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Autor Tópico: O rapaz do isqueiro assassino (Romance)  (Lida 6235 vezes)
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #45 em: Maio 07, 2020, 22:02:08 »

                                                                             XXVII

          Domingos, no pequeno anfiteatro com o amigo, vivia a ansiedade e revolta pr√≥pria das pessoas indignadas pela injusti√ßa de que o mundo sempre fora pr√≥digo. Era um daqueles espectadores que n√£o conseguem ficar indiferentes a uma trag√©dia, mesmo em fic√ß√£o. E, aqueles tr√™s cad√°veres da trama, √† espera do carro da pol√≠cia a fim de serem depois esquartejados uma mesa de aut√≥psia, e para quem a pressa j√° nada significava,  haviam tido demasiada influ√™ncia nas suas emo√ß√Ķes. Mal percebera que as labaredas tinham engolido Manolito, a pobre Rosa e o neto, come√ßara a arrepelar-se e a sacudir com frequ√™ncia a cabe√ßa, como se esta lhe ardesse por dentro e por fora e estivesse ele pr√≥prio a ser devorado pelas chamas. Remexia-se na cadeira, acolchoada, segundo parecia, a bichos-carpinteiros capazes de lhe influenciarem os mais pequenos movimentos. Domingos aparentava ser um daqueles cin√©filos que se colocam na pele das personagens, indo talvez, nesse cal√ßar de sapatos, ao descalabro psicol√≥gico de sentir a dor do outro por auto-sugest√£o. Desde logo, imaginando-se na pira onde o povo da aldeia, naqueles momentos de raiva, gostaria certamente de ver Telmo, se soubesse que tinha sido ele a atear o fogo ao acampamento por causa de um m√≠sero grama de coca√≠na que In√°cio se recusara a vender-lhe fiado.
          Fausto, percebendo a como√ß√£o do amigo, perguntou-lhe:
          -Queres que p√°re o filme?
          -N√£o. Estou com curiosidade de saber o que vai acontecer daqui para a frente. Ainda h√° dois casamentos marcados e tr√™s funerais, que ningu√©m sabe quando poder√£o ser feitos. Este filme √© uma verdadeira trag√©dia. Podias ter escolhido uma hist√≥ria de amor ‚Äď disse sorrindo para disfar√ßar. Sobretudo para descontrair.
           -√Č para tu veres o que um simples isqueiro pode provocar. Al√©m das vidas perdidas, j√° deve haver uns milhares de euros de preju√≠zo s√≥ em madeiras. Muita daquela gente vivia da floresta. E agora, em vez do dinheiro, de que comeriam um ano inteiro, s√≥ t√™m √°rvores mortas de p√© como fantasmas e tudo em cinza.
           -Ser√° que o avi√°rio tamb√©m ardeu?
          -N√£o sei. Pode ser que tenha acontecido um milagre que haja poupado a vida dos frangos e das galinhas. √Äs vezes os santos capricham em surpresas ‚Äď acrescentou Fausto enquanto soltava uma gargalhada, secundada por Domingos no meio da sua ansiedade. Estava cheio de sede.
           -O que √© que tu pensas do que se diz quanto √†s causas dos inc√™ndios?
           -Neste caso, por op√ß√£o  do argumentista, sabemos que a motiva√ß√£o do Telmo foi um puro acto de vingan√ßa contra o cigano, tendo como impulsionador principal Marisa, a ex-namorada, num caso t√≠pico de frustra√ß√£o e inveja. Mas todos t√™m raz√£o. H√° muitos interesses econ√≥micos que se movimentam bem no meio das labaredas. A mecha incendi√°ria √© uma realidade. Digo-to eu, que um dia encontrei uma numa mata dos arredores do Porto.
          O banqueiro Mateus Rosa e a mulher, que j√° antes haviam assistido a uma pequena tira de filme, andavam por ali de novo, indecisos quanto ao retomarem ou n√£o lugar na assist√™ncia. Fausto, ao v√™-los, e antes de eles se aproximarem mais, disse para Domingos, com alguma dissimula√ß√£o a fim de n√£o ser ouvido pelos visados:
          -Aqui tens uma boa hist√≥ria protagonizada por estes dois‚ĶN√£o s√£o bem de amor, mas d√° para desenrascar‚Ķ
          -Ent√£o deve ser de sexo‚Ķ
           -E de dinheiro. Sendo ele banqueiro, dinheiro √© o que n√£o falta. Quando chegaram, ficaram os dois em quartos separados. Mas agora ela passa a vida metida na cama dele, e ent√£o tudo l√° dentro range e geme. Incluindo eles‚Ķ - disse com ironia e um sorriso, resguardado por uma m√£o discreta como se fosse um biombo japon√™s.
            -Com pagamento no fim, ent√£o‚Ķ
           -Claro. N√£o sendo eu, enquanto hoteleiro, nenhum santo quando se trata do pagamento de impostos, os banqueiros levam a Palma de Ouro de Cannes e todos os √ďscares de Hollywood. Pagam um rio de massa aos amigos, que subornam s√≥ para n√£o pagarem ao fisco. Desde logo, segundo o que se diz por a√≠ √† boca pequena, na Assembleia da Rep√ļblica, onde se fazem leis √† medida. Depois sobra-lhes imenso pilim para tudo e mais alguma coisa. Inclusive para adornarem as mulheres de j√≥ias e de raposas. As pr√≥prias e as outras. √Č claro que ficam todos presos na mesma teia. Mas isso n√£o lhes causa mossa nenhuma. Salvo uns pequenos entorses que o tempo varre logo da mem√≥ria. Uns seguram os outros como pensos r√°pidos e sempre dispon√≠veis. At√© algu√©m pegar fogo √† casa. Mesmo assim, n√£o lhes acontece nada. S√≥ se for no Inferno - e riu dissimuladamente.  
           -O que tu sabes Fausto. √Čs uma aut√™ntica enciclop√©dia dos costumes ‚Äď observou Domingos, rindo de igual modo, enquanto despegava por momentos os olhos da tela, onde as labaredas eram mais resistes do que o sol, que mal iluminando a terra, tinha sido capaz de se encolher sobre si como um novelo ao mais pequeno sinal de fumo.
            -Nunca ouviste dizer que o Diabo sabe muito porque √© velho? ‚Äď pergunta Fausto, com um mais ou menos velhaco  brilho nos olhos.
          -J√°, claro que ouvi.
          -Ora ent√£o‚Ķ
           Mateus Rosa aproximou-se. Fausto, para dar algum descanso √† sensibilidade e √† osmose cinematogr√°fica do amigo, estendeu o sensor do comando para o enorme televisor, parando por momentos o filme. At√© Domingos ganhar um novo f√īlego que lhe permitisse ver o final sem desmaios. E, com alguns trejeitos de politicamente correcto, convidou os dois h√≥spedes a assistir ao resto do filme. No fim, talvez tamb√©m a uma mesa redonda que uma pel√≠cula t√£o pol√©mica seria bem capaz de desencadear. O enredo estaria agora no auge. Pela frente haveria mais ou menos uma hora. O tempo suficiente para, ao ritmo da cinematografia, serem celebrados dois casamentos e tr√™s funerais, entre outros eventos dignos de figurar na hist√≥ria de ‚ÄúO Rapaz do Isqueiro Assassino‚ÄĚ. Al√©m de que a pol√≠cia ainda tinha de descobrir que Telmo havia sido o anti-her√≥i da noite, algu√©m que, num Western americano de John Ford ou de Clint Eastwood, ficaria desde essa hora com a cabe√ßa a pr√©mio.
           Depois de os dois novos espectadores se juntarem √† sess√£o, sentando-se no anfiteatro como dois n√ļmeros primos, a mulher do lado esquerdo de Fausto, este introduz a quest√£o aparentando neutralidade. Um mero Advogado do Diabo, destinado a p√īr √† prova a consist√™ncia das testemunhas e de qualquer outro g√©nero de prova:
            -O filme chama-se ‚ÄúO rapaz do Isqueiro Assassino‚ÄĚ ‚Äď disse virando-se para  a ponta esquerda da fila, para Mateus Rosa -. Trata-se de um jovem que, de noite, deitou fogo a um acampamento de ciganos, onde morreu uma crian√ßa de quatro anos. A seguir, o braseiro alastrou at√© uma aldeia e, depois de deixar um rasto de destrui√ß√£o, matou ainda uma idosa e o neto. A prioridade, de momento, √© encaminhar os tr√™s corpos para a morgue. Entretanto, anda toda a gente empenhada em tentar saber quem ou qual  foi o rastilho da trag√©dia, o nome de baptismo e o n√ļmero dos sapatos. Com o pa√≠s a arder, os pol√≠ticos e toda a gente com responsabilidades acusam-se uns aos outros, sem saberem o que fazer para combater e evitar tanto inc√™ndio. Agora, o que est√° em discuss√£o s√£o os chamados interesses econ√≥micos escondidos atr√°s dos fogos. Qual √© a sua opini√£o sobre o assunto, caro Mateus Rosa?
            -√Č bem poss√≠vel que os haja ‚Äď diz o homem, inclinado para a frente de modo a poder a ver o rosto do hoteleiro, igualmente inclinado e colocando-se na mira um do outro.
            Tratava-se de um sujeito magro, ainda com bastante cabelo, nariz afiado, boca fina, de cerca de setenta anos. Tinha, al√©m de tudo, um ar de leopardo astuto e controlador. A sua rela√ß√£o com o dinheiro era de chefe de matilha velho, j√° quase incapaz de comer a presa em consequ√™ncia de doen√ßa cr√≥nica, mas, mesmo assim, abocanhando-a s√≥ pelo prazer de manter os elementos sob as suas velhas patas. A mulher parecia uma abrilhantadora de festas privativas, daquelas que despiriam o rei deixando-o nu como viera ao mundo no meio de uma teia de chantagem. Nu e sem dinheiro. Ou, pelo menos, aparentemente sem dinheiro, depois de este se ter escapulido sem rasto, como rezaria qualquer hist√≥ria secreta  do mundo financeiro, em qualquer parte do globo onde a peste financeira tivesse atacado a economia. A loura, sua companheira de h√° alguns dias, teria os seus trinta e cinco anos e ar de rapariga de revista que vende moda em an√ļncios. De olhos verdes, alta e atraente, o sorriso exagerado, a maior parte das vezes teatral, era o seu porta-estandarte. De qualquer modo, bem diferente do felino com quem dormia no hotel, parecia dedicar-se menos a tecer opini√Ķes do que a fazer contas a milh√Ķes, naquela sua sociedade com um banqueiro velho e agora com pouco prest√≠gio, mas a quem esperava, apesar disso, rapar mais um pouco a panela.
            E, assim, o homem continuou:  
            -Ali√°s, eu acredito que os haja. O poder pol√≠tico, comparado com o poder do dinheiro, √© um an√£ozinho nas m√£os de um gigante. Um an√£ozinho que n√£o tem, nem a seriedade, nem a destreza do b√≠blico David. Assim, haver√° com certeza uma s√©rie de Golias a tentar enganar a fisga, em que  j√° nem sequer deve haver pedrinha. Os grupos econ√≥micos t√™m uma for√ßa terr√≠vel. Por isso se unem para formar uma barreira que nem a dinamite destr√≥i.
           -O que acaba de dizer, vindo de um banqueiro, √© de levar em conta‚Ķ
            -Claro que sim. Desde que o mundo √© mundo, um sempre cedeu ao outro. A pol√≠tica n√£o passa de uma mulher da m√° vida que se deita ao menor pretexto debaixo do dinheiro.
          -Prostitui√ß√£o, ent√£o.
           -Cong√©nita. E v√≠rus, que se reproduz √† for√ßa do h√°bito e de imita√ß√£o. Ningu√©m quer ficar atr√°s de ningu√©m, a ver o espect√°culo da riqueza passar-lhes √† frente. Da√≠ que fervilhem, numa cabe√ßa mais do eu na outra, formas engenhosas de chegar a ela. Enquanto o dinheiro for a roda do mundo nada mudar√° ‚Äď acrescenta o homem, como se estivesse a filosofar perante uma plateia de economistas com uma boa dose de idealismo que pretendesse deitar por terra.
           -E a senhora pensa o qu√™ disto? ‚Äď perguntou Fausto √† mulher, a seu lado.
          -A Rita n√£o tem opini√£o formada sobre assuntos t√£o complexos ‚Äď soltou um risinho mel√≠fluo, que colocava a amiga no mesmo colch√£o ensebado onde a pol√≠tica faria as suas orgias. E ela, sorridente, engoliu em seco, enquanto faria provavelmente contas ao que aquela sociedade entre uma mulher jovem e bonita e um banqueiro, com idade para ser seu pai, quase av√ī, a iria ainda fazer lucrar. Al√©m de tudo, tendo a cama como escrit√≥rio.
          -Desculpe. A senhora estava t√£o calada‚Ķ S√≥ quis faz√™-la participar na conversa‚Ķ
          -N√£o faz mal - respondeu ela com um sorriso que dizia quase tudo.
          Entretanto, Mateus Rosa continuava:
          -Os capitalistas sempre ajustaram os seus argumentos de forma a eles caberem na ideia de que o grande motor da economia era o capital de per si. Sem eles, n√£o haveria emprego, nem empreendimento, nem progresso. Contudo, sempre foram uns privilegiados. S√£o tratados como flores de cheiro pelo fisco. Este n√£o se arrisca nem sequer √† sua chantagem. Quanto ao emprego, √© o que se sabe. Sempre, at√© hoje, pagaram ordenados de fome. Cada vez mais. Se o Estado estiver atido aos capitalistas para a cria√ß√£o de emprego, bem lhes pode tributar at√© os dentes, indo al√©m do tutano. Dali n√£o escorreram grandes pingas de riqueza para o pa√≠s. √Č s√≥ pegar nos pap√©is dos para√≠sos fiscais para se perceber o que acabo de dizer.
          -Tu l√° saber√°s do que falas ‚Äď pensou Domingos, que, sentado √† direita do amigo como um deus falido, olhou a seguir a rapariga, sentada por sua vez do lado esquerdo de Fausto com uma mini-saia generosa. Um chorrilho de pensamentos sobre ela atravancou-lhe a mente em desordem e sem qualquer romantismo: ‚ÄúMal empregada num velho, Nunca se sabe se hoje n√£o vais dormir na suite n√ļmero quarto do chal√©, Comigo, √Čs melhor do que a Orlanda, a esfaqueadora, Quem me dera que Fausto e este banqueiro sabido fossem discutir a pol√≠tica dos inc√™ndios e a do dinheiro para outro lado, Para o penhasco, A√≠ n√£o seriam incomodados por ningu√©m, Talvez s√≥ n√£o se livrassem dos guinchos dos morcegos a amedrontar a pr√≥pria noite, Aquilo agora deve ser um Inferno, Se calhar tamb√©m l√° h√° vampiros, que s√£o da mesma fam√≠lia dos morcegos, S√≥ que os vampiros chupam sangue‚ÄĚ. ‚Äď E levou a m√£o ao pesco√ßo.
          -Antes de continuarmos, talvez possamos tomar uma bebida. Por conta do hotel ‚Äď ofereceu Fausto.
          E o barman, a seguir, serviu um whisky gelado a cada um. Se muito bem calhasse, assim o drama da tela, suavizado a pequenos goles de √°lcool a escorrerem por gargantas sequiosas, deixaria de ter, da√≠ para a frente e at√© ao final, em Domingos o efeito osmose que o rapaz havia experimentado ao imaginar o sofrimento de tr√™s pessoas reduzidas a cad√°ver pelas labaredas da aldeia do Eito.

Continua
« Última modificação: Maio 24, 2020, 22:28:08 por Maria Gabriela de S√° » Registado

Dizem de mim que talvez valha a pena conhecer-me.
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« Responder #46 em: Maio 12, 2020, 12:42:03 »

O que é uma mini saia generosa? De pano ou de falta dele?
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #47 em: Maio 12, 2020, 14:30:34 »

Uma mini saia generosa é a que mostra muito e com muita generosidade.

E agora a continuação

                                                                                27

          Desde que fora dado alarme de inc√™ndio, a noite, embora nada tivesse de tranquila, ainda assim, levou a maioria dos membros da fam√≠lia de Telmo a pensar que o fogo teria uma muito remota hip√≥tese de lhes abocanhar os calcanhares. Talvez, com o firme prop√≥sito de os poupar, as labaredas metessem o p√© unicamente pelo caminho de terceiros, mais √† m√£o na rota do inimigo. Da√≠ terem feito os poss√≠veis por conciliar e se reconciliar com o sono. Sobretudo nos intervalos dos gritos, intensificados mal C√°rmen e In√°cio se aperceberam de que Manolito n√£o viera com eles na carrinha. Luciano e S√©rgio haviam chegado da festa da Barrinha, s√£os e salvos alta madrugada, contornando, no seu cavalo de rodas, as l√≠nguas de fogo que arqueavam as v√°rias estradas por onde tiveram de passar. Nessa altura, j√° os pobres ciganos estavam acantonados na pra√ßa da igreja, no meio de uma desola√ß√£o ampliada com o passar do tempo como nevoeiro esvoa√ßante numa manh√£ de inverno. Contudo, ao chegarem onde haviam desaguado os pobres ciganos, os rapazes, depois de perceberem que pouco poderiam fazer, montaram as suas motas e foram para casa a fim de fazerem o que j√° precisavam h√° muito, descansar. Guardaram a seguir os ve√≠culos na garagem. E, j√° na cama,  n√£o demorou mais do que um bocejo at√© os dois estudantes pr√©-universit√°rios ca√≠rem de maduros no sono, dois tordos mortos pelo tiro de uma espingarda certeira ap√≥s um dia festivo √† beira-mar.
           No largo, algumas pessoas, sem o saberem ainda,  eram for√ßadas a comer de um  banquete de crimes,  servido pelo irm√£o a uma aldeia em peso, mais venenoso do que um prato de salmonelas.
          Paula, a irm√£, chegara antes da meia-noite, com o namorado que a fizera apear de uma mota semelhante √† dos irm√£os e da maioria dos rapazes da terra. Estava de f√©rias da Universidade da Beira Interior, onde passara os √ļltimos dois anos. Desde o seu ingresso no curso de Qu√≠mica Medicinal, a√≠ se esfor√ßava por merecer uma Bolsa de Estudo, ricocheteando para o Estado, que lha atribu√≠ra cada vez mais magra, um bom aproveitamento, conseguido a um meticuloso queimar de pestanas di√°rio. E com isso deixava os pais contentes, depois do desembolsar destes, em cada ano, de mais alguns euros, para um dia, talvez n√£o muito distante, verem a filha abalar para o estrangeiro com um canudo na algibeira recheado de boas notas e as melhores recomenda√ß√Ķes para com os destinat√°rios da ci√™ncia da rapariga e uma nota positiva para Portugal que a formara na universidade. Talvez por isso, j√° aguardar o destino fora de portas, Paula n√£o se tivesse aventurado a sair de casa. Assustara-se s√≥ com o olhar ao longe, atrav√©s das janelas, as chamas que o mesmo  longe lhe devolveu com a vaga promessa de nunca se atreverem a bater-lhes √† porta.
          O pai, Abel, apesar de gozar as f√©rias da f√°brica de motas, a seguir ao primeiro toque de sino que o impulsionou com Susete cama fora at√© √† pra√ßa, regressou  tamb√©m a casa na mesma companhia com que sa√≠ra dela, a mulher. Da√≠ a nada, tal como se estivesse a cumprir o hor√°rio laboral do resto do ano, teria de a levar at√© √† empresa de lactic√≠nios, √† sec√ß√£o de encomendas, que ela preparava para a expedi√ß√£o no ambiente frio dos produtos. Era uma rotina de h√° mais de vinte anos. As duas empresas ficavam no encal√ßo uma da outra. Eram boas vizinhas que n√£o tinham raz√Ķes para temer a concorr√™ncia. Susete n√£o conseguira encaixar o tempo das suas f√©rias na moldura temporal que fora imposta ao marido. O √ļnico per√≠odo em que havia coincid√™ncia, oito dias, seria da√≠ a pouco mais de uma semana, por alturas das festas da aldeia e do concelho, quando os emigrantes estivessem prestes a abalar e o ver√£o desse o primeiro sinal de aproxima√ß√£o do outono.
          Susete teria, naquela segunda-feira de Agosto, uma encomenda espec√≠fica para satisfazer. Era o levantamento no multibanco mais pr√≥ximo dos quarenta euros de que o filho mais velho precisava para se ver livre de um empr√©stimo. Provavelmente agiota como a maioria dos empr√©stimos a que o filho recorreria. O rapaz teria devolver o dinheiro ao amigo, depois do furto que o pobrezinho sofrera na festa da Barrinha, num domingo √† tarde em que o feiti√ßo se virara contra o feiticeiro. Pelo menos fora isso que ele lhe disse e ela acreditara, ou fingira acreditar.
           Passava um bocado das oito horas da manh√£. Apesar de terem dormido pouco, os dois rapazes mais novos, mal sentiram as sirenes dos bombeiros a cortar o fio do ar embaciado, chisparam da cama at√© √† pra√ßa, obrigando-se a ajudar no combate ao inimigo como dois bons cidad√£os. A√≠ se inteiraram dos pormenores da morte de Ana Rosa, Diogo e de Manolito, experimentando o mesmo sentimento de pesar que descera sobre todos como uma l√°pide f√ļnebre. Seguiram depois para o local da peleja, vestidos o mais adequadamente poss√≠vel e segundo elementares normas de seguran√ßa: cal√ßas e camisa de ganga, de manga comprida, sapatilhas, um gorro de asas na cabe√ßa e uns velhos √≥culos de sol para servirem de barreira a fagulhas que andassem por ali a dan√ßar em mais um baile negro.

                                                                                                        28

           J√° na urg√™ncia do Hospital Infante D. Pedro, identificado √† entrada por letras garrafais, o movimento era desusado para uma segunda-feira √†quela hora da manh√£.
          O tempo apresentava-se relativamente convidativo a uma ida √† praia da Barra, ou da Costa Nova. O sol, embora se projectasse l√° de cima sem ter √† frente uma barreira intranspon√≠vel de invernosas nuvens, encontrava-se, apesar disso, impedido de brilhar em todo o seu esplendor. Em baixo, a terra amochava sob um terr√≠vel manto fumado que a impedia, a ela de ver o sol e ao sol de a ver a ela. Pelo menos com nitidez. E o fumo era, afinal, a causa de tanta aflu√™ncia aos servi√ßos hospitalares dessa manh√£ intoxicante. Sobretudo de doentes asm√°ticos e insuficientes cr√≥nicos, impedidos de respirarem um ar minimamente saud√°vel que os protocolos param as mudan√ßas clim√°ticas e a respectiva ratifica√ß√£o pelos pa√≠ses iam aconselhando. Num crescendo de doen√ßas al√©rgicas nos √ļltimos tempos, quem j√° havia sofrido a sua dose anual de agress√£o  dos p√≥lenes via-se de novo confrontado com mais um ataque. T√£o ou mais grave do que o primeiro. Mas, desta vez, em lugar de serem desencadeadas pela natureza irreverente das flores e do ciclo das esta√ß√Ķes, as invasivas tinham origem na grande praga dos Ver√Ķes de todos os anos, desde h√° mais de trinta. Depois de uma semana a fustigar a terra com prot√Ķes e neutr√Ķes envenenados, era rara a garganta que n√£o estivesse assoreada com o mort√≠fero g√°s. E era por isso que n√£o se via na urg√™ncia o rasto de um acidente rodovi√°rio, uma maca com algu√©m entubado despejado √† entrada e enviado a grande velocidade com o c√≥digo vermelho, entre a vida e a morte, para uma sala de opera√ß√Ķes. Em vez disso, a aguardar as m√£os miraculosas de um m√©dico e de um rem√©dio salvador, o que se mais se ouvia na sala de espera era uma orquestra de tocadores de trombone  com pulseira amarela, a tossir descontroladamente e com o nariz e a garganta encharcados de geleia negra.
          Dulce de um lado, o vizinho que os transportara ao hospital, de outro, e Leandro no meio, amparado por ambos, mal puseram os p√©s fora do carro, ao dirigirem-se ao guich√© de admiss√Ķes, cruzaram-se com uma dessas pessoas a quem o fumo deixara o corpo como  se fosse uma f√°brica de produtos qu√≠micos de que o enxofre fosse o prot√≥tipo. Era uma mulher de cerca de cinquenta anos, baixinha. Olhando-a de perto, podia-se v√™-la a lacrimejar num pequeno caudal,  constantemente limpo a um len√ßo de papel  j√° bastante molhado. Simultaneamente, uma tosse insistente fazia-lhe dan√ßar os ombros, antes de, num momento de acalmia, engolir o alcatr√£o que lhe arrolhava a garganta e lha deixava completamente encorti√ßada. √Ä frente de Dulce e de Leandro,  na fila, a mulher n√£o hesitou em ceder vez a Leandro, cujo caso lhe pareceu bem mais urgente do que a sua pr√≥pria  garganta entupida pelo fumo. Com um p√© descal√ßo, no ar, acima do qual a perna esquerda, ap√≥s lhe ter sido cortada a cal√ßa pelo joelho, mostrava uma queimadura com mau aspecto, n√£o poderia fazer outra coisa sen√£o deixar o pobre do homem passar √† frente. Aquela era uma verdadeira urg√™ncia. Uma das que n√£o se satisfariam com o som mais √°tono de ‚ÄúCentro de Sa√ļde‚ÄĚ. A palavra ‚ÄúHospital‚ÄĚ soava, naquelas circunst√Ęncias, muito mais operadora de verdadeiros milagres como o que aquele paciente precisaria. Nem sempre poss√≠veis, √© certo, mas mais espect√°veis do que numa casa confund√≠vel com outras casas no mesmo bairro. Para a carne viva da ferida ser tratada, o homem precisava mesmo do Hospital Infante D. Pedro e de todo do seu equipamento. Recursos humanos sobretudo, com um bom m√©dico de queimados a fim de fazer, talvez, um remendo na les√£o antes de a untar com uma boa pomada cicatrizante e carregada de antibi√≥ticos.
          Enquanto Leandro era levado numa maca, Dulce, logo a seguir, teve acesso √†s das coordenadas pessoais da outra mulher, ao mesmo tempo que esta indicava os dados  para o preenchimento da ficha de inscri√ß√£o. Chamava-se Sandra e tinha um atelier de costura onde fazia arranjos de toda a esp√©cie. Contou-lhe praticamente  toda a sua vida, enquanto falava das mazelas respirat√≥rias depois de uma opera√ß√£o √† tir√≥ide que a deixara uma esponja perme√°vel a toda a legi√£o dos p√≥lenes naquela  latitude em que vivia, Aveiro.
          Dulce tentara  entrar com Leandro, mas foi impedida pelo seguran√ßa. Assim,  teve de o deixar ir sem qualquer retaguarda. Psicol√≥gica sobretudo. E, antes de Sandra sumir na porta para ser atendida do lado de l√°, com vest√≠gios de l√°grimas que ainda n√£o conseguira estancar desde que a trag√©dia  da manh√£ fora conhecida, Dulce pediu-lhe para, no m√≠nimo, alertar algu√©m caso o marido se fosse abaixo por causa de  qualquer uma das esp√©cies de dor que levava consigo.
          -Hoje j√° sofreu demais, coitado ‚Äď acrescentou, chorosa -. A m√£e morreu-lhe nos bra√ßos, queimada num maldito inc√™ndio. Um sobrinho, de cinco anos, teve a mesma sorte. Al√©m de um ciganito a quem aconteceu o mesmo no acampamento que se v√™ da linha do comboio e onde ter√° come√ßado o fogo.
           -Ah, Meu Deus, sinto muito. Os ciganos bem poderiam ter tido mais cuidados. O ano vai uma calamidade, muito seco e quente.
           -Pelo visto n√£o foram eles a atear o fogo. Tamb√©m ser√£o v√≠timas.
           -Pois, quando assim √©, toda a gente acaba por sofrer. Tenho um sobrinho que √© bombeiro volunt√°rio, o Miguel, e este ano n√£o tem tido sossego. O rapaz tem o casamento marcado para este s√°bado e praticamente h√° tr√™s dias que n√£o vai √† cama.
           -Coitado. V√™em-se bombeiros exaustos por todo o lado. O inferno parece mesmo ter descido √† terra com o prop√≥sito de ficar c√° para sempre.
           -Esteja descansada. Nem que tenha de ligar √† minha filha a perguntar-lhe o nome de uma m√©dica, m√£e de uma colega com quem estudou ingl√™s, n√£o vou abandonar o seu marido. Ele chama-se Leandro, n√£o √©?
           -√Č sim. Leandro Sousa. Eu sou Dulce. Muito obrigada. Somos emigrantes. Viemos de f√©rias. Tamb√©m √≠amos casar a nossa filha mais velha no pr√≥ximo fim-de-semana ‚Äď e as l√°grimas saltaram-lhe de novo dos olhos, enquanto Sandra demorava a entrar para n√£o deixar a outra sozinha a esvair-se em pranto sem um palavra de conforto antes de o condutor do carro que os tinha levado ao hospital chegara depois de ter estacionado.
          -O que eu puder fazer, esteja certa de que o farei ‚Äď acrescentou Sandra no meio de mais um ataque de tosse. A atmosfera ficava cada vez mais pesada, e as suas part√≠culas viajavam por todo o lado dissimuladas como min√ļsculos drones numa guerra de propor√ß√Ķes at√≥micas.
          Quando, finalmente, a mulher transp√īs a porta e se perdeu no pequeno labirinto da urg√™ncia, verificou que Leandro n√£o se encontrava na sala  e que, provavelmente, j√° estaria a ser atendido.
          ‚ÄúAinda bem, pensou, Que desgra√ßa‚ÄĚ, Aquilo tinha mau aspecto, O azar bateu-lhes √† porta com m√£o de ferro, Se fosse eu cancelava o casamento, Mas j√° devem ter feito a despesa toda, Como poderiam os noivos ter um dia de festa na data da missa do s√©timo dia, N√£o queria estar na pele deles, E a pobre crian√ßa, Ou melhor, as duas crian√ßas, Se bem que √†s vezes os ciganos se morressem n√£o faziam falta nenhuma, Bem me lembro do dia do casamento do meu primo Jorge, quando dei boleia a um cigano que depois vim a descobrir que era traficante, O perigo que eu corri se lhe desse para me meter apontar uma arma √† cabe√ßa e adeus, Mas, coitados, Coragem a todos para enfrentar os dias negros que t√™m pela frente, E ao homem, ao Leandro, Deus lhe d√™ sa√ļde, Eu ao menos √© s√≥ um ataque de tosse, Mas pobres dos bombeiros que se fartam de comer fumo, Horas e horas sem dormir, como o Miguel, O que um maldito incendi√°rio pode causar, O Diabo o castigue na mesma medida, N√£o sou de rogar pragas, mas bem que este merecia ir para o Inferno no meio de labaredas como as que ateou, Que morram todos aqueles que se dedicam a fazer uma barbaridade como esta que me trouxe aqui com tosse e falta de ar como se fosse morrer a seguir‚ÄĚ.
« Última modificação: Maio 24, 2020, 22:30:14 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #48 em: Maio 12, 2020, 15:01:37 »

Boa continuação. Obrigada pela resposta rsrsrs
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #49 em: Maio 14, 2020, 14:04:56 »

 Continua√ß√£o...
                                                                        XXVIII
          -Outra praga de uma mulher, Domingos! ‚Äď faz notar Fausto ao espectador do seu lado direito, como se quisesse avivar-lhe a ideia para uma esp√©cie de corrente de inten√ß√Ķes menos boas, e bem capazes de encher o Inferno de pessoas  atrav√©s delas.
           -√Č verdade. Daqui a pouco passa a ser como uma ora√ß√£o dita a milhares de vozes. Dizem que as preces em conjunto t√™m mais for√ßa. E, como Telmo tem uma aldeia inteira a rogar-lhe na pele, por este andar, uma fagulha ainda se lhe infiltra no capacete da mota fazendo-o entrar em combust√£o como uma boneca de cera a pingar l√°grimas por todos os poros. Bem o merecia! J√° causou danos que cheguem!
           -S√£o de temer as pragas das mulheres. Um dia conheci uma divorciada que, depois de ter ouvido de um homem uma enormidade, que a reduzia √† condi√ß√£o de prostituta, n√£o precisou de rogar a praga em voz alta para o Diabo a ouvir e fazer o servicinho. Bastou pens√°-la. E eis que, da√≠ a algum tempo, a maldi√ß√£o se cumpriu pelo requinte de um executor bem-mandado e eficiente.
          -E qual foi a praga?
           -‚ÄúHavias de ter uma doen√ßa na l√≠ngua que deixasses de falar‚ÄĚ. Assim lhe  foi encomendado um cancro para lhe amaciar as palavras. Por defeito‚Ķ
          Domingos riu, enquanto ironizava:
          -Que horror! Outro mudo na hist√≥ria?
          -A mulher at√© escrevia poesia. Na√Įf, √† inglesa.
          -O que √© isso?
          -Versos ing√©nuos, pastoris.
          -Mas que rica ingenuidade! Ou, ent√£o, as rela√ß√Ķes dela com o Demo eram fortes. De conselho de ministros para cima!
          Os outros espectadores nem se aperceberam do pequeno di√°logo entre ambos. O filme decorria.

                                                                                   29

          As perguntas feitas pelo Dr. Pedro Alenquer a Leandro, mal dardejou o olhar sobre a carne viva da sua perna, um pouco acima da pala de um sapato, tinham em vista amenizar-lhe, sobretudo psicologicamente, a dor. Uma coisa que s√≥ a palavra de um m√©dico poderia lograr.
          Que sobre a perna, pouco inchada, tinham estado brasas incandescentes por tempo excessivo era inequ√≠voco. Por outro lado, de cara, m√£os e roupas de ganga enfarruscadas, com as cal√ßas mutiladas de pirata pelo joelho, tudo dava a entender que o paciente estivera no cen√°rio pouco amistoso de mais um inc√™ndio.
          -Isto est√° mauzinho. Mas, apesar de tudo, teve sorte. N√£o me parece que os vasos sangu√≠neos tenham sido afectados. E muito menos qualquer nervo. Como √© que fez este baixo-relevo? ‚Äď perguntou o m√©dico depois da primeira boa not√≠cia, numa tentativa de criar  empatia com o quinto doente da manh√£, abatido para l√° do que a ferida o deveria ter deixado apesar de tudo.
          Leandro, at√© a√≠ contido, deitado na maca onde o m√©dico o observava, soltou a barreira das l√°grimas engrossadas pelo sil√™ncio at√© a√≠, rompendo-o num √≠mpeto. E, com palavras entrecortadas por solu√ßos, repetiu o mesmo que Dulce havia dito √† costureira do lado de fora. Entretanto, o pobre homem sentia uma das m√£os do m√©dico no ombro direito, como se este, atrav√©s de um contacto mais estreito, quisesse ministrar-lhe uma injec√ß√£o de coragem semelhante √† que poderia aplicar-lhe para lhe diminuir as dores. Antes de lhe tratar da ferida, tinha de usar a sua faceta mais humana para lhe acalmar o cora√ß√£o. Tinha de reconfortar o paciente, ali na sua solid√£o de hospital que a maca tornava maior, enquanto lhe estendia um peda√ßo de papel para ele limpar o rosto alagado de suor e l√°grimas.
          Depois, prosseguiu:
          -Sinto muito‚Ķ Quem fizesse o mesmo ao bruto incendi√°rio! ‚Äď disse Pedro Alenquer, a meio termo entre o pesaroso e o indignado.
          Era um homem dos seus trinta anos, com a vida pela frente. Talvez n√£o se tivesse ainda detido a pensar na dimens√£o sagrada da morte e no seu mist√©rio para l√° do √ļltimo suspiro, a que ele j√° assistira algumas vezes. Partid√°rio da ci√™ncia pela ci√™ncia, acreditava nela de per si, aut√≥noma, sem o esp√≠rito universal de uma for√ßa divina por de tr√°s das coisas e antes de tudo, uma entidade supra humana capaz de interferir na cura de um homem ou na sua interven√ß√£o para tirar a vida a outro. Quem sabe se, se ele fosse mais velho, por entre o bouquet de palavras com que tentava suavizar a m√°goa de Leandro, n√£o viesse, como um l√≠rio triste perdido entre orqu√≠deas, uma alus√£o, pequena que fosse, √† vontade de Deus e aos seus des√≠gnios superiores para o tr√°gico fim de uma idosa e do seu neto na insensatez de um inc√™ndio provocado deliberadamente. Mas, assim, desprovido desse veludo espiritual e avesso a justifica√ß√Ķes transcendentais para os nonsenses humanos, limitou-se a lamentar o sucedido, acrescentando-lhe o que lhe pareceu mais de acordo com as circunst√Ęncias: o seu rep√ļdio por essas criaturas, a quem a cabe√ßa de um f√≥sforo riscado, ou a chama de um isqueiro, atribu√≠ um poder maquiav√©lico. E, talvez por n√£o se escudarem atr√°s de um Deus, que √†s vezes parecia t√£o injusto, as palavras do m√©dico, naquele momento, tivessem at√© mais for√ßa, com ele elevado agora, na sua fun√ß√£o de curar, √† mesma condi√ß√£o suprema de Deus.
           -Tentei salv√°-los, mas fui tarde demais ‚Äď acrescentou Leandro ‚Äď. A minha m√£e, com a roupa a ser devorada pelas chamas, caiu sobre o neto, o filho da minha irm√£ mais nova, mesmo na boca do fogo. Morreram os dois carbonizados ‚Äď e chorava como uma crian√ßa, ao mesmo tempo que rememorava o sucedido, doloroso em cada evoca√ß√£o como no primeiro instante.
          -Duas pessoas? Meu Deus! Nem imagino o que todos devem estar a sentir ‚Äď replicou o m√©dico, num crescendo indigna√ß√£o -. E n√£o h√° maneira de acabar com esta praga nacional, que se abate todos os anos sobre o pa√≠s com milh√Ķes de preju√≠zos e muitas vidas perdidas. Com uma economia t√£o d√©bil, sem dinheiro para mandar tocar um cego, n√£o admira que toda a gente nos queira p√īr o p√© em cima como se fossemos os sapos da Uni√£o Europeia.
          -N√£o foram s√≥ elas. H√° mais um ciganito morto no acampamento que se v√™ da linha do comboio. Ele foi at√© o primeiro. Ter√° sido l√° que o fogo come√ßou, segundo os ciganos dizem.
          -Que fatalidade. Mas foram eles que o atearam? Com o calor destes √ļltimos tempos, mesmo √† noite, n√£o √© dif√≠cil um descuido tomar propor√ß√Ķes catastr√≥ficas.
          -Segundo dizem, os ciganos n√£o t√™m culpa. Ter√£o sido as suas inimizades a desencade√°-lo‚Ķ
          -Talvez como vingan√ßa‚Ķ√Äs vezes eles metem-se em coisas perigosas e depois acontecem trag√©dias.
          -Mas a minha m√£e e o meu sobrinho √© que n√£o tinham nada que ser apanhadas no fogo cruzado de guerrilhas de neg√≥cios escuros ‚Äď continuava Leandro no meio de l√°grimas, procurando engoli-las para se expressar a seguir com clareza ‚Äď. Tenho duas filhas. A mais velha iria casar c√°, no pr√≥ximo s√°bado. Com isto tudo n√£o sei o que fazer. Ainda n√£o tive tempo de falar com ela. Daqui a pouco tenho de ligar para Fran√ßa. Eles deveriam chegar na quarta-feira, depois de amanh√£. Mas vamos ter que adiar, com certeza. Depois de tudo, n√£o h√° vontade para festas... S√≥ apetece morrer no meio da nossa impot√™ncia‚Ķ E chorava convulsivamente.
           -N√£o pense nisso, meu amigo. T√£o novo ainda, ter√° com certeza ainda muitas coisas pela frente. Os netos ser√£o uma delas. E acho que far√° bem. N√£o deve deixar que o casamento da sua filha fique ligado a um acontecimento desta natureza.
          -Mas o pior s√£o os convidados‚Ķ
          -A sua filha acima de tudo! Ela n√£o deveria gostar que o seu casamento fosse sempre associado a uma trag√©dia assim. Apesar de, de algum modo o ficar. Se fosse eu n√£o quereria v√™-lo assombrado por uma mem√≥ria do g√©nero ‚Äď opinava convicto o m√©dico enquanto prosseguia com min√ļcia o tratamento da ferida, que o fogo deixara na perna do paciente como uma marca que, apesar de n√£o ser muito profunda, seria contudo perp√©tua.
          E, depois de alguns minutos de conforto no meio do tratamento, Leandro estava pronto a regressar ao cen√°rio que deixara para tratar da perna, e que, desde essa manh√£, passara a ser uma esp√©cie de teatro maldito de onde os fantasmas nunca mais sairiam.


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« Responder #50 em: Maio 19, 2020, 12:26:16 »

Perdiz com arroz tamb√©m comia. O meu av√ī que era ca√ßador fazia a maldade de as apanhar. A minha av√≥ fazia a bondade de as cozinhar. E bem. Vamos entrar, o petisco est√° pronto.
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« Responder #51 em: Maio 19, 2020, 14:34:16 »

                                                                                     30

          A velha Madalena, vizinha de Telmo porta com porta, cerca das nove horas da manh√£, estivera na pra√ßa durante mais de meia hora, depois de, ao fundo do quintal, ter dado de comer √†s galinhas e aos coelhos. Algo tr√īpega e amparada √† bengala sua parceira de h√° tempos, fora por diversas vezes ao caf√© de Celeste inteirar-se das √ļltimas desgra√ßas, enquanto derramava uma l√°grima ou outra pela trag√©dia. Ap√≥s o reboli√ßo inicial, de madrugada, andara dentro e fora, √† medida que se iam espalhando as m√°s not√≠cias, as v√≠timas a aumentar enquanto o dia acompanhava o rel√≥gio e se percebia que todos haviam perdido alguma coisa: uma horta, um pomar de macieiras, ou uns pinheiros carregados de pinhas para acender a lareira de inverno.
          Foi quando ela saiu de casa mais uma vez que o dono do Avi√°rio veio at√© ao largo da igreja dar a conhecer a perda de uns milhares de frangos da explora√ß√£o durante a passagem do fogo. E, j√° no interior do caf√©, no meio de uma √°gua fresca com que tentava matar a sede de mais um dia que se adivinhava quente, referiu-se de novo ao assunto. A paleta de cores no exterior continuava a ser composta por ciganos de diversas idades sem eira nem beira, que intercalavam os seus lamentos com algum sil√™ncio.
          -Fiquei sem nada. Quatro pessoas sem trabalho. J√° n√£o tenho idade nem coragem para recome√ßar. Nem eu, nem a minha mulher ‚Äď dizia o dono do avi√°rio para os seus interlocutores, entre o irado e o indiferente -. E o futuro dos meus filhos n√£o passa pelos frangos. Quando pude chegar perto, era um cheiro arrepiante a carne queimada. Um novelo de penas imenso estava sobre si num ti√ß√£o. O cheiro a carv√£o dava cabo da garganta a quem estivesse por perto. Os bichos deviam ter feito um alarido tremendo. Embora tivessem, de certeza morrido, quase todos √† uma.
          -Deixa l√°, Jo√£o. Eram s√≥ umas aves. Est√°s vivo ‚Äď acrescentou a velhota, sentada na mesma mesa onde estava o presidente da junta, com Celeste a fazer de contraponto ‚Äď. Coitado de quem morreu. A pobre Ana Rosa, o neto e o ciganito, para quem n√£o haver√° mais oportunidades. S√≥ se for no outro mundo, que n√£o sei se o h√° ou n√£o, quando este √†s vezes √© um carrasco para n√≥s.
          -√Č verdade ‚Äď concordou Ant√≥nio Pinto, depois de vir, cansado e em c√Ęmara lenta, do lado do fogo, tomar um caf√© e beber umas √°guas redentoras com o mais recente prejudicado pela f√ļria do fogo que se conhecia. ‚Äď Se agora te falta a coragem, h√°-de haver um dia em que deitar√°s m√£os √† obra. √Čs ainda muito novo para a reforma. √Č preciso dar tempo ao tempo, sarar a esperan√ßa ferida enquanto arrefecem as brasas.
          -N√£o, amigos1 ‚Äď respondeu o homem, levando a m√£o √† cabe√ßa, abatido e cabisbaixo pelo cerco que a trag√©dia montara a uma pacata aldeia ‚Äď. A patroa tamb√©m n√£o quer. O que j√° tenho chega. O meu rapaz mais velho j√° est√° arrumado e j√° n√£o regressar√° de Espanha. Para o outro tamb√©m h√°-de chegar.
          -Pois. Por a√≠ tens raz√£o - disse a velha Madalena, na mesa onde os quatro desembainhavam mais uma conversa sobre o assunto do dia, que tantas sequelas deixara √† mostra.
          -O que mais me custa √© n√£o envelhecer rodeado de netos. Nesta terra, os velhos levar√£o para a sepultura a chave das portas onde um dia habitou gente, a quem foi negado um futuro entre os seus. Sendo a minha nora espanhola e estando os dois estabelecidos em Madrid, j√° n√£o voltam.
          -Acredito ‚Äď anuiu o autarca ‚Äď. Dizem que aquilo l√° √© mais civilizado. Pelo menos n√£o arde tanto como aqui. Parece que, deste lado, anda uma quadrilha de malfeitores apostada em incinerar o pa√≠s como se fosse uma casa de bruxas numa  fogueira √† roda de um caldeir√£o.
          -E o mais novo s√≥ lhe falta um ano para acabar Biologia. N√£o tendo aqui futuro, ter√° de ir igualmente para fora.
          -Ainda n√£o o vi por c√° ‚Äď real√ßou a propriet√°ria do caf√©, quase como numa cr√≠tica pela aus√™ncia do mo√ßo, quando os pais, mais do que nunca, precisariam do seu aux√≠lio para, a seguir, solid√°rios e em fam√≠lia,  apanharem os cartuchos vazios depois da passagem da √ļltima labareda. Era o que todos tentavam fazer, o levantamento dos preju√≠zos, a fim de avaliarem o que, da√≠ em diante, poderia ser feito, ou n√£o. Um recome√ßo, pelos vistos estava fora de quest√£o para o dono dos frangos.
          -Foi passar uns dias com o irm√£o. V√™m todos para a festa da padroeira, para o final da outra semana.
          -Bem me parecia ‚Äď acrescentou ela -. H√° dias que n√£o vejo nem sequer a mota no largo. N√£o tem vindo aqui.
          -V√™m depois do meio do m√™s.. V√™m todos.
          -E que festa!... ‚Äď murmurou numa ironia triste a dona Celeste, enquanto levantava a lou√ßa da mesa e se dirigia, atr√°s do balc√£o, para o resto das suas tarefas - Uma festa que ter√° lugar semana e meia depois da morte de tr√™s pessoas antes da sua hora...
          -Nunca se viu coisa assim ‚Äď concordou Ant√≥nio Pinto. O diabo tem andado por a√≠ √† solta. Desta vez escolheu-nos para se empanturrar √† nossa custa.
          -A prop√≥sito: j√° pensou no problema que tem entre m√£os?- perguntou Celeste, j√° de regresso √† mesa com mais uma garrafa de √°gua para o cliente e amigo.
          -Qual deles? Tenho tantos neste momento, que n√£o sei para onde me virar!
          -Ora, o alojamento dos ciganos ‚Äď respondeu a mulher, enviesando o olhar para a rua atrav√©s da janela, onde a maioria dos desalojados deambulava, olhando, com ar desconfiado, para tudo e todos, com o medo do desconhecido estampado na cara. Sobretudo as crian√ßas. Estavam, mais do que nunca, inadaptadas ao in√≥spito habitat que haviam sido obrigados a ocupar no meio da noite, apesar de o acampamento, em que talvez tivessem sido felizes, n√£o passasse de uma espelunca a que sempre se houvessem atrevido a chamar casa.
          -J√° pensei, sim. Mas ainda n√£o tenho a solu√ß√£o. Foi a minha mulher que, enquanto recolhia uns farrapos para eles vestirem do fundo das gavetas, me chamou a aten√ß√£o.
          -E deu-lhe alguma ideia? ‚Äď perguntou o dono do avi√°rio morto.
          -Para falar verdade, fal√°mos a√≠ uma coisa ou duas. J√° telefonei ao Padre Fernandes. Eles j√° tinham h√° muito pedido  casa √† c√Ęmara, mas a c√Ęmara j√° vendeu h√° muito aos moradores a habita√ß√£o social. N√£o disp√Ķe de uma √ļnica unidade.
          Em como os ciganos n√£o poderiam ficar ali ao relento, nem poderiam assumir de novo a sua condi√ß√£o de n√≥madas de outros s√©culos, todos concordaram.


                                                                                       XXIX

          -Vai agora come√ßar o jogo do empurra e de argumentos contra os desgra√ßados irem morar para a aldeia. N√£o deve haver por ali ningu√©m que queira ter ciganos como vizinhos, conhecendo-se , como se conhece, o espect√°culo degradante montado por eles em qualquer s√≠tio onde se instalem ‚Äď disse o banqueiro Mateus, habituado a um conforto capitalista desde pequeno, que o levaria a comprar um terreno na Lua s√≥ para n√£o respirar o mesmo ar dos p√©s descal√ßos que haviam sido enxotados da mata pela chama de um isqueiro.
          -Tem raz√£o. E o que ter√° passado pela cabe√ßa ao presidente da junta para ter telefonado ao padre? ‚Äď Ser√° que os vai albergar na igreja? ‚Äď deixou Fausto no ar a interroga√ß√£o, enquanto as quatro personagens, na tela, prosseguiam a sua saga, tendo como pano de fundo uma cortina de fumo que os impedia de ver as labaredas a lamber a floresta mais ao longe.
          -√Č melhor arranjarem mesmo uma solu√ß√£o, antes de eles ocuparem uma casa desabitada ali por perto. Em bom estado, ou em ru√≠nas. H√° tantas por todo o lado, acrescentou o banqueiro. E depois seria um castigo para os donos os porem de l√° para fora. At√© mesmo quando, mesmo legalmente, terceiros v√£o habitar uma casa que n√£o lhes pertence, arrendada ou emprestada, √© como se os donos lhe estivessem a dizer adeus para sempre. H√° rendas com mais de cinquenta anos e de pre√ßos irris√≥rios. Casas onde o propriet√°rio n√£o pode, por lei, p√īr os p√©s no interior. Ainda que saiba que aquilo por dentro est√° transformado num corti√ßo. As ac√ß√Ķes em Tribunal, com dila√ß√Ķes umas atr√°s das ouras e por tudo e por nada, garantem muito pouco ‚Äď continuou Mateus Rosa.
          -E o patrim√≥nio das cidades est√° de facto numa grande ru√≠na ‚Äď concordou Fausto.
          -√Č verdade. O problema vem muito de tr√°s. J√° tem mais de cem anos. Com o congelamento das rendas, os propriet√°rios especulavam nos pre√ßos aquando da celebra√ß√£o de um novo contrato. Era a maneira de fazer face a alguma infla√ß√£o. √Č certo que nesse tempo ela era pouca. Mas se o Estado tivesse feito uma lei que obrigasse √† cria√ß√£o de um fundo financeiro onde todos os im√≥veis arrendados estivessem inscritos e em que uma parte da renda recebida fosse destinada √† conserva√ß√£o desse patrim√≥nio v√° que n√£o v√°! N√£o aconteceu nada disso e o resultado foi a degrada√ß√£o dos im√≥veis. Ficando todo o dinheiro nas m√£os dos particulares, depois de pagos os impostos, o restante foi para gastar. Ou ent√£o os governantes pensaram que a economia ficaria para sempre estagnada como uma po√ßa de √°gua choca e que a inflac√ß√£o n√£o reduzia o dinheiro a patacos com pouco valor como aconteceu em mais de cem anos. Ent√£o depois da entrada do euro, meu amigo, nem lhe conto!
          Domingos e Rita, permaneciam alheados da conversa de Fausto com Mateus Rosa. E para os dois n√£o terem de se inclinar a fim de se verem um ao outro, esta sugeriu a mudan√ßa de lugares.
          -N√£o √© necess√°rio. Isto foi s√≥ um coment√°rio a prop√≥sito do problema que o presidente da junta, e talvez o da c√Ęmara, t√™m em m√£os com os ciganos na rua ‚Äď disse ele antes de se calar.

Continua

PS. Obrigada Nação Valente por me abrir a porta Antigamente os users comentavam mais. Agora é preciso, de vez em quando pedir. Sob pena de o romance ficar inacabado neste mundo virtual.



« Última modificação: Maio 24, 2020, 22:52:39 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #52 em: Maio 21, 2020, 19:26:24 »

Disponível para abrir portas, fazer pontes...estes Domingos e Rita...uff, ali há coisa...
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #53 em: Maio 23, 2020, 22:41:38 »

                                                                                                 31

          -N√£o me digam que os v√£o meter no Centro Paroquial nas instala√ß√Ķes, dos escuteiros? Eles t√™m-nas dividido em casulos. Uma verdadeira colmeia para aconchegar as alcateias com os seus lobitos, escoteiros e exploradores. Os mi√ļdos n√£o iriam gostar nada!...‚Äď alertou a dona do caf√©, de sobrolho franzido e demostrando a sua discord√Ęncia pessoal.
          -Tens raz√£o, Celeste ‚Äď acrescentou a velha Madalena -. Ficaria tudo remexido e sujo.
          -Mas, ao menos para j√°, haver√° outra solu√ß√£o? ‚Äď perguntou o presidente da junta.
          -Se calhar at√© h√° ‚Äď acrescentou Jo√£o dos frangos mortos, como um ilusionista ciente da sua capacidade de tirar um pombo da cartola apesar da desola√ß√£o pela perda sofrida.
          -E qual √©, indagou o presidente?
          -V√£o rir-se. Mas se pensarem bem, est√° a√≠ h√° anos uma casa √† venda a que ningu√©m pega. √Č bastante grande. E se calhar os donos nem se importariam de a emprestar para l√° meterem os ciganos. Pelo menos durante algum tempo.
          -N√£o digas que est√°s a pensar na casa assombrada, Jo√£o!? ‚Äď Exclamou a velhota com espanto.
         -E porque n√£o? ‚Äď perguntou o homem.


                                                                                XXX

          -S√≥ c√° faltava essa, o outro mundo a entrar em ac√ß√£o como mais um actor mirabolante. Voc√™s t√™m raz√£o. Os pobres dos ciganos J√° est√£o a ser enxotados como c√£es. At√© os querem mandar para um lugar mal frequentado, se pensarmos que as almas penadas, ainda que pac√≠ficas, nunca ser√£o uma companhia agrad√°vel. Cheira-me que, al√©m de um osso descarnado de que ainda n√£o tomaram posse, o presente  venha ainda envenenado ‚Äď disse Domingos para os cin√©filos ao seu lado.
          -Tem raz√£o, caro amigo ‚Äď concordou o banqueiro, inclinado de maneira a ter no seu √Ęngulo de vis√£o o rapaz.
          E Fausto, fazendo uma extensa caricatura do assunto, acrescentou:
          -Em qualquer terra do mundo que preze h√° sempre uma mans√£o de cujas paredes escorre assombra√ß√£o. Uma casa assim √© realmente um bom palco para as personagens do al√©m armarem barraca e fazerem das suas. A come√ßar, talvez, por um frio √°rctico no meio da selva africana que resultou do inc√™ndio, um piscar de luzes numa central el√©ctrica, umas bofetadas num crist√£o que lhe deixem na cara, desenhada a sangue, a m√£o demon√≠aca do invis√≠vel. No pior dos casos, uma faca a voar em ondas como uma √°guia de bico adunco para ir pousar, a seguir, com garbo e precis√£o, no peito de um inocente que o maligno tenha escolhido para v√≠tima ‚Äď disse antes da sua gargalhada estridente.
          -√Č isso mesmo. Mas, entre os casulos dos escuteiros, no centro Paroquial, e uma casa assombrada, esta hip√≥tese tem, √† partida, muito mais aliciantes ‚Äď decidiu Mateus Rosa, a quem Rita, a mulher que o ajudava a engelhar a roupa da alcova no hotel e que permanecia calada, alisava a cal√ßa caqui que o homem envergava com pose de aristocrata ‚Äď. Ver o Diabo entrar em ac√ß√£o pode provocar muita adrenalina a quem acreditar, nem que seja s√≥ um bocadinho, nele. No fundo todos acreditamos. Uma vida sem um ou outro apontamento desse reino seria demasiado mon√≥tona na sua regularidade l√≥gica. O absurdo fascina sempre.
          -Ent√£o, vamos continuar a ver o jogo do empurra ‚Äď disse Fausto para os presentes, cada vez mais interessado na trama.

                                                                                            32

          Descartada a possibilidade de In√°cio e a fam√≠lia terem acesso a uma casa da c√Ęmara, a ningu√©m parecia vi√°vel que o acampamento viesse a transferir-se para um baldio, onde gente fugida de um fogo com uma parca roupa de dormir no corpo pudesse colocar umas latas com um toldo por cima na cria√ß√£o espont√Ęnea de mais um bairro de lata. At√© por os pobres ciganos n√£o terem um tost√£o furado no bolso para comprar uma enxerga, ainda que haja sempre uma lixeira com tudo e mais alguma coisa na sua voca√ß√£o de hipermercado dos sem-abrigo.
          -Mas, qual √© realmente a assombra√ß√£o da casa? ‚Äď perguntou Ant√≥nio Pinto, para ver at√© que ponto o seu conhecimento sobre os contornos metaf√≠sicos do caso coincidiam com as vozes do povo. Ao que julgava saber, era o fantasma de um padre a adornar mais uma lenda que fazia parte do imagin√°rio da aldeia, dando assim um vasto contributo para a vertente mais sombria do bucolismo de uma aldeia.
          -Aqui a Senhora Madalena √© que sabe, visto ser mais velha do que n√≥s. Pelo visto, a hist√≥ria j√° √© antiga ‚Äď informou a dona do caf√©, passando a responsabilidade da narra√ß√£o para terceiros insuspeitos como a velha mulher.
          -Ora, sei tanto como v√≥s! A casa n√£o era desta fam√≠lia, que a comprou por tuta e meia, depois de muito tempo em ru√≠nas a seguir ao inc√™ndio. O dono teria sido um padre de uma fam√≠lia rica, que, depois de terem sido roubados da igreja alguns santos, ter√° levado outros para casa a fim de os proteger dos ladr√Ķes. L√°, fez-lhe um altar, alumiou-os com uma lamparina de azeite. Na noite de vinte de quatro para vinte e cinco de Agosto, dia de S. Bartolomeu, n√£o se sabe porqu√™, o altar ter√° pegado fogo, e o padre mais a velhota que lhe cuidava da casa e das batinas morreram queimados.
           -√Č mais ou menos o que eu sei‚Ķ ‚Äď disse Ant√≥nio Pinto ‚Äď. S√≥ falta o pormenor do gato preto desconhecido, que, tr√™s dias antes, rondando em casa em correrias, ter√° miado como um desalmado e como se estivesse a adivinhar a trag√©dia.
          -√Č verdade ‚Äď acrescentaram as duas mulheres ‚Äď. √Č o que contam por a√≠.
          -Mas o pior foi o que veio a seguir ‚Äď continuou a velha Madalena ‚Äď. Quando a fam√≠lia vendeu a casa e os novos donos a reconstruiram, h√° mais de sessenta anos, deram-se conta de que aquilo por l√° era estranho. As luzes acendiam e apagam-se sozinhas, as torneiras abriam-se do mesmo modo, ao ritmo de uma vida invis√≠vel e cheia de caprichos que deixava toda a gente com os cabelos em p√©.
          -Podia ser avaria ‚Äď fez notar o comerciante das aves calcinadas, com algum cepticismo sobres as habilidades do oculto.
          -Podia. O que n√£o podia ser era as coisas estarem continuamente a desaparecer e serem depois encontradas em s√≠tios estapaf√ļrdios. A b√≠blia, que os novos donos tinham aberta no salmo cento e vinte e oito, todas as manh√£s aparecia fechada. Houve quem visse o vulto do que parecia ser o tal padre, de batina e na adega, a abrir a torneira de um pequeno pipo de vinho que se via a correr sem deixar a seguir um vest√≠gio no ch√£o.
          -E o tal  salmo √© para qu√™? ‚Äď perguntou o incr√©dulo homem.
          -Para afastar o mal e vencer os inimigos.
          -Ent√£o o pobre homem deveria pensar que o estavam a expulsar de casa. Ou ent√£o que os novos donos √© que eram os ladr√Ķes da igreja. Tamb√©m me parece ter sido um bom bebedolas ‚Äď brincou Jo√£o, no meio da sua desgra√ßa.
          -N√£o sei. Isto que vos conto foi o que sempre ouvi‚Äď disse seriamente a velha senhora.
          -Mas, antes morar numa casa assombrada do que n√£o ter casa nenhuma. Al√©m de que n√£o acredito em nada disso ‚Äď disse o homem num √≠mpeto de certeza inquestion√°vel.
          -N√£o digas isso! ‚Äď exclamou Madalena - Olha que o Diabo existe mesmo. Nesta altura anda bem por a√≠ √† solta!...
          -Certo, certo, √© ningu√©m se atrever a meter l√° o p√©. A casa tem h√° mais de trinta anos o letreiro de venda √† porta, j√° debotado pelas l√°grimas do tempo, e ningu√©m a quer comprar pelos dez r√©is que pedem por ela ‚Äď acrescentou Ant√≥nio Pinto, a quem, em princ√≠pio e na sua condi√ß√£o de pol√≠tico n√ļmero um da terra, incumbiria dar guarida aos recentes sem-abrigo, que viviam ao relento havia um bom par de horas.
          Madalena fez men√ß√£o de se levantar para regressar a casa da√≠ a pouco, enquanto todos alinhavam intimamente os pr√≥s e contras do albergue sugerido pelo comerciante como uma fatalidade inevit√°vel:
          ‚ÄúHavia de ser bonito, treze pessoas, praticamente selvagens a viver numa casa com √°gua e luz contadas em intermin√°veis ros√°rios de meses e a terem de as pagar, Bem que l√° cabiam, Para eles, seria um luxo como se estivessem no pal√°cio de um conto das Mil e Uma Noites, de perna cruzada, reis atidos ao trabalho de escravos, Mas talvez os donos prefiram a casa habitada por fantasmas olheirentos, a voar sem p√©s e atravessando paredes, do que ver l√° ciganos tisnados pelo sol de av√≥s demasiado escuros para n√£o serem confundidos com pretos, e para quem a faca e o garfo, de um lado e do outro do prato, ser√° apenas uma in√ļtil coincid√™ncia, Dariam cabo de tudo num instante, N√£o devia ficar um caco inteiro, numa guerra de pratos e contendas de insalubridade, E depois n√£o levaria grande tempo at√© reclamarem por tudo e por nada, como se o mundo inteiro lhes devesse o c√©u e a terra numa mesma bandeja, Por a torneira pingar na insuport√°vel tortura da gota de √°gua, por causa de o esquentador dar o √ļltimo suspiro surripiando a √°gua quente, por as luzes se fundirem como cristais partidos pelos gritos de gente atreita a estardalha√ßos de l√≠ngua, pela falta, na cavalari√ßa, do feno para o Pepe. Enfim, queixas e exig√™ncias por tudo e por nada, Com ciganos ningu√©m faz farinha, Eles fazem o que querem como lhes d√° na gana, Foi um castigo para os mi√ļdos irem √† escola, e nem sempre o faziam, A carrinha tinha diariamente de esperar e os garotos vinham como calhava, remelosos e despenteados, iguais a gatos sem dono, Cheios de piolhos, √†s vezes, a peg√°-lo √†s outras crian√ßas, E a Seguran√ßa Social nunca se atreveu a tirar-lhe os filhos, Era s√≥ o que nos faltava, termos estes vizinhos ao p√© da porta, Depois ainda teria de ser a junta de freguesia a pagar aos propriet√°rios as mesas e as cadeiras que eles haveriam de queimar √† lareira, acesa, se muito bem calhasse, com as p√°ginas da b√≠blia e de outros livros que tivessem ficado esquecidos na casa, depois, ou at√© antes, de queimados os calend√°rios velhos e mirrados nas paredes ap√≥s anos e anos de abandono, At√© as batatas e as couves iriam lavar ao bid√©, E o surro dos p√©s iria escanho√°-lo √† entrada da porta, numa bacia da cozinha, At√© haviam de atirar depois a √°gua de rajada para a rua como na idade das trevas, antes desta coisa dos direitos humanos chamados √† capa quando se trata de ciganos, E depois ainda se queixam que s√£o discriminados, quando eles √© que nos afastam com as baciadas da √°gua e coisas do g√©nero, Raios partam os inc√™ndios e os incendi√°rios que nos deixaram com uma valente batata quente nas m√£os‚ÄĚ - dizia-se e pensava-se por todo o lado, deitando um olho, n√£o no burro, porque ali s√≥ haviam um cavalo, e outro nos ciganos, olhando o perfil de cada um daqueles mi√ļdos que se lhes pudesse porventura impor atrav√©s da porta e da montra do estabelecimento que come√ßara a sua vida √ļtil como uma taberna.
          -Mas l√° ter√° de ser. Ou na casa assombrada, ou noutra por assombrar. O que √© preciso √© tir√°-los da rua o quanto antes ‚Äď disse o presidente da junta, como se, atrav√©s de uma boa solu√ß√£o para aquelas treze pessoas, v√≠timas e problemas simultaneamente, estivesse a jogar uma cartada politica antecipada que lhe garantisse o lugar nas pr√≥ximas elei√ß√Ķes aut√°rquicas.
          -Oxal√° os donos concordem. N√£o vejo outra solu√ß√£o ‚Äď insistiu o mentor da ideia ‚Äď. Mas, antes, parece-me que ter√£o de os alojar por alguns dias nas instala√ß√Ķes dos escuteiros. Assim o Padre Fernandes concorde.
          -E n√£o ter√£o os mi√ļdos tamb√©m uma palavra a dizer? ‚Äď perguntou a vizinha do caf√©, discordando seriamente da solu√ß√£o, ainda que provis√≥ria.
          -Isto realmente √© complicado. Mas, para j√°, h√° um ferido e tr√™s mortos √† espera de quem os leve para a morgue.




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« Última modificação: Julho 15, 2020, 14:32:30 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #54 em: Maio 24, 2020, 19:42:59 »

Mais mortos, n√£o! Basta o covid... Siga o romance!
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Maria Gabriela de S√°
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« Responder #55 em: Maio 25, 2020, 18:56:33 »

continuação...


                                                                                      33

          Telmo, embora n√£o tivesse assistido, ali √† beira da igreja, √†s altera√ß√Ķes provocadas pelo fogo, n√£o tinha sa√≠do do labirinto onde a ressaca o deixara, l√≠quido e sem sombra. Sentia-se a desintegrar. Era como se, a seguir a uma viagem espacial, estivesse a reentrar na atmosfera terrestre, que projectava cada peda√ßo do seu corpo em v√°rias direc√ß√Ķes. E olhando, estilha√ßo a estilha√ßo, essa coisa pulverizada em que se transformara, todos lhe apontavam, com maior acuidade uns do que outros, a necessidade de se livrar daquele estado de zombie em que a longa abstin√™ncia o cuspira, logo √†s primeiras horas do dia. Estava feito ref√©m do seu v√≠cio. Contudo, o mais escorreito dos seus pensamentos aconselhava-o a fazer algo mais objectivo do que esperar pelo regresso da m√£e, ao fim da tarde, com os magros quarenta euros no bolso, que, dada a crescente infla√ß√£o do produto, talvez at√© nem chegassem para a dose di√°ria de uma reden√ß√£o a prazo. O melhor seria, sem demora, ia √† ca√ßa de dinheiro fresco, desacautelado num lado qualquer do mundo. N√£o seria a primeira vez, e n√£o haveria de ser talvez a √ļltima. Por ali, √†quela hora da manh√£, embora n√£o tivesse exacta no√ß√£o do tsunami de que toda a gente sentira as ondas de choque, haveria, com certeza, uma toca desprevenida com a boca escancarada a que pudesse arrancar o beijo salvador do dinheiro.
          A culpa de tudo aquilo era da Marisa. Em √ļltima an√°lise, era do maldito In√°cio, insens√≠vel a s√ļplicas e √† humilha√ß√£o de um homem carente perante uma ressaca galopante:
          -Mais depressa lhe fiava a carrinha com os p√≥los l√° dentro.
          E, depois, o c√£o era s√≥ mais um c√£o. Um dos muitos a andar por a√≠ a chupar ossos das lixeiras e a recolher l√°grimas de gente bondosa, que, no facebook, partilhava as habilidades dos ‚Äúquatro patas‚ÄĚ, escandalizando-se quando eles n√£o s√£o tratados como beb√©s. Al√©m de a lei punir mais depressa quem maltratava animais do que quem abandonava velhos nos hospitais.
          Os dados estavam lan√ßados, n√£o podia fazer regredir o rel√≥gio at√© √†s sete horas da tarde, na v√©spera, naquele domingo quente que trouxera o Diabo consigo. Tinha de avan√ßar depressa. Um furto a mais ou a menos pouco interessava para a sua folha de servi√ßo, mais suja do que um avi√°rio de galinhas, √†s quais, pelo mesmo buraco, saem ovos e outra coisa menos agrad√°vel √† vista e ao nariz. E ele n√£o precisava de nenhum processo kafkiano para saber que, em casa e nas redondezas, n√£o passava de um rapaz ruivo, metamorfoseado num ‚ÄúRapaz Merda‚ÄĚ e ovelha negra simultaneamente. Ranhosa al√©m de tudo. N√£o era preciso bater mais no ceguinho. O ceguinho j√° atingira o limite da dor, sem necessitar de mais espancamentos. Uma ressaca tinha, para qualquer um, a for√ßa de um dil√ļvio. E ele s√≥ a podia enfrentar cedendo √† chantagem que o aprisionava, enquanto lhe apetecia trepar pelas paredes.
Seriam nove e meia da manhã, a passar, quando, apalpando as calças de ganga, as vestiu atabalhoadamente, juntando-as à t-shirt que nem se dera ao trabalho de despir horas antes, quando se arremessara na cama como um trapo decadente e sem horizontes.
           J√° cal√ßado com as sapatilhas, de olhos riscados a vermelho pelo del√≠rio, desceu √† rua em sil√™ncio, um simulacro se si pr√≥prio. Abriu o ouvido aos sons da manh√£, tudo menos pac√≠fica. Provavelmente, a maioria das pessoas estaria fora de casa a espiar a mesma atmosfera carregada dos √ļltimos dias, agora com raz√Ķes acrescidas depois da sua ac√ß√£o de pir√≥mano ressacado ou em vias disso. E, √†quelas horas, quando ningu√©m se atreveria a pensar em ladr√Ķes de m√£os e p√©s de veludo, haveria com certeza uma ou outra casa capaz de lhe untar os dedos com uma boa maquia, se ele tivesse a habilidade de se introduzir nela como um rato esquivo e oportuno. Talvez a vizinha Madalena estivesse na pra√ßa a inteirar-se das not√≠cias do dia. E, assim, facilitar-lhe-ia a tarefa de renovar o seu estatuto de ‚Äúbate-sornas‚ÄĚ, levado a cabo numa hora amarga como aquela, quando conseguir a miser√°vel farinha indutora de boas sensa√ß√Ķes era mais vital do que respirar um gr√£o de oxig√©nio. ‚ÄúBate-sornas‚ÄĚ era como, na linguagem policial, se designavam os ladr√Ķes de reformados. Sobretudo quando espoliados de um magro pec√ļlio, num banco de jardim, por entre um jogo de sueca ou da malha arremessada no s√≠tio certo para garantir a vit√≥ria. O que precisava era mesmo de alimentar o monstro, sosseg√°-lo com um grama de salva√ß√£o tempor√°ria, ainda que cortado por zurrapa de m√° qualidade num laborat√≥rio improvisado num v√£o de escada.
          Numa expectativa de sucesso, entrou, com ar decido, na f√°brica dos venenos que intervieram na morte do c√£o, a arrecada√ß√£o da casa onde morava. Da√≠ passou para o quintal, com ar de quem tem a√≠ alguma coisa, decisiva para a Humanidade, a fazer. Atravessou a seguir o carreiro junto aos talh√Ķes das batatas j√° arrancadas, dos feijoeiros e dos p√©s verdes dos tomateiros j√° amarelecidos pelo calor. De nariz no ar, farejava as portas e janelas das traseiras de todas as habita√ß√Ķes, a ver se havia espi√Ķes atr√°s das cortinas que lhe abortassem os planos s√≥ com o olhar.
          A velhota era uma mulher com perto de oitenta anos. Costumava esconder os euros do regime n√£o contributivo que lhe chegavam por vale do correio atr√°s de uma das mil e uma r√©plicas da ‚Äú√öltima Ceia‚ÄĚ pendurada numa parede do quarto, onde dormia sozinha na sua viuvez de anos e embandeirada de luto √† moda antiga.
          Olhando de um quintal para o outro, ao cimo das escadas cont√≠guas, a porta da cozinha jazia em descanso, encostada √† parede, franqueando-se com inoc√™ncia a uma devassa selectiva em quanto de valor houvesse dentro. De prefer√™ncia dinheiro vivo e saltitante, embora tudo o que vem  na rede de um pescador, se n√£o for uma garrafa com uma mensagem de amor dentro, ou um naco de madeira de um barco naufragado h√° dezenas e anos,  seja sempre  peixe.
          A divis√≥ria de arame dos logradouros traseiros estava rasgada junto ao ch√£o. E, depois de a ter arredado mais um pouco com m√£os resolutas, Telmo assapou-se como os gatos, e foi atrav√©s da rede que penetrou em dom√≠nio alheio, constatando a seguir, como ele previra, que n√£o havia qualquer sinal da velhota dentro de casa.
          Quando regressou pelo mesmo processo, num caminho invertido e sem espinhas, trazia, aconchegados no bolso, um cord√£o de ouro e uns brincos que Madalena guardava no interior de uma gaveta do quarto como um tesouro hist√≥rico. Al√©m de noventa e cinco euros, providenciais para um dia-a-dia que ele acabara de tornar mais dif√≠cil. Entretanto, Jesus Cristo e os doze ap√≥stolos de Da Vinci n√£o poderiam, em nenhum tribunal terreno, ser sen√£o mudas testemunhas de um furto sem nome de autor.
          Em menos de vinte e quatro horas, era o segundo caso de mudez com que se defrontava, numa vida de constantes apuros por causa do maldito money. O primeiro fora o do pobre Litos, de quem n√£o sabia se era vivo ou morto. Nem ele, nem o resto dos ciganos, cujo acampamento quisera mandar para o inferno atrav√©s da chama de um isqueiro transformado instantaneamente num foguet√£o artesanal que mandara tanto fumo para o espa√ßo.
          De regresso √† garagem, sacudiu-se de res√≠duos de ervas secas que se lhe dependuraram no cabelo e na roupa quando passou a veda√ß√£o, agachado como os gatos antes de darem o salto mortal. E, com um sorriso de triunfo, pegou num bid√£o de cinco litros de gasolina, ali guardados para a necessidade de uma mota de est√īmago vazio. Encheu o da sua com alguma tranquilidade, saindo depois pelo lado contr√°rio √† pra√ßa, furtando-se assim aos olhares de ira da igreja e de toda a pra√ßa contra o desconhecido, ainda a monte, de quem ele vestia a pele.




                                                                                       XXXI

           -Vai comprar droga ‚Äď diz Domingos no anfiteatro, com tiques de rapaz impression√°vel pelo ferrete dos dramas, como um cavalo marcado pelo timbre da ganadaria.
          -Um flagelo ‚Äď acrescenta Fausto ‚Äď A droga j√° deu cabo de milh√Ķes de vidas em todo o mundo. Uma verdadeira peste silenciosa que avan√ßa na clandestinidade e em tropel como ratazanas.
          -Al√©m de que o processo de desintoxica√ß√£o √© dif√≠cil e doloroso. Eu sei porque j√° tive um amigo que o tentou e n√£o conseguiu. Morreu de overdose ‚Äď continuou o rapaz, a quem um cigarro para iludir a ansiedade come√ßava a ser indispens√°vel. A al√©m de piedoso. Mesmo antes do intervalo.
          -Embora mais dif√≠cil seja a cura do √°lcool ‚Äď acrescentou Mateus Rosa. Em todo o caso, √© um trabalho de gigantes. Tive um empregado a quem os filhos levaram ao suic√≠dio. Eram dois rapazes. Toxicodependentes em √ļltimo grau. O homem andava sempre a tinir com os empr√©stimos contra√≠dos por causa deles para lhes pagar as d√≠vidas. Fora o que roubavam e traficavam. Como o rapaz do filme‚Ķ At√© que um dia o Al√≠rio n√£o aguentou mais. Estava em casa com a mulher e os dois jovens. Depois de uma discuss√£o por causa de dinheiro, amea√ßou atirar-se da varanda de um sexto-andar, dirigindo-se de imediato para l√°. A mulher, desesperada e aos gritos, ligou entretanto para a pol√≠cia a pedir ajuda. Foi atendida por uma inspectora. Esta, de seguida e rapidamente, tratou de mobilizar uma equipa com pessoas do piquete para tentarem impedir o homem de saltar. Na realidade, era mais para lhe retardarem a ac√ß√£o, porque ele parecia estar decidido. A esposa seria a interlocutora. Tinha de ir fazendo perguntas ao marido, ou repetir-lhe o que os pol√≠cias diziam. Entretanto, foi constitu√≠da outra equipa que de imediato seguiu para o local, cuja direc√ß√£o a inspectora j√° tinha obtido durante o telefonema.
          Quando chegaram, depararam-se com uma papa ensanguentada na rua, e uma multid√£o dividida entre curiosos com coragem para observar espect√°culos dram√°ticos e simples curiosos √† beira do colapso.
Rita, sentada no anfiteatro, no meio de Fausto e de Mateus Rosa, estremeceu os ombros, impressionada com o cenário traçado pelo amante e deu um grito:
          -Que horror!
          -Calma! N√£o te sabia t√£o sens√≠vel!... ‚Äď ironiza ele  para a rapariga.
          -Sou. N√£o posso ver sangue nem agulhas. N√£o percebo como h√° pessoas que usam seringas como quem chupa um rebu√ßado da tosse.
          -Mas agora n√£o est√°s a presenciar nada disso. Est√°s apenas a ouvir o meu relato.
          -Mesmo assim ‚Äď disse ela.
          -S√≥ n√£o percebo como n√£o a legalizam globalmente ‚Äď aponta Fausto ‚Äď. Repito, por todo o mundo. Fazem uma distin√ß√£o fantasiosa entre consumo e tr√°fico, como se um pudesse existir sem o outro!
           -N√£o legalizam porque assim o volume mundial do neg√≥cio √© bem maior. Depois, essas avultadas quantias d√£o para financiar empreendimentos ainda maiores e bem mais sinistros. Como as armas, que, um pouco por todo o mundo, s√£o o adubo das guerras, enxofre e sulfato ao mesmo tempo. Euros e d√≥lares, nas transac√ß√Ķes obscuras da corrente sangu√≠nea da finan√ßa, ficam t√£o mudos como o pobre do Litos. Transitam de um lado para o outro livres como oxig√©nio.
           -J√° agora, azoto ‚Äď acrescentou Fausto. √Č o lado maquiav√©lico da pior inven√ß√£o da humanidade, o Senhor Dinheiro. O que conduz ao Inferno ‚Äď fez notar, acabando por a√≠ o seu  coment√°rio sobre a filosofia do mundo.

Continua

« Última modificação: Maio 25, 2020, 20:18:48 por Maria Gabriela de S√° » Registado
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« Responder #56 em: Maio 27, 2020, 20:11:30 »

O dinheiro é apenas o veículo. Leva-nos para onde merecermos.
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« Responder #57 em: Maio 29, 2020, 14:42:17 »

                                                                    

                                                                         34
          Ainda n√£o tinham decorrido mais do que vinte minutos, quando a velha Madalena regressara aonde h√° pouco haviam estado quatro pessoas a conjecturar provid√™ncias quanto ao pr√≥ximo futuro dos ciganos. Estes, do lado de fora, na pra√ßa, como bot√Ķes perdidos e fora de casa, tentavam aceitar, ainda incr√©dulos, as mais recentes zombarias de uma vida a que o ‚Äúsem eira nem beira‚ÄĚ acabava de aumentar o grau de incerteza.
          No caf√©, j√° s√≥ estavam Celeste e Marisa, a ex-namorada de Telmo, que chegara entretanto. Levada pelos cabelos de fibra do seu telem√≥vel e sentada a uma mesa, onde o rasto da ch√°vena indicava que acabara de tomar caf√©, a jovem parecia estar a viver numa dimens√£o regida por outras leis.
          A velhota estava chorosa, na sua roupa negra de vi√ļva a quem os filhos, em pressas de domingo ao fim da tarde, visitavam de longe a longe. E, mal entrou, disparou uma express√£o aflitiva, t√£o incr√©dula ainda quanto estariam os ciganos acerca da destrui√ß√£o do acampamento e da morte do Manolito.  
          -Fui roubada! Roubaram-me a reforma!
          -N√£o diga!... ‚Äď exclamou Celeste.
          -O que vai ser de mim at√© ao final do m√™s. Nem sequer tenho dinheiro para os rem√©dios! ‚Äď dizia atarantada deitando as m√£os √† cabe√ßa.
          -Mas, foi roubada como? ‚Äď pergunta Celeste, como se duvidasse do tino da mulher quanto ao local da casa onde teria o pequeno banco para as suas necessidades quotidianas. Talvez ela tivesse perdido as coordenadas ao dinheiro e ao s√≠tio onde o pusera.
          -Levaram-me noventa e cinco euros da c√≥moda, no meu quarto. Fui buscar dez para ir √† mercearia comprar uns iogurtes e encontrei-lhe o s√≠tio ‚Äď deu a conhecer, levando a ponta do avental aos olhos, onde uma l√°grima de deixara uma esp√©cie de n√≥doa negra provocada por um soco.



                                                                                         XXXII

           -Coitada. E n√£o foi s√≥ isso. O cord√£o e os brincos tamb√©m se foram ‚Äď suspirou Rita, como se Madalena a pudesse ouvir ‚Äď. Mas pronto, o argumentista l√° deve saber o exacto momento em que dar√° conta do resto. Pobre velhota ‚Äď pensou, olhando para os cabelos brancos da mulher e para o seu ar desvalido de semiabandonada pelos filhos.
          Domingos, apercebendo-se do murm√ļrio da rapariga, n√£o perdeu a oportunidade de acabar com o seu recente  sil√™ncio, e, debru√ßando-se para que ela o pudesse ouvir, acrescentou:
          -Telmo transformou-se num monstro para aquela gente. Atr√°s de uma coisa m√° vem outra, e o dia nem sequer vai ainda a meio.
          Na penumbra da sala, a rapariga anuiu esbo√ßando um sorriso, que depois estendeu a Mateus Rosa como se quisesse evitar um sentimento de ci√ļme ao protector, desencadeado por Domingos, a quem, desde o in√≠cio, lhe pareceu n√£o ser nada indiferente ao jovem. Sobretudo depois do olhar deslavado de Orlanda, que o relegara para o √ļltimo dos seus desejos e o deixara talvez pouco confiante. Incluindo algum desejo que tivesse o sexo como igni√ß√£o semelhante √† que ateara o fogo ao acampamento.


                                                                                             35

         Marisa, at√© a√≠ aparentemente alheada de tudo, manuseando o seu pequeno mundo tecnol√≥gico, mal ouviu falar em ‚Äúroubo‚ÄĚ pendurou os ouvidos com a m√°xima aten√ß√£o na conversa das duas mulheres. Era como se, sobre assuntos daquele teor, tivesse uma s√≥lida opini√£o e firmes certezas, apoiadas umas e outras em factos reais vividos ma primeira pessoa. Na express√£o que lhe assomava ao rosto, desenhava-se um tra√ßo de suspei√ß√£o, uma seta apontando o protagonista mau, o rapaz que durante longos anos fora o seu namorado de juventude e agora apenas  uma lembran√ßa,  mais m√° do que boa.
          A velha Madalena, perdida numa orfandade de filhos vivos e agora sem dinheiro, insistia na sua recente desdita:
          -E agora como irei comprar os rem√©dios para a hipertens√£o e para o cora√ß√£o? Valha-me Nossa Senhora! Tenho de o pedir aos meus filhos. E n√£o queria nada fazer isso. Eles l√° t√™m a vida deles‚Ķ - acrescentou, certa de que o dia-a-dia de qualquer pessoa era um mar de dificuldades em todo o lado.
          Celeste, antes de apontar fosse para quem fosse como o culpado, ainda tentou uma despistagem em que nem ela pr√≥pria acreditava. Por mais que se esfor√ßasse. E, assim, concentrava-se no tino da velhota como o seu pr√≥prio e o mais prov√°vel ladr√£o. Embora o seu sexto sentido a acotovelasse com um nome, que j√° tinha suficientes cr√©ditos firmados na arena do crime. Mas, antes de o lan√ßar ao mundo, de onde nunca mais o poderia tirar sem deixar um rasto de remorso, caso estivesse enganada, olhando dissimuladamente para Marisa, adiantou:
          -N√£o ter√° guardado o dinheiro noutro lugar? √Äs vezes fazemos coisas sem pensar e n√£o nos apercebemos onde as guardamos. N√£o √© a primeira vez que me acontece. E n√£o ser√° a √ļltima. Ou ent√£o gastou-o e nem se lembra!...
          -Em qu√™? ‚Ķ N√£o Celeste! N√£o gastei! Infelizmente roubaram-mo ‚Äď acrescentou convicta, enquanto, com alguma raiva, atrav√©s da janela do caf√©, olhava para o bando dos ciganos como se os quisesse fulminar com os olhos. Nesse olhar estava impl√≠cita a insinua√ß√£o de que algu√©m daquela gente teria, com certeza, a culpa pelo seu infort√ļnio. Ningu√©m lhe tirava isso da cabe√ßa. E disso n√£o iria esquecer-se t√£o cedo. Tanto mais que iria sentir a falta dos seus noventa e cinco euros ao longo do que faltava para o m√™s acabar. At√© receber, de novo, o vale postal de uma reforma miser√°vel, chorada por um dos √ļltimos governos at√© ao c√™ntimo, e como se todos os velhos devessem, a qualquer custo, entrincheirar-se no caix√£o em vida, onde deveriam, por antecipa√ß√£o, esperar o beijo da morte. S√≥ para aliviar os cofres do estado. A velhice n√£o passava de um estorvo. Havia pouca gente capaz de vestir a pele de uma mulher com cerca de oitenta anos como ela e de lhe cal√ßar os sapatos com que caminhara ao longo de uma exist√™ncia dif√≠cil, enquanto criava tr√™s filhos feitos pr√≥digos pela realidade laboral dos tempos modernos.
          -Vai ver que ainda aparecem ‚Äď acrescentou Celeste esfor√ßando-se por tranquilizar a vizinha ‚Äď Quando o meu filho chegar para o almo√ßo, deixo-o aqui um peda√ßo no caf√© e vou consigo procur√°-los.
          -N√£o vale a pena. Foram-se mesmo‚Ķ- disse a pobre senhora em l√°grimas.
          -Mas, se se foram, desta vez os suspeitos do costume n√£o t√™m nada a ver com isso!... ‚Äď afirmou a dona do caf√©, depois de ter entendido demasiado bem  a suspei√ß√£o da mulher,  e enquanto cruzava, de novo, o olhar com o de Marisa, que baixou o seu envergonhada.
          -Ent√£o quem √© agora o mau, ou os maus da fita?
          -Sei l√°!... Mas aqueles ali ‚Äď e apontava para fora ‚Äď desta vez s√£o inocentes. Depois de tudo, principalmente ap√≥s a morte do ciganito, teria l√° qualquer um deles √Ęnimo para coisas desse g√©nero?!
          -Se n√£o √© assim, ent√£o n√£o estou a ver quem possa ter sido‚Ķ
          -S√≥ √© pena que n√£o apare√ßam marcas do dinheiro nas m√£os do autor, umas ros√°ceas de sangue para ningu√©m ter d√ļvidas ‚Äď acrescentou Celeste sem mencionar o nome de Telmo, em quem, desde logo,  pensara.
          -Era bom, era‚Ķ Devia haver um p√≥ qualquer que lhe fizesse isso‚Ķ
          Marisa pagou o caf√© e saiu com asas nos p√©s. F√™-lo aparentemente impulsionada pela brisa de uma mensagem escrita por Nelson, que se lhe mostrara no rosto do telem√≥vel. Embora, depois de a reler, a achasse algo estranha. Da√≠ a nada, iria encontrar-se com o namorado e n√£o quereria, talvez, levar tra√ßados na cara o resto de uma impress√£o capaz de lembrar o ‚Äú falecido‚ÄĚ ao novo namorado. Bem bastava a inseguran√ßa deste, um rapaz comum, com origens noutro continente, intimidado por vezes com a boa figura de Telmo, que ele julgava nunca ser capaz de suplantar no cora√ß√£o de Marisa.
          A rapariga desandou dali sem haver ainda conclus√Ķes sobre a autoria do furto, as quais deixou ao crit√©rio das duas mulheres. Apesar de ter parecido a Celeste que a rapariga partilhava, com toda a certeza, das suas suspeitas.
          J√° sozinha com Madalena, aproximando-se da velhota, a dona do caf√© sugeriu √† vizinha, quase ao ouvido:
          -Se o dinheiro lhe desapareceu mesmo, para mim s√≥ pode ter sido o ex da Marisa, o Telmo‚Ķ Mas por favor n√£o diga que fui eu a dizer isto. N√£o quero problemas com a Susete e com o Abel. Todos eles s√£o meus clientes aqui no caf√©. Al√©m de boas pessoas‚Ķ
         -N√£o me digas!... ‚Äď exclamou Madalena surpresa e indignada, tal como se tivesse ouvido uma blasf√©mia.
         -N√£o √© novidade para ningu√©m, o rapaz tem maus v√≠cios. Diz-se √† boca pequena que, quando esteve aquele ano ou dois longe, em vez de estar em Fran√ßa, como a Susete disse por a√≠, ter√° estado preso em Viana do Castelo‚Ķ
          -E por qu√™? ‚Äď perguntou incr√©dula a v√≠tima.
         -N√£o se sabe muito bem. Por roubo, venda de droga, sabe-se l√° que mais. E, claro, o segredo foi guardado a sete chaves por toda a fam√≠lia. Sobretudo por vergonha. Entretanto, arranjaram uma desculpa para justificar a aus√™ncia‚Ķ Mas, sabe como √©, estas coisas acabam sempre por se saber‚Ķ Escorrem ingenuamente pela mais √≠nfima ranhura do cofre bocal da mais bem-intencionada das pessoas.
          -Eu n√£o sabia‚Ķ A m√£e sempre me falou do assunto como se o rapaz estivesse em Fran√ßa. Mas, sendo assim, se calhar o lar√°pio foi mesmo ele. Raios o partam! Se tiver sido, o Diabo lhe d√™ em dobro as dificuldades que acaba de me criar! E Deus me perdoe se com isto peco!
          -Qual foi a √ļltima vez que viu o dinheiro?
          -Ontem √† noite ainda o tinha. Deve ter sido hoje, depois de eu ter sa√≠do. Andei fora e dentro‚Ķ
          Da√≠ a nada, depois do final daquela dif√≠cil conversa, Madalena regressou a casa para tratar do dia-a-dia, que, apesar de tudo, tinha de continuar.
          N√£o demorou grande tempo, a mulher regressou a com a devastadora actualiza√ß√£o que uma gaveta remexida lhe proporcionou. Numa busca mais minuciosa, constatou ter ficado sem aquela que, depois do marido, fora a melhor prenda de casamento, o cord√£o e os brincos.

                                                  
                           XXXIII

           -E pronto. A mulherzinha j√° sabe da hist√≥ria toda. S√≥ n√£o faz ideia de ter sido atrav√©s do buraco da rede do quintal por onde passam os gatos que Telmo se lhe infiltrou em casa ‚Äď disse  Domingos para  com os seus bot√Ķes ‚Äď. Apesar de n√£o saber da missa a metade ‚Äď continuou. Nem ela nem ningu√©m, a n√£o ser o pobre Litos. Mas esse n√£o seria nunca um problema. Era surdo desde os dois anos.


« Última modificação: Junho 11, 2020, 13:52:01 por Maria Gabriela de S√° » Registado
Dionísio Dinis
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« Responder #58 em: Junho 01, 2020, 16:31:16 »

Continuamos com interesse redobrado.
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Pensar amar-te, é ter o acto na palavra e o coração no corpo inteiro.
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Goreti Dias
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« Responder #59 em: Junho 08, 2020, 18:19:34 »

Nunca confiando num surdo por ele ser surdo!
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Bom dia para todos!
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Ol√° para todos!
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Olá para todos! Espero que estejam bem, na medida do possível!
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Ol√° Margarida. Seja bem aparecida.
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Boas!
Fevereiro 10, 2020, 19:37:51
Boa noite!
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Oi pessoal. FigasAbraço
Janeiro 27, 2020, 20:16:38
Boa noite a todos
Janeiro 15, 2020, 17:52:14
Boa tarde a todos
Janeiro 10, 2020, 14:03:15
Boa tarde a todos
Janeiro 06, 2020, 14:46:26
Boa tarde a todos
Janeiro 01, 2020, 20:02:37
Bom ano feliz para todos.
Janeiro 01, 2020, 10:32:02
Bom Ano!
Dezembro 18, 2019, 16:48:08
Boa tarde!
Dezembro 06, 2019, 20:13:01
Boa noite feliz para todos
Dezembro 02, 2019, 21:57:04
Boa noite feliz para todos.
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Boa noite feliz para todos
Dezembro 01, 2019, 18:52:15
Boa noite!
Novembro 29, 2019, 20:32:37
Boa noite feliz para todos.
Novembro 29, 2019, 17:37:17
Boa tarde!
Novembro 29, 2019, 17:35:53
Boa tarde a todos!
Novembro 12, 2019, 18:18:18
um abraço para a administração, para quem dinamiza este espaço, seja como escritor, como leitor, como comentador.
Novembro 12, 2019, 18:15:54
margarida, plenamente de acordo.
Novembro 11, 2019, 11:31:31
Bom dia. Se todos fizerem igual, n√£o h√° coment√°rios.
Novembro 09, 2019, 14:53:10
Oi Dion√≠sio. Obrigado pelo teu coment√°rio. Desculpa eu ser relapso a fazer muitos coment√°rios. Evito-os, para n√£o  louvar uns ou criticar outros. Prefiro ficar na minha, ficar no que me parece. O meu principio geral: escrever, quem l√™ l√™, quem n√£o l√™ n√£o l√™. Ponto. Leio poesia d'outros, m
Novembro 01, 2019, 14:41:40
Boa tarde  todos. Os que est√£o e os que vir√£o.
Outubro 31, 2019, 14:58:38
Parabéns, Figas. Parabéns a todos os que lêem e que escrevem, parabéns a todos os que partilham escritas e comentários.
 
Outubro 10, 2019, 12:24:06
Bom dia. Hoje, andaei a pastar pelas 351 páginas da poesia e encontrei 32 poemas meus, milionários de leituras. com média de 1209 leituras cada. Obrigado a todos os meus contribuintes de lucros poéticos. FigasAbração, a todos. Nota: O Campeão é o Linguagem Decente, com 3692 leituras.Viva a D
Julho 29, 2019, 22:55:56
Olá para todos! Boas histórias e boas escritas!
Julho 02, 2019, 07:05:22
Bom dia!
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