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Autor Tópico: Os fantasmas da mem√≥ria (2)  (Lida 955 vezes)
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José-Augusto de Carvalho
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Apolo e José-Augusto


« em: Setembro 27, 2007, 22:41:15 »

 
- A CEIFA -

                                                          Jos√©-Augusto de Carvalho
 
 
    Portugal a Sul do rio Tejo. Terras do Alentejo e do Algarve. Do seu povo se diz: muitos mouros, alguns judeus e o resto sabe Deus!... (Talvez um dia eu fale do Portugal a Norte do Rio Tejo... Talvez.)
   
    Ano de 1951. Ainda est√° bem presente, na mem√≥ria de todos, o recurso √†s senhas para se poderem comprar muitos dos artigos de primeira necessidade. Consequ√™ncias da guerra que findara havia pouco e, dizia-se, das exporta√ß√Ķes para os alem√£es de g√©neros retirados √† boca deste povo j√° t√£o carenciado! A falta de a√ß√ļcar levava muitas pessoas a ado√ßarem com sal o caf√© e o ch√°; determinou, noutras, a dispensa deste ado√ßante. O quotidiano de cidades e vilas √© resignado. Nas aldeias e nos campos do Alentejo, a luta pela sobreviv√™ncia √© dolorosa e p√©rfida. √Č uma luta desigual. Dolorosa porque o trabalho bra√ßal √© violento; p√©rfida porque os camponeses, minguados de direitos, vivem na servid√£o. Ajustam as jornas de mis√©ria com os senhores das terras. H√° tempos de trabalho e tempos de boa vida. Com esta express√£o ir√≥nica, pretendem os camponeses designar os dias, semanas, meses sem trabalho. Doem as manifestas desigualdades nas rela√ß√Ķes de poder entre agr√°rios e camponeses. O Poder Pol√≠tico, autorit√°rio e ao servi√ßo dos poderosos determina a sujei√ß√£o dos assalariados. A censura pr√©via aos meios de comunica√ß√£o escritos e falados amorda√ßa a informa√ß√£o. A pol√≠cia pol√≠tica, a P.I.D.E. --- Pol√≠cia Internacional e de Defesa do Estado --- √© uma poderosa for√ßa dissuasora; e os poucos que se erguem em defesa dos seus leg√≠timos direitos s√£o detidos, torturados e muitos condenados em tribunais especiais, os Tribunais Plen√°rios, por atentarem contra a seguran√ßa do Estado. Portugal √© isto neste ano de 1951! A vit√≥ria da Democracia, em 1945, foi um sonho que n√£o passou os Piren√©us!
 
    Corte da Velha √© um Monte de v√°rios moradores. Ponto de encontro de camponeses alentejanos e algarvios desta ceifa em que estou. O tra√ßo de uni√£o √© estabelecido pela Dores, algarvia-mulher dum pastor alentejano. Ajustada a empreitada, o rancho algarvio ter√° de fazer-se ao caminho. A p√©. A seara j√° est√° √† sua espera. √Č numa herdade para as bandas de Ficalho. Do outro lado da fronteira, Rosal de la Frontera,  ainda lacerado pela Guerra dita Civil (1936-39). Quantas hist√≥rias por contar da trag√©dia que enlutou Espanha! Hist√≥rias desta Ib√©ria toda, toda sujeita √† mesma condena√ß√£o!
 
    Sudeste algarvio. Terras do concelho de Alcoutim, a hist√≥rica vila da margem direita do Guadiana, dia e noite enamorada de San L√ļcar, o fronteiri√ßo pueblo espanhol da margem esquerda do rio.  Terras de Serrania olhando as planuras do Alentejo, a Norte.  A Foupana leva um fio de √°gua neste quente m√™s de Maio. Mais al√©m, na aldeia, o lusco-fusco mal permite perceber a az√°fama que vai nas casas dos ceifeiros acertados para a empreitada. A partida ser√° ao romper da madrugada. Das serranias algarvias √†s planuras do vizinho Baixo Alentejo! O trigo maduro anseia pela foice! Os homens falam da vida e da esperan√ßa de ganharem uns magros escudos; as mulheres ultimam os derradeiros preparativos. Anoitece. Os corpos reclamam umas horas de descanso. Amanh√£, a caminhada ser√° longa e dura.
    Estremunhado, um galo canta! Na madrugada, empalidece o setestrelo. Se √© certo que n√£o √© por muito madrugar que amanhece mais cedo, o rancho ter√° de encontrar os arrebois do amanhecer j√° nos caminhos sofridos e solit√°rios que ligam os concelhos vizinhos de Alcoutim e M√©rtola. Em alguns momentos, o rancho est√° reunido. S√£o horas de partir. O av√ī Manuel vai √† frente, com um dos filhos. Marca a cad√™ncia do passo, com a experi√™ncia de l√©guas vencidas nas estradas da vida. Ali√°s, j√° todos os membros do rancho sabem que s√≥ com um passo cadenciado se conseguem vencer grandes dist√Ęncias. √Č o doseamento do esfor√ßo. Av√ī Manuel quer chegar a Corte da Velha ao cair da noite. Sabe que se conseguir o tempo de 15 minutos por cada quil√≥metro andado, encontrar√° um bom andamento. Sabe tamb√©m que ter√° de proporcionar paragens, para descanso.
    O rancho caminha decidido. √Č uma jornada de esperan√ßa. Para tr√°s ficam as terras que n√£o garantem a todos o p√£o de cada de dia, ainda que sofridamente suado; em frente ficam as terras que prometem um trabalho sazonal, sempre conseguido em condi√ß√Ķes de amarga sujei√ß√£o. Av√ī Manuel sabe que os camponeses alentejanos n√£o v√™em com bons olhos esta concorr√™ncia dos camponeses algarvios. E tamb√©m sabe que s√£o os lavradores os √ļnicos a ganharem. Mas que fazer? A luta pela sobreviv√™ncia √© implac√°vel! Ah, como fica clara a palavra clandestina! √Č a lei da oferta e da procura: se h√° mais bra√ßos do que trabalho, o lavrador regateia at√© ao tost√£o. E, a√≠, o campon√™s cede: mais vale pouco que nada! E, a√≠, gera-se o conflito entre os deserdados! E o conflito dos deserdados √© o lucro acrescido dos lavradores!
    M√©rtola est√° a um passo. Av√ī Manuel, sempre caminhando na frente. V√™-se que medita. Medita na proposta do patr√£o de lhe fornecer todos os g√©neros aliment√≠cios e outros de que necessitar o rancho. At√© parece ouvi-lo ainda: √Č como lhe digo, senhor Manuel, tudo poder√° adquirir a cr√©dito, no monte. No final, faremos um encontro de contas...
    Av√ī Manuel √© um homem experiente e atento √†s armadilhas da vida. Percebe o h√°bil jogo. O lavrador sabe que a lonjura e a falta de um animal impedem-lhe o recurso ao com√©rcio da vila; e sabe tamb√©m  a afli√ß√£o por que passaria se sujeito a gastar o dinheiro que n√£o tem. Fin√≥rio este lavrador! De uma cajadada, mata dois coelhos: tem garantida a venda dos produtos e pagar√° menos pela empreitada! E como se isto n√£o bastasse, ainda o que a neta lhe disse, h√° pouco, depois da √ļltima paragem, nos √Ālamos: Av√ī, aquele homem que estava tirando √°gua do po√ßo disse-me que os lavradores, agora, quando querem parvos, v√£o busc√°-los ao Algarve...
    Ao sol da tarde que finda, o rancho vai vencendo os derradeiros quil√≥metros da jornada. Apenas o ru√≠do cadenciado dos passos ousa quebrar o sil√™ncio destas terras de sujei√ß√£o e desespero.
    A voz melodiosa da neta desperta av√ī Manuel da medita√ß√£o:
 
                                                            Se fores ao Alentejo,
                                                            n√£o bebas em Castro Verde:
                                                            que as fontes cheiram a rosas
                                                            e a √°gua n√£o mata a sede...
 
         
    O sol mergulha, em apoteose, num poente incendiado. Amanh√£, a ceifa do p√£o dos outros! 
 
 
22 de Junho de 2006.
Viana do Alentejo * √Čvora * Portugal[/b][/size]
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José-Augusto de Carvalho
Goreti Dias
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« Responder #1 em: Setembro 28, 2007, 07:33:50 »

Uma maravilhosa crónica, dura e real...
Ainda me lembro de meu falecido pai (agricultor)contar que escondiam debaixo das lajes da casa da eira o cereal para lho n√£o levarem todo... das sardinhas partidas cada uma para duas pessoas e do p√£o feito de bolotas... Tristes tempos! Espera-se que n√£o voltem...
Um abraço
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Goretidias

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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
Março 01, 2018, 20:26:58
Boa noite!
Dezembro 30, 2017, 21:19:00
Ol√°, amigos do Escritartes!
Dezembro 27, 2017, 09:04:13
Boas Festas!
Dezembro 21, 2017, 10:51:56
Ol√° para todos! Desde j√°, um feliz natal e um 2018 de novas escritas!
Novembro 11, 2017, 17:23:12
Boa tarde a todos! Votos de muita inspiração na nobre arte da escrita.
Outubro 25, 2017, 10:20:24
Meu bom dia a todos!
Julho 18, 2017, 20:17:24
Ol√° para todos! Boas escritas!
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