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Autor Tópico: O Esfaqueador da Régua  (Lida 25724 vezes)
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Maria Gabriela de Sá
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« em: Outubro 20, 2015, 21:32:16 »

          No último domingo acordei com o céu cinzento a ameaçar chuva, mas sem frio. Longe de casa, os farrapos da minha mala de viagem eram suficientes para me aquecerem num dia em que a temperatura se pautava pelos 19 graus celsius, naquele vale colorido de Outono depois das últimas vindimas. Era Douro, claro, a terra que me viu nascer, sui generis em muitas coisas, inclusive na amplitude térmica com que faz questão de se diferenciar das terras mais a norte aglutinadas administrativamente por Carrazeda de Ansiães, um concelho cada vez com menos gente, entre os mortos, feridos e os que persistem estoicamente em lá morar.

          E assim me vesti na minha terra, num Douro a que a pequena Ribalonga pertence, para os 19 graus do dia amanhecido sem chuva apesar dos ameaços.

          Galguei a seguir, levianamente, aqueles declives todos até ao planalto, por volta das 3 horas da tarde, e quando cheguei a Carrazeda já o termómetro do carro marcava 14 graus numa descida abrupta desencadeada pela altitude.

          Seguiu-se um frio rezingão a perfurar-me as costas até aos brônquios, desencadeando passo a passo aquela picada na garganta premonitória de que o pingo no nariz e a tosse seriam os correlegionários de uma constipação energúmena.

          Pelo meio, quando senti os dois a atacar a minha periclitante imunidade, ainda saí mal-educadamente da sala do CITICA. onde decorria a apresentação de dois livros, “Linha do Vale do Sabor” (colaboração múltipla) e a ”Cor das Faias” do Espanhol Epigmenio Rodriguez, escapulindo-me até à loja dos chineses mais próxima a fim de comprar um agasalho que de nada me valeu. O mal tinha-me tomado de assalto,  de que eu ficara refém.

          E pronto, agora vivo aquele período conturbado e uma constipação que, se não for a tosse, serão os farrapos dos lenços de papel a denunciá-la miseravelmente. Até ela se despedir antes do próximo achaque.
« Última modificação: Dezembro 09, 2015, 20:21:07 por Maria Gabriela de Sá » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
Goreti Dias
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« Responder #1 em: Outubro 21, 2015, 11:50:35 »

Despeça-se a constipação rapidamente, ainda que eu lhe agradeça a crónica. Porém, dizem os entendidos que não é o frio que a causa...
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José Manhente
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"Ama como a estrada começa" (Cesariny)


« Responder #2 em: Outubro 23, 2015, 18:59:29 »

O ÙLTIMO PASSAGEIRO DA NOITE

E nisto, ao final daquele dia cinzento passado entre os desfiladeiros profundos do Douro, Gaby foi levar o amigo à estação de caminhos de ferro do Tua. Não havia luar e não tardava o céu desabar sobre eles. Àquela hora nada mais existia senão um deserto entre eles e a linha férrea a desaparecer lá ao fundo no denso breu. Nem uma só vivalma pairava sobre a plaforma de embarque. Corria um vento gélido a pedir o agasalho de um abraço. Um abraço feito de braços e antebraços que a pudesse envolver. Ela tremia por dentro e por fora. Por pudor não lho pedira e ele por receio de uma nega não investira um só gesto.
- Hey M.! Estás contente? Voltas hoje para a civilização...
- Volto para aquele pandemónio da cidade... o recomeço das mil e uma atividades. Não me apetecia partir.
- Ainda vais a tempo de ficar... nem sequer compraste o bilhete.
- Eu sei Gaby. Compra-se ao pica dentro do comboio.
- Então ficas, M.?
Ele olhou-a surpreendido com a insistência. Ela voltou o olhar para o chão sem contudo lhe falar as palavras bonitas que às tantas iriam ficar para sempre inauditas. Apetecia-lhe tanto dizer que gostava dele e que queria que ele ficasse. Mas a tal não se atreveu. Corou. À média luz não dava para ver as duas maças amadurecerem-lhe no rosto.
Os ponteiros do relógio da estação marcavam quase vinte horas. Para desanuviar aquele clima, ele começou primeiro por assobiar e piscando-lhe o olho depois, trauteara com o sotaque próprio a célebre modinha brasileira: «Sinto muito amor, mas não pode ser/moro em Jaçanã/Se eu perder esse trem/Que sai agora às onze horas/Só amanhã de manhã...» (continua)

« Última modificação: Novembro 06, 2015, 22:32:00 por José Manhente » Registado
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outono


« Responder #3 em: Outubro 23, 2015, 20:00:29 »

Uma maneira deliciosa de descrever uma constipação, que sabe quem a trata bem.
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José Manhente
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"Ama como a estrada começa" (Cesariny)


« Responder #4 em: Outubro 23, 2015, 21:38:37 »

O ÙLTIMO PASSAGEIRO DA NOITE  (Parte 2)

... De repente, um silvo irrompeu pelo silêncio daquela noite entre as margens de fragas, estevas e giestas. Vinha lá das bandas do Poçinho. Alguns pingos grossos de chuva caiam agora no chão da gare ferroviária. Eles entreolharam-se mudos.
Depois, cada vez mais intensa, a chuva pareciam faíscar nas poças no cimento e sobre os carris.
Minutos depois, dois faróis pequeninos tremelicavam ao longe na curva.
- Vem aí!
Ela mantinha-se calada. Ele abraçou-a. Gaby correspondeu-lhe. Apesar de tanta água os lábios mantinham-se sequiosos por um beijo de despedida. De rostos mais próximos, sorriram com cumplicidade.
...tan-tan, tan-tan,, tan-tan, tan-tan, tan-tan - dizia a composição entre linhas.
Um não sei quê de vontade reprimida, talvez o receio de atearem os sentidos e depois queimarem-se no fogo do desejo mantinha-os apenas por aquele abraço. Ele sentia-lhe o pulsar do peito contra o seu mas o comboio cada vez mais próximo tolhia-lhe o pensamento.
- Sempre vais?
- Não fosse pelos compromissos de amanhã Gaby e eu não ia embora.
- E voltarás?
- Tão certo como o regresso do verão minha querida.
« Última modificação: Novembro 06, 2015, 22:35:14 por José Manhente » Registado
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« Responder #5 em: Outubro 24, 2015, 11:58:03 »

Um excelente exercício! Vamos lá continuar? Ainda fazemos deste escrito um romance ou, no mínimo, um conto a várias mãos! Força!
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Maria Gabriela de Sá
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« Responder #6 em: Outubro 24, 2015, 17:55:36 »

CRÓNICA LIGEIRA DE UMA CONSTIPAÇÃO PESADA (2)

           Sinto-me perdida, choca como um galinha, inchada pela febre que me instalou na cabeça uma fábrica de água quente a assobiar aos meus ouvidos constantemente. Eu digo que foi a febre, mas não tenho a certeza. Também pode ter sido o silvo agudo do comboio a destruir a parte superior de mim como se eu fosse um cristal permeável aos decibéis ampliados pela chuva intensa e pela noite enquanto tu regressavas à civilização.

        Nessa hora, quando te pedi para ficares para a aspirina e para o chá que a minha constipação pedia há muito, senti-te como Jacinto em Paris antes de ser arrebatado pela Joaninha ao celibato em que ele petrificara há séculos. Pareceste-me reticente à insinuação dos beijos e dos abraços que irrompia por nós com a mesma força do comboio e que, daí nada, mal transpuseste a porta da carruagem de primeira classe onde desapareceste afundado no assento, deixavas para trás como algo destinado a morrer ingloriamente. E, enquanto tu sumias no negrume da noite e na lonjura de mim, eu debatia-me com a miserável constipação e a necessidade de um anti-histamínico que tu não ponderaste dar-me junto com o copo de água quando me deixaste plantada como uma árvore morta na plataforma a fazer continência ao comboio, a interpor-se irremediavelmente entre nós.
 
        Depois, a tosse, o pingo no nariz e a febre tomaram ainda mais conta de mim dominando-me até ao mais ínfimo poro e desiludido sentimento. Ao ponto de não haver na minha vida lugar para ti. A menos que me tragas uma pilha para o meu novo  termómetro…
« Última modificação: Outubro 24, 2015, 21:55:50 por Maria Gabriela de Sá » Registado
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« Responder #7 em: Outubro 24, 2015, 23:19:42 »

e uma canja de galinha...
UAUUUUUUUUUUUUUU!
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"Ama como a estrada começa" (Cesariny)


« Responder #8 em: Outubro 25, 2015, 09:46:55 »

O ÚLTIMO PASSAGEIRO DA NOITE (continuidade de anteriores fragmentos narrativos)

    Após se ter içado no estribo daquele pouca-terra regional, o último daquele dia, M. entrou na carruagem e  acomodou-se no banco fofinho de uma primeira classe indistinta da segunda. Reparou de imediato nos cinzeiros desativados pelos rebites da lei anti-tabágica. Não que lhe apetecesse fumar. Dava preferencialmente conta do recado a uma sandes se ali a tivesse à mão. Mal o comboio arrancou, ainda viu de relançe o rosto de Gaby, olhos luminosos, boca aberta vá-se lá saber se diria «Adeus!» ou simplesmente um «Amo-te!». M. jamais descodificaria aquilo que ela dissera. Uma súbita sensação de perda assomou-lhe ao coração. Ela, apeada na plataforma como uma árvore presa pelas raízes, prestara ainda a continência com o olhar. O comboio lá ia, luzes vermelhas na sua retaguarda, desparecendo no negror.
     «Uma oportunidade de felicidade descartada ou uma felicidade adiada?» - instou M. com o comboio já a caminho da estação do Pinhão. O certo é que mal chegasse ao trabalho, M. estava decidido a rever a sua agenda de compromissos e iria confirmar nos recursos humanos da firma se ainda lhe restavam alguns dias de férias para poder desenfiar-se novamente para o Douro e, quem sabe, para os braços daquela mulher. Aquele fim de semana passado com Gaby fora estupendo. Ela prestara-se ao papel de guia turística e M. ao de visitante em terras desconhecidas. As mãos dela eram os mapas onde ele imaginava perder-se. O olhar, o sorriso, a maneira doce de falar, ainda que constipada, ancoravam-no à fantasia de a tomar para si. Ela decerto não regatearia o gesto de ternura ou outras fosquinhas de bem querer...
Agora, no meio do negrume, M. avistava pelo seu lado esquerdo um fiozinho de luzes isoladas, espelhado na tremulina das águas do rio. Adormeceu naquela moleza do rame-rame. Só voltaria a acordar já perto do Peso da Régua, quando o funcionário da CP lhe tocou no ombro para cobrar o preço do bilhete.  
 
 
« Última modificação: Outubro 31, 2015, 21:44:38 por José Manhente » Registado
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« Responder #9 em: Outubro 25, 2015, 13:39:42 »

CRÓNICA LEVE DE UMA CONSTIPAÇÃO PESADA (3)

          Agora que a constipação está a caminho de se tornar numa esbatida memória de um fim-de-semana no Douro, evoco ainda com mágoa todos os acontecimentos que precederam a tua partida num comboio a escapulir-se entre os pingos de chuva como um ladrão na noite.
 
          Não sei se lamento o rato que te invadiu o estômago no vazio da sande de presunto e do copo de tinto regional que o aconchegassem! A tua avidez pela cidade foi tão excessiva como desconcertante! Ao ponto de recusares, com as letras da minha desilusão, o convite para irmos juntos ao bar em frente tomar qualquer coisa que ajudasse, a ti a superar a fome durante a viagem, e a mim a acalmar a voz roufenha com que insistentemente te pedia:

          - Não vás, M.! Fica para amanhã. Preciso de um chá e de um anti-histamínico, não me deixes morrer na carência que este negrume agiganta como se  DE um índico Adamastor se tratasse no mar dos meus desejos.

          Afinal tudo não passou de uma promessa tornada vã logo a seguir…

          Mas, a fome era comum. Com todas as tuas hesitações eu aprendera já a não me deixar invadir por sentimentos de fastio que me aniquilassem o apetite e me cerrassem os dentes como a guilhotina da morte.

          Então arranquei-me abruptamente aquele chão em que me sentira uma estátua sem escultor e, com a desilusão por companhia, fomos as duas  ao Calça Curta comer uma excelente chanfana de veado e outra de javali a ver se ainda retardava o mal que me invadira em duas vertentes, com o coração à cabeça e uns brônquios aturdidos pelos venenos  da constipação já a caminho.

          E vens agora lamentar-te da tua indecisão e sonhar com um futuro risonho a meu lado, mão na mão, a apontar-te de novo, como uma eterna guia turística sem destino ou viagem definidos, a igreja da minha aldeia para um terno enlace sem sequer ter havido anel de compromisso?! Não, M.! A felicidade só passa por nós uma vez e tu passaste por ela como o comboio que te levou passou por mim na estação que, no dia seguinte, entrou em obras, como pude interpretar pelas fitinhas vermelhas que abraçavam o cais e os coletes fluorescentes dos engenheiros escolhidos para as levarem a cabo.

          Agora M., deixa-te de “ses” e de qualquer condicional que me tenha como equação. Sobretudo porque, com a minha constipação a fazer parte do passado, agora já nem do termómetro preciso…

          Ah, nem da canja de galinha!...
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"Ama como a estrada começa" (Cesariny)


« Responder #10 em: Outubro 25, 2015, 15:23:22 »

O ÚLTIMO PASSAGEIRO DA NOITE (mais uma esguichadela na narrativa)

     Ao chegar ao apeadeiro de Caíde, M. fizera o transbordo necessário para a viagem final naquela noite. Até aí viajava sozinho, ou melhor, acompanhava-o aquele nervoso miudinho que o fazia ir amarrotando o bilhete, por sua vez já todo furado das várias obliterações a que foi submetido. Era o último passageiro da noite e se avançava solitário era porque merecia. A avidez de chegar a casa, a obrigação moral de dar de comer ao gato e à passarada chicoteavam-no desde o Tua. O apetite enganara-o ele numa máquina de snacks frios!
«És um burro M.!» - pensava para si - «A esta hora já podias ter jantado pá! E estares a beber um chá quentinho com biscoitos, em frente a uma lareira acesa de Ribalonga, mas não! Deixaste para trás uma mulher só...indefesa não porque ela é cinturão negro, mas deixaste-a literalmente apeada conho!»
     Dali a nada, pegou no telemóvel e mandou-lhe um sms com o seguinte texto: «Gaby desculpa-me. Fui um tonto. Achas que ainda há pernil de javali que chegue para nós no Calça Curta?»
     
     Quando nessa noite se deitou, M. recomeçou a viagem, desta vez já dentro de si, madrugada dentro, trilhando as linhas contínuas de uma longa insónia. 
« Última modificação: Novembro 06, 2015, 22:39:56 por José Manhente » Registado
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« Responder #11 em: Outubro 25, 2015, 20:04:55 »

Javali, presunto, veado... vocês tratam-se bem! E  eu a falar de galinha!!!
Guardem um cálice de bom vinho para mim, já agora!
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outono


« Responder #12 em: Outubro 26, 2015, 16:00:30 »

Secretária e apaixonada

Espero, ansiosa, pela chegada de M. E no entanto sou na sua vida, apenas uma agenda de trabalho. Preparo-lhe as reuniões, com minúcia e profissionalismo. Amanhã quando chegar de mais uma escapadela lá para o alto Douro, tem o trabalho todo preparado. Fazia-o por alguém que tivesse que secretariar. Mas por ele faço-o com redobrado prazer. Admiro a sua competência, mas admiro ainda mais a sua pessoa. Alto sem ser gigante, com a beleza agreste da natureza selvagem. Mas o que me atrai mais nele são a sua personalidade  e a sua inteligência.
-Menina Aida, diz com aquela voz simpática mas distante, não se esqueça de convocar todos os colaboradores para a próxima reunião.
Depois afasta-se com a mesma indiferença com me abordou. Bem me esforço por dar nas vistas. Visto-me nas melhores lojas de Santa Catarina. Procuro acentuar as formas generosas com que fui brindada. E acho até que não sou nada de deitar fora. Diria que quando passo na rua espalhando o meu perfume channel , atraio olhares concupiscentes e até costumo dizer que faço parar o trânsito.
-Pode partir descansado. Quando regressar da sua viagem encontrará tudo preparado-digo a M com a melancolia de não me sentir necessária fora do espaço profissional
Não entendo porque será que M não me vê como mulher na sua plenitude. Imagino-me apertada pelo seus braços,  sentindo no meu rosto a sua respiração. Vejo-me a preparar-lhe um bacalhau com feijão branco, pois não deixo para mãos alheias os meus dotes culinários.  E quando o vejo atacado por um catarro outonal, como gostaria de lhe preparar um chá de limão com mel. Desconfio que estas constantes visitas a Ribadouro têm a ver com rabo de saia. Quando a semana termina sinto-o estressado pelo desejo da partida. Quando chega parece que está com vontade de voltar. Seja quem for não sabe a sorte que tem.
Começo a perder a esperança de o sentir com todos os sentidos.  Começo a intuir, que nesta narrativa, não passo de um rodapé de página, ignorada pelo leitor emocionado por uma grande história de amor. No entanto eu, Aida da Purificação, não sou pessoa para me render sem luta. Fui nada e criada nas Fontainhas e fiz tirocínio no Bolhão, onde a minha mãe vendia fruta no verdadeiro sentido da palavra. Ficaram famosos os tomates do meu pai, isto é os que ele cultivava numa hortinha nas margens do Douro. Sou uma self made woman,  fiz o curso de Secretariado no Ensino Recorrente, enquanto ajudava a minha mãe a vender hortaliças.
Orgulho-me da minha competência. Tanto mais que M me diz muitas vezes: “que seria de mim sem a Aida”. E eu, tonta, respondia “que exagero senhor Doutor”, na esperança de que a frase fosse abrangente: Nem sei bem se é doutor ou engenheiro porque nunca lhe vi o diploma, com muita pena minha. Para bom entendedor. E bem me tenho esforçado, tentando apresentar os meus argumentos e não são poucos. Mas o homem, Deus me perdõe, parece que é cego. Em corpo de homem parece que ainda não deixou a calça curta. Posso não parecer, mas sou muito prendada: costuro, bordo, faço crochet e faço uns brioches deliciosos. Mas ele só deve ter olhos para a menina lá detrás do sol posto. Deve ser uma dessas tipas de boas famílias, cheia de nove horas, boa católica, assim tipo Pupilas do Senhor Reitor. Enfim, sinto-me nesta estória, uma nota dissonante, uma descarada que quer atrapalhar este moderno “Amor de Perdição”, mas não quero saber. Alguém tem de fazer o papel de mau da fita. Por isso, vou à luta: Ai se vou.
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« Responder #13 em: Outubro 26, 2015, 17:50:40 »

CRÓNICA LEVE DE UMA CONSTIPAÇÃO PESADA (4)


          Eu quero lá saber se adormeceste esganado de fome ou melado com os rebuçados da Régua na viagem do Tua ao Porto! Muito menos quanto custou o bilhete e se o revisor te acordou com um toque leve no ombro ou com um soco na cara! O homem até te poderia ter dado um beijo na boca ou desabotoar-te a camisa e puxar-te os pêlos do peito! Para mim é o mesmo! E, agora que alguém escarrapachou na minha cara o jogo de sedução que andas a praticar camufladamente com a sirigaita da tua secretária, a Aida, está tudo explicado! Talvez seja até mais ela, sabida e de língua garrida, mais ou menos à moda do Bolhão, a lançar achas para uma fogueira em que, devido ao teu catarro dos últimos tempos, em vez de labaredas já só haverá cinzas. E frias.

          E ela insiste, a tonta, enquanto me imagina uma virgem sem sal, na missa sempre que a há, na aldeia onde já só vivem meia-dúzia de gatos-pingados, a bater no peito e a papar as hóstias da abstinência. Deve ver-me como um travão ao eclodir de um fogo entre vós que só existe na cabeça dela. Isto a fazer fé nas informações que um tal N.V. me fez chegar. Embora o assunto não seja segredo para ninguém. Ao que parece, és um completo “nin”, nem sim nem sopas! E não deve ser só em ocasiões em que a falta de uma sande de pernil e de um copo de vinho, mais a ansiedade de apanhares o comboio como se fosse o Último Expresso do Oriente, a condicionarem-te as decisões! Tens sido um “ era e não era” dividido entre a civilização onde a Aida se pavoneia com a mini-saia último modelo da Zara e a Gaby de Ribalonga a apanhar anacrónicos cogumelos no monte montada numas botas de tacão alto do último milénio. E se preferiste ir dar de comer ao gato, limpar as ramelas aos periquitos em vez de cuidares de mim e da minha constipação é lá contigo! Não que eu seja uma desalmada sem amor pelos animais, mas todos eles poderiam ter esperado mais um dia pelo cânhamo com que aflauteias a voz ao canário para o transformares no teu despertador diário.

          Já a minha febre, ela  deveria merecer-te a prioridade das prioridades. Mas não, ignoraste-a como se te fosse indiferente  que ela me catapultasse no dia seguinte para os gavetões da eternidade. Mas não foi assim e tu lá sabes porquê.
 
          Eu não quero saber quanto demorou a viagem até Caíde onde apanhaste o transbordo para o Porto e para o teu dia-a-dia talvez replecto de Aidas que eu não conheço! Mas deves ter tido tempo mais do que suficiente para perceberes que comigo caíste em desgraça definitiva, não havendo nenhum pedido de desculpas capaz de restaurar um amor desbaratado pelos carris de um comboio na tua fuga para a civilização.

Adeus!

PS: - Olha a sande que deveria ter sido para ti comi-a ao serão e assentei-a depois com um generoso  copo de vinho tinto  feito de Tinta Roriz, Tinta barroca e Touriga Nacional…  
« Última modificação: Outubro 26, 2015, 18:26:07 por Maria Gabriela de Sá » Registado
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« Responder #14 em: Outubro 26, 2015, 19:09:06 »

Ai! Mas que febres! Venham daí mais! Estou a adorar!
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Olá para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
Março 01, 2018, 20:26:58
Boa noite!
Dezembro 30, 2017, 21:19:00
Olá, amigos do Escritartes!
Dezembro 27, 2017, 09:04:13
Boas Festas!
Dezembro 21, 2017, 10:51:56
Olá para todos! Desde já, um feliz natal e um 2018 de novas escritas!
Novembro 11, 2017, 17:23:12
Boa tarde a todos! Votos de muita inspiração na nobre arte da escrita.
Outubro 25, 2017, 10:20:24
Meu bom dia a todos!
Julho 18, 2017, 20:17:24
Olá para todos! Boas escritas!
Abril 11, 2017, 14:47:44
Boa tarde a todos
Abril 01, 2017, 20:52:08
Boa noite e um bom fim de semana para todos vocês.
Abril 01, 2017, 20:52:05
Boa noite e um bom fim de semana para todos vocês.
Fevereiro 22, 2017, 07:23:30
Bom dia!
Dezembro 24, 2016, 22:23:10
Boas Festas para todos os que por aqui navegam.
Dezembro 24, 2016, 11:32:23
Desejos de Bom Natal, PAZ, Amor e uns trocados. FigasAbraço a todos
Setembro 08, 2016, 19:38:09
Já está publicada a lista final de autores para a coletânea - 129
Setembro 07, 2016, 20:57:46
Boa noite a todos.
Setembro 06, 2016, 18:31:36
Boa tarde a todos
Setembro 01, 2016, 15:26:02
OLÁ!!!
Agosto 24, 2016, 05:49:47
Bom dia a todos
Agosto 04, 2016, 08:39:17
bom dia a todos
Julho 08, 2016, 18:22:38
Olá, Alice e Nação Valente!
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