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Autor Tópico: O andarilho  (Lida 1200 vezes)
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« em: Novembro 08, 2016, 03:24:17 »

O andarilho

   Pisei num graveto. O estalo seco da madeira sem seiva foi forte. Esse simples som parecia arrebentar meus tímpanos e me trazia a ideia de ter pisado em ossos secos. Abaixei-me e tomei o galho pisado. Não, não era um graveto! Era um galho duma árvore desconhecida. Não sei há quanto tempo estava ali naquele chão verde da mata.
   Resolvi mudar o destino do galho quebrado. Como pisara bem próximo a extremidade esquerda do agredido, acabei por não reduzir muito do seu tamanho. Ainda havia uma bela peça de madeira a ser transformada por mim em cajado. Foi o que pensei. Seria meu cajado. E assim livrei um corpo da decomposição. Não o transformei em charmosa bengala dum dândi. Como espada sua sorte seria terrível. Faltou-me nobreza para transformá-la em meu cetro de rei. Não sou dândi, não sou gladiador e nem soberano de nenhuma casa real. Em realidade, sou um andarilho sem rumo.
   E segui meu caminho. Uma cobra tentou o bote. Acertei a vara em cheio na cabeça do bicho e segui pelo campo. O capim era alto. Dessa vez o cajado serviu de foice. Atravessei o rio e a vara mostrava onde dava pé.
   Na outra margem, a caatinga. Os espinhos arranhando minha pele. Afastava os arbustos com o galho que carregava. Andei e cheguei a um lajedo. Caminhei com sol a pino. Os rios secos. Sede. Fome. Cansaço.
   Cheguei ao deserto. Somente areia e céu. E calor. Nenhuma nuvem. O horizonte tremulava. O solo se ondulava e se revolvia. Lagartos e serpentes apontavam suas cabeças com línguas vibrantes asquerosas. Seria eu a refeição? Quisera eu jogar meu cajado ao chão e vê-lo transformado numa serpente maior que devorasse as demais daquele cenário. Ergui o bastão para o alto em total desespero. Águias imensas e tantas fizeram, por instantes, sombra sobre mim. Breve refrigério. Arremeteram-se ao chão em tal fúria e velocidade a ponto de nenhum dos répteis sobrarem.
   Subi montanhas de pedras escarpadas. Minhas mãos sangravam. Meus pés todos cortados. Encontrei neve e cicatrizei meus ferimentos no gelo. O gelo tem sido, ao longo de minha vida, um grande amigo. Anestesia-me sempre que necessário e meus músculos voltam a funcionar sem hematomas. Congela pessoas indesejáveis durante o tempo preciso da minha permanência em ambientes comuns.
   Num raro momento de retorno à infância, deitei-me sobre a neve. Meu corpo era meu próprio trenó e o cajado o freio. Fui descendo até a planície. Taiga e tundra. Flores minúsculas, líquens e musgos como os que revestiam meu cajado.
   Cheguei a um bosque de pinheiros. Um raio havia acertado algumas árvores. Uni-as numa jangada. Desci as corredeiras e cheguei ao mar. O cajado era um remo. Naveguei dia e noite. Onda por cima. Onda por baixo.
   Cheguei a uma praia. Coqueiros e palmeiras. Agora caminhava bebendo água de coco. Entrei no mangue. A lama grudava. Cheguei com as pernas petrificadas a foz dum rio. Banhei-me. Andei pelas margens e cheguei a um pequeno lago com cachoeira e uma caverna. Nadei até me cansar. Entrei na caverna. Finquei o cajado entre as pedras como cabideiro. Pendurei minhas roupas e memórias. Passei a viver nu e invisível naquele microcosmo para sempre.
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Oswaldo Eurico Rodrigues


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« Responder #1 em: Novembro 13, 2016, 10:50:19 »

Temos muitas vezes de ficarmos assim. Mas o outro lado chama...
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Oswaldo Eurico Rodrigues
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« Responder #2 em: Novembro 13, 2016, 20:35:18 »

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um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
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margarida, plenamente de acordo.
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Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
Junho 28, 2019, 14:37:28
Boa tarde. Hoje, apeteceu-me saudar todos os que aqui tentam pôr arte na pena. Figasabraço
Maio 18, 2019, 19:22:13
Olá! Boa leitura e boa escrita para todos!
Maio 01, 2019, 17:26:47
Boa escrita e boa leitura para todos!
Março 30, 2019, 10:37:35
Boas leituras e boas escritas para todos!
Janeiro 27, 2019, 19:36:43
Boa noite feliz para todos.
Janeiro 11, 2019, 09:21:27
Olá para todos!
Dezembro 24, 2018, 21:55:27
Boas Festas.
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