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Autor Tópico: Sortil√©gio 29  (Lida 1999 vezes)
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gdec2001
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« em: Mar√ßo 05, 2014, 03:33:37 »



Ela e o M√°rio d√£o longos passeios nos S√°bados e nos Domingos.


Cada um faz a sua viagem. N√£o h√° duas iguais.
 
H√° bastante tempo que ela insistia com ele para comprarem um carro porque ‚Äúgostava de conhecer outros rios‚ÄĚ Ele resistiu um pouco porque ‚Äús√≥ gosta de conduzir cami√Ķes‚ÄĚ. Ela achava que isso era uma tolice e dizia que, sendo necess√°rio, tiraria a carta de condu√ß√£o. Este argumento convenceu-o. Comprou um carro aparentemente pequeno; n√£o parece nada um cami√£o, mas no interior √© bastante amplo.
Agora saem de Lisboa em todas as férias. Ele encanta-se porque a verdade é que gosta muito de conduzir e ela encanta-se porque gosta muito de ver caras novas, paisagens novas e mesmo novas casas, principalmente velhas.
E cada um deles gosta de sair com o outro porque lhes parece que o outro, quando viaja, não é bem o outro mas outro.
(Que me perdoem, Vossas Mercês, os que não gostam de jogos de palavras, mas há dias em que não resisto.)
Gostam de visitar, nos dias ensolarados, pequenas cidades e vilas que ficam à beira mar.
As cidades antigas com longas e estreitas ruas s√£o mais belas quando n√£o h√° sol. E se chover um pouquinho, s√£o ainda mais bonitas.
Ali, onde ningu√©m os conhece, podem praticar o amor em quase todos os s√≠tios o que, na verdade, significa apenas que podem beijar-se em p√ļblico pois s√£o ambos bastante discretos.
Como os tempos mudam, pensam eles, cada um para seu lado: Aqui h√° uns anos, quando eram novos, o mais que conseguiam era andar de bra√ßo dado em p√ļblico e agora, que j√° t√™m idade para ter ju√≠zo atrevem-se mesmo a beijar-se.
Os mais jovens porém olham-nos com sorridente simpatia pois beijar-se, nesta altura, toda a gente se beija.
Rios, rios é que nem vê-los, na maior parte das cidades, excepto de de cima das pontes. E falamos de cidades que, no mapa, são atravessadas por rios mas que na realidade, lhes voltaram as costas, escondendo-os, emparedados, atrás de armazéns ou por vezes de jardins meio abandonados, porque neles quase ninguém passeia por ficarem muito distantes dos lugares habitados. Nalguns casos estenderam-lhes, ao lado e ao longo, estradas rápidas.
√Č certo que isso tamb√©m aconteceu em Lisboa e acontece, ainda, em alguns trechos do Tejo mas h√°, agora, um salutar movimento de devolu√ß√£o do rio √† cidade.
Ad√©lia esfor√ßa-se por encontrar peda√ßos dos rios aonde possa ver o correr da √°gua, mas isso √© ainda mais dif√≠cil porque a maior parte deles foram represados  um pouco depois das cidades e, se √© certo que se pode, agora, navegar neles, todos esses parecem apenas lagos.
O mar é que se não deixa emparedar e a Adélia que antes mal o via algumas, poucas vezes, por ano, perde-se agora junto dele imaginando-se levada para mais longes terras ou vogar nas altas ondas ou adormecer nos ignotos e misteriosos fundos.
E embora veja agora o Tejo com outros olhos, n√£o gosta menos dele, porque conhece cada recanto de ambas as  margens.
O Mário não vê propriamente a beleza das coisas. Todo o seu interesse se concentra nas pessoas e é através delas que pode admirar também as coisas.
Assim tudo quanto a Adélia admira, ele admira; tudo quanto ela vê, ele vê. Mas admira e vê mesmo e isso é o mistério do amor.
√Č claro que uma casa ou uma escultura ou um quadro n√£o s√£o, propriamente, coisas mas sim pessoas que ele v√™ e pode admirar independentemente dela ou de qualquer outra pessoa.
E √© exactamente isso, e todos os demais espect√°culos do homem, que ele gosta mais de ver . E tem os seus crit√©rios de beleza, um tanto r√≠gidos, de modo que √© vulgar ele entender que n√£o gostou mas a verdade √© que uns s√£o os crit√©rios de beleza que a gente pensa que tem e outros os crit√©rios do cora√ß√£o porque o cora√ß√£o tem raz√Ķes e etc. etc..
O Duarte e a Olívia acompanham-nos, por vezes.
Finalmente ela conseguiu que ele largasse o trabalho nas fábricas, entregando-as a gerentes que parecem governa-las ainda melhor. Pelo menos é o que ele concluiu, por ver que retira delas mais ou menos o mesmo rendimento.
Ao princípio ficou inteiramente perdido por não ter nada que fazer porque não tinha qualquer outra actividade de que gostasse. Ler, aborrece-o mortalmente. Passa horas procurando ver futebol na televisão e indigna-se porque transmitem tão pouco !.
Pelo prazer de viajar com o Mário e com a Adélia, ele aceita todos os desafios e nas viagens maiores vão no carro dele, um BMW, que ele conduz com o seu habitual cuidado.
O Mário e a Adélia ao princípio insistiam em pagar parte da gasolina mas agora deixaram-se disso porque ele aceitava sempre contrariado.
E a verdade √© que, quando v√£o no carro do M√°rio - geralmente nas viagens que fazem dentro do pa√≠s - ele nunca se ofereceu para pagar coisa nenhuma, porque n√£o parece dar qualquer import√Ęncia ao dinheiro. √Č a feliz consequ√™ncia de nunca lhe ter faltado, nota o M√°rio.
Ao princípio, o Duarte, parecia nada ver a não ser a funcionalidade das coisas quando fossem do seu campo de interesses. Admirava, por exemplo, uma igreja pelo silêncio e o recolhimento que permitia, pois sempre praticara a religião.
No entanto, se lhe chamarem a atenção, admira a beleza das coisas e tem mesmo um instinto natural para distinguir as coisas belas das vulgares, como acontece com a maior parte das pessoas . Pouco a pouco começou a notá-las por si próprio.
Mais difícil é perceber a reacção da Olívia a estas viagens.
Embora ela soubesse que existia o mundo fora das suas sensa√ß√Ķes f√≠sicas ‚Äď digamos assim, grosseiramente ‚Äď na verdade n√£o acreditava nele verdadeira, verdadeiramente. Sabendo embora que existia, n√£o o sentia, na pele, digamos um pouco melhor.
E quando começou a descobri-lo não sabia bem o que devia sentir e ainda vive nesta indecisão entre o reconhecimento e o espanto, de maneira que parece quase indiferente a quem a não conhece bem.
E, verdadeiramente, apenas a Adélia a conhece bem. E ela, não se admira nada de sentir-lhe as lágrimas no fundo dos olhos quando olham para qualquer coisa nova e maravilhosa, das muitas que existem pelo mundo.
Mas o certo é que ela nunca se mostra como é, porque ganhou o hábito de aparentar ser aquilo que foi. E embora tenha mudado muito a sua maneira de sentir, pouco mudou a sua maneira de expressar aquilo que sente, de maneira que é normal ela rir-se quando está triste e chorar quando está contente; mostrar-se entusiasmada quando está indiferente e aparentar indiferença quando alguma coisa lhe interessa muito.
Agora no que todos, os quatro, tendem a estar completamente de acordo é em matéria de comida. Todos gostam de comer bem, uns por uma razão, outros por outra.
No Mário é que esse prazer é mais consciente.

Geraldes de Carvalho
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Geraldes de Carvalho
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Maria del Mar
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« Responder #1 em: Mar√ßo 17, 2014, 21:02:28 »

O prazer de poder admirar algo de belo. Eu aqui também Smiley
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gdec2001
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« Responder #2 em: Mar√ßo 19, 2014, 00:03:03 »

Muito obrigado, amiga.
geraldes de carvalho
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Goreti Dias
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« Responder #3 em: Mar√ßo 19, 2014, 18:47:36 »

Bons passeios estes! Bela escrita.
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Goretidias

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Boa tarde a todos!
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Ol√° para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
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