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Autor Tópico: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)  (Lida 6233 vezes)
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Goreti Dias
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« Responder #15 em: Abril 02, 2020, 16:39:30 »

Café... sobremesa... hum... Cheira-me a jesuítas por dentro da imaginação!
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Goretidias

 Todos os textos registados no IGAC sob o n√ļmero: 358/2009 e 4659/2010
Maria Gabriela de S√°
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« Responder #16 em: Abril 02, 2020, 17:22:47 »

                                                                              XII

          Finalmente, o calor amainara um pouco. A escurid√£o havia envolvido a montanha h√° muito num manto de sil√™ncio, que uma ave nocturna, desviada da rota do desfiladeiro, quebrava num pio a solo e sem eco. O vento leste desprendia-se das √°rvores, cada vez mais intenso. Num rugido ainda moderado, assegurava, contudo, para o dia seguinte, o braseiro que, por todo o lado com poucas excep√ß√Ķes, continuaria a devasta√ß√£o por montes e vales, levando tudo a eito com absoluta falta de crit√©rio para a sua voracidade incineradora.
          Quando se levantaram da mesa da esplanada, ainda os outros h√≥spedes jantavam na sala.
          Fausto perguntou em seguida:
          -Sabes jogar xadrez?
          -Nem xadrez, nem cartas. N√£o sei jogar nada. S√≥ jogos de computador e telem√≥vel, e este n√£o o trouxe sequer.
           -Tamb√©m n√£o te aconselho a ver televis√£o. A televis√£o deixou h√° muito de valer alguma coisa. S√£o s√≥ novelas atr√°s de novelas, reality shows de gente de cabe√ßa com fraca densidade e intelig√™ncia retrograda como certos planetas, ca√ßadores de fama sob len√ß√≥is encardidos. Queres ver um filme?
          -Sim √© boa ideia. Gosto de cinema,
          -Ent√£o vamos l√°.
           E dirigiram-se ao pequeno audit√≥rio, onde Fausto colocou um DVD que, da√≠ a nada, na televis√£o de muitas polegadas, surgiria o filme da noite e em que Domingos, antes da ficha t√©cnica, actores, m√ļsica e as men√ß√Ķes habituais, come√ßou por ler:


                                                                              
                                                   O RAPAZ DO ISQUEIRO ASSASSINO
                                                    
                                                        
                                                      Filme baseado em factos reais

                                                                          1
           O comboio amarelo entrou na esta√ß√£o a um ritmo lento, depois do derradeiro apito com que se fez melancolicamente anunciar.
A seguir, as portas autom√°ticas abrir-se-iam e, finda a viagem, os passageiros apresar-se-iam a sair rapidamente, sob o ru√≠do dos mil e um passos de gente interessada em chegar a casa. A composi√ß√£o n√£o trazia muitas pessoas. Era o final de um fim-de-semana de festa na Barrinha, a segunda-feira luzia no horizonte pr√≥ximo como mais um dia de trabalho, embora Agosto fosse um m√™s de f√©rias por excel√™ncia. Havendo ainda demasiadas liga√ß√Ķes at√© √† meia-noite para os festivaleiros apanharem os √ļltimos foguetes da romaria, a maioria deles aguardava por comboios mais tarde para regressarem, j√° durante a noite, antes de se prepararem para enfrentar o dia seguinte.
           Entre os passageiros havia duas ciganas, que, como a maioria dos outros viajantes, sa√≠ram do comboio apressadamente, n√£o fosse este arrancar com elas dentro at√© √° paragem seguinte, tendo elas depois de inverter o caminho como se tivessem adormecido durante a viagem. A mais velha, de rabo-de-cavalo negro, vestia com displic√™ncia um vestido √†s ramagens pretas e brancas, como quem n√£o quer ver-se notada. A outra, mais nova e bonita, trazia cal√ßas de ganga justas e uma t-shirt verde, com a foto de uma mulher coquete de chap√©u de palha √† frente. Tinha igualmente cabelos negros, soltos. Rondaria os quinze, dezasseis anos talvez. Caminhavam em sil√™ncio, ambas com um saco de pl√°stico, cada uma, na m√£o, em que espreitavam pequenas quinquilharias compradas na festa.
           O rapaz, um dos outros viajantes do comboio, na casa dos vinte e alguns anos, entrado como elas no apeadeiro da Barrinha, viu-as sair e acompanhou-as com o olhar, referenciando-as de imediato como moradoras do local aonde ele se dirigiria da√≠ a nada. Contudo, deixou-as prosseguir √† frente, sem uma palavra, como se eles lhe fossem completamente desconhecidas. Talvez se encontrassem da√≠ a nada, o destino dos tr√™s era o mesmo, o acampamento dos ciganos ali perto, onde ele seria mero visitante de circunst√Ęncia e as duas moradoras habituais.
           Mal saiu da gare, o jovem olhou os postes com as cegonhas no topo, ao redor da linha, nos ber√ßos redondos de madeira instalados pela companhia de electricidade para a nidifica√ß√£o das aves. A seguir, colocou na cabe√ßa o capacete, com que andara todo o dia no bra√ßo como uma cesta, dirigindo-se a uma mota estacionada ali perto, o seu transporte favorito para desloca√ß√Ķes ali pela terra e arredores. O ve√≠culo permanecia, √† sua espera h√° mais de quatro horas, estacionado algures nos seus dois p√©s extens√≠veis de bengala ortop√©dica sempre pronta para ele como a mais fiel das criaturas.
           Montou-o com agilidade, ajustou o capacete, ligou a igni√ß√£o e, quando a mota lan√ßou no ar o √ļltimo ronco de aquecimento, abalou pela estrada ao som do escape livre do ve√≠culo, especialmente preparado para fazer aquele barulho provocador de ouvidos sadios e dos outros.
           Ladeada de um lado por imensa vegeta√ß√£o de pinheiros e eucaliptos, a via seguia, a maior parte do percurso, ao lado da linha f√©rrea, perto da qual, n√£o muito longe da esta√ß√£o, num pasto, com um ou dois molhos de forragem e alguns cobertos colocados em locais estrat√©gicos, quatro vacas pachorrentas faziam ainda a sesta, mal refeitas do calor que se fizera sentir durante toda a tarde.
           Desde que iniciara o percurso, ainda n√£o era passado um quil√≥metro  quando, da curva anterior e de cima da motorizada, o rapaz vislumbrou o acampamento. Era √† face da estrada, e, depois de deixar as duas ciganas para tr√°s caminhando a p√©, moderou a velocidade e o ru√≠do da viatura. N√£o que precisasse das duas mulheres para fazer o que ia fazer ao acampamento e tivesse de esperar por elas, mas para ir pensando melhor numa boa desculpa para conseguir algo, que, √† partida, lhe parecia dif√≠cil.
          Da mota, j√° via a traseira da carrinha cinzenta, velha e desbotada, empinada no pequeno declive do monte, e que os ciganos usavam habitualmente nas suas desloca√ß√Ķes para as feiras. A carca√ßa, com a frente dentro do pinhal, olhava os barracos de tijolo que entretanto tinham sido constru√≠dos por ali ao acaso. De alguma maneira, a constru√ß√£o dava aos moradores a sensa√ß√£o de j√° n√£o serem os n√≥madas de antigamente, de quem toda a gente tinha medo e que, mal sentia o gemedouro das carro√ßas ao longe, trancava a porta como se a peste estivesse prestes a chegar, embrulhada nos panos da√≠ a nada pendurados na feira, juntamente com artefactos pousados no ch√£o, de que os cestos de vime eram um bom exemplo. A outra viatura, a de caixa aberta, a que arrumara de vez com a velha carro√ßa e dava agora descanso ao cavalo, estava mais √† frente. Desta vez virada para a estrada e pronta a acondicionar em viagem uma fam√≠lia de catorze pessoas, conduzida por qualquer um dos homens sem carta que ali viviam h√° um bom par de anos.
          Tudo depois de o dono da mata, um cidad√£o crente em Deus e bondoso, os ter autorizado a abancar por ali at√© melhores dias. Entretanto, o homem foi vendo os comodat√°rios a aumentar de n√ļmero e a transmitirem, sucessivamente, o abrigo √†s gera√ß√Ķes posteriores como se se tratasse de uma heran√ßa pessoa, sem ele poder fazer nada para os retirar dali. Dizia-se que ele estava realmente farto da ocupa√ß√£o. At√© por querer fazer no local uma planta√ß√£o de eucaliptos para depois vender a madeira √† celulose mais pr√≥xima e ganhar bom dinheiro com isso. Contudo, para tirar dali os inquilinos, seria preciso inventar uma lei que conseguisse incutir nas autoridades uma atitude diferente da habitual ‚Äúvista grossa‚ÄĚ para com eles em muitas e diversas situa√ß√Ķes. A carta de condu√ß√£o era s√≥ mais uma, a luz el√©ctrica, furtada dos postes quantas vezes, era outra. Seria talvez tamb√©m o caso de uma fornecedora de servi√ßos de televis√£o, que estaria, com toda a certeza, nas tintas para as outras duas e lhes instalaria l√° o servi√ßo de fibra √≥ptica se lho pedissem desde que tivesse maneira de se cobrar por isso. N√£o que fosse o caso daquele acampamento, mas porque, em muitos outros, tudo parecia ser assim, absolutamente entregue √† lei da for√ßa e aos seus artigos mortos, suficientemente fracos para gerarem qualquer medo. Havia por todo o pa√≠s demasiadas barracas, e n√£o constava que eles se privassem de ver televis√£o em muitas delas por causa das suas frustres condi√ß√Ķes de salubridade.
           E ali estava o rapaz, j√° apeado, a olhar a roupa variada, estendida nas cordas penduradas entre dois pinheiros, a secar ao lado de sacos pl√°sticos com a cor comida pelo sol por estarem ali perdidos h√° tempos infinitos a servir de vira-vento.
           O cavalo, mais ao fundo, desbastava alguma erva, nascida ao longo de um ano chuvoso, e que tinha agora a apar√™ncia de feno providencial para alimentar o animal na √©poca de Estio que decorria. O c√£o, um rafeiro malhado, preto e branco, o Ringo, logo que o visitante se apeou, deu um ar da sua voz, ladrando-lhe enquanto n√£o o reconheceu. A brincar com ele, atirando-lhe uma pequena bola de pingue-pongue amarela, no meio de alguns trates abandonados por ali, estava Litos, o rapaz surdo-mudo de doze anos, o irm√£ozito de quatro e os primos mais novos, Mila, da idade do primo deficiente, Ramon, um pouco mais novo, Alba, Gon√ßalo. Joaquim, o mais velho, estava um pouco mais afastado a fumar um cigarro no monte. Tinha os mesmos anos de Sameiro a prima, e tinham desde o nascimento o casamento combinado um com o outro como era tradi√ß√£o.
           Espalhados por ali, encontravam-se quatro bid√Ķes de pl√°stico azul, um deles perto da carrinha virada para a mata, descorados e cheios de √°gua destinada aos usos dom√©sticos, que os homens da casa iam encher na carrinha de caixa aberta ao fontan√°rio da aldeia a cerca de tr√™s quil√≥metros dali.
          Mal viu os mi√ļdos, o rapaz pediu-lhes para irem chamar In√°cio, que, antes de sair do barraco onde se encontrava, espreitou por um postigo da barraca, em virtude de n√£o ter conseguido perceber o que Litos tentou dizer-lhes, a ele, ao irm√£o e √† cunhada gr√°vida, juntos de momento no final de uma refei√ß√£o de fim de tarde.
          -Ah, √© voc√™, Telmo ‚Äď proferiu In√°cio de dentro, pelo postigo.
          -Boa tarde, Senhor Maia. Precisamos de tratar daquele assunto‚Ķ
          -J√° vou ‚Äď disse um homem moreno, dos seus quarenta e poucos anos, de bigode, vestido de preto, que, ao preparar-se para se encontrar com o visitante, colocou um chap√©u na cabe√ßa, como se com isso quisesse auto atribuir-se algum prest√≠gio social, ainda que o encontro com o visitante fosse decorrer nas bordas de uma mata onde nascera aleatoriamente um acampamento.
          J√° fora, o homem demorou alguns instantes a olhar para o rapaz. Parecia querer certificar-se de que o outro sabia mesmo o que ia ali fazer ou se calculara mal a tarefa.
          F√™-lo, como sempre, com ar desconfiado e pronto a negar qualquer coisa de irrazo√°vel que o jovem pusesse eventualmente pedir-lhe. Do mundo de neg√≥cios marginais, roupa contrafeita, vendida nas feiras na carrinha, ali de olhos virados para a mata, se a maioria dos paisanos o olhava com desconfian√ßa, ele e os seus faziam-lhes o mesmo sem se incomodarem com isso. O ‚Äún√£o‚ÄĚ que pudessem receber, por um motivo qualquer, seria o mesmo que devolviam em dobro, ou triplo, se o assunto n√£o lhe cheirasse bem e tivessem de se impor com o orgulho da ra√ßa.
          Telmo, sem capacete, era um rapaz, alto, ruivo, bem-parecido, apesar de um pouco magro. Cheio de sardas na cara, tinha olhos verdes e l√°bios grossos, que mordia de vez em quando. Sobretudo quando contrafeito. Tanto quanto parecia, por estar algo nervoso na presen√ßa daquele cigano de chap√©u e com estilo, fora do seu barroco, coberto por agulhas de pinheiros que funcionavam como √ļnicos e amistosos vizinhos.
O rapaz vestia cal√ßas e uma camisa de ganga de bot√Ķes de metal, e j√° n√£o era a primeira que ele e Maia se topavam nas encruzilhadas de um neg√≥cio que n√£o se sabia ainda qual era.
          As duas passageiras chegaram entretanto. A mais velha era a mulher do Maia, a outra a √ļnica filha, a Sameiro, entre quatro rapazes, solteira ainda mas prometida ao primo. E, depois de trocar algumas palavras com elas, In√°cio abriu a carrinha da roupa e mandou Telmo entrar, como se o ve√≠culo fosse o seu escrit√≥rio e a√≠ tivessem os dois de tratar de neg√≥cios importantes.
          A seguir, quem, do lado de fora, os visse atr√°s dos vidros, diria que o rapaz estaria provavelmente numa posi√ß√£o de inferioridade. A sua cara era quase de s√ļplica, contrita por um fio de l√°grimas nascente e prestes a turbarem-lhe os olhos, movidas por uma s√©ria contrariedade. E, pela maneira como In√°cio Maia abanava a cabe√ßa e mexia os l√°bios, fosse o que fosse que o rapaz lhe estava a dizer ou a pedir, era quase certo que, dentro de pouco tempo, este sairia frustrado e com a pouca esperan√ßa com que entrara feita em cacos.
           Quando, ao fim de cinco ou dez minutos, a porta da carrinha se abriu e saiu cada um por seu lado, ainda se ouviu o cigano dizer:
          -Nem pensar. Isso n√£o. N√£o me pe√ßa semelhante coisa. Um dia pode ser, agora n√£o. Mais depressa lhe fiava a carrinha com os p√≥los e os len√ß√≥is dentro.
           Da√≠ a nada, visivelmente irritado, Telmo montava na mota, saindo dali a toda a velocidade √† frente de um carro vermelho surgido entretanto na curva, e que, ao som de uma estridente buzinadela, teve de travar a fundo para n√£o colidir com as duas rodas sa√≠das abruptamente do acampamento.
           -Seu cabr√£o! ‚Äďverbalizou o condutor quando ultrapassou a mota
 

 Continua.
« Última modificação: Abril 02, 2020, 17:56:10 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
carlossoares
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« Responder #17 em: Abril 02, 2020, 18:38:00 »

A Gabriela, e n√£o me refiro apenas a estes textos, tem um poder de efabula√ß√£o extraordin√°rio, associado a uma grande cultura e sentido de humor, que todos ganhamos em ler, porque nos prop√Ķe excelentes evas√Ķes, mais importantes ainda, neste tempo de reclus√£o programada. E que nos faz sentir a passagem do tempo, como n√£o sendo uma perda, mas um prazer. Obrigado.
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Carlos Ricardo Soares
Maria Gabriela de S√°
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« Responder #18 em: Abril 02, 2020, 19:05:38 »

Obrigada pelo estímulo, Carlos Soares. Uma vez que me abriu a porta, cá vai mais um bocad0.




                                                                                      XIII

          -O que ter√° o rapaz ido fazer ao acampamento? ‚Äď perguntou Fausto a Domingos, com uma grande desconfian√ßa e como se, mais do que ver um filme num puro conceito l√ļdico, se preparasse para promover um debate no final.
          -Talvez tratar da sa√≠da dos ocupantes do terreno. √Äs tantas √© o neto do dono. Eles at√© querem l√° plantar eucaliptos. No Outono √© boa altura para isso. J√° n√£o falta grande tempo.
          -N√£o acredito muito‚ĶTenho outra ideia‚Ķ
          -Qual?
          -Acho que foi comprar droga‚ĶE, pela cara dele, deve ter sa√≠do de m√£os a abanar‚Ķ
           -Pode ser. Aposto, contudo, na outra hip√≥tese. Os eucaliptos crescem muito depressa. A madeira d√° muito dinheiro. Mas √© melhor esperar, antes de nos decidirmos por uma especula√ß√£o prematura. ‚Äď disse Domingos.

                                                                                2

          O s√≠tio aonde o rapaz se dirigiu, a seguir, era a aldeia t√≠pica de uma regi√£o onde a ind√ļstria e a agricultura viviam paredes meias, num equil√≠brio algo inst√°vel ao longo dos √ļltimos tempos. As unidades industriais das redondezas, se outrora contribu√≠am quase para o pleno emprego da cidade capital de distrito e seus concelhos lim√≠trofes, tinham perdido essa capacidade, depois da concorr√™ncia estrangeira mais recente e imbat√≠vel. Algumas, em dois ou tr√™s anos, tinham ido √† fal√™ncia, e se alguma coisa restava delas, eram teimosos esqueletos de m√£os apontadas para o c√©u √† espera de rejuvenescimento e uma nova oportunidade. Entretanto, quais casas assombradas, davam guarida ao lixo e ao estrume, quantas vezes aproveitado por sementes t√£o obstinadas como as de uma figueira, para uma ou outra irem nascer, bravias e displicentes, num local t√£o arrevesado como a torre de uma igreja. As unidades fabris ainda resistentes n√£o tinham arcaboi√ßo para garantir um futuro aos mais novos. Pelo menos a todos. A dos qu√≠micos continuava dentro dos par√Ęmetros de polui√ß√£o aconselhados para a sua labora√ß√£o, as metalomec√Ęnicas a mesma coisa, as f√°brica de motos e a de pe√ßas de autom√≥veis tamb√©m. O mesmo acontecia com as empresas de servi√ßos como a de transportes, com sede perto da esta√ß√£o ferrovi√°ria, e cujas paredes, demasiado velhas ap√≥s a fal√™ncia, pareciam n√£o ter estofo para se reerguer algum dia numa din√Ęmica que tivesse o comboio como impulsionador. Uma das mais importantes era a de lactic√≠nios. Empregava bastante gente. Sobretudo os mais velhos e com contratos antigos, sem termo. Mesmo assim porque n√£o podia converter esse v√≠nculo em situa√ß√Ķes de curto prazo para os despedir ao fim de meio ano. Contudo, n√£o era suficiente para escoar a m√£o-de-obra jovem, que se via obrigada a ir para o estrangeiro a um ritmo avassalador. A agricultura e a pecu√°ria nunca haviam tido grande express√£o na regi√£o. Salvo algumas pequenas vacarias, que nem sequer alimentavam completamente a unidade de lactic√≠nios. Al√©m de haver tamb√©m por ali algumas outras vacas avulso, ao sol em dias de domingo e a pensarem em coisa nenhuma. As leiras e o seu cultivo eram actividades de mera subsist√™ncia. At√© porque, cada fam√≠lia, proveniente de heran√ßas antigas e min√ļsculas, possu√≠a uma nesga de terra numa horta, de onde tirava umas couves para meter numa panela, da qual, no fim, sa√≠a uma sopa quente. Mas era pouco.
          Da√≠ que os dois filhos mais velhos de Ana Rosa, uma vi√ļva com perto de oitenta anos, h√° quase vinte em Fran√ßa, logo no in√≠cio de Agosto viessem passar na aldeia as merecidas f√©rias anuais. Era a √ļnica altura em que podiam passar junto da m√£e e da irm√£ mais nova. Dos tr√™s, s√≥ Catarina, enfermeira formada na universidade, ficara, juntamente com o marido, depois de um e outro amarrarem por c√° a sua esperan√ßa a um emprego que estava longe de ser bem remunerado. Ainda assim, era ela quem ia cuidando da m√£e e dava a esta a alegria de ter netos pr√≥ximos, dois rapazinhos, os √ļnicos a quem Ana Rosa via crescer, enquanto lhes dava e recebia algum colo.
           Por agora, havia um motivo acrescido para as f√©rias serem as melhores de sempre: a neta mais velha de Ana Rosa, a filha de Leandro, S√≠lvia, uma rapariga com pouco mais de vinte anos e que fora para Fran√ßa com cinco, iria casar na igreja da freguesia, depois de um namoro longo e feliz. O noivo era franc√™s, e as expectativas de que o acontecimento corresse bem e fosse bonito eram muitas. O pa√≠s sempre fora acolhedor. Derretia-se, sempre emocionado e com uma l√°grima de felicidade, perante um caso de amor, a quem abria os bra√ßos como um Cristo-Rei protector.
          A igreja erguia-se e impunha-se, branca e harmoniosa, no largo airoso da terra. √Ä sua sombra tinham surgido diversos e estabelecimentos, com uma import√Ęncia ditada pelos usos de cada √©poca. Primeiro talvez tivesse aparecido a mercearia, depois a taberna, que, numa metamorfose de costumes, se havia transformado no caf√© da pra√ßa de hoje, ponto de encontro de sempre, embora perdurasse nos h√°bitos da casa um leve tra√ßo da sua fun√ß√£o de outrora, de que, copos de Moscatel, Vinho do Porto e outros sumos de uva id√™nticos, eram ainda vest√≠gios, servidos quase como contraven√ß√£o logo √†s primeiras horas da manh√£.
          Foi para a pra√ßa que, antes do jantar, Telmo se dirigiu. Estacionou ao lado de tr√™s carros, um deles de matr√≠cula francesa. Desmontou da mota e pendurou o capacete numa das hastes do guiador. Com ar de frustra√ß√£o e, ao mesmo tempo, falsas esperan√ßa de se ter enganado nas vezes anteriores em que j√° fizera o mesmo fren√©tico gesto, passou as m√£os pelo peito como se estivesse a fazer uma revista a um suspeito de furto. E, pela ansiedade com que o fez, parecia estar √† procura de coisas t√£o importantes como uma carteira escondida num bolso ou um telem√≥vel eventualmente submergido num rasg√£o trai√ßoeiro das cal√ßas.
           Ap√≥s alguns momentos sem qualquer resultado, entrou por fim no caf√© e sentou-se numa mesa a um canto. A seguir, quando a dona o foi atender, depois de responder √† sauda√ß√£o familiar que a mulher lhe dirigiu, pediu uma cerveja fresca.
Preparava-se para a beber, no mesmo café onde, junto com um emigrante da terra, dois clientes faziam o mesmo, acompanhando a bebida de tremoços e amendoins. Tratava-se da revisitação anual do homem ao berço natal, de que agora usufruía curtindo o sol murcho de fim de tarde na companhia de amigos de longa data.
           Foi nesta particular circunst√Ęncia que, pela primeira vez, Telmo ouviu Leandro, o filho de Ana Rosa, falar com entusiasmo do casamento da filha no s√°bado seguinte. Seguir-se-ia a boda, uma festa de arromba, numa quinta fidalga devorada pelo musgo dos √ļltimos cinquenta anos, mas resgatada recentemente ao p√≥ da ru√≠na para a realiza√ß√£o de eventos t√£o importantes como casamentos, baptizados ou outros encontros sociais com elevado n√ļmero de participantes. Era o caso.
            -S√£o cento e vinte convidados. O meu futuro genro √© franc√™s. De Marselha. A fam√≠lia dele e os convidados chegar√£o sexta-feira. Cerca de cinquenta pessoas a dividir por hot√©is e pens√Ķes das redondezas.
           -E o noivo j√° conhece o pa√≠s? ‚Äď perguntou Alberto, um colega de inf√Ęncia, olhando de esguelha para Telmo, ali ao lado mais ou menos invis√≠vel, numa esp√©cie de marginalidade auto imposta, que, talvez por isso, se notava  ainda mais.
           -J√° c√° esteve o ano passado. Duas vezes. A S√≠lvia trouxe-o a conhecer a av√≥ e a minha irm√£ Catarina. Gostou bastante disto, desta nossa tranquilidade e da forma como sabemos acolher. Como todos os estrangeiros, adora a nossa comida. Sobretudo a do norte e do centro, visto que a outra n√£o a conhece muito bem.
          -Prepara a carteira ‚Äď disse um outro homem, Jo√£o, criador de galinhas e frangos de avi√°rio, ali na mesa partilhada pelos tr√™s homens, a quem n√£o ocorreu outra coisa sen√£o um lugar-comum.
          -S√≥ se casa uma vez‚Ķ - acrescentou Leandro.
           -Isso era dantes ‚Äď retorquiu Jo√£o, com manifesto pouco tacto perante um pai babado com a filha mais velha e com o seu casamento ‚Äď. Agora n√£o leva um ano e est√£o separados, a puxar cada um para o seu lado o primeiro filho como se este fosse um trapo. Alguns at√© desejam quase uma senten√ßa de Salom√£o para levarem metade da crian√ßa, sem se preocuparem com a parte que falte‚Ķ
          -Tem raz√£o. Mas espero bem que isso n√£o aconte√ßa com os dois. O Pierre √© bom rapaz. J√° se conhecem h√° cinco anos e n√£o h√° raz√Ķes para as coisas correrem mal. Como bom pai, dou-lhe um tiro no meio da testa se ele se atrever a n√£o ser um bom marido ‚Äď brincou, sorrindo, enquanto revolvia, no meio dos dedos, um dos amendoins do prato e o descascava ao som daquele barulho da casca do pequeno fruto seco.
          -Que assim seja e que sejam felizes ‚Äď disse Celeste, a dona do caf√©, atr√°s do balc√£o, que n√£o pudera evitar de ouvir a conversa, e para quem um casamento era sempre um bom motivo para alterar a rotina de uma terra onde a vida decorria parada.
          -Ser√£o, se Deus quiser. Obrigado.
          -√Č o que se deseja ‚Äď acrescentaram todos quase ao mesmo tempo.
          E Jo√£o, respirando com alguma dificuldade o ar pesado que os muitos inc√™ndios deixavam em todo o lado, acrescentou como ave de mau agouro:
          -S√≥ n√£o tiveste muita sorte com a data escolhida. Anda para a√≠ tudo a arder. A televis√£o s√≥ tem mostrado cat√°strofes por todo o lado - acrescentou, olhado para o televisor, que, ali mesmo, falava sem cessar sobre a calamidade nacional do ano, mostrando labaredas a toda a hora como se o Inferno se tivesse instalado para todo o sempre na Terra.



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« Última modificação: Abril 11, 2020, 23:09:45 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Goreti Dias
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« Responder #19 em: Abril 04, 2020, 09:50:11 »

Vamos l√° continuar!
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #20 em: Abril 04, 2020, 15:47:38 »

                                                                                         XIV
 
          -O actor que faz de Telmo √© parecido contigo, Domingos. J√° reparaste? ‚Äď fez notar Fausto, salientado algumas semelhan√ßas entre um e outro. Uma das quais o cabelo e os olhos.
          -Agora que dizes isso, tens raz√£o. Tamb√©m sou ruivo. Mas muito mais bonito! ‚Äď brincou Telmo, enquanto, no filme, o rapaz tomava a decis√£o de deixar o caf√©, depois de ter bebido a cerveja com a mesma cara de poucos amigos com que havia entrado.
          -Mas isso √© porque est√°s vestido com roupa de marca e ele traz umas cal√ßas e um blus√£o fatela ‚Äď continuou Fausto no mesmo tom ligeiro do amigo.
          -O Leandro √© que √© bem diferente de ti. Se h√° homens a favor de igrejas e de casamente aquele √© um deles ‚Äď provocou Domingos com um riso ir√≥nico ‚Äď Mas, vamos l√° calar-nos e ver o resto. Nada de conclus√Ķes precipitadas. Muita coisa ir√° ainda acontecer. Estou √† espera de ter uma boa surpresa com aquele bacano.
          -Podes contar com ela. N√£o estou aqui para te desiludir ‚Äď retorquiu Fausto enigmaticamente, enquanto se mexia na cadeira arrancando um longo gemido √†s dobradi√ßas, algo secas e com alguma falta de √≥leo lubrificante.


                                                                                               3

          Telmo pegou a seguir no telem√≥vel que pousara entretanto na mesa e levantou-se. Catadas no bolso das cal√ßas como se fossem esmolas, e com umas moedas na m√£o, foi ao balc√£o pagar a bebida num gesto decidido. E, com o mesmo olhar gelado com que entrara, trope√ßando numa das cadeiras do estabelecimento, saiu sem se despedir, enquanto proferiria, entre dentes, uma praga √† cadela que se lhe cheirara as pernas sem se desviar do seu trajecto de criatura que andava sobre dois p√©s.
          J√° na rua, colocou o capacete na cabe√ßa, subiu de novo para a mota e chispou para o beco como um fugitivo. Era l√° que morava com a fam√≠lia, ali a uns bons metros da igreja onde o Centro Paroquial, constru√≠do h√° trinta anos, se enchia de escuteiros aos fins-de-semana de todo o ano para aprenderem as regras de civilidade teorizadas pelo fundador da organiza√ß√£o Baden Powell. A excep√ß√£o era Agosto, que o deixava vazio at√© √† pr√≥xima √©poca de actividades, a descansar das ideias e da alegria da juventude irrequieta e barulhenta,
         -O rapaz que saiu, apesar de bonitinho, tem cara de poucos amigos. Era um garoto mal-encarado quando fui embora e n√£o melhorou nada. Ser√° que bebeu leite de figueira-brava? ‚Äď perguntou Leandro mal Telmo saiu.
          -Foi criado com muita brandura pela m√£e. Em crian√ßa, era o diabo e ela, em vez de lhe cortar o cabresto logo na altura, deu-lhe corda ‚Äď disse Alberto, um dos homens que ali estava, colega do progenitor do rapaz na f√°brica das motorizadas ‚Äď. Era o pai, por um lado, a tentar meter ordem naquela cabe√ßa endiabrada e a mulher a trocar-lhe as voltas por outro. Que √© o que tem feito at√© hoje!...
          -A Susete √© boa pessoa. S√≥ que tem l√° aquele feitio de deixa andar e depois d√° nisto ‚Äď acrescentou Jo√£o, o outro homem da mesa, enquanto Leandro se lembrava da m√£e do rapazola, sua colega dos bancos de escola h√° muitos anos atr√°s.
          -Um bocado sostra, se quereis que vos diga ‚Äď atalhou ele, ao lembrar-se dela. Tinha pouca atitude. E gente sem atitude tende a ter filhos desequilibrados. √Č o que eu penso. Deus me perdoe.
          -Eu n√£o queria dizer tanto. Afinal somos quase vizinhos, e as coisas correm como a √°gua. Ent√£o se for choca, ainda desliza mais depressa. Pode chegar-lhe aos ouvidos e n√£o quero problemas com eles ‚Äď acrescentou o interlocutor olhando em redor com medo de ouvidos e l√≠nguas indiscretas.
          -N√£o se aflijam. N√£o vou contar as conversas dos clientes aqui no caf√© como uma mulher do soalheiro! - atalhou a dona, entre o aviso e o melindre, visto, al√©m dos tr√™s amigos, ser agora a √ļnica pessoa ali. Tinha de cuidar das ch√°venas e das outras coisas com que os servia a todos, entre as oito horas da manh√£ e as nove da noite, dez ao domingo.
          -Desculpa Celeste ‚Äď atalhou, Jo√£o, o dono do avi√°rio, todos mais ou menos da mesma idade, que haviam frequentado juntos os bancos da escola. N√£o quis dizer nada disso. Muito menos ofender-te. √Č s√≥ uma maneira de falar.
          -Deixa l√°. Adiante.
          -A juventude ‚Äď continuava o homem, depois de algum sil√™ncio e colocados os pontos nos √≠s ‚Äď hoje em dia tem umas ideias esquisitas. √Č leviana, se pensa nas coisas f√°-lo de esguelha, ao de leve, n√£o deixa que elas lhe pesem nem um bocadinho. Quero dizer que n√£o levam nada a s√©rio. Deve ser por causa de tanto computador, telem√≥vel, jogos disto e daquilo. Se n√£o se p√Ķem na ordem em casa, √†s tantas d√£o em bardinos. Sempre em rixas e as esmocarem-se uns aos outros com um √≥dio que s√≥ pode vir l√° desses macacos dos jogos e da brandura com que s√£o tratados pelos pais e nas escolas. No meu tempo, era o professor na sala, Deus no c√©u e a m√£e em casa, auxiliada pelo pai. Este era sempre a gram√°tica mais √† m√£o para ensinar os filhos a serem respons√°veis, respeitadores e bem-educados. Ainda que a boa-educa√ß√£o tivesse de ser escorada por uma surra na hora certa. O mundo est√° em colapso, os valores a esboroarem-se por falta de equil√≠brio entre o cimento e a areia que atiramos √† parede dos jovens. Com bastante frequ√™ncia, se v√™em mi√ļdos a espancar outros por d√° c√° aquela palha, enquanto, quais vedetas da TV, captam v√≠deos e os colocam a seguir na Internet, cheios de orgulho e como se se tratasse da bandeira nacional a desfraldar em Marte. N√£o quer dizer que a Susete tenha a culpa de tudo. Mas tem bastante.
          Leandro, depois daquele pequeno mal-entendido com Celeste, j√° enterrado como uma coisa est√©ril, ainda se aventurou a perguntar de novo sobre o rapaz mais velho da colega da escola prim√°ria que, uns metros mais √† frente, aguardava o regresso das aulas em Setembro e o gasto alarmante dos pais com os livros dos filhos em cada ano.
Tanto quanto se dizia, nenhum dos outros três filhos da mulher era assim. E a rapariga era uma jóia. Mas aquele saíra ovelha negra.
          -Onde √© que ele trabalha? ‚Äď perguntou o emigrante ao dono do avi√°rio, enquanto descascava um novo amendoim do prato min√ļsculo que acompanhava as bebidas dos tr√™s amigos .
          -Agora em lado nenhum. Depois de ter sido despedido das motas, onde entrou pela m√£o do pai mal acabou o d√©cimo segundo ano, ainda foi para a f√°brica de lactic√≠nios. Foi a m√£e quem o l√° meteu. Trabalhava na expedi√ß√£o de produtos, mas foi sol de pouca dura. Eram mais as vezes que faltava do que as que ia para o servi√ßo. Nem por ela l√° trabalhar. Nalgumas ocasi√Ķes, quando os pais saiam de casa, ainda ele n√£o tinha regressado. Sobretudo depois de rapariga, a namorada, o deixar. E, sabes como √©. Hoje em dia n√£o h√° empregos seguros. Ao fim de meio ano p√Ķem-nos na rua, o carrossel nunca p√°ra. Sai um para entrar outro. Mas com ele nem isso aconteceu. Foi despedido pura e simplesmente. Agora √© a m√£e que lhe d√° o dinheiro para os v√≠cios. E n√£o se sabe o que mais far√° ele ‚Äď insinuou o homem
          -√Č pena. Ele at√© tem bom ar. Quero dizer. √Č bonitinho ‚Äď acrescentou de novo Leandro ‚Äď. √Ä primeira vista, se n√£o o conhecesse e se a Joanne, a minha outra filha, mo apresentasse como namorado n√£o levantaria problemas‚Ķ
          -Est√°s enganado... Tem ar de songamonga‚Ķ ‚Äď mordeu Jo√£o, reticente -. A mim parece-me que deve ferrar pela calada‚Ķ Enquanto namorava com a Marisa, ainda se daria mais ou menos com os amigos dela e andaria nos eixos. Agora, anda sempre sozinho, como um c√£o com sarna. A rapariga cansou-se de tanta malandragem. Trocou-o por um rapaz de Viseu que conheceu na Universidade do Porto, onde ele estuda Veterin√°ria e ela Servi√ßo Social, tanto quanto julgo saber.
           -O rapaz, o Telmo, j√° esteve um tempo fora daqui. Mais de um ano. N√£o se sabe √© a fazer o qu√™‚Ķ ‚Äď acrescentou Alberto, metendo mais uma acendalha no di√°logo que, como se se tivesse tratado de um ovo choco, n√£o chegou a eclodir

                                                                                 XV

          -√Č a chamada ‚Äúconversa de soalheiro‚ÄĚ ‚Äď disse Fausto, falando com os seus bot√Ķes, mas de modo a ser ouvido pelo amigo. Para si, as inconsist√™ncias de Telmo n√£o passavam de meras figuras de estilo, sobre as quais n√£o valeria a pena gastar um dedal de saliva. Ele que abria as portas do hotel a gente com pedregulhos √†s costas, quando o pobre Telmo carregava umas meras peninhas de pinto imberbe.
          -Tens raz√£o, Fausto- replicou Domingos. Para j√° ainda n√£o vi assim tanta malandragem da parte do protagonista. Talvez o contributo da Marisa venha agitar um pouco o saco de box em que Telmo est√° transformado. Se calhar, foi mesmo o namoro mal sucedido dos dois a varr√™-lo, junto com os seus v√≠cios, para o tapete da entrada onde ficavam os pobrezinhos de outrora √† espera da sua tigelinha de sopa. √Äs vezes, as mulheres d√£o cabo de n√≥s, levam-nos a casa do diabo mais velho‚Ķ- acrescentou


Continua. E agora depois de vos dar mais um capitulo do que escrevo, vou ler um pouco do que outros escreveram para mim - Ana Karenina.
« Última modificação: Abril 04, 2020, 15:53:27 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #21 em: Abril 05, 2020, 10:21:50 »

Continua a ler, mas n√£o deixes de escrever! Diz o roto ao nu...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #22 em: Abril 11, 2020, 15:46:28 »

 
                                                                                         4


         Seriam perto de oito horas, quando Leandro e os outros dois homens, depois da √ļltima rodada em que se augurou um bom destino a S√≠lvia e a Pierre, se preparavam para ir embora:
          -Vou andando. Hoje o jantar √© em casa da minha m√£e. Ela fez quest√£o de dar de comer l√° em casa aos filhos e aos netos todos, os que est√£o c√°. Os outros s√≥ vir√£o na quarta, com a fam√≠lia e os amigos de Pierre. A minha irm√£, a minha mulher e a Joanne est√£o l√° a ajud√°-la. Com oitenta anos, j√° n√£o tem idade para certas coisas. Mas pronto. A Catarina bem insistiu em cozinhar em casa dela, assim como a minha mulher quis que fosse na nossa. Mas n√£o houve meio de convencer a senhora Ana Rosa. Ela diz que a casa √© pequenina, mas que sempre l√° coubemos. Diz que n√£o foi por ser do tamanho de um ovo que n√£o nasceram e foram l√° criados  bons pintos.
          -E n√≥s, todos gostamos de recordar o passado em casa da m√£e. Sobretudo se tiver sido bom. Al√©m de que nunca se sabe quando ser√° a √ļltima reuni√£o com a fam√≠lia completa ‚Äď acrescentou Jo√£o na mesma toada agoirenta de h√° pouco.
          -Cala-te, homem! Longe v√° o agouro! ‚Äď Atalhou Leandro, esconjurando a ideia.
          -√Č melhor calar-me mesmo‚Ķ
          E, co√ßando a cabe√ßa pensativo, depois de limpar o suor da cara √†s costas da m√£o, acrescentou:
          -Tenho de passar pelo avi√°rio a ver se est√° tudo em ordem. Se nenhum animal gatuno assaltou a capoeira. Aquilo d√° imenso trabalho, nem ao domingo consigo desligar das galinhas e dos frangos. H√° sempre qualquer coisa a fazer, verificar se os autom√°ticos est√£o a funcionar correctamente, se os animais t√™m comida e √°gua.
          Quando os tr√™s sa√≠ram, havendo nas redondezas uma f√°brica de motas a justificar os h√°bitos dos rapazes, √† porta estavam meia d√ļzia delas com alguns deles em cima como se fossem jovens potros e cavaleiros. Poucas coisas lhes dariam maior sensa√ß√£o de poder e adrenalina do que lev√°-las ao limite, quantas vezes em corridas clandestinas e perigosas. Nenhum deles sabia se ainda iria ao caf√© da Dona Celeste jogar uma partida de bilhar, na sala das traseiras, ou se iria j√° embora, encontrar-se, cada um deles, com a sua namorada, ou fazer qualquer outra coisa que lhe desse prazer. Nos bancos da pra√ßa, debaixo das duas ac√°cias existentes no adro, alguns homens e uma ou duas mulheres gozavam o fim da tarde, dois c√£es estavam deitados como tapetes aos p√©s dos donos.
          O calor continuava com a mesma toada abrasadora dos √ļltimos dias. O pa√≠s ardia por todo o lado, com o fogo a deixar no ar um mar de fumo capaz de escorra√ßar para o outro mundo qualquer criatura que se atrevesse a respirar. Os bombeiros combatiam as labaredas sem tr√©guas tr√©guas e como homens condenados a trabalhos for√ßados, sem o maldito vento leste, mancomunado com todos os outros e mudando continuamente de direc√ß√£o, amainar. Perante o braseiro, de norte a sul, ficava-se cada vez mais sem saber onde come√ßava um fogo e acabava outro. Quando as chamas do primeiro j√° havia varrido quanto haviam apanhado pelo caminho, juntavam-se dois ou mais a festejar a vit√≥ria do mal, num inferno ainda maior. Enquanto isso, sucediam-se discuss√Ķes, debates pol√≠ticos, atribu√≠am-se culpas. E a floresta gemia devorada pelo fogo, ao mesmo tempo que cada nesga de mato se transformava num barril de p√≥lvora, pronto a estourar no meio das cinzas. Fogos considerados extintos reacendiam-se a cada passo. Eram cada vez menos os o√°sis no meio de um imenso deserto negro, e ningu√©m sabia quando esses pequenos o√°sis deixariam de o ser tamb√©m. Talvez no minuto seguinte. A todo o instante, morriam √°rvores e morriam pessoas nas garras das labaredas, ateadas por incendi√°rios sem uma fagulha de alma a cuja compaix√£o se pudesse apelar.
          A seguir, os tr√™s convivas meteram-se cada um nos tr√™s carros estacionados √† porta, um deles, o de Leandro, de matr√≠cula Francesa e de gama m√©dia alta, que ele viera mostrar √† terra como corol√°rio do seu esfor√ßo em terras de Edith Piaf.

                                                                               XVI

          -Caro Domingos, aqui tens o oposto de h√° bocado, quando pass√°mos pela mulher que lia ‚ÄúA Divina Com√©dia‚Ä̂Ķ
          -Porqu√™, grande Fausto?
          -Porque se ela estava a ler a parte referente ao Para√≠so, agora n√≥s estamos a ver um filme que retrata o Inferno. Talvez com as necess√°rias adapta√ß√Ķes, em virtude do tempo decorrido desde a Idade M√©dia, quando foi escrita a obra, at√© hoje, ter introduzido grandes altera√ß√Ķes no dia-a-dia.
          -Como assim? ‚Äď perguntou o rapaz com um sorriso de curiosidade, enquanto, no √©cran, um piano acompanhava a sa√≠da dos amigos num excerto veemente da banda sonora do filme .
          -Ora, porque s√≥ no Purgat√≥rio, no s√©timo c√≠rculo, √© que havia chamas. A√≠ eram purificados, atrav√©s das labaredas, os que morriam depois de se terem dedicado √†s maiores orgias de sexo e lux√ļria, os maiores causadores dos males terrenos juntamente com o dinheiro. Ou, ent√£o, Dante cometeu uma grande falha na estratifica√ß√£o do Inferno em camadas. Devia ter inclu√≠do no s√©timo c√≠rculo os incendi√°rios. Mas pronto, por essa altura, como n√£o havia isqueiros, nem gasolina e os f√≥sforos seriam escassos, n√£o existiriam talvez pir√≥manos com express√£o suficiente para fazer parte da obra.
           -√Čs muito engra√ßado.
          -N√£o, n√£o sou assim t√£o divertido‚ĶPor outro lado, numa clara regress√£o ao Paleol√≠tico, daria muito trabalho atear fogo por fric√ß√£o. Seria coisa caricata na evolu√ß√£o social e cient√≠fica do mundo ‚Äď preleccionou Fausto sorrindo apesar de tudo  
          -Ainda quero ler essa obra-prima da Literatura ‚Äď retorquiu Domingos igualmente a sorrir, na cadeira ao lado do amigo do cora√ß√£o, em que, merc√™ do seu gesto de acolhimento e de boa vontade, o hospedeiro se havia transformado por aquela altura,
          -Eu empresto-ta. N√£o sei √© se ter√°s tempo e paci√™ncia para tirar, de tantas dobras liter√°rias e met√°foras, o seu significado preciso. A Idade M√©dia era muito temente a Deus. E, quando algu√©m pensava no mal que inundava a Terra, das mais diversas formas e feitios, imaginava logo os seus praticantes a dar com o costado num Inferno, representado sempre por fogo e ranger de dentes. Foi nessa √©poca que se lembraram de fazer das igrejas as delega√ß√Ķes do c√©u. Apesar de me parecer que ali n√£o se passa nada que torne o homem feliz ‚Äď finalizou Fausto, sem, desta vez, obter qualquer coment√°rio do interlocutor.
          -Talvez s√≥ a cerim√≥nia do casamento‚Ķ-disse ele a seguir a uma pausa.
          -Nem em todas ‚Äď acrescentou Fausto com ironia. Portas adentro, h√° por a√≠ cada casamento que √© um filme de terror constante.
          O rapaz concordou sem nenhuma objec√ß√£o.

Continua

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Alice Santos
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De m√£os dadas pela poesia.


« Responder #23 em: Abril 11, 2020, 18:54:14 »

Muito bom! Fico a aguardar por mais.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #24 em: Abril 12, 2020, 21:15:23 »

Obrigada, querida Alice.Ent√£o c√° vai mais um tiquinho,


                                                                                              5


          Quando Telmo entrou em casa, depois de tirar o telem√≥vel do bolso, j√° na sala comum, uma casa modesta com poucos m√≥veis, de entre o tradicional aparador, mesa, seis cadeiras, um sof√° pequeno e o trivial televisor, um pouco mais moderno e j√° mais folha de papel, num gesto de desprezo, atirou com o blus√£o de ganga para o sof√° pequeno, ao lado do outro onde estava o pai que de soslaio o olhou com um certo ar de desd√©m. A televis√£o, em frente, mostrava, √†s oito horas da noite, as not√≠cias do dia. Os inc√™ndios continuavam a ser um prato mais forte do que aquele que Susete, a m√£e de Telmo, da√≠ a nada, poria na mesa ao filho mais velho rec√©m-chegado a casa. Os outros dois, S√©rgio e Luciano, andariam talvez √†s voltas com os namoricos, se j√° tivessem regressado da Barrinha, e a filha, Paula, tamb√©m ainda n√£o regressara com o namorado da mesma festa que trouxera o comboio Porto/Aveiro das dezoito e cinquenta √†s moscas, enquanto os foli√Ķes queimavam os √ļltimos cartuchos na romaria.
Abel, o pai daquela fam√≠lia de quatro filhos desarranchados num domingo ao fim da tarde, estava a ver o telejornal, indignado com a calamidade desencadeada pelos √ļltimos inc√™ndios. Mas, quando o filho mais velho, Telmo, chegou, desviou os olhos do televisor para se inteirar dos eventos de que o rapaz, para o bem e para o mal, teria participado naquele Domingo:
          -Ent√£o, onde andaste hoje? ‚Äď perguntou, entre o interesse e a indiferen√ßa, depois do gesto do mo√ßo, cuja jaqueta estava ao seu lado no sof√°, quieta e morta, sem vida l√° dentro.
          -Na festa da Barrinha. Mas vim embora cedo.
          -Viste por l√° os teus irm√£os?
          -Vi. Uns para cada lado. Mas hoje foi o meu dia de azar‚Ķ- acrescentou com a cara de poucos amigos que Leandro lhe notara h√° pouco, no caf√© da Celeste e no meio do seu descasque de amendoins e golos de cerveja.
          -Ent√£o porqu√™?
          -Ou a perdi, ou roubaram-me a carteira‚Ķ
          -Onde?
          -Possivelmente l√°. S√≥ dei conta quando estava na esta√ß√£o a validar a viagem de comboio. Por acaso tinha guardado o andante no bolso das cal√ßas, juntamente com uns trocos. De contr√°rio teria de vir √† boleia. Ou ent√£o tinha de viajar clandestino‚Ķ
          -Capaz disso eras tu‚ĶA clandestinidade tem vindo a ser o teu mais recente lema de vida‚Ķ
          E calou-se de repente, sem o mais leve troco do filho, para da√≠ a nada continuar sobre o mesmo assunto.
          -A carteira n√£o devia ter muito dinheiro‚Ķ - insinuou com a ironia usada habitualmente quando o assunto com o filho era dinheiro -. E os documentos?
          -Tamb√©m l√° estavam. Todos. Dinheiro, √© que s√≥ l√° tinha quarenta euros.
          -S√≥?! √Čs muito rico‚Ķ
          Sil√™ncio.
          -E quem √© que tos deu?
          -Dez foi a m√£e, os outros, um amigo emprestou-mos.
          -Para qu√™?
          -Coisas minhas.
          -Ricas coisas h√£o-de ser essas‚Ķ
          -S√£o o que s√£o!
          Depois de alguns instantes em que parecia perguntar-se intimamente em que teria errado na educa√ß√£o do seu rapaz mais velho, o homem prosseguiu.
          -Ent√£o agora andas sem carta e sem dinheiro? ‚Äď observou, convicto de que Telmo andaria, sem sombra de d√ļvida, a dedicar-se a ac√ß√Ķes pouco ortodoxas no lado mais  obscuro  da vida. A come√ßar em casa, onde j√° n√£o era a primeira vez que certas coisas, sobretudo algumas notas guardadas numa gaveta entre meias e cuecas, moedas de euro e alguns objectos de valor levavam sumi√ßo como que por magia negra.
          Mas, de momento, o feiti√ßo parecia ter-se virado contra o feiticeiro.
          -S√≥ da esta√ß√£o at√© aqui, no regresso. N√£o fui de mota para a Barrinha por causa dos inc√™ndios e foi o mal que eu fiz. Talvez n√£o tivesse sido roubado‚Ķ
          -Ent√£o agora vais ter de gastar uns trocos a renovar os pap√©is. N√£o seria melhor arrumares a mota e andar a p√©?
          -J√° nenhum rapaz daqui anda a p√©. E aqui ningu√©m me apanha. As patrulhas da GNR t√™m mais que fazer do que virem para este fim do mundo √† cata de gambuzinos.
           -Era bom que sim, que te apanhassem. Que fosses parar √† cadeia, a ver se ganhavas ju√≠zo‚Ķ
          E Telmo, virando as costas ao pai e √† sua conversa destrutiva, mil e uma vezes desenrolada e sempre com os mesmos argumentos, dirigiu-se √† cozinha, onde a m√£e colocava tr√™s pratos sobre a tolha na mesa para o jantar dos tr√™s, transferido da sala para a√≠ √† √ļltima hora.
          -Ol√°, m√£e ‚Äď disse.
          -Ent√£o filho, j√° chegaste? ‚Äď perguntou a mulher num tom maternal, deixando antever a prefer√™ncia das m√£es pelo filho menos ajuizado, uma obriga√ß√£o inerente a um cord√£o umbilical que n√£o fora saudavelmente cortado.
          -Estive na Barrinha. Mas roubaram-me a carteira. Preciso que me empreste dinheiro ‚Äď pediu de chofre.
          -Roubaram-te a carteira? Como?
          -Roubaram-me ou perdi-a. N√£o interessa, o resultado √© o mesmo. Estou sem dinheiro. Preciso de quarenta euros para devolver a um amigo. Era o que tinha.
          -N√£o tenho, Telmo. Hoje √© domingo. S√≥ amanh√£, quando for trabalhar, poderei levantar algum. Vai pedir ao pai.
          -Achas que ele mo dava? Nem morto! Vai l√° tu. Talvez tenhas mais sorte.
          A m√£e saiu da cozinha contrariada. E, quando regressou, da√≠ a uns instantes, depois de alguns pedidos regateados ao marido at√© ao limite, n√£o tinha na m√£o um c√™ntimo para dar a um rapaz que n√£o parava num emprego e que at√© em casa era suspeito de ter h√°bitos de subtrac√ß√£o ‚ĶMais do que suspeito. S√≥ n√£o havia provas‚Ķ
          -Precisas de ir trabalhar‚Ķ
           -Estou farto dessa conversa ‚Äď retorquiu Telmo de mau humor e sem paci√™ncia.
           A m√£e calou-se e o rapaz saiu da cozinha, enquanto dizia de p√©ssimo humor.
           -Antes de jantar, vou apanhar um bocado de ar. Depois como. N√£o te chateies, sei tratar de mim ‚Äď rematou com maus modos.
          Seriam perto de nove horas, quando o sol, com o fumo dos inc√™ndios colado ao c√©u como um capacete numa tangente vermelha a rasar o horizonte, se despedia da tarde triste e maltratado.

                                                                                     6
          Fumando cigarros uns atr√°s dos outros, o rapaz deambulou por ali um bocado, um c√£o sem dono incapaz de prever onde desencantar um osso que lhe enganasse a fome de muitos dias. √Äs vezes sentava-se, olhava sem ver e perdia-se no vazio do nada em que mergulhara. Por causa do seu estado catat√≥nico, era como um zombie impedido de responder a um ‚Äúboa-noite‚ÄĚ de quem se cruzasse com ele. Era, simplesmente, o ex-namorado da Marisa. N√£o o Telmo, o filho de Abel e Susete, trabalhadores da f√°brica das motas e da empresa de lactic√≠nios, mas sim o ex da rapariga estudante de Servi√ßo Social, que o trocara, ao fim de alguns anos, por um rapazelho de Viseu, um enfasado capaz de afrontar com o Jipe a sua mota de baixa cilindrada como se um fosse o milion√°rio e o outro o vagabundo nascido de uma fam√≠lia pobre da classe obreiras da terra
          -Tenho de ser honesta contigo. Conheci um rapaz de quem gosto ‚Äď dissera-lhe ela num s√°bado, ao in√≠cio da tarde. Preparava-se para a levar √† Praia da Costa Nova, na moto, atr√°s de si, abra√ßada ao seu tronco e a dar-lhe beijos nas costas, enquanto ele esperava que ela lhe levantasse a t-shirt √† frente para lhe acariciar o peito com as suas m√£os de veludo.
          -Tens andado a enganar-me este tempo todo, Marisa?
          -N√£o, Telmo. Mas descobri que gosto mesmo dele. Desculpa.
          -N√£o passas de uma cabra!
          -E tu de um chulo! Tens andado a viver √†s minhas custas. Quando √≠amos para algum lado era sempre eu a pagar. Estou farta, mere√ßo melhor. J√° n√£o √©s o mesmo, depois de come√ßares a ir ao acampamento dos ciganos.
          -Isso quer dizer o qu√™?
          -O que tu sabes melhor do que ningu√©m!...
          E, agora que se lembrava dela, que morresse, ela e o rapaz por quem fora trocado, num acidente de Jipe ou queimados num inc√™ndio, no meio de uma mata como as que andavam a arder por todo o lado. O assunto que fora tratar com os ciganos era apenas mais uma experi√™ncia de um dia dif√≠cil, quando tentara matar um problema com uma espingarda enferrujada como era o estupor da hero√≠na. Apesar de andar sempre na pen√ļria e a viver de esquemas, o maldito desemprego e os malditos patr√Ķes j√° n√£o o incomodavam. J√° se tinha habituado a todas as chatices. √Ä excep√ß√£o de Marisa. Ela √© que o tinha transformado num problema, numa bala que apontava continuamente para a mata como a forma mais eficaz de a tirar da cabe√ßa o mais depressa poss√≠vel.
          Agora, confrontado com a lembran√ßa dela, a apatia de h√° pouco cedera lugar √† raiva.

                                                                              
                                                                                           7
       Quem deu de imediato conta das inten√ß√Ķes de Telmo  foi Zico, o gato de Marisa, que lhe saiu ao caminho quando ambos se cruzavam na rua onde ela morava. O bichano, transformado em bode expiat√≥rio, teve de se desviar, na √ļltima frac√ß√£o de segundo, da biqueira dos t√©nis enfurecidos do rapaz. Mas o diabo tinha preparado mais uma surpresa para lhe encarni√ßar os miolos. Antes uns metros de ter chegado √† casa da jovem, um bloco de duas silhuetas abra√ßadas insinuou-se-lhe √† frente como uma afronta, enquanto reconhecia nele Marisa e o tal Nelson que lha roubara.
          A jovem, mal se deu conta do observador que outrora fora o seu namorado, soltou-se de imediato dos bra√ßos de Nelson. E a sua cara bonita, morena, de olhos negros grandes, boca larga e l√°bios grossos, ficou exposta ao olhar e √†s recorda√ß√Ķes do ex-namorado e √† sua transforma√ß√£o em maus pensamentos, a que talvez se seguisse uma ac√ß√£o do mesmo g√©nero. Uma dor de cotovelo gritante, incendiada com a contrariedade de h√° pouco no acampamento dos ciganos, iria certamente ter m√°s consequ√™ncias. Sobretudo depois de o pai de Telmo se ter recusado a dar-lhe os quarenta euros para ele se livrar do calote que servira como desculpa para dar ao pai por causa do furto da maldita carteira.
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« Responder #25 em: Abril 13, 2020, 09:08:36 »

Tiquinho em tiquinho, teremos um romance excelente.
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outono


« Responder #26 em: Abril 13, 2020, 13:34:09 »

Pondo a leitura em dia...
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« Responder #27 em: Abril 15, 2020, 22:45:08 »

                                                                                   XVI



          -Conhe√ßo uma rapariga parecida com a Marisa, mas n√£o me lembro de onde ‚Äď reflectiu Domingos para Fausto, com aquele ar de quem procura, √†s escuras, o interruptor para se ver livre de uma escurid√£o que, apesar de familiar, n√£o deixava de incomodar.
           -Conheces l√° agora! O que tu querias era ser protagonista de um filme assim. Com raparigas bonitas, como a Marisa e a Sameiro ‚Äď E, de repente, Fausto, olhando o cen√°rio do filme, soltou uma gargalhada, que abafou o som da tela.
           -Sabes quem parecemos aqui os dois sozinhos?- perguntou a seguir.
          -Quem?  
          -Os velhos dos Marretas, Statler e Waldorf, no seu camarote ‚Äď acrescentou, intercalando com dificuldade palavras e gargalhadas.
           Domingos imitou-o, rindo de igual modo. O banqueiro Mateus Rosa, e a mulher que com ele jantara, julgando que no pequeno audit√≥rio estaria a decorrer uma com√©dia menos aterradora do que seria provavelmente a de Dante, juntaram-se-lhes entretanto. E n√£o demorou muito at√© Orlanda e Paulo, num per√≠odo mais morto do expediente, se acercarem timidamente da entrada da saleta, de onde lan√ßavam a medo os olhos para o plasma, numa clara posi√ß√£o de quem est√° ali para servir e n√£o para se divertir.
Fausto, aproveitando presença do empregado, pediu uma cola e pipocas, que o barman se apressou a ir buscar, movendo-se de forma a perturbar o mínimo possível os espectadores.
                                                                                     8

           Telmo, depois de deixar Nelson e Marisa √† porta da rua, entregues a despedidas aconchegantes, embora perturbadas pela sua presen√ßa, abalou de novo para casa, com um enrugado na testa em que pareciam desenhados, com grande precis√£o, dr√°sticos planos.
           A avaliar pelo modo pouco amistoso como tratou o gato e rogou uma praga √† ex-namorada e novo companheiro, os planos, fossem eles quais fossem, n√£o auguravam nada de bom. Independentemente dos visados. Por agora, perfilavam-se tr√™s no horizonte: Marisa, Nelson e o cigano In√°cio Maia. E se, embora n√£o se vislumbrasse de imediato como, depois do epis√≥dio mais recente, parecia estar na calha a urdidura de uma vingan√ßa. Tamb√©m  poderia suceder algo semelhante a um jogo de bilhar bem sucedido e, numa √ļnica tacada, era bem poss√≠vel que  a carambolada os atingisse a todos.
          Em casa, foi directo √† cozinha. A mesa continuava posta com um √ļnico prato. Sozinho, m√£e no quarto do casal e pai a ver na televis√£o algumas provas de nata√ß√£o dos Jogos Ol√≠mpicos do Rio de Janeiro, serviu-se de uma colher de arroz, duas ou tr√™s batatas e um naco de carne assada.
          Tomado de repente por um fastio inexplic√°vel, foi depois ao tubo das sacas pl√°sticas amarrotadas num novelo pendurado na despensa. Pegou numa, alisou-a, e o naco de carne que o seu est√īmago se recusava a receber p√ī-lo dentro da saquinha, que a seguir escondeu entreaberta sob a mesa como uma crian√ßa que, n√£o gostando de sardinhas, tenta arranjar subterf√ļgios para a deitar a seguir para o lixo.
          Mal acabou de colocar os pratos e talheres na banca da lou√ßa, dirigiu-se √† sala onde vestiu o blus√£o de ganga que a√≠ havia colocado de novo e resmungou um ‚Äúvou sair‚ÄĚ a Abel. Foi depois ao quarto dizer o mesmo √† m√£e.
          -Aonde √© que vais?
          -N√£o demoro.
          -N√£o v√°s para longe. Est√°s sem carta.
          -Vou apanhar um bocado de ar. Aqui est√° imenso calor. J√° volto.
          -Tem cuidado com os inc√™ndios. H√° estradas cortadas em todo o lado.
          -At√© logo.
          Antes de sair, passou de novo pela cozinha, agachou-se com cuidado, pegando dissimuladamente no saco como um malfeitor a executar a primeira parte do seu plano. Quando j√° o tinha disfar√ßado na m√£o, desceu silenciosamente √† loja de arrumos. A√≠ estavam todas as coisas de que um dom√©stico e cumulativo carpinteiro, serralheiro e agricultor, precisava para tudo, mais para a horta nos seus v√°rios cultivos de onde as batatas, arrancadas da terra √† enxada por m√£os calejadas, j√° haviam sa√≠do h√° um m√™s.
          Do que ele necessitava agora era de um frasco ressequido de 605 Forte, o eficaz rem√©dio do escaravelho, j√° com alguns anos, calcinado e de tampa renitente a viola√ß√Ķes. Seria talvez da √©poca em que as drogarias o vendiam ainda sem os cuidados profil√°cticos dos √ļltimos tempos. Depois de tantas mortes por envenenamento, suic√≠dios, mas tamb√©m muitos homic√≠dios, agora o vendedor era obrigado por lei a registar em livro pr√≥prio o nome dos compradores. A toxicidade do produto era inquestion√°vel.
          Encontrou-o numa prateleira, mostrando ainda o aviso de perigo e o r√≥tulo desbotados por causa da baba que, geralmente, escorre do frasco ao despejar o l√≠quido viscoso, calcinado agora pelo tempo. Com um trapo providencial, encontrado ali algures, abriu-o ansioso e com um pouco de esfor√ßo, coroado de √™xito ao fim da segunda ou terceira tentativa. Depois de aberto, pegou no saco pl√°stico que trouxera da cozinha e, com cuidado para n√£o se sujar de gordura nem envenenar as m√£os, verteu, com olhos triunfais e esgazeados apesar da dificuldade inicial, uma massa pastosa e verde sobre a carne. Amarrou a seguir as asas do saco e saiu com os olhos vidrados pelo rancor.
          ‚ÄúSe estiver estragado deve ser para pior‚ÄĚ ‚Äď disse de si para si, indiferente ao dolo eventual acerca dos resultados de um acto vingativo de que j√° ningu√©m devia ter d√ļvidas.



                                                                                   XVII

          Domingos, para n√£o ser ouvido pelo banqueiro e pela amiga, os mais recentes espectadores de ‚ÄúO Rapaz do Isqueiro Assassino‚ÄĚ, debru√ßando-se sobre o ouvido de Fausto sussurrou-lhe:
          -Pobre Zico. Aqui est√° um caso em que vai pagar o justo pelo pecador. Sim deve ser o gato a pagar as favas.
          -Tens raz√£o. O rapaz deve ser um drogado a precisar de meter qualquer coisa para veia.
          Os dois mais recentes espectadores, vendo o filme da com√©dia desejada a evoluir para um triller recheado a veneno, decidiram abandonar a sala, onde ficaram de novo sozinhos os dois amigos, a fazerem, a cada instante, pertinentes coment√°rios sobre o filme  como verdadeiros cr√≠ticos de cinema.
          Quando Domingos deu conta disso, n√£o resistiu mais uma vez √† provoca√ß√£o:
          -Ent√£o, o Telmo est√° a candidatar-se a que c√≠rculo do Inferno?
          -Talvez ao s√©timo, primeiro vale. Sendo este um rio de sangue, onde as almas se afogam √† medida do que derramaram, depois de atentarem contra as pessoas e seus bens, o Zico pode ser considerado um bem de Marisa. Por outro lado, como se trata de um simples gato, a morte do bicho, por si s√≥, pode n√£o ser considerada suficiente para deixar o teu s√≥sia com um p√© nesse patamar do Inferno ‚Äď preleccionou Fausto divertido e com ar de professor.
          E Domingos, antes de prestar de novo aten√ß√£o ao √©cran, ainda arriscou uma segunda provoca√ß√£o:
          -De qualquer modo, bem podes pensar desde j√° num lugar para ele aqui no hotel. Talvez de jardineiro, ou agricultor. Com certeza, deves ter algures uma horta que n√£o me mostraste para os teus frescos‚Ķ - brincou.
           -Tenho, sim. A couve-flor do pur√© veio de l√°‚Ķ - J√° agora, ficas a saber que o horticultor do hotel tem uma hist√≥ria semelhante‚Ķ informou sem, desta vez, Domingos se decidir por fazer qualquer coment√°rio ou pergunta.  
          Tendo algo de dram√°tico, inc√™ndios, namoros ca√≠dos para o lado mais torto da vida, ‚ÄúO Rapaz do Isqueiro Assassino‚ÄĚ n√£o deixava de ser um filme com um certo sentido de humor, apreciado sobretudo por pessoas com um grau de sadismo muito acentuado.

continua
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« Responder #28 em: Abril 16, 2020, 12:42:29 »

Muito bem trabalhado, escrita muito cuidada. Muito bem!
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« Responder #29 em: Abril 18, 2020, 00:23:19 »

                                                                                     12

          Litos, vestido com uns cal√ß√Ķes, uma t-shirt e umas chinelas de dedo, aturdido como um zombie, enquanto as chamas se propagavam por todo o lado em velocidade turbo, teve ainda tempo de se dirigir ao no barraco de tijolos onde os pais e os irm√£os dormiam o primeiro sono da noite. Da entrada, atrav√©s da porta de madeira e com a ex√≠gua claridade afunilada que entrava pelo postigo, no que parecia uma cozinha polivalente, depois de os olhos se habituarem √† escurid√£o via-se um fog√£o no topo. Ao lado, havia uma banca e um grande balc√£o, ambos apinhados de coisas indistintas, numa desarruma√ß√£o estrutural que nunca devia ter conhecido melhores dias. Mas, antes disso, a meio do caminho, entre a entrada e a parede de topo, estava uma mesa, posta com utens√≠lios que teriam provavelmente os restos do que fora uma refei√ß√£o com os membros da casa, seis, que se sentariam, tamb√©m provavelmente, onde calhasse, talvez acompanhados da outra fam√≠lia ocupante do barraco cont√≠guo. Um sof√°, onde Sameiro dormia, estava colocado na parede contr√°ria ao postigo. Ainda do mesmo lado, duas portas davam acesso a dois min√ļsculos quartos. De um deles, onde In√°cio Maia, a mulher C√°rmen e o filho mais novo, um beb√© de cerca dois anos dormiam, sa√≠a um sonoro ressonar dos dois elementos mais velhos. No outro, ouvia-se a respira√ß√£o dos mais novos dormindo, e, na parede em frente ao improvisado quarto, vislumbrava-se o rect√Ęngulo negro do √©cran de um plasma. Toda a fam√≠lia, depois de dar como consumada a fatalidade da morte do Ringo, pensara no sono como a melhor coisa a fazer. Tanto mais que, na manh√£ seguinte, C√°rmen, In√°cio Maia e o filho mais velho, Ramiro, de quase dezoito anos, teriam de se levantar cedo para irem vender os p√≥los e os len√ß√≥is tortos arrematados nas f√°bricas a pre√ßo simb√≥lico e como refugo. Al√©m dos cestos de vime, cuja venda incumbia ao irm√£o e √† fam√≠lia deste. Treze pessoas no total.
          Mal viram o cad√°ver do animal a espumar pelos cantos da boca, como o bicho n√£o estivesse doente, todos eles  nem sequer pensaram num cancro, numa cirrose de √°gua ou qualquer outra doen√ßa igual √† dos humanos. Antes, conclu√≠ram que o cachorro teria sido v√≠tima de uma purga volunt√°ria, com que tentara talvez tratar uma indigest√£o canina. Com toda a certeza, ingerira uma erva venenosa, cuja semente encontrara na terra um pequeno veio de humidade para se reproduzir, enganando a seguir o pobre rafeiro com a sua cor verde mas sem qualquer efeito medicinal.
          Litos, trope√ßando num banco, dirigiu-se em p√Ęnico ao sof√° onde a irm√£ dormia. Com os seus grunhidos de rapaz surdo, abanou-a v√°rias vezes freneticamente. A rapariga, depois de se ter deitado pouco tempo antes, atingira rapidamente um sono profundo e dormia agora como uma pedra, mais surda de que o pobre irm√£o. Enquanto isso, no quarto ao lado, C√°rmen, dentro da enorme camisola que lhe servia de camisa de noite, acordava sobressaltada mesmo antes da filha, identificando de imediato as desesperadas peculiaridades vocais de Litos junto de Sameiro, renitente em acordar.
          Da cama junto √† parede, √† qual  C√°rmen dormia encostada, a mulher levantou-se de um salto. Com o cuidado poss√≠vel, transp√īs primeiro a crian√ßa, que dormia entre os dois. A seguir pulou sobre In√°cio sem este dar acordo de si, agarrado pelo sono como se de um moribundo se tratasse.
          J√° no ch√£o, arredou com os p√©s um banco abandonado √† sua frente, cal√ßou atabalhoadamente umas chinelas de meter o dedo. Pisou entretanto algumas pe√ßas da roupa que haviam despido ao deitarem-se e se encontravam agora espalhadas pelo tug√ļrio a que talvez ainda tivessem a ilus√£o de chamar quarto.
          Quando chegou √† cozinha, quer atrav√©s da porta de acesso ao exterior, quer pelo postigo, constatou que fora estaria tudo a arder e que depressa seriam engolidos pelas chamas se n√£o sa√≠ssem dali a correr.
           N√£o foi preciso chamar ningu√©m. Os seus gritos de p√Ęnico chegaram simultaneamente aos filhos, ao cunhado e ao resto da fam√≠lia do outro barraco, ampliando-se pelo escuro da noite ai ao redor e sem vivalma por perto para os socorrer. De segundo para segundo, as chamas iam progredindo numa calma indiferente a todo sofrimento que provocavam. J√° haviam abocanhado alguns arbustos e √°rvores de maior porte.
          Enquanto isso, fagulhas altaneiras, impulsionadas pelo vento, que se regozijava em mudar continuamente de direc√ß√£o, iam semeando o inferno no que, numa noite de Agosto, estava prestes a deixar de ser um acampamento de ciganos pac√≠fico  para se tornar num amontoado de cinzas. Nessa altura j√° a barraca da lenha para o inverno e a erva seca para o cavalo ardiam ali ao lado, e, da√≠ a nada, o fogo chegaria ao barraco de In√°cio, onde os mais pequenos dormiam ainda.
          -Credo, homem! Deus nos acuda! Que vai ser de n√≥s! ‚Äď gritava C√°rmen, atarantada.
          Enquanto cal√ßavam o que havia √† m√£o, irrompiam todos em p√Ęnico e choro colectivo. Era como se estivessem j√° √† porta de um hospital, onde um dos seus tivesse entrado em estado de coma, ou numa cadeia e a quem tivessem de prestar uma solidariedade feita de l√°grimas, a √ļnica maneira de se ser verdadeiramente entendido pelos irm√£os de ra√ßa e destino. Mas, por mais que gritassem e pedissem socorro, ali na mata, longe de tudo e de todos, dificilmente seriam ouvidos. Seria como gritar num deserto, onde nem areia nem estrelas poderiam valer-lhes. E era pouco prov√°vel, √†quela hora, algu√©m, vindo da esta√ß√£o ou mesmo do outro lado do circuito da estrada que de um lado e de outro levavam √† aldeia, os conseguisse ouvir.
          -Temos de fugir depressa daqui. Peguem nos catraios e subam todos para a carrinha de caixa aberta! Depressa, Rodrigo! ‚Äď ordenou In√°cio ao irm√£o, cunhada e sobrinhos -. Subam todos! ‚Äď gritava, ao mesmo tempo que, junto √† carrinha dos p√≥los e por todo o lado, o fogo lavrava num mar de labaredas esfomeadas,  alimentadas por mato seco e talvez por algum vest√≠gio de √≥leo derramado pela carrinha no seu estacionamento inclinado.
          -Podemos despejar os bid√Ķes da √°gua, no carro ‚Äď sugeria Rodrigo, o irm√£o de In√°cio Maia, aos gritos e atabalhoadamente, enquanto a gritaria e o choro dos mais novos aumentava √† medida que viam tudo a ser consumido.
          -Nem pensar! A √°gua, com o dep√≥sito do gas√≥leo por baixo, s√≥ ia piorar as coisas. Fujam depressa! A carrinha daqui a nada explode! ‚Äď C√°rmen desaparece, estupor vai meter os mi√ļdos no carro! Raios te partam! N√£o te ponhas para a√≠ a choramingar, faz o que tem de ser feito! ‚Äď resmungou entre a raiva e a comisera√ß√£o pela mulher, aflita na disputa com o fogo.
          -E o cavalo? -  quis saber Ramiro, no meio da atrapalha√ß√£o e do p√Ęnico comum a todos os membros da fam√≠lia.
          -Soltem-no! Ele que se desenrasque!- gritou.
          -N√£o ser√° melhor ligar para os bombeiros? - perguntou Luzia, a mulher de Rodrigo, quase no √ļltimo tempo de gravidez, em altos berros, enquanto, no frenesim da confus√£o, andava ela e os filhos de um lado para o outro perdidos e desgrenhados, depois de terem acordado no meio da noite com os gritos da cunhada.
          De repente, o lume chegou a um dos bid√Ķes de pl√°stico da √°gua cujo fundo come√ßou a derreter, fazendo-o encolher um bocado, enquanto a √°gua come√ßava a sair da parte de cima. E foi Litos quem, depois da como√ß√£o a que o ateamento do fogo o tinha inicialmente levado, derrubou o bid√£o da √°gua perto do local onde o c√£o jazia morto inundando o cobertor. At√© se desenhar no farrapo  uma aur√©ola que apagou um pequeno c√≠rculo de fogo sem grande express√£o face ao mar de chamas circundante.
          -Vou tirar dali a carrinha dos len√ß√≥is! ‚Äď gritou Rodrigo para o irm√£o, enquanto corria fazendo o gesto de se aproximar dela e a vegeta√ß√£o, ao redor, ardia descontroladamente.
          -N√£o! - rugiram Luzia e In√°cio, quase em simult√Ęneo, j√° a maior parte deles estava em cima da outra furgoneta -. A carrinha, se n√£o for antes, vai explodir ao ser ligada! Fujam! ‚Äď ordenou de novo In√°cio aos berros.
          -Mas ela est√° cheia das coisas para a feira de amanh√£! Temos de tentar salv√°-la! ‚Äď berrou Ramiro, irm√£o de Sameiro, totalmente de acordo com o Tio Rodrigo, ao mesmo tempo que  todos gritavam.
          -N√£o! ‚Äď pedia de novo Luzia. Tenho mais um filho n√£o barriga e n√£o quero que este ou os outros fiquem sem pai. Pelo amor de Deus!
          -Deslizo com ela de marcha - atr√°s e desligada. O que l√° est√° dentro vale demasiado para explodir! ‚Äď e fazia men√ß√£o de avan√ßar, sendo de novo impedido pelo irm√£o, que o agarrou √† for√ßa
          Litos, depois de despejar a √°gua do primeiro bid√£o, sem grande resultado visto que o fogo continuava a alastrar mais depressa do que um rio na sua enchente, come√ßou a ficar ainda mais inquieto do que sempre estivera. Olhava para todos os lados, como se procurasse alguma coisa demasiado preciosa para ser deixada para tr√°s. E, f0sse o que fosse que o perturbara daquela maneira, era grande demais para algu√©m ficar indiferente ao desespero do pobre rapaz. Este, √† vez, conforme quem tinha pela frente, dava murros ao pai, ao irm√£o mais velho, articulando pelo meio sons inintelig√≠veis acompanhados de um choro convulso, enquanto apontava para a carrinha dos p√≥los com o ferrete da dor esculpido no rosto. E, esperneando como um gato selvagem, aos pontap√©s a uns a outros, tentava desenvencilhar-se de quem o impedia de alcan√ßar a bendita carrinha, quando a explos√£o eminente desta era alardeada pelo pai e agora por todos os outros. Ap√≥s mais uma investida, era de novo travado por um e por outro, com a determina√ß√£o de quem manda e tem sempre a certeza de tudo.



                                                                                                13

          Depois da √ļltima tentativa do rapazinho em chamar a aten√ß√£o dos mais velhos, n√£o havendo ali nada sen√£o um acampamento num pasto de chamas, al√©m de uma carrinha que teimosamente lhes resistia, j√° era tarde para abalar dali a toda a pressa. In√°cio, ajudado pelo filho mais velho, atirou Litos para a caixa aberta do ve√≠culo sobresselente como atiraria um saco de batatas, enquanto o garoto, no meio dos irm√£os e dos primos, continuava a manifestar aos guinchos a sua discord√Ęncia em deixar a carrinha das feiras para tr√°s. A seguir, In√°cio mandou Ramiro subir, seguiu-se ele entretanto, e, desferindo uma violenta pancada na cabine, ordenou ao irm√£o que arrancasse a toda a velocidade como se estivessem a fugir ao Apocalipse. Na noite, os gritos de Litos continuavam a ser a trombeta da desgra√ßa.
          E assim foram deixando para tr√°s a vida de outrora e a carrinha que lha ajudava a ganhar. Esta principiava a retorcer-se aos poucos, com o c√£o ao lado, sobre um cobertor encharcado, alma no c√©u e de quem o rapaz parecia n√£o querer separar-se por nada deste mundo.
           N√£o chegaram, a ligar aos bombeiros. No meio da atrapalha√ß√£o, aqueles ciganos, com voca√ß√£o de n√≥madas eternos e com fracos h√°bitos pela ordem, n√£o conseguiram encontrar qualquer um dos seus telem√≥veis pr√©-pagos, um dos objectos  modernos da civiliza√ß√£o em que a sua vida de antigamente parecia j√° n√£o ter lugar. Ao menos sem algumas actualiza√ß√Ķes. E o telem√≥vel de Sameiro, que ela n√£o largava em circunst√Ęncia alguma, estava sem bateria, mudo e imune a afli√ß√Ķes da dona ou de terceiros naquela noite do princ√≠pio de Agosto.
          No meio de t√£o terr√≠vel reboli√ßo nocturno, ao ver as chamas aproximarem-se mais velozes do que o seu galope enferrujado √† for√ßa de in√©rcia, o cavalo j√° tinha desertado com a corda do pesco√ßo ao dependuro,  como um ser condenado ao abandono desde ent√£o.
          Litos, durante a fuga, ia lan√ßando os olhos ao acampamento como se ali tivesse deixado um peda√ßo irrecuper√°vel da sua vida e gritava. Gritos tanto maiores quanto mais activas eram as labaredas de um lado e de outro da estrada, ao mesmo tempo que  o fumo descia sobre tudo num denso nevoeiro. √Äs primeiras horas daquela segunda-feira maldita, o Diabo interferira com uma carga forte de pirotecnia para devolver, exorcizada pelo fogo depois de anos de ocupa√ß√£o abusiva, um peda√ßo de mata ao dono para fins pouco recomend√°veis como eram as malditas matas de eucalipto.
          Quando a camioneta j√° se encontrava longe, ouviu-se finalmente uma explos√£o, seguida de mais duas da√≠ a nada. Com toda a certeza, a viatura, ou uma das duas garrafas de g√°s, tinha acabado de disseminar por todo o lado destro√ßos calcinados, uma chuva de pragas cujos efeitos ainda mal haviam come√ßado.



                                                                                 XIX

           -Coitado do Manolito! Ningu√©m reparou que nem todos os membros do cl√£ estavam, na carrinha? Que raio de ciganos desleixados!
          -N√£o te exaltes, Domingos. Trata-se apenas de um filme de argumentistas com apre√ßo pelo descalabro. J√° vi filmes bem piores‚Ķ bem mais dram√°ticos. Al√©m de que me parece mal feito. A carrinha dos p√≥los n√£o deveria ter ficado quase logo com tantos entorses. S√≥ depois da explos√£o‚Ķ
          -Mas este foi baseado em factos reais‚Ķ Esquecerem-se do mi√ļdo n√£o lembra ao Diabo! Embora o realizador n√£o o tenha mostrado, com toda a certeza ele est√° dentro da carrinha. Ao menos Litos poderia ter arriscado! ‚Äď disse emocionado, como se a tal vida real que inspirara o filme estivesse a acontecer ali e agora.
          -Poderia mas n√£o arriscou. E, e quando o quis fazer, j√° era demasiado tarde. Mas estes ainda t√™m desculpa. H√° pessoas que se esquecem dos filhos dentro dos carros enquanto ca√ßam pok√©mons ou v√£o tomar caf√©. Beb√©s, numa grande parte das vezes, que ali morrem ao sol sufocados e sem oxig√©nio, com temperaturas infernais. Beb√©s e c√£es ‚Äď acrescentou Fausto, na sua sala de cinema do hotel, quando n√£o era ainda meia-noite e o filme estava bastante longe do fim.
          -Eu sei. At√© me est√° a custar ver a barbaridade de um rapaz drogado e cheio de dor de cotovelo por causa de a Marisa ter arranjado um novo namorado. N√£o era caso para tanto! ‚Äď ripostou Domingos indignado.
           -H√° muita gente como tu, que conseguiria comover-se com a desgra√ßa do pobre Manolito. Mas h√° outra tanta a dizer ‚Äú olha, √© menos um cigano que, daqui a dez anos, anda para a√≠ a vender droga e a matar os nossos filhos‚ÄĚ. Incluindo os netos do Vieira. Quando souberem que o terreno ficou livre, tanto dos pinheiros como dos moradores, esfregam as m√£os de contentamento. Os ciganos n√£o voltar√£o para ali com medo de que o lugar tenha ficado assombrado. Mas, vamos l√° ver o que acontece quando descobrirem que a crian√ßa ficou para tr√°s.

Continua



« Última modificação: Abril 18, 2020, 18:45:18 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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Bom dia para todos!
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Ol√° para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
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Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
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Boa tarde a todos
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Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
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Bom Ano!
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Boa tarde!
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Boa noite feliz para todos
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Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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