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Autor Tópico: Sortil√©gio 21  (Lida 1442 vezes)
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gdec2001
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« em: Janeiro 14, 2014, 22:56:11 »



E a Olívia contou:
Que o Duarte era muito bom homem mas não correspondia ao que ela sonhara quando casara com ele, impulsionada pela mãe que só via o dinheiro.
Ela queria um herói embora não tivesse bem a noção do que é que isso podia significar. Umas vezes sonhava com um grande político, outras vezes com um actor de teatro ou cinema, outras com um jogador de futebol ou, assim, um grande corredor; enfim tolices; como hoje reconheço, acentuou.
De maneira que andava triste e desgostosa porque o Duarte não lhe parecia um herói.
Foi ent√£o que conheceu, como que por acaso, um jogador de futebol.
Na verdade, pedi para lhe ser apresentada...
O fulano joga, aí, no nosso melhor clube que é, como toda a gente sabe, o Benfica, ainda que já há uns anos que não ganha o campeonato por causa dos árbitros, é claro e, o tal fulano, é estrangeiro o que, para mim, era mais um atributo de um verdadeiro herói...
E embora fale muito mal o portugu√™s, achei-o muito simp√°tico. Apaixonei-me por ele e convenci-me de que ele estava apaixonado por mim e, encurtando raz√Ķes, com poucas palavras, mas muitos sorrisos, levou-me para a cama.
Mantive aquela rela√ß√£o, a√≠ durante um m√™s sem o meu marido descobrir nada. Mas descuidei-me um pouco: Sa√≠a com ele e, √†s vezes, t√≠nhamos certas intimidades, mesmo em p√ļblico.
Bom, o meu marido veio a descobrir tudo e foi um sarilho. Saí de casa e para me vingar de uma bofetada que me deu, levei a Elsa e deixei-a naquele jardim, como já sabe pensando, estouvadamente, que ficava bem.
Procurei ir viver com o meu conhecido e...amante é claro, mas ele recusou-se com diversas desculpas: Que era mau para o clube e assim.
Tinha levado algum dinheiro e hospedei-me num hotel. À noite ia para a paródia mas, o meu jogador, cada vez o via menos.
Passado algum tempo o meu marido encontrou-me. Já eu estava mal porque o dinheiro tinha acabado e o crédito era pouco e estava a acabar também. Contei-lhe aquela história do acidente em que ele, ao princípio, acreditou ou fingiu acreditar. Acabei por voltar para casa e contei-lhe tudo...mais ou menos.
E é esta a minha história.
Ent√£o, n√£o diz nada ?
O que é que quer que lhe diga. Essa história revela que a Senhora era apenas uma adolescente, capaz das maiores tontarias. Espero, para bem do seu marido, que entretanto tenha crescido.
Ainda me custa ouvir-lhe isso, mas acho que tem razão ainda que, às vezes, ainda devaneie um pouco.
Devanear não é mau se, por exemplo, sonhamos com a beleza ou a enormidade do universo, com a beleza dos nossos filhos e a enormidade do nosso amor por eles e com o amor pelo nosso marido ou mesmo com qualquer outro amor, autêntico, que tenhamos e, também, com a enormidade e a complexidade dos problemas que nos aparecem.
Isso pensará a senhora, que é uma mulher inteligente, mas não penso eu e as outras pessoas vulgares. A gente pensa o que as novelas da televisão querem.
Não, a questão não é a inteligência, que a senhora mostra possuir ao compreender como age, sobre nós, a televisão. - Ainda que a questão não seja propriamente da televisão mas da maneira como a vemos...-. A questão é de mentalidade. E por isso eu chamei de criancice o que a senhora fez, ainda que muito mau para o seu marido e pior para a sua filhinha.
Sim; acho que tem razão. O meu herói, agora, é o meu marido.
Desculpe, mas parece-me que ainda tem de crescer mais, porque a questão não é a de quem é herói e quem não é herói. Heróis somos todos quando suportamos a enorme tarefa de viver o dia a dia e, tanto mais, quanto menos interessante a nossa vida for.
√ď, meu Deus !... De qualquer maneira, admiro o meu marido e acho que o amo, agora.
E eu julgo que ele bem o merece; n√£o pelo dinheiro que tenha, mas pela maneira como tratou o vosso problema e, principalmente, pela maneira como trata a vossa filhinha.
Ao contr√°rio de mim que a tratei como uma miser√°vel.
Não vale a pena censurar-se agora. Foi uma crueldade de criança, da criança que a Senhora era; incapaz de compreender a responsabilidade, a beleza, e o privilégio de ser mãe.
Mas ser mãe é tão vulgar.
Não, não. Nada do que é humano é vulgar. A responsabilidade que é ser mãe, é uma responsabilidade diferente de pessoa para pessoa, a beleza da mesma maneira, e, da mesmíssima maneira, o privilégio. Geralmente, as pessoas sentem-se apenas felizes, mas quantas maneiras diferentes há de ser feliz? Uma para cada pessoa, naturalmente.
A Senhora é uma... sábia.
N√£o, n√£o . N√£o brinque comigo. Digo isto, tudo, que sinto, de uma maneira t√£o imperfeita...
Esta conversa,  que reproduzi, ora no discurso directo ora no indirecto como me deu maior jeito , estreitou muito as rela√ß√Ķes entre estas mulheres, t√£o diferentes.
A Olivia, vai muitas vezes a casa da Adélia, mesmo quando não pode levar a pequena.
Queixa-se da inutilidade da sua vida. Diz que quando era crian√ßa  " √© que era bom..."
O pai era professor prim√°rio mas passava mais tempo a tratar da vinha do que na escola. Casara-se, quando j√° tinha quarenta e tal anos, com a colega que veio para ensinar as raparigas, l√° na sua aldeia. A minha m√£e era uma mulher extraordin√°ria, dizia. Uma pessoa muito fina...N√£o condizia com o meu pai. Mas davam-se muito bem...Bem, na verdade, tinham muita coisa em comum. Uma delas, talvez a mais importante, era a religi√£o. Eram cat√≥licos praticantes, de maneira que a rota√ß√£o dos dias e, ainda mais, das semanas, se regulava pelos seus deveres religiosos. A mim, pelo menos parecia-me assim. Que o Domingo existia para eles poderem ir √† missa... E que o padre dava a h√≥stia em comunh√£o para eles poderem comungar todas as semanas. Muitas vezes eram os √ļnicos...l√°, na minha aldeia,
De maneira que, quando chegou a altura, eu e a minha irmã entramos no mesmo esquema. Mas na verdade vejo agora que nunca tive verdadeira fé. Era tudo vaidade porque nos Domingos a minha mãe vestia-nos como verdadeiras princesas e eu, embora aparentasse humildade falando com toda a gente, sentia-me muito superior a todos como se já estivesse no céu. Enfim, criancices.
E, agora, a Olívia vai à missa ? Continua religiosa?
Olhe, na verdade vou, porque o meu homem também vai, mas nem sei se sou religiosa ou não. Às vezes parece-me que deve existir qualquer coisa que nos governa e governa o mundo mas outras vezes não. E olhe que o que me faz duvidar mais, é o que vejo na televisão. Tantas barbaridades entre os homens e os animais que me parece impossível que seja um deus que governa isso . E a Elsa ? como encara a religião. ?
Para lhe ser inteiramente franca, parece-me que a religi√£o √© apenas uma esp√©cie das muitas supersti√ß√Ķes que existem. Uma forma de, algumas pessoas, suportarem a exist√™ncia na esperan√ßa de uma vida futura, mais feliz. √Č claro que, em outros tempos, a religi√£o foi √ļtil como suporte das ideias morais mais elevadas mas hoje, j√° n√£o me parece necess√°ria. Na verdade parecia-me bastante melhor que n√£o existisse pois sempre foi causa de inenarr√°veis sofrimentos.
Mas então como é que fundamenta hoje as ideias morais ?
Na vida. A vida é a minha religião.
Mas como?

Geraldes de Carvalho
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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Janeiro 15, 2014, 17:11:25 »

Uma excelente discussão. A religião, a fé... eu também já não sei se defenda a utilidade ou malefício...
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Boa noite feliz para todos.
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Boa tarde!
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Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
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