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Autor Tópico: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)  (Lida 6258 vezes)
Maria Gabriela de S√° e 3 Visitantes estão a ver este tópico.
Goreti Dias
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« Responder #30 em: Abril 18, 2020, 16:29:48 »

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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #31 em: Abril 23, 2020, 21:13:08 »

   Quase a ter√ßa parte do livro publicada...                                                                              


                                                                                              14

          √Ä medida que a fam√≠lia dos Maia conseguia fugir ao avan√ßo do fogo numa carrinha apinhada com aos seus membros, a primeira pergunta que o chefe do cl√£ fazia de si para si era:
          -E agora, vamos para onde?
          Pouco depois, na noite e no meio de uma escurid√£o que os recentes acontecimentos tornavam maior, j√° livres de perigo, Maia deu uma nova pancada na cabine e, ap√≥s o irm√£o afrouxar um pouco, gritou-lhes, de modo a ele, Luzia e as crian√ßas que seguiam na cabine, ouvirem:
          -Vamos para o largo da aldeia! Temos de dar conta do que aconteceu e chamar os bombeiros! Antes que as chamas alastrem mais e fique tudo destru√≠do.
          Rodrigo continuou a conduzir √† velocidade m√°xima que a carrinha permitia, e zarpou a seguir como um barco sem obst√°culos √† frente no mar alto. A ang√ļstia dos ocupantes era geral, mas nem sequer se permitiam dar conta do perigo que as sinuosas curvas da estrada representavam. E, na aldeia, ao que o sil√™ncio em redor dava a entender, ainda ningu√©m tinha dado conta daquele perigoso inimigo, que, da√≠ a nada, estaria ali √†s portas, queimando indistintamente quanto apanhasse no caminho com a voragem de um ladr√£o p√©-rapado e sem qualquer considera√ß√£o por bens alheios.
          Prestes a de chegarem, Rodrigo fez ecoar na noite a buzina fren√©tica da viatura, como se fosse um farol ruidoso em noites de nevoeiro intenso numa zona mar√≠tima. Apitava sem contempla√ß√Ķes por quem estivesse no meio de um sono, puro e duro, ou dentro de um sonho bom induzido por Morfeu nas suas habilidades de deus. Sem mais, era preciso avisar do perigo, quando, todos ali na terra, naquela quietude, lhe pareciam um barco sereno no mar alto, com alguma probabilidade encalhar num pedrulho gigantesco. Ali, se n√£o era nevoeiro, era fogo e fumo, talvez mais nefastos um e outro do que o real nevoeiro no mar. Sobretudo para asm√°ticos. E se de um pedregulho junto √† costa um navio ainda poderia fugir, avisado por um farol amigo, do maldito fumo n√£o se escapava. Invadindo livremente todos os recantos do c√©u, enquanto uma boa chuvada n√£o derrubasse semelhante capacete, nenhum ser vivo √† face da terra estava livre de respirar os seus venenos.



                                                                                 15


          Depois de In√°cio, Ramiro, Joaquim, C√°rmen, Luzia e Sameiro, os mais velhos da fam√≠lia, terem descido da camioneta, C√°rmen come√ßou a contar as cabe√ßas das crian√ßas na carro√ßaria, como quem conta espingardas no fim de uma batalha para fazer contas aos preju√≠zos:
          -Litos, Bruno, Sameiro, Ramiro. Mila, Ramon, Gon√ßalo, Joaquim, Alba ‚Äď contava C√°rmen, dizendo: - V√£o-se os an√©is fiquem os dedos‚ÄĚ, pensava a cigana mor, que viajara atr√°s com o marido, sobrinhos e quatro dos seus cinco filhos. Manolito viera com certeza na cabine junto da tia gr√°vida, do marido desta e da pequena Alba, entretanto acordada e a p√©, embora ensonada e a sofrer como os outros as consequ√™ncias da mais eficaz ac√ß√£o de despejo conhecida.
          -Ao menos estamos vivos ‚Äď exclamava ela com grande emo√ß√£o, enquanto a primeira janela de uma das casas ali √† volta da pra√ßa se abria com um rugido seco de persianas a alavancar-se at√© ao cimo.
          -A mata est√° a arder! ‚Äď gritou Maia para o parapeito onde um homem assomou, ensonado e com algum mau humor pelo concerto da buzina dado por Rodrigo, antes e depois de chegarem ao largo.
          -Como? ‚Äď perguntou o sujeito estremunhado ainda, ao ver por ali, √†quela hora, a carrinha e os ciganos que se haviam assenhoreada do pinheiral dos Vieiras como de coisa sem dono.
          -O nosso acampamento pegou fogo- informou Rodrigo, em alta voz, para que o homem pudesse compreender toda a trag√©dia que, ali perto, lhes tomara os barracos de assalto.
          -Pegaram fogo ao acampamento? Ent√£o voc√™s n√£o sabem que n√£o se pode fazer fogueiras nos montes no ver√£o? ‚Äď acrescentou o interlocutor, com o mesmo mau humor inicial.
          -N√£o fomos n√≥s! ‚Äď defendeu-se Ramiro, o filho mais velho de In√°cio Maia e de C√°rmen -. Ser√° que pode chamar os bombeiros?
          O homem disse que sim e deixou a seguir a janela, aonde regressou passado cinco minutos para informar, com aparente resigna√ß√£o:
          -Os bombeiros n√£o t√™m meios dispon√≠veis. Dizem que os homens de uma data de corpora√ß√Ķes est√£o todos ocupados em fogos que lavram de norte a sul h√° dias.
          Nessa altura, j√° mais umas cinco ou seis pessoas, sobretudo homens de cal√ß√Ķes, t-shirt e havaianas nos dedos dos p√©s, haviam convergido para a pra√ßa como as primeiras moscas de um banquete, depois de observarem as labaredas um pouco mais ao longe e o cheiro a fumo, que nariz e olhos de uns e outros j√° haviam detectado, quais radares de morcego.
          -E ent√£o fazemos o qu√™? ‚Äď perguntou um rapaz acabado de se juntar √† pequena multid√£o, que, a pouco e pouco, se dava conta de terem em m√£os  um problema para resolver. Ou, ao menos, minimizar, sem a ajuda de um corpo de bombeiros treinados em apagar inc√™ndios.
          -Quem me atendeu aconselhou a que fiquemos atentos. Quem morar perto de matas deve, antes de tudo, molhar o mais poss√≠vel em redor com uma mangueira. A seguir, se puder, deve cortar √°rvores e mato de forma a fazer uma zona tamp√£o para travar o fogo.
          -A estas horas? Est√£o malucos! Ainda n√£o s√£o tr√™s horas da manh√£! ‚Äď disse um dos presentes com alguma ironia.
          -Sobretudo, aconselham-nos a n√£o colocarmos as nossas vidas em risco. Aos primeiros sinais de perigo, devemos retirarmos para zonas amplas, e evitar casas e √°rvores ‚Äď continuou o homem da persiana ‚Äď. Se, por acaso, tivermos de ir para a frente combater o inc√™ndio, que n√£o vamos de cal√ß√Ķes, chinelas e manga curta. A roupa de ganga, para quem n√£o tem fatos como os deles, √© uma boa solu√ß√£o. Devemos ir vestidos at√© ao pesco√ßo e proteger tudo. M√£os, p√©s, cabe√ßa e olhos.
          -Por acaso j√° algu√©m se lembrou de tocar o sino para avisar o resto da popula√ß√£o? ‚Äď perguntou uma mulher sonolenta chegada entretanto, envolta num roup√£o cor-de-rosa.
          -Tem toda a raz√£o. Algu√©m que v√° chamar a S√£ozinha zeladora para tocar a fogo! Se ela n√£o puder vir, ao menos que empreste a chave da igreja.
          A igreja ficava na pra√ßa onde Litos, j√° apeado, n√£o parara ainda de chorar, produzindo os √ļnicos sons que a sua surdez lhe permitia. Chorava, pensariam todos, porque sofrera uma grande perda, conhecida de toda a fam√≠lia,  a morte do c√£o, e cujo sentimento de tristeza o pobre rapazito n√£o conseguia expressar de outra maneira.
          Agora, ali estava uma pequena nesga de gente √† espera do evoluir dos acontecimentos. Os ciganos mensageiros do fogo e os paisanos juntos no mesmo drama, eles que habitualmente viviam de costas voltadas, uns segregando outros, √† medida das suas cren√ßas e h√°bitos. Todos unidos a pensar na melhor maneira de travar o inimigo comum, o maldito fogo.

                                                                                          XX

          -√Č bem verdade que a desgra√ßa une ‚Äď disse Domingos, como se meditasse no significado da palavra solidariedade, e tentando, de algum modo, extrapolar o seu sentido para a ac√ß√£o do amigo no seu projecto de ressocializa√ß√£o.
          -Une sim. Por momentos, a quente. Espera por amanh√£, quando os pobres ciganos tiverem de ser realojados. V√£o ser empurrados de um lado para o outro como se tivessem peste. No resto da noite, aquelas crian√ßas v√£o ficar amontoadas na carrinha como rabos-de-palha inc√≥modos. Amanh√£, cinco ou seis pessoas h√£o-de dar-lhes umas sandes de queijo √† porta de casa, que, quando muito, colocar√£o sobre um papel em cima de um banco de pl√°stico. Se, por acaso, lhes derem uma tigela de sopa, a seguir esmagam-na contra uma parede como se a malga ficasse contaminada por um v√≠rus ‚Äď acrescentou Fausto com ar de que, dos homens e das suas atitudes, percebia ele muito.
           -Coitados. Est√£o mesmo numa situa√ß√£o que inspira pena. Fora a carrinha, n√£o tem um caco.
           -Mas isso √©s tu que est√°s longe, bem alimentado, bem vestido e a cheirar bem, depois de teres assaltado um dos meus perfumes preferidos. Se fizesses parte da trama e estivesses ali, junto com aquelas crian√ßas porcas e malcheirosas, n√£o pensavas assim. Fazias o mesmo que os outros, enxotava-las para bem longe ‚Äď afirmou Fausto, entre o s√©rio e o ir√≥nico, um conhecedor da psicologia humana ainda antes de esta  se lhe chamar preconceito social.
           -N√£o digas isso. Achas mesmo que aquela gente se est√° nas tintas para o que aconte√ßa com os pobres dos ciganos?
           -√Č claro que est√°. A frio, longe do fogo e da desgra√ßa que ele trouxe, ou ainda h√°-de trazer, est√°. At√© os pol√≠ticos, os soci√≥logos e tantos outros, defendem-nos s√≥ enquanto n√£o lhes est√£o ao p√© da porta. Ningu√©m quer ter ciganos como vizinhos. Entretanto, num faz-de-conta bacoco, acabam por efectuar baptismos est√ļpidos com eufemismos que n√£o aquecem nem arrefecem o √Ęmago da quest√£o. Se tu trabalhares na pol√≠cia e tiveres de te referir, num registo biogr√°fico, a um cigano, ou a um negro, n√£o podes escrever ‚Äúra√ßa cigana‚ÄĚ, ou ‚Äúra√ßa negra‚ÄĚ. Tens de dizer ou escrever ‚Äúetnia‚ÄĚ. Pura hipocrisia, porque, em casa, de pantufas, referem-se-lhes como ‚Äúo cabr√£o do cigano ou do preto‚ÄĚ. Ent√£o ao p√© da porta, nem pensar! Que v√£o morrer longe... √© o que pensam.
          -Costumas ter aqui no hotel negros ou ciganos?- perguntou Domingos curioso, cada vez mais convencido de que Fausto era o √ļltimo dos √ļltimos filantropos √† face da terra. Talvez o √ļnico verdadeiro que algum dia pudera conhecer.
          -Claro! Milh√Ķes! Era s√≥ o que faltava fazer segrega√ß√£o racial! Nesse aspecto, sou quase t√£o bom como Deus ‚Äď e deu uma pequena gargalhada, dissuasora de pessimismos.
           -S√≥ n√£o queres crian√ßas ‚Äď prosseguiu Domingos ainda numa onda provocat√≥ria, que se revelara m√ļtua.
          -As raz√Ķes que te apresentei continuam v√°lidas. Mas, vamos l√° ver se descobrimos o que aconteceu a Manolito.
           -Para quem n√£o quer aqui mi√ļdos, est√°s a fazer como os pol√≠ticos: ‚Äúbonitas s√£o as crian√ßas mas longe da porta‚ÄĚ ‚Äď e ambos sorriram, prontos a assistir √†  saga dos ciganos, que um maldito incendi√°rio transformara, de um momento para o outro, em sem-abrigo.
          -Sem abrigo e p√©s descal√ßos ‚Äď disse Fausto como se adivinhasse os pensamentos do amigo -. J√° viste que, a maioria deles n√£o traz nada cal√ßado? E a roupa √© o que se v√™. Afinal tinham acabado de se deitar‚Ķ
          -√Č verdade. Os dois rapazes mais velhos e a rapariga t√™m sapatilhas com fecho de velcro, os ciganos mais velhos sapatos, que ainda tiveram tempo de procurar no meio da confus√£o. As mulheres trazem simples chinelas de dedo, encontradas ao acaso de pernas para o ar como tartarugas √† espera de serem salvas da morte num santu√°rio varrido por uma tempestade oce√Ęnica ‚Äď terminou Fausto rindo.


Continua.....
« Última modificação: Abril 23, 2020, 22:15:04 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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« Responder #32 em: Abril 27, 2020, 15:40:35 »

Vamos continuar?
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #33 em: Abril 28, 2020, 18:38:31 »

16


         [Quase todos os mi√ļdos, tanto os filhos de C√°rmen e de In√°cio como os de Rodrigo e Luzia, ap√≥s as atribula√ß√Ķes da noite, dormiam no costado da carrinha, vergados ao cansa√ßo de uma noite incomum. Joaquim, o mais velho, um rapaz de quinze anos, filho de Rodrigo e prometido de Sameiro desde que nascera, conversava com ela e com o futuro cunhado Ramiro. Os outros, uma escadinha a aumentar dentro em pouco com o que Luzia trazia na barriga, haviam sucumbido ao sono, sem sequer terem sido apeados. S√≥ Litos, o primeiro a saltar mal haviam chegado, continuava agitado e choroso desde que haviam deixado o acampamento. A m√£e, com Bruno ao colo a dormir-lhe no ombro, procurava acalmar o filho surdo, sem lograr mais do que um olhar de s√ļplica do pobre rapaz, misturado com o que parecia ser uma pronunciada raiva. O queixume do garoto, de que ningu√©m conseguia fazer uma tradu√ß√£o aproximada, de t√£o repetitivo, come√ßava a cansar, quase tanto como o ru√≠do de um alarme que ningu√©m soubesse desligar.
          -Cala-te. N√£o chores! ‚Äď ordenava, com pouca convic√ß√£o C√°rmen olhando para ele, entre o severo e o apiedado -. Depois arranjamos outro c√£o - fazia ela a m√≠mica de que era capaz para Litos a poder compreender no meio do seu sil√™ncio.
A praça tinha cada vez mais pessoas, saídas do conforto da cama pelos sinos da aldeia, que não poderiam ter esperado pela manhã para anunciar o terrível acontecimento. Entre eles, já se encontrava o João do Aviário, preocupado com a possibilidade de o vento encaminhar o fogo para o local onde os frangos e as galinhas engordavam, para abastecer depois os hipermercados da região com que ganhava a vida, criara e educara dois filhos.
          Por todo o lado se ouviam coment√°rios em surdina e mal-intencionados sobre a origem do fogo, que n√£o abafavam o pranto do inconsol√°vel ciganito.
          ‚ÄúTinha de ser, n√£o pod√≠amos escapar sem levarmos com um inc√™ndio, N√£o sei como ainda h√° mato para arder, Falam que come√ßou √† beira dos ciganos ou l√° perto, foi um rapaz que estava agora aqui que o confirmou, E o acampamento, Ardeu todo, at√© a carripana explodiu, √Äs tantas foram eles a pegar-lhes fogo, Mas para qu√™, eles nem seguro devem ter, Ouvi dizer que os Vieiras querem fazer como os outros, atulhar a mata de eucaliptos para venderem √† f√°brica da celulose. Por isso os queriam expulsar de l√°, Se calhar, Tamb√©m ouvi dizer que a ciganada est√° farta de andar de c√Ęmara em c√Ęmara a pedir que lhes arranjem uma casa, Pois, para l√° meterem o cavalo, Fala-se que h√° muitos anos fizeram isso num bairro do Porto. O animal subia escadas e tudo. Vivia na banheira, Mas se fossem eles a pegar fogo tinham ao menos trazido a carrinha dos trapos, E a droga, N√£o se sabe se n√£o a trouxeram, Isso √© que podia ir com o cara√ßas mais velho, Ou ent√£o foram mesmo os donos da mata a tratar do assunto, As labaredas est√£o a avan√ßar, daqui a nada caem-nos em cima, E os bombeiros demorar√£o, Eles n√£o sabem para onde se virar, Pois, a auto-estrada Porto-Lisboa, ontem √† tarde, esteve cortada umas seis ou sete horas, foi um pandem√≥nio, H√° fogo por todo o lado, Todos os anos morre gente no raio dos inc√™ndios e se perdem muitos milh√Ķes, S√≥ bombeiros j√° morreram uns poucos, √Č claro que a estas horas da noite s√≥ pode ter sido fogo-posto, Isto s√≥ l√° vai quando se puserem uns quantos incendi√°rios a arder no meio das labaredas que atearam, A televis√£o disse que um dos que p√īs uma data de fogos era carteiro, Uns dizem que s√£o os madeireiros, outros que s√£o os avi√Ķes, outros que s√£o os malucos, H√° quem diga que a electricidade se aproveita bem dos montes queimados para l√° p√īr as e√≥licas, Fazem bem em plantar s√≥ √°rvores dessas, ao menos n√£o ardem, Mas √© suspeito, As pessoas tamb√©m n√£o t√™m cuidado nenhum, Pois n√£o, se virem uma giesta a entrar-lhes em casa pela porta, desviam-se e n√£o a cortam, Ent√£o se for pela janela at√© lhe p√Ķem umas cortinas √† frente para a paisagem ficar mais bonita, Antigamente iam ao monte buscar mato para a corte dos animais e aquilo andava quase varrido √† vassoura, Tem raz√£o, e nesse tempo at√© os isqueiros precisavam de licen√ßa. Hoje toda a gente fuma e anda com um isqueiro no bolso, Pois, h√°-os aos pontap√©s, de todas as cores e feitios, Deviam era proibir a venda deles durante o ver√£o, Mas nesse caso talvez os a√ßambarcassem no inverno, E tamb√©m √© uma estupidez existir uma √©poca de inc√™ndios, √Č um convite ao f√≥sforo, Pois √©. √Č como quem abre a √©poca de ca√ßa, Ca√ßa √© o que h√° cada vez menos. Perdizes e lebres j√° quase n√£o se v√™em, n√£o t√™m habitat para se reproduzir, morrem √†s centenas, √Č verdade, j√° viu o que um simples f√≥sforo consegue provocar?‚ÄĚ


                                                                                    17


           Cerca de meia hora depois, chegou o Presidente da Junta, Ant√≥nio Pinto, que, ap√≥s se ter juntado aos homens e mulheres da freguesia, com quem se inteirou dos acontecimentos, se abeirou a seguir dos ciganos. E de novo ouviu da boca dos protagonistas da noite a vers√£o mais real dos factos.
          In√°cio Maia, de vez em quando complementado com pequenos detalhes pelos membros da fam√≠lia, foi o porta-voz da odisseia.
          -Quem primeiro deu conta do fogo foi o Litos.
          -Mas antes o nosso c√£o morreu. Os mi√ļdos foram dar com ele a deitar espuma pela boca ‚Äď acrescentou C√°rmen.
          -Morreu como?
          -N√£o sabemos - respondeu a mulher.
          -Mas ele estava doente?
          -S√£o como um pero! ‚Äď informou In√°cio Maia, cuja informa√ß√£o o irm√£o Rodrigo confirmou de imediato.
          -Ent√£o foi envenenado de prop√≥sito. S√≥ pode ter sido. Voc√™s devem ter grandes inimigos.
          -N√£o diga, senhor presidente!...
          -Quem √© que deu pela morte do c√£o?
          -Foi tamb√©m o Litos ‚Äď respondeu C√°rmen ‚Äď mas ele n√£o tem fala. Deus Nosso Senhor levou-lha aos dois anos com uma doen√ßa nos ouvidos. Estava com o Manolito, o irm√£ozito a seguir a este que tenho aqui ao colo.
          -E do fogo tamb√©m foi o Litos que deu conta ‚Äď relembrou Rodrigo ‚Äď. N√£o deve ter conseguido adormecer por causa da morte do c√£o e ent√£o saiu outra vez. Foi quando tudo estava a arder.
          -Foi sim, a seguir fui eu, quando j√° s√≥ havia tempo para sairmos dali antes que morr√™ssemos todos carbonizados.
          -E o que √© que diz, quero dizer, sei l√°, o rapaz? ‚Äď insistiu de novo Ant√≥nio Pinto, o presidente.
          -S√≥ chora. Quando sa√≠mos apontava para a carrinha. O meu cunhado queria-a ir trazer, sujeito a que o dep√≥sito do gas√≥leo rebentasse. Mas n√≥s n√£o deix√°mos. A carrinha rebentou passado um bocadito, j√° n√≥s v√≠nhamos a caminho daqui.
          -E o mais pequeno, o que estava com ele, n√£o disse nada?
          -Senhor Presidente, o Manolito s√≥ tem quatro anos. E est√° a dormir na cabine da furgoneta onde viemos todos. O mi√ļdo ainda n√£o tugiu nem mugiu desde que cheg√°mos. Vou ver como est√° ‚Äď acrescentou C√°rmen, dirigindo-se ao ve√≠culo, com Bruno ao colo a dormir um sono inquieto, enquanto, ao passar pelo surdo, viu que ele continuava choroso e mais ou menos revoltado com a fam√≠lia.
C√°rmen tentou abrir a porta sozinha. N√£o o conseguiu, visto a porta estar algo perra. Foi chamar In√°cio e, quando este, da√≠ a segundos, escancarou o interior da cabine, com apreens√£o verificaram que o mi√ļdo n√£o estava l√°. Imediatamente o homem espreitou sobre o taipal da caixa traseira, contou e identificou as crian√ßas, concluindo, no maior desespero, que o filho n√£o estava ali. Olhou depois todo o per√≠metro da pra√ßa a ver se entretanto ele tinha sa√≠do. N√£o o viu em lado nenhum. E ent√£o, aos gritos, come√ßou por interpelar, primeiro a cunhada Luzia e a seguir a filha Sameiro:
          -O Manolito?
          -Ele n√£o veio convosco atr√°s? ‚Äď questionou a gr√°vida, estarrecida por um  pressentimento que rapidamente se tornou comum.
          -N√£o, n√£o veio! ‚Äď respondeu C√°rmen aflita. E, no mesmo instante, desabou em pranto e em p√Ęnico, que rapidamente se estendeu a todos os membros da fam√≠lia ‚Äď. Ai o meu rico filho que ficou para tr√°s e deve estar agora todo queimadinho!
António Pinto, com palavras de conforto tentava sossegar a família:
          -T√™m de ter calma. Pode ser que n√£o tenha acontecido nada. Milagres acontecem ‚Äď dizia √† pobre C√°rmen, a quem o filho que tinha ao colo quase afrontava pela perda do outro.
          -Ai o meu irm√£ozinho, o que lhe ter√° acontecido?- Choravam Sameiro e Ramiro enquanto o outro irm√£ozito o Gon√ßalo, um rapazito de oito anos os acompanhava.
          -Perd√£o Manolito, mas a afli√ß√£o era muita! Perd√£o por te termos deixado para tr√°s! ‚Äď gritava C√°rmen, certa de que o pior acontecera, enquanto as pessoas ali  lamentavam a crian√ßa, no caso de lhe ter acontecido o pior.
           Os gritos de treze ciganos desenraizados, a lamentar a sorte de um dos seus, conseguiram o que o sino de uma igreja tocado a desoras n√£o logrou. Em pouco tempo, quase todos os habitantes do Eito haviam convergido para o local das concentra√ß√Ķes importantes, o largo da aldeia, que, √†quela hora e naquelas circunst√Ęncias, se transformara num lugar acossado pelas for√ßas do mal na pessoa de cada cigano ali presente. E se alguns dos deles poderiam ter culpas no cart√≥rio, como a quest√£o da droga de que eram acusados com algum proveito, aquele por quem choravam, e cujo destino n√£o era ainda conhecido, n√£o era de certeza. Pela segunda vez na noite, atarantados e sem rumo, entre as acusa√ß√Ķes de uns a outros por causa do pobre Manolito, se algum dia haviam sido carrascos de algu√©m, hoje qualquer um deles n√£o passava de mais uma v√≠tima. E, por isso mesmo, havia na maior parte de toda aquela gente uma como√ß√£o sentida pela morte quase certa do pequeno Manolito.
          -Pode ser que n√£o lhe tenha acontecido nada! ‚Äď dizia-se aqui e ali, mas com pouca convic√ß√£o. O fogo sempre fora o ladr√£o mais implac√°vel de todos, um daqueles a quem era dif√≠cil escapar. Sobretudo se se tratasse de uma crian√ßa de quatro anos, por mais destemida que as leis da mata a tivessem deixado para enfrentar inimigos.
           No meio de uma contradi√ß√£o aparente, Litos, ao constatar que j√° todos sabiam de qualquer coisa grave que tinha o irm√£ozito como epicentro, parou de chorar de um segundo para o outro, cansado das l√°grimas a que o seu sil√™ncio o condenara durante demasiado tempo. Da√≠ a nada, deixou-se escorregar para o ch√£o do largo como um saco vazio, incapaz de se manter de p√©. E, n√£o demorou grande tempo, estava a dormir profundamente. Era como se tivesse acabado de se ver livre de um pesado fardo que at√© a√≠ tinha carregado sozinho e num esfor√ßo sobre-humano.
          -Pobre ciganito. A afli√ß√£o dele em n√£o conseguir fazer-se entender! ‚Äď dizia a Dona Celeste do caf√© para uma vizinha, ali no meio da pra√ßa aonde toda a gente ocorrera ao som daqueles mil e um gritos.
          -Pode ser que o mi√ļdo tenha conseguido escapar e esteja agora em algum lado √† espera de que o encontrem.
          -N√£o se sabe. E o irm√£o tamb√©m n√£o consegue ajudar muito. Pobre dele. Pobre de um e de outro.
          -J√° s√£o quatro da manh√£. Dos bombeiros nem sombra ‚Äď disse o homem que primeiro abrira a persiana √† chegada dos ciganos, agora no largo a comungar colectivamente daquela fatia amarga de ang√ļstia no meio da madrugada de uma segunda-feira amaldi√ßoada.
          In√°cio Maia, mal conseguiu acalmar um pouco, agarrando-se √† √ļltima esperan√ßa de encontrar o filho ainda com vida, decidiu ir sem demora ao acampamento. Se quando o abandonara eram as labaredas que ladeavam a estrada, provavelmente agora seriam s√≥ as cinzas a orn√°-la de negro, nos tocos das √°rvores calcinados pelo fogo. Mas ao menos os troncos mortos, talvez ainda incandescentes, iriam deixar pass√°-los.
         -N√£o fa√ßa isso ‚Äď aconselha Ant√≥nio Pinto ‚Äď Se o fogo o apanhar, n√£o teremos como resgat√°-lo. E olhe que daqui a nada ele chega √† povoa√ß√£o. Estamos bem arranjados se os bombeiros n√£o nos vierem acudir! J√° liguei para o presidente da c√Ęmara e ele n√£o est√° certo de que elementos de alguma corpora√ß√£o possam ser enviados para aqui. Os homens est√£o exaustos. Nos quart√©is h√° meia d√ļzia de gatos-pingados a assegurar uma ou outra situa√ß√£o urgente.
          -Tenho de ir! ‚Äď protestou In√°cio com convic√ß√£o, enquanto as l√°grimas lhe rolavam pelo rosto, longas e intermin√°veis no meio de uma careta onde se lhe esborrachava o sofrimento.
          -Vou contigo! - disse o irm√£o do mesmo modo.
          -Eu tamb√©m, proclamou C√°rmen, entregando o pequeno Bruno choroso √† filha, que o recebeu juntando-lhe as pr√≥prias l√°grimas.
          -V√£o com cuidado, j√° que n√£o os podemos impedir ‚Äď aconselhou um homem no meio dos muitos que ali estavam.
          -E o que vamos fazer com os mi√ļdos que ainda dormem na carrinha? ‚Äď perguntou Luzia ‚Äď. N√£o os podem levar. Ainda ca√≠a alguma fagulha em cima deles, e ent√£o em vez de um eram quatro ou cinco.
          -Temos de os tirar depressa ‚Äď decidiu Rodrigo, querendo parecer mais l√ļcido do que na realidade estava.
          Foi o que Joaquim e Ramiro, depois de subirem para a carro√ßaria, come√ßaram a fazer, a um ritmo apressado mas cuidadoso simultaneamente. Pegaram um a um em cada uma das crian√ßas mais pequenas, obrigaram algumas a acordar, entregando-as de seguida a In√°cio, Rodrigo e Luzia que, mal os recebiam, os iam colocando no ch√£o em fila, alguns ainda a dormir numa doce ignor√Ęncia.



                                                                              
XXI

          -Bem que alguma daquelas mulherzinhas podia arranjar um cobertor para as deitar! ‚Äď remoeu Domingos solid√°rio com os infantes, e amaldi√ßoando Telmo tamb√©m ele.
          -Ou ent√£o abrir a porta e p√ī-las a dormir numa caminha!
          -J√° nem digo tanto‚Ķ A menos que lhe dessem banho, para o que, √†quelas horas da madrugada, n√£o haveria grande paci√™ncia.
          -Tens raz√£o. Um banho √© um dos requisitos mais elementares da civiliza√ß√£o. Desde que haja √°gua, claro (pobres de milh√Ķes africanos que nem sequer a t√™m para beber). E √© por isso que n√£o censuro quem, no caso, n√£o se lembra de coisas t√£o simples como um cobertor. A falta de higiene tira a capacidade de discernir. E at√© de ajudar‚Ķ Custa um bocado estar √† beira de um cigano, ou de outra pessoa qualquer, que cheire mal e que cause v√≥mitos. Na minha maneira de ver, trata-se da causa n√ļmero um da segrega√ß√£o entre paisanos e ciganos. E entre qualquer pessoa, ali√°s ‚Äď acrescentou Fausto ‚Äď embora haja outras, como os costumes e por a√≠.
          -√Č verdade. J√° deixei de ir a certas casas por causa da desordem. O caos atrai caos e todo o caos me deixa deprimido.
          -Tens toda a raz√£o. O caos n√£o deixa de ser o grande inimigo da felicidade, que, contra o que muita gente pensa, se alimenta de rotinas e da ordem.
          -√Čs um grande fil√≥sofo, meu amigo ‚Äď rematou Domingos sorridente.

Continua

« Última modificação: Maio 01, 2020, 22:03:35 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #34 em: Abril 29, 2020, 15:41:08 »

Filosofias à parte, vamos continuar a seguir a história!
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« Responder #35 em: Abril 29, 2020, 16:28:51 »

No concurso em que o romance  esteve, acharam que  n√£o valia nada. Mas, ao menos aqui, ainda tem leitores. E bastantes, ao que me parece...


                                                                                    18

          In√°cio conduzia como um louco atrav√©s do intenso fumo, que, como um pico de enxofre nos olhos saturados, lhes aumentava a nascente das l√°grimas. E, √† medida que se aproximavam dos escombros do acampamento, iam tendo a certeza de, naquele dia, a fatalidade ter ido ao extremo de lhe roubar duas vidas; a que j√° ali n√£o poderiam ter, e a que lhes levara o pequeno Manolito num rasgo de maldade pura. E se uma das duas vidas poderia ser recome√ßada noutro lado, a outra perdera-se irremediavelmente na pira do fogo ateado por gente sem alma
          Muito antes de parar a furgoneta na berma da estrada, a primeira coisa que lhes saltou √† vista, √† luz dos primeiros e incipientes raios da manh√£, foi o esqueleto cinzento da viatura calcinada, ao lado dos barracos fantasma do que fora o lar da fam√≠lia durante v√°rios anos. Da crian√ßa nem sinal, embora, numa estranha ironia, o cad√°ver do Ringo, sobre o cobertor molhado pela √°gua do bid√£o, ainda pudesse identificar-se como um c√£o morto.



                                                                                  XXII


          -Est√°s a ver como o filme est√° mal feito? Depois da explos√£o da carrinha, ali ao lado, e das bilhas de g√°s, o cobertor devia estar pejado de destro√ßos. N√£o teria resistido. Por muito molhado que estivesse
          -Pode ser que tenha ocorrido um milagre‚Ķ sei l√° ‚Äď retorquiu Domingos.
          -Fia-te nisso.


                                                                                  19

          C√°rmen, de chinelas de pl√°stico nos p√©s, foi a primeira a aventurar-se no ch√£o da mata, vestida agora de negro como um fantasma, e nem deu pelo ti√ß√£o que lhe queimou um p√© sem lhe arrancar qualquer grito de dor.
          -N√£o entres! ‚Äď gritou-lhe In√°cio, aflito ‚Äď Isso deve estar um braseiro!
          Ela estacou assustada, e foi a seguir ele e o irm√£o, de sapatos nos p√©s, que, com o toco de um pau perdido na camioneta para eventualidades de tr√Ęnsito, iam arredando as brasas, prosseguido cautelosamente at√© cada um dos barracos. E, espreitando para dentro, nenhum dos dois conseguiu ver nada que se parecesse com um corpo humano de crian√ßa. Muito menos viva.
          -Vamos embora, tudo isto est√° um forno ‚Äď proclamou Rodrigo, depois de alguma insist√™ncia tentando encontrar com o pau, como se este fosse um detector de metais, o corpo do sobrinho, um pequeno cad√°ver no meio dos escombros que pudesse arrebatar daquele lugar maldito para o colocar num outro s√≠tio com a dignidade requerida pela morte. Sobretudo de uma crian√ßa inocente.
          Quando se abeiraram de C√°rmen, na estrada, n√£o precisaram de proferir palavra. O semblante carregado dos dois dizia tudo.
          Foi ela que, assaltada por um pressentimento, se dirigiu num √≠mpeto √† carrinha, e, metendo as m√£os dentro da camisola que trazia vestida para atenuar o calor da fechadura, abriu a porta traseira. Deparou-se de imediato com os p√≥los e os len√ß√≥is calcinados, e, sobre o que fora o monte constitu√≠do por eles, estava o que o seu instinto lhe dizia ser o corpo carbonizado do pequeno Manolito.
          -Est√° aqui o meu rico filho! - gritou, enquanto fazia um gesto de querer arrancar dali o que do rapazinho restava, um pequeno  ti√ß√£o.
          -N√£o fa√ßas isso! Olha as m√£os! Queimas-te! ‚Äď gritou Rodrigo, enquanto ele e o irm√£o arrastavam C√°rmen dali, colocando-a a seguir na estrada onde ela continuou a dar largas ao pranto.
          -Vamos sair deste inferno ‚Äď sugeriu o cunhado, tentando convocar em todos uma ponta de raz√£o para sa√≠rem inteiros daquele horror. A luz el√©ctrica colapsara durante a passagem do fogo, e a claridade da manh√£ n√£o conseguia ainda a mostrar toda a dimens√£o da trag√©dia.
          -N√£o, n√£o saio daqui sem levar o meu menino! ‚Äď gritava C√°rmen, limpando as l√°grimas a uma ponta da camisola retorcida pelo desespero.
          -Temos de ir! Agora o corpo j√° n√£o √© nosso! A morte tirou-no-lo ‚Äď atirou In√°cio num grito entrecortado pela dor.
          E tinha raz√£o. Da√≠ a um peda√ßo, viria o delegado de sa√ļde, a pol√≠cia e os bombeiros para tirarem dali o que o fogo lhes levara num duro golpe.
          -N√£o, o Manolito n√£o fica aqui sozinho! ‚Äď insistiu a mulher obstinada.
          E tamb√©m ela tinha raz√£o. Os mortos n√£o devem ficar sozinhos, antes de algu√©m, atrav√©s de um papel com uma assinatura mandatada para o efeito, declarar que n√£o h√° mais nada a fazer sen√£o chorar enquanto as l√°grimas n√£o secarem.
          -Eu fico. Tendes de ir dar conta do sucedido ‚Äď disse Rodrigo √† cunhada e ao irm√£o.



                                                                                     20

          Pela primeira vez durante a noite, enquanto os dois ciganos regressavam do acampamento, as chamas come√ßaram a ser vis√≠veis mais ao perto, amea√ßando deixar a aldeia envolta num manto mais negro do que a noite. O fumo era intenso, mal se respirava. O dono do avi√°rio j√° tinha sa√≠do dali, depois de perceber que, com o vento bailarino a fazer-se sentir, da√≠ a pouco teria cinco mil frangos de tamanhos diversos mortos e quatro pessoas desempregadas. Al√©m de uns milhares de euros de preju√≠zo.
          Continuando os bombeiros sem aparecer, foi o desespero de quem come√ßava a ver hortas e pomares ao p√© da porta invadidos pelas chamas que obrigou o presidente da junta a lan√ßar um aviso aos servi√ßos de emerg√™ncia.
          -T√™m de vir imediatamente. Tanto quanto se julga saber, j√° morreu uma crian√ßa. E por este andar haver√° mais mortes! Eu entendo que n√£o haja grandes meios. Mas alguns deve haver. Agora ficarmos desprotegidos √© que n√£o! ‚Äď dizia, com alguma indigna√ß√£o,  enquanto insinuava que talvez  as autoridades n√£o estivessem a coordenar as opera√ß√Ķes da maneira mais racional. E tinha raz√£o. O caso era dos mais urgentes. Nunca ningu√©m sente as afli√ß√Ķes dos outros quando as nossas s√£o √ļnicas e as mais verdadeiras, e n√£o nos √©, censur√°vel sermos ego√≠stas nem um pouco.
          Agora, depois √°spero telefonema para a Protec√ß√£o Civil, tinha a certeza de, dentro de relativamente pouco tempo, haver pelo menos um carro de bombeiros a anunciar, atrav√©s de uma sirene aflitiva, a sua presen√ßa salvadora, desde que sa√≠sse do quartel at√© entrar no teatro de opera√ß√Ķes. Pol√≠cias e bombeiros, numa estranha atitude, reagiam sempre √† palavra ‚Äúmorte‚ÄĚ como a nenhuma outra. A palavra ‚Äúpreven√ß√£o‚ÄĚ, perante a palavra ‚Äúmorte‚ÄĚ, sobretudo em casos como o presente, n√£o tinha for√ßa nenhuma. A ‚Äúmorte‚ÄĚ era sin√≥nimo de ac√ß√£o e de vida, que, infelizmente, j√° n√£o fazia parte do estado de Manolito.
          Da√≠ a pouco mais de meia hora, C√°rmen, e o marido regressaram pior do que haviam partido. Traziam do acampamento a confirma√ß√£o da not√≠cia pelo senso comum, de todas e deixavam l√° um cigano a guardar um montinho de cinzas a que tentavam ainda atribuir o nome de Manolito.
          -O meu menino morreu queimadinho! ‚Äď chorava  a mulher, limpando continuamente os olhos aos ombros da t-shirt de manga curta,  contagiando toda a fam√≠lia e o resto dos presentes como uma onda inundando a praia antes de nela rebentarem as outras seis.
A praça encheu-se de novo de gritos pela perda da pobre criança. O presidente não exagerara. Mas, antes de levar a cabo qualquer outra diligência, teria de comunicar às autoridades a localização do cadáver de uma criança de quatro anos e de um homem a guardá-lo. Era o acampamento dos ciganos visíveis da linha do comboio, entre a fábrica das motorizadas e a empresa de lacticínios detectáveis até da Lua, ao contrário de uns barracos calcinados no meio de um desolador manto de cinzas com alguns cotos de árvores negras ao alto como estátuas mortas e fantasmagóricas.
          Decorrera mais de uma hora quando uma mota chegou apressada ao largo e o rapaz que a desmontou atirou √† queima-roupa:
          -J√° ardeu uma casa, a que estava chegada √† mata. Acordamos todos com os gritos a fogo de dois vizinhos, enquanto as labaredas avan√ßavam atr√°s das casas. Agora, perto na Rua do Cabe√ßo, onde mora a Senhora Ana Rosa, h√° mais habita√ß√Ķes em perigo. Incluindo a dela. Os emigrantes come√ßaram a regar h√° um peda√ßo as vivendas novas para impedirem o fogo de avan√ßar. Contudo, as mais velhas n√£o t√™m as mesmas hip√≥teses de defesa. J√° cham√°mos os bombeiros, mas eles continuam a dizer que n√£o t√™m meios dispon√≠veis. Est√£o √† espera que amanhe√ßa para ver o que podem fazer.
           -Pronto. O vento fez das suas - atalhou Ant√≥nio Pinto -. O Inferno chegou aqui. Estamos bem arranjados!
           E ligou de novo √† Protec√ß√£o Civil, agora que o maldito fogo mordia novos calcanhares.
          -J√° avisaram os filhos, o Leandro e a enfermeira? ‚Äď perguntou Alberto, o homem que tinha estado com o emigrante  pai da rapariga que casaria no pr√≥ximo fim de semana.
          -Sim. Venho agora da casa dela. Est√° tudo em alvoro√ßo. A filha, a Catarina ficou em p√Ęnico e desatou a correr para l√° como uma doida, com medo de que alguma coisa acontecesse √† m√£e e ao filho. O mi√ļdo mais novo, esta noite ficou a dormir em casa da av√≥, depois de a fam√≠lia ter jantado em casa desta. Entretanto, o marido, o irm√£o Leandro e mais uns poucos de homens j√° foram para l√°. Muniram-se do que podiam; mangueiras, p√°s, picaretas e por a√≠.
Vindo do beco, surgiu Abel, o pai de Telmo. A mulher acompanhava-o, mais ou menos preparada para, daí a pouco, ir de novo trabalhar. E Susete, depois de se condoer com a desgraça dos pobres ciganos, vendo os pequenos deitados nas pedras como o Menino
          Jesus nas palhinhas do pres√©pio, foi buscar tr√™s sacos-camas, do curto tempo em que os filhos mais novos tinham pertencido aos escuteiros.
          Da√≠ a nada, a solidariedade da mulher estendia-se a outras portas. Apareceram ent√£o novos sacos e alguns cobertores para tapar as crian√ßas seminuas e descal√ßas. Um friozinho de alma come√ßara a fazer-se sentir, deixando em todos a pele eri√ßada de galinha pren√ļncio de situa√ß√Ķes aterradoras.


                                                                             XXIV

          -A m√£e de Telmo √© um bocado como o Diabo ‚Äď brincou Fausto.
          -Porqu√™?
          -Ora, porque o Diabo tem uma capa com que tapa e outra com que destapa. Ela destapou tanto na educa√ß√£o do filho mais velho e vem agora tapar do frio crian√ßas cujo irm√£o morreu em consequ√™ncia de uma barbaridade cometida por ele?
          -Mas, parece boa pessoa. O rapaz √© que n√£o h√° meio de dar as caras‚Ķ
          -Dizes bem, ‚Äúcaras‚ÄĚ. Vais ver que, quando aparecer coloca a melhor delas, com que se fingir√° de inocente e tentar√° passar entre os pingos da chuva.
          -Lei das compensa√ß√Ķes, entre m√£e e filho.
          -Talvez a isso se possa chamar a ‚ÄúSimbiose do Cord√£o Umbilical‚ÄĚ. Contudo agora √© melhor continuar a ver o filme.





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« Última modificação: Abril 29, 2020, 20:56:42 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #36 em: Abril 30, 2020, 09:45:13 »

A remeter para uma realidade ainda muito presente. Continuando...
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« Responder #37 em: Abril 30, 2020, 19:32:12 »

                                                                                        21

          A pra√ßa, depois do alarme de mais uma casa a arder na Rua do Cabe√ßo, estava quase circunscrita √† presen√ßa dos ciganos. Quem ali estivera, inteirado da nova amea√ßa que pairava sobre a povoa√ß√£o, no outro lado, abalara para onde o fogo constitu√≠a agora maior perigo. Na zona norte, na famigerada rua atingida, o Diabo n√£o deva tr√©guas. Apesar de ningu√©m ter a certeza, supunha-se que a velha casa engolida por ele estaria vazia, ou talvez cheia de recorda√ß√Ķes de outros tempos e sem ningu√©m para as evocar em dias de saudade. O dono, um emigrante que acabara de a herdar, n√£o havia ainda aparecido pela terra depois disso. Ap√≥s a morte da m√£e, come√ßara a passar o m√™s das f√©rias na aldeia da mulher, uns quil√≥metros mais a sul, para n√£o se defrontar sozinho com mem√≥rias do seu passado feliz na casa, entretanto uma ru√≠na e agora um amontoado de cinzas.
          As crian√ßas ciganas, essas continuavam a dormir, de momento com um pouco mais de conforto, depois de aconchegados nos providenciais sacos-cama trazidos por Susete e pelos que lhe seguiram o exemplo.
          Joaquim, mal viu os tios chegarem sem o pai, decidira ir fazer companhia ao progenitor. Era praticamente manh√£. Acabara de comer um p√£o com manteiga que a Dona Celeste, a mando do presidente da junta, fizera chegar a todos, mesmo para quem ainda dormia, enquanto abria mais cedo o caf√© para a ch√°vena de leite que fazia parte da oferta. O rapaz falou, primeiro com Sameiro, e a seguir com a m√£e e os tios. E, antes que o sobrinho se pusesse a caminho desafiando as labaredas, In√°cio resolveu lev√°-lo na carrinha at√© onde o pai guardava o pobre Manolito, a esperar a chegada das autoridades, sozinho e sem Deus para o reconfortar nas suas dores de homem, talvez agora ateu.
         De um lado e de outro da estrada, estava agora tudo negro. Tudo n√£o passava de um cemit√©rio onde jazia o verde de uma floresta morta.
         Quando tio e sobrinho chegaram, viram com alegria que o cavalo, n√£o s√≥ sobrevivera como regressara, estando agora a fazer companhia a Rodrigo como se quisesse consol√°-lo da trag√©dia que os tornara ref√©ns da caridade alheia.
          -Perdemos tudo, irm√£o ‚Äď disse Rodrigo algo exaltado e, sobretudo, inconsol√°vel.
          -Eu sei‚Ķ
          -N√£o sabes n√£o‚Ķ O produto estava na carrinha‚Ķ Tinha-o escondido atr√°s, debaixo da carpete sob a mercadoria, onde Manolito est√° agora - disse  duplamente compungido‚Ķ
          -Depois de o c√£o morrer, devias t√™-lo tirado de l√°. Mas Isso agora n√£o interessa para nada. Talvez se tivesse perdido na mesma‚Ķ
          -J√° ligaram √† GNR? ‚Äď perguntou Rodrigo, pensando que, noutras circunst√Ęncias, fugiriam dessa gente como o Diabo do enxofre. Mas hoje n√£o teriam como evit√°-lo. O tempo urgia.
          Joaquim entregou o p√£o com manteiga ao pai e disse-lhe que, se quisesse, poderia ir-se embora. Ele esperaria pelas autoridades. Mas o pai n√£o aceitou. Como o cavalo precisava, ao menos, de beber, aconselhou o filho e o irm√£o a levarem-no dali. Estava tudo morto. E era como eles se sentiam, mortos por dentro.
          Foi o rapaz que, segurando a r√©dea do animal, o levou dali a passo.


                                                                                            22

           Quando uma boa parte da popula√ß√£o chegou √† Rua do Cabe√ßo, nos rostos dos cinco ou seis homens e mulheres armados com enxadas, galhos de √°rvores e mangueiras, era vis√≠vel a consterna√ß√£o por mais uma desgra√ßa.
          No ch√£o, no meio da rua, estavam mais dois corpos tapados por duas mortalhas brancas. Ao lado dos cad√°veres, Catarina e Vasco choravam o desaparecimento Ana Rosa e do filho Diogo, uma crian√ßa de cindo anos que, depois de um domingo de celebra√ß√£o na casa da av√≥ com os tios de Fran√ßa, ficara com ela, dando-se colo m√ļtuo de av√≥ e neto como em tantas outras vezes. Ficava l√° sobretudo em Agosto, quando a escola pr√©-prim√°ria fechava e Catarina precisava de o deixar com algu√©m. Para cuidar da crian√ßa, ningu√©m melhor do que a av√≥. Hoje, por√©m, numa hora m√°, enquanto na pra√ßa, junto √† igreja, se lamentava a morte de uma outra crian√ßa, de algum modo permitira-se o avan√ßo do fogo noutros lados. At√© ele devorar a casa da m√£e, a m√£e e o filho. E se j√° seria doloroso perder a m√£e em circunst√Ęncias normais, num caso conjurado pelo inferno como o que se precipitara sobre a aldeia, v√™-la partir levada por uma morte horr√≠vel com o neto pela m√£o, era devastador. Pior do que perder a m√£e era, indiscutivelmente, a perda do filho, uma coisa anti natura, para l√° de qualquer sofrimento humano e imposs√≠vel de imaginar por quem nunca passou por ele.
          Quando o marido, Vasco, e o irm√£o se haviam precipitado para o caminho por onde av√≥ e neto tentaram a fuga, nada mais lhes restava do que resgatar mais duas v√≠timas. Ainda tinham sido retiradas com vida, mas morreram a seguir uma e outra: Ana Rosa, ao colo Leandro, e Diogo no do pai. Nos bra√ßos de cada um, haviam soltado o √ļltimo suspiro, enquanto o 112 colocava as interroga√ß√Ķes habituais. Tanto acerca das atrocidades do fogo como sobre as condi√ß√Ķes das v√≠timas, ao mesmo tempo que, quem fizera o telefonema, praticamente insultava quem o atendia por julgar certas quest√Ķes irrazo√°veis naquelas circunst√Ęncias. Ele ali a ver duas pessoas a passar-se para outra dimens√£o e algu√©m a fazer perguntas mais ou menos idiotas. E o que o fogo n√£o matara fizera-o o fumo, numa capciosa combina√ß√£o de esfor√ßos.
           Nada mais havia a fazer.
           -Malditos incendi√°rios! ‚Äď praguejava Catarina em desespero intercalado com gritos, destapando de vez em quando os len√ß√≥is que cobriam av√≥ e neto ‚Äď. Se um dia descobrir os culpados juro por Deus ou pelo Diabo que lhes fa√ßo o mesmo!
          E, depois da praga num momento de dolorosa exalta√ß√£o, ca√≠a de novo na realidade desfazendo-se em l√°grimas, constantes como uma fiada de p√©rolas sem fim. O marido tentava anim√°-la com as palavras circunstanciais de sempre, quando Deus passa a encher a boca de quem as profere verificada a impossibilidade de dizer:
          -Est√°s a sonhar. Tudo isto √© um pesadelo. Vais acordar dentro de pouco tempo. A seguir deslocas-te ao quarto e ent√£o encontrar√°s o nosso Diogo a dormir o sono dos anjos.
           Mas, em vez disso, s√≥ lhe ocorria dizer, com a mesma cortina espessa de √°gua nos olhos:
          -S√£o incompreens√≠veis, at√© malditos, mas devem ser os des√≠gnios de Deus, que quiseram juntar av√≥ e neto na mesma mortalha.
          At√© cederem √† prostra√ß√£o e ao vazio, com a alma retalhada aos bocados pelas labaredas.
          J√° era dia claro, um dia de cuja luz emanava uma enorme desola√ß√£o, a que o fumo se apegava envolvendo-o no seu manto. A noite confundira-a at√© ao amanhecer, ocultando no seu negrume a verdadeira dimens√£o da trag√©dia. Mas agora tudo estava escancarado aos olhos de toda a gente, numa nudez cruel e mesquinha. Os esqueletos das coisas mortas tornavam-se paulatinamente vis√≠veis, ensombrando a paisagem como fantasmas em retalia√ß√£o. E, em penosa lentid√£o, quando dentro de cada hora havia s√©culos e em cada s√©culo mil√©nios, os bombeiros ainda n√£o haviam aparecido, a fim de trazerem com eles um fiozinho da esperan√ßa que, cada vez mais, faltava, enquanto os montes ardiam sem descanso. Esperava-se ainda que a GNR viesse guardar os mortos, como se os mortos valessem uma fortuna a n√£o perder de vista nem por um segundo. N√£o s√≥ o cad√°ver do pobre Manolito, como os outros dois. A seguir, viria o Delegado de Sa√ļde declarar os √≥bitos, ordenando depois a remo√ß√£o dos corpos para o local da aut√≥psia, na √ļltima determina√ß√£o da lei. Uma lei que, √†s vezes, parecia encarar a morte com bastante mais dignidade do que encarava a vida. Ao menos na rapidez com que as autoridades se dirigiam a um local onde houvesse um cad√°ver. Mas, fosse como fosse, tudo ia acontecendo numa esp√©cie de c√Ęmara lenta, como se se quisesse prolongar a agonia dos vivos torturando-os com o espect√°culo da morte, insensata e sem sentido de oportunidade. E, mesmo que a lei e um m√©dico n√£o tivessem ainda declarado, com toda a solenidade, a morte de mais duas pessoas, de novo era preciso badalar o sino da aldeia e levar a toda a gente, atrav√©s do som met√°lico do seu bronze, o toque a finados.




                                                                                               XXV

          -√Č raro ver-se algu√©m fazer uma jura invocando Deus ou o Diabo ‚Äď comentou Fausto ‚Äď Normalmente jura-se por Deus. E como Deus, pelos vistos, n√£o interfere em vingan√ßas desta natureza, √© bem prov√°vel que Catarina cumpra a amea√ßa com a tal ajuda alternativa.
          -N√£o acredito. As mulheres n√£o dadas a este tipo de coisas. S√≥ se fosse um caso de marido e amante. Aqui √© que elas requintam. Chegam a ser mais s√°dicas do que os homens. N√£o √© que o Telmo n√£o merecesse. Merece e bem. Se fosse a minha m√£e que tivesse morrido daquela forma, juro-te que seria capaz de regar com um bid√£o de gasolina quem tivesse estado na origem do fogo e de o incendiar a seguir!
          -Concordo contigo. Se a tal pena de Tali√£o ainda vigorasse, mal fosse descoberto, ficaria como um torresmo no meio das labaredas. Seria como um ti√ß√£o que se apresentaria perante o Diabo invocado pela Catarina ‚Äď continuou Fausto, na mesma toada de requinte diab√≥lico com que os dois se protegiam do horror que o √©cran lhes mostrava em doses massivas.
          -Era-lhe muito bem-feito! ‚Äď refor√ßou Domingos
          -E se fosses tu? ‚Äď perguntou Fausto.
          -Era a mesma coisa. Mas n√£o estou a ver-me a incendiar seja o que for.
          -N√£o sabes! Contudo, se √© assim, viva a quest√£o de princ√≠pio! Mas, olha que, para al√©m da Catarina, ali no meio daqueles homens e mulheres, que tentam apagar o fogo, h√° muito boa gente capaz de p√īr o culpado a assar no meio de uma pira. S√≥ que teria de ser hoje. A quente. Amanh√£, passada a raiva, ningu√©m o conseguiria. Hoje, no calor dos acontecimentos, era, se n√£o leg√≠timo, quase desculp√°vel. Amanh√£ seria b√°rbaro.

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« Responder #38 em: Maio 01, 2020, 18:41:07 »

Capaz de o p√īr na fogueira e muitos mais com vontade de o fazer. Continuando...
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« Responder #39 em: Maio 01, 2020, 21:14:52 »

                                                                                    23

          C√°rmen, mal soube de que a morte ceifara de novo duas vidas, decidiu ir at√© ao s√≠tio de onde ainda ningu√©m conseguira arrancar Catarina. Deixou os outros filhos entregues a Sameiro e Luzia, e no √ļltimo instante, antes de cumprir o que se prometera, pediu a In√°cio para a levar ao acampamento uma √ļltima vez, juntamente com Ramiro, o filho mais velho.
          Quando chegaram ao local, um dia a sua casa, a GNR j√° havia tomado conta do que restava de Manolito. Dada a quentura do ch√£o, n√£o tinham sido colocadas as fitinhas habituais de preserva√ß√£o do espa√ßo, mas tamb√©m n√£o era preciso. A terra fervia e enxotava quem quisesse aproximar-se. Ramiro ficaria a seguir com o tio, junto das autoridades, at√© chegarem as restantes entidades para as tramita√ß√Ķes seguintes e para o adeus definitivo ao acampamento.
          Quanto aos outros filhos, era melhor que continuassem a dormir na pra√ßa, em vez de assistirem ao espect√°culo da morte, que j√° colhera mais dois inocentes.
          C√°rmen n√£o sabia bem por que decidira deslocar-se ali, quando, antes, se propusera confortar outra mulher. Cigana ou n√£o, Catarina, de quem nunca ouvira falar, tamb√©m perdera um filho nas mesmas terr√≠veis circunst√Ęncias. Ainda assim, talvez tivesse querido ir ao que fora o seu lar de novo para a seguir tentar saber se o filho de um cigano era mais ou menos valioso do que o filho de um paisano, ou se as l√°grimas de cada uma das duas m√£es eram mais ou menos salgadas umas do que as outras. E, quando concluiu que o sofrimento se devia equivaler, perante o esqueleto da carrinha transformado no sepulcro de Manolito, seguiu ent√£o para o local onde outra m√£e e uma outra crian√ßa morta se despediam uma da outra neste mundo de loucos. At√© a√≠, os acontecimentos tinham-se precipitado de uma tal maneira, que quase n√£o tinham ainda pensado como se teria desencadeado na realidade o inc√™ndio. Mas, agora, as palavras do presidente da junta come√ßavam a fazer sentido. Deviam ter mesmo muitos inimigos. Tratara-se, com toda a certeza, de fogo posto. Pois se ele se levantara das sombras da noite como um predador, s√≥ poderia ter sido ateado de prop√≥sito!
          Por agora, C√°rmen tinha de ir cumprir o que se propusera. Depois se veria o que fazer, qual o destino de todos, quando tivessem de deixar a pra√ßa e ir para local incerto come√ßar tudo de novo, sem nada nos bolsos a n√£o ser as m√£os com que desbravariam o futuro negro que se adivinhava.
          Quando a mulher chegou junto de Catarina, pela primeira vez se deu verdadeiramente conta de que estava pouco mais do que nua. Mas, nem mesmo assim desistiu de se aproximar da outra m√£e, igualmente despojada do seu filho de uma forma igualmente b√°rbara. Talvez ela, C√°rmen, uma cigana de acampamento, fosse para Catarina uma esp√©cie de b√°lsamo de que ela pr√≥pria precisaria. S√≥ n√£o estava certa se a outra mulher a iria considerar como um par, na mesma desola√ß√£o, ou se, apesar disso, se furtaria a um abra√ßo estreitado entre l√°grimas de duas m√£es privadas da sua cria em circunst√Ęncias semelhantes.
          Nessa altura, j√° uma nova patrulha da GNR tomara as provid√™ncias necess√°rias para isolar o local, onde Ana Rosa e o neto estavam na sua quietude mortu√°ria. Alguns populares, mais ao fundo, continuavam a dar o seu melhor para as labaredas n√£o avan√ßarem sobre o miolo da aldeia. Outros estavam juntos da enfermeira, a tentar que ela sa√≠sse dali a fim de a preservarem  da  remo√ß√£o dos dois cad√°veres para a ambul√Ęncia que os levaria a seguir para a morgue. Uma dose de horror dupla servida pelo Diabo no mesmo dia a duas fam√≠lias, a uma aldeia. Ou melhor, a um pa√≠s inteiro, impotente perante aquela calamidade nacional do in√≠cio de Agosto. E quando C√°rmen, de camisola que lhe servira de camisa de dormir, se abeirou de Catarina, sentiu ainda assim alguma resist√™ncia da parte dela. Isso f√™-la pensar que a sua condi√ß√£o continuava a ser uma barreira intranspon√≠vel entre ciganos e paisanos, mesmo na morte e num abra√ßo que ela desejou sempre de solidariedade fraternal.
          -Eu sei o que isso d√≥i. Tamb√©m acabo de ficar sem o meu Manolito ‚Äď disse, apesar de tudo contagiada pela dor de Catarina, esta sim, verdadeira.
          -Isto √© desumano, ningu√©m devia nunca passar por uma coisa assim. ‚Äď gritava a mulher ‚Äď. Nenhuma m√£e, nenhum pai! √Č contra a natureza berrava quase louca.
          -Tem raz√£o, devia ser proibido por lei. Deus Nosso Senhor n√£o devia permitir coisas assim ‚Äď concordava C√°rmen, humedecendo as palavras com a √°gua dos olhos, mas sem deixar o seu choro tirar o protagonismo ao choro de Catarina, que, por ser mais recente, precisava de se expandir at√© a tudo ficar suport√°vel
          -O meu outro filho ainda n√£o sabe. N√£o sei como vai reagir √† morte do irm√£o e da av√≥ ‚Äď disse Catarina no meio do choro.
          -E n√≥s que perdemos tudo. A carrinha da feira, as coisas para vender. Fic√°mos sem um tost√£o no bolso. Com a roupa do corpo. Se j√° √©ramos uns desgra√ßados, ent√£o agora nem se fala. Fic√°mos, como os coelhos e as perdizes, sem toca para fugirmos ao frio e √† chuva. J√° por diversas vezes pedimos √† c√Ęmara duas casas, mas a c√Ęmara diz que n√£o tem ‚Äď disse In√°cio ‚Äď. Somos dos poucos ciganos neste pa√≠s que n√£o t√™m rendimento social. Pois se nem sequer temos uma morada para indicar! E a c√Ęmara j√° vendeu os bairros sociais h√° muito. N√£o est√° para ter problemas com inquilinos que √†s vezes n√£o pagam.
          -Mas isso √© dinheiro e o dinheiro √†s vezes √© o menos. Eu dava tudo para ter o meu filho e a minha m√£e de volta! ‚Äď murmurava  a enfermeira,  a quem a raiva endurecia as l√°grimas, que caiam ca√≠am agora  como estalactites.   J√° corria √† boca pequena a ideia de fogo-posto como sendo a causa mais prov√°vel do inc√™ndio. E os ciganos j√° come√ßavam a ser ilibados do delito pelo senso comum de uma aldeia inteira. S√≥ poderia ser assim! Aquelas pessoas, ali mal acantonados, n√£o iriam imolar Manolito de uma forma t√£o cruel para obterem qualquer vantagem econ√≥mica. Ainda que fosse uma casa. E tamb√©m ningu√©m acreditava que os Vieira tivessem ido t√£o longe por causa de uma planta√ß√£o de eucaliptos. Se fossem s√≥ os cacos ainda v√° que n√£o v√°, mas assim n√£o! Eles estavam, com toda a certeza, inocentes. N√£o teriam com certeza cometido semelhante barbaridade, por mais que √†s vezes se esfaqueassem ou pistolassem uns aos outros de vez em quando numa rixa banal. E isso tamb√©m os outros homens faziam.
          Apesar de o abra√ßo n√£o ter derrubado o muro social entre ambas, ao ver a ex√≠gua roupa de C√°rmen e de In√°cio, Catarina disse-lhes que fossem l√° a casa, mal os cad√°veres de av√≥ e neto fossem removidos dali. Que fossem depois da partida da ambul√Ęncia e quando aquele lugar passasse a ser na hist√≥ria de uma pequena aldeia apenas a m√° mem√≥ria de uma trag√©dia. Entre as suas coisas e as do marido, haveria com certeza algumas que lhes poderia dar para cobrirem exiguidade em que o fogo os surpreendera. Quando ao vestu√°rio dos filhos, sobretudo de Diogo, por agora n√£o queria nada ter de tratar disso. Cada pe√ßa tocada seria mais uma ferida aberta, e feridas era o que ela mais tinha. Sangrava por todo o lado como se acabasse de ser crucificada numa cruz com mais espinhos do que a de Cristo. E do Tiago, do mais velho, rondando ele a idade de Litos, talvez tivesse algumas pe√ßas de roupa e cal√ßado que lhe poderia dar. Incluindo para o outro filho, a seguir a Manolito, e sobrinhos, filhos de Luzia e Rodrigo, a quem o fogo apanhara √† falsa p√© no meio da noite como a todos os outros.
          -N√£o sei como estar√£o eles ‚Äď acrescentou C√°rmen - Acho que o Litos sabe mais do que o que consegue dizer. Antes de sabermos da desgra√ßa do irm√£o, nunca esteve sossegado. S√≥ depois conseguiu dormir‚Ķ Foi como se se tivesse livrado de um segredo que o atormentasse at√© √† alma.


                                                                                   XXVI

          -Como v√™s, Domingos, Catarina, apesar de chorosa e sofredora, ningu√©m duvida disso, estabeleceu uma dist√Ęncia not√≥ria entre a cigana e ela pr√≥pria. Praticamente, limitou-se a ser politicamente correcta. O presidente faz o mesmo. Al√©m de que n√£o v√™s ningu√©m no acampamento. J√° no outro local, h√° uma s√©rie de pessoas ao lado de Catarina, do marido, da velhota e do neto. N√£o foi por todos eles estarem seminus, com toda a certeza ‚Äď disse Fausto na sequ√™ncia do que havia dito anteriormente -. E deixa passar algumas horas. Vais ver como tudo se vai acentuar.
          -Tens raz√£o. Mas ao menos vai-lhes dar alguns farrapos para todos irem decentes ao funeral de Manolito. A prop√≥sito, quem ir√° pag√°-lo, uma vez que os ciganos est√£o sem dinheiro?
          -A c√Ęmara. Vai ser enterrado provavelmente como indigente. A menos que a ra√ßa se solidarize e de uma hora para a outra e apare√ßam por ali com o dinheiro para o pequeno caix√£o.

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« Última modificação: Maio 01, 2020, 21:34:23 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #40 em: Maio 05, 2020, 17:58:34 »

Quem sabe? Por vezes, surpreendem-nos.
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« Responder #41 em: Maio 05, 2020, 22:14:43 »

                                                                                                 24

          Enquanto a ambul√Ęncia e o delegado de sa√ļde n√£o chegavam, o fogo continuava a sua colheita. Saltava de um lado para o outro como um farricoco numa prociss√£o de almas sem rumo definido.
          O presidente, visivelmente agastado, saltava do mesmo modo, ora para um, ora para o outro local, desdobrando-se em telefonemas a diversas entidades. Se agora estava onde Catarina perdera o filho e a m√£e, da√≠ a nada era visto junto do acampamento, onde a GNR continuava a guardar o pequeno cigano acompanhada pelo Rodrigo e pelo sobrinho. Desta feita, depois de tr√™s vidas ceifadas, Ant√≥nio Pinto usava-as como motivos persuasores, invocando ainda a calamidade que se abatera sobre todos. Enumerava as hortas, pomares e vinhas que continuavam a ser devoradas pelo lume num desastre econ√≥mico sem precedentes. O fogo, sem a√ßaime, prosseguia em livre curso e ao sabor do vento. No ar, √†quela hora da manh√£, al√©m do cheiro a queimado, fazia-se sentir com intensidade um odor a carne queimada. E isso, embora ainda ningu√©m o tivesse confirmado, fazia crer na forte possibilidade de o avi√°rio dos frangos do Sr. Jo√£o j√° ter provavelmente sido devorado pelas chamas.
          Seriam oito horas da manh√£ quando, finalmente, era ouvida a sirene dos bombeiros a rasgar o ar empedernido pelo fumo que obscurecia o vermelho do carro ao longe. Mas, apetrechado de mangueiras, p√°s, enxadas e alguma √°gua, apesar de bem-vindo, chegara sobretudo demasiado tarde. Tr√™s pessoas haviam perdido a vida. Sem falar nas perdas materiais, a que quase ningu√©m escapara. Contudo, toda a gente compreendia por que n√£o tinham podido estar presentes durante aquela noite fat√≠dica os soldados da paz. Por todo o lado havia barreiras de fogo a impossibilitar a passagem de viaturas, e homens e mulheres mortos de cansa√ßo em todas as corpora√ß√Ķes. Deslocados de sul para norte como refugiados de guerra, era preciso, aos Servi√ßos de Protec√ß√£o Civil e do Corpo Nacional de Bombeiros, ter nervos de a√ßo para coordenar um pa√≠s a arder. Dezenas de profissionais e volunt√°rios, h√° dias sem irem √† cama, eram agora zombies humanos de mangueira em punho a tentar fazer o melhor, mas sem qualquer certeza de poderem, a breve trecho, acabar com o inferno que se amotinara na terra. Dias longe do carinho da fam√≠lia, do beijo de boas-noites dos filhos e com algumas queimaduras no corpo, que, apesar de protegido com material apropriado, n√£o deixava de ser vulner√°vel a um inimigo t√£o invasivo. Al√©m de que n√£o eram s√≥ as matas do continente a ser incineradas. Na Ilha da Madeira iniciara-se uma onda de combust√£o sem precedentes. E, devido √† estrutura montanhosa do terreno, s√≥ Deus saberia quando iria acabar. Combatida a derradeira fagulha, com a pinga de uma torneira ou com uma gota de chuva derramada por um c√©u disposto a ser a m√£o longa de Deus numa causa justa, tamb√©m ningu√©m fazia ideia das sequelas que o fogo abriria dali em diante.
          Era por tantas coisas que, da longa espera pelos bombeiros, n√£o resultara uma √ļnica palavra de revolta. Nenhuma praga, nenhuma blasf√©mia. Embora tivessem sido proferidas palavras de lamento e desalento, umas e outras salgadas com o sal de l√°grimas pelas mortes sucessivas e por tudo o resto.
           Apesar de as labaredas serem vis√≠veis por todo o lado, antes de se proceder √† an√°lise da situa√ß√£o, o carro parou na pra√ßa. Quase todos os homens desceram para desentorpecer as pernas durante alguns instantes. Local de passagem obrigat√≥ria e ponto de concentra√ß√Ķes importantes, o chefe de uma equipa de cinco bombeiros entendeu, em primeiro lugar, dever ouvir quem, ao longo da noite, fizera o que podia e sabia para minimizar a calamidade. Infelizmente, para duas crian√ßas e uma idosa, haviam chegado demasiado tarde, era o que todos diziam. Mas, disso, argumentava o Chefe Cl√°udio, n√£o tinham eles, quatro homens e uma mulher, qualquer culpa. Andavam no seu limite h√° mais de dois dias, a combater uma montanha de labaredas a sul, onde haviam ardido v√°rias casas e uma f√°brica de moldes, que provavelmente havia deixado umas dezenas de pessoas desempregadas. A preocupa√ß√£o maior eram, contudo, sempre as pessoas.
          -Mas aqui perdemos tr√™s, chefe. Duas, uma idosa e uma crian√ßa est√£o l√° ao fundo tapadas por um len√ßol. A terceira, outra crian√ßa tamb√©m, est√° carbonizada no acampamento onde vivia com os pais irm√£os, tios e primos, dentro do esqueleto de um carro. Pelo que se sabe, o fogo ter√° come√ßado a√≠, ningu√©m tem ideia desencadeado pelo qu√™ ou por quem. A partir de l√°, e desde a uma hora da manh√£, tem lambido tudo como uma sofreguid√£o de lobo faminto.
          -Lamentamos muito. Custa-nos sempre ver as coisas correr assim t√£o mal. Porque mal correm desde que o fogo come√ßa. Possa embora n√£o haver mortes ‚Äď diz o chefe de equipa, confrangido pelo que acontecera enquanto combatiam outras frentes com alguns quil√≥metros, mais um mar de chamas no paiol nacional de um ver√£o quente como poucos.
          -Tem toda a raz√£o. O Inferno fez disto o seu quartel-general ‚Äď anu√≠ Ant√≥nio Pinto. E todos os homens e mulheres faziam coro com ele, ali na pra√ßa perto da igreja, de portas fechadas desde a √ļltima missa da v√©spera.
           -Ent√£o esta pessoas acamparam agora aqui no largo ‚Äď observa o bombeiro, olhando para as crian√ßas que se haviam aproximado entretanto como pardalitos sem dono. A maior parte delas, descal√ßas, acordara h√° um bom peda√ßo. Andava por ali com pouca roupa em pequenas traquinices, que traziam a marca da desola√ß√£o no rosto. Sobretudo por n√£o terem um lugar a que pudessem chamar casa para onde pudessem voltar. Num um s√≠tio √°rido a ciganos como tantos outros, brincar sem brinquedos era a √ļnica coisa que poderiam fazer. E talvez nunca mais o conseguissem com a inoc√™ncia da v√©spera, antes de o pobre c√£o ter sido condenado √† morte e executado por envenenamento e o Manolito por incinera√ß√£o. Litos continuava a dormir o sono dos justos, protegido pela surdez que o tornara ref√©m do sil√™ncio na sequ√™ncia de uma otite mal curada aos dois anos de menino criado ao deus dar√° numa barraca acossada pelo frio e por condi√ß√Ķes de vida miser√°veis.
          -√Č verdade. O acampamento mudou-se para aqui em peso. ‚Äď respondeu uma mulher perante as evid√™ncias.
          -E a gr√°vida, est√° de quanto tempo? ‚Äď perguntou discretamente o Chefe Cl√°udio,  antecipando a hip√≥tese de ter de servir de parteiro ocasional a uma m√£e e ao seu filho. N√£o seria a primeira vez‚Ķ
          -N√£o sabemos ‚Äď respondeu a mesma mulher. Ainda ningu√©m se lembrou de lhe perguntar. Mas tem barriga para muito perto de nove meses. Era s√≥ o que faltava, no meio disto tudo, a desgra√ßada come√ßar agora a contorcer-se com as dores do parto.
           -Tem raz√£o. N√≥s j√° temos muito eu fazer. E olhe que em certos momentos √© com o cora√ß√£o nas m√£os que empunhamos a mangueira. Cheios de queimaduras √†s vezes ‚Äď diz, mostrando um pulso, onde uma fagulha se infiltrara por cima das luvas e deixara uma marca ligeira.
          -Quem √© que vai levantar os mortos? S√£o voc√™s? ‚Äď pergunta de novo a mulher, confrangida como o cen√°rio  da morte que os dois len√ß√≥is tapavam algures  a c√©u aberto no fundo do povo.
          -N√£o. A nossa responsabilidade √© s√≥ com os inc√™ndios. H√£o-de vir carros apropriados, com isolamento para sangue e cheiros. Sim porque, em casos de morte, as circunst√Ęncias variam muito. Pode haver putrefac√ß√£o inclusive. N√£o √© o caso, mas acontece de vez em quando.
          -Pois, era bom que viessem depressa. √Č uma dor de alma ver aquela tristeza ‚Äď acrescenta a mulher.
E os presentes concordaram, com suspiros de revolta. Ainda não dava para acreditar. Ninguém merecia nada daquilo. Mesmo como castigo por algum pecado era excessivo. Para qualquer mortal.
          -Temos de ir. J√° demor√°mos demasiado ‚Äď anuncia o Chefe Cl√°udio.
          -Onde o fogo est√° mais ati√ßado agora √© para sul ‚Äď informa o presidente da junta que, finalmente, v√™ coroados os seus esfor√ßos de algum √™xito.
          -√Č para l√° que iremos. E, por favor, quem quiser ajudar no combate deve obedecer √†s nossas orienta√ß√Ķes. N√£o queremos ningu√©m em perigo. Levem roupas grossas, como ganga e botas. Chap√©u tamb√©m. P√°s e enxadas. Sem esquecer a √°gua para beberem. O calor √© sempre infernal, o lume pica ‚Äď aconselha o bombeiro, enquanto se dirige para a viatura. Ele e o jovem volunt√°rio Miguel, um rapaz de vinte e um anos com bodas marcadas para o s√°bado seguinte. O mesmo dia em que S√≠lvia e Pierre receberiam, um do outro, as alian√ßas do matrim√≥nio no Santu√°rio de Senhora da Sa√ļde.
          -Vamos l√° chefe! ‚Äď Sugere o rapaz como quem d√° uma ordem ‚Äď Quero acabar com isto depressa. A ver se chego a tempo ao meu pr√≥prio  casamento ‚Äď atira em jeito de brincadeira, tentando espantar das p√°lpebras um sono que n√£o o poderia vencer, tanto era o trabalho ali √† espera de mil homens, poucos ainda para cortar as √°speras l√≠nguas de fogo que lambiam a eito o man√° do Deus mitol√≥gico do fogo, o velho e rabugento Vulcano.
          -Por este andar, acho que vais ter de adiar ‚Äď acrescenta com resignada ironia o chefe da equipa, sempre pronto a levantar o moral dos seus homens caso os visse esmorecer no meio de uma certa impot√™ncia, frequente mesmo entre her√≥is.

                                                                                              25

          No m√™s de Agosto, com a labora√ß√£o da maioria das f√°bricas em pausa por todo o pa√≠s, o lazer das popula√ß√Ķes arrastava-se na lentid√£o de um calor que viera bravo. Por isso, alguns homens e mulheres, de f√©rias, depois do improviso de fardas artesanais de ataque ao inferno, chisparam resolutos at√© ao local onde a paisagem ia sendo engolida. No ar, surdo como um morteiro, fazia-se ouvir frequentemente  o rebentamento de pinhas de um ou outro pinheiro, acompanhado pelo silvo sinistro das labaredas. O flanco sul da aldeia continuava a ser invadido pelo abutre em que o fogo se havia transformado depois da primeira chama. Era onde, ali numa aldeia do centro, em mais uma das mil e uma planta√ß√Ķes nacionais, se situava a grande mancha de eucaliptos, as matas que, um pouco por todo o lado, h√° muito eram consideradas √°rvores malditas. Crescendo da noite para o dia at√© ao c√©u como no conto dos irm√£os Grimm ‚Äúo P√© de Feij√£o de Jo√£o‚ÄĚ, tinham, apesar da proeza, pouco de m√°gicas. Embora enchessem alguns bolsos com moedas de ouro semelhantes √†s da hist√≥ria. Contudo, eram quase sempre associadas a sinistros ciprestes e √† sua prefer√™ncia por viverem paredes meias com a morte, dentro ou fora dos cemit√©rios. A riqueza que produziam, vinda de um solo a meio caminho entre da esterilidade e o deserto, n√£o passava, tanto na opini√£o corrente de um leigo, como na de um abalizado engenheiro agr√≥nomo, de um fertilizante assassino. Era quase considerada dinheiro sujo.
          Ali e agora, a √ļnica vulnerabilidade dos eucaliptos era o vento. E este, havia mais de doze horas, empurrava as chamas para uma zona empanturrada das √°rvores non gratas, que, sendo excessivas por todo o lado, se haviam transformado numa praga pior do que a mimosa amarela. Por isso, cada vez mais, mil e uma vozes se manifestassem contra a grande importa√ß√£o do continente australiano para um local onde n√£o havia cangurus para alimentar, nem necessidade de os introduzir para confundir as esp√©cies aut√≥ctones. Os ju√≠zos do senso comum s√£o normalmente os mais equilibrados de todos os ju√≠zos, aqueles com quem a natureza gosta mais de interagir. Por isso se ouviam por todo o lado, de novos e velhos:
          ‚ÄúA Terra, ainda h√°-se ficar como a Lua, completamente seca e deserta, Amaldi√ßoado o homem que permitiu esta galopante desertifica√ß√£o, Se fosse s√≥ isso, Ele deu cabo de tudo por causa do cimento, E dos carros que os estrangeiros nos vendem, Mesmo assim, as auto-estradas est√£o √†s moscas, E bem se pagam. A peso de ouro, Tamb√©m n√£o poupou as pescas, Mas para a sa√ļde e para os bombeiros √© que n√£o h√° dinheiro. O equipamento √© velho como a S√© de Braga, completamente ultrapassado. At√© os outros pa√≠ses nos d√£o o material que j√° n√£o usam, depois de j√° terem outro mais moderno. √Č verdade. E, por aqui, para eles ainda poderem ir comprando alguma novidade, n√£o deve haver esquina que n√£o tenha j√° assistido a um pedit√≥rio. Tem raz√£o. Sobretudo nas grandes cidades, quando se sai de casa, a um s√°bado ou a um domingo, a partir do meio-dia, passa-se, no m√≠nimo, por uma lata onde se recolhe dinheiro para satisfazer um  pedido de todos os  g√©neros: para os bombeiros, para os sem-abrigo, para os ex qualquer coisa, para uma casa para os surdos-mudos, para os autistas, para isto e para aquilo‚ÄĚ.

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Goreti Dias
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« Responder #42 em: Maio 06, 2020, 18:58:57 »

√Č o santo pedit√≥rio nacional. Daqui a pouco, pede-se para pintar a estupidez com cores de intelig√™ncia. Mas vai ser necess√°rio mais dinheiro do que aquele que o mundo tem.
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #43 em: Maio 06, 2020, 20:59:01 »

                                                                                         26
          Enquanto os homens seguiam a rota do fogo, a maioria das mulheres ficava junto de Catarina e do marido, prostrados ambos naquele cen√°rio de horror como mais duas v√≠timas. Joanne, a sobrinha de Catarina, filha de Leandro e de Dulce, ficara com o primo Tiago, reduzido agora √† condi√ß√£o de filho √ļnico e com uma adolesc√™ncia pela frente que teria de enfrentar sozinho. √Ä jovem, de momento, incumbia-lhe lidar com o pobre rapazinho, inventando a cada minuto, no seu portugu√™s com sotaque franc√™s de Marselha, uma desculpa convincente para iludir o pr√≥prio ar, conspurcado pelo fumo e pela desgra√ßa que viera a reboque do fogo. Dulce tivera de levar o marido ao hospital, para ser tratado a uma queimadura que  lhe abocanhara uma das pernas, na disputa com o fogo que ele acabara por perder. Naqueles instantes, com um cen√°rio dantesco pela frente, a vida de Leandro passara, apesar do perigo, a valer para ele pr√≥prio menos do que a vida da progenitora. Por isso, dos seus medos fizera t√°bua rasa, quando enfrentara as labaredas como S. Jorge enfrentara o drag√£o, com bem menos hip√≥teses de o vencer do que o santo. Na verdade, nem ele nascera com dons de santidade, nem as labaredas tinham crescido sensatas. E, infelizmente, a m√£e morrera-lhe nos bra√ßos, como um animal indefeso devorado pelo bando de aves de rapina em que a chama de um isqueiro se havia transformado. O mesmo acontecera ao pequeno Diogo, o sobrinho, a quem fora tirada a hip√≥tese de ser um dia alguma coisa na vida. Nem que fosse um bandido destinado a viver na pris√£o num deve e haver de crimes intermin√°vel. Mas haviam-lhe tirado todo e qualquer direito de escolha.
           Agora, √† medida que a ideia de fogo-posto alastrava cada vez mais pela aldeia, toda a gente se socorria de ideias estandardizadas, elaboradas por quem julgava saber alguma coisa do assunto para atribuir um rosto ao incendi√°rio. Mas, antes de tudo, nos pensamentos de cada um, pensava-se nesse rosto como o de algu√©m capaz de vender a alma ao Diabo, em simult√Ęneo com o dedilhar do isqueiro num gesto mec√Ęnico do polegar imediatamente antes da igni√ß√£o. Tratava-se de um inimigo de quem precisavam de se proteger. A tudo o custo, teriam de evitar uma nova incurs√£o da desgra√ßa em cada, porta como a que ainda decorria. E, ali com tr√™s cad√°veres √† espera do seu √ļltimo destino, necessitavam tamb√©m de se libertar daquela dor, uma opress√£o em cadeia que deixava em cada um uma devastadora vontade de dar murros no pr√≥prio peito. Da√≠ ser imperioso encontrar um culpado a quem crucificar, fazer o julgamento sum√°rio, ou o auto de f√©, e entreg√°-lo ao Diabo dando o pacto celebrado entre ambos por cumprido. Contudo, ainda antes da fogueira na pra√ßa p√ļblica, era preciso igualmente atribuir uma identidade ao rosto encontrado a partir do folheto dos perfis de incendi√°rios, sem margem de erro e para ningu√©m ser corro√≠do pelo remorso um dia mais tarde caso se enganasse na identifica√ß√£o do culpado.
          Perante um puzzle de pe√ßas desconhecidas, lan√ßava-se m√£o do perfil do pir√≥mano estandardizado, para ver at√© que ponto certo nome soprado pela intui√ß√£o se encaixaria na moldura. O retrato psicol√≥gico, tra√ßado h√° anos pela Judici√°ria, era o recurso mais utilizado. Todavia, os recentes casos de incendi√°rios demonstravam que a fotografia estaria a precisar de actualiza√ß√Ķes urgentes e alguns retoques. Se, antigamente, um pir√≥mano era geralmente um homem a partir dos trinta e alguns anos, desempregado, com poucos atractivos f√≠sicos, de baixa condi√ß√£o social e incapaz de estabelecer rela√ß√Ķes com mulheres, o leque tinha vindo a alargar-se ao longo dos anos, como um carreiro de formigas indistintas umas das outras. Entre os incendi√°rios, j√° havia gente com emprego, aparentemente sem problemas, a fazer igni√ß√Ķes s√≥ para usufruir do espect√°culo do fogo. Tanto na vertente noticiosa, sobretudo televisiva, como na az√°fama a que obrigava os bombeiros em trabalho e sofrimento. O rasto do som das sirenes atrav√©s do ar era, como nenhuma outra coisa, capaz de desencadear emo√ß√Ķes semelhantes √† languidez de um orgasmo, incontrol√°vel e algo s√°dico. Ainda que este fosse meramente mec√Ęnico, entre uma prostituta e o cliente √† beira de uma estrada que n√£o estivesse ainda nua e negra como, de norte a sul, estavam agora quase todas. Os Neros tinham vindo a aumentar, sem, no entanto, terem em mente qualquer projecto de Roma reconstru√≠da a partir dos escombros. Talvez o fasc√≠nio pelo fogo fosse uma doen√ßa transmitida aleatoriamente por cont√°gio. Pelo olhar, sobretudo, tal como a cegueira ensaiada por Jos√© Saramago no seu livro, que, se n√£o acabasse t√£o cedo, a breve trecho levaria a um canibalismo desenfreado de todas as personagens. E, com a sa√ļde mental a degradar-se de dia para dia, segundo diziam os especialistas, agora seriam principalmente pessoas perturbadas, do sexo masculino a maioria, os vulcanos da terra, em estrito conluio com o esplendor do sol de ver√£o. Sobretudo durante a noite, a hora do ex√≠lio do grande astro-rei. O que definia ent√£o o incendi√°rio era uma quest√£o de teor sexual, que o tornava num frustrado para quem o fogo seria um estimulante capaz de o fazer sentir-se um actor de cinema escondido atr√°s da cabe√ßa de um f√≥sforo, e a quem bastava o facto de s√≥ ele poder reconhecer-se na tela como o grande protagonista da trama. Uma coisa semelhante √† emo√ß√£o do jogador, afogado por emo√ß√Ķes no rio das moedas a saltarem em catarata no prato ao som de um jackpot originado por uma combina√ß√£o feliz de tr√™s s√≠mbolos iguais nas slots machines de um casino numa cidade sat√©lite. E, a um frustrado sexual, um in√°bil com as mulheres, nenhuma lhe poderia atribuir import√Ęncia como a import√Ęncia desencadeada pela chama de um isqueiro propagando labaredas num peda√ßo de mato ressequido pela can√≠cula. Por outro lado, as Teorias da Conspira√ß√£o tinham cada vez mais adeptos. Braseiro nacional do estio era sistem√°tico e concertado. De uma banda, estariam os patr√Ķes do fogo, da outra, os servos, gente capaz de vender a m√£e em leil√£o e de se tornar incendi√°ria se tivesse um bom motivo para ficar √≥rf√£o. Sobretudo se lhe fosse acenado com um ma√ßo de notas. Notas mudas como o pobre Litos na hora de prestar testemunho, que n√£o conseguira salvar Manolito por n√£o saber falar e ficar talvez gago no seu mutismo enquanto assistia √† morte do irm√£o dentro da carrinha. Assim andava o mundo da escassez, com demasiadas pessoas sem um c√™ntimo para comprar um p√£o no cen√°rio quase obsceno dos hipermercados a abarrotar de coisas. Sup√©rfluas, muitas das vezes. O que colocava o mais pacato cidad√£o como um pir√≥mano em pot√™ncia, um servidor e escravo simult√Ęneo da causa que tinha o dinheiro como estandarte. Num jogo de suposi√ß√Ķes, talvez tamb√©m de intrigas entre os madeireiros, os donos dos avi√Ķes de combate ao fogo e outros interesses colaterais relacionados com o mesmo. As imputa√ß√Ķes de culpa encaixavam-se umas nas outras como finas cascas de cebola sobrepostas e de f√°cil decomposi√ß√£o nos meandros da justi√ßa e na sua procura de provas concludentes. Contudo, de prova dif√≠cil. E a maior e mais abrangente pel√≠cula, a que acobertava todas as outras, eram as decis√Ķes pol√≠ticas de h√° anos, que se haviam imposto como uma necessidade irremov√≠vel para a vida das pobres √°rvores, mas onde cada vez havia mais e mais mortes. ‚ÄúA √©poca do fogo come√ßa dia tantos de m√™s tal, Os contratos para apagar os fogos foram feitos com a empresa Y (que tem de viver, coitadinha e ter lucros como empresa que √©), As fardas dos bombeiros t√™m de ser comprados a Z, etc.‚ÄĚ Contudo, depois de tanta √°rea ardida desde ent√£o, a necessidade de outrora passara a ser vista como o maior inimigo da floresta, o C√£o em pessoa, um ser omnipresente como Deus e capaz de lan√ßar do c√©u mechas incendi√°rias que raramente deixariam de cumprir a sua miss√£o. √Äs vezes isso acontecia. Mas, mesmo se algu√©m as encontrasse e se dispusesse a ir entregar a refract√°ria assassina de florestas a uma esquadra de pol√≠cia, l√° dentro ouviria palavras de fatalidade, juntas, em √ļltima an√°lise, √†s in√ļmeras participa√ß√Ķes de fogo cujo destino seria o arquivamento por falta de provas. A menos que houvesse um agente da autoridade para investigar os milhares de queixas que, antes das catacumbas de um arquivo morto, transitavam de ano para ano, transformando as secret√°rias dos investigadores em po√ßos sem fundo mas sem √°gua para se apagar tanto fogo.
          Agora ele a√≠ estava. Eclodira por todo o lado como se se tratasse de um concerto em execu√ß√£o cont√≠nua e progressiva. N√£o era dif√≠cil imaginar a batuta de um maestro, √† frente da orquestra, a dar indica√ß√Ķes precisas a cada um dos executantes para o espect√°culo das labaredas. Nomeadamente quanto ao tempo de entrada dos f√≥sforos e dos isqueiros em cena. E, no meio de tudo, mas n√£o necessariamente por esta ordem, a falta de ordenamento do territ√≥rio florestal, a inc√ļria dos propriet√°rios na limpeza das matas, incluindo as do pr√≥prio Estado, seriam outras tantas causas a apontar para as sucessivas trag√©dias, com uns a acusarem os outros e uns e outros a sacudirem a √°gua do capote melindrados com tantos pingos que lhes chegavam. Ou porque a culpa era da falta de preven√ß√£o, ou porque era a repress√£o que falhava redondamente. E, no fim de tudo, era como se a causa da floresta fosse esgrimida da pior maneira pelos partidos pol√≠ticos, sobretudo da oposi√ß√£o, a fim de levar o governo √† derrota nas elei√ß√Ķes seguintes.
           Esquartejando argumentos uns atr√°s dos outros, havia muita gente a querer ver os incendi√°rios incinerados numa pira de lenha, num pa√≠s com os bolsos cheios de isqueiros obedientes √†s m√£os dos seus donos, fumadores e pir√≥manos simultaneamente. Tudo compulsado, redundaria na necessidade de cada cidad√£o ser um pol√≠cia, se n√£o de si pr√≥prio, pelo menos do vizinho mais pr√≥ximo.

      
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« Responder #44 em: Maio 07, 2020, 18:22:16 »

Há sempre quem brinque como o fogo…
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Ol√° para todos!
Março 19, 2020, 22:59:05
Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
Fevereiro 18, 2020, 18:50:53
Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
Fevereiro 18, 2020, 18:41:32
Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
Janeiro 29, 2020, 20:06:36
Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
Dezembro 01, 2019, 19:51:29
Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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