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Autor Tópico: Estima de Oliveira - diálogo e silêncio, tufão poético  (Lida 2477 vezes)
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Alice Santos
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De mãos dadas pela poesia.


« em: Julho 12, 2016, 17:54:19 »

Estima de Oliveira – dialogo e silêncio, tufão poético

Quando me convidaram para escrever sobre poesia no blog https://ruadaconstituicao.wordpress.com/, a minha primeira reacção foi de entusiasmo, embora com algum receio por estar envolvida em outras ocupações. Gosto de poesia, conheço muitos poetas, não vai ser muito difícil... pensei nesse primeiro instante.
Na verdade, de início, fui conseguindo conciliar a escrita com o Coral de Letras, a participação em encontros de poesia, o trabalho, a família, etc…
Contudo, e devido a factores vários, nos últimos meses foi impossível partilhar convosco as colunas que deveriam ser mensais.
Aos que costumam ler o que escrevo sobre a poesia de autores portugueses e também os meus versos, tenho que pedir que me desculpem esta falha. Apenas posso dizer-vos que tentarei “regressar à normalidade” com a celeridade possível.
E sem vos aborrecer com mais palavreado passo a apresentar Alberto Estima de Oliveira.
Estima de Oliveira nasceu a 1 de julho de 1934 em Lisboa. Partiu com destino a Angola, Benguela, em 1957 e mais tarde para a Guiné-Bissau.
Desde cedo que se dedicou à poesia pois, os primeiros versos remontam aos seus 18 anos e foram publicados nos cadernos Vector II e III (Huambo, Nova Lisboa) e na Kuzuela III - 1ª Antologia de Poesia Africana de Expressão Portuguesa (Luanda), coligida por David Mestre. Em 1972 saiu o seu primeiro livro cujo título, Tempo de Angústia, deixa transparecer os tempos difíceis que se viviam.
De 1982 a 2004 residiu em Macau. Foi aí, na bela cidade do Santo Nome de Deus, que tive a honra, o privilégio de com ele conviver durante vários anos.
Em Macau deu-nos a conhecer Infraestruturas, em 1987, Diálogo do Silêncio, em 1988, Rosto, em 1990, O corpo (con)sentido, em 1993, Esqueleto do Tempo em 1995, O Sentir, em 1996. Em 2003 lança Mesopotamia - espaço que criei.
Mesmo depois de regressar a Lisboa, onde tinha residência fixa, Estima de Oliveira manteve contacto regular com Macau e visita a cidade uma última vez, em dezembro de 2007 para se despedir de um grande amigo José Silveira Machado (outro nome a lembrar nesta coluna).
Algumas das suas obras foram traduzidas e publicadas em chinês, como é caso de Infraestruturas (Kei Tcho), Macau, 1999, (bilingual Portuguese, Chinese).
Em 1999 ganhou o International Grand Prize For Poetry at The International Festival “Curtea de Arges Poetry Nights”, Romani.
Foi agraciado pelo Governo de Macau com a Medalha de Mérito Cultural.
Na obra de Estima de Oliveira sentimos que o “poema vem, bardo, das entranhas” de um corpo (con)sentido, de um Rosto onde as marcas do tempo se fixaram. Estima dizia “com dedos charrua / escreverás o poema / com mãos de girassol / inventarás o poente / aos sulcos ressequidos / lançarás a semente”.
Mas era ele mesmo que lançava sementes nas noites em que fervilhantes silêncios eram sacudidos pelo vento forte do tufão que era a sua poesia. Fosse no Tai Sam Um ou noutro qualquer restaurante sabíamos que era “uma janela aberta / no abismo da saudade / local de encontros” que “tem peónias por dentro / forrando um outro horizonte / da densidade da vida”.
Tentei distanciar-me do facto de ser amiga de Estima de Oliveira e apenas abordar a sua poesia. É impossível, tal como é impossível ficar indiferente ao seu legado. Não foi apenas a sua obra impressa que nos deixou. Mais do que livros e CDs, Estima imprimiu em nós a sua sensibilidade, a sua magia. Por isso, deixo-vos, também, algumas das palavras que escrevi há uns tempos.
“Conheci o Estima através de um grande amigo comum, Silveira Machado (também já desaparecido). Nesse tempo não havia facebook, ou qualquer outra rede social. As pessoas eram amigas mesmo. E o Estima era-o com todas as letras. Para uns era Alberto para outros Estima, mas para todos era o AMIGO. Aquele que estava sempre por perto.
Era um ser encantador. A sua capacidade de amar era cristalina como a água da famosa fonte do Lilau foi um dia. A sua presença enchia o local onde se encontrava. Fosse num restaurante, ali para os lados do Leal Senado (Tai Sam Un?), fosse na casa de algum amigo, mesmo que não dissesse um poema, dele emanava sempre aquele sorriso doce, que só um ser que sente a vida como ele sentia, sabe dar tão espontaneamente, tão desinteressadamente.
Os seus versos eram guloseimas que nós, quais miúdos ávidos de doces, saboreávamos até os lábios ficarem gretados. Tínhamos sede da sua poesia e, sempre que podíamos, bebíamos, bebíamos… Os seus versos eram magia que tirava da cartola da vida. A cumplicidade entre a realidade que absorvia nas gentes e o fingimento do poeta, era visível nas palavras escritas ou ditas por ele. Os seus versos moldavam-nos as emoções. Quantas vezes ficávamos de olhar molhado ao ouvi-lo…
Estima era assim.
O meu grande amigo que, em 1989, escreveu “Para Alice, não no país das fadas mas no Dialogo do Silêncio que Macau nos inspira. Aquele abraço pelo teu aniversário” deixou-nos a 1 de Maio de 2008.
Esta foi a forma que encontrei para lembrar que continua vivo; que a sua poesia flutua no pólen dos dias, qual bola de sabão soprada ao sabor do vento pela criança que há em nós.
Deixo-vos um poema retirado do livro Diálogo do Silêncio, editado pelo Instituo Cultural de Macau em 1988.

Das mãos
Fluem os sonhos
Que a mente
Não pode ter

Pontos de seda
Bordando
A ilusão
De viver.”

Estima despedia-se sempre com um “até já”, mas no poema que escolhi para finalizar parece anunciar um fim, uma despedida. Há “um silêncio intemporal e profundo”, transparente e negro nestes versos tão singelos. Há um último volver de rosto e um derradeiro “até já”…

é um impacto neutro
 uma porta já aberta
 
 e cai-se
 num silêncio
 intemporal
 e profundo
 como se
 por artes mágicas
 entrássemos
 noutro mundo…
 
 algumas pancadas na porta grande
 a velha casa tremeu
 
 silêncio.”


https://ruadaconstituicao.wordpress.com/2016/06/29/estima-de-oliveira-dialogo-e-silencio-tufao-poetico/
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Goreti Dias
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« Responder #1 em: Julho 12, 2016, 18:50:56 »

Uma cuidada apresentação de um autor estimável. Obrigada pela partilha.
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Alice Santos
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De mãos dadas pela poesia.


« Responder #2 em: Julho 13, 2016, 16:58:50 »

O Estima foi sempre querido por todos. Era realmente uma pessoa encantadora.
Tentei mostrar um pouco do homem e da sua poesia.
Espero que gostem.
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José Manhente
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"Ama como a estrada começa" (Cesariny)


« Responder #3 em: Julho 14, 2016, 17:53:03 »

Versos de métrica curta mas profundos.
A metáfora do silêncio é o telhado de vidro dos poetas, porque ousando a ausência acústica ou procurando a inexistência sonora, como podem os poetas transmitir ideias, emoções, palavras? Em tudo há uma busca do silêncio e ao mesmo tempo com ele conseguir comunicar.
Será, em parte, a poesia um gesto do tautismo, que Lucien Sfez postulou?
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Alice Santos
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De mãos dadas pela poesia.


« Responder #4 em: Agosto 30, 2016, 17:36:02 »

Obrigada a todos pela leitura e comentários.
Abraço
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carlossoares
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« Responder #5 em: Agosto 30, 2016, 22:25:15 »

Li com muita atenção este texto cativante e encantador, devagar, não fosse, de súbito, acabar. Bela homenagem a um poeta e a um amigo. Pergunto se haverá muitos mais que tenham a honra de um tributo tão genuíno e tão humano. Parabéns. Fiquei emocionado. Senti-me a desejar que a narrativa se desenvolvesse.
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Carlos Ricardo Soares
Alice Santos
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De mãos dadas pela poesia.


« Responder #6 em: Setembro 01, 2016, 15:13:26 »

Obrigada Carlos Soares.
O Estima era mesmo uma pessoa especial.
Abraço
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« Responder #7 em: Setembro 01, 2016, 21:06:35 »

Preciso ler a obra desse poeta.
Obrigado, Alice, pela partilha.
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Oswaldo Eurico Rodrigues


Escrevo também nos sites Recanto das Letras (www.recantodasletras.com.br)
Alice Santos
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De mãos dadas pela poesia.


« Responder #8 em: Setembro 14, 2016, 18:29:23 »

Oswaldo aqui vai aquele abraço.
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Boa tarde a todos!
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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam pôr arte na pena. Figasabraço
Maio 18, 2019, 19:22:13
Olá! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Olá para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
Novembro 03, 2018, 14:19:38
Claro que sim, Mateus. Vamos lá puxar pelos neurónios?
Novembro 01, 2018, 18:36:27
Olá para todos!
Novembro 01, 2018, 15:51:21
A ideia com que fiquei em conversas, era a de que se pretendia fazer, uma sequela do "esfaqueador". Agora estou baralhado.
Outubro 31, 2018, 18:31:48
Temos um tópico em aberto "sem título". Podem entrar. A ideia é fazer algo ao jeito do Esfaqueador da Régua. Estão convidados!
Setembro 12, 2018, 14:34:00
Esfaqueador da Régua, aqui nascido, terá o seu lançamento na Feira do livro do Porto, dia 21 de Setembro.
Julho 04, 2018, 13:54:05
Bom dia.
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