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Autor Tópico: A Gata dos Telhados XXVI  (Lida 2646 vezes)
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Goreti Dias
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« Responder #45 em: Outubro 05, 2020, 15:09:26 »

Pois pode continuar. A gente agradece.
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outono


« Responder #46 em: Outubro 09, 2020, 20:35:52 »

XXIV
-Fala Laura de Castro. Podem vir amanhã às dez horas, ao meu escritório, para continuarmos a nossa conversa?
-Está bem doutora. Lá estaremos, disse JCorreia depois de olhar para Rosalinda.


JCorreia começou a levantar a mesa.
-A louça está por minha conta – disse JCorreia – procurando afastar Rosalinda dessa tarefa. Tu já fizeste a comida. Trabalho colectivo, sem tabus. Pode não parecer mas sou um tipo “pra frentex”. Não deixo de ser um filho do Maio de 1968. Na altura, era militar e estava na guerra colonial na Guné, mas consegui  seguir os acontecimentos. Tive as minha fontes. Quando todos dormiam sintonizava discretamente a rádio Argel, de onde a oposição ao regime, nos punha em contacto com a realidade escondida. A utopia de 1968 não mudou a essência do poder, mas renovou as mentalidades.

O som da água a bater no vidro das janelas anunciou a chegada da chuva. Enquanto  Joaquim arrumava a cozinha, Rosalinda foi até à janela apreciar a primeira chuva de outono. Gostava do cheiro a terra molhada. Transeuntes  desprevenidos  caminhavam apressados. Um gato procurava abrigo. Lembrou-se da Judite.  Por onde andaria? Não a tinha visto durante o jantar. Perguntou:
-Joaquim , viste a hoje a gata?
-Não – respondeu Joaquim – parecendo pouco interessado na situação. Só faz o que lhe apetece, Também deve ter o espírito do Maio de sessenta e oito. Pode ser que a chuva  a faça regressar, se é que não se embeiçou por algum gato.

-Quem sabe? Apesar da meu casamento, não ter sido um mar de rosas, considero-me uma romântica, acentuou Rosalinda. Na juventude gostava de ler as novelas das revistas e as radionovelas. Derramei muitas lágrimas na “Simplesmente Maria”. Mais tarde perdia-me por telenovelas. Era uma compensação à merda de vida que tinha…e, sem ser grande leitora de livros, também li o “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco. E que amor tão bonito, o que ele viveu, com Ana Plácido. Foi do que me lembrei quando me falaste do amor contrariado dos teus avós, que não conheci, mas que são meus tios.

Joaquim, dirigiu-se à estante e pegou numa fotografia, amarelecida pelo tempo, mostrando-a a Rosalinda.
-O que vês nessa foto?
-Parece-me ser um casamento, de há muito tempo – respondeu Rosalinda, não escondendo a curiosidade.
-Tal e qual, Rosalinda. Foi há mais de oitenta anos, o casamento dos meus avós. Casamento contrariado pela família da avó, por desentendimentos, relacionados com a questão das “terras da Ordem”. Estas terras situadas na zona da Ribeira de Mouros, tinham pertencido à Ordem de Cristo até à revolução liberal de 1820, passando depois para a posse do Estado. Mais tarde, teriam sido vendidas a um particular, que nunca apresentou documentos da compra. Na segunda metade do século XX o povo quis ocupar essas terras abandonadas., mas esbarrou com a oposição do dito proprietário. Dividiu-se a população em dois grupos: o designado como “gatos brancos” e os que tomaram o partido do “dono” das terras, que se chamavam “gatos pretos”. Foi um guerra de gatos que durou muitos anos. Em criança ainda assisti a esses confrontos, e até fui arregimentado com outros moços para contestar os “gatos pretos”. Saímos da escola em formatura, gritando uma lengalenga:

      Gatos brancos, gatos brancos, ponham as unhas de fora
      Corram com os gatos pretos , a ocupar terras agora
      Gatos pretos de má pelo, venderam por um pataco
      A vossa alma ao demo
      Fora, fora, fora , fora….

Foi uma querela que se arrastou até aos anos sessenta, quando a agricultura de subsistência perdeu fôlego para a emigração. Foi resolvida depois do 25 de Abril, quando quase não havia agricultores.
O avô teve de “fugir” com a avó durante a noite. Depois de voltar da guerra fez parte da GNR, e foi colocado em Almada. Combinou com a avó, por carta, que ia ter uns dias de licença, e que iria buscá-la. Assim fez. Os pais dela deram pela sua saída, mas não mexeram uma palha. Na época isso era normal. O pai apenas comentou: - “a nossa Maria     vai com um…e no caminho para a vila”. “Deixa lá homem. Se vai para a vila, sempre sai desta meséria, e não casa com esse estupor dos “Correia”. Nunca lhes passou pela cabeça que fosse com o avô Baltazar. Quando souberam juraram acabar com essa má raça. Porém o mais grave que aconteceu foi trocarem uns sopapos na venda do Chico. O casamento, da foto, foi um anos depois, já o meu pai tinha nascido.
 
Às dez horas do dia seguinte, JCorreia e Rosalinda chegaram ao edifício, situado na Avenida da República, onde se situava o escritório da drª Laura Castro. Era um prédio nascido da arquitectura, sem personalidade, do fim do século XX, com uma fachada envidraçada, que destoava dos seus vizinhos e da sua sobriedade. Subiram até ao sexto andar , e tocaram à campainha. Uma senhora que JCorreia calculou que poderia ter aproximadamente a sua idade, de aspecto elegante, conduzi-os até a um gabinete onde se encontrava a advogada,  que os recebeu com um sorriso.

-Sejam bem-vindos – disse com alguma familiaridade. – Sentem-se e estejam à vontade. Aproveito por vos apresentar, a minha cliente,  que se não importarem, participará nesta reunião. A sua presença é muito importante.
JCorreia olhou, de novo, para a senhora, com ar distinto. Reparou nos olhos, algo tristes, que denotavam um passado com algumas agruras. Mas a forma como se deslocava lembrava-lhe um felino.
-Muito gosto senhora, sou o detective JCorreia, e a minha acompanhante, é a Rosalinda, secretária e amiga.
-Muito bem – interrompeu – a advogada. Podem sentar-se nas cadeiras junto à secretária. Então decidiram aceitar os meus serviços para defender o senhor Damião?
-Sim – disse JCorreia – mas deixe-me dizer-lhe, porque não sou de arcas encoiradas, que primeiro tirei umas informações, sobre a doutora. Não me leve a mal, cautela e caldos de galinha…dizia a minha avó…
-Não há problema, detective. Faz o seu papel. Antes de mais, vou dar a palavra  Ã  minha cliente, para lhe explicar porque se interessou pelo Damião, e o que mais pretende dos vossos serviços.

-A dama com ar distinto, sentada num sofá, olhou JCorreia com tal intensidade que este teve de desviar o olhar. Com uma  voz calma e pausada, falou:
-Obrigado por ter aceite os serviços da  Drª Laura. Trabalha para mim desde que exerce advocacia, e garanto a sua competência. Sou uma empresária da área da moda, negócio que desenvolvi após a morte do meu marido. O interesse pela defesa do Damião, não tem a ver com o presente mas com o passado. Quando era jovem, passei um mau bocado. Andei perdida por caminhos sem destino. Estava a ver o horizonte, mas quanto mais me aproximava, mais ele se afastava.

Fez uma pausa, para a abafar a emoção que lhe embargava a voz. Respirou fundo e continuou.

-Tive de vender o corpo para sobreviver. Houve um tempo que era a única valia que tinha para rentabilizar. Mulher de vida fácil, está a entender, detective. Mulher de vida fácil, diz o senso comum. Mulher de vida muito difícil, digo eu. Mas antes de chegar aí comecei pelas “drogas” primeiro leves, depois mais pesadas. Ultrapassei e fiz o luto. Mas há feridas que nunca foram saradas. Conheci o meio da prostituição e fiz amizade com algumas prostitutas.

Nova pausa. JCorreia pareceu-lhe ver uma lágrima furtiva, que teimava em segurar. Rosalinda, mais coração de manteiga, estava muito emocionada.

Lembra-se detective- continuou- do assassínio de prostitutas nos anos noventa. Uma delas era minha amiga íntima. Ajudou-me muito quando entrei naquele meio. Crimes que ficaram impunes. Sei que o detective, esteve nessa investigação, e fez o melhor que lhe foi possível, e por isso falo de um processo que não lhe é estranho.
-Lembro-me, - respondeu JCorreia – e ainda tenho pesadelos. Mas não percebo o que isso tem a ver com a prisão do Damião? O processo que refere está encerrado.

-Damião é pelo que parece, um pequeno traficante, “arraia-miúda” – disse a distinta senhora. – Damião, enquanto tal, não me interessa. Defendo-o para ver se conseguimos chegar mais além. É a contrapartida. Nesta vida, detective JCorreia, não há almoços grátis. Se alguma coisa aprendi no meu percurso, foi isso. Diz que o processo está encerrado. Para mim não está nem nunca esteve. Nunca é tarde para fazer justiça. Pela minha amiga, e pela filha menor que deixou. As duas coisas podem não estar relacionadas. Mas a droga deu cabo da vida de muita gente, e continua a dar. Se puder dar o meu contributo nessa luta, sentir-me-ei, mais leve.
JCorreia, procurou ordenar as ideias. Começou a ligar algumas pontas dispersas. Respondeu à senhora, cujos olhos o perturbavam:
-Como sabe, senhora, exerço investigação privada. Já não faço parte da PJ. Não disponho de meios, nem de legitimidade para investigar o que deseja.

-Caro JCorreia –disse a dama dos olhos penetrantes, procurando estabelecer alguma proximidade – do Damião se encarregará a drª Laura. Pode tirá-lo da prisão, se ele colaborar. Sobre o outro assunto compreendo o que diz, e sei que não pode fazer investigação oficial. Eu também investigo e tenho algumas pistas. Preciso da sua colaboração, como óptimo investigador. Apenas terá de seguir as minhas informações. É um duplo desafio: recebe os seus honorários, em exclusivo, e presta serviço a uma causa justa.
-Preciso de reflectir, senhora…ainda não sei o seu nome…
-Sabe, sabe- respondeu – Trate-me por Gata dos Telhados, ou se preferir por Aida Macedo.

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« Última modificação: Outubro 22, 2020, 20:41:35 por Nação Valente » Registado
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« Responder #47 em: Outubro 10, 2020, 19:04:17 »

A coisa promete. Com tantos gatos... e uma gata...
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Maria Gabriela de Sá
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« Responder #48 em: Outubro 14, 2020, 21:19:54 »

"....com Rafaela Plácido...." Não será Ana Plácido? De resto, vamos finalmente descobrir quem foi o estripador de Lisboa...
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Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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outono


« Responder #49 em: Outubro 18, 2020, 20:28:59 »

XXV
-Preciso de reflectir, senhora…ainda não sei o seu nome…
-Sabe, sabe- respondeu – Trate-me por Gata dos Telhados, ou se preferir por Aida Macedo. E agora vou retirar-me. Darei notícias. Continuem a conversa com a minha advogada
.

Aida Macedo abandonou a sala deixando um rasto de perfume de boa qualidade. No último olhar que trocou com JCorreia, notou-se uma névoa de amargura. O detective acidental, sentiu uma estranha sensação. Aquela forma de andar de Aida perturbava-o. Respirou fundo para conseguir alguma serenidade. Laura de Castro, a advogada do diabo, percebeu o estado de espírito de JCorreia e com um sorriso relançou a conversa.

-Muito bem. A minha cliente traçou as linhas gerais do que pretende dos vossos serviços. A mim, para já, compete-me tratar dos detalhes técnicos, relacionados com a prisão do Damião. A minha intenção é pedir a sua libertação se for constituído arguido, e evitar que fique em prisão preventiva. Estão de acordo?

JCorreia ainda continuava em estado catatónico. Rosalinda teve uma reacção de espanto. Parecia surpreendida. Não se mostrava muito entusiasmada com a libertação de Damião. O curto período do marido preso, tinha-a feito renascer para uma nova viva. Aproveitando o silêncio de JCorreia perguntou:
- Desculpe drª Laura, mas se a libertação estiver dependente do pagamento de uma caução, tenho que a informar, que não posso pagar.
- Quer ou não quer ver o seu marido fora da prisão? - respondeu Laura colocando  ênfase na expressão – Se implicar dinheiro , não se preocupe. Não será por isso que não terá o seu marido- concluiu Laura -  com alguma ironia. O que preciso , neste momento, é que me responda a algumas perguntas. Por exemplo, alguma vez notou no comportamento do seu marido, atitudes que lhe parecesse estar implicado nesse tráfico?
-Não  – disse secamente Rosalinda.
-E não notou nenhum aumento, nos rendimentos do Damião?
-Notei que, talvez há mais de um ano, começou a trazer mais dinheiro. Dizia que fazia trabalho extraordinário, para trocar de carro. O que de facto aconteceu, com a compra de um automóvel de gama alta. É o que sei, drª Laura.

JCorreia aproveitou aquele interrogatório, que achava pouco relevante,  para se refugiar num recanto da sua mente. Viu-se num outro cenário, na pacatez da sua aldeia, longe das confusões em que se via envolvido. Interrogava-se mais uma vez porque raio tinha decido continuar a ser polícia, quando podia estar na sua terra, a ocupar o tempo que lhe restava, em ocupações que não lhe atazanassem o espírito. Percebera da conversa com a denominada Gata dos Telhados, que estava a ser arrastado para uma porta do passado que queria encerrar. Percebeu que estava perante uma pessoa presa no tempo, e que assumia a condição de justiceira por conta própria. Como gostaria de estar longe e poder retomar as longas conversas como seu avô Baltazar. Mas perante tal impossibilidade, alimentava-se das que ficaram registadas num recanto da memória.
 
Depois de voltar da guerra colonial Joaquim Correia lembra-se do primeiro encontro com o avô e do que lhe disse:
- Como vê estou inteiro, mas diferente de antes de passar por esta experiência. A cigana da feira, por acaso ou não, acabou por acertar.
- É verdade Joaquim, todos passámos por isso na família. Três gerações, três guerras. E por mais que nos queiramos convencer que somos a mesma pessoa, sem deixar de a ser, também somos diferentes. Os traumas invisíveis que transportamos não se apagam. Tenho os meus, tu terás os teus, e o teu pai que esteve na Guerra Civil de Espanha terá os dele. Quando ele foi voluntário à força, em 1938, ainda tu não eras nascido, e eu estava a passar por um mau bocado. No dia em que recebi a notícia, fui preso, com muitos outros companheiros, por causa da questão das terras da Ordem. Quando amanheceu estávamos cercados pela GNR que foi de casa em casa prender os que estavam na lista do eventual proprietário. Valeu-nos o drº Frederico Drago, que apoiava a nossa causa, e nos conseguiu libertar. Dei comigo a pensar porque razão me meti na luta pela posse de terras, quando nem das minhas tratava, depois de ter optado por abrir a oficina onde fabricava calçado por encomenda. Cheguei à conclusão que faz parte da minha natureza.
-Eu sei que o meu pai esteve na na Guerra Civil espanhola, mas não conheço os pormenores. Ele é muito reservado e quase não fala desse passado.

-Não fala, porque na minha opinião, foi uma participação que sempre o envergonhou. Fez parte da Legião dos nacionalistas, como outros portugueses que ficaram conhecidos como os Viriatos. Ao contrário da grande maioria, foi obrigado a aderir para salvar a pele. Como sabes, ele fazia contrabando. Numa dessas viagens teve o azar de ser descoberto e preso pelos nacionalistas que controlavam a Andaluzia. A alternativa que lhe deram foi ou “um tiro nos cornos” ou integrar-se nas forças militares de Franco.

¿Qué haces aquí, portugués, con un montón de comida? ¿Tienes autorización?
? Perguntou um oficial do Exército do Sul
(…)
- ¿En qué servicio estás? De España o comunismo
- Não me meto nisso. Faço comércio.

Comercia ilegalmente. Te doy dos hipótesis: juicio sumario, o integración en las tropas del general Franco

Depois de uma instrução rápida esteve com o exército que foi deslocado para a Catalunha, para combater na batalha do Ebro em agosto de 1938. Teve de lutar no lado errado, de acordo com as suas convicções. Limitou-se a evitar a morte, numa batalha onde houve muitas baixas, nos nacionalistas e nos republicanos. Foi ferido numa perna e retirado para a retaguarda. Recuperou e ainda foi enviado para Madrid onde viu cair o governo republicano. Quando chegou depois de relatar a sua experiência disse: estou vivo, assisti a muita carnificina, combati para não ser fuzilado, e quero pôr uma pedra, bem pesada, em cima desta fase da minha vida.

JCorreia sentiu qualquer coisa a roçar-se nas suas pernas, o que o fez sair do baú das suas memórias. Laura de Castro continuava a interrogar Rosalinda. Olhou para baixo e viu uma gata que lhe pareceu ser a Judite. “Que raio fazes aqui”?, foi a primeira ideia que lhe veio à mente. Laura de Castro apercebeu-se e disse:
- Está sossegada Madonna, deixa o detective em paz. Desculpe, mas a minha gata, às vezes gosta de se envolver com os clientes.
- Madonna? Interrogou JCorreia, pareceu-me ser a Judite, a minha gata. Será que estou com alucinações? Se não é a Judite, só pode ser gémea ou clonada. Se calhar, tantas gatas na minha vida, estão-me a dar volta ao miolo. Pareço uma ilha rodeada por gatas. E logo agora que de gato já só tenho o espírito.

- Que se passa Joaquim, estás mesmo aqui? – disse Rosalinda. - Eu a responder a um interrogatório da senhora advogada, sobre o Damião, e tu a filosofar sobre gatos.
- Tens razão estive ausente mas já voltei, embora estivesse melhor de onde vim.- afirmou JCorreia procurando desdramatizar a situação. -  É como diz uma canção dos tempos do do PREC, “vim de longe, de muito longe, o que passei para aqui chegar”. Mas ainda percebi que a drª Laura quer libertar o Damião. O que lhe digo é que não se precipite. A casa dele foi assaltada, o que pode estar relacionado com o tráfico de droga. Dei conhecimento a um colega da brigada de estupefacientes da PJ, para fazerem uma diligência.

- Desconhecia o que relatou, detective, - disse a advogada – irei esperar pela decisão do Juiz. Depois agiremos em conformidade. Parece que temos algumas afinidades, pelo menos no que diz respeito aos gatos. Também vivo sozinha e a Madonna é a minha companhia. Se é igual à sua Judite, só pode ser coincidência. Comprei-a numa loja.

Com o respeito, drª Laura, a menina também é uma “gata” no bom sentido. Não me leve a mal, mas é um elogio à sua beleza. Se alguma coisa aprendi, é que na vida, não podemos ser apenas máquinas de produzir.
- Estou admirada e preocupada contigo Joaquim. Voltaste a dar uma de “velho gaiteiro”? –disse Rosalinda, denotando algum nervosismo, e lembrando-se da conversa, com a empregada da pastelaria.
- Não me ofendo. Tenho sentido de humor, disse a advogada.
- É mais uma coisa em que temos afinidade. Começam a ser várias, drª Laura.

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« Responder #50 em: Outubro 19, 2020, 09:37:29 »

Ui ui! quanta afinidade!
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outono


« Responder #51 em: Outubro 22, 2020, 20:37:36 »

XXVI
Com todo o respeito drª Laura, a menina também é uma “gata” no bom sentido. Não me leve a mal, mas é um elogio à sua beleza. Se alguma coisa aprendi, é que na vida, não podemos ser apenas  máquinas de produzir.
- Não me ofendo. Tenho sentido de humCom todo respeito drª Laura, a menina também é uma “gata” no bom sentido. Não me leve a mal, mas é um elogio à sua beleza. Se alguma coisa aprendi, é que na vida, não podemos ser apenas  máquinas de produzir.
- Estou admirada e preocupada contigo Joaquim. Voltaste a dar uma de “velho gaiteiro”? –disse Rosalinda, denotando algum nervosismo, e lembrando-se or, disse a advogada.
- É mais uma coisa em que temos afinidade. Começam a ser várias, drª Laura.


- JCorreia e Rosalinda saíram da reunião com a advogada. O céu nublado anunciava chuva. Caminharam em silêncio ao longo da avenida. As palavras pareciam ter-se esgotado naquela reunião. Joaquim sentiu que a secretária estava algo triste, e tentou desanuviar a borrasca que parecia eminente. Falou, pegando nas palavras com uma pinça.
- Depois de uma reunião muito produtiva, acho que está na altura darmos uma trégua ao trabalho. E se fôssemos dar ao dente. Sinto um ratinho a roer-me o estômago. Que dizes?
- Faz como quiseres – respondeu Rosalinda – num tom agreste. Aquela advogada tirou-me o apetite. Se não tivesses estado quase sempre ausente, terias reparado que  me quer atirar para as manápulas do Damião.
- Valha-te Deus Rosalinda. És mais nova que eu, mas pareces mais careta. Ninguém é obrigado a viver com ninguém. Estamos no século XXI. Até minha bisavó avó paterna se divorciou, no início do século XX. Qual é o drama? Esquece para já o Damião, depois pensamos nisso. Vamos comer ao restaurante do minhoto. Os cheiros  vão abrir-te  o apetite.

Sempre que entrava naquele restaurante, Joaquim renascia. Voltava aos seus tempos de juventude e de neófito na cidade. Ali convivia com os seus amigos. Ali começou a sua relação com Irene. Ali viu um dia chegar a liberdade.
Bom dia subinspector Correia – disse o proprietário, onde já predominavam os cabelos brancos.  â€“ bons olhos o vejam.
- E veem-me bem. E também digo que sempre que o vejo, me parece que vai em contramão. Está cada vez mais menino, ainda bem, porque não conheço ninguém que me satisfaça tanto as papilas gustativas. E a propósito, o que temos hoje?
- Para além dos grelhados, tenho um petisco especial. Rojões à minhota. Até parece que adivinhei que vinha cá.
- Vamos então nos rojões. Concordas Rosalinda? E um verde de Melgaço, para dar de beber à dor, principalmente da minha companheira, que teve um dia mau.
Enquanto degustavam os rojões, o vinho foi levantando o ânimo de Rosalinda, e soltou a língua a Joaquim, que aproveitou par voltar ás memórias que sempre associava aos sítios por onde tinha passado. Ao mesmo tempo pretendia afastar o pensamento de Rosalinda, dos maus momentos por que passou.

- Neste restaurante sempre fui feliz. A última vez que aqui vim, a tua primeira, conheci o teu passado, e tive a alegria de te descobrir como familiar. Mas muitas  outros bons momentos que vivi estão ligados a este lugar, para lá do prazer da boa comida. Aqui almocei no último dia da ditadura e no primeiro da democracia
 Esta é a madrugada que eu esperava
 O dia inicial inteiro e limpo
 Onde emergimos da noite e do silêncio
 E livres habitamos a substância do tempo
 Foi  assim que o definiu a escritora  Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi assim que também o vi, embora não fosse capaz de o definir com esta sensibilidade.

Tinha feito o último turno da noite no metropolitano. Deitei-me tarde e de manhã fui acordado pelo vozeirão do Carlão a falar com outro hóspede , “começou a guerra”. Estão a dizer na rádio para ficarmos em causa, e a pedir aos médicos para se dirigirem para os hospitais”. Tinha dormido pouco, e pensei que era uma brincadeira de mau gosto. Apeteceu-me mandá-lo bugiar. Liguei o pequeno rádio de transístores na emissora nacional. Afinal o Carlão tinha razão.
“Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma."

Não consegui voltar a adormecer. Continuei a ouvir a mesma comunicação, até que, ao contrário do pedido, não fiquei em casa. Deambulei pela cidade quase deserta. A informação sobre o que se passava de concreto era escassa. Ao meio dia entrei neste restaurante. O cozinheiro do Minho, continuava a fazer os seus grelhados. Pareceu-me um pouco assustado. Quando paguei o almoço, o senhor disse-me: estão a dizer que o Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, está  refugiado no quartel da GNR no Carmo, e que está cercado por tropas. “então é para aí que vou”, afirmei. “Tenha juízo, vá mas é para casa como recomendam”. Não quero perder nenhum cliente”. Caro amigo, já passei por uma guerra e sobrevivi. Vou, se for necessário, participar numa guerra mais justa. A liberdade do meu país.

- E fostes? Tiraste a coragem de dentro de uma garrafa? - perguntou Rosalinda que tinha recuperado a boa disposição, com o “verde” de Melgaço.

- Ora ,ora, temos a Rosalinda de volta. Ainda bem, porque que vamos ter muito trabalho. Se for preciso repetimos o mesmo tratamento. Mas voltando ao movimento militar de 25 de Abril, nesse dia fui para o largo do Carmo. Havia militares nas ruas adjacentes. Jovens  com pouca experiência, mas empenhados. O mais interessante é que os paisanos circulavam livremente. Um bom indício. Em frente ao quartel, havia chaimites vindas do Terreiro do Paço. Foi lá que se ganhou a guerra, quando a força comandada por Salgueiro Maia com pior armamento, teve a coragem de enfrentar, de peito aberto, os poderosos blindados de Cavalaria 7. Com essa coragem, levou os atiradores s desobedeceram às ordens de disparar, do seu comandante. Sem disparar um tiro o golpe estava ganho. O que se passou no largo do Carmo foi o culminar do processo. Com o espaço cheio, por uma multidão eufórica, apenas  se esperava a rendição do regime.

- Eu também estive por perto nesse dia – disse Rosalinda.- Estava no Rossio a vender flores, e assisti à passagem dos militares, com cravos nas espingardas, embora não tivesse muita consciência, do que se passava.
- A ditadura durou quase quarenta anos. Uma guerra de treze anos ajudou a desgastá-la. Naquele dia ou noutro acabaria por cair. Mas foi um dia importante. Pena é que as novas gerações que sempre viveram a liberdade, associem o dia a mais um feriado.
 
JCorreia e Rosalinda desceram a a Avenida da Liberdade até ao Rossio, e subiram até ao Chiado. Na “Brasileira” sentaram-se na esplanada junto à estátua de Fernando Pessoa. JCorreia gostava de visitar aquele  local, por  onde tinham passado grandes pensadores.  Enquanto  tomavam  o café, o detective  infringindo mais uma vez os conselhos do médico, pediu um cálice de absinto, em honra do grande poeta e do 25 de Abril. Perante a crítica de Rosalinda comentou:

- Dias não são dias. "É pra desgraça é pra desgraça". Hoje é o dia da romagem da saudade. O absinto ajuda a inspiração. Amanhã vamos fazer o que tem que ser feito. Voltamos à investigação do caso do marido desaparecido. Este caso e o da gata dos telhados, parecem-me a mesma moeda.

-Não me digas Joaquim que também queres ser poeta? - ironizou Rosalinda

-Não ficas sem resposta. Quando saí da PJ, e antes de me inventar como detective privado, escrevi umas coisas. Um dia mostro-te. Só a ti.

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« Última modificação: Outubro 23, 2020, 15:30:02 por Nação Valente » Registado
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« Responder #52 em: Outubro 23, 2020, 13:19:56 »

Poeta é quem pode. Até Pj ou engenheiro...
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Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Olá Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
Janeiro 29, 2020, 20:06:36
Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
Dezembro 01, 2019, 19:51:29
Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, não há comentários.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dionísio. Obrigado pelo teu comentário. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos comentários. Evito-os, para não  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem lê lê, quem não lê não lê. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que estão e os que virão.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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