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Autor Tópico: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)  (Lida 1229 vezes)
Maria Gabriela de S√° e 2 Visitantes estão a ver este tópico.
Maria Gabriela de S√°
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« em: Janeiro 29, 2020, 21:17:15 »

          - Desta vez correu-te mal‚Ķ ‚Äď disse Fausto para o amigo rec√©m-chegado que acabara de o procurar, sem esperar grandes justifica√ß√Ķes. Era o que fazia sempre. Ou, pelo menos, numa grande parte dos casos. Nunca insistia em arrancar confid√™ncias √† for√ßa de palavras carregadas de insinua√ß√Ķes maldosas, fruto de um conhecimento antecipado sobre a vida dos outros. Soubesse embora estarem eles em maus len√ß√≥is por causa de mau feitio ou v√≠cios que s√≥ a morte poderia curar.
          - √Č verdade‚Ķ
          O rapaz, na casa dos vinte e poucos anos, chegara esbaforido, tal como quem sai de casa √† pressa e sem tempo para meter numa mala meia d√ļzia de pe√ßas indispens√°veis para umas f√©rias de ver√£o, por mais quente que ele estivesse. Era o caso, n√£o seria preciso grande roupa. Ainda assim, n√£o levara nenhuma. Os term√≥metros tinham atingido o descalabro de uma temperatura que, mesmo √†quela hora, marcavam uns sufocantes trinta e sete graus, liquefazendo quantos n√£o conseguiam enganar o calor atrav√©s do recurso ao ar-condicionado.
          - Antes de ires para o quarto, onde ficar√°s o tempo suficiente para resolveres os teus problemas, usas as minhas coisas ‚Äď disse Fausto com uma autoridade em que n√£o cabiam recusas, enquanto ambos se encaminhavam para os aposentos do anfitri√£o -. Todas as pe√ßas te devem servir. Tens roupa interior, cal√ßas, cal√ß√Ķes e cal√ßado para a vida toda, se for caso disso ‚Äď acrescentou o homem mais velho sorrindo.
          - Obrigado, √©s um bom amigo. Sem ti, n√£o saberia o que fazer. Quando dei conta da necessidade de me refugiar em algum lado para p√īr as ideias em ordem, o nome Fausto foi o primeiro a ocorrer-me. Obrigado mais uma vez.
          - N√£o tens de qu√™. E agora trata de ti. Est√°s como se tivesses atravessado um deserto de cem graus Celsius em que at√© o sol se tivesse divertido a tisnar-te e a deixar-te como carne sobre brasas passada do ponto. Est√°s irreconhec√≠vel. Sempre te tive debaixo de olho, de contr√°rio n√£o chegava l√°‚Ķ, a quem tu √©s‚Ķ  
          - Obrigado mais uma vez.
          - De nada. Vai l√° ent√£o.


(continua)

« Última modificação: Mar√ßo 27, 2020, 17:42:46 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #1 em: Janeiro 30, 2020, 16:37:07 »

Um história que promete, e que representa um regresso desejado, desta escritora amiga e agora valonguense.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #2 em: Janeiro 30, 2020, 23:33:41 »

II

          Quando ficou sozinho, o rapaz olhou-se ao espelho da enorme casa de banho da luxuosa suite. O cabelo ruivo, farto e uniforme, sujo como estava, parecia mesmo uma giesta queimada por uma lareira num dia de Inverno. Fausto tinha raz√£o, se a namorada o visse agora, assim enfarruscado, morreria de susto ao primeiro relance. Nunca lhe daria um beijo. Estava num triste estado ap√≥s a sua mais recente travessia de um deserto talvez ainda por inventar. At√© os olhos, de azuis como o c√©u, estavam agora negros da cor do Inferno, fundos e cavos como al√ßap√Ķes cheios de nada. De t√£o alquebrado, sentia-se como se tivesse encolhido uns bons cent√≠metros, e imaginava-se um pequeno duende numa floresta invis√≠vel a olho nu a tentar equilibrar-se nos pr√≥prios ossos.
         Pensar na rapariga, na namorada, deixava-o mais ou menos furibundo. Nos √ļltimos tempos, a sua exist√™ncia, vista de qualquer √Ęngulo, tornara-se demasiado confusa. Uma nuvem de fumo que o impedia de ver as coisas com clareza e perspectivar um futuro ao qual pudesse segurar as pontas.
          Mas, o melhor era n√£o pensar na jovem t√£o cedo. Ou, pelo menos, antes de retomar o seu bom aspecto habitual, que levava as mulheres a apaixonar-se por si num estalar de dedos como se ele fosse um verdadeiro gal√£ de Hollywood.
          Enquanto a √°gua corria para a banheira, um pequeno regato caseiro refrescando o ambiente √† volta, ao olhar-se de novo no espelho, tudo o que estava a viver naquele momento o fazia imaginar-se como um b√™bado a cambalear num hospital antes da maca salvadora. Al√©m de tudo, em estado de coma e com toneladas de lixo √†s costas, e a quem m√©dicos e enfermeiras se recusam a tratar antes de um bom banho. Talvez estivesse, na realidade, num estado de coma provocado por si mesmo para fugir a reflex√Ķes dolorosas e que agora lhe vinham √† mem√≥ria sem tr√©guas.
          Enquanto, emerso na enorme banheira, pele a sentir-se revigorada pela √°gua abundante de espuma, olhava em redor, pensava no amigo como um homem de sorte. Fazia jus ao nome. Vivia efectivamente num ambiente de fausto e como um pr√≠ncipe moderno chegado √† ribalta pelas m√£os da fantasia. Quando abrira gavetas e arm√°rios para tirar a roupa de que precisava, verificara que n√£o faltava ali nada que o benfeitor n√£o pudesse usar em qualquer circunst√Ęncia, por mais extraordin√°ria que ela fosse. Havia de tudo. Desde luxuosos Black Ties e toda a gama de pe√ßas de belas pe√ßas de cerim√≥nia. At√© √†s mais informais bermudas para a pesca de carpas num rio, de baixo do sol a ouvir o murm√ļrio das √°guas e o canto inebriante dos passarinhos. Tudo era efectivamente requintado e de bom gosto. Cal√ßas de ganga de marca, polos t-shirts, sapatos e acess√≥rios como num conto de fadas em que, no fim, tivesse uma donzela vestida de seda √† espera como o grande pr√©mio de toda uma vida.
           Desde sempre conhecera o amigo assim: um homem elegante, capaz de atrair os olhares de meio mundo por entre uma multid√£o. Nos √ļltimos tempos, a sua riqueza aumentara consideravelmente, tal como se Fausto tivesse nascido com o toque de Midas e a pobreza lhe fosse uma infelicidade vedada por um nascimento bem fadado. Agora era dono daquele hotel na montanha, um antigo chal√© que um dia um prospecto publicit√°rio lhe dera a conhecer, a ele, pobre viajante for√ßado, como um excelente local de ref√ļgio. Os pre√ßos, altos e rechonchudos, variavam, ainda assim, √† medida da almofada econ√≥mica dos clientes mais abastados daquele o√°sis. Embora ele, rapaz de aldeia e filho de gente modesta, n√£o pertencesse a essa elite dos pr√≠ncipes do dinheiro. Mas, a necessidade de ir para algum lado, esconder-se,  era muita. Uma verdadeira situa√ß√£o limite, em que se sentira lan√ßado depois de uma m√° jogada da sua parte com cartas que ele pr√≥prio viciara. Por isso se vira na necessidade de procurar o amigo, apesar de, insistia consigo mesmo,  o seu bolso n√£o ser nenhuma mina de diamantes. Muito menos uma caverna de Ali-b√°-b√° com as paredes a escorrerem ouro. Contudo, um dia, apesar de n√£o saber bem como, esperava pagar a estadia naquele para√≠so montanhoso e aquelas f√©rias for√ßadas. Ainda que para isso tivesse de vender a alma ao Diabo.
          Reconfortado depois de sair do banho, daquele ritual de felicidade e bem-estar, optou por umas cal√ßas caqui e uma t-shirt verde justa. Queria confundir-se com as √°rvores da floresta, pinheiro bravo, eucalipto, sobreiro, carvalho e azinheiras, onde, uns s√©culos atr√°s, algu√©m se lembrara de construir aquele robusto castelo destinado a durar mil√©nios. Para isso, fora aproveitada uma imensa clareira de areias, onde, aqui e ali, perdurava uma √°rvore de bom porte respeitada pelo construtor que lhe antevira futura e eterna utilidade. Os carvalhos, sobretudo, tinham atingido um tamanho gigantesco. Recortavam agora enormes sombras, que protegiam recantos onde bancos apraz√≠veis serviam para desfrutar em plenitude da tranquilidade verdejante da montanha e e da sua paz.

(continua)

« Última modificação: Mar√ßo 25, 2020, 15:11:05 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #3 em: Janeiro 31, 2020, 10:04:20 »

Escrita exemplar! Parabéns! Espero a continuação.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #4 em: Fevereiro 03, 2020, 22:43:11 »

          III

..........Quando saiu do quarto, seriam umas seis horas. Dirigiu-se de seguida à entrada a passos contemplativos, observando os pormenores da decoração à sua volta. Já ali havia estado, sujo e tisnado, mal chegara, e, aí, ainda degradado, tinha sido recebido por uma mulher bastante jovem, bonita, a quem, num tráfico de influências descarado, teve de desarmar a má vontade inicial desencadeada pelo seu mau aspecto.
          A pergunta ‚ÄúPor favor, o Dr. Fausto est√°, selou-a ele com o seu nome, como se fosse chave de uma casa forte que guardasse dentro um segredo. Mas, agora, depois dos banhos de √°gua e de roupa de marca, sentindo-se outro, revigorado e atraente. Aproveitou por isso o seu bom aspecto para, sorrindo, se insinuar num galanteio:
          - Estou melhor agora?- ao que ela, sem revelar, apesar de tudo, uma simpatia como a que ele esperava de uma pessoa jovem do sexo feminino, respondeu com alguma ironia:
          - Bastante. Est√° parecido com o meu patr√£o‚Ķ
          - Pode dizer-me onde √© que ele est√° neste momento?
          - Venha comigo, se faz favor.
          A recepcionista caminhava √† frente como modelo de passerelle, enquanto o jovem olhava as elegantes pernas da rapariga, a insinuarem-se sob a mini-saia, que, com a camisa branca, o colete e o la√ßo negro, fazia parte da farda do hotel. Era atraente a empregada do hotel que seria agora o seu ref√ļgio por algum tempo.
          Encontraram Fausto sentado num bar que se valia do couro castanho para imprimir um ar masculino a todo o espa√ßo, e onde nenhuma mulher, at√© a√≠, adquirira o estatuto de dona. Nem do s√≠tio, nem do cora√ß√£o do amigo, que continuava como sempre o conhecera: sem ningu√©m e rodeados de mulheres ao mesmo tempo. Havia quatro maples de couro, alguns esp√©cimes embalsamados, umas cabe√ßas de veado. Todo o ambiente fazia lembrar animais mortos sob √† mira de uma espingarda, ao som dos seus estampidos e ao fogo azul dos ca√ßadores. A ca√ßa, por ali, seria frequente em qualquer √©poca do ano. Talvez como v√≠cio ou simples subjuga√ß√£o da liberdade de outras criaturas. Tanto por parte dos h√≥spedes, como do dono do hotel. Seria, talvez, at√©, uma das raz√Ķes pelas quais o chal√© era t√£o procurado. Sobretudo no outono, quando as neves n√£o tivessem ainda ca√≠do o suficiente para deixar as √°rvores prateadas e os animais inquietos, prestes a aventurar-se mais longe acossados pela fome desencadeada pelo escassear de recursos da esta√ß√£o que se avizinhava.
           Nas prateleiras atr√°s do balc√£o, as bebidas refulgiam das garrafas, e Fausto, n√£o tendo por perto o barman, de momento no terra√ßo ali √† frente das imensas portadas envidra√ßadas do bar a servir um cliente, ele pr√≥prio encheu o copo com a cerveja que o amigo manifestara vontade de beber. Acompanhou-o, depois, no seu whisky de doze anos, bebendo com gozo o almiscarado da bebida.
          Concentrados nas suas estrat√©gias de ataque ao tabuleiro, numa sala ao lado, dois homens jogavam xadrez numa mesa redonda, forrada pelo pano verde que, nos casinos de todo o mundo, apadrinha os jogos fortuna e azar deixando no ar um clima de esperan√ßa e  excita√ß√£o.
          De copo na m√£o, os dois amigos transpuseram as portas corridas das vidra√ßas e sentaram-se frente um do outro no terra√ßo, sorvendo os raios da tarde que se infiltravam curiosos por entre as agulhas belicosas dos pinheiros num moderado frenesim de vento leste.
         - Ent√£o, j√° te sentes melhor? - perguntou Fausto em tom intimista, procurando n√£o chamar a aten√ß√£o do homem que, ali no mesmo terra√ßo, bebia igualmente um whisky, cadenciado com as baforadas de um cachimbo que deixavam no ar um cheiro caracter√≠stico a tabaco havan√™s.
          - Bastante. Sinto-me um peda√ßo de ti metido na tua roupa. Um privilegiado ‚Äď acrescentou sorrindo ‚Äď. Estava capaz de fumar um cigarro para celebrar o meu estatuto de gentleman.
          - N√£o seja por isso. Tens prefer√™ncia por marca?
          - N√£o. Qualquer uma serve. Pode ser a que fumas, j√° que de momento sou uma esp√©cie de teu espelho.
          E Fausto, chamando o barman, entretanto liberto da anterior incumb√™ncia e j√° dispon√≠vel, pediu que lhes trouxesse um ou dois ma√ßos de tabaco e uma caixa de charutos cuja refer√™ncia indicou.
          - Vou fumar tamb√©m. Desta vez um havaiano.
          Depois da primeira baforada de um e outro, o mais recente h√≥spede agradeceu de novo a hospitalidade em voz mais ou menos sussurrada, concentrando-se a um tempo no fumo do cigarro e na bebida. N√£o queria dar a conhecer √†quele estranho, ali ao lado a perfumar o ar com o cheiro doce do seu cachimbo, a sua vida privada e todos os seus n√≥s.
          - Obrigado, Fausto. Ainda que um dia te pague, como conto, nunca conseguirei ver-me livre desta grande d√≠vida para contigo num momento de tanto aperto.
          - Ai pagas, com toda a certeza ‚Äď disse Fausto rindo com ar dissimulado. Se n√£o for neste mundo √© no outro! A prop√≥sito, j√° te registaste na recep√ß√£o com a Orlanda?
           - Ainda n√£o.
           - Bom, √© melhor que o fa√ßas. Embora seja eu o dono, tem de haver um certo controlo. At√© para salvar as apar√™ncias. Como deves calcular, n√£o estou imune ao fisco, , apesar de n√£o ser um pagador imaculado de impostos ao estado ‚Äď disse no mesmo tom reservado com que iniciara a conversa e como quem v√™ no interlocutor um cofre capaz de guardar grandes segredos.
          - N√£o tens de justificar. E vou daqui a pouco ter com ela. Por sinal n√£o √© l√° muito simp√°tica, a tua recepcionista‚Ķ
          - Mas √© discreta. N√£o anda por a√≠ a propalar a vida dos h√≥spedes do hotel, que √†s vezes a tomam por confidente. Ainda assim, n√£o d√™s o teu nome verdadeiro‚Ķ Se os sarilhos andam atr√°s de ti, √© melhor que demorem a encontrar-te‚Ķ
          - Tens raz√£o. E como achas que deva chamar-me? ‚Äď perguntou sem ideias para o seu baptismo tempor√°rio na montanha.
          - Se eu fosse Robinson Cruzoe, chamava-te Segunda-Feira, por causa do dia em que chegaste. Mas talvez isso desse aso a confus√Ķes e mal-entendidos. Sobretudo no in√≠cio da semana. Deveria parecer que se estava a invocar o tempo e a fazer rituais de magia sobre ele sabe-se l√° com que intuitos. Que tal Domingos?
          - Domingos‚Ķ Sim, Domingos parece-me bem. Os domingos s√£o os dias de n√£o fazer nada. Talvez j√° n√£o seja bem assim, desde que que os centros comerciais nasceram. Mas pelo menos ainda v√£o tendo essa fama.
          - Ent√£o, a seguir, quando acabarmos de beber, vais ter com a Orlanda. Diz-lhe que te furtaram os documentos quando vinhas para aqui. Depois j√° posso apresentar-te aos restantes h√≥spedes do chal√©. S√≥ do chal√©, porque para todos os outros, os dos pavilh√Ķes entretanto acrescentados a este corpo principal, n√£o me chegaria a eternidade ‚Äď brincou, agora sem medo de ser ouvido pelo vizinho do terra√ßo.
         - E este aqui ao lado √© quem? ‚Äď perguntou em voz surda, com um trejeito de cabe√ßa, apontado para o homem que,  com eles,  partilhava pachorrento  o fim da tarde. Era elegante, de gestos finos, aparentemente moldados muito mais do que a dinheiro, por um ber√ßo de ouro que lhe permitiria enganar qualquer um sem levantar a mais leve desconfian√ßa.
         - Mateus Rosa, um banqueiro falido a contas com a justi√ßa ‚Äď disse Fausto j√° longe do terra√ßo, com Domingos a dirigir-se √† recep√ß√£o, onde Orlanda parecia estar a aguard√°-lo como mais um indesej√°vel D. Juan, acerca de quem deveria ficar sempre de p√© atr√°s.
         - Hoje em dia os banqueiros t√™m bastante m√° fama. Quase tanto como os homicidas. Apesar de pagarem bem menos do que os assassinos √† cadeia. T√™m deixado milhares de pessoas na mis√©ria por d√° c√° aquela palha. E cada dia s√£o mais e mais sofisticados. Multiplicam-se como pragas no ver√£o fugindo ao calor. Entretanto, v√™m para o teu hotel repousar como nababos‚Ķ
         - Desde que me paguem!... E n√£o julgues ningu√©m. As coisas nem sempre s√£o o que parecem‚Ķ
         Domingos voltou para o mesmo s√≠tio, depois de resolver a burocracia junto de Orlanda, constando agora como mais um h√≥spede com prerrogativas especiais junto do patr√£o. Pediu entretanto uma nova cerveja gelada, desta vez servida pelo barman, um homem dos seus quarenta anos, vestido com a mesma farda da recepcionista na vers√£o masculina que uniformizava a criadagem. Fausto regressou tamb√©m, repetindo a bebida que Paulo lhe serviu entretanto num copo largo ornado a pedras de gelo, fundidas paulatinamente com o whisky no intervalo de cada gole, √† medida que o tempo passava. O banqueiro j√° se havia retirado para a saleta onde os dois clientes, num mundo √† parte, se dedicavam ao jogo de xadrez como a partida das suas vidas. Sem um parceiro para os imitar, Mateus Rosa pegou em dois baralhos de cartas da gaveta de uma mesa e entreteve-se a jogar paci√™ncias ao lado, esperando pela hora do jantar. Ou talvez aguardasse a companhia feminina que, desde que chegara, uns dias depois do velho banqueiro, lhe fazia uma companhia melada por sorrisos carregados de segundos sentidos. As mulheres demoram sempre uma eternidade a sair do quarto quando t√™m de se apresentar perante um homem a quem querem agradar por algum motivo.

(continua)
« Última modificação: Mar√ßo 25, 2020, 15:11:33 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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outono


« Responder #5 em: Fevereiro 08, 2020, 18:35:06 »

O rapaz do isqueiro assassino é um mistério. Mistério, suspense, amor e o que mais vier, são ingredientes para um bom cozinhado literário. Estou curioso.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #6 em: Fevereiro 08, 2020, 22:18:34 »

Capítulo IV (1ª parte)



          -J√° me tornei oficialmente Domingos Saraiva, como me sugeriste. Vou ficar na suite n√ļmero quarto.
          -√Č muito boa.
          -A Orlanda √© que que continua pouco receptiva √† simpatia dos clientes‚Ķ Uma cara fechada com um punho. Nem por eu ser teu amigo.
          -L√° ter√° as suas raz√Ķes. De onde ela veio as coisas com os homens n√£o eram f√°ceis‚Ķ
          -N√£o me digas que se tornou l√©sbica por um acumular de desilus√Ķes?
          -Longe disso‚Ķ- murmurou Fausto como quem est√° prestes a contar um segredo a um amigo, certo de que segredo e amigo tombariam no mesmo dia e em cova √ļnica, finda a vig√™ncia terrena de cada um.
          Depois, prosseguiu com alguma descri√ß√£o:
          -Um dia, quase como tu, Orlanda chegou aqui bastante maltratada, desesperada quase a vomitar as v√≠sceras‚ĶN√£o veio como h√≥spede, mas sim pedir emprego. Era prostituta e teve um problema bicudo com um cliente numa noite de excessos. Passou alguns anos na cadeia, uma ave bonita presa sem gl√≥ria por causa dos maus instintos de um cavalheiro perdido de b√™bado. Ali√°s como o Paulo, o barman, igualmente um homem da noite, na vertente do prestador de servi√ßos, atr√°s de um balc√£o ou por entre as mesas da fauna nocturna. Este tamb√©m se viu envolvido num crime ocorrido numa discoteca. Nessa altura, um jovem foi para o outro mundo fulminado por uma bala cega, dirigida a outro e cujo lugar o pobre rapaz, por azar, tomou‚Ķ
          -Que horror!... ‚Äď espantou-se Domingos, calando-se a seguir durante uns segundos, impressionado com a hist√≥ria ‚Äď. Mas e a Orlanda, a que missa foi? ‚Äď perguntou, em crescendo de curiosidade e alguma apreens√£o, √† medida das revela√ß√Ķes do amigo sobre o passado dos seus funcion√°rios. Demasiado macabro. Era demais para o primeiro impacto.
          -Mais ou menos a mesma coisa‚Ķ ‚Äď acrescentou Fausto ‚Äď.  Certa ocasi√£o, um cliente quis roubar-lhe o apuro da jorna, que ela, da√≠ a nada, teria de dar ao chulo. Mas, antes de o conseguir, o sujeito travou conhecimento com a navalha pouco amistosa de Orlanda. E assim foi despachado de uma vez para o outro lado num s√≥ golpe, cego e certeiro. Depois, quando ela aqui chegou, como era e ainda √© muito bonita, aproveitei-a para a recep√ß√£o, onde agora tu lhe cobras sorrisos que ela n√£o se sente muito disposta a esbo√ßar‚Ķ
          -Bem poderia ser mais af√°vel‚Ķ Antes tamb√©m o devia ser. De contr√°rio n√£o teria clientes. Seria bem mais f√°cil para ela limpar a folha de servi√ßo que a cadeia n√£o costuma branquear. Bem pelo contr√°rio! Na cadeia a troca de experi√™ncias √© sempre muito enriquecedora para quem queira tornar-se num profissional do crime e h√≥spede regular da pris√£o.
          -E onde √© que uma prostituta de rua tem de ser simp√°tica? Tem √© de ser eficiente!
          -Tamb√©m. Mas uma coisa n√£o tira a outra‚Ķ
          -Isso √© mais no caso das acompanhantes de luxo, que √†s vezes tamb√©m aparecem por aqui‚Ķ Essas √© que t√™m de usar a m√°scara da simpatia e do chame para sangrar a carteira do cliente.
          No terra√ßo, a conversa decorria entre os dois homens, que, apesar de n√£o se verem havia alguns anos, era como se se tivessem despedido de v√©spera, no fim de um copo entre amigos, para a vida e para a morte, celebradas uma e outra no mesmo aperto de m√£o.
Fausto era um homem a quem era dif√≠cil atribuir a idade. Aparentava ser bastante mais velho do que Domingos, entre um pai que tivera um filho ainda jovem e um irm√£o com mais dez ou quinze anos em cima. Teria o seu metro e oitenta de altura, e uma estrutura bem proporcionada entre ossos e m√ļsculo. E, sobre um pesco√ßo esguio, um rosto fino apresentava-se t√£o perfeito como se se tratasse do melhor retrato de um pintor famoso que tivesse caprichado nos mais √≠nfimos pormenores. O cabelo era de um louro cor de cobre, ondulado, levemente ca√≠do sobre uma testa alta, no fundo da qual dois olhos verdes atribu√≠am um ar sedutor ao seu dono. Sobretudo quando combinados com o sorriso, nascido nuns l√°bios serenos que pareciam fazer parte da boca de um anjo. Poderia dizer-se que Fausto era um homem muito belo.
          Quase no fim da bebida, e depois de um sil√™ncio em que Domingos digeria as confid√™ncias do amigo ao mesmo ritmo com que bebia a cerveja, o rec√©m-chegado prosseguiu:
          -Ent√£o, dedicas-te √† reciclagem humana e √†s novas oportunidades‚Ķ - disse Domingos com alguma hesita√ß√£o, tentando interiorizar o assunto e sorrindo,por causa da mat√©ria-prima usada para aquilo que deveria ser uma nova pessoa. Ou v√°rias novas pessoas, depois de todas se despirem do passado tenebroso como quem despe uma camisa suja e, ap√≥s um banho regenerador, veste a seguir lantejoulas. Como ele pr√≥prio fizera h√° pouco.
          -Podes diz√™-lo, sim. Novas oportunidades. Segundas, terceiras, quartas oportunidades e por a√≠ adiante. Nunca desisto de ningu√©m, nem morto. Interesso-me sobretudo por casos destes, sobre quem ningu√©m apostaria uma unha para a limpeza de uma latrina. Em cada ser humano, se n√£o se conseguir aproveitar tudo, h√° sempre alguma coisa de √ļtil. Raramente uma ma√ß√£ est√° toda apodrecida. No m√≠nimo, h√°-de ter caro√ßos para semente. Acho que √© at√© por causa disto que a vida cada vez me corre melhor. Puro bafejo da sorte.
          -Pois, j√° vi que continuas a prosperar‚Ķ ‚Äď observou Domingos espraiando o olhar nos pinheiros, onde os raios de sol se tornavam cada vez mais obl√≠quos embora ainda longe do fim do dia -. Parab√©ns por este magn√≠fico hotel de montanha.
          -Obrigado. Devias seguir o meu exemplo. Agregar pessoas perdidas a favor de uma boa causa.
          -E recebes alguma coisa da Seguran√ßa Social por este teu servi√ßo humanit√°rio?
          -N√£o. N√£o recebo. Nem quero. Se assim fosse, n√£o era solidariedade com os ‚Äúmalditos‚ÄĚ, iguais √† Orlanda e aos outros, mas sim aproveitamento. Pelo menos numa boa parte. Tenho c√° mais como ela. E at√© muitos dos que recebem por empregar ex-reclusos e marginais‚Ķ Na realidade, a maioria desses empregadores acaba por vir para aqui gastar o dinheiro, ganho com essa falsa caridade depois de fazerem umas quantas trapa√ßas para chegar ao pote‚Ķ Mas, agora reparo, desde que chegaste n√£o comeste nada. Tens fome ou queres esperar pelo jantar?
          -N√£o, n√£o tenho grande fome. Posso esperar. Como pouco‚Ķ
          -Consegues aguentar at√© √†s nove horas ou preferes enganar o est√īmago at√© l√° com um tri√Ęngulo de queijo e um brioche?
          -N√£o quero comer nada. Esperarei at√© essa hora.
          -Ent√£o, enquanto esperamos, vou mostrar-te o hotel no seu conjunto e todos os seus mist√©rios. Quer do chal√©, quer dos novos pavilh√Ķes. Esta parte aqui √© para os milion√°rios, os que nadam em riqueza melhor do que tu nadar√°s numa piscina de √°gua quente. A parte restante √© para m√ļsicos a quem o dinheiro n√£o telinte t√£o harmoniosamente como no bolso de banqueiros iguais a Mateus Rosa.

(excerto do IV capítulo) continua
« Última modificação: Mar√ßo 25, 2020, 15:12:03 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #7 em: Fevereiro 10, 2020, 19:31:10 »

Isto promete!!!
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« Responder #8 em: Fevereiro 10, 2020, 22:37:21 »

IV

          Preparavam-se para se levantar, a fim de encetarem a visita, quando Domingos pegou no isqueiro de ouro com que acendera h√° pouco o cigarro, fazendo men√ß√£o de fumar de novo.
          -N√£o fumes agora. √Č proibido faz√™-lo l√° fora, em quase todos os lados. J√° viste se uma ponta de cigarro distra√≠da se abra√ßasse a uma giesta seca e os dois inflamassem tudo como s√≥ o fogo √© capaz? Embora haja a√≠ um lugar onde √†s vezes certos h√≥spedes v√£o fazer rituais √† roda de uma fogueira, como meninos que de inocentes nada tem!... S√≥ que eu n√£o vejo e n√£o consigo impedi-los‚Ķ Talvez nem queira, por raz√Ķes econ√≥micas √≥bvias‚ĶVamos l√° passar daqui a bocado.
          -Desculpa, n√£o pensei nisso. Tens toda a raz√£o. Seria um perigo. Mas √© que estou mesmo a ressacar‚Ķ N√£o tenho fome, contudo, preciso de meter qualquer coisa nos l√°bios e na boca‚Ķ
          -Pois, mas n√£o √© nada disso‚Ķ - disse Fausto com algum mist√©rio e uma boa ponta de compreens√£o ‚Ķ - Chegaste h√° cerca de tr√™s horas, com o tempo de viagem, e ainda n√£o alimentaste esse animal‚Ķ
          Domingos baixou os olhos.
         -Desculpa ‚Äď disse de novo, certo de que, como o seu hospedeiro dissera que nunca o tinha perdido de vista, lhe conhecia assim todos os v√≠cios de humano fr√°gil entre os fortes, que ele n√£o se orgulhava de ser -. Talvez tenha de ir embora mais cedo por causa do animal a que te referes‚ĶDepois volto c√° devolver-te a roupa e os t√©nis‚Ķ
          -N√£o penses nisso, nem te preocupes‚Ķ Vou resolver-te o problema por agora. Anda comigo.
          E, entrando no bar, atravessaram depois a ampla recep√ß√£o, onde Orlanda continuava atr√°s do balc√£o, a conferir se as chaves dos quartos estavam penduradas nos s√≠tios devidos e a verificar o livro de entradas. √Ä frente tinha o computador e um telem√≥vel, o que, aliado √† ansiedade por causa da ressaca em progress√£o, provocou no rapaz um certo p√Ęnico.
          -S√≥ agora me dou conta de que n√£o trouxe o meu. Devo t√™-lo perdido durante a viagem. Se precisar de telefonar ou mandar uma mensagem n√£o posso faz√™-lo‚Ķ.
          Fausto, no cimo do lan√ßo superior da escadaria que levava aos dois andares superiores, no √ļltimo dos quais, com uma vis√£o de muitos graus sobre a montanha, era o seu quarto, estacou e puxou para cima Domingos na frase que proferiu num √™nfase mais ou menos c√≥mico:
          -Para que queres tu um telem√≥vel quando aqui nem sequer h√° rede? Os h√≥spedes v√™m para se verem livres do mundo, n√£o para se me meterem na boca dele!
          Domingos respirou fundo, tentando engolir o seu imperdo√°vel esquecimento. Sorriu de seguida, salvo pela pureza da montanha, imperme√°vel em boa parte √†s tecnologias de globaliza√ß√£o que nos tornava um alvo f√°cil da devassa alheia em qualquer parte do mundo.
          Ap√≥s o absurdo do telem√≥vel, juntamente com o anfitri√£o, o rapaz subiu at√© ao quarto onde estivera h√° pouco e de onde sa√≠ra metido na roupa do amigo.
          Fausto, de uma das paredes da sua suite, de baixo de um quadro de uma crian√ßa a chorar pintado por Giovanni Bragolin, depois de abrir um cofre embutido na referida parede, retirou dele um pequeno saquinho de pl√°stico com algo branco e macio no seu interior. Ao lado, ainda no cofre, havia um recipiente de pl√°stico com tampa, de onde Fausto tirou tamb√©m uma pequena colher de caf√©, um pedacinho de papel vegetal e uma palhinha. A seguir mandou sentar Domingos em frente ao tocador espelhado dos seus perfumes, e, deitando com a colher uma pequena pitada do produto sobre o papel, disse-lhe com cinismo dissimulado:
          -O quadro √© de mau gosto, mas para mim √© uma esp√©cie de fetiche‚ĶAnda, senta-te e snifa um bocado. Ou, se preferires, tens aqui uma seringa e tudo o que precisas se optares pela veia. Mas √© s√≥ por hoje!... Isto √© apenas para situa√ß√Ķes de crise. N√£o quero ter de chamar ao hotel o INEM para nenhum h√≥spede a trepar pelas paredes como um gato assanhado no meio de uma ressaca de coca√≠na ou de qualquer outra coisa!
          E deixou o rapaz sozinho por alguns minutos, em frente ao toucador, enquanto ele, atrav√©s da ampla janela do quarto, olhava a montanha com um olhar misterioso e dominador simultaneamente.

contínua

Capítulo V
Capítulo V (O Rapaz do Isqueiro Assassino

          Da√≠ a um peda√ßo, quando Domingos acabou a reposi√ß√£o dos seus n√≠veis de adrenalina no sangue, sa√≠ram para a entrada do chal√© com algum vagar.
          Fausto, fazendo quest√£o de ser ele a levar a cabo uma visita guiada ao complexo, dirigiu-se √† entrada, onde, contra o que seria de esperar, n√£o havia qualquer port√£o. Nem sequer uma guarita como a de um quartel, onde um porteiro nocturno pudesse receber um o soldado retardat√°rio no meio de uma tempestade de areia ou meteoritos. Os muros, em todo o per√≠metro, eram todavia, alt√≠ssimos, sendo de presumir que nenhum cliente conseguisse fugir atrav√©s deles sem pagar a estadia. Ainda que fosse um verdadeiro alpinista de montes t√£o √≠ngremes os Alpes Su√≠√ßos ou mesmo o Evereste.
         Ao chegarem perto da entrada do complexo hoteleiro, o mesmo c√£o dissuasor de Domingos, quando o impediu de entrar com a sua mota de escape livre, apressou-se a lamber amistosamente as m√£os ao dono, enquanto lhe saltava ao peito dan√ßando nas patas traseiras uma esp√©cie de chula vareira.
          -Ent√£o Diabinho, est√°s com muito calor ou nem por isso, meu velho? ‚Äď perguntou Fausto, deixando-se lamber em seguida e apresentando ao rapaz, im√≥vel e algo distanciado daquelas manifesta√ß√Ķes de afecto, um negro mastim brasileiro digno de respeito.
          -J√° o conhe√ßo. Veio ter comigo √† entrada, quando cheguei. Sem qualquer latido, dan√ßou sozinho √† frente da moto como agora dan√ßou contigo nessa demonstra√ß√£o de amor. Era como se me quisesse impedir de cavalgar em cima dela, bem diferente de um qualquer dos quatro cavaleiros do Apocalipse a entrar majestosamente aonde devia sobre o seu cavalo.
          E, olhando para fora, encostada ao muro e √† sua espera para o regresso, ainda n√£o sabia quando, Domingos viu a sua lambreta estacionada, bonita obediente e calada. Com ela galgara uma estrada de alguns √≠ngremes quil√≥metros, at√© desmontar ali. Tinha-lhe um amor semelhante ao que havia entre o c√£o e o dono seus hospedeiros. Um amor, por assim dizer, forte, como forte era o brilho reluzente do metal que a alindava, e como se a sua moto fosse uma mulher bonita e bem maquilhada para uma festa elegante a fim de brilhar no meio de uma multid√£o de convivas igualmente reluzentes e aperaltados.
          -Vais dizer-me que a via est√° em mau estado, cheia de mato e silvas de um lado e outro, que a engolem como ervas carn√≠voras a pedirem a morte por guilhotina. Ou, ent√£o, a cabe√ßa de um f√≥sforo riscado e incandescente, atirada ao acaso para provocar danos aleat√≥rios. Mas agora quase j√° n√£o √© usada. Nem para passeios pedestres. Praticamente todos os h√≥spedes chegam de helic√≥ptero, deixando os carros bem longe por causa da polui√ß√£o. Aqui fazemos como os milion√°rios exc√™ntricos a quem saiu o Euromilh√Ķes e que at√© √† padaria v√£o de avi√£o comprar um papo-seco.
          Domingos riu-se e, a medo, tentou fazer uma festa a Diabo, sem este se tornar muito efusivo, e, muito menos reagir ao acanhado mimo, enquanto Domingos admiradamente dizia:
          -√Ä excep√ß√£o do vira de um lado para o outro, bailado √† entrada e √† minha frente, o Diabo comportou-se como um Anjo com letra mai√ļscula e sem pinta de raiva. Mal me viu descer da mota, deitou-se sobre o peito como um cordeirinho cansado em hora de sesta. E quando, pausadamente, passei por ele com um falso √° vontade, parecia dormir qual justo vergado ao peso de cansativas mas boas ac√ß√Ķes. Sobretudo daquele dia. Nem sequer pestanejou.
-Tens raz√£o. √Ä entrada √©, de facto, um sineiro a dar as boas-vindas aos h√≥spedes. √Ä sa√≠da √© que √© pior. Faz jus ao nome. S√≥ sai daqui quem eu deixar. O Diabinho tem uma esp√©cie de sexto sentido e um excelente olho cl√≠nico para diagnosticar os pensamentos das pessoas. Sobretudo os maus. Por isso n√£o h√° aqui port√£o, nem ferrolho. Ele √© a minha chave mestra, sem eu ter de carregar com ela cada vez que algu√©m, por qualquer raz√£o, queira indevidamente fechar-se no quarto a fazer seja o que for de indigno ou impr√≥prio. Se algu√©m pusesse o p√© em ramo verde, encarregar-se-ia de impedir que, levasse simplesmente como recorda√ß√£o um cinzeiro com o logotipo do hotel ou um roup√£o de banho. √Č um √≥ptimo c√£o de guarda. Na verdade √© mais do que os meus olhos e ouvidos quando n√£o ando por aqui ou estou ocupado A minha alma, em suma‚Ķ
           -E mete muito respeito‚Ķ Se n√£o fossem as condi√ß√Ķes em que me encontrava, sujo como um vagabundo e esgazeado, nem teria entrado s√≥ para n√£o ter de passar por ele e pelo seu natural ar de fera. Mas, desnorteado, um barco sem b√ļssola e com a estrela polar encoberta, precisava como nunca de uma t√°bua de salva√ß√£o a que me pudesse agarrar, e de algu√©m que me chegasse um copo de √°gua no meio de uma tormenta cuja dimens√£o ainda n√£o compreendi muito bem nem qual foi. Sentia-me t√£o sequioso, peganhento e cheio de crostas como se tivesse sido vomitado pela boca de um vulc√£o.
Felizmente, encontrei-te! De contr√°rio, a esta hora ainda estaria com o mesmo ar de homem em apuros, plantado em frente da Orlanda com um problema √†s costas que n√£o conseguiria resolver sozinho. Obrigado mil e uma vezes ‚Äď agradeceu de novo Domingos.
           -N√£o me agrade√ßas mais que me confranges. Ent√£o se sou capaz de ajudar estranhos com passados de faca e alguidar como a rapariga, n√£o iria ajudar um amigo? V√°, anda da√≠.
A prop√≥sito, a ‚Äúreceita‚ÄĚ j√° est√° a fazer efeito?
           -Sim. Sinto-me reconfortado. Animado para o passeio at√© √† hora do jantar. Capaz de escalar os Alpes
           -Ainda bem. Vamos l√°. Vais gostar do meu habitat milenar, povoado, a toda a hora, com gente de todas as partes do mundo ‚Äď disse Fausto com um sorriso franco e simultaneamente enigm√°tico.
           Fausto deu de seguida uma palmadinha c√ļmplice no dorso do animal. Este foi deitar-se, pachorrento, no seu local privilegiado, debaixo de um pinheiro bravo, enrolado num novelo e com a melhor apar√™ncia ursinho fofo para adormecer crian√ßas de sono dif√≠cil.
           Os dois amigos afastaram-se um pouco, enquanto levantavam os olhos para o exterior do chal√©, localizado perto da entrada, do lado direito. De constru√ß√£o antiga, dir-se-ia, metaforicamente, milenar, o que se impunha ao primeiro olhar eram os mil e um telhados negros de lousa, sobre outras tantas janelas do que pareciam √°guas-furtadas em cascata. Sucediam-se umas √†s outras at√© ao √ļltimo andar, indo depois o tecto do edif√≠cio morrer numa pir√Ęmide de templo chin√™s. Bastante inclinadas, as coberturas tinham semelhante configura√ß√£o para, no Inverno, permitirem que a neve n√£o ficasse a√≠ acumulada longos meses levando-os ao colapso antes de derreter. Dos primeiro e segundo andares fazia parte a zona das suites, e, no r√©s-do-ch√£o, situavam-se as √°reas de apoio, a sala de jantar, comprida e ampla como a nave central de uma igreja, bar, sala de jogos, e ainda uma superf√≠cie de lazer onde os h√≥spedes poderiam assistir a sess√Ķes de cinema. A cozinha e copa, privativas do chal√©, ficavam atr√°s da recep√ß√£o. De resto, havia varandas em todos os andares, grandes terra√ßos no r√©s-do-ch√£o, praticamente a toda a volta do edif√≠cio, cobertos ainda com os mesmos telhados de pagode que conferiam a toda a estrutura um toque de privacidade. Fora o primeiro espa√ßo a funcionar como hotel, e, √† medida que os neg√≥cios eram soprados pelo vento da abund√Ęncia, Fausto expandia-se gra√ßas √† copa frondosa da sua √°rvore do dinheiro. At√© se ter tornado num homem abastado e cheio de expedientes lucrativos.
          -Bonito, o teu chal√©.
          -√önico no mundo, na verdade. Mas eu sou suspeito ‚Äď sorriu.

Continua
« Última modificação: Mar√ßo 25, 2020, 15:12:31 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #9 em: Mar√ßo 16, 2020, 20:42:57 »

Vai de vento em popa e a levar os leitores em atenção redobrada.
Continuemos!
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Pensar amar-te, é ter o acto na palavra e o coração no corpo inteiro.
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« Responder #10 em: Mar√ßo 17, 2020, 17:30:28 »

VI

           Acompanhado por Domingos, Fausto dirigiu-se depois para o lado esquerdo do bosque. Caminhavam sobre o empedrado, comum a todas as ruas, bordejadas por √°rvores diversas, e, mesmo √†quela hora, o calor era tanto que se viam as suas ondas a emergir das pedras, incendiadas pelo sol a pique do meio-dia, que j√° se fora h√° tempos, mas cuja quentura ainda permanecia agarrada ao ch√£o. Era como se o vento leste, esperado para a noite, tivesse feito ali o seu hangar favorito. Nem um p√°ssaro se ouvia, e o murm√ļrio das folhas n√£o deixava d√ļvidas de que estariam a congeminar uma forma expedita de resistir, presas nos ramos, √†s fortes rajadas nocturnas.
          √Ä medida que iam progredindo para a esquerda, come√ßou a ouvir-se, cada vez mais n√≠tida, uma m√ļsica aos saltos, que perturbava a pacatez da montanha. Era uma chinfrineira dessas que fazem pensar nos bailes populares de ver√£o, nas festas de Agosto. Uma mulher cantava uma can√ß√£o, t√£o f√°cil de ouvir e de cantar como se a can√ß√£o fosse, ela mesma, uma mulher da vida impregnada de segundos sentidos.
           Conforme iam avan√ßando e a m√ļsica se tornava ensurdecedora, a perspectiva de um conjunto arquitect√≥nico de seis pavilh√Ķes escuros come√ßava a tonar-se maior aos olhos de Domingos. Dispostos tr√™s a tr√™s em meia-lua, de cada lado do arruamento, que se abria agora numa rotunda, aproximava os h√≥spedes num conv√≠vio circular, visto todas as entradas se poderem ver umas √†s outras em simetria. Sete ou oito pessoas, homens e mulheres, sentadas em cadeiras castanhas de pl√°stico, abancando m√£os e bra√ßo em mesas do mesmo material, bebiam cerveja e comiam estridentes amendoins. E, como se depreendia pelo som que que se alongava pela montanha, o ambiente era alegre e de festa.
           Domingos n√£o gostou particularmente da maneira como o amigo concebera aquela parte do complexo tur√≠stico. J√° fora, com certeza, branco, mas agora todos os edif√≠cios pareciam ter sido assaltados por fuligem j√° madura, que a insanidade de labaredas teria deixado para tr√°s ap√≥s a barbaridade de  inc√™ndio os chamuscar.
           A primeira coisa que todo o conjunto lhe fez lembrar foi o Campo de Prisioneiros de Auschwitz, tal como as in√ļmeras fotos e filmes lho tinham dado a conhecer quando deambulara em jornais e leitura de ocasi√£o por essa parte negra da Hist√≥ria do S√©culo XX. S√≥ faltariam, talvez, as chamin√©s dos cremat√≥rios no tecto de cada bloco, a conferir-lhe a autenticidade de campo de exterm√≠nio nazi. Todavia, como a compara√ß√£o era quase maquiav√©lica, limitou-se a falar na necessidade de uma nova pintura que restitu√≠sse algum brilho √†quele sector mais ou menos abandonado, sem sombra de d√ļvida destinado a bolsas bem mais modestas do que as que se aventuravam no chal√©. Por outro lado, enquanto alinhava palavras politicamente correctas para dizer alguma coisa, questionou-se intimamente sobre a esp√©cie de protegidos de Fausto:
           ‚ÄúEstar√£o a trabalhar nesta parte assassinos em s√©rie escapados da cadeia escondidos em pa√≠ses de brandos costumes? Violadores? Canibais? Fixe para eles, que t√™m a sorte de n√£o ter nascido na Am√©rica, na vig√™ncia da cadeira el√©ctrica ou da injec√ß√£o letal. Fixe por terem encontrado um cora√ß√£o de plasticina, sens√≠vel √†s consequ√™ncias de modelos de comportamento t√£o graves como umas facadas no bucho de um frequentador de bord√©is e uma prostituta de rua‚ÄĚ.
No meio de um colar de cantigas em enfiada cujo som obrigava a um esfor√ßo de voz suplementar, para Fausto o conseguir ouvir, quando as associa√ß√Ķes de ideias lhe deram tr√©guas, Domingos, escolhendo preciosos eufemismos a fim de caiar a situa√ß√£o, tanto como as paredes dos pavilh√Ķes precisavam de ser caiadas, deu por fim a sua opini√£o:
           -Gosto menos desta parte. Precisa, como √© bom de ver, de levar cor. Talvez branco, para contrastar com o verde das √°rvores e o castanho dos troncos.
           -√Č claro que sim. Isto est√° feio e escuro. Parece o Inferno. Mas, l√° iremos‚Ķ Para o ano, sem falta, se a vida continuar a ser bondosa comigo‚Ķ
           -De qualquer modo, as pessoas parecem felizes. Daqui a nada estar√£o todas  freneticamente a dan√ßar‚Ķ
           -Estas vieram h√° pouco tempo. Ainda est√£o a festejar a chegada‚Ķ √Ä sa√≠da as manifesta√ß√Ķes de alegria s√£o bem menores‚Ķ
           -Pois. L√° diz o lugar-comum:- Para onde vais? Vou para a festa. De onde vens? Venho da festa‚Ķ, assim num tom de melancolia e saudade...
          Mas, ainda n√£o vi nenhuma crian√ßa‚Ķ N√£o s√£o admitidas por aqui? ‚Äď perguntou Domingos, interessado em perceber aquilo que lhe parecia uma exclus√£o liminar das pobres criancinhas ‚Äď. H√° hot√©is que n√£o as querem‚Ķ
           -Este √© um deles. Por duas raz√Ķes: por um lado, nunca se sabe se, num dia qualquer, n√£o h√° um maluco a raptar alguma, a viol√°-la e a mat√°-la dando m√° fama ao hotel. N√£o seria o primeiro caso. Por outro, h√° um ditado que diz: Diabo √† noite com canalha deitado, de manh√£ acorda molhado ‚Äď. E, ao dizer isto, soltou uma gargalhada, seguido por Domingos que nunca tinha ouvido semelhante prov√©rbio sobre o Diabo e sobre canalha, por quem, pelos vistos, Fausto n√£o morria de amores.
          -E c√£es? ‚Äď perguntou depois.
          -Tamb√©m n√£o. O Diabinho n√£o lidaria bem com eles. √Č uma quest√£o de dom√≠nio e lideran√ßa. O seu cheiro est√° por todo o lado como uma impress√£o digital, aliada aos seus p√™los e cuspe. Este territ√≥rio pertence-lhe inteiramente. √Č o seu santu√°rio.
          -A prop√≥sito, podias mandar construir uma capela. Passavas a realizar casamentos...
          -Mas, l√° est√°. Com uma capela, teria de admitir crian√ßas. Al√©m de que sou ateu e agn√≥stico ‚Äď respondeu Fausto, como se quisesse acabar por a√≠ o assunto, que, de algum modo, parecia irrit√°-lo, atenta a express√£o carregada em que  encarcerou o sorriso anterior √† sugest√£o.
           A Domingos, de posse de um diploma do d√©cimo segundo ano, conseguido quase √† beira da desist√™ncia, os conceitos de ‚Äúateu‚ÄĚ e ‚Äúagn√≥stico‚ÄĚ soaram como realidades inating√≠veis √† sua compreens√£o basilar de rapaz sem grandes perguntas sobre religi√£o e filosofia. Todavia, teve a intui√ß√£o clara de que, para Fausto, Deus era um absoluto embuste, e institui√ß√Ķes criadas √† sua sombra, como o baptismo e o casamento, realizados eventualmente numa capela semelhante √†quela cuja constru√ß√£o lhe acabara de sugerir, seriam o prolongamento da pantomina e uma absoluta perda de tempo. Para ele, um solteiro de bem com esse estatuto e um bon vivant metaforicamente secular, era-lhe indiferente que um homem e uma mulher, vestidos a rigor, se casassem numa igreja consagrados por um padre, ou numa taberna com uns andrajos sujos e ao som de dois copos de vinho, num brinde feito pelo taberneiro numa atitude de deboche.
           -Sim. S√≥ nos casamentos reais √© que as crian√ßas ficam em casa entregues √†s amas. Os reis e pr√≠ncipes, pelo visto, partilham as tuas ideias sobre os mi√ļdos ‚Äď acrescentou o rapaz depois da exaustiva reflex√£o a que fora levado pela informa√ß√£o jornal√≠stica sobre o assunto.  
           -Vamos entrar e ver como s√£o por dentro estes acrescentos ao projecto inicial ‚Äď sugeriu Fausto, quebrando os pensamentos do rapaz sobre a filosofia de vida do amigo.
          No hall de entrada, amplo, a primeira coisa que se imp√īs a Domingos foi o ch√£o, um imenso tabuleiro aos quadrados pretos e brancos, grandes a ponto de quase caber em cada um deles qualquer uma das trinta e duas pe√ßas de um tabuleiro de xadrez em tamanho vivo. Incluindo o cavalo e a torre sineira de um castelo medieval. O que o fez pensar na inspira√ß√£o l√ļdica que teria guiado o arquitecto e o dono na concep√ß√£o do aglomerado. Jogo puro, como a vida n√£o deixava de ser, com cada ser humano sempre pronto a dar o xeque-mate ao advers√°rio. E, por entre maples pretos de tamanho grande, jarr√Ķes brancos, com flores secas dispostas no seu interior, √† frente de um balc√£o para atender clientes, vazio de momento, completavam a decora√ß√£o, tornando o espa√ßo relativamente acolhedor na sua impon√™ncia.
           Um homem chegou entretanto, ap√≥s descarregar do carro de servi√ßo, sob o coberto da entrada, as malas de um h√≥spede que o acompanhava. Este acabara de chegar de helic√≥ptero, segundo percebera pelo som de uma h√©lice que abanara o ar quente da tarde e as folhas das √°rvores √† sua passagem. O empregado, no seu fato misto de camareiro e piloto, diferenciado apenas pelo bon√© ornado a ouro exclusivo do exterior, tinha ido buscar o novo cliente.
          Indo em direc√ß√£o ao elevador, mal viu Fausto, que raramente se deslocava √†quela zona, o funcion√°rio fez o mesmo ar de quem acaba de apanhar um susto, enquanto era sacudido por um pequeno estreme√ß√£o de surpresa. Depois, com alguma atrapalha√ß√£o e como se tivesse medo de ser repreendido por algum deslize cometido entretanto, cumprimentou o patr√£o num misto de receio e servilismo:
          -Boa tarde, Dr. Fausto, como vai?
          -Bem, obrigado. E o trabalho por aqui?
          -Vai andando. Eu bem me esfor√ßo. Se n√£o h√° mais clientes √© porque a concorr√™ncia redobrou de ast√ļcia.
          Fausto esbo√ßou um sorriso e, j√° em jeito de despedida, retorquiu:
         -Nada mal. Mas, podes fazer melhor, se quiseres. Tens jeito para o mercado‚Ķ
          Entretanto os dois amigos afastaram-se, j√° o elevador envidra√ßado, mais ao fundo, subia com a bagagem do rec√©m-chegado cliente e empregado dentro, este estimulado pelas palavras encorajadoras do patr√£o.
          -Este homem, al√©m de camareiro e piloto, √© angariador de gente para passar aqui f√©rias. √Č um perfeccionista. Muito ambicioso, nunca est√° satisfeito com os resultados. Ganha √† comiss√£o. Julga sempre que nunca estou satisfeito com o seu trabalho, quando √© ele que quer mais e mais. √Äs vezes tenho a certeza de que me inveja, que queria vestir as minhas camisas e apoderar-se do que √© meu. Mas, enquanto cumprir como at√© aqui √© pac√≠fico‚Ķ
           E foi ent√£o que Domingos pensou na grande probabilidade de Fausto ter tantos amigos como inimigos, apesar da sua ac√ß√£o de bom samaritano apostado em reintegrar ex-condenados, com um enorme passado √†s costas refinado como a√ß√ļcar pela alquimia da pris√£o.
           -Ent√£o, e este, qual √© a especialidade dele? ‚Äď perguntou curioso e com um sorriso de provoca√ß√£o.
           -O Elias? ‚Äď Tr√°fico de Coca√≠na. Um pequeno bar√£o da droga. Mas perdeu tudo ao jogo. Sabes como √©, dinheiro f√°cil, que, se a √°gua o traz, a √°gua o leva na primeira enxurrada. Foi o que lhe aconteceu‚Ķ
          -Deve ter sido ele a abastecer-te para as emerg√™ncias do hotel...
          -Claro! ‚Äď respondeu Fausto, sem vontade de dar mais explica√ß√Ķes sobre o seu pessoal, estranho para o senso comum de uma pessoa que nunca tivesse posto um p√© em falso.
          Mas, vamos l√° ao passeio. Daqui a pouco ficas com fome e uma pessoa esfomeada transforma-se num alucinado, com todos os sentidos a convergir em tropel para a comida como um enxame de moscas. Um homem com fome √© um canibal em pot√™ncia.
          -Ainda n√£o cheguei a esse limite ‚Äď acrescentou Domingos -podes confiar em mim ‚Äď brincou.
           Enquanto conversavam no tom ir√≥nico que o passado dos seus colaboradores n√£o deixava de sugerir, tomavam um arruamento ap√≥s outro, tendo a natureza como pano de fundo, mais ou menos  a segredar-lhes sons estranhos e  misteriosos. Mais uma unidade do Auschwitz, como a imagina√ß√£o de Domingos lhe sugeriu logo que come√ßou a visita conduzida pelo dono, o mais sabedor dos guias tur√≠sticos do mundo.
          Depois, mais adiante, entrariam no caminho de terra que conduzia ao desfiladeiro, debru√ßado sobre a magia natural de um rio correndo sob um abrupto desfiladeiro. Mas s√≥ o alcan√ßariam a seguir a uma subida √≠ngreme, que lhes deixaria a roupa impregnada com o odor da transpira√ß√£o desencadeada pelo esfor√ßo e pelo calor infernal da tarde. Este n√£o dava tr√©guas, mesmo ali no meio da montanha, com o vento a bulir em fogo. E ent√£o atingiriam o ex libris do hotel, o respons√°vel n√ļmero um pela procura de experi√™ncias, quase se poderia dizer, radicais. Se havia local no mundo prop√≠cio a desencadear adrenalina era aquele, fundido medo e aventura num s√≥. Era como lan√ßar-se, num voo √ļnico, para a liberdade e para a eternidade simultaneamente.
           Num pequeno recanto do percurso, sombreado por um carvalho, sentada ao lado de uma pequena fonte, uma mulher ainda jovem estava a ler, concentrada e im√≥vel como a pedra do banco em que se sentava. Alheada de tudo, parecia estar a viver momentaneamente num outro mundo, ali sobre as p√°ginas do livro, e a fazer parte da hist√≥ria como a sua protagonista. Ao v√™-los aproximar-se, fechou-o maquinalmente, e ent√£o os dois amigos puderam verificar que se tratava de ‚ÄúA Divina Com√©dia‚ÄĚ de Dante.
          A seguir, foi Fausto a admitir a hip√≥tese de a sua h√≥spede, por causa da cara de felicidade apresentada, estar, com toda a certeza, na parte que tratava do Para√≠so e do seu universo de anjos diafanamente esguios.
Enquanto isso, mais do que postas em relevo as fragilidades culturais de Domingos, foi Fausto a estabelecer de novo o paralelismo po√©tico entre o medievo Dante, com a sua ‚ÄúDivina Com√©dia, e o renascentista Cam√Ķes com os seus Lus√≠adas, um e outro devotados √†s causas √©picas da Humanidade e √† sua vis√£o do Universo, em que o Outro Mundo n√£o deixava de estar contemplado.
          Quando acabou, Domingos, entre um sorriso idiota e um olhar desinteressado por literatura, sem hesita√ß√Ķes como as anteriores ao imaginar os pavilh√Ķes como uma r√©plica de Auschwitz, sem se envergonhar do seu Calcanhar de Aquiles sobre bibliotecas e livros, disse:
          -Para quem chegou aqui roto e quase nu, toda essa Literatura √© capaz de ficar empanturrado mesmo antes do jantar.
          E riu-se com ar de gozo.
          -Ai se Fernando Pessoa te ouvisse!
          -Porqu√™?
          -Ent√£o e o seu poema ‚ÄúLiberdade‚ÄĚ mundialmente conhecido por amantes de livros e de bibliotecas?
          -Pois. Se alguma vez o ouvi n√£o me lembro.
          -Tamb√©m n√£o serei eu agora a declam√°-lo‚ĶMas, tens raz√£o ‚Äď anuiu, sorrindo igualmente - Vamos l√° deixar a senhora no d√©cimo c√©u das suas aspira√ß√Ķes, desejando que n√£o sofra qualquer vertigem do voo em nenhuma circunst√Ęncia. Se n√£o ficar cega entretanto, oxal√° n√£o tire os p√©s da terra, de onde pode sempre contemplar a lua e as estrelas. O c√©u √© uma coisa dif√≠cil de alcan√ßar. Sobretudo por amantes de prazeres id√™nticos aos que o meu hotel proporciona‚Ķ

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« Última modificação: Mar√ßo 25, 2020, 15:13:00 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #11 em: Mar√ßo 24, 2020, 20:38:16 »

De um f√īlego. Como quem espera o final sem desejar que esta hist√≥ria termine. Bem Bom!
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« Responder #12 em: Mar√ßo 24, 2020, 21:38:46 »

VIII

          Como a hora avan√ßasse, havendo, apesar de tudo, ainda bastante sol, verdes, saindo, de onde em onde, debaixo das pedras, lagartixas no seu camuflado atravessavam com rapidez o empedrado, sobre o qual  os dois homens seguiam com relativa  ligeireza.
          -Deve haver bastantes animaizinhos destes por aqui ‚Äď fez notar o rapaz, numa constata√ß√£o evidente da biodiversidade que a montanha albergava no seu meio √ļnico.
          -Sim. E n√£o s√≥. Cobras e lagartos tamb√©m. Est√£o no seu ambiente natural. N√≥s √© que estamos deslocados. √Ä beira do chal√© aparecem bem menos. Querendo sossego, fogem a sete p√©s dos humanos como o Diabo foge da cruz. E dos gatos, uns pequenos seres bem atrevidos para o seu tamanho, que gostam de se divertir com elas fazendo-as rabiar com malabarismo. Embora raramente levem a melhor. Animais ladinos, as lagartixas. Em contendas, podem ficar sem o rabo, mas raramente perdem a cabe√ßa, como muitos humanos.
          Ao aproximarem-se de uma clareira, onde um rel√Ęmpago tinha lambido a labaredas meia d√ļzia de pinheiros, Domingos reparou em dois homens e uma mulher, que, ao verem os amigos aproximar-se, come√ßaram a afastar-se. Tornava-se n√≠tido que ali, frequentemente, eram acendidas fogueiras sem nada a ver com magustos gigantes de outono. Seriam com certeza  vest√≠gios dos rituais de que Fausto j√° o pusera ao corrente. E, ao chegarem-se mais, viram ainda que, naquele s√≠tio, agora mais ou arenoso e lavado pelas √°guas da √ļltima chuvada, estava desenhado um pentagrama invertido como uma banal constru√ß√£o de areia numa praia prop√≠cia √† arte ef√©mera.
          -Falaste-me nisto h√° pouco‚Ķ
          -Alguns h√≥spedes v√™m para aqui fazer ritos sat√Ęnicos. Sacrificam at√© animais. A maioria das vezes lagartixas como as que viste agora, e cobras. Mas tamb√©m gatos. N√£o √© raro chegar-se aqui e v√™-los mortos, depois de lhes terem bebido o sangue at√© √† √ļltima gota. No fim, terminado o culto e a invoca√ß√£o do mal, os abutres v√™m aqui buscar as carca√ßas. D√° para todos, presumindo eu que, a haver algum resultado depois, at√© as √°guias, os milhafres e todos os predadores se tornem demon√≠acos.
          -Mas, h√° gatos aqui? E que raio de h√≥spedes tu tens! ‚Äď exclamou Domingos, meio a s√©rio meio a brincar.
          -H√°. Quando o hotel foi criado, trouxe dois ou tr√™s, um deles uma f√™mea. Depois foram nascendo uns quantos a cada cio, um verdadeiro saco de gatos. N√£o tanto como os coelhos na Austr√°lia, mas, ainda assim, numerosos. S√£o alimentados com as sobras da cozinha. E, √† hora em que estivemos no chal√©, ainda andavam por a√≠ a lagartar em qualquer lado. Talvez no seu posto favorito, empoleirados nas √°rvores e a fazer de trapezistas.
          -O Diabo n√£o os persegue?
          -Nem um pouco. √Č mais uma das suas facetas de anjo. Um mastim querubim ‚Äď riu-se -. Lambem-se uns aos outros como se fossem todos t√£o doces gelados de ver√£o. Mas, vamos l√° subir ao penhasco.
Domingos ainda não tinha visto qualquer bichano refastelado e a pentear os bigodes ao calor da tarde. Ele, que não os apreciava grandemente, ficou surpreso com a recente descoberta afeição de Fausto por gatos. A ponto de, numa efabulação de dramaturgo surrealista, ter antevisto o amigo como uma velha, suja, feia e andrajosa, a viver numa pocilga cheia de trastes até ao tecto e a dar, sobre uma folha aberta de um jornal para não sujar nada, as espinhas a vinte e um gatos cheios de remela, doentes e sem nunca terem feito uma visita ao veterinário.

IX
 
          Enquanto galgavam as rochas, nuas cada vez mais √† medida da aproxima√ß√£o ao topo, de semblante carregado, apreensivos alguns, uns quantos homens e mulheres faziam o percurso inverso. Como se fossem pequenos arbustos presos pelas ra√≠zes, espetavam os p√©s nas reentr√Ęncias das pedras para n√£o ca√≠rem.
          -N√£o h√° uma forma mais f√°cil de chegar l√° ao alto? ‚Äď pergunta Domingos, come√ßando  a experimentar o mau gosto da fome, ap√≥s algumas horas sem trincar uma folha de alface.
           -H√°. Mas estes gostam de alpinismo e de emo√ß√Ķes fortes. Vamos por este caminho ‚Äď sugeriu Fausto, aproximando-se de um carreiro que, serpenteando as escarpas, os fazia contornar os obst√°culos, enquanto, para prosseguirem com √™xito, tinham de arredar com a m√£o giestas invasoras.‚Äď. N√£o sei se eles conhecem este acesso‚Ķ
          -Mas, ent√£o, o que h√° l√° em cima que atraia tanto os h√≥spedes?
          -Para come√ßar, o pr√≥prio penhasco. Trata-se de um lugar in√≥spito e inacess√≠vel, onde, em circunst√Ęncias normais, praticamente s√≥ chegam aves de rapina. Sobretudo as diurnas, por precisarem de ver bem do alto as suas presas. √Āguias, milhafres, grifos falc√Ķes e por a√≠. Tamb√©m h√° l√° a cavernas dos morcegos, e corvos √†s dezenas. √Äs vezes o barulho de todos eles mete um bocado de medo aos mais afoitos. Sobretudo de noite ‚Äď acrescentou Fausto olhando para o √Ęngulo do sol, a cair paulatinamente para oeste em busca do mar.
          -Acabaste de me falar do Inferno ‚Äď brincou de novo Domingos ‚Äď. O Inferno n√£o deve ser t√£o assustador como o quadro que pintaste.
          -Fausto riu-se com o exagero do amigo. Tratando-se ou n√£o do Inferno, era a sua casa.
          E, como para ilustrar a descri√ß√£o do lugar mais m√≠stico a que se podia aceder, um oportuno bando de corvos fez-se ouvir por cima deles numa escarpa de bicos pontiagudos, logo seguido do eco de outras aves de que Domingos nunca ouvira falar.
          O vento leste, que ao longo do caminho soprara esporadicamente, √† medida do subir do fim da tarde no horizonte, √† beira do crep√ļsculo, recrudescia, desgrenhando como pentes agrestes os cabelos dos dois escaladores da montanha. Na acep√ß√£o b√≠blica, o vento leste era um vento de destrui√ß√£o. Al√©m das areias do deserto, sempre trouxera √† vida dos homens a morte, anunciada por mensageiros t√£o indesej√°veis como pragas de gafanhotos, moscas, mosquitos r√£s e coisas semelhantes, que √†s vezes ca√≠am do c√©u em catadupa numa partida de mau gosto forjada pelos deuses mel√≠fluos do espa√ßo.
          At√© ele, Fausto, come√ßava a achar demasiado tenebroso o relato dos prod√≠gios do seu penhasco. Talvez estivesse a assustar excessivamente Domingos, impedindo-o de desfrutar da paisagem vista l√° de cima. Por isso julgou por bem ficar por ali, sem se alongar mais em explica√ß√Ķes e adjectivos. Mas Domingos, percebendo-lhe a hesita√ß√£o, insistiu:
          -Anda l√°, continua. N√£o tenho medo, nem de p√°ssaros nem sequer do Diabo. Olha para a minha barba! ‚Äď prop√īs, passando a m√£o pelo rosto num sorriso desafiador.
          -Fazes bem‚Ķ Quem inventou o Diabo foi o mesmo que inventou Deus. E um outro s√£o uma farsa. N√£o existem fora da nossa imagina√ß√£o. O que existe s√£o as ac√ß√Ķes e as suas consequ√™ncias. O resto √© pura inven√ß√£o dos homens para justificarem, tanto os sucessos como os fracassos.
          -Claro! - acrescentou Domingos enquanto chegavam ao cume. Em baixo, a centenas de metros, ali ao lado no desfiladeiro, uma queda de √°gua chocalhava o rio, deixando-o cor de prata e borbulhante de espuma, ao mesmo tempo que o seu eco chegava ao cimo, algo assustador mesmo no ver√£o
          ‚ÄďIsto aqui no inverno √© tenebroso. A chuva cai desabrida nos rochedos como cascos de cavalo a arrancar √† pedra sons de arrepiar. E todos os ventos fazem disto o seu ponto de encontro. Em dias de tempestade, uivam como uma alcateia enfurecida sobre uma presa indefesa. √Č como se a montanha se v√° despenhar inteira nas √°guas a qualquer momento, ansiosa por se libertar da f√ļria da natureza. Mas, ao mesmo tempo, esta paisagem n√£o deixa de ser, , diab√≥lica e deslumbrante. N√£o concordas? Olha s√≥ l√° para o fundo! ‚Äď sugeriu Fausto fazendo notar os contrastes.
          -Tens raz√£o. √Č de cortar a respira√ß√£o ‚Äď concordou Domingos extasiado.
          -Sim. √Č mesmo de ficar sem f√īlego‚ĶE como cada lugar assim fascinante tem o seu lado mau, este n√£o foge √† regra‚Ķ
          -Que queres dizer com isso? ‚Äď perguntou o rapaz, come√ßando a ficar apreensivo. Sobretudo pelas caras amargas de duas ou tr√™s pessoas com quem se tinham cruzado √† subida, e que, agora com tantas culpas atribu√≠das por Fausto ao lado maquiav√©lico do penhasco, o levara a pensar em trag√©dias ocorridas naquele lugar com pessoas atra√≠das pelo abismo.
          -Quero dizer que √†s vezes isto aqui √© palco de suic√≠dios‚Ķ E eu, como deves calcular, n√£o o posso impedir‚Ķ
          -Claro ‚Äď disse Domingos horrorizado, e para quem a vontade de descer de um s√≠tio que agora lhe come√ßava a aparecer maldito se tornara bastante forte.
Fausto, adivinhando-lhe os pensamentos, retorquiu num tom menos sombrio:
          -Vamos embora. Est√° quase na hora do jantar. Hoje, no chal√©, a ementa √© salm√£o com legumes salteados e perdiz com pur√© de couve-flor. √Č privativa. S√≥ para gente com dinheiro, para apreciadores da cozinha gourmet. Como o banqueiro Mateus, o ex-Deputado Alcino e Mac√°rio, o dono de um casino. Normalmente, todos eles costumam jantar √† mesma hora que eu.

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« Última modificação: Mar√ßo 25, 2020, 15:13:35 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #13 em: Mar√ßo 27, 2020, 16:32:21 »

Ent√£o, e se continuasses?
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« Responder #14 em: Mar√ßo 27, 2020, 16:50:53 »

Nem é tarde, nem é cedo...


                                                                                  X

          No caminho de regresso, quase √† chegada, Domingos n√£o resistiu a questionar o amigo:
          -N√£o sei o que poderia dar pior fama ao hotel: se os suic√≠dios no desfiladeiro, se uma crian√ßa raptada e morta a seguir para encobrir o crime.
          -Nem se questiona! Claro que era a crian√ßa! E eu admito-as. Mas t√™m de ter mais de doze anos. Agora vamos jantar, deves estar esfomeado. Pode ser que a Orlanda tenha entretanto ficado mais simp√°tica com o amigo do patr√£o ‚Äď brincou mordaz.
          Domingos quis perguntar a Fausto se a rapariga gostava dele para l√° do uniforme de recepcionista e de baixo de outra roupa, no calor da cama e no auge de ais e suspiros de prazer. Mas n√£o se atreveu a tanto. N√£o quis ser vulgar. Teve medo de parecer ordin√°rio e de perder, com uma tal  indiscri√ß√£o, uma estadia de pr√≠ncipe num hotel de luxo. E, agora, viesse l√° o salm√£o, a perdiz e a sobremesa, a fome era muita. Sentia-se um alforge sem fundo e devorador.
          -Queira Deus que a comida chegue ‚Äď pensou, enquanto os dois, com ligeireza, se dirigiam para a mesa.




                                                                                  XI

          Enquanto, numa pequena mesa expressamente colocada para o efeito na esplanada do bar, jantavam,  um em frente do outro, Fausto olhava para o rapaz e lembrava-se da inf√Ęncia do mo√ßo. Quando o conhecera, era um mi√ļdo egoc√™ntrico, que pais e av√≥s achavam engra√ßado, nos seus ditos de menino mimado e f√©rtil em atitudes ego√≠stas. Educado com excessiva brandura, sobretudo pela m√£e, filha √ļnica, tornara-se o terror dos s√≠tios onde passara logo aos primeiros anos. Desde o infant√°rio at√© √† prim√°ria, como se de um pequeno dem√≥nio se tratasse, os outros mi√ļdos temiam-lhe os belisc√Ķes, empurr√Ķes e mimos do g√©nero at√© √† alma. A professora, sempre que Domingos se excedia, chamava a m√£e √† escola, informava-a  da gravidade das diabruras do filho. Ela ouvia-as, se calhasse corava de vergonha, ia a seguir contar a uma amiga pondo a m√£o √† frente da boca, e tudo ficava por isso mesmo. Nunca conseguira fazer nada do garoto. Cedia sempre aos seus caprichos. Raramente tomava em devida conta as obriga√ß√Ķes escolares do rapaz obrigando-o a lev√°-las a cabo. Deixava normalmente o trabalho odioso por conta do pai. Tendo o mi√ļdo sido, em mais uma ocasi√£o, repreendido por n√£o ter feito os deveres de casa, das vezes seguinte, para o filho n√£o ser castigado na escola, fazia ela pr√≥pria os trabalhos, sem discernir o mal que lhe provocava. Por isso Domingos se tinha tornado um pequeno d√©spota, algo mentiroso e at√© mau. √Āvido por dinheiro e pelos prazeres proporcionados por ele, era capaz de pisar os irm√£os no capacho da entrada se fosse preciso, s√≥ para levar a dele avante.
          Mas, agora, anos passados, estava ali √† sua frente, com uns cal√ß√Ķes e o resto da roupa seus, barbeado e apresent√°vel, bonito como nunca. Embora com um v√≠cio que, n√£o sendo de desvalorizar, talvez n√£o viesse a ser a sua ru√≠na. Parecia mais ajuizado, apesar de um modo adverso do seu pr√≥prio modo de encarar o mundo e a forma de lhe endireitar os entorses. Orlanda, Paulo, Elias e os outros que ele ajudava, e que Domingos nem sequer conhecia, tinham levado o rapaz a um ju√≠zo de censura mal disfar√ßado pelos actos do passado criminoso de todos. E isso, apesar de tudo, era sinal de que o jovem estaria no caminho certo e que a ele mais lhe agradava. Como se Domingos fosse seu filho e ele lhe quisesse dar, na mesma bandeja, o melhor de dois mundos.
          Por sua vez, o rapaz achava que Fausto, com tantas ac√ß√Ķes solid√°rias, n√£o deixaria de ter um certo interesse em manter os ex-reclusos por perto. Talvez uma esp√©cie de escravos a quem pagasse uma bagatela pelo trabalho no hotel. Ele n√£o seria, com certeza, nenhum santo. Um santo n√£o tem droga no cofre e n√£o foge ao Fisco, como o amigo admitia fazer. Mas se um santo tradicional era complacente com toda a gente, incluindo com banqueiros ladr√Ķes, deputados corruptos e tentava arrancar de cada um deles o seu melhor, Fausto devia ter tanto de santo como de dem√≥nio. E como uma m√£o lava a outra, ali estava ele a usufruir desse equil√≠brio, a meio passo entre o caminho do C√©u e o do Inferno.
          Por agora, tinha fome e a comida estava √† sua frente, a cheirar bem e apetitosa.
          -Que tal o salm√£o? ‚Äď perguntou Fausto.
          -Muito bom. J√° n√£o comia h√° mais de vinte e quatro horas ‚Äď acrescentou, levando aos l√°bios um copo de vinho branco fresco, que Paulo lhe servira da garrafa, colocada entretanto no balde de gelo para se manter a uma temperatura adequada.
          -Se quiseres podes repetir. Mas n√£o to aconselho. A perdiz estar√°, com certeza, uma del√≠cia. O cozinheiro, o Ernesto √© especialista em ca√ßa. E por aqui h√° muita.
          -Tamb√©m √© dos tais?... ‚Äď n√£o resistiu o rapaz a perguntar.
          -Ped√≥filo, mais concretamente‚Ķ
          -Ent√£o √© mesmo melhor que n√£o haja aqui mi√ļdos‚Ķ
          Chegou a perdiz, a sobremesa veio a seguir, o caf√© por √ļltimo, na ordem de um jantar cheio de requinte, um verdadeiro manjar dos deuses. Um homem saciado √© um homem feliz e assim por diante.

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« Última modificação: Mar√ßo 27, 2020, 17:45:36 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
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Outubro 31, 2019, 14:58:38
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Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
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Bom dia!
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