anunciado para durar uma vida. Há muito com dança e expressões de delicadeza e força intensas revivo esse primeiro momento eterno em mim.

Texto n.º 6

Esquecera há quanto ocultara na falta de tempo as leveduras do pó e seus milhões de ouvidos. Abriu o compartimento de onde viriam as notas. Um clique. Debussy. Massenet. Guardava o som na memória que esquecia títulos, composições. Só a melodia a vagar o sentido que não oblitera. A leitura disforme e veloz como as mudanças tecnológicas. A fome por som continuaria somente até a segunda idéia navegar a distância da aproximação, portas presentes. Meditação para Clair de Lune e Thais. Viu partituras. Ouviu piano, violino. E segregou-se no retrato de um homem que possivelmente teria amado.

Texto n.º 7

Perturbatio
 
Bradam os ventos de encontro às rochas
Revolvem-se as ondas em chicotes esvoaçantes
Vergam-se as nuvens em castelos no horizonte
e o meu olhar afunda-se para além dos vidros
(arrastando todos os suspiros contidos)
Querer espartilhado que se revolve com as ondas
brada com o vento
e se estilhaça em partículas de sonhos
 
[E tu continuas a falar comigo sobre regionalização]

Texto n. 8


A menina esbugalhava os olhos a cada nova passagem.
Em fila indiana, pela estrada nacional fronteiriça ao monte, caminhavam cavalos da GNR, espaçados entre si por uma grossa corda, onde pendia a debilidade humana. Homens de olhar e rosto cansado, marcas profundas num país ferido. Para aquela menina eram homens maus e cruéis, essa a razão porque os guardas os levavam presos.
Ela era a única espectadora daquela cena, os adultos haviam-se recolhido dentro de casa. Na sua inocência infantil, pergunta a quem correra à rua para a ir buscar.
-São ladrões não são?
Uma voz soluçante responde.
- São sim minha filha, são ladrões de ditaduras.

Texto n.º 9


O palco era composto de quase nada. Dois bumbos, um violão, um órgão eletrônico e um cantor. Nunca se soube a cor da face ou o contorno dos olhos da companheira que não o acompanhava – uma dócil utilidade afeita a jamais passar das frestas. Obra do cantor ou do conformismo de um destino, de cuja voz e sorriso pendiam seus cabelos desprotegidos, a sua boca delineada pelos murros da percussão. Enquanto a platéia, dividida e surda, aplaudia num quase silêncio a expressão mezzo-soprano, nascia mais uma heroína morta.

Texto n.º 10

 O tempo é a marca do homem. O tempo marca o homem. O tempo é um nome. Dias, meses, anos... O tempo a tudo consome. Vidas, amores, encantos... O tempo é a sombra do homem. Perseguidor e perseguido. O tempo é o vento e a rua vazia. O tempo é o furacão e a louca magia.

      De repente, o poeta abre as páginas do seu livro. Um livro que ainda há de existir. E escreve poemas passados e futuros. Escreve memórias e histórias. Os versos? Os versos são fios de um tempo. E muitos fios se embaralham, se confundem, se atraem. O poeta? É um ser sem tempo porque busca a si mesmo através das lembranças.

      Ao fechar o livro que virá, o poeta sorri e vê o tempo passar e não passar...

Texto n.11

Nuvens silentes


Horas infinitas soam aquelas nuvens passeando ocultas, intocáveis pássaros sonhos velando por trás da cortina do sol.

Castelos caem no horizonte, mas só as nuvens reféns do vento calam a donzela lastimosa, cuja alma errante no céu de sonhos

espera do amor seus eflúvios.

Fogem as nuvens vampiras de ilusão, ansiosas como breves romances fugidios, roubando do leito seus sonhos... que brumas

caprichosas são, silentes poemas aéreos que, sem um grito, junto levam minha alma a caçar nas esferas mais belas o elixir dos

íntimos mistérios.


Texto n.º 12

Era sempre no meio de flores e de árvores que me perdia sempre que precisava de ficar em solidão. A brisa delicada fazia-me mimos ao de leve, os troncos aconchegavam-me e acolhiam-me nos seus regaços, o ruído da água do ribeiro chamava-me e eu olhava-a, admirado, para as suas gotas de água que por vezes se escapavam para o meu rosto moreno como se me cumprimentassem e agradecessem pela minha presença. Começava a divagar, a deixar a minha mente fluir, até que adormecia e tinha a nítida sensação que os meus sonhos admiráveis tinham um impacto em mim até a um tumulto contínuo da realidade.


Texto n.º 13


Algures, num qualquer dia assinalado numa folha de calendário antigo, perdido num qualquer canto escuro de uma casa abandonada mas onde perduram as memórias.

Um homem caminha com uma pequena pela mão. A poeira entra-lhes pelos sapatos e tinge-lhes de castanho as meias brancas de sair. Ainda faltam uns bons pares de km até chegar à vila. É preciso apressar o passo, pois o especialista de Coimbra não costuma esperar por ninguém...
_Pai, ainda falta muito? - Pergunta a pequena já cansada.
_Não. Não vês que já andamos a maior parte? Daqui até lá é um salto! - Responde-lhe o pai tentando apaziguar-lhe o desânimo.

Texto n.14


Enquanto houvesse vinho nas pipas, aquela alminha desgraçada não mais voltaria à sobriedade, nem que fosse só por um dia.
Volta e meia o reboliço do costume... as ofensas gratuitas, a gritaria, as portas a bater, a correria da pobre mulher seguida do rebanho de filhos que fugiam assustados pelo cano da espingarda que lhes era empunhada a meio da noite, assim, só porque sim.
Menos sorte teve o cão daquela vez que não fugiu a tempo e acabou prostrado  no chão, abatido com um tiro certeiro.
Esfolou-o a bebedeira e temperou-o em vinha de alhos. Foi a assar no dia seguinte...

Texto n.º 15

Deveria ser Dezembro, não sei ao certo.
Mal pus o pé na rua o meu rosto encheu-se de espanto... nunca tal tinha visto! A rua estava toda vestida de branco, parecia que alguém a tinha polvilhado de açucar. Tinha nevado na minha aldeia, coisa rara de se ver por aquelas bandas, pois que nos meus quatro anos de vida era a primeira vez que acontecia tamanha fortuna para deleite dos meus pequenos olhos tomados pelo encanto daquele instante tão emocionante e belo, que guardo até hoje na prateleira mais valiosa da minha memória.

Texto n.º 16

Coisas de criança

Que as crianças são lindas, ninguém tem dúvida. Que são anjos pode ser questionável.  A mãe sempre dizia à bebé: Quem é a menina mais linda, quem é? Joana cantava para Sara, sempre a mesma canção:  "Sara é a nossa menina. Sara bebé é linda de encantar!" Passados dois anos desta cantilena diária,  em casa de amigos, estava uma menina de 1 ano. Joana comentou com o marido que a menina era linda, quando Sara, vermelha de indignação, apontou o dedo à mãe e acusou-a:  Ai ela é que é linda? Já não cantas mais para mim!  Enganaram-me estes anos todos!

Texto n.º 17


São imagens esbatidas, meio apagadas, como aquelas fotografias antigas e enclausuradas em molduras de metal como se fossem grades de uma prisão perpétua. Ainda assim, conseguem manter a pose permanecendo orgulhosamente silenciosas e indiferentes ao relógio de pêndulo que as fita num desdém insolente lá do canto oposto da sala e cujos ponteiros há muito que passaram a rodar no sentido contrário, marcando as horas que já foram... são rostos calados, com sorrisos forçados pela urgência do momento, segurando insistentemente um instante que as havia de suspender no tempo, devolvendo-as à posteridade.

Texto n.º 18

De vez em quando, chegava uma encomenda vinda de Lisboa. Os olhos brilhavam e no peito crescia uma frenética vontade de a abrir e descobrir o que vinha lá dentro. Normalmente eram frasquinhos pequeninos de perfume, caixinhas redondas com um pó avermelhado, colares e outras quinquilharias com cheiro de cidade.

Mas daquela vez, lá no fundo de tudo, estava uma boneca lindíssima de cabelos cor de cenoura e olhos verdes. O que senti, foi um misto de emoções indizíveis. Lembro-me que naquele dia, o meu corpo foi pequeno demais para mim, visto  que quase não me cabia... de tamanho contentamento!

Texto n.º 19

Sentinela

Todas as manhãs de domingo encontrava os minúsculos dejectos, dois em cada lado no branco do mármore. Ontem quando cheguei estava um pássaro pousado na lápide, que se deixou ficar, atento aos meus gestos e à distância entre nós. Mudei as flores, rodei a floreira três vezes para elogiar a qualidade do arranjo e quando pequei no esfregão verde para retirar os dejectos no mármore, ele esvoaçou para longe. Terminei a minha tarefa e quando parei pela última vez a uns dez metros de distância da sepultura dos meus pais, ele já lá estava, pousado, junto à fotografia de ambos, feito sentinela.   

Texto n.º 20

CARACOL
 

Desde a primária que o apelidavam de caracol por trazer sempre uma ou outra narina libertando o dito e comum, à época, ranho. E quando não o enxaguava mudavam o apelido para – “ ranho-seco”. Igual, só mudando do estado líquido para sólido. Já adulto, ainda alcunhado de caracol, interiorizou que chegaria muito tardiamente ao dia da morte, por ser caracol e o caracol mais rápido gastara cinco segundos para correr um centímetro! Ignorando a distância até à morte, deixou de se preocupar. Naquela velocidade a morte ainda deveria estar muito longe e continuou caracol sem a insónia da morte.


Texto n.º 21


Olhei o desejo plantado na calçada do tempo e preparei-me para dobrar a esquina do meu pensamento nado e criado em ti. Desci a fachada do teu ventre e penetrei na suavidade das tuas entranhas, ousando transpor desvãos criados no sonho. Não te devorei no emaranhado dos momentos  confusamente desaparecidos na ilusão; não te consumi em ânsias de beijos amanhecidos no vento; não te inventei no tempo mágico da lucidez. Criei-te num mapa fantástico onde os rios são os teus dedos, as montanhas se fizeram no teu dorso e o mar no teu ventre de algas macias.

Texto n. 22

Fagundes, entre dois tragos de mescal e uma baforada de um charuto barato,pensava na galdéria que lhe tinha passado a perna e surripiado a carteira enquanto lhe afagava o ego já morto por tanto álcool.
 
Poderia morrer inane, mas não morreria estúpido.
 
Da próxima vez, qualquer que fosse o lugar, na terra ou no inferno, Fagundes haveria de escolher o prosear fechado com o mescal  e o charuto.
 
Pelo menos, assim teria a certeza de não se iludir nem incorrer em penúria fatal.
   
Texto n. 23

Na leveza da manhã solarenta arregalei os olhos à luz branca que entrava pela janela escancarada. A meu lado o silêncio do teu corpo desgastado pelas noites mal dormidas embalando a canastra do filho, pelas manhãs carregando carvão da mina... Os meus pulmões resfolegando como cavalo cansado não me permitiram mais do que uma tentativa de movimento por cima da tua anca. A força morreu - me no ar inspirado que não chegou. Negro de pó me fiz, nada de pó me farei. Sem apelo nem agravo.

Deslizas para fora da minha rigidez estática.


Texto n.º24


Não vou esquecer nunca os teus olhos, Fátima. O teu olhar estuporado pela surpresa, consciência a recusar assumir-se consciente. As lágrimas a rebentar com a força do desespero contido. As mãos a retorcerem-se num gesto de impotência. Até que um soluço abafado soltou a incredulidade. Claro que podia ser. Sim. Mesmo depois de tanto tempo de tropa. Seriam mais dois anos a acrescer aos três já decorridos. Tentei consolar-te, encontrando forças não sei em que meandros da minha própria incredulidade. Ia correr tudo bem. E dois anos passam depressa. Dois anos....

Texto n.º 25


 
Deixei-a passear o silêncio pelo cenário estendido aos seus pés. Lampiões acesos madrugadores serviam-lhe de passadeira. De luz branca, pura, como se suspeitassem que quem a calcava era virgem na caminhada. Escolhi a refeição sem a consultar. E deixei a conversa debruçar-se, trivialmente, sobre a cidade, num desafio de encontro de referências, daquela perspectiva e àquela luz tornado difícil, para quem usava do burgo só ver os pés. Lá ao fundo, o rio era um pastel, a reflectir difusamente os anúncios dos armazéns de vinho do porto.

Texto n.º 26

Algas já secas
descansam na praia...
Corrida que foi
a viagem
à procura dum porto...
...esquálidas...
...fendidas...
...encarquilhadas...
...vencidas...
...velhas...
...à espera duma gota que seja
de água escorrida
da fonte da vida...
...à espera dum mar
que as faça tornar
às suas antigas danças...
...algas já velhas
descansam na praia..
... são tal e qual
as minhas esperanças...

Texto n.º 27

Apalpa o tapete com as solas dos pés nus em busca dos chinelos que se desviaram. Levanta um quilo de chumbo colado ao corpo e arrasta-se a custo até ao bordo da sanita que o esperava há horas... procura a abertura minúscula dos boxers e saca daquele cuja ponta lhe aponta um esguicho descontrolado, onde despeja um litro de vontade. Sacode e recolhe a urgência aliviada enquanto arranha a coxa comichosa...
Dá meia volta e mira-se no espelho redondo que lhe devolve a careta sem demora. Desconfia do espelho, quando este lhe mostra o outro... aquele que ali vê, não é o dono da casa onde mora!

Texto n. 28

Quatro e meia da manhã. O silêncio da noite é interrompido abruptamente pelo toque do sino a rebate.  O que foi, o que não foi, todos se interrogam ainda estremunhados enquanto se vestem à pressa e correm para o meio da rua à procura de respostas para tamanho alvoroço.
Nem precisavam ter saído de casa sequer... bastava assomar a uma janela que logo encontrariam as respostas.
A começar pelo cheiro a queimado seguido do espectáculo de  um certo cordão luminoso com línguas de fogo a lamber a escuridão no monte mesmo defronte. É o medo!
Não há tempo a perder. Correr, correr...

Texto n.º 29

Importância da comunicação


Todos os dias Marcus tocava na campainha da porta da minha casa. Ficava ali especado à espera que eu aparecesse na janela só para dizer, um adeusinho. Depois, desembaraçava a bicicleta que decaía pelas pernas a tombar no chão e seguia lépido num acelerar de pedais, pela rua. Grefrath, era uma Vila muito sossegada situada a Norte da Alemanha, onde morei dois anos. Um dia, Marcus atirou-me um beijo e fugiu de novo. Noutro dia trouxe os amigos com suas bicicletas e mais tarde entendi a importância da comunicação. Vi que Marcus, queria que eu também fosse brincar e andar de bicicleta!


Texto n.º30

Naquele tempo usava-se bata branca na escola primária. As carteiras eram de madeira maciça, ligeiramente inclinadas e com o assento incorporado. No topo tinham uma cavidade arredondada onde se pousavam os lápis de carvão nº2 e as canetas de tinta permanente, as únicas permitidas na escrita do ditado. Havia ainda um tinteiro redondo de louça branca, onde os nossos pais molharam os seus aparos...
Na parede, ao lado do quadro preto, um mapa de Portugal em tamanho grande e ainda um crucifixo. Na gaveta, ao lado do livro de presenças, uma régua bem grossa impunha o respeito de outrora.
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« Responder #471 em: Setembro 07, 2010, 05:23:25 »

Texto n.º31

Não precisava de muito para se sentir feliz. Bastava-lhe o casebre que possuía onde à noite acendia o lume e se aquecia depois de aconchegar a barriga com o caldo das couves. Uma cama de ferro e uns cobertores comprados com o dinheiro da lã das ovelhas, oferecia-lhe o descanso merecido ao corpo cansado. De tempos a tempos, recebia a visita de uma sobrinha neta, que, além da broa ainda morna, lhe trazia também um brilho de alegria que logo lhe saltava aos olhos, inundando-os de água salgada enquanto sorriam radiosos.
Por vezes cantava, não para não chorar, mas para se sentir acompanhada.

Texto n.º 32

Das tantas histórias que me contava nas longas tardes que passavamos as duas, enquanto me penteava e fazia tranças, lembro-me particularmente desta que se conta em poucas linhas:
Chamava-se "Corecho" e vivia sozinho porque nunca teve tempo de arranjar uma mulher com quem casar. Quando lhe faziam conversa disso, respondia com a sua verdade:
_ Como é que me hei-de arranjar com isso se não tenho tempo?
É que primeiro vem a sementeira, depois o sacho, a assenta e a rega. Não tarda vem a colheita e bem não,  já é outra vez tempo de esbeirar, cavar, semear...
Pobre homem atarefado!


Texto n.º 33

Entre memórias vagas tenho a mente pendurada na saudade, uma saída escondida e uma porta gasta rumo ao espaço mágico, um baloiço pendurado, vazio e um corredor esguio lá fora decorado com tulipas e rosas de ambos os lados, ao fundo uma cancela por onde escapei. Passei para o lado de lá da rua sem ninguém me dar a mão, caminhei e entrei. Entre chilreados e árvores sentei-me no meio de tão lindo jardim, escutei o silêncio. Vi senhoras de chapéu embraçadas nos maridos. Ali, não faltavam flores no paraíso que por cá nunca vi! Aqui, parece a casa de terror.
 
Texto n.º 34

“O meu é mais bonito”, pensei, olhando de esguelha para os outros barquinhos vogando preguiçosamente na ondulação que mal nos escondia os tornozelos. Tinha-o construído em lata de uma embalagem de chouriças, calafetada com alcatrão e areia, ainda luzia da gordura mal lavada. O barco do Tino atravessou-se na vaga, virou e afundou-se no palmo de água, como um barco a sério. Às gargalhadas das crianças, respondeu o cabo do mar com a habitual severidade “fora daí, que é lugar de banhistas”. A frota de navios de lata seguiu, orgulhosa, ondulante, presa aos fios que a ligava às mãos das crianças.

Texto n.º 35

Na fogueira

Fugimos sem olhar para trás, demos por terminado o belo e fresco passeio matinal quando passamos pela linda arquitectura baixa. O imenso relvado decorava-a, na vasta área circundante. Um porco bicho gigante num espeto e por baixo uma fogueira assustada. Éramos crianças e o frio apoderou-se de nós que nos obrigamos a recuar na direcção de volta a casa. O sentimento ficou-se pelas rodas que correram tão apressadas pelo caminho longo que nem os pés deixaram de pedalar um segundo. Ficou a fotografia registada no livro marcado das memórias, para garantir o flash mental dessa intimidade.

Texto n.º 36

Sono da madrugada

Duas da madrugada. O calor abria janelas do sono que não aguentava a mente quebrada, o corpo cansado e o relógio que batia ponteiros de silêncio. Acontecia às sextas e mesmo ensonada gostava do que via lá fora, na rua homens pendurados nos ombros formavam o cordão humano que ocupava a largura da rua larga. Nas cabeças, chapéus com penas e nas pernas calças presas em suspensórios sem chegar aos joelhos. Nos pés rebolavam bidões de cerveja e no ar alegrias de caras, quase exaustas, cantaroladas por tradicionais cantigas quase embriagadas. Fascinada com tamanha imagem, a minha janela adormecia.

Texto n.º 37

Bonecas

Era uma vez por semana, num encontro organizado por adultos que nos vestiam a rigor para a festa. As mães eram as donas das bonecas, também havia padrinhos e os convidados eram todos os meninos da rua. Da família, os primos mais chegados e o padre o mais novo que obedecia. Iniciava-se a procissão pelo passeio a cima, seguíamos até à igreja que ficava lá no cimo da rua, na entrada de uma casa vazia já velha. No altar flores, água e uma toalha. O padre benzia as bonecas e só depois era convidado de honra. Voltávamos, em marcha lenta até casa... e a festa começava.
 

Texto n. 38

Passei sorrateiro o portão, espreitei para a pequena praça, o largo do Sol Posto, onde jogávamos a bola. Os outros já lá estavam, escolhiam as equipas, como era dos mais novos fui para uma das balizas. Para o portão preto ou para o portão do Zé Ferreiro, não importa, eram as nossas balizas e eu ia jogar, pelo menos até a mãe me perguntar se já tinha feito os deveres.

Texto n.º 39

Só areia


Não, não abras a janela! Gritava desesperada. Mas ela, sim ela, a janela abriu-se e entrou só areia! Areia, só areia, era tanta que entrava pela janela e eu, do lado de dentro a ver, toda aquela areia, que não parava de entrar! Chorei, gritei e ninguém veio socorrer-me! Ninguém me ouvia! Então gritava! Senti-me a sufocar com tanta areia que me cobria. Era só areia que entrava, tanta areia, que de repente, acordei! Acordei tão depressa e sem ar, quase não podia respirar. Depois, pus-me a olhar, olhei tudo à minha volta e caí na real cena, que foi cena de um sonho que estava a sonhar.
 

Texto n.º 40

Depois da verdade só há verdade


No meio de um sonho atribulado, acordei aflita que nem sabia onde estava. Aticei a luz e sentei-me a escutar que barulho seria. Escutei, voltei a escutar e tive na sensação, um equídeo que corria rua abaixo-rua acima. O medo enrolou-me cabelos no cobertor mas não quis abafar o raciocínio para ouvir se era sonho o que escutava. Senti o atracar ferino num ir e voltar nessa corredora onde estremeci mais ainda com o guinchar do ferro no chão a derrapar o travão arrebatado que me dava a sensação ser em baixo e em cima, da rua. Interrogo ainda a razão de todos em casa, ser eu quem ouvia.
 
Texto n.º 41

O corredor da sala ficaria com o azul rosado, o quadro das embarcações. Para o quarto distante e agora mais feliz levaria as tulipas aquáticas que antes eram da sala. Na onda embranquecida pela violência do mar já se haviam dizimado os motivos do choro. O coro de lamentos sumira no lume da primeira embarcação – máscaras e caracóis vestidos na véspera. O vazio prenhe de elipses entre decisão e ardor, ascendia num horizonte lívido de silêncios sem voz. Quisera correr e agarrar-se aos remos com os braços fortes de outrora. Quisera haver ainda sais para remar a vontade de parar.

Texto n.º 42

Um encontro marcado de véspera, na cumplicidade silenciosa de uma conversa dos tempos de agora, algures entre o pensamento e a agilidade das pontas dos dedos.
O aproximar da hora, a indecisão no vestir, o espelho inquisidor...
A inquietação a tomar forma, a agigantar-se e a querer explodir de dentro para fora, a vontade furiosa a cegar na urgência quase demente... do desejo do querer. A razão a endoidecer!
A ansiedade a doer na eternidade de um instante em suspenso na ambiguidade de um acontecer...

Texto n.º 43

Óculos Graduados

Esquadrinhei bailes entre campos de flores amarelas que o vento soltou e levou no vestido, de um lado. Do outro, o milho crescido por onde corri escondida dos amigos. Os voadores gansos bravos espantaram o caminho num salto estouvado que nos deitou por chão e rimos, rimos tanto na barriga e o vento levou-nos como se fossemos gansos bravos, noutra intenção. - Oh, uns óculos! Disse. Peguei na preta armação quadrada de lentes fortes quando vi quem passava. Uma freira que sorria de rigor vestida de branco. Confiei-lhe nas mãos para que guardasse, pois poderia ser de alguém que deles precisasse.

Texto n.º 44

Um baloiço só


- Queremos um baloiço maior! Dissemos em coro. Éramos cinco para um só baloiço. Sem regras quisemos divagar o instante e o baloiço, era espaço tão pequeno! Tocou o telefone. Fomos lá atender e dissemos: “- não está ninguém em casa” e depois, escapamos. Muito ajustadas lá conseguimos caber no baloiço. Umas ao colo das outras e duas em pé seguradas à corda, mas faltou força para baloiçar devido ao excesso de peso. Repentinamente e sem contar o baloiço deu meia volta no ar que ficamos todas no chão de pernas pró mesmo! – A voz soltou-se: - eu avisei! Ainda vos ides magoar!

Texto n.º45

16 Gatos


Farruca era mãe da Katza, as gatas mimadas lá da casa. Com duas ninhadas sumidas, desconfiamos a seguir rastos estranhos até vermos um saco a mexer à margem do rio. Lá dentro, todos os gatinhos vivos. Foi na adega dos vinhos, que todos os dias alimentámos os gatos que cresceram sadios e miavam mais alto a acordar a família! Viram-se gatos já crescidos por todo o lado e como eram vadios foram em busca de outros destinos. De novo, a Farruca e a Katza, as duas gatas mimadas lá da casa. A Farruca, mordida por um cão morreu e a Katza de velhinha. Até hoje nunca mais tivemos gatos! 

Texto n.º 46

Foto avermelhada

 
A memória habita o arquivo da alma e surge em leituras sucessivas — rápidas, lentas, puras, contaminadas, próprias, impróprias, baixadas ou elevadas — diariamente, indefinidamente. O espaço de uma vida não basta. Em cópias de segurança a memória também busca abrigo que dure até outras vidas.

Numa caixa de memória em papelão vivia uma foto cujas cores desbotavam-se. Ali moram senhoras e senhores mortos e um bebê hoje homem barbado.

Esse bebê ao colo olha rubro e diz aos meus olhos molhados: “Não se esqueça de mim.”

Texto n.º 47

A alegria das pessoas, as gargalhadas, as falaças, as traquinices dos miúdos... coisas tão simples que nem ele  sabia ainda o quanto um dia lhe haveria de dar valor, enquanto se distraía a empunhar a sua câmara e a registar tudo o que por ali se passava.
Embora tivesse consciência de que também eu era sugada pelo olho mágico daquela estranha máquina junto com todos os outros com quem brincava naquela eira, estava muito longe de saber que só quarenta anos depois me haveria de ser mostrado o filme daquele fragmento de vida que o tempo suspendeu e distanciou de mim. É um tesouro sem preço e meu!

Texto n.º 48

Era dia de ditado e os corações ficavam apertadinhos. A professora não se cansava de ditar palavras que cada um lá ia escrevendo conforme sabia mas cientes de que por cada erro dado a régua os esperava em cima da secretária e as mãos haveria de ficar a esformigar por um bom bocado.
Um a um, os nomes dos desafortunados iam sendo chamados ordenando-se em fila para receberem as reguadas do costume e mais uma vez, o nome dela não se ouviu... Afinal, a insignificante rapariguinha de corpo franzino e óculos grossos que os colegas gozavam, era só aquela que nunca dava erros no ditado!

Texto n.º 49

Os olhos falam de amor
 
Evoco o dia de Primavera em que brotou a paixão, gestos discretos nas cores do sol à beira rio...
Os olhos falam de amor num riso claro e transparente, o coração a palpitar estrelas.
Expressões que o tempo não apaga.
O som da água lembra o teu sorriso ele floriu e não murchou, correntes de brisas frescas embalam o rosto...
Estas em mim presente, na plenitude do espírito.
Um caminhar firme na areia de Inverno a mão na mão amiudadas sensações.
Em ti verdadeiramente amei, abraço este retrato nos alicerces da minha morada, um sonho certo com suavidade dos dias que ao teu lado amanheço.
 
Texto n.º 50

Um sofá cor de sangue, o meu…. num galope desenfreado… estupefacto, uns braços repletos de ti, é a hora da verdade. Mede-se a distância dos corpos gulosos e os lábios tocam-se num toque cândido, perdidos na fundura da alma. Desvendem-se mistérios e a doçura silenciosa, afogueia as nossas faces, na magia deliciosa da primeira vez.
O corpo estremece como a corda de um violino, gemendo baixinho a canção da ternura…do desejo…da loucura...
 
E aquele beijo ingénuo, aprendiz….mas guloso, ficará perpetuado no tempo das minhas recordações.


Texto n.º 51

Hoje amei-a enquanto a noite caía com ganas de pressa irritante por nada poder fazer. Inacessíveis, os aliados do tempo. E tal como em todas as outras noites orientais que passamos budas de amor, nus e quentes, do lado bom do nosso cordão umbilical... Em cada última, ficou a suave ternura triste de que a última vez está a níquel de momentos. É um nó que os olhos encestam, difícil de sanar... asfixia!
Porém, o vulcão enquanto ruge apaixonado é um adorável espaço de magia em que somos o sol de todo o esplendor.

Texto n.º 52

Quando as memórias nos perfuram o peito, a alma sai-nos do corpo, esgrimindo mares e ares e deixamo-la ir sem sentir. Ao retornar ao centro do esqueleto, os ossos tornam-se amorfos e a pele esticada de sargaços, fica pendurada numa qualquer muleta, parecendo uma bandeira salgada. A carne assemelha-se a um paul polido de cinzas, carcomida de recordações que nos empurram os gestos, e um vazio obscuro nos entorna o olhar. Na rebentação, as ondas ardem nos rostos e um frio torcido entra nas retinas, enquanto os rins se desatam diante da força frenética das lembranças.

Texto n. 53

Fosse de manhã ou de tarde,estivesse a chover ou a fazer sol,era quase um ritual ter de parar a meio do caminho se por acaso alguém aparecesse para matar o vício de dar à língua, nem que fosse só por um bocadinho.As conversas normalmente eram sempre as mesmas e assunto principal,aquele que mais sucesso fazia,o eleito por maioria absoluta:as doenças!
- Hoje acordei cá com uma pontada nos rinses...
Ainda a primeira não tinha começado a sério o relato da pontada,já a outra a interrompia:
- E eu?!Que ando aqui com uma tapação no peito que só eu e Deus é que sabemos.
- Olhe-me aqui pra esta perna...

Texto n.º 54

De quando em vez, era dia de ir ao médico. Por isso, havia que levantar mais cedo que o costume e palmilhar umas boas duas horas a caminho do consultório do Sr. Doutor. Chegado lá, era só uma questão de esperar na sala, a da espera... pois então! E como quem espera desespera, também havia quem desesperasse de tanta espera.
A culpa era dos que para ali íam de alcofa cheia (com algum galo ou cabrito) e que por obra disso se demoravam na consulta; até parecia mal serem despachados num abrir e fechar de olhos, o tempo de passar uma receita dependendo das queixas feitas à queima - roupa...

Texto n. 55


No lugar de sempre, à hora do costume, sentadas no penedo da saudade a olhar o horizonte avermelhado pelo sol a cair aos poucos, íam desenrolando uma a uma, de um novelo invisível de lembranças antigas, coisas que se julgavam já perdidas nas brumas do esquecimento.  Ora uma ora outra e nem se apercebiam de que a lua já  lá estava e era de si que a luz provinha... mais um pouco e não chegariam a horas de ver a novela que  por aquelas alturas não atava nem desatava, mas era uma espécie de vício como o outro, de desenrolar e voltar a dobar  o mesmo novelo invisível.
No lugar de sempre...

Texto n.º 56


Em breve, a lua tomaria o seu lugar e  seria a rainha de um céu resplandecente de uma rara beleza prateada...
Ao fundo, a velha eira que em tempos pululou de vida, era agora o local perfeito para estender as mantas de trapos que levava-mos e deitar de barriga para o ar, de nariz posto naquele céu onde se esperava que a qualquer minuto se fizesse magia. A magia que os senhores do rádio anunciaram ao longo dos últimos dias.
Não vi nenhuma chuva de estrelas, mas vi-as lá bem fixas no lugar delas a fazer companhia à lua para que esta se não sentisse sozinha.

Texto n.º 57

Naquele tempo ninguém tinha telefone. Com excepção do alfaiate e do negociante de especiarias e colheres de pau, só lá em casa é que existia um desses aparelhos que nem nosso era, estava ali para servir o público. De modo que, fossem as horas que fossem, assim que se lhe abriam as goelas da infernal campainha , logo se adivinhavam as canseiras que dali advinham...
Era todos os dias a mesma coisa, parecia que estavam à espera que nos sentasse-mos à mesa para nos baterem à porta e se meterem a falar para a família toda, para o capador, para o médico, para o carniceiro ou para o raio que os partissem!

Texto n.º 58


Éramos jovens quando vimos a garça voar baixa e poisar a nosso lado. Toquei-a! Senti-me nua perante aquela sabedoria e os que me acompanhavam fincaram firmes os pés na terra, alagados de orvalhos. Os olhares respiravam poesia e cestos de alegria, como se as almas tivessem sido lavadas por uma frescura anónima e deixámos sair dos corpos todas as interrogações. Aquele lugar é agora um prólogo eterno, para quem sabe como nós aquele dia, quando conseguimos transformar pedras em infinito.

Texto n.º 59

 Alquebrado e cansado, arrastando os pés calejados e trôpegos, alonga-se na escuridão da noite um vulto trémulo, vacilante...  Agora já mais perto, vislumbra-se-lhe o casaco negro e gasto, sobrepondo as pregas soltas e desmanchadas duma saia desbotada pelo tempo...  O rosto? Oh, o rosto! Que diferente de outrora! Sulcado por profundas rugas encarquilhado e seco tal cortiça, endurecido pelas agruras da vida... Volve-se-lhe o olhar, inventa-se-lhe o gesto, e num relance o regresso ao passado, aos tempos áureos de felicidade! Oh, como fora feliz!

Texto n.º 60

Da furgoneta saiu o grande volume embrulhado no cobertor cinzento. Difícil de transportar pelo tamanho, talvez pesado, certamente demasiado para mim, nem tanto para o meu pai, que esforçado alcançou a mesa da sala. Sentia-me espicaçado pela curiosidade, não conseguia estar quieto, nervoso espreitava por entre os adultos que desembrulhavam o misterioso volume. Uma caixa castanha surge, uma televisão, exclamam todos. Parece a do Tirinho, pensei eu, comparando o nosso aparelho com o do café, onde, aos domingos à tarde, ia ver o Donald e o Doi-Doi.
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« Responder #472 em: Setembro 07, 2010, 05:24:04 »


Texto n.º 61


No final da tarde pendurava-se na parede do tanque, enquanto olhava as águas verdes imaginando o mar. Era um homem dentro de uma criança de leite, com olhos amarrotados e um líquido visceral a correr-lhe da boca, do vinho que lhe davam por escárnio. Sonhava nas águas, os castelos de areia e as ondas a baterem-lhe nas pernas com o céu eterno a bailar nas rochas. Numa noite de verão, após a bebedeira habitual, pereceu mergulhado nas águas escuras. Tinha tentado agarrar as estrelas que no fundo do tanque se assemelhavam a estrelas marinhas que trazia na memória das revistas.
   
Texto n.º 62


Cresci

O fim duma etapa é crescer mas não sabia. Concluía-se o ser criança no primário da vida. Fui à escola numas longas tranças negras e a verde saia xadrez demarcou aquele dia. Carteira sim carteira não havia uma espera silenciada. Levanta-te! Quase gritou o professor que me fazia faces rosadas. Passeei pela sala e não entendi porque ninguém estava assim tão asseado, escutei a vaidade com pena dos que ouviam, afinal era o exame oficial da 4ª Classe disse, para juntar àquela linda apreciação. Veio a memória do constrangimento que marcou o quão especial era aquele evento.

Texto n.º 63
 
Cinderela

Aquela amizade incondicional entre mim e a vassoura era terrível, ela era maior que eu e chegada a prenda do aniversário, outra vassoura de palmo e meio tal como eu. Os dias varriam-me Cinderela em tons avermelhados, quase inseparáveis. O sonho dos contos de fada já existia, havia um castelo e o príncipe encantado na fantasia e eu, a princesa amada, mas só havia uma miniatura de vassoura. A vocação parecia dona da casa, queria crescer a ficar do tamanho da grande vassoura, continuei a sonhar e foi meio palmo de caminho andado nessa espera. O príncipe encantado há-de chagar no tempo acertado.

Texto n.º 64

Saudade


Aqueles fins de tarde, o cheirinho a pequeninas sardinhas fritas, o arroz de tomate passado a fugir prato fora, uma manta no chão uma novela Cravo e Canela, a Gabriela do início. Um tanque cheio de água. Flores por toda a parte e aquela figueira que depois mais tarde secou por mãos duma vizinha malvada que supostamente com sal a matou. Um cão amarelo baixinho e as formigas que faziam carreiras a querer chegar à cozinha. Um cachimbo sentado no cadeirão, a porta da sala esbranquiçada até cima com vidros decorados a madeira, um puxador mármore, o avental da mãe e aquela alegria de ser criança.

Texto n.º 65

Fiz 4 Anos

Aquele homem alto e elegantemente bem trajado era meu pai que acabava de chegar a casa e, “roubou-me” a chupeta que trazia na boca. Estarrecida, soltei a choradeira sem fôlego, 4 Anos e de chupeta na boca? - Disse zangado! Pegou na tesoura e zás cortou-a a meio alegando que eu, iria perder a mania. Arrasada corri a agarrar-me às pernas da mãe onde escondi a cara banhada de tanto chorar. Que chatice que era fazer 4 anos de idade! Afinal, aquela era a minha chucha mas meu pai não sabia. Lá terminou bem o dia, o calor da mãe é sempre mãe e os mimos a esquecer tamanho desagrado.

Texto n.º 66


O cinzento céu, mais escuro que o próprio fumo, parecia um musgo metálico manchado de expiações, com cigarros a perfurarem-me a cabeça. O horizonte decepava-se de ruídos e eu procurava um insecto para me interrogar o silêncio, cerrado de cordas e embriagado de suor. Trajavas uma clausura no vento todo, com uma máscara fátua de risos Do teu olhar saíam palavras sépias e amarrotas e eu não entendia aquele manifesto. Estalaste os braços no sismo imóvel e senti uma explosão, um vagido de surpresa, quando esmagaste a porta e disseste adeus ao chão, onde fiquei petrificada no teu ordenado abandono.

Texto n.º 67

Piero, pequena cidade a norte de Milão, ainda existente e saudável naqueles anos. Os hotéis eram todos gémeos uns dos outros. Os quartos eram divididos com paredes de tabopan encoberto por tinta plástica cinza claro que lhe proporcionava a dignidade duma parede séria. Na televisão nunca utilizei os canais italianos, pois usufruía de um canal privado no quarto ao lado, durante a noite inteira. Com o som ofegante do prazer do sexo, surgia de quando em vez uma voz feminina que repetia: Pára, pára… E voltava o silêncio por cerca de trinta minutos. Depois voltava e a voz feminina a repetir o apelo.

Texto nº 68


Terra vermelha
 
Neste pesadelo que me atormenta, desloco-me pelo infinito. Iluminam-me o caminho miríades de estrelas e sóis moribundos. Cavalgo quasars e supernovas, mergulho em buracos negros e penteio-me em caudas de errantes cometas. Não viajo só nesta nave tormentosa. Acompanham-me os clarões das granadas, o assobio da metralha e o estralejar das metralhadoras dum filme real, que por antigo, projecta dolorosamente a preto e branco na tela bolorenta dum qualquer cinema Paraíso, fantasmas de camaradas estáticos, pairando numa picada ensanguentada, onde ecoam as minhas ordens e os gritos de desespero.

Texto nº 69

Tecto, comida e carinho
 
 
   Ele fora embarcadiço e apesar da idade mantinha o ar gingão doutros tempos. Ela, conservava uma língua afiada e uma memória invejável. Naquela tarde soalheira  de há 40 anos ela surpreendera-o a dar uma couve do quintal à vizinha e aquele ar libidinoso com que o fizera não lhe passara despercebido. Nunca mais lhe perdoou e a história dessa “traição”, para gáudio de quem a ouvia, terminava-a de dedo em riste apontado à cara do acabrunhado marido:
 
-   Já sabes, meu moinante, tecto vais ter para sempre. Comidinha também não  te vai faltar...agora, carinho? Isso nunca mais...ouviste? Nunca mais!
 
 
Texto nº 70


A noite
 
Gosto da noite. A noite é serena e companheira. Acaricia os seu amantes com pétalas de rosas negras, em recônditos bares escondidos em velhas casas ostentando vetustas fachadas, mas que à noite se abrem como  caixões de vampiros e recolhem os seus amantes em salas enevoadas de fumo por onde a poesia se espraia misturando-se com as notas duma nostálgica canção de Brell ou de Piaf. À volta das mesas ouvem-se histórias comuns de gente incomum que como Garcia Marques, não quer desperdiçar por um só instante as imagens da vida que  passa,  de pálpebras cerradas ao mundo.
   Foi lá que a conheci...


Texto n. 71

Infância

A menina de olhos sonhadores parou junto da montra de bonecas que giravam num ritmo cadenciado no dispositivo luminoso.
Eram todas tão lindas! Havia uma com um vestido de cetim azul e um grande laçarote no cabelo loiro, e sapatinhos de verniz. Era a sua preferida. Os seus olhos não paravam de olhar, extasiados... de repente viu que já era muito tarde. Sua mãe, aflita, já devia andar à sua procura. Estava muito longe de casa e já antevia o castigo que iria levar. Resolveu ir o mais rápido possível, e correu tanto... tanto... que até os sapatos lhe deformaram o coração...


Texto n. 72


Tenho um segredo a te contar. Lembras de quando éramos crianças e pensávamos que namorávamos? Lembra dos beijinhos roubados nas tuas bochechas, das duas bolinhas vermelhas que brotavam no seu rosto de menina loura de franjas? Nós dois sentados na calçada. Eu de calção curto e camisa de botões listrada; você de vestido de alças com babado. Os dois de sandálias de couro esticavam as pernas e os braços num abraço. O tempo cresceu e nos fez maiores. A calçada não é mais a mesma e nossas faces não coram mais. Nossos olhos é que brilham na lembrança.

Texto n.º 73


A rua descia até terminar na charneca. Os moçoilos de todos os lados quedavam-se nesse local d’águas turvas. Chafurdavam-se no lodo e cobriam-se no areal como se estivem a vestir a fantasia de salgados empanados. Os livros e os cadernos já voaram longe antes dos pés afundarem-se no lodaçal. Não eram mais garotos do ginásio de azul. Eram porcos felizes em tons de marrom. Um rio clareava os corpos e as consciências para um retorno menos dolorido à casa de iras maternas.
O caminho seguia e desaparecia no tempo.

Texto n.º 74


Arco da vida

No arco da vida vou contando memórias que deslizam sem pressa nas retinas do tempo. Dos exilados, vejo retratos amorfos e cadáveres estilizados, que desceram o poço corroído, com travo a leite azedo e, com medos de balas e cansaços. Tornaram-se traiçoeiros ventos, que de folha néscia e instigada de atenção tomou conta. Entre a dor e a presença, há um lugar sentado, um vento exausto que incha a pele tapada de lama e sal. Deixo-me levar pelo que digo, sem exibir a descrença que não digo, quando a noite me morde num arrepio insano, dos outros que caminharam as ruas sem boca

Texto n.º 75


Era um terraço com um toldo de folhas verdes de parreira, de onde pendiam cachos de uvas moscatel como se fossem candeeiros sobre as nossas cabeças. Em toda a volta os canteiros de sardinheiras e os vasos de barro com violetas e brincos de princesa, ornamentavam o espaço que nos absorvia nas brincadeiras das tardes quentes e intermináveis de Verão, que se perderam no rasto de um tempo que já só existe nas nossas lembranças.

Os patins de quatro rodas e o baloiço preso nas vigas da latada, eram as asas que precisávamos para voar nos nossos sonhos de crianças felizes.

Texto n.º 76

Mirava com atenção o lápis que me corria o pé de um lado ao outro, riscando-me as cócegas  do desenho no cartão. O dedo grande tinha crescido mais do que devia e já não me cabia nos sapatos que tinha.
Da feira, trouxeram-me umas sandálias de tira que prendia na fivela dourada que brilhava ao sol. Pena que não me servissem... nada que uns chumaços por dentro não resolvessem...
Quem me mandava a mim ter uns pés que não paravam de crescer?!
Ainda assim e movida pela emoção de ter uns sapatos novos de sair, não deixava de acordar de noite, acender a luz e olha-los mais uma vez!

Texto n.º 77

Não mais voltei a sentir o que ainda guardo na memória e que se assemelha a uma dócil lembrança de um momento longínquo, que existiu um dia,  algures num paraíso onde habitavam borboletas de todas as cores e feitios, que me bailavam na frente dos olhos convidando-me a segui-las na sua esvoaçante e contagiante felicidade primaveril.
Era de certeza um paraíso digno de um qualquer cenário de um conto de fadas muito bem guardado dentro de um livro, que, certamente, alguém atirou para o fundo de um baú votado ao esquecimento da escuridão de um sótão povoado de tralhas antigas...

Texto n.º 78


Era uma mina de diamantes. Ganharia quem chegasse primeiro. A preciosidade pertence aos bem lapidados, e só lapida com perfeição quem ousa conhecer o ruído das coisas. Pedra a pedra fora buscada como se estivesse próxima. Daquele diamantário viria a lembrança tão árdua de guardar quanto era rija a certeza de ser um tesouro só seu. Tentou em vão atinar o caminho de volta para o rio. O de antes. O da inundação que espelhava dentro d’alma, continuamente, bruxuleando em aquiescências fugidias. Tão similar às jóias dormidas por fora da sua insônia – à fração de censura que se permitia

Texto n.º 79

A minha mãe caída na cama era a desgraça total na casa. Eu andava pelos finais da primária. Meu pai não podia parar de trabalhar e só pedia a Deus as melhoras dela. Surgiu o meu primeiro acto de coragem na vida: - Fazer-lhe uma sopa! Durante aquela manhã, invadi-lhe o quarto dezenas de vezes, para lhe saber das quantidades dos ingredientes, tempos e fervuras. Quando achei que tinha terminado, levei-lhe a tigela cheia, que ela devorou em poucos minutos. E começou a melhorar rapidamente. Durante o resto dos anos sempre disse a toda a gente

Texto n.º 80

Tinha na curva dos anos uma espondilite incorporada que a obrigava a caminhar de nariz rasteiro ao chão impedindo-a de contemplar tudo o resto que existia acima do horizonte rastejante ao qual os seus olhos estavam confinados, limitando-se às pedras do caminho por onde caminhava sem ver ninguém, ainda que a dois passos de si alguém consigo se cruzasse. Se lhe falassem, respondia prontamente com o cumprimento costumeiro logo seguido da pergunta: quem está aí?
Do sol, sentia-lhe o calor e a luminosidade espelhada no alcatrão da estrada por onde seguia a caminho da vida que lhe fugia...


Texto n.º 81

Sempre ao Domingo, de quinze em quinze dias, pela volta das quatro da tarde. Era como um ritual que se cumpria sem falha alguma.
Pedia-me que lhe fosse escrever uma carta para a irmã que vivia na capital e com quem se comunicava apenas desta forma, tirando uma ou outra visita esporádica no Verão.
Querida irmã, espero que esta minha carta te vá encontrar de saúde na companhia da Olímpia, que eu por cá vou andando na forma do costume...
No fim, lia-lhe no rosto um misto de alegria e gratidão, escrito num sorriso meigo que recordo com a mesma nitidez, que nem o tempo  desvaneceu.


Texto n.º 82



O conjunto tocava as modas da altura, o largo estava cheio e o baile acontecia.
A Fernanda, que acalentava em segredo a esperança de ainda se vir a casar um dia, encostada às escadas da capela, a coberto da penumbra, embrulhava-se o mais que podia no xaile da vergonha.
O pai, que tinha passado três meses sem beber, logo na véspera havia de ter tido a infeliz ideia de ir à taberna comprar tabaco.... mesmo no meio do bailarico, a cambalear com um pote de mel que ameaçava cair no meio do chão a qualquer instante ao mesmo tempo que ia soltando palavrões e insultos com hálito de vinho.

Texto n.º 83

Liquefaz-se a água mórbida de agonia, transversal ao efeito da alma que foi boa, hoje deserta de equilíbrio, mordaz ironia que a envolve o laço preto da rua adjacente ao passo vago e trôpego do tempo. Leva no bolso a foto da infância e na mão o sulco enrugado da vida. Dobra-se o corpo em desalento e o diafragma se corrói de uma substância anárquica no sentir. O cabelo tornou-se ralo e o olhar baço de agonia, de não ter forças no peito para respirar a vida. Jaz morto e inocente o velho que foi pungente na inocência de ser criança.

Texto n.º 84

MALAQUIAS


Malaquias era um vendedor versátil e popular. A sua loja reduzia-se a uns dois metros quadrados assentes em duas rodas de bicicleta, sem direcção assistida o que lhe provocava grande esforço nas curvas para não amolgar os carros estacionados. Mr. Spencer não valera mais que ele, que tinha de tudo: saiotes, cuecas e quando não tinha o artigo pedido por algum cliente, na volta do dia seguinte já o entregava. Em casa tinha a mulher a tomar conta dos filhos numa algazarra que só durava até ele chegar, estacionar a loja na entrada da sala, dar dois berros e colocar o exército em sentido. 

Texto n.º 85


JOAQUIM


Andaria pelos quarenta e cegara um ano antes numa bulha nas obras. Da briga o combate e Joaquim saiu depois duma semana no hospital sem ambos os olhos com uma bengala para descer a rua batendo em todas as portas e pessoas que não se acautelavam. O tempo gastava-o na tasca e quando a noite chegava, caminhava como conseguia rua abaixo insultando quem o ajudava a levantar após as quedas na rua. Quando tinha a sorte de chegar a casa, cozinha e quarto, todo esmurrado tinha a santa da mulher com o alguidar da água e a toalha para o lavar e deixar curar a bebedeira, junto à porta.

Texto n.º 86

Revestia-se humílima no breu da razão onde esmigalhara vertigens irresolutas, esmiuçada no equilíbrio de uma desordem no fio dos lábios exultando um ontem mínimo e indispensável à perfeição do hoje, hígido, servil. Estremeceu a voz numa hiperbólica vigia “ah se não fosse se não viesse se parasse o que possui dores”. Via no branco espalmado apenas a liberdade feita de algemas. “E esse céu que se vai tecendo num fulcro de impossível”. A fadiga solúvel, uma fragrância irrecusável de alecrim e calêndulas – um gesto súdito a reveste derramando-lhe um cetim consútil – sua noite de pêssegos.

Texto n.º 87

A sensação dos pés na areia era estranha. Parecia subverter o pensamento e por momentos o tempo fugiu, como que me fundisse a consciência, naquele entrelaçado de verde e oiro. E perante elas deixei-me ir. Os murmúrios das ondas alojaram-se com a certeza de ser una naquela horizonte. Na placidez das águas que me tocavam os poros ouvia gargalhadas das conchas e búzios, brincando às outras crianças. E tudo o resto desapareu na turbulenta praia e eu fiquei mais ali, diante daquele manifesto.

Texto n.º 88

No centro de um quadrado de muros em ruína morre uma árvore. O topo não vale mais que duas forquilhas de madeira seca. Os pássaros passam sem pousar nos troncos atrofiados. Em redor brincam gatos de todas as cores. As pedras que sobram do que outrora fora a casa cobrem-se de verdes de hera e de musgo. Aqui e além espreitam tijolos por entre a vegetação. No centro o esqueleto raquítico, fantasmagórico, em silêncio cinzento, morre sozinho, de pé.
Muitos são os anos que me separam da última vez que espreitei pela janela da minha avó. Penso ainda naquela dignidade altiva, eterna, do velho tronco.

Texto n,º 89

Eco lógico
 
O peso do elo pode não ser um pesadelo. Na urgência que tem para que o tempo demore já não demora nem retorna à raiz a árvore que cai – apenas o corte finge que o cinge quase esquecido do seu gosto de nozes. Como uma película de lagos entre os braços tinha para si a modorra que movia. Sequer existia. Rodava nas horas que imaginava. Ramagens. O cansaço não adormecia nem o dormir acordava. Uma angústia exausta não aceita ordens; quer exaurir e o faz tombando de forma macia, sem a tristeza de não dar arborescência ao próprio reflexo.


Texto n.º 90

Um ligeiro murmuro

Um ligeiro murmuro cresceu até se transformar no rugido que bem conhecia, o camião do Duque, carregado de pedra, a caminho de alguma obra. Nem desviei a atenção da pequena carroça de lata, atrelada ao cavalo ferrugento que iniciou outra corrida pelo soalho da sala, chiando nas curvas, imitando o camião sempre que acelerava. Na rua, alguém arrastava os tamancos em direcção a casa, talvez o Tio Manel Chapa. Pendurei-me no parapeito da janela, passavam as meninas Rosa Maria e Inês a caminho da missa das seis, no chão, o brinquedo comprado na festa da Senhora da Bonança esperava-me pacientemente.
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« Responder #473 em: Setembro 07, 2010, 05:24:53 »


Texto n.º 91

Olhou

Olhou-me com demora, já me conhecia de vista, mentalmente avaliou quantas canseiras lhe iria dar. Tu chamas-te Brito, porque Ribeiros há muitos, sentenciou. Ninguém riu, não seria piada e a cana-da-índia sobre a secretária, recordava aos repetentes a conveniência do silêncio. Agora, todos em pé, vamos rezar uma Avé Maria para que o Senhor ilumine a nação e os nossos governantes. Aquele, fardado, é o presidente Américo Tomás e o outro, ao lado de Jesus na cruz, é o senhor doutor António Salazar, nosso presidente do conselho. Levantei-me e rezei, como todos.

Texto n.º 92

QUE SUSTO!!!
 
Era um cão enorme, com os dentes bem afiados, em posição de ataque, mesmo ali ao fundo da sala de jantar! Eu que deveria ter entre 3 a 4 anos, encolhi-me o mais que pude e colei o meu corpo junto à parede, mal contendo a respiração. Aos poucos fui deslizando para a porta que dava acesso a um pátio, sem perder de vista por um único momento o "bicho", meu inimigo, que me podia devorar!!! Qual não foi o meu espanto quando me defrontei com o meu pai, que escondido observava toda a cena, e pegando-me ao colo riu-se da minha carinha assustada ao ver o enorme cão, que ele tão bem desenhara na parede da sala!...

Texto n.º 93

O homem sorriu-me e acenou-me com um breve levantar de mão tocando a aba do chapéu em sinal de um cumprimento cordial e respeitoso. Retribui com um leve esboço de sorriso meio atabalhoado. Aquele era o meu pai em novo e não me tinha reconhecido! Algo estava errado ali! Fiquei imóvel enquanto o observava a desaparecer na esquina da rua.
Gelei de repente ao perceber que eu é que estava num tempo errado, talvez numa década anterior ao meu nascimento.
Entretanto, ao longe, alguém chamava pelo meu nome, fazendo com que acordasse estremunhada e meio azamboada pelo estranho sonho que tivera.

Texto n.º 94


Era uma tarde quente de Julho de um ano qualquer do início da década de oitenta. As aulas já haviam terminado e naquele dia determinara que iria ver a pauta afixada no vidro da escola; qualquer coisa que faria em cinco minutos e me daria o resto do dia livre e com a vila inteirinha ao meu dispor,  que me convidava ao passeio.
A tarde ainda mal tinha começado quando dois moços de mochila às costas me pediram informações sobre determinado lugar que eu conhecia e nem hesitei em os acompanhar.
Nessa tarde ficou registado no livro da amizade que há coisas que nos ficam para a vida toda!

Texto n.º 95

O meu coração estremecia de cada vez que ouvia a motorizada do carteiro a cortar a curva das aveias,  a caminho da aldeia.
Sorrateira, como quem não quer a coisa, aparecia-lhe a meio do caminho antes que ele chegasse à porta da oficina onde o meu pai  o esperava por causa do jornal e  dos dois dedos de conversa habitual.
Com um sorriso matreiro, estendia-me na mão o quê da urgência que me movia.
_ Toma lá uma carta. Era isto que querias, não era?
E eu sorria envergonhada limitando-me a menear a cabeça num sinal afirmativo para logo desaparecer antes que alguém visse e fosse o assunto do dia.
   

Texto n.º 96

O sol flui transparente, todas as cores, uma cor. Plantada sob um céu azul de nuvens inexistentes, absorvo o calor de um outro Verão . Dedos plenos de ternura, calcorreiam os meus cabelos e semeiam centelhas de diamantes colhidos no ar carregado de electricidade. O fim de tarde promete ouro puro caindo dos últimos raios de sol. Sem me dar conta, as nuvens desceram sobre o horizonte e alcançaram a planície. Grossas lágrimas tentaram apagar o desespero da tempestade. Em vão. O Verão se fez no mais triste dos Invernos, o ouro em chumbo negro e os meus cabelos em fios de estopa descolorida.

Texto n.º 97

SAUDADE
 
Quando me deixo parar no tempo, de olhos abertos fitando o vazio mas embrenhada no pensamento, não sei onde estou.
Quando sinto um peso no peito, não sei como respirar e me sinto desfalecer sem motivo aparente, não sei do que padeço.
Quando meu corpo está simplesmente presente, a minha alma vagueia sem rumo e sem destino, não sei o que procuro.
Se tremo de frio sentindo no intimo um gelo que queima o espírito em plena tarde de um Verão tórrido, perco-me no infinito.
Se divagueio e nada disto te faz sentido, morro de tristeza por não entenderes a minha saudade!

Texto n.º 98

Uma forma de driblar a solidão e derreter as coisas que fermentam, erroneamente refreadas – deixar um pensamento para depois é correr o risco de perde-lo – já não ousa correr riscos nem deixar de correr porque o tempo tem pressa. Aprende a falar sozinha para não desaprender a falar, perde o apetite na proporção que lhe cresce o pássaro do peito entre roupas sujas e ninhos limpos. Quer olhar coisas onde coisas não há para estreitar ...caça às escuras, entre simbioses e moedores de letras, algo que aproxime a distância entre os abraços. Do vôo suprimido de asas vê o vácuo, bebe o céu. Seu sim.

Texto n.º 99

NOSTALGIA
 
Ainda recordo com nostalgia, saudade, e emoção, aquele que foi o meu primeiro dia de escola a primeira professora, o primeiro lápis, borracha, o caderno, o quadro negro com letrinhas escritas a giz, os colegas, o primeiro namorado que me secava as lágrimas como o seu próprio lencinho...
 Oh quanta inocência, nesse tempo, quanto carinho tinha quando saía de mãos dadas com o menino para o recreio, a preocupação em me defender das traquinices dos outros colegas, ai que momentos maravilhosos!
Quanta alegria e querer saber mais e mais, o aprender a ultrapassar barreiras e medos...

Texto n.º100

NO SILÊNCIO DO TEU LUAR
 
Nas noites escuras de solidão, sem sono, na vastidão da maldita insónia, em ti procuro a luz, a Paz que os homens não dão ao mundo e a sinfonia do silêncio.
Procuro notícias desse amor ausente nas sombras iluminadas das tuas fases sabendo que encontro o conforto de uma lágrima salgada caindo lentamente no meu rosto.
Deixo-me embriagar pela tua cor que me embriaga a alma e o peito, e acabo por adormecer embalada no silêncio do teu luar.

Texto n.º 101

DAS CINZAS RENASCI!
 
 
Fui atirada por terra, abandonada espezinhada, queimando-me com palavras de ferro em brasa, sem remorso ou compaixão.
No entanto, as feridas foram sarando a alma despertando, crescendo tomando coragem, forças e depois de tudo o que sofri, posso gritar ao mundo:
QUE DAS CINZAS RENASCI!


Texto n.º 102


CINCO SENTIDOS DO SILÊNCIO
 
 
Oiço no silêncio do teu olhar, as palavras que nunca me dirás.
Vejo no calor da tua boca, o toque silencioso de um grande amor.
Sinto o aroma doce da tua paixão, que arde silenciosamente sem queimar ou ferir.
Saboreio o toque aveludado da tua mão, sem o ruído de oceanos apressados em desejos voluptuosos e carnais.
Vais tacteando a minha alma na profundez do infinito, fazendo-te ouvir, gritando no silêncio tudo o que de mais precioso me poderás dizer.
 
Texto n.º 103

QUEM SILENCIOU O TEU RESPIRAR?
 
 
Cai uma gota de água salgada de um olhar perdido no céu, nas mãos estendidas e caídas nas pedras da calçada, ofereces o vazio.
A pele azul que te adorna num silêncio atroz, passa despercebido aos demais que passam sem te verem, sem se darem conta da tua insignificância jaz perdida.
Foste um fruto largado ao relento, na cacimba da noite orvalhada, com o propósito de silenciar a tua existência ainda que breve.
Ai meu menino da rua… quem silenciou o teu respirar?

Texto n.º104

O lavadouro era um ponto de encontro divinal onde as mulheres  lavavam tudinho.!...
Ali, tanto se lavavam camisas de xadrez suadas e enterreadas, como se lavava a vida da vizinha...
Cuecas. meias e ceroulas, careciam de uma sabonária especial não fosse alguém reparar no estendal e lhes descobrisse um encardimento vergonhoso. Por isso, esfregava-se e punha-se a corar e se não chegasse ainda se lhes dava um arzinho de lixívia.
Havia até quem lavasse o que já estava lavado, mas pelo prazer  da companhia da lavadura, valia sempre a pena dar-lhe  mais uma esfregadura e uma voltinha!


Texto n.º 105

SEM MEDO
 
Nossas mãos entrelaçadas neste silêncio profundo, nossas almas apaixonadas na perfeição do nosso mundo!
Sem qualquer margem de defeito unidos os nossos desejos num momento mais que perfeito na magia de ternos beijos.
Adormeces tu, no meu peito longe dessa tua solidão e em alegria refeito...
É magia! Nosso segredo cumplicidade e união da doce entrega, sem medo!

Texto n.º 106

BEBO TUAS PALAVRAS
 
Cada palavra, cada sussurrar ou mesmo apenas o teu silêncio teu suave respirar, eu bebo como licor!
Licor divino, directo do paraíso.
Meu amor construído não sei se em oceanos sobrenaturais se em revoluções de sensações, sei apenas que na tua presença e mesmo na tua ausência cada palavra, dita ou escrita cada virgula são guardadas no meu baú da eternidade.
 

Texto n.º 107

Quando penso em ti…
 
Quando penso em ti e no peito cresce a dor, sem saber de onde vem ou o porquê dessa tristeza, entendo por fim que o vazio que sinto dentro de mim é por falta do teu amor nessa linda doçura que só o teu coração tem.
E é com certeza que afirmo e não minto que toda essa ansiedade…
É apenas... Pura saudade!

Texto n.º 108

Hoje recebi uma flor!
 
Hoje recebi uma flor!
Uma rosa branca imaculada e uma carta de amor, linda e perfumada.
Hoje recebi uma flor de alguém que me ama com desejo e ardor e que por mim chama.
Hoje recebi uma flor!
Mas de quem seria?
Trazia magia e calor e eu só não compreendia que aquela flor era espelho, imagem que esse alguém via em mim, a branca cor.
E era EU a única flor!

Texto n.º 109

MOMENTOS
 
Dizem que a vida é feita de pequenas coisas!
Nunca entendi porquê...
Afinal, quem é que mede essas coisas?
Quem disse que uma pequena coisa para alguém, não seja algo enorme, de importância extrema para mim?
Um beijo,
Uma palavra
Um gesto
Tudo muito simples, vulgar, mas para sentimentais como eu, são algo gigantesco, de proporções enormes, que marcam e ficam gravados na memória, são momentos tão singelos, mas únicos e mais importante de tudo, só nossos!
Pensem nisso...

Texto n.º 110

CATARRO
 
Se há coisa que me chateia até ás ultimas consequências, me faz perder o apetite e sentir o maior nojo, é estar a comer uma refeição descontraidamente e o vizinho do lado começas a tossir, deitar cá para fora todo o catarro e delicadamente escarrar para o seu lencinho de pano colorido.
Claro que depois, asseadamente o volta a colocar no bolso das calças.
Que maravilha!

Texto n.º 111

EDUCAÇÃO PARA QUEM A QUER
 
Esta vertente da vida é muito complicada pois pode ser interpretada de diversas formas quer sejam elas correctas ou erradas.
É normal ao abordar este tema vir á lembrança as crianças e a escola...
Mas onde andará esse assunto nos adultos? Já não são crianças, já não andam na escola.
Põe-se então a questão: e os que não aprenderam? Que não tiveram oportunidade de ir á escola, que são analfabetos?
E os doutores que com tanta soberba não respeitam ninguém?
A formação cívica não é uma forma de educação?
 
Texto n.º 112

PORQUÊ?
 
Porque será que o ser humano não consegue estar quietos por uns minutos e permanecer sempre em grande agitação?
Uma das coisas mais irritantes que existe quando pretendemos ficar concentrados nos nossos pensamentos é estar numa sala, em silêncio e numa outra ponta dessa sala estar alguém a bater com as unhas em cima da mesa, ou com uma caneta a bater constantemente em cima de uma revista, o bater continuo de uma bengala no chão, etc.
Porquê? Porquê? Porquê?

Texto n.º 113

GUITARRISTA
 
Os músicos desde há muito tempo que têm fama de excêntricos de personalidades estranhas e actos extravagantes.
Confesso que ao assistir a um momento musical me senti constrangida por não controlar o riso vendo o guitarrista de aspecto caricato, tocar a sua guitarra e a fazer expressões como se estivesse a ter prazer sexual.
Empinava as ancas para a frente, para trás, fazia expressões de boca, mordia os lábios, revirava os olhos, suava, até parecia que estava com espasmos pelo corpo.
Quando saiu do palco, levava a guitarra pendurada em frente das coxas e não mais a largou.
 
Texto n.º 114

A ilusão não se descai. Só ela resiste à onda quente que avança sobre mim e me leva tudo o mais à vista de paisagens alienígenas. O laranja e o azul, nos tons mais intensos imagináveis, desbotam um no outro nas bordas do meu campo de visão, comigo absorto na largueza do novo horizonte. Julgo-me ileso mas para sempre mudado pela transição de quem chega doutro mundo. Com um passo em frente, como se a careta e o juvenil sorriso-resposta ao piscar de olho da minha mãe fossem suficientes contra-medidas para o tremor mal disfarçado, faço-me passageiro do meu corpo franzino na aventura de África.

Texto n.º 115

DÓ-RÉ-MI


Era naquele anfiteatro que tínhamos de escalar as vozes para ocuparmos o lugar do tom correcto, apenas diferentes para o professor! Num Inverno um rafeiro pediu-nos ajuda, no intervalo anterior ao da aula de canto coral. Todos nós jovens sensíveis, introduzimo-lo na sala, sob promessa de se manter em silêncio toda a aula. E assim se comportou até ao momento em que o Taborda, dono duma voz inqualificável como horrível, executou o seu dó-ré-mi logo acompanhado pelo rafeiro em estado de choque. Como prémio obtivemos uma falta colectiva para a turma e fim da carreira do nosso protegido.

Texto n.º 116

Recordista

Nos anos sessenta os ginásios escolares eram construções olímpicas. Tinham todos os aparelhos. Sério. E todos neles tínhamos de praticar. Luís, sempre destemido, nunca recuava perante o perigo nem inovação. Quando todos tivemos de subir as cordas, seguramente uns seis metros quase a esbarrar no tecto, ele foi o último sem que alguém desse por tal. Ele subiu e como bom atleta que era, ninguém se incomodou. A aula terminou e quase todos nos balneários, alguém ouviu gritos no ginásio e avisou o professor. Luís, estava preso pelos calções no topo da corda a bater o recorde da escola!

Texto n.º 117

MEU TIO


Era carpinteiro, trabalhador e meu tio. Passava a semana no Porto a trabalhar duro para levar a semanada para o rancho de filhos em Santo Tirso. Analfabeto, mas homem de paz e amigo de todos, era na taberna que matava saudades com os ex-colegas de pé-descalço. Ele sentia melhor que alguém a agrura da vida, mas aprendera a manter-se calado por causa dos “bufos”. Naquele maldito Domingo deixou-se atraiçoar pelo tinto e gritou no meio da taberna: - Abaixo o Salazar! Passado duas horas o carro preto veio buscá-lo e passados oito dias já estava enterrado nas traseiras da Rua do Heroísmo.

Texto n.º 118

O TEU LUAR

 
Nas noites escuras de solidão, sem sono, na vastidão da maldita insónia, em ti procuro a luz, a Paz que os homens não  dão ao mundo e a sinfonia do silêncio.

Procuro noticias desse amor ausente nas sombras iluminadas das tuas fases sabendo que encontro o conforto de uma lágrima salgada caindo lentamente no meu  rosto.

Deixo-me embriagar pela tua cor que me embriaga a alma e o peito, e acabo por  adormecer embalada no teu luar.

Texto 119

O Caminho da vida.

No caminhar pela vida, conhecemos muitas pessoas e lugares, mas como a nossa memória é selectiva, esta detém-se em pormenores como este... pequenos e singelos, mas que marcam a existência do ser mais complexo e perturbador _ o Homem.

Texto n.º 120

Isto é verdade letra por letra.


A aldeia em que fiz a escola primária não tinha água canalizada nem luz eléctrica nem telefone nem nada dessas coisas.
Embora eu soubesse que existiam outros mimos fui, ali, razoavelmente feliz .
Mas, teria eu então nove anos de idade, saiu-me a sorte grande . Foi o caso que o meu professor me escolheu para ir para a Nazaré naquele verão .
O mar !
O mar era uma das minhas maiores aspirações .
E aí vou eu para a Nazaré .
Chegamos lá de manhãzinha e, quando a camioneta desfez uma curva, vi o mar .
O Mar . O MAR .
E a minha paixão dura até hoje .
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« Responder #474 em: Setembro 07, 2010, 05:25:46 »

Texto n.º 121

A minha mãe, grávida no fim do tempo, com um sarrão de milho às costas logo seguida de perto por mim,. A mais de uma hora e meia de caminho, lá para as bandas da ribeira do carcavão, chegava-mos por fim ao nosso destino: o moinho de água!
Depois, era só entornar o milho na moega e esperar outra hora até que a farinha cessasse de cair para logo de seguida voltar a encher o sarrão e nos metermos de novo ao caminho, pois que o sol já se tinha escondido e em breve seria noite cerrada.
No dia seguinte, cozer-se-ia a broa e para a merenda haveria quase de certeza uma esmagada de sardinha.


Texto n.º 122

Sabia que aquilo não era certo, mas não tinha outro remédio se não alinhar  pelo medo que tinha.
Enquanto um vigiava da  porta,  outro saltou para o lado de dentro do balcão e num abrir  nervoso de armários envidraçados, retirou às pressas o que lhe veio à mão: duas latas de salsichas, outras duas de atum, uma mancheia de rebuçados, dois pacotes de bolachas maria e ainda um maço de cigarros definitivos...
Naquele dia correu a notícia de que  houve um roubo na mercearia do Ti Zé Maçarocas!
Foi a meio da ladeira que fizemos o pic nic, selado com um pacto de silêncio... até hoje!


Texto n.º 123

Lembro-me vagamente de me ser ordenado que retirasse os óculos e os posasse em cima da carteira e me dirigisse ao pé de si, junto da sua secretária. Assim fiz e ainda mal tinha chegado já um estalo me assentava em cheio na cara, levando-me às arrecuas quase até à parede do outro lado da sala. Nova ordem e novo estalo, desta vez atirando-me ao chão num cair  desamparado. E ainda mais dois ou três, dos quais me escapa sempre o motivo.
Do oftalmologista, o meu pai ouvia sempre a mesma pergunta: se ainda não tinha metido aquela mulher na cadeia por me ter cegado da vista esquerda...

Texto n.º 124

Na pobreza longínqua nos montes, nunca brinquedo tivera. Cabras e árvores eram sua companhia. Dos rígidos invernos a bata branca e botas apertadas eram a lonjura da escola. A cidade adolescente a convidou como criada onde por ali permaneceu. Um dia na feira viu a primeira boneca e perante ela se quedou. À noite coseu pedaços de tecidos coloridos, enchendo de ervas o corpo e fios de lá compunham a farta cabeleira. Um recorte de mulher calada, em movimento de todas as emoções, foi colado em forma de coração.

Texto n.º 125

Paixão adormecida
 
Vivíamos assim em total harmonia como se fossemos dois monges fraternos que partilhavam o mesmo espaço, as mesmas coisas e a sombra de uma vida onde já fôramos cúmplices e felizes.
Continuava a amar aquele homem, a paixão existia dentro de mim adormecida é uma verdade mas bastava um único sinal, um gesto para me fazer acordar o fogo dentro de mim e fazer surgir toda a emoção à flor da pele.
 
 
Texto n.º 126

ABANDONADA
 
Sinto-me cansada!
Nunca pensei que a minha vida se transformasse neste martírio.
Sinto-me perdida sem saber o porquê da minha maldição.
Porque é que ainda não cheguei aos trinta anos e já me sinto como se tivesse mais de setenta?
E os meus amigos? Eram tantos!
Presentemente já não tenho nem um, tal como a nossa família fizeram-se de ratos e fugiram abandonando o barco quando viram este a querer afundar.
Tudo tenho vindo a perder.
Será que fiz mal em deixar-me ser abandonada?
 
 Texto n.º 127
 
Grande mulher!
 
Grande mulher! Que grande mulher fora a sua bisavó, uma rebelde num espírito que sempre clamou por liberdade.
Um ser humano muito inteligente que soube sempre enfrentar de cabeça erguida as agruras da vida e de todos os que lhe apontavam o dedo.
Nunca acreditara no casamento desafiando assim as mentalidades opressoras de uma época onde os pais escolhiam os maridos para as suas filhas, por conveniência, sem que estas pudessem discordar ou fugir ao destino que lhes fora traçado.
Assim deviam obedecer incondicionalmente, permanecerem submissas e anuladas até à hora da sua morte.
 
Texto n.º 128

Prece
 
A todos os homens nascidos  em todos os dias do ano, a todas as horas, desejo com o meu coração cheio de  PRECES,  que construam uma vida com muito amor, paz no mundo, sem guerras, sem fome, sem maus tratos, sem discriminações.
Aos homens e mulheres especiais, de todas as idades, que comandam o mundo, eu SUPLICO:
 
 
Fazei a todo o segundo:
O BEM,
ALIMENTAI TODO O SER HUMANO,
AGASALHAI TODO O SER HUMANO,
AMAI TODO O SER HUMANO.
 
Texto n.º 129

Pai, sinto a tua falta!
 
Querido pai, faz um ano que estivemos juntos, longe de todos, só nós os dois! Trocando carinho, amor e aquela ternura que só nós sabíamos entender.
Pai, perdão!
Não tive mais coragem de frequentar aquele lugar onde éramos cúmplices nas letras, na conversa e nos nossos segredos mais profundos.
Deixas-te um vazio no meu peito, uma saudade interminável mas tatuaste a minha alma que guarda religiosamente as tuas marcas, as tuas palavras, os teus ensinamentos, as sugestões, as críticas que às vezes magoavam mas que reconheço me ensinaram a vencer...
Pai, sinto a tua falta!
 
Texto n.º 130

A todos que não conseguem ser pais!
 
Meu menino criança
Estrela divina que reluz
Do mundo és a esperança
Fonte de salvação e luz.
 
 
No mundo onde vivemos actualmente, penso em todas as crianças com o direito à vida, à educação, aos seus direitos de cidadãos, e sobretudo à paz.
Choro de raiva quando tomo conhecimento das atrocidades cometidas contra estes seres desprotegidos.
Choro amargurada ao ver a tristeza cruel como punhais, daqueles que tanto desejam dar amor e carinho a um fruto do seu ser, quando não conseguem ser pais.
 

Texto n.º 131

Era Um Homem!
 
Era um homem adulto, quarenta anos, desempregado, no mundo da lua vivia, escrevia, às vezes boa poesia, mas nada, nada fazia.
Em casa de familiares vivia, que bom que era, comia, dormia, roupinha lavada tinha e em nada contribuía. Apenas, sonhava, dizia que estudava, mas o quê? Ninguém sabia.
Queria ser mentor de uma grande organização, mas fazer algo para realizar o sonho não! E assim lá ele vivia convencido que era um grande Senhor, o Rei da Poesia, um D. Quixote nacional, atormentado com o que dele diziam, a viver na confusão, na ilusão, e sobretudo com a mania da perseguição.
 
 Texto n.º 132

Onde estão esses tempos?
 
Onde estão esses tempos em que se brincava na rua, em que quando o vizinho nos oferecia um rebuçado a mãe não se zangava e até agradecia, sem ter medo que fossemos drogados, raptados e até violentados?
Onde estão esses tempos em que cantarolávamos melodias de Natal, líamos livros de histórias lindas, simples sem monstros, sem bruxas ou feiticeiras, em que o próprio livro nos coloria a imaginação e nos fazia sonhar?
 
Texto n.º 133

E a Família?
 
E a Família? Onde está o calor familiar? Onde está a reunião ao fim do dia em que falávamos como nos tinha corrido o dia, o que havia para resolver no dia seguinte, o que se aprendia na escola, olhávamos os nossos pais com respeito vendo-os como gigantes sábios a quem obedecíamos sem contestar.
Hoje vejo as Famílias, separadas ou quando estão juntas mal conhecem, apenas partilham o mesmo espaço comum, os filhos só servem para irem à escola, verem um pouco de televisão, jogarem em playstations que foram oferecidas e custaram uma fortuna para compensar a falta de atenção e carinho
 
 
Texto n.º 134

Ainda sei o meu nome! Maria, nasci em Madrid e vim para Portugal arrastada pelo meu marido.
Que saudades eu tenho desse velho! Era maluco, mas era meu! Éramos tontos autênticos, loucos um pelo outro.
Sinto-me definhar, sozinha, abandonada neste lar de idosos, uns a dormirem o dia inteiro, outros às brigas, outras pregadas às televisões.
Perdi o meu querido e os meus filhos desterraram-me para aqui, só os vejo de tempos em tempos, esqueceram-se da mãe, de tudo o que me sacrifiquei por eles, não estiveram para me aturar e aproveitaram para se apoderarem de tudo que levei a vida inteira a juntar.
 
Texto n.º 135

Sou casmurro! E depois?
 
Durante toda a minha vida fui sempre um rebelde, teimoso, com o meu sentido de justiça apurado e um sexto sentido (segundo dizem comum só às mulheres), (mas como sempre fui do contra…) extremamente à flor da pele.
Lutei como um valente, um herói pela liberdade, contra as humilhações, contra os crimes e embora quisessem calar a minha voz, nunca o conseguiram!
É claro que não posso dizer que estou orgulhoso, mas não me dei por vencido!
Sou quem sou, fiz o que fiz e nunca me arrependerei!
 
Texto n.º 136

Gotas de água salgada
 
Elevo-me no alto do laranja rosado, manchado em tufos brancos e em massas cinzentas, torneados de pontos brilhantes e cintilantes neste meu azul água mesclado em azul-escuro tocando suavemente nos cristalinos verdes desta minha natureza.
Vou beijando ondas de amarelos escaldantes que me aquecem a alma enquanto me deito em tufos de tapetes multicolores soltando nas atmosferas que me rodeiam doces aromas dispersos em marés frescas e transparentes.
Soltam-se gotas gordas de água salgada suspendendo a respiração em espaços de tempo deste inconstante espaço.


Texto n.º 137

Surda muda
 
Tenho dentro de mim, no meu peito o segredo da minha vida, de tudo o que passei, de tudo o que me fez feliz, de tudo o que me magoou, maltratou e me faz chorar sempre, sempre em silêncio.
No meu olhar guardo todos os tesouros que a natureza nos deu, as cores, os perfumes, as flores, as árvores, o sol, a noite, a lua e as estrelas.
Vivo assim calada, sozinha no meio do nada, no meio de tudo, no meio de mim e sou feliz assim.

Texto n.º 138

Sete Chaves
 
Tranco a sete chaves os meus pensamentos, as minhas tristezas, as minhas amarguras e com todas elas os meus sentimentos mais profundos.
Já é longa a passagem neste mundo de ilusões, de sonhos, de pressas, de horas a fio, de correrias contra o tempo, contra os dias, sem me deixar pensar em tudo o que essa gente tem a mais que eu.

Texto n.º 139

Lembro-me do som do bandolim

Havia me alfabetizado fazia dois anos. Começa, pois, um novíssimo novo mundo já um pouco mais vasto do que o de outrora mais difícil de explorar. Eram curiosidades e curiosidades cada vez mais se avolumando perante mim. Descobrira homônimos nas gentes. Não era o único exclusivo do meu nome tão difícil de se ver e ler e saber e escrever e querer ter. Descobri famosos. Descobri a diplomacia do meu nome. A Literatura do meu nome. A gravura do meu nome. Descobri meu nome ao som do bandolim.

Texto n.º 140

Se todas as imagens fossem uma só, seria o teu perfil o meu absoluto. Através dela toco a tua ausência a encontrar-me em forma de dia, tendo no centro a noite a reflectir a tua presença, como se a lua brilhasse no vazio que deixaste. A memória que me persegue é uma ave que me acompanha e de longe me visita, neste encontro de nadas. Enquanto o silêncio me atira para o suspenso, dispo todas as dermes e colo o desassossego na foto que me deixaste no seio da noite.

Texto n.º 141

Dentro da tarde havia um tordo que debicava sempre o interior da gaveta. Ia tirando do bolso malmequeres e borboletas, enquanto eu ensaiava uma valsa com os sapatos da minha mãe. Ia olhando para mim enquanto debicava os poemas em cima da mesa, com esperança de engolir algum verso, que lhe saciasse a fome. Não havia medos entre nós. Tínhamos a cumplicidade dos dias e do êxtase de todas os aromas, que entravam direitos para o meu quarto. Naquele dia não veio! Uma armada de lágrimas caiu-me, pois sabia-o morto numa qualquer boca de lobos. As alegres tardes passaram a uma valsa que nunca começou.

Texto n.º 142

Um dia perfeito

Lembro-me dele a olhar-me, senti-me despida perante um olhar tão intenso mas pensei que seria apenas frutos da minha imaginação, sai daquela sala de aulas a correr para resolver um assunto pendente.
No dia seguinte, fomos ao encontro um do outro, sem conseguirmos olhar directamente um para o outro mas apesar dos nossos olhares se evitarem, as nossas palavras encaixavam-se, entre os nossos ideais, pensamentos e vivências, fomos passear pelo Porto e deixei-me envolver pelos braços dele quando chegamos ao Terreiro da Sé, entre abraços emergiram beijos devotos e ternos e a nossa história começou.

Texto n.º 143

Regresso ao passado


 As dobradiças da porta rangiam a interromper o silêncio, alargado neste vasto casarão agora abandonado. Eram escombros com as paredes preenchidas por imagens, as quais, de olhos fechados, são nítidas. Desço devagar para a varanda…ah! A varanda que tinha na paisagem os meus sonhos de criança, por instantes breves, vivi todos num fôlego de ousadia e claridade. Rolei o corpo pelo capim agora mal aparado e inspirei os aromas que a memória não esqueceu!
 Como foi bom fazer este regresso ao passado sem lágrimas de nostalgia, somente um leve sorriso por poder beber desta fonte, mais uma vez!

Texto n.º 144

Anjo Viajante

Estava muito calor, mais ou menos 35 graus e ele estava á minha espera sentado numa paragem de autocarro junto á estação de campanha.
Um homem moreno e jovem com os seus 18 anos mas um rosto que aparentava mais 2 ou 3 anos, naquele tempo faria toda a diferença, 1 ano ou 2 ou 3 e por ai fora, ele estava com uma enorme mochila às costas e nessa mochila enorme ainda estava pendurado um pequeno tacho, uma cafeteira, uma tenda e um pequeno fogareiro para campismo.
Quando nos vimos fomos ao encontro um do outro sorridente e felizes com nosso reencontro.

Texto n.º 145

Ansiosas olhávamos para o relógio e para o resto da nossa família, e o tempo demorava a passar!
Já passavam das 02h horas e estava tanto, estava tanto calor, eu e as minhas primas decidimos fingir que íamos dormir.
Estávamos com os sentidos bem despertos e assim que demos conta que em casa todos se teriam retirado, cuidadosamente saímos ligando as luzes externas da quinta que iluminavam a piscina.
Ainda me recordo da lua em tom âmbar e o calor que fazia, e num acto tão simples, que naquela noite foi tudo para nós.
Mergulhos e brincadeiras aquáticas ao luar, sem esquecer a bela cor lunar âmbar.

Texto n.º 146

Tardes de Verão

Nas tardes de verão, as senhoras sentam-se á sombra das buganvílias e os maridos e sobrinhos, recolhiam á sala, para fumarem os charutos, beberem os seus cálices de Porto e jogarem uma partida de poker.Enquanto bordavam raízes e pétalas nos bastidores, falavam das memórias, das crianças e do senhor cura, que andava constipado. A empregada, sempre a preceito, aguardava recuada os pedidos dos chás e leques. Quando chegava ao pé delas, descalça e enlameada, o véu preto da tia-avó, escorregava da cabeça, com um fanico de ver a menina feita pobre.

Texto n.º 147

Um momento

Entre a multidão uma mulher tentava chamar atenção de alguém, e conseguiu.
-Não tenha medo de mim menina, porque eu não faço mal a ninguém.
Finalmente alguém lhe deu atenção e escutou-a, sabendo de antemão que iria ser solicitada uma esmola. A mulher contou-lhe uma história e a pessoa abordada ouviu reformulando a mesma enquanto tentava decifrar o olhar da pobre mulher, sem acreditar ou deixar de acreditar. Como a mulher tinha dito que estava com fome, recebeu alimentos, umas moedas, e as seguintes palavras;
-Não faça mal a si mesma, erga-se.
-Obrigada pelo seu sorriso.
E seguiram os seus caminhos.

Texto n.º 148

Fiz a mala com alguma antecedência, movida pela ânsia que me tolhia o pensamento perante a perspectiva de uma liberdade ainda que utópica, mas que eu desconhecia...
Parti ao anoitecer de um dia que me ficou marcado para sempre, não que me lembre que dia era ao certo, mas pelo significado daquilo que considero ser um vil abandono na hora da morte.
Ferido numa bulha de machos e sem saber o que mais fazer que lhe devolvesse a vida, agonizava há vários dias numa cama improvisada no meio das aparas de madeira a um canto da oficina.
No dia seguinte chegou a notícia - O teu gato morreu

Texto n.º 149


Nunca antes havia comido refeição alguma sozinha e isso marcou-me profundamente e fez-me arrepender mil vezes da decisão que havia tomado e que me tinha empurrado para aquela situação. Depois de servir os "senhores", com os restos já frios que decidiam deixar-me, sentava-me na solidão dum canto da cozinha onde as lágrimas se misturavam com o que engolia sem qualquer prazer. Refeição após refeição de dias intermináveis de uma espécie de reclusão à qual me tinha sujeitado voluntariamente e contra a vontade dos que sempre me quiseram bem.
Aprendi como a vida pode ser madrasta, se quiser.

Texto n.º 150

O frio era insuportável. As mantas esgaçadas que me cobriam eram insuficientes e o meu corpo gelado tremia ao mesmo ritmo do queixo, que, incontrolável, me fazia trinitar os dentes. Mas o pior de tudo eram os pés que me faziam levantar e aquecer o ferro eléctrico com que passava a roupa dos patrões e que agora me servia como botija numa tentativa inglória de algum conforto que me levasse ao sono profundo, até que ao menos deixasse de sentir...
Só depois me lembrei da história dos jornais entre as mantas, que o meu pai me havia contado certa vez. Aí sim... finalmente adormeci!
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« Responder #475 em: Setembro 07, 2010, 05:26:59 »

Texto n.º 151

HELENA


Homenageava a beleza e perfeição dum corpo feminino de vinte anos. Filha do primeiro casamento da Joaquina fazia revirar todos os olhares dos rapazes e homens, não só pela sua beleza como pela ternura digna duma flor. Ao padrasto, aparentemente só lhe interessava o salário que ela trazia para casa para o alimentar a ele, à mãe, sempre na lavagem de escadas das seis da manhã até noite adentro, sem queixume, apenas resignação. Depois apareceu-lhe numa noite de carroceis o príncipe encantado, ex-colega de fábrica do padrasto. Saiu de casa grávida do padrasto e não do príncipe encontrado.

Texto n.º 152

PESCADOR PRECOCE


Todos os domingos acompanhava o meu pai no ritual de descer até ao rio para pescar, se os peixes que por lá andassem o permitissem. O meu pai tinha uma colecção invejável de canas-de-pesca. Eu, limitava-me a uma coitadita com três metros de comprimento, para a época um luxo. No espólio dele havia um “canelão de mar “, cana só para homens de barba rija, que ele nunca me autorizara a usar. Foi quando a sedução me conduziu à loucura: aproveitando os breves minutos de ausência dele para satisfazer as suas necessidades fisiológicas, puxei da dita e fiz o lançamento da minha vida: mergulhando com o canelão na água.


Texto n.º 153

PIRUÇAS PROVADOR


Era cão, mas não estúpido e muito dado aos prazeres da vida. Preto com dois olhos castanhos sempre brilhantes, tanto era parceiro como inimigo, dependia da radiografia que tirava do visitante. E tanto ladrava em duas notas, como em casos de emergência mantinha um rosnar em ponto morto que o dono conhecia e interpretava. Natal. Com ele as rabanadas e o molho das mesmas com vinho do Porto que sobrou a dona colocou numa malga. Minutos depois ele deambulava no pátio batendo de parede em parede. Ai Jesus que é ataque, gritou a bem intencionada dona até chegar à velha malga e a ver vazia. 

Texto n.º 154


AS MINHAS IMAGENS SÃO DE PEDRA
 
 
As minhas imagens são de pedra pregadas em troncos curvados destilando suor,
sob o peso do sol e a indiferença do mar.
Ainda os vejo, graves e pisados, as rectas e erectas frontes desenhando o longínquo
Horizonte.
E nessa lonjura são sino que se repercute do abismo até à superfície dos dias,
Mesmo que já ninguém o escute.

Texto n.º 155

Próximo do meu ouvido, a promessa de um segredo ao alcance dos meus lábios.
O toque suave dos nossos lábios ao encontro das nossas línguas num reencontro inigualável.
Num frémito de emoção as lágrimas escorreram dos meus olhos porque terias seguido o meu chamamento após tantos tormentos e tempos de solidão.
A nossa imagem, dois eternos amantes com princípio, meio e fim em frente a uma tela de cinema, de pés descalços enlaçados nos braços um do outro.
Um filme ao nosso alcance e a nossa história, uma tela de arte pop, dois vagabundos da verdade em cores quentes.

Texto n.º 156

Subimos a torre dos Clérigos, nem foi assim tão doloroso como imaginei! As escadas estreitas e é um monumento soturno, típico daquela época onde predominava o estilo Barroco.
Ao meu alcance visionei a bela Ribeira do Porto, o Rio Douro reluzente a desaguar ao mar, a rua das Carmelitas, a Batalha, as ruas e ruelas ocultas e tristes, casas antigas…
Os meus olhos alcançavam tudo, senti-me altiva e intocável perante tamanha imensidão e tamanha relíquia que envolve toda a cidade.
A cidade da pedra, cidade cinzenta, de boa gente e de seus encantos e recentemente a cidade dos buracos.

Texto n.º 157


Envoltos de incredulidade
 
 
Um olhar em neblina que caminha obliquamente, escuta passos vestidos de negro, uma sombra em desvanecida silhueta .Quando uma mão se estende, vislumbra o locatário sem sentido, não ausculta o olhar na forma simples em inocência. Em cada gesto mede imaginários envoltos de incredulidade e ao vulto branco traja de negrume com o soslaio que sai de dentro da sua íris. Uma redoma rígida é a habitação do coração e dos sentidos, voam véus escuros nos poros trancados, talvez numa caminhada que tem que ser largada. Outra retomada nas asas de um vento a sul de sol.
 
Texto n.º 158


VELHO MÚSICO
 
Velho músico,
Vai buscar o teu velho acordeão, para me fazeres ouvir de novo o longínquo rumor daquela velha canção.
(As ciganas de Macedo… caramba, quando vão p’ra Mirandela… caramba, com sapatos de camurça… caramba, meias de seda amarela… caramba…caramba…caramba.)
Poderão ainda os teus dedos de mestre fazer palpitar as teclas, guiando-nos os passos onde o suor tropeçava…?
Como foram corridos no tempo esses corridinhos distantes… Agora, só ecoam em minha mente!

Texto n.º 159

 
UM SILÊNCIO
 
Tenho gravados na memória aromas, dias, instantes.
Um silêncio
transporta-me a essas evanescentes cores…ora nuas…ora vestidas de amores!
Serão perfume…
ou ampulheta... com a areia sempre a cair, sempre a cair…?

Texto n.º160

 
IMAGENS DE OUTRORA
 
 
Quero de volta as horas que me entonteciam… o cantar do melro nos azuis tão puros…
Cabrita travessa, saltava os muros, indiferente à dor dos joelhos feridos.
Desses instantes permanece ainda esse cantar de melro que me catrapiscava os passos de dança nos cândidos jardins floridos da infância.
 
Texto n.º 161
 

SINTO-ME BEM

 

Sinto-me bem a recordar a água que me deu vida…

Na lembrança permanece… não o corpo frio, gelado…

mas cada momento passado… da tua permanência tão

viva!...

 

Texto n.º 162


NA TASCA DO CARVALHO

 
Na tasca do Carvalho havia de tudo um pouco, desde rebuçados ao tostão, até ao naco de porco.

Havia jogos de cartas, corria o vinho a jorros.

Gargantas embriagadas, mastigando as palavras, pregavam grandes cantadas à mulher que só no banco bebia e fumava!!!

O tempo passa!... Mas minhas imagens não têm traça…

São fios de água reverdecida que estremecem com o soprar do vento…

 Texto n.º 163

AVENTURA NA SERRA DA ESTRELA

Tinhamos saído de manhã bem cedo do Vale do Rossim onde estàvamos acampados, e caminhamos pelo interior da serra até à Torre. A viagem cheia de aventuras foi inesquecível... Chegàmos mesmo a ser atacados pelos cães que guardavam os rebanhos, não fosse o pastor e estaríamos feitos em pedaços; mas o mais caricato da situação, foi que ao chegarmos ao fim da tarde ao acampamento, todos nós tinhamos uma linha vertical que dividia em dois tons, o nosso bronzeado! A Ana como era a mais branquinha estava metade vermelha e metade branca. A gargalhada foi geral... Tanto na ída como na vinda tínhamos "tostado" sempre do mesmo lado!

Texto n. 164

VIOLETA


Investia com muito mais entusiasmo e crença que se pode notar em bezerros a sério. Gastávamos tardes inteiras no pátio, a nossa arena improvisada, eu com aventais velhos de minha mãe, ela a fera, pois o encarnado não era obrigatório, imitando todos os passes do toureio a pé que um miúdo de onze anos conseguia imitar da televisão. Ela sempre pronta, mal me via com o avental, investia, corajosa e pujante, cadela que era com dois anos de idade e trinta quilos de peso. Um dia escapou-se para a rua, foi atropelada e morreu. As nossas faienas não poderiam ter terminado de forma mais sinistra.

Texto n.º 165

O MEU PRIMEIRO AMOR


Todos os dias tinha de parar, observar e seguia o resto do caminho atormentado. Era aquele. Teria de ser aquele. Custasse o que custasse, sofresse o que tivesse de sofrer por ele. E o sofrimento prolongou-se durante alguns meses, até poder entrar na relojoaria, bater no balcão e comprar, com o meu dinheiro, o primeiro relógio da minha vida, por trezentos escudos.

Texto n.º 166

Amor eterno
 
Sim, soltei um grito antes de encontrar os teus doces olhos e a tua pele tocar a minha. A dor calou-se no ápice em que os meus braços te enrolaram em mim, um frágil corpo…ah! E o choro suave que ainda hoje me faz sorrir. Chegas-te e eu em ti cresci neste acto unificado, o cordão é cortado mas o sangue que em nós corre é o elo eterno deste amor sem fim!

Texto n.º 167

Traziam o corpo e pouco mais além da vontade de se saciarem mutuamente em fugazes encontros de amantes discretos. Talvez  uma boa dose de culpa se juntasse ao que lhes sobrava da moral e dos bons costumes, ou se calhar, nem isso.... Ao toque da campainha, seguiam-se os passos que rangiam na madeira carunchada escondida por debaixo do plástico a imitar tacos envernizados. Breves palavras serviam para formalizar  o negócio da casa e segundos depois o ranger da porta do quarto e o som de uma volta de chave anunciava o acto que ali nascia e ali ficava. Ilícito? Seria! Mas... que importava isso?

Texto n.º 168

Ao voltar do turno da noite, as roupas da criança, desarrumadas e fora do sítio onde as havia deixado, denunciavam o que a boca teimava em negar ao jorrar um rio de mentiras que não condiziam com o que os olhos envidraçados me diziam, deitando imediatamente tudo por terra.
Das poucas palavras que a inocência do menino não compreendia, meia dúzia chegaram para confirmar o que as minhas suspeitas mais temiam: - " Já era de noite e fui às cavalitas do pai a casa de um amigo dele naquele sítio que tem muitas casas todas feias".
O desespero matava-me todos os dias mais um bocadinho!

Texto n.º 169

Nunca tinha visto o mar, por isso, não via a hora de lá chegar!
Tinha dezasseis anos e graças a uma prima do meu pai, que naquele Verão me convidou por carta a passar aquelas que seriam as primeiras férias da minha vida na sua casa de Lisboa, finalmente estava prestes a realizar um sonho que até ali não passava disso mesmo... um sonho!
A Costa da Caparica foi pouca para abraçar o tanto que eu queria ver do mar...
Valeu-me um escaldão de todo o tamanho, mas valeu também por um mão cheia de emoções indescritíveis!

Texto n.º 170

Sem partir

Entrei no barco de mansinho numa noite de luar, a fim de uma viagem iniciar. Sentei-me na proa com o mar, a me embalar, escutava os sons no silêncio, as ondas em oscilações, numa dança sem par…No meu ombro direito um palpitar, a tua mão que me veio buscar…

Texto n.º 171


Vejo-te a espaços cada vez mais lentos, entre os rasgões da turba sacudida pela batida. Enxugas as tuas lágrimas com as costas da mão. A tua beleza torna redundante o som de todas as palavras com mais de uma sílaba. Meter conversa contigo seria frustrante, impossível. O oxigénio pisca numa mancha confusa de memórias que nunca pegarão e é-me insuportável fechar os olhos, deixar de te ver, mesmo que só por um instante. Com a saliva a coalhar debaixo da língua, não consigo engolir. O ar aquece à tua volta como uma brisa de verão. Tudo cheira a rosas. Lembro-me bem. Rosas. E depois, desapareceste.

Texto n.º 172

Tudo servia para enfeitar o ramo de loureiro que a missa do Domingo de Ramos pedia.As camélias encarnadas,cuidadosamente atadas com um fio por entre as folhas.As serpentinas coloridas enroladas em toda a volta e as tangerinas penduradas aqui e ali,faziam-nos brilhar os olhos de alegria por todo o caminho,pinhal abaixo,até à igreja onde já outros da terra e de toda a freguesia,também eles inchados de orgulho pela beleza da sua obra,a seguravam com ambas as mãos e o mais aprumado que conseguiam.
E depois,havia ainda aqueles que só dobrando a ponta se conseguiriam enfiar dentro da igreja!

Texto n.º 173

TRAVESSURA DE CRIANÇAS
 
Deveria ter 9 a 10 anos e o meu irmão menos 2. Estàvamos a passar férias em casa dos avós e depois do almoço, na sesta que nos era imposta, fingimos dormir e fomos pé ante pé até ao curral e decidimos abrir a cancela e soltar os animais. Toda a aldeia andou empenhada na "caça aos porcos". Depois do trabalho concluído não sabiam onde estàvamos! Agora a aflição era outra!!! Nós, mudos e cheios de medo pelo alvoroço que tínhamos provocado e com medo do castigo que nos aguardava, íamos ouvindo todas as conversas do nosso "esconderijo", debaixo de uma cama de ferro, de onde só saímos ao fim do dia!!!

Texto n.º 174

PÔR DO SOL
 
Ali sentada ao fim da tarde, pude observar o sol mergulhando aos poucos nas águas acetinadas da lagoa, inundando toda a natureza com reflexos alaranjados transformando tudo ao redor numa beleza mágica! As águas transparentes reflectiam faíscas em asas de fogo incandescente, como que enviando mensagens para todos os pontos do horizonte! Também mágico foi esse momento que ainda relembro com saudade, não só pelo cenário edénico mas também pela paz que pude usufruir ao contemplar tanta maravilha! Era o mais belo pôr do sol que já presenciara! Bebi com sofreguidão cada momento dessa contemplação que me deu uma paz indescritível! Nessa noite sonhei com anjos e pude "ver" um mundo melhor!!!

Texto n.º 175


LEMBRAS-TE?
 
Lembras-te quando me puxavas pelo braço e soletravas o meu nome? Como era bom deixar que me conduzisses! Eu ía de olhos bem fechados sem saber para onde me levavas...
Lembras-te do passeio que fizemos pelo meio da serra e como eu estava tão cansada, que me pegaste ao colo? E quando ao final de cada dia mergulhàvamos nas águas transparentes da lagoa? Lembras-te como ríamos por coisas insignificantes e como nos sabia bem jantar à luz do petromax, pão saloio e sopa de feijão? Lembras-te como era bom dormir bem aconchegada a ti, nas noites geladas de Agosto e acordar às 6h da manhã porque o calor já era insuportável dentro da tenda? Lembras-te...? Sabes, a velha casa do guarda ainda lá está! O mesmo cenário permanece! Só nós, deixàmos que o tempo, implacável, tornasse tudo numa memória!...
 
Texto n.º 176

AULA DE PORTUGUÊS
 
Eu era uma aluna responsável e obediente, embora não muito estudiosa!
Andava no 1º ano do ciclo e gostava muito das aulas de português, mas naquele dia, tal como a maioria das minhas colegas, demos muitos erros de ortografia. O castigo seria apresentar na próxima aula, 50 vezes cada palavra, escrita correctamente.
Ainda me recordo do olhar espantado da professora quando lhe apresentei "o trabalho de casa": eram 10 folhas que tinham no cabeçalho cada palavra correctamente escrita, e depois aspas até ao final de cada página!...

Texto n.º 177


De menina a mulher
Mulher torneada por sonhos e habitada por uma jura ancestral, acabou por sucumbir a essa jura quando, numa noite húmida de S. João, permitiu o rompimento do cerne e acabou com a marca da pureza personificada pelo íman que transportava.
Aquele seria, sem dívida, o primeiro dia do resto da sua vida preparando-se para a consumação de outros actos carnais que a doavam a uma vida de mulher mais experiente neste emaranhado de sentimentos que tecem a sua mente de mulher.

Texto n.º 178


Favo de Mulher
Finalmente conseguira tomar a rédea daquele troféu, pelo qual tinha lutado toda a minha vida.
Depositei-o na concha da mão daquela mulher gasta pelo tempo e agradeci-lhe todo o apoio incondicional que ela me havia dado. A mulher levantou o cenho, mirou-me com sapiência e devolveu-me o diploma rematando sabiamente: “É teu, fizeste por isso. Agora a tua próxima tarefa será converter esse diploma no sal da tua vida! Eu apenas fui a espectadora atenta ao desenrolar do teu filme: amparava-te nas quedas e sorria quando te via subir mais um degrau na vida!”.

Texto n.º 179


BOLO DE LARANJA
 
Sou a mais velha de 5 irmãos e devo dizer que não foi tarefa fácil ficar responsável "pela creche" sempre que meus pais saíam.
Um dia juntamente com uma das minhas irmãs mais novas, decidimos fazer um bolo de laranja. Segui tudo direitinho, tal como indicava a receita, coloquei o bolo no forno e esperei... Toda orgulhosa quando os meus pais chegaram decidimos provar o bolo. Estava intragável!!! Não sei o que tinha acontecido! Foi então que minha irma disse: - sabes, mana, eu queria fazer uma surpresa e, quando fui espremer as laranjas, pus um pouco de piri-piri no bolo para ficar mais gostoso!

Texto n.º 180

Osmose perfeita
Em ti penetrava sem algum receio. Ainda sentia o teu braço a pulsar de vida e eu, destemidamente, galgava o teu leito húmido competindo com os girinos que se divertiam, picando a minha pele.
Nos dias chuvosos, envergando toda a minha inocência, atirava um troféu capaz de se manter à tona, boiando sedutoramente e corria ao longo da tua margem até ao local onde, mantendo-me seca, conseguia empunhá-lo, fazendo-me sentir a vencedora arrojada, em mais um dia de chuva. Eras o rio vivo da minha meninice e hoje, volvidos três décadas, és um leito de morte.
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« Responder #476 em: Setembro 07, 2010, 05:27:46 »


Texto n.º 181


O negro feito homem
No início eras feito de pigmentos garridos, respiravas felicidade e eu, apaixonada, deixava-me diluir na sombra dos teus sonhos e promessas.
Sem me dar conta, foste misturando o preto da tua traição com o branco da minha confiança resultando no cinzento do meu tormento. Esparramei-o, seriam talvez umas cinco da manhã, contra a parede das minhas dúvidas. Acabaste por admitir que há já um ano, havias mergulhado a minha aparente felicidade no breu da arca que acabei por encarcerar no fundo do mar do meu esquecimento.   

Texto n.º 182


Quedada por ti
Surgiste no meu horizonte sem te fazeres anunciar. Eras homem encadernado por uma longa experiência de vida, e soubeste tornear os meus passos, todos os meus gestos na direcção dos teus desejos. Maneaste-te na paciência de um pescador e calculaste cada atitude, ao milímetro, para concretizares esta façanha. Cicatrizada por uma traição ainda por consumir, ainda que timidamente, deixei-me afagar pelas tuas mãos meigas e sedutoras. Esta memória aconteceu, ainda perdura e perdurará enquanto quiseres continuar a fazer-me sentir quedada por ti!

Texto n.º 183


Dose adolescente
Continuas a massacrar os efeitos calmantes do meu antídoto. Cospes as palavras que chicoteiam o meu cerne de mãe protectora. Escravizei a minha liberdade para te orientar na liberdade da vida. Esqueceste, na tua infantilidade de moça – mulher, de hastear a bandeira branca do entendimento, respeito e discernimento. “É uma fase complicada! “_ Diziam vozes mais experientes, neste ofício.
Esperarei até que me devolvas a calma, já desgastadas pelas tuas investidas adolescentes e me faças sentir, de novo, que vai valer a pena ter confrontado os teus mais arrojados desafios.

Texto n.º 184

Um não querer
Estou onde não quero estar e vejo o que não desejo. O teu olhar cerrado à vida, inerte em leito de morte, gélido pela vela que se apaga. Concentro-me no vácuo que me abraça para romper o vínculo fértil que se quebra e coagem-me a dele me libertar.
E decido soltá-lo em asas de anjos, ao firmamento sobranceiro à existência de vida, com a esperança que em mim encarcero pela possibilidade de um dia te vir a poder encontrar.

Texto n.º 185

Os anos não perdoam
Sinto-me aconchegada na inquietude dos meus jovens anos. No pico da montanha da minha adolescência, consigo segurar a força intempestiva do vento, a brutalidade do mar encrespado e consigo desnudar o corpo sensual de cada corpo celeste, suspenso no firmamento.
Agora, na quietude de uma idade mais madura, ela prende o meu gesto e abraça-me esfriando a tenacidade do tempo que se não deixa estagnar. E espero pela idade que me encarcerará nas masmorras de Morfeu.

Texto n.º 186

O Ti Manel
Era um pedreiro de renome. Cada pedra, pela sabedoria das suas mãos, transformava-se no mais precioso troféu. Quedou-se o Ti Manel, no dia dos sete ventos boreais, incapacitado de tornear a pedra mais importante: a pedra filosofal. Esta, acabou por ficar suspensa no tempo e inacabada na forma, agarrada pela mão negra, calejada e brutalmente parada, no silêncio do cigarro por acabar. Assim morria o cigarro como se apagava a memória do Ti Manel.

Texto n.º 187

A Tia Velha
Muito alta no seu porte, muito magra de estrutura e enrugada em toda a sua epiderme, a Tia Velha consumia-se a mergulhar o saco de serapilheira, devidamente amarrado, bem no fundo do leito do rio, para curar os tremoços.
Após alguns dias de cura, preparava o pitéu que era vendido pela boca dos púcaros de alumínio, distribuídos de porta em porta aos consumidores beberreicos do tinto que envelhece no breu das adegas.
A Tia Velha morreu seca pela avançada idade e a tradição dos tremoços, esmoreceu acabando no esquecimento das gentes do Caneiro.

Texto n.º 188


Pedaços de gente
Aspergiam, por todos os lados, sem idade e sem robustez física capazes de darem luta à dura tarefa das salinas. Apesar de muito tenros, a pele seca pelo calor estalava abrindo finos sulcos na aridez daqueles corpos. Carregavam os sonhos, amarfanhados nas sacolas virgens de escola, esperando dias mais propícios para se poderem libertar. E aqueles pedaços de gente soltavam gemidos arrepiantes que alguma vez os meus ouvidos se atreveram a ouvir: “Um…dois…três… Fooorça!”.

Texto n.º 189

Esqueci a mochila da escola em casa, a minha mãe arranca o carro a fumegar naquela manhã com pneus a chiar, quebram a paz da gélida madrugada, vai deixar o meu irmão e trazer a minha namorada. Busco a mochila e espero e estilhaço na geada, ela não volta, um carro de bombeiros abrasa o alcatrão, sinto um arrepio, um calor nas costas, suor, Passagem de nível! Corro para a estrada, um carro a pára, obrigo o condutor a seguir e lá vi pessoas de olho arregalado, o metal torcido do impacto, o sangue, o mundo a desabar em sangue e dor, muita dor. Renunciei Deus pela sua incompetência.

Texto n.º 190


Era noite, beira mar. Estava ela serena, a boiar sobre a linha do horizonte marítimo mas deve ter reparado que eu reparava na sua luz dourada a luzir nas ondas pequenas que o vento languidamente tentava levantar da massa cinzenta escura metalizada onde repousava e desapareceu. Fiquei feliz, foi a primeira vez que vi o pôr da lua.


Texto n.º 191

Éramos 4 na borda do rio Mondego,Figueira da Foz. 2 guitarras e seis mãos lutavam na tentativa de serem o próximo trio a par a tocar. Aspirava-mos ser um com o Universo inalando fumos aromáticos e bebendo três cervejas de litro aos pés de todos ajudavam o processo. Uma noite atrás de outra atrás de outra no “Other Side”, oito olhos vidrados olhavam a margem oposta, mas as respostas para as múltiplas perguntas existenciais nunca vinham, ainda hoje não vêm e acho que nunca virão. Mas valeu e vale a pena abrir a mente para fazer mais perguntas. Talvez seja esse o verdadeiro sentido da vida. 42

Texto n.º 192

Vivia encarcerado no mundo sábio da logicidade humana. Ele próprio fez questão de ser o protagonista desta memória. A sagacidade empurrava-me para o leito de uma aritmética quase perfeita e foi nele que saciei os meus conceitos cognitivos. Alcancei o tesouro da sua sabedoria que abracei como tábua de salvamento: “Sabes porque é difícil colher o melhor fruto da árvore? Quase sempre está em local pouco acessível! Assim acontece na vida. Devemos empreender grandes esforços para trepar à árvore da vida e tomar nas mãos a nossa felicidade!”. Agora sei que é uma árdua tarefa – o Olimpo dos sonhos!

Texto n.º 193

HOSPITAL DE STº. ANTÓNIO

As dores eram muito incomodativas... O suor escorria por todo o meu corpo, apesar de estarmos em Dezembro!  Eu só pensava:  -“mas quem me mandou a mim meter nisto!” Não queria olhar para lá, pois eu seria a próxima a ocupar aquele lugar. As dores eram cada vez mais fortes, quase insuportáveis, e  não via maneira de me sair desta, e mais uma vez pensava:  -“noutra não me meto, com toda a certeza!" Finalmente ele nasceu, com 2.850kgs, faltavam 5m para as 19h. Era tão pequenino e indefeso! Tão fofinho! Não me cansava de olhar para ele! Passaram já 28 anos e desde esse dia nunca mais o larguei!!!

Texto n.º 194

Ao optar por não-dizeres guardava surdamente a dor que os substituiria. A vibração foi demasiado contundente. O dia que se seguiu era como outro qualquer – caminhava entre nuvens, numa construção solitariamente muda, evitando o esquecimento escaldante que parecia querer queimar tudo o que estava vivo. Quis salvar os olhos. Há tempo as ruas não imitavam seus movimentos. Tudo vive, ainda que pereça. Como ontem. Quando mesmo entre um cárcere e outro, ao entender o sentido de ser só sem ser solitário, não deixou de escapulir, magnanimamente iluminado.


Texto n.º 195

A GARRAFA



    Toca a campainha e espera que a mande subir. Carrega sacos com roupa e comida para os filhos. Outras vezes uma receita para aviar na farmácia ou a conta da luz para lhe dar uma ajudinha. Há anos que vem cá a casa começando por pedir um prato de sopa que a obriguei a comer na mesa da cozinha. No fim do segundo prato, saiu satisfeita. Ontem, trazia uma garrafa plástica vazia e pediu que a enchesse, o que fiz de imediato com a água mais fresca que possuía. Sumiu-a e pediu outra. Enchi-lhe mais duas para o caminho e ela tomou a estrada dizendo-me ter sido a melhor “esmola” do dia.

Texto n.º 196


LINGERIE



Era hábito no aniversário de casamento oferecer um conjunto de lingerie acima do normal à minha esposa. Depois de estudar várias combinações de conjuntos de soutien e calcinha, com e sem lacinhos decorativos, optei por uma combinação bordada num cetim preto. A dona da loja passou para a empregada embrulhar com o requinte do lacinho de um presente de aniversário e eu paguei. Regressado a casa, entreguei a maravilhosa caixa à minha esposa com o beijo de parabéns habitual. Decorrida meia hora, ela apareceu a perguntar aonde seria o jantar. Pois… era um lindíssimo vestido de cerimónia!
 
Texto n.º197

CORRIDA ENTRE BARATAS



Caí naquela cama de hospital sem querer nem opção. Ligaram-me as veias a uma máquina e por ali tive de ficar contemplando o branco do tecto um tanto gasto. Para além dos gritos dos mais desgraçados que eu, o único divertimento possível eram as corridas entre as baratas. Então, colocava o rosto de lado na almofada e fazia apostas comigo mesmo, dependendo das condições físicas que nem os médicos sabiam. Das baratas. Quase sempre perdi porque apostava na mais corpulenta que era facilmente ultrapassada no dobrar da esquina da mesinha de cabeceira pela mais frágil. 

Texto n.º 198


MODELO ÚNICO


Júlio sem-abrigo querido de todos. Outrora quase doutor que tudo perdera, até o juízo, por causa dum amor proibido pela família. Mas ele continuou a vida com um desprezo total pelos sapatos. Se Deus e os discípulos andavam descalços também lhe assistia esse direito. Luís era o engraxador que aos domingos, sempre na esquina do café, dava graxa nos sapatos dos senhores que lhe podiam pagar. Júlio, ex-colega da primária tinha de ficar no fim da fila para engraxar os pés. E mudava de cor todos os domingos. Ora castanho, ora preto e Luís espalhava-lhe a graxa na pele com toda a arte.

Texto n.º 199

MORCELA DE SANGUE


Cabia-nos, a mim e ao meu irmão, três tardes por semana para a distribuição e recolha da obra consertada pelo nosso pai. Era um circuito de alguns quilómetros com subida e descida de escadas à mistura. Miúdos que éramos tínhamos sempre gorjeta: bolachas, fruta ou moeditas de tostão. Mais velho que eu, o meu irmão é que geria as finanças e quando as moedas já chegavam para uma morcela de sangue, interrompíamos a volta e comprávamos uma na mercearia do Malheiro, que nos fazia sempre um desconto generoso. E só retomávamos o trabalho depois da barriga farta.

Texto n.º 200


Onde a Canícula em Fogo Canta

Estar aqui onde estou, onde a canícula em fogo canta, deixar o pensamento adormecer aos sons do canto da terra...

À noite, com as gargantas bem regadas, desfolham-se as gargalhadas, as imagens das peugadas que ressurgem lá da distância, dos amigos recuperados às heras, que as eras criaram de ausência...

 

Texto n.º 201
 

Xailes Corvinos

Perdura-me na lembrança a velha lareira, os xailes corvinos contrastando com a neve das tranças infinitas, presas com mestria em grandes carrapitos.

Enternecem-me a memória as mãos calosas, a tua cabeça alva debruçada sobre os chinelos que cozias, e a seguir bordavas, e com orgulho miravas...

Suaviza-se-me o olhar, ao olhar para trás e recordar-vos, mulheres da minha vida.

Texto n.º 202

Sombra na noite

O velho relógio vomita as onze horas da noite e sei que o inferno vai começar, como é costume. A minha casa, minguada no físico mas rica em valores humanos, apenas oferece um leito que ocupa uns míseros metros quadrados, no meu quarto. Nele nos deitávamos, as duas irmãs na cabeceira e eu aos seus pés, perto da porta. Fecho os olhos à noite e lá vem o som vacilante da porta que se abre e a rouca respiração da sombra que rasteja até ao meu ouvido. Petrificada pelo medo, acabo por ganhar coragem e bato com os pés na irmã mais perto do candeeiro que o acende e me devolve à calma.

Texto n.º 203


Aprendiza de lavadeira

Tinha dez anos e já sabia de cor a rota da roupa branca, branca. Dava ao rol “dois corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol… ah, e uma bata pois a filha da freguesa era professora!” Metia cada peça na sabonária, resultante da fusão dos cubos de sabão do bolhão e a água a ferver. Pela manhã, cada peça imergia na água do meu rio e espraiava-se no verde tenro da relva. Depois de borrifada para não “cristar”, era novamente deitada à água para se limpar do suor. No arame secava, na tábua era passada e no comboio era levada à freguesa do Pinto Bessa.

Texto n.º 204

O velho do gelado

Esta memória carrega a maciez da idade e a vacilação áspera dos anos. Sentado na esplanada, ao meu lado, um casal de idosos tentava dar sumiço a um gelado. O velho, de mãos trémulas, repetia: “Vou-me borrar todo… já te disse mulher, vou borrar-me todo!” E a mão da companheira, também ela trémula, pousou-se na perna dele. “Não te preocupes meu velho, trouxe muitos guardanapos!” olhei-os de soslaio e pensei se também eu terei a sorte, daqui a muitos anos, ter uma mão companheira a amparar-me para não me borrar toda, sempre que comer um gelado.

Texto n.º 205

A RIFA

Vivia numa loja, com a luz de um postigo com vinte centímetros. Alzira levava-lhe as migalhas da sobrevivência e uns baldes de água para ele sentir o cheiro da vida. O marido, lembrou-se de arranjar forma de melhorar a vida do desgraçado e deitou mãos à obra. Um sorteio de rifas. O prémio seria um porco. Com a bicharada recolhida tirou aos puxões o melhor da pocilga do patrão do Abílio. Anunciou na taberna o sorteio e o prémio e guardou-o bem escondido. Vendeu todas as rifas, menos uma, que seria a vencedora. E o Abílio ganhou o porco que lhe sobrou para um ano de boas refeições. 

Texto n.º 206

NUMA VÉSPERA DE NATAL

A curiosidade é mais forte. Busca-se por toda a parte e… YUPI!! Encontram, os tão prometidos presentes de Natal. Brincam descontraídos, quando os pais entram de rompante e dão com aquela cena inesperada. Mas que fazer? Uma repreensão, um puxão de orelhas? As crianças. Inicialmente radiantes, ficam aterradas, mas o amor paternal foi mais forte e nada se passou. No dia de Natal, brilhavam novos embrulhos debaixo de uma árvore colorida e reluzente. A descoberta da inexistência do “Pai Natal” na vida de três crianças traquinas, numa idade em que os sonhos comandam a vida.

Texto n.º 207

Hoje…
Hoje amanheci comparando o dia a uma página por preencher, sondei-me devagarinho e de frente para o espelho que todos os dias me engana, suspirei e perdoei-lhe essa iniquidade, encaminhei-me naquilo que penso, pelos trajectos a toda a hora inventados, veio a tarde e a promessa arrepiou caminho pelas algibeiras de um produto homem incompleto. Sempre esperamos de nós algo indecifrável, para além das caminhadas gloriosas que se aventuram num simples viver.
 Contei os bancos do jardim e revi cabelos brancos de homens também eles inacabados, identifiquei-me neles, assim sou eu…

Texto n.º 208


Aquilo que vi…
O calor fazia emergir nas águas salgadas do Atlântico a sul carradas de multidões ávidas pelas ondas, nem os recados estampados na mente demoviam os veraneantes de uma pintura bronze artificial, enquanto as mentes dormem expostas aos ultravioletas, os anos tratariam de confirmar nas rugas da pele, pele essa há “procura” de cancros malignos. O brilho curvo e torneado das formas físicas com que de dia se escultura o corpo, alimentava o semblante perfeito, era Verão à espera de um futuro a contas com a oncologia hospitalar, a frenética “dádiva morta” da quimioterapia, radioterapia.

Texto n.º 209


O CUBO E A ESFERA

O cubo não era esfera nem obviamente a esfera um cubo. Todos de acordo, menos Galhardo, formando teimoso que punha o mesmo problema sempre em cima da mesa e transportava o problema para a relação familiar entre o quadrado e o círculo que se recusava aceitar como bases teóricas da explicação do formador. Um dia, naqueles em que quem explica já está por tudo e tudo pronto a imaginar e dizer, perante tanta teimosia do Galhardo afirmou: - Galhardo, é assim – o cubo é uma esfera quadrada e a esfera é um quadrado redondo! Ponto final.

Texto n.º 210


MALDITOS BARROTES

Com os meus oito anos acompanhava o meu pai, salgueirista de gema, ao campo Vidal Pinheiro, à altura vedado por barrotes de madeira. O meu hobby favorito era ver a GNR com os capacetes de gala, custasse o que custasse. Num dos Domingos a curiosidade venceu o medo e tanto me esforcei que consegui meter a cabeça entre dois barrotes para os admirar. Depois não a consegui retirar, nem responder ao meu que pai que entusiasmado com o jogo me perdeu de vista. Quando me descobriram encravado entre os barrotes mais de vinte homens ajudaram-no a soltar a cabeça do filho. Que era eu.
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« Responder #477 em: Setembro 07, 2010, 05:28:20 »

Texto n.º211

GEL DE CAVALO

Antes do Estádio do Dragão era o Estádio das Antas. Frente a cada portão de entrada estava um GNR montado no seu cavalo para manter a ordem e o respeito. E todos aguardávamos em fila indiana a verificação para a mesma. Entrada. Pela mão do meu pai, sempre me senti seguro, menos naquele momento em que de algo estranho me colou a cabeça e me arrastou meio metro para a frente. Fora o cavalo do guarda da GNR, que talvez atraído pelo meu penteado, me presenteou com uma lambedela carregada dum gel que para além de me colar o cabelo me arrastou uns tantos centímetros. Empatias.

Texto n.º 212

                                      MEMÓRIAS DO TEMPO



Nas memórias do tempo que por mim passou, ficaram apontamentos que comandaram o meu futuro.

O faz de conta da meninice, foi escola que passou pela casinha das bonecas e da arca das trapalhadas, para o real da vida, na adolescência, no hoje e com projecções para o futuro.

Tive uma mãe que me alimentou, me ensinou a comer e me libertou para seguir e cumprir o meu destino.

Texto n.º 213

Meu Sargento

Era primavera de 1984, no meio de uma manhã florida, o Sargento cantando um bom-dia cumprimentou-me, sempre o fazia com a mão de três dedos… nas letras de uma AZERT redigiu uma nota qualquer. Um som maior feriu-me os tímpanos. Entrei! Sobre a secretária pendia a cabeça do Sargento, a sua mão defeituosa segurava uma Walter acabadinha de utilizar, de onde a bala de nove milímetros saíra. O papel que pendia da velhinha AZERT dizia: “Estou disposto a perdoar-te Maria, sei que vou conseguir ter-te de novo comigo, nem que para isso tenha de recuperar-te daquele Deus… que te levou de mim…

Texto n.º 214

Oitenta-e-Oito
 
Do vôo entenderá quem não é alado? Magister dexit. Alimentava-se dos frutos desprezados pelas árvores. O número circunscrito nas asas brilhava mais quando pressentia a implacável caçada. O abdômen preso a um alfinete, as cores e a silhueta sem a vivaz perfeição de antes. Pensada inesgotável e sem memória a Diaetheria Clymena seria capaz de esquecer os que lhe haviam provocado a quase extinção em troca de haverem eternizado a forma com que os fez sentir – porque adorava a luz e jamais tinha certeza se testemunharia a próxima alvorada.

Texto n.º 215

Nas margens da alvorada, a tua boca soprou sábios convites, as tuas mãos teceram doces fios de linho branco sobre a minha pele cansada e os meus lábios sussurraram a suave ternura de um sim há muito adivinhado. No nevoeiro que cobria o dia, vi-te mais claro; o sorriso de puros  sons abrindo-se como açucena em Primavera resplandecente; o abraço como um raio de sol aquecendo-me o peito…
Reconheci-te a alma, adornei o meu céu com as gotas dos teus olhos e chorámos ambos a tristeza da distância.

Texto n.º 216

A luz incidia sobre os ramos mais altos das acácias em flor, rubro como chama no seu apogeu mortífero. Ficou-me na memória o suave perfume daquele fim de luz. A noite cada vez mais perto, as aves cada vez mais caladas, o mundo cada vez mais de paz…
Na sombra das árvores, a erva macia, tapete esmeralda oferecido irmãmente a quem o desejasse, chamava num apelo mudo ao descanso. Tomei-o como lençol cobrindo a solidão. Recostei-me nos seus braços invisíveis e descansei no seu colo fresco. Apaziguei a alma e adormeci em paz.

Texto n.º 217

Vinha da escola e sentava-me naquele banquinho de madeira. Os teus olhos ( ainda hoje o seu brilho me acompanha) esperavam os meus. Com um palito, dava-te na boca bocados de maçã, salpicada de açúcar. Comias vagarosamente. Perguntavas pelo meu dia.Tu naquela cama. Tão magro, tão indefeso. Falavas de coisas que não compreendia. Tudo senti. Sabes? Quando o mundo me magoa, às vezes, sou aquela criança. Aconchego-me nos teus braços e peço-te: conta-me mais uma história Bu.

Texto n.º 218

 O CANÁRIO

O canário "Tenor"
Deu um desgosto profundo,
Deixou as manas em dor
E foi para o outro mundo.
Um funeral lhe foi feito,
Com direito a rasa "campa"
E uma "urna" a preceito,
Como se fosse uma cama.
Fizeram o seu "luto"
Que a pouca idade lhes deu,
Porque veio um substituto
Que o Pai lhes ofereceu.

Texto n.º 219

Brancos cabelos, tez enrugada e uns olhos profundamente azuis . Assim a recordo. Na sua voz doce, nunca o timbre se alterava, nunca a zanga a fazia severa.
Sentada no seu colo, abandonava a minha cabeça de criança às suas mãos plenas de ternura. Os meus cabelos claros, até meio das costas, deslizavam no seu pente serenos e sedosos. Nenhum embaraço nos seus fios provocava dor. Os seus sábios dedos não o permitiam. Duas tranças nasciam das suas mãos, prontas a voarem comigo pelas planícies de trigo verde, livres e soltas como eu!

Texto n.º 220

Olho em redor e não acredito no que vejo, estou deitada numa cama com um colchão de palha, coberta com uma velha e esburacada manta de lã.
Do meu lado tenho uma pequena mesa com um pires, e uma vela acesa.
O quarto um pequeno cubículo sem janelas as paredes estão negras com tufos de bolor criados pela humidade, o ar é abafado e cheira a mofo.
Existe um pequeno espelho manchado pelo tempo, vejo-me reflectida nele, estou suja, desgrenhada, sou jovem, quinze anos e estou descalça!
Os meus pés têm calos, estão negros e cheios de frieiras como o meu vestido velho e  remendado. SOU POBRE!
 
 Texto n.º 221
 
Deixo-me encostar observando maravilhada a lua e a via láctea que me veio visitar acompanhada da leve brisa que me beijava o rosto suavemente, agitando as roseiras que ao serem embaladas soltavam os seus aromas doces deixando-me a viajar acordada.
Fecho os olhos por breves segundos para voltar a uma nova realidade.
 
 Texto n.º 222
 
Sou matéria, sou de carne e osso, estou de volta ao meu estado actual, recostada mas aliviada, compreendo agora quem fui como reencarnei, amei, fui amada, maltratada e até mesmo como fui feliz junto da terra mãe.
Sei já o que passei, o que provavelmente irei passar e encontrar, mas a felicidade lá estará, cabe-me agora a mim tomar o rumo da minha vida com o que aprendi na reencarnação de todas as outras.
Se posso mudar o meu destino? Depois das minhas reencarnações, é claro que posso!
 
 Texto n.º 223

Sou um mero comentador nos meios de comunicação, jornalista e investigador que tem os seus defeitos, no entanto sei bem o que faço e o que digo, uns respeitam-me outros simplesmente desprezam-me.
Embrenhei-me no espírito da pesquisa e elaborei uma exposição de vários temas, alonguei-me na escrita.
Já nessa altura tinha um feitio tramado, mas era com esse mesmo feitio que consegui o meu primeiro prémio de investigação.
Fui notícia nos meios de comunicação e assim foi talhado o meu futuro profissional.
 
 Texto n.º 224
 
Durante toda a minha vida fui sempre um rebelde, teimoso, com o meu sentido de justiça apurado e um sexto sentido (segundo dizem comum só às mulheres), (mas como sempre fui do contra…) extremamente à flor da pele.
Lutei como um valente, um herói pela liberdade, contra as humilhações, contra os crimes e embora quisessem calar a minha voz, nunca o conseguiram!
Sempre disse que gostaria de morrer pacificamente de uma forma muito própria e graças ao Criador assim aconteceu.
 
 Texto n.º 225
 
Sempre fui uma pessoa simples, correcta e justa mas há coisas na vida de cada um que nem um anjo consegue perdoar.
Quantas vezes me chamaram de parvo, de ser inocente, idiota, um coração de manteiga e tantas outras coisas mais.
No entanto poderão dizer que era louco, bem que tentaram fazer-me passar por tal mas o feitiço virou-se contra o feiticeiro.
Casei há cinco anos atrás contra a vontade de toda a família cujo status quo sempre fora um dos mais elevados do país e quando teimei em casar com uma simples empregada de mesa de um restaurante de beira de estrada, caiu o Carmo e a Trindade!
 
Texto n.º 226
 
No dia da leitura do meu testamento todos os supostos herdeiros que levavam a alegria estampada nas suas cabeças mesquinhas começaram a sentir calafrios ao verem que tanto o advogado, como o notário não eram as mesmas pessoas que conheceram anteriormente.
Não preciso dizer o que se seguiu, nada puderam fazer, não receberam nem um único par de meias usado, nem umas cuecas, nada!
Se antes eram uns pelintras mais pelintras ficaram vendo os seus bens serem confiscados e penhorados por falta de pagamento.
 
 Texto n.º 227
 
Assim que cheguei verifiquei um forte dispositivo policial, ruas cortadas ao trânsito, PSP, GNR muitos engravatados com ar de poucos amigos e com quem olhavam de lado simbolizando um grande desprezo pelos demais.
Enfim, respirei fundo e preparei-me para enfrentar as feras, ai deles que não me deixassem passar...
Empinei o nariz, e segui em frente em passos firmes caminhando pelo meio deles todos dando um encontrão a um deles que se atravessou na minha frente e que afinal de contas foi até ele quem me pediu desculpa com olhinhos de cachorrinho com medo da dona.

Texto n.º 228

3ª IDADE
   
- Tu, MULHER de olhar ausente! Tu, que tanto te deste em amor, vagueias no caminho perdida, carente de afectos, esquecida no mundo!
- Como eu desejaria beijar-te as mãos, afagar esses teus cabelos brancos, dar-te um abraço sem palavras...
  É para esta mulher de olhar vidrado e adormecido pelos tumultuosos dias da sua existência que eu quero prestar a minha homenagem com   um grande sentimento de ternura, alertando para uma sociedade onde os idosos não vivem dignamente!
               - Vegetam simplesmente!!!

Texto n.º 229

 A NOTÍCIA
 
 Os passos ecoam no silêncio da noite! A sua mente recua algumas décadas…Como tinha bem gravado na memória o seu primeiro beijo!
Como se lhe entumeciam as faces de um rubor escaldante ao recordar o dia em que se sentiu pela primeira vez mulher! Sim, mulher, esposa, mãe! Que distância sem fim! Que lonjura no tempo! Tempo gravado na sua memória ainda lúcida… O seu olhar mergulha no abismo! Temia ter de ouvir a cruel notícia! Mais noites sem fim marcadas pelo tic-tac metálico e gélido de um velho relógio de parede indiferente ao cruel destinam; ele marcava a hora e a hora chegou!!!

Texto n.º 230

SOLUÇÃO DE ÚLTIMA HORA
 
Ainda não existia a IP4. O Citroen 2 cavalos subia a passo de caracol a antiga estrada da serra do Marão que conduzia a Vila Real.
Lá dentro ia um jovem casal com um ar bastante ansioso; enquanto ele ia acelerando com todo o cuidado tentando contornar as perigosas curvas da estrada,
a esposa segurava uma corda que saía pela janela e que estava ligada ao motor, em virtude de se ter partido o cabo da embraiagem!...

Texto n.º 231

O Alienista
 
A perspicácia o faz ainda re-ver algumas provas. É agradável o deslindar dos pensamentos à sua frente. Fragilmente forte não reagiu quando bateu a chave com força e fez cair a porta. Talvez se assemelhasse àquela fechadura muda que lhe abriu o chão para vê-lo enrijecer o esquecimento de todas as coisas que por insegurança o fizeram útil. Um exclusivista ligou para ser ouvido. Quando quis fazer-se ouvir “só um minuto” não teve garras – seus ouvidos erram os erros da casa – os labirintos de Borges.

Texto n.º 232

A Busca da Felicidade

O tempo corre sem pressas.
Apressados andamos nós,
Desejando o que não procuramos,
Procurando o que não encontramos,
Porque tempo não temos.

Busco a Felicidade,
Mas à procura não vou.
Espero pelo acaso
Que inesperadamente virá
E Deus dirá
Quando for a hora chegada!

Escravos da vida,
Dependentes de princípios,
Vícios temos
E pecados cometemos
Sem criminosos sermos.
O dedo nos apontam
Para nos lembrarmos
Aquilo que somos
Sem vivermos o que desejamos.

Coincidências estranhas existem!
Escrevo do que a falar vamos
Ou falamos do que já escrevi
Sem lembrar que já o fizera.

Texto n.º 233


Sensações

No silêncio dos teus olhos,
Ouço os teus desejos.
No murmúrio dos teus lábios,
Vejo os teus sentimentos.

Sonhos e Desejos cúmplices se tornaram!

Corações abertos,
Pensamentos partilhados,
Sonhos contidos,
Desejos esperados e sentidos,
Manifestamente concretizados…

Texto n.º 234

Reflexões

Conversa breve e amena,
Tranquilidade e paz me traz.
Espírito sereno assaz
Para o dia passar

Hipóteses lancei,
Algumas acertei.
Que mais irei acertar em cheio?

Musa inspiradora serias
Se fosses mulher!
Assim, meu Anjo serás
Para meu dom iluminares.

O sonho de escrever
Começa a renascer.
Será este o meu ser
Ou o meu viver?

Não me reconheço!
Jamais despi a alma,
Tão pouco a nudez,
Revelando recônditos segredos
A sete chaves guardados.
Tranquilo e carinhoso és,
Sincero pareces ser,
Abertamente falas
Revelando o teu amor!

Texto n.º 235

Natália

De que matéria fora concebido o seu cérebro? Inertes eram as ligações dos neurónios com a placenta inerte da sua concepção! Molde espinhento e espicaçado de uma feitoria tão imperfeita no seu interior, rematada num corpo leviano e estranho, tecnicamente modelado à mestria desmedida! Nem a espiral do sexo lhe trouxera cheiros a alfazema de plantas inebriantemente belas. Nem o ácido quente infiltrado lhe mostrara o céu azul, apenas os escarros lhe alimentavam de plátano podre o mar negro da alma. Assim nessa visão defeituosa de si, Natália sentia-se a mais reles das putas do universo.

Texto n.º 236

Vieste simpático e pleno de grande amizade, em de promessas encheste meu tempo e minha mente, manipulado ou não, foi mera falsidade indiferente a quem é sensível e muito se sente.
Lamento que cedas não oiças e não vejas onde viver, respiras com uma víbora em seu covil dominando-te, prendendo-te quando não desejas, numa atitude egoísta, magia, trabalho negro e vil.
Estás cego, queres tudo e tudo cobiças, baralhas-te deitas fúria nos inocentes, nada alcanças, estás ferido, perdido em maquiavélicas areias movediças para acabares sozinho em lutas que não vences e só te cansas.

Texto n.º 237

Falta di mente

Em Santo Antão, vindos de São Vicente, fomos de Pegeout,  roçando a escarpa da montnha, evitando mergulho fatal no mar. Mas, em Santo Antão só há bons condutores! Os maus já morreram !
Demos boleia a uma preta e tiramos-lhe uma foto! Na volta deu-nos uma papaia. De repente, uma mulher correu atrás da minha, que calçava  socas brancas , ortopédicas, gritando:"Sapato é meu"
Reagi, Agarrei a mulher, enquanto uns pretos diziam:
"Tem.falta di mente"
Já em Portugal, mandámos a foto à preta. Na volta do correio, pediu o envio de cinco contos!
"Tem falta di mente", disse o meu colega!

Texto n.º 238

Rato curado

Meu amor aos bichos já vem de longe!
Na vinda duma sessão,"Quo Vadis?,  abri a porta. com cuidado. Tudo em paz!
Meu pai estava testando o eco do seu ressonar.
Já no quarto de banho, vi um pequeno rato!
Quo Vadis?, pensei .
Apanheio-o Atei-lhe um fio ao grosso rabo e pé-ante-pé, entrei no quarto da minha irnã e amarrei a extremidade do fio ao candeeiro. Ficou como presunto em cura. De manhã, minha irmã,  soltou um grito que mais parecia a erupção do Vesúvio.
Como boa acção cortei o fio e lancei o rato pela janela do primeiro andar!
Acho que foi o 1º na corrida dos cem metros!

Texto n.º 239

Ver-te Vertente
 
A página não é suficiente para que se firmem os olhares. Todos se fecham diante do sofrimento. Não entendo porque não possuo a mesma cegueira. Não sei onde sou eu nas coisas que não vêem. Para que presságio ou desentendimento irá essa compreensão que não sinto? Exerço uma nota de brilho. Nenhum papel. Cada partícula de mim se alimenta dessa possibilidade de sonhos, talvez soprados em realidades atemporais onde prevaleça algum retalho esmaecido e sem orgulho, quando ousarei aludir ao fragor composto por quem já ousou sem a ausência do medo.

Texto n.º 240

REPARTIÇÃO PUBLICA
- Boa tarde! Não obtive resposta! O Sr. M… no gesticular de braços e mãos regateava a sua razão entre palavras cuspidas de palavrões para um telefone indefeso e acobardado.
Não posso precisar o tempo e o número de adições vocabulares daquelas que não se encontram em dicionário algum, até que a outra pessoa do lado de lá, cansado de o ouvir, deixou cair em desmaio o telefone.
-Este filho da p…. Desliga-me o telefone na cara...
 Arfou mais um pouco e perguntou-me com cara de bode depois de perder o duelo pela fêmea. – O que quer?
-Permaneci silencioso e de boca aberta de espanto.
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« Responder #478 em: Setembro 07, 2010, 05:29:19 »


Texto n.º 241

Burro fez um herói!
Vinha do Porto, a pé!Noite cerrada, numa vereda, ouviu ruidosos cascos no lajedo!-"Ai  meu Deus. Vem aí o lobisomem! Quis esconder-se, mas já um focinho de burro, lhe encostava a cara. Zurrou e foi-se!Era o burro do carvoeiro! Ia beber água, ali perto!Foi assim que, ainda moço, perdera o medo! DiziaDepois, foi herói artilheiro na guerra de catorze!Já velhote, meteu-se numa rixa.-"Pum, pum", atirava o inimigo, sem acertar!!-"Elas,(balas) hão de acabar". Dizia o artilheiro, de faca na mão, cravada seis vezes no atirador  falhado!.Há burros que fazem heróis!

Texto n.º 242

Ao entardecer, ainda o sol se não tinha escondido, já a lua subia por cima do monte frio, decidida e segura da sua arrasadora  beleza, encantadoramente brilhante e redonda, poderosamente capaz de atrair  sobre si os olhos de quem gosta e sabe apreciar a magia que a  mãe natureza oferece em cada novo dia que nasce.  Era assim naquele tempo já tão distante e continua a ser hoje, no momento em que vos escrevo acerca da fortuna que ganhei há duas semanas atrás, no mesmo sítio de outrora. O tempo passa, mas os lugares, as memórias e as sensações... ficam.
Basta olhar, admirar e sentir!

Texto n.º 243

Ao lembrar-me daquele baú de lata pintado de verde,onde se guardavam as relíquias sem tempo,empilhadas sob cada uma das histórias que as acompanhavam e que só muito raramente se abria o cadeado que as protegia das mãos das crianças que por ali saltitavam em correrias infindáveis e que já tinham dado cabo de algumas páginas dos Almanaque Bertrand que o pai trouxera de Lisboa,quando dali regressara.
Lá estava ele,no lugar de sempre, coberto de pó num abandono que dava pena ao zelo de outros tempos.
Quantas histórias ali encerradas e já ninguém vivo que as contasse de novo.

Texto n.º 244

Em suspenso pelo fino fio da lembrança,ostentava no pensamento um pequeno pedaço de vida amarelecido pelo tempo que lhe desenhara traços de encanto,despertando sentimentos até ali desconhecidos.Coisas que os olhos não vêem,mas que a alma sente quando tocada pela sensação de vivências adormecidas ao longo de uma vida que se diluiu no éter em menos de nada, ressequindo-nos aos poucos e da qual sobraram pequenos cristais.O tesouro da conquista pela sã harmonia do"eu"em constantes desassossegos motivados pela luta diária que só no fim nos apercebemos,girar em torno de coisa nenhuma.

Texto n.º 245

CONCURSO DO VESTIDO DE CHITA


Naquela noite eu parecia uma princesa! A minha tia tinha costurado o mais lindo vestido de chita que algum dia pudera imaginar! Era um vestido com flores de todas as cores sobre um fundo preto, com dois folhos sobrepostos e rematado por uma fita de espiguilha branca.
Dentro de momentos eu iria participar no concurso. Quase toda a família e algumas amigas iriam estar presentes para me apoiar...
Tinha no olhar a esperança e a ingenuidade dos meus 17 anos!
Regressei a casa com o 2º prémio, um lindo serviço de café em madrepérola banhado a ouro, e um mar de sonhos por conquistar!...
 

Texto n.º 246

O BIFE DAS SEIS DA MANHÃ

A missa das sete da manhã, era a missa das mais beatas da vila. José há muitos anos ajudante do pároco, entrava na sacristia meia hora antes para preparar os paramentos, as hóstias e o vinho que o pároco iria utilizar na celebração. Naquela manhã de Domingo, tudo decorria normalmente até surgir o arroto indisfarçado do padre, que sem defesa perante o jejum cumprido por José, desabafou: Já cá canta o bifinho das seis! E começou a vestir-se para a celebração. A partir do dia seguinte cada garrafa de vinho, benzido e proibido a todos, começou a durar um terço do tempo normal.

Texto n.º 247

A DANÇA DA ÁRVORE
 
Ei-la!
Fustigada, agitada,
Esbracejando como louca,
Quase a ser arrancada
Do solo que a sustém...
Ei-la!
Ora erecta,
Ora numa agitação
Constante,
Num vai e vem,
Ali bem enraizada
Numa dança lenta
Ou num louco frenesi,
Sacudindo as suas vestes
Que se espalham
Atabalhoadamente
Pelo chão
Sem nunca sair dali...
Não se submete,
Não se verga
Aos mais fortes temporais...
Na sua dança rápida
Ou lenta,
Vai-se fortificando
E desafiando
Todos os vendavais!

Texto n.º 248

Um idoso paraplégico, depois de muitas voltas na sua cadeira de rodas de motor silencioso,pára a meio do longo corredor definido pelos bancos corridos, ergue as mãos para o tecto da Igreja, cruza-as no peito, curva a cabeça perante a enorme Cruz, e ora. Coloco um franco( o euro ainda esperaria ) na caixa das velas e acendeu-se uma. Olho-o: o rosto é um estuário de lágrimas.
Cá fora, havia bichas para as pizas " a emporter " . O sol do meio dia cantava por entre o casario e o empedrado gasto por séculos de caminhantes.

Texto n.º 249


Enciclopédia
Um bocado de digestão,  bem analisado,  é  enciclopédia do conhecimento humano! Nele se detecta vestígios de esforço mental, de trabalho corporal, horas de leitura,
forme, fartura, tristeza ou de alegria! Restos de poesia. Horas de luta e até pevides de fruta!
Um bocado de digestão tudo nos diz; se é dum filho da alta ou dum  filho da fruta!
Ambos  cheiram a lagostas ou  a pataniscas, mas neles a mesma verdade se encerra; todo o homem faz merda!
A cada arreganho estais a contribuir para o conhecimento humano. Cada  bocado de digestão é uma enciclopédia! Toca a estudar numa merdateca!

Texto n.º250


O menor de todos
 
Eu visto outra pele sem ser a minha alma uma pele que visto. Não me escondo senão por uma timidez ou um desejo de ser o nome obtuso estreitando livremente a ameaça de mostrar-me. Como se nunca sucumbisse a luz errante da sombra. A confiança erra ao não ter compaixão. Vale a pena sonhar, me antever quase totalmente arrependida nessa terra estranha que se tornou a minha figura. Minhas fotografias são essas palavras, e algumas palavras são sapos. Não há sentidos feios, apenas almas. Não há palavras feias, apenas sentidos. Papel de bala.

Texto n.º 251

No restolho do tempo, acima do próprio tempo, revejo a vida que se acabou, a verdade na mentira de quantos me continuam a carpir o corpo na partida. A alma, essa, serenamente recostada no algodão da paz, observa, sem vontade já para intervir na índole de quem fica.
Na sabedoria de um novo estado, incomoda já pouco descobrir quem me amou, quem me odiou… quem é o patife ou o santo.
É hora de descanso maior. Urge angariar forças para tudo esquecer em próxima vida e recomeçar nos mesmos enganos e ilusões…  A felicidade é um exercício extenuante.

Texto n.º 252

O FUNERAL FESTEJADO

Mesmo os mais novos como eu, íamos sabendo como fora feita tamanha fortuna, através da mudança dos marcos durante a noite e outras habilidades congéneres. Naquela tarde, frente à enorme mansão, estava um pequeno grupo de homens de gravata preta conversando animadamente, enquanto o carro da funerária entrava rampa dentro para buscar o corpo. Família sobejamente conhecida, apenas restava, para quem passava, saber qual teria morrido, se pai ou filho. E quando eram informados de que fora o pai, desabafavam boca fora em alto e bom som: - Até que enfim… já não era sem tempo!

Texto n.º 253

AS MAÇÃS DA MINHA TIA

Deveria contar os meus sete anos de idade e estava habituado a que me oferecessem o lanche a meio da tarde, aonde quer que estivesse. Familiares ou amigos. Adorava uma sandes de queijo e um Sumol, surgido no mercado naquele tempo. De quando em vez visitava uma tia minha, que segundo o que ouvia dos meus pais era das mais afortunadas na vida. A tarde era passada a ver histórias, repetidas vezes sem conta, sem direito a lanche. Apenas quando chegava a hora de me despedir, a minha tia, perguntava-me sempre: - Queres uma maçã, Toninho? E respondia de imediato: - Eu dava-te mas estão tão verdes…


Texto n.º 254



Nascido e criado entre MONTES PINTADOS, habituado a respeitar o suor dos homens que, com ferro e pá, saibravam os socalcos e, com as enxadas, as cavavam e redravam, nunca se enfastiou com comodidades, nem se iludiu com riquezas que se desfazem na brevidade de um fósforo.Os seus contos e lendas vinham do calor da lareira e da grandeza de um Avô que o aquecia ao colo e o cobria de beijos com um bigode que lhe avermelhava a pele imberbe.Era filho de uns olhos esverdeados, enfeitados por um sorriso calmo, às vezes triste, e de uma saudade vitalícia.

Texto n.º 255



Gilbert Bécaud era a voz que lhe mitigava a solidão e enfeitava os sonhos. Dizia-lhe que, apesar de tudo, « La Solitude ça n?Existe pas », que « Le Jour oú la Pluie Viendra » e que uma  « Nathalie » viria, por entre os bardos dos vinhedos, acariciar-lhe a ingenuidade e a inocente poesia, mesmo que, por vezes, ele cantasse « Quand il Est Mort le Poéte » ou perguntasse surpreso « Et Maintenant? ».
Bécaud lembrava-lhe sempre que a pobreza, não sendo vergonha, jamais existiria se o mundo fosse governado  por homens justos e de coração.

Texto n.º 256


 IMAGEM
 
O passos eram abafados pelo silêncio da noite, enquanto o sono se diluía em promessas adiadas…
Toda a emoção era recalcada como uma defesa, para não ter de sentir essa ansiedade que oprime o peito…
As palavras perdiam-se no olhar cansado de quem já pouco espera…
Já se tinham esgotado quase todos os recursos possíveis, no entanto o sonho ainda permanecia, inabalável como uma rocha!
Talvez ainda houvesse algumas barreiras por ultrapassar!
Dizem com toda a razão que "a esperança é a última a morrer," e nessa manhã o dia amanheceu com um novo brilho e com o aroma de alfazema! …

Texto n.º 257

Órion
 
Não existem sozinhos; nem a luz nem a sombra. A pretensa ilusão de que as coisas ao redor deixam de ou continuam a existir, apesar de tudo, sobre tudo. Crer no espelho quanto é possível a crença em si mesmo – não é outra a imagem refletida – o cognitivo compele à saciedade, (ou pelo menos deveria), para melhorá-la, sem objetar modificá-la. Quanto há que acobertar ao testemunhar autor e obra não sendo um. Sós, ungidos para girar, deambulam entre um e outro floco visionário, presos ao mesmo cordão, desprendidos e naturais, mergulhando onde nenhum tesouro parece estar aguardando-os.

Texto n.º 258


Toma magnésio

"É dos carecas que elas gostam mais", dizem!
Ele, de 70 anos, engatou-a no Café,  para prestação de serviços sexuais, sem recibos verdes, mas a "el contado".
Há muita posição para amar! Ele esolheu a atravessada, na cama, pernas flexionadas e bem abertas, ao alto! Era o oásis do prazer; fonte onde iria beber prazer!  Depois, qual touro de Montalegre, "marrou-lhe", cada vez mais forte!
De repente, escaparam-se-lhe fortes ais!
-"Já te estás a vir?".
-"Não. Tenho uma breca!" E foi-se abaixo!
Ela saíu do sério e aconselhou:
-"Toma magnésio". Depois, fechou seu oásis e o paraíso!

Texto n.º 259

 IMAGEM
 
O passos eram abafados pelo silêncio da noite, enquanto o sono se diluía em promessas adiadas…
Toda a emoção era recalcada como uma defesa, para não ter de sentir essa ansiedade que oprime o peito…
As palavras perdiam-se no olhar cansado de quem já pouco espera…
Já se tinham esgotado quase todos os recursos possíveis, no entanto o sonho ainda permanecia, inabalável como uma rocha!
Talvez ainda houvesse algumas barreiras por ultrapassar!
Dizem com toda a razão que "a esperança é a última a morrer," e nessa manhã o dia amanheceu com um novo brilho e com o aroma de alfazema! …

Texto n.º 260


SOLIDARIEDADE
 
                I
Menina de olhos tristes
Ainda hoje não sorristes...
Trazes nesse teu olhar profundo
O peso do mundo...
Vem brincar, correr, saltar,
Também és gente
Vem sonhar...
Menina de olhos tristes
Não chores, sorri!
Quero afagar teus cabelos
Ficar junto de ti!
               II
Não me proíbam de sonhar
Pela igualdade
Esculpida a ferro e fogo
No meu direito
De lutar!
Não abafem a liberdade
De poder manifestar
Minha posição
Pela justiça e pela razão!
Não esbofeteiem as palavras
Que saem da minha boca
Para gritar NÃO,
Sempre que discriminam
Meu IRMÃO!                                   

Texto n.º 261

Mata
 
Num oceano de folhares o néctar vive com o trivial cerne da comoção. Quem nunca teve uma grande ferida para saciar? Toma a sua cicatriz aberta e desperta do que não é, em absoluto, um pesadelo, um caule impoluto. Uma foice cruza o último solstício tropeçando sem saber se ainda serve aos admiradores da resistência. "Melhor se não vivas" diria a teimosia peregrina ao luto das ramarias. Talvez um imbecil soubesse de matemática quanto sabe a sorte do semeador. “Não julgariam se me vivessem; sou uma eterna grade, herdeira sentenciada pela casca que me veste como quem despe”.

Texto n.º 262

Boa mão, bom coração!

Ia-se, a pé, às festas! Meter conversa com as miúdas era quase uma pega de cernelha!
Àquela festa iam quatro lindas gajas, despiladas artesanalmente!
Fracassados em meter conversa, até que um  disse que uma tinha sarro no pescoço e tocou-lhe no depósito de acumulação de gorduras!
Ela virou-se para trás e..zás! Valente bofetada no que  estava a jeito; eu!
Eu não disse nada, mas no Domingo seguinte aceitou-me namoro!
No casamento, quando  me perguntaram se eu seria fiel, disse que sim, mas pensei; se ela me bater leva!
Depois, houve muitos apalpanços, mas não aconteceu nada!

Texto n.º263

Noite alta, o suor alaga-me as roupas e empasta-me o cabelo. O horror estampado na agonia das entranhas…
Os dias arrastam-se mata fora, armas em posição, granadas que detonam… os tiros ecoando, danos futuros nos meus tímpanos jovens e na minha mente em formação. O meu lobo temporal atira-me para a frente de batalha, cheio de coragem. O raciocínio esculpe-me o medo. Entre um e outro, assisto à morte de companheiros de guerra, sem nada a fazer, além de os deixar para trás… sangue tingindo o capim, gritos de dor incinerando a esperança…
Stress pós traumático enforcando-me a vontade de viver.

Texto n.º 264

Olho-me no espelho, alta e fogosa, corpo torneado, seios pontiagudos.
Turva-se-me o olhar na recordação da adolescência, corpo que não condizia com a minha alma de mulher; tratamentos de testosterona que não resultavam, formas afeminadas que a roupa masculina tornava ainda mais gritantes; um órgão genital infantil, um órgão que jamais conhecera uma erecção, algo que parecia não me pertencer. Tempos terríveis esses. Felizmente, os meus pais apoiaram-me incondicionalmente. Quando os psicólogos entenderam que a solução seria mudar de sexo, nunca me abandonaram. Hoje ninguém diria que fui homem.

Texto n.º 265

O meu corpo numa carrela, a minha alma de enforcado vagueando pelo mundo. Não terei paz, não terei entrada no céu ou no inferno. No Inferno não me aceitam porque morri inocente. No céu não me querem porque na hora da morte não fui capaz de perdoar aos algozes que me levaram à forca.
Acusado de crimes que não cometi, nunca consegui provar que era inocente. Assim tenham sorte igual os que me condenaram!
Não esqueço a imagem do meu corpo a ser levado. Vaguearei eternamente pelo mundo pois nunca perdoarei quem me mandou matar injustamente.

Texto n.º 266

Aldeias envelhecidas, lembradas em Agosto!
 
Quarteirões de casas soltarias, onde o sol demora na chegada e a partida é anunciada pelos ecos do vento no fim da tarde de Agosto.
Sentados à porta da taberna os cachimbos deixam cair lágrimas vertidas pelas veias, ocultas aos sorrisos em que um aceno é o símbolo do termino Agosto. As rugas anseiam mais um dia …
Ainda o Inverno não chegou e os corpos já dormem o frio das despidas e a solidão bate à porta no silêncio dos rumores que a memória bebe com a esperança nos bolsos vazios, que a Primavera anuncie mais um Verão!

Texto n.º 267

As sombras do claustro adensam-se. Passeio-me em silêncio, de terço nas mãos, pelo empedrado do convento. O silêncio não amortalhou a dor de ter sido rejeitada pela minha amiga (sempre a apresentei como minha tia) quando lhe disse que estava apaixonada por ela. Eu não gosto de mulheres e tenho vergonha – dizia ela quando lhe propunha vivermos juntas.
Recordo o dia sublime em que ela me veio resgatar do convento. Abandonei a vida religiosa para me dedicar a essa deusa maior que me dá tudo quanto eu preciso.

Texto n.º 268

O início
 
Do alto da estrada via-se a praia a escassos metros uma ilha, a história conta que ali um jovem se matou por amor e que havia um pessegueiro na ilha.
A praia estava deserta nos primeiros raios de sol no mês de Janeiro. Os pés descalços pisam as línguas de areia humedecida pelo orvalho, os rostos contemplam a plenitude do mar com as mãos entrelaçadas a caminhar serenamente entre diálogos e projectos a vaguearem pelas mentes soltas nos aromas marinhos deste paraíso plantado num canto deste planeta de sonhos e realidades.
…O início de uma vida onde o amor é a dimensão do oceano que banha as bermas deste tentear!

Texto n.º 269

Era um dia de Julho, quente e ensolarado. Tinha eu 15 anos. Sozinho em casa, música bem ritmada e uns decibéis acima da norma, demorei a ouvir o som da campainha da porta. Por fim, percebi a insistência e fui abrir. Um colega da escola, alegre e sorridente, trazia uns sumos e coca cola e perguntava se podia entrar.
Conversa para cá, conversa para lá, instalou-se a intimidade. Fez-se tempo de me assumir.
Era noite quando os meus pais chegaram a casa. Estávamos ainda os dois.
- Já tínhamos percebido… Continuas sendo o nosso filho. Apenas a tua felicidade nos interessa.

Texto n.º 270

Soprava a vida do lado de lá da vida. Incólume, a traição matou a credulidade e instalou-se o caos no mundo do juízo.  Ninguém ousou constituir-se em hoste de livres, ninguém ousou recolher-se aos escombros dos sinceros e trepar as paredes do foro íntimo. Acusa-se a plantação do real e presenteia-se a mentira.
Resta a nuvem da satisfação que cobre a injustiça, a aspereza do crime ainda que não cometido, o riso alarve dos difamadores. Resta a podridão da calúnia e o nada nas mãos dos justos. Resta pouco, resta muito… dependendo da parte envolvida.
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« Responder #479 em: Setembro 07, 2010, 05:30:31 »

Texto n.º 271

A Busca da Felicidade

O tempo corre sem pressas.
Apressados andamos nós,
Desejando o que não procuramos,
Procurando o que não encontramos,
Porque tempo não temos.

Busco a Felicidade,
Mas à procura não vou.
Espero pelo acaso
Que inesperadamente virá
E Deus dirá
Quando for a hora chegada!

Escravos da vida,
Dependentes de princípios,
Vícios temos
E pecados cometemos
Sem criminosos sermos.
O dedo nos apontam
Para nos lembrarmos
Aquilo que somos
Sem vivermos o que desejamos.

Coincidências estranhas existem!
Escrevo do que a falar vamos
Ou falamos do que já escrevi
Sem lembrar que já o fizera.

Texto n.º 272

Sensações

No silêncio dos teus olhos,
Ouço os teus desejos.
No murmúrio dos teus lábios,
Vejo os teus sentimentos.

Sonhos e Desejos cúmplices se tornaram!

Corações abertos,
Pensamentos partilhados,
Sonhos contidos,
Desejos esperados e sentidos,
Manifestamente concretizados…

Texto n.º 273


Reflexões

Conversa breve e amena,
Tranquilidade e paz me traz.
Espírito sereno assaz
Para o dia passar

Hipóteses lancei,
Algumas acertei.
Que mais irei acertar em cheio?

Musa inspiradora serias
Se fosses mulher!
Assim, meu Anjo serás
Para meu dom iluminares.

O sonho de escrever
Começa a renascer.
Será este o meu ser
Ou o meu viver?

Não me reconheço!
Jamais despi a alma,
Tão pouco a nudez,
Revelando recônditos segredos
A sete chaves guardados.
Tranquilo e carinhoso és,
Sincero pareces ser,
Abertamente falas
Revelando o teu amor!

Texto n.º 274

O Niassa, acostado em Alcântara, engolia malas, jipes, contentores de alimentos e cunhetes de munições. No empedrado do cais, um batalhão militar perfilava-se diante de um general de óculos com lentes grossas. No terraço superior, uma multidão, de negro vestida, preparava-se para as despedidas. Ouviram-se tambores e, logo de seguida, a banda executa o Angola é Nossa. Marchei com os outros e subi as escadas do portaló. Na amurada, diante dos gritos e dos desmaios e do esvoaçar dos lenços, o padre João ofereceu-me uma cruz. Respondi-lhe que não precisava, já tinha a minha.

Texto n.º 275


O Baptista já não tinha o braço esquerdo, mas ele ainda o julgava inteiro.Deitado na cama do hospital, coto engessado, esboçou um sorriso e disse-me: « Tenho esperanças de que, na Beira, aqueles gajos me cozam a pele.» Dei-lhe um abraço - era o tempo dos combatentes se irmanarem - , e saí.
Cá fora, os mosquitos escureciam os candeeiros, tão baços já eles eram. Uma pelica de cacimbo embrulhava a noite. Sentei-me, num banco, diante da largueza do Zambeze, e chorei até ser noite na minha alma.


Texto n.º 276

Momentos incertos
 
A porta abriu-se os olhares cruzaram-se, tudo foi dito sem palavras.
Lado a lado os passos eram o eco do vazio.
Ficamos sentados ao som da água do pequeno lago, uma fonte transparente.
Bebemos o silêncio, a luta do medo com a esperança! Um turbilhão imperecível, invisível…mas real.
Até que uma voz trémula ousou falar!…Um caminho novo…Um deserto a atravessar.
Talvez o princípio do fim ou o fim sem inicio.
Momentos para a história, a história de um momento.

Texto n.º 277

Houve um tempo em que o mar foi miragem.  Apesar das gravuras dos livros que me davam uma visão da forma e da cor, não lhe conhecia o cheiro nem o som. Por isso, imaginava-o na imensidão do horizonte, até onde o olhar não alcançasse mais, para lá dos limites da minha própria imaginação... fechava os olhos e deitava-me então à beirinha da água na areia molhada  e entretinha-me a escutar o seu canto de tenor, embrulhado no manto das ondas que o não largavam e se vinham desfazer em bolhinhas brancas e salgadas que me salpicavam o corpo nu e adormecido num sonho...

Texto n.º 278

Já não me recordo do seu nome, mas tenho retida a imagem daquela princesa enfiada dentro de um vestido com folhos nas mangas e franzido na cinta, dos seus canudos de cabelos loiros e cacheados,  derramados pelos ombros abaixo e com um laçarote no cucuruto da cabeça.
Os passinhos de bailarina, quase em bicos de pés a conferir-lhe uma graciosidade de princesa fora de época...
Uma princesa que reencontrei muitos anos depois, já sem cachos loiros e com um corpo roliço que lhe roubou aquela graça(era Graça o seu nome, lembrei-me agora)de criança que destoava dos seus colegas de escola.

Texto n.º 279

Sentada na soleira da porta, de cabeça ligeiramente baixa como quem dormita, descansava o tempo de uma vida inteira enquanto esperava... ninguém entendia o que pudesse esperar naquele ermo onde não passava viv'alma, mas esperava! Esperava o que por certo sabia não ir chegar nunca...
No olhar míope que não conseguia esconder por detrás daqueles fundos de garrafa, esvoaçavam as penas das asas que tanto desejara, mas que, como maldição, se transformaram nas raízes que se lhe alongavam nos pés e se estendiam pela terra adentro, prendendo-lhe o corpo ao lugar onde esperava a morte.

Texto n.º 280

Pobre mendigo
Aproximou-se e de coração aberto me perguntou: Devo eu dar o meu almoço àquele pobre mendigo? E eu espantada com inesperada abordagem respondi: Faça de modo a que se sinta melhor consigo mesma. Dê-lhe o seu almoço que certamente ele lhe ficará muito agradecido. Não pese na sua consciência a omissão e a indiferença. Fiquei a observar, o coração dele brilhou até à última dentada. Em mim só ficou uma certeza: Às vezes a vida testa o nosso coração! A vós direi: a Vida às vezes chama por cada um de Nós!

Texto n.º 281

Enlace
 
Houve um estranho momento em que cheguei antes do nada. Era um perigoso fragor de manhãs de circuitos únicos, suavizados. O indelicado sabor da loucura ia-se distante. Sem deixar impressões ou memórias dúbias. Dobrei-me diante do luar que balbuciava distante enquanto tudo ali estava. Ou restava, em janelas obscuras e desregradas cortinas. Vi-me a balançar em pequenas redes de nuvens, claras como o sol. Surpreendi o poema a fazer-se rosto, dourado, irresignável. Mostrando-me onde residia o que faltava.

Texto n.º 282

A luz incidia sobre o meu dorso, clara e intensa como uma chama. Uma mão deslizava pela minha textura macia, mas o rasgo do metal feria –me as entranhas continuamente doridas.
Delineados versos de amor a outrem sobre a minha pele? Rasgar-me assim? Quero fugir desta mão, mas não tenho forças.
De repente, pela janela do quarto, uma rajada de vento faz bater as portadas. O meu carcereiro levanta-se para as fechar. O vento sopra mais forte e arremessa-me de encontro  ao lavatório no  canto do quarto. O jarro da água tomba e todas as letras em mim escritas ficam num enorme borrão. Inutilizado!

Texto n.º 283

Ando apática de sentimentos. Talvez porque experimento ser mais feliz do que sempre fui,  mais inerte do que julgava. Não folhei o volume que menti que leria. Nem me interessei por quem o tivesse escrito. Perdi-me no seio das folhas dos filhos renegados. Óbolos recolhidos humildemente em seixos e areias antes mares com restolhos de ostras e mariscos. Madrepérolas inquisitivas se tornaram adornos no meu corpo esquivo. Minhas primaveras parecem pobres para resgatar o livro de névoa que voa lá fora. Então digo à velhice das horas diminutas salinas vindas de dentro, marés vertidas em silêncio.

Texto n.º 284

DIAS De TÃO LONGE
 
 
Dias de tão longe, riso fácil a entrar pela janela, os rios correndo mansos, dourando cada penhasco, e a sombra da mãe, protectora sentinela.
Hoje, há o medo do escuro, e uma saudade que gela. Recordo o oiro passado nesta
Homenagem singela.
 

Texto n.º 285
 
Imagem insólita
 
Há imagens que a retina guarda, e enchem o âmago de grata saudade. Porventura outras, insólitas, nos questionam a mente, como se o autor fosse mera personagem.
Guardo na memória um desses instantes. Na capela velava-se calmamente pessoa não grata que nunca dera nada na vida. Eis que de repente carpideiras irrompem em grande pranto!
Ainda oiço a gargalhada cristalina que inundou a capela, espantando os santos e as gentes.

 Texto n.º 286
 
AVÓ
 
Ainda a vejo, o perfil sóbrio desenhado na soleira de xisto. O cabelo branco, ora concentrado na debulha do feijão, ora perdido nas contas do rosário, com que  me ensinava melodias de amor.
Ainda te sonho, e quando o meu dia escurece, penso em ti, avó. Então, a tua força em mim prevalece.

Texto n.º 287

Lágrimas adolescentes
 
Chamava-te e tu vinhas, carregado de brancura. Muitos chamei depois, mas nunca vinham. Ainda chamo, num resquício de autoridade, mas respondem-me com o desprezo pela minha ordem.
Deste-me a vaidade de ser teu senhor obedecido, dono do teu agachar fiel, do teu subserviente e terno dobrar de espinha, do teu olhar tão servil, mais que humano.  
Minha mãe contou-me, prudentemente pesarosa, como foras arrojado da tua mansidão para o asfalto quente. Nas lágrimas adolescentes que derramei corria a certeza de que nunca mais outro viria ao meu chamar, como um digno cão.
 
Texto n.º 288
 
 
Filho de muita página
 
Nas mãos do João mirava-os, despeitado e invejoso. Ansiava pelas suas janelas, por onde acedia a outras dimensões. Por isso, pedia-lhos, e ele, com a displicência de quem sempre teve, emprestava-mos. Depois, passei para outro nível, o de os pedir à mãe do João, agora mais densos, mais recheados, mais debruados de estilos e arte. Vendo-me a fazer o que desejava que o filho fizesse, a senhora enchia-me os sacos com dezenas deles.
Fiz assim a minha vida, imerso neles, mais ainda quando finalmente pude comprá-los. Sou um filho de muita página…
O meu amigo João só quer agora voltar a página atrás…
 
Texto n.º 289
 
Apurados
 
Distribuíram o orgulho do apuramento em rebuçados lançados sobre as minhas mãos de menor e as mãos menores da outra canalha, igualmente comungante do grande feito. Os nossos cobóis! – que iriam vencer os índios.
Nem setas nem balas tinham sangue nesse tempo. O heroísmo e a valentia não tinham maldade. À morte sucedia mais uma vida, no filme seguinte.
A camioneta onde seguiam, mais crédulos que gado, era de caixa aberta, para que lhes víssemos as coroas de louros. Apurados!
Um ano depois, a caixa que trouxe um, e depois o segundo, era agora fechada. Para que não víssemos The End. A bem da Nação!  

Texto n.º 290

Era de madeira a minha primeira mala da escola.Não seria de admirar se o meu pai não fosse artista em transformar tábuas naquilo que bem quisesse,mas uma mala de madeira...talvez fosse um tanto ou quanto estranho.De mala na mão e um sorriso de satisfação no rosto,nem me apercebia dos olhares e dos cochichos dos outros que logo no primeiro dia se não pouparam a fazer pouco de quem surgia do nevoeiro da inocência,trazendo consigo a pureza da infância.A partir daquele dia foi aprendendo a par das letras e números,não só as coisas boas como também as más de que é composto o mundo.

Texto n.º 291

Munidos de pás e picaretas quase do nosso tamanho, lá fomos direitinhos ao pinhal em busca de um penedo jeitoso para dar início à descoberta do nosso tesouro que a minha avó, que não mentia, me havia garantido existir por debaixo de um penedo(todos tinham tesouros) um tesouro ali escondido pelos Mouros antes de partirem, tal como está registado nos livros de História, que o nosso país foi conquistado aos Mouros. Por isso, só tínhamos que escavar!
Foram dias seguidos de trabalho árduo até nos rendermos ao cansaço, sem conseguir-mos sequer fazer abanar o penedo...

Texto n.º 292

Pouca gente tinha televisão naquele tempo.A tal caixa mágica que todos queriam ver mas que não estava ao alcance desses todos. Por isso, era costume juntarem-se na casa de quem a tinha para passar o serão, ainda que em tons de cinza claro e escuro que alguém se lembrou de baptizar a preto e branco.
Quem se não lembra das intermináveis e enfadonhas crónicas do professor Vitorino Nemésio? Ou daquelas touradas domingueiras que nos faziam vibrar  em qualquer pega de caras.Os concertos de piano que me tramavam o esquema todo, visto o tempo ser curto e eu queria era ver o Speedy Gonzales!

Texto n.º 293

No meio do bosque, drusas e ametistas, geodos ainda por derreter a escuridão. Como seus olhos de cristal quase verdes, quase mares. Comprou um anel de três pedras e o colocou no dedo médio. O seu vestido rodado marcado na cintura, decote discreto, da mesma cor de ágata. Dançou mil vezes no tapete das deusas, sequer sentia a leveza do corpo entregue à cegueira da música. A vertigem do desejo caia-lhe do rosto. Não erradicaria sua herança de pedras. Devolveu um sorriso sem cumplicidade, sem promessas. Não gostava dos ocasos cor de areia.

Texto n.º 294

VIAGEM À MADEIRA

Já se podia ver ao longe a água do mar banhando a areia dourada da praia do Funchal. Preparávamo-nos para a aterragem quando sentimos o avião ser abanado fortemente por ventos contrários; as asas oscilavam tanto que parecia que se iam separar de resto do aparelho. De repente começámos a subir contornado a ilha em círculos para ser feita nova tentativa! De novo as mesmas fortes sacudidelas que nos faziam pensar se sairíamos dali vivos! As crianças choravam, uma senhora idosa desmaiou... Foi-nos dito que iríamos para Porto Santo até o vento amainar, e foi assim que fiquei a conhecer mais uma ilha!

Texto n.º 295

AROMAS DE INFÂNCIA
  
 Relembro com saudade o tempo da minha infância! Como era bom acordar com o cheirinho a pão quente com cevada feito pela mãe e o ruído da máquina de barbear do pai, misturado com a música do velho rádio inundando toda a casa num alegre despertar! Esses aromas ainda estão bem presentes na minha memória dando um novo sentido à vida!
 Como era bom ser criança, sem ter contas para pagar, nem preocupações com o almoço do dia seguinte, nem roupa para lavar e passar a ferro! Pudesse eu recuar no tempo para desfrutar cada momento com um novo sentido de partilha!

Texto n.º 296

UMA SITUAÇÃO DELICADA
 
Deveria ter cerca de 7 anos, quando Lucinda, uma mulher extremamente magra, bateu à porta para falar com a minha mãe. Era conhecida como "Pinóia", devido ao seu enorme nariz. Eu sem mais comecei a chamar: - Mamã, está aqui a "Pinóia"! A minha mãe ia descendo a escada fazendo-me sinais e caretas para eu me calar, mas eu, indiferente aos seus gestos ameaçadores, continuava no mesmo tom irritante: - Mamã está aqui a "Pinóia"! A minha mãe muito corada lá se desculpou conforme pôde! Eu aprendi a lição e valeu-me um enorme puxão de orelhas, por ter falado mais de que devia!...

Texto n.º 297

Noite sem sono
Era noite, tão noite… que ela mesma se esqueceu de dar vez ao dia, entre as palavras que me confinam o pensamento, nem uma só fez o clique e me passou para lá do sono. É que devia bastar contar só uns carneirinhos para que tal acontecesse!
Como tal não aconteceu, começou o confronto entre mim e a almofada, que nem por isso estava a ser boa conselheira, por tal tornei-me agressivo e dei-lhe porrada qb, impondo-lhe a minha chefia, enquanto ela perturbada do seu repouso, amolecia.
No sonambular da dormideira, paspassava uma caldeirada de pensamentos há muito adormecidos. “Cum raio”.

Texto n.º 298

A memória tropeça a cada instante nos desaires da minha meninice e, se por acaso, faço força em reavivar dias de infante feliz, logo me assolam os prantos e os gritos de uma monumental família desconforme.
Desconforme ou disfuncional. Como agora se nomearia na melhor nomenclatura psicoterapêutica.
Que melhor lembrança posso eu ter, se apenas me recordo da falta de areia para erigir os castelos e, nem por via disso, eu deixava de os erguer com os meus mais secretos sonhos.
Secretos e ingénuos sonhos de um garoto nunca feito adulto conveniente.

Texto n.º 299

O reflexo do cantar do búzio incidia de chofre no sol do meio-dia, como se onda gigante fosse a tomar o astro rei desassombradamente.
O homem, já de provecta idade, massajava o corpo da jovem sereia.
Corpo esbelto em pura flor da juventude, corpo amado pela grã dedicação e ternura do homem amante.
Eu era apenas um adolescente fintando o sol e o mar no intervalo de bisbilhotar aquele amor fora do comum
O velho e a donzela sereia em vero amor, contra as convenções do mundo.
Cresci nesse dia por ter apreciado outra forma de luz.

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Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam pôr arte na pena. Figasabraço
Maio 18, 2019, 19:22:13
Olá! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Olá para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Olá para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
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