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Autor Tópico: Santa Helena  (Lida 63 vezes)
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Goreti Dias
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« em: Janeiro 22, 2020, 17:23:54 »

Santa Helena
Francisco Manuel espera intrigado a chegada do militar da GNR. Chamado de urgência à esquadra, compareceu sem bem saber a razão para tal convite (que nem pareceu convite tanto assim), quanto mais para a urgência! Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca, não era a primeira vez que ali se deslocava, mas para assuntos do seu conhecimento. Que teria acontecido de tão grave? Que raio! Nunca mais aparecia o responsável pela sua chamada ali e o seu tempo era contado ao minuto.
Quando começava a exasperar-se, entrou o responsável pela unidade. "Isto deve ser pior do que eu imaginava!"
- Bom dia, dr Francisco. Lamento a demora. Tenho isto para si.
Um envelope a ele endereçado foi lançado sobre a mesa, de forma brusca. Não reconheceu o nome do remetente.
- Mas o que é isso? Não reconheço o nome...
- Ent√£o ser√° melhor abrir para ver, pois foi encontrado em circunst√Ęncias suspeitas.
Francisco, apreensivo, rasgou rapidamente o envelope e olhou estupefacto para o seu conte√ļdo: um cheque banc√°rio de meio milh√£o de euros endossado ao lar da Santa Casa da Miseric√≥rdia de Tarouca.
- Credo! Mas que vem a ser isto? Quem √© esta Maria do Amparo? Espere! J√° me lembro! Deve ser uma senhora que, na semana passada, marcou entrevista comigo, sim, era esse o nome! Recebi-a e expliquei-lhe as condi√ß√Ķes necess√°rias para entrar na nossa institui√ß√£o. Ficou de pensar... Que significa isto?
- Comprometeu-se a acolher a senhora?
- Sim, ela reunia as condi√ß√Ķes e temos algumas vagas...
….....

Junto à margem do Rio Varosa, Maria do Amparo pousa a sua carteira e queda-se pensativa. Que vida a sua! Flashes de memória circulam à velocidade da luz.
Casara, há 40 anos, com o seu ainda marido Joaquim da Fonseca. Foi uma festa simples, na pequena Capela de Santa Helena da Cruz, na Serra de Santa Helena. À época, naquela terra, não era usual haver acompanhamento musical nos casamentos. O seu enlace não podia comparar-se com os que agora ali se
realizavam, (ali e nas outra igrejas da terra ‚Äď pensou) e a que tinha assistido. Que lindo tinha sido o casamento da sua filha naquela capela, h√° 4 anos atr√°s! Esta filha, j√° nascida um pouco tardiamente, tivera uma festa de ‚Äúarromba‚ÄĚ, como se usava dizer em Tarouca. A capela de Santa Helena fora pequena para albergar a fam√≠lia e amigos (quantos ficaram fora do espa√ßo religioso!). A Orquestra Ligeira do Vale Varosa, a Banda de Tarouca e o Coro Benedictus acompanharam toda a cerim√≥nia. Tanta gente veio ver o jovem casal e assistir √†queles c√Ęnticos sublimes! Depois da cerim√≥nia, ficaram em lua-de-mel mesmo por ali. A casa do Santu√°rio est√° dispon√≠vel para casais e eles aproveitaram para repousar da t√£o √°rdua tarefa que foi a prepara√ß√£o da sua festa.
Maria do Amparo lamentava que a filha e o genro tivessem, poucos meses depois, partido para a Suíça.
A vida da madura senhora não fora um mar de rosas. Este amado rio tinha muitas das suas lágrimas misturadas nas suas águas. Nascido na Várzea da Serra, ia engrossando o caudal que agora hipnotizava a mulher. Para o que tinha em mente, não precisava de ir até Varais. Ali mesmo servia.
Maria do Amparo retirou de dentro da sua carteira um envelope que pousou na erva da margem, pousou a carteira em cima, n√£o fosse o vento arrastar para a √°gua o seu conte√ļdo e continuou a sua reflex√£o:
Logo na noite de casamento levou uma tareia. A então rapariga não sabia nada da vida dos casados e não tivera mãe que lhe desse alguns ensinamentos. Preparou o jantar (não houvera lua-de-mel, antes lua de fel!), esmerou-se no guisado de frango e exagerou tanto na quantidade quanto o seu marido na bebida. Meio embriagado, ralhou e bateu porque ela era uma esbanjadora. Insultou-a de gastadeira e badalhoca por não ter lavado logo a loiça da janta. Na cama, bêbado, nunca mais conseguia o fim a que se propunha e voltou a dar-lhe socos e pontapés. Daí em diante, esse foi o seu fado. Grávida algumas vezes, perdeu sempre os filhos, pontapeada que era pelo monstro que se intitulava seu marido. A filha nascida só escapou porque, ainda ela não sabia que estava grávida, teve ele um acidente em Valdiagem. A junta de bois que puxava o carro assustou-se com um cão que lhes saiu ao caminho e desandaram a toda a velocidade passando por cima dele. Esteve meio ano no hospital de Lamego. Quando regressou a casa, estava ela prestes a dar à luz a criança.
A vida n√£o melhorou depois disso e ela teve um trabalho extra: esconder o seu sofrimento da filha.
Ali estava agora, só. Tinha fugido do marido, 4 anos atrás e vivia escondida em casa da sua madrinha. A senhora, fidalga de ricas famílias, era já muito idosa e faleceu. Antes, porém, tinha-lhe deixado toda a sua fortuna para que não precisasse de ninguém para sobreviver. Mal podia imaginar que de pouco lhe serviria. De noite, acordava sobressaltada. Nos seus sonhos continuava tão casada com o marido como no registo civil. Nunca pedira o divórcio e nunca o esquecera. O terror era a sua companhia, mesmo escondida dele. Não tardaria e ele descobriria o seu paradeiro. Não poderia consentir-se voltar a apanhar pancada como apanhara até aí.
Maria do Amparo tinha em cada m√£o um ramo de gipsofila e d√°lias, as suas preferidas e que o marido n√£o permitia que tivesse em casa nas jarras. Dizia ele que flores eram para os mortos. Pois que fossem!
Olhou uma vez mais para a sua carteira e o envelope escondido debaixo dela. Estava seguro. Aproximou-se da água, levantou as flores com os braços erguidos e foi entrando naquele frio. A água engoliu-a.
……………
- Sr. Provedor, compreende o significado desse cheque?
- Não muito bem. Que aconteceu à senhora?
- Uma amiga desconfiou das inten√ß√Ķes da pobre senhora que j√° n√£o via h√° 4 anos. Ningu√©m sabia do seu paradeiro depois de deixar o marido e estranhou v√™-la ao p√© do rio. Toda a gente pensava que Maria do Amparo tivesse fugido para o Porto onde tinha umas primas. Pelos vistos, n√£o fugiu para o Porto e, para ter esse dinheiro, s√≥ pode ter ficado em casa da D. Maria do Carmo, sua madrinha e senhora de posses. A amiga seguiu-a, p√īs-se a espreitar escondida atr√°s de uns arbustos, mas sossegou pois viu-a sentar-se na margem. Mesmo quando a viu com as flores no ar e a entrar devagar na √°gua n√£o pensou que fosse fazer o que se seguiu.
- Suicidou-se???
- Por sorte, lançou-se logo o alarme, o caudal não era muito… Isto só pode ter sido milagre de Santa Helena! Foi apanhada ainda com vida na barragem. Havia uns turistas de visita à ponte de Geia vieram ajudar, um deles era médico,
prestou-lhe logo aux√≠lio. S√≥ milagre mesmo! Ai Santa Helena! Como mereces a romaria com que te honram todos os anos, no 2.¬ļ domingo de julho!
- Felizmente! Est√° de boa sa√ļde?
- Bastante abalada e arrependida, mas n√£o quer voltar sozinha para a casa vazia da madrinha. Por essa raz√£o o chamei c√°. E nem sabia do conte√ļdo desse envelope. Recebe a senhora na Santa Casa?
- Claro que sim! A nossa missão é cuidar dos mais necessitados, ainda que as necessidades sejam diferentes de pessoa para pessoa. A ver por aqui… Vou tratar de tudo para que possam levá-la logo que entenderem. Contamos convosco também para a sua proteção. O marido é violento…
- Ocupar-nos-emos dessa questão. O tribunal acabará por metê-lo atrás das grades.
- Santa Helena o oiça e vele por nós.
- √Āmen.
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Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam p√īr arte na pena. Figasabra√ßo
Maio 18, 2019, 19:22:13
Ol√°! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Ol√° para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
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